31 de março de 2011

FADO

No Bairro Alto, na Alfama,
As almas rolam ladeira abaixo,
Sob o fardo das dores que carregam,
Pelos desacertos do coração que ama,
Como se a música que fala de desenganos,
De perdas, de tristezas, de saudades, 
José Malhoa, O fado, 1910,
em pt.wikipedia.org.
Amenizasse um pouco
Do Portugal profundo
Que se perdeu pelos mares do mundo
E agora chora dolente nos versos do fado.



30 de março de 2011

TIDINHO DAS CANDONGAS

Cantídio abriu consultório de búzios fajuto com o único propósito de pegar donas incautas que, por acaso, lá aparecessem com seus problemas sentimentais. Porque o que mais há nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro são donas incautas de corações estropiados.

Porém não se associou a nenhuma entidade, a nenhum orixá, a nenhum santo na armação que aprontaria. É que temia que esse desfrute de baixa extração a estabelecer na praça de Madureira, bem próximo do Mercadão, pudesse despertar a ira de qualquer deles e sua vida se transformasse em uma sucessão de infortúnios, tipo atual território japonês.

Na verdade, Cantídio não acreditava em nada; era devoto incurável, sim, da sem-vergonhice, do canalhismo e do mau-caratismo de todas as tendências.

No entanto, a fim de que desse certo ar de seriedade ao indefensável, comprou livreto com instruções superficiais sobre a atividade que se propunha desenvolver. Haveria de ter um verniz de sabedoria naquela empulhação. Ou não se aprumaria.

Alguns dias depois, já havia mandado imprimir pequenos folhetos, que incumbiu menino de seus quinze anos de distribuir na entrada do Mercadão. Neles, prometia resolver problemas sentimentais de damas e senhoritas românticas que, até então, não tinham encontrado seu príncipe encantado. Não mencionava atendimento a cavalheiros, que não queria ver nem pintados de rosa choque.

O menino, contratado a dois sanduíches de mortadela com guaraná natural, mais passagem e dez reais ao fim do trabalho, começou na sexta-feira pelas oito horas e só deu cabo da tarefa um pouco antes do escurecer.

No primeiro dia, o movimento, pode-se dizer, foi parado. Porém, a partir do segundo, começou a pipocar consulente a cada duas horas, chegando ao fim da semana seguinte com necessidade de agendar atendimento. Era um tal de entra e sai de mulher no seu acanhado consultório, que o porteiro do prédio teve de estabelecer regras, a fim de que a escada não ficasse intransitável.

Sem-vergonha do jeito que era, pensou lá com seus testículos:

- Vou calibrar mais a jogatina de búzios, criar prestígio e depois sair faturando a mulherada. Com o nome feito na praça, vou pegar até a Rainha da Inglaterra, se baixar aqui. Ou não me chamo Cantídio Sampaio dos Reis, o Tidinho das Candongas.

Para não alongar demais nas prosopopeias de que se achava detentor laureado, pode-se dizer que a primeira cliente a ouvir suas inconveniências, uma loura entintada que atendia pelo nome de Naira e era portadora de peregrinas gostosuras, praticava noivado compromissado, há quase dez anos, com o investigador Pacheco, o Pachecão da Invernada de Olaria. Sua consulta versava tão somente sobre a questão do prazo em que iria tomar estado com o agente da lei, pois que já principiava a se achar encalhada.

Cantídio vislumbrou na dita loura, cozinhada em banho-maria por um noivo descansado demais, campo aberto à razia e se deu pessimamente mal, no grau mais alto de pessimamente e no mais grave de mal.

Informado pela noiva das saliências que o jogador de búzios tinha lançado em seus recatados ouvidos, Pachecão entrou naquele antro de descaminhos, sem hora marcada, e só saiu depois de aplicar um corretivo que aprendera fora da Academia de Polícia, nas lides com a vagabundagem, mas que produzia mais efeito que óleo de rícino ou picada de escorpião.

Sobre o que sobrou de Tidinho das Candongas, desmontado que ficou no chão daquela espelunca, Pachecão vociferou, lançando perdigotos para todos os lados, para que a fila de mulheres a descer as escadas ouvisse, num espaço de mais de cinquenta metros e olhe lá:

- Tem prazo de quinze minutos para fechar esta latrina, que a partir daí vou entrar com a volante da Invernada completa, que está doida para um servicinho extra! É só eu chamar pelo rádio que eles chegam num segundo, fazendo valer as dores da lei!

Cantídio apenas teve tempo de recolher os cavacos da cara quebrada e cair no oco do mundo. Iria abrir comércio em outra praça, longe do Rio de Janeiro, onde não encontrasse gente tão estressada e sem o mínimo senso de humor.

Dias após, estava procurando sala para alugar num shopping recém-inaugurado na Rua Dr. Abreu Lima, na progressista Bom Jesus do Itabapoana, distante quatrocentos quilômetros de Madureira, de Pachecão e da Invernada.

As mulheres da cidade o aguardassem com seus sábios conselhos, até um fazendeirão ignorante descobrir suas manjadas armações e descer o braço pesado em seus cornos.

Em reikiyon.blogspot.com.

29 de março de 2011

PODE SER QUE A MORTE SEJA A COMPANHEIRA...

pode ser que a morte seja a companheira...
mas pretendo a vida
essa coisa um tanto compungida
escorregadia
limo em laje de rio
faca de fino fio
que me fende em múltiplos cortes
a cada esquina

certamente a morte será a derradeira...
mas não amiga
prefiro a vida
esta incerta energia em meus tecidos 
Barend Cornelis Koekkoek, Uma carroça numa estrada
do interior. Óleo sobre tela (1843).
e nada mais que isso

e a nada mais aspiro

28 de março de 2011

POESIA ASSIM

Sem mais assim
Uma poesia pousa sobre a folha
E distraída por alguma coisa
Imprecisa
Um tanto permissiva
Um tanto intranquila
Como acontece sempre
Em que ela se avisa
Chegando pela porta não prevista
A poesia que se quis ativa
E não apenas uma emoção furtiva
Impõe-se por si mesma
E exige do escriba que a transcreva
Do princípio ao fim
Como se fosse uma coisa viva.

Imagem em 2mots.fr.

27 de março de 2011

HISTÓRIA DE NOMES


Não falo dos nomes estranhos que, na minha terra, os pais davam para os filhos, porque começaria por mim mesmo. Mas nome é como dentadura nova: acabamos por nos acostumar com ele.
Mas esse é um assunto que sempre pererecou dentro de minha cabeça.
Assim, sem resistir, começo por mim mesmo.
Quando nasci, em 1946 (Lá se vão anos, hem? Ainda bem!), meu pai resolveu chamar-me Saint-Clair, assim com a grafia francesa bem feitinha. Pelo menos, teve o cuidado de saber como se escreve. Na época, fazia sucesso na Rádio Nacional, emissora de radiodifusão que tinha prestígio semelhante ao que hoje tem a Rede Globo de Televisão, um locutor chamado Saint-Clair Lopes. Também havia um redator e ator, cujo nome era Saint-Clair Sena. Meu pai achava o nome sonoro e bonito, por isso resolveu assim me chamar. Tempos depois, já cursando a faculdade de Letras, descobri que na França medieval era comum as famílias adotarem o nome do santo de sua devoção como um dos sobrenomes. Essa atitude tinha a intenção não só de trazer proteção à família, mas também de constituir uma identificação para ela. Se quiserem, é só conferir alguns nomes franceses famosos: Antoine de Saint-Exupéry, autor d’O pequeno príncipe; Auguste de Saint-Hilaire, botânico e naturalista; Camille Saint-Saëns, compositor, pianista e organista.
Em função do nome com essa grafia, fiquei sem almoço por dois dias seguidos, quando tinha lá os meus dezoito anos. Conto-lhes como foi. Fui morar em Bom Jesus com uns tios, para estudar e trabalhar. Arranjei emprego nas oficinas do extinto jornal O Norte Fluminense. O acordo entre meu tio e minha mãe era de que ela mandaria, pelo ônibus que saía às dez horas de Carabuçu, a marmita do almoço, como acontecia com várias outras pessoas. O ônibus, antes de chegar a Bom Jesus, passava pela Usina Santa Isabel, onde desembarcavam passageiros e marmitas. Nos dois primeiros dias do acordo, fiquei sem a marmita e fui-me socorrer com outra tia, a Colola, que me alimentou. Só no terceiro dia é que a marmita chegou sã, salva e fumegante a Bom Jesus, depois que minha esperta mãe resolveu escrever o meu nome à moda da casa: Sancler. Como Saint-Clair, as duas marmitas anteriores tinham ficado na Usina Santa Isabel e só foram recuperadas pelo meu tio Paulo que, lá trabalhando, foi avisado por minha mãe. Ninguém, diabos, sabia de quem era aquela marmita com o nome esquisito.
Meu sogro, do alto dos seus noventa e quatro anos, flamenguista enjoado, tem o nome de Beethoven Neiva (outro dia lhes conto a história de sua família, por causa dos nomes). Mora até hoje em Miracema, onde quase ninguém o identifica se pronunciamos /Betôven/. A maioria das pessoas diz /Betóvi/, alguns /Bertóvi/, outros /Bertold/ e uma em especial o chamava de Betosa Oneida. Quando ele recebe convites de casamento, fica dando risadas de como conseguem lhe escrever o nome de tantos modos diferentes. Coincidentemente com o grande compositor alemão de quem herdou o nome, meu sogro também está bem surdo ou, antes, só ouve o que lhe interessa.
Outro que tinha um nome muito estranho era o seu Dico Hilário, antigo capataz da fazenda do Dr. César Ferolla, no quarto distrito de Bom Jesus do Itabapoana, a vila de Carabuçu, antiga Liberdade. Era ele freguês de caderneta da venda de meu pai, aonde comparecia sempre aos sábados para fazer compras e acertar as contas. Homem corretíssimo nos negócios, cheio de histórias engraçadas para contar, seu Dico Hilário chamava-se, de batismo e certidão, Anaphatalim Hilário da Silva, assim com ph, como se escrevia antigamente, antes da reforma ortográfica de 1943. Depois que saí de lá, nunca mais soube dele. E não me venham dizer que já deve ter morrido, porque meu pai está vivo até hoje, felizmente, com seus noventa e três anos. Gente que morre cedo é que não está muito habituada a viver.
Outro de nome nem tão estranho, no entanto fazia com que ele soasse esquisito. Dirigiu-se à Caixa Econômica para abrir uma conta. O funcionário, Aladir, sentou-se à máquina de escrever (ainda não havia computadores), para preencher a ficha cadastral.
- Sua graça, por favor! – Era assim que, no interior, normalmente se solicitava o nome da pessoa.
- Josafá “pelantiga” Teixeira de Siqueira.
Aladir não entendeu, assim dito com rapidez, solicitou-lhe repetir e o homem disse:
- Josafá “pelantiga” Teixeira de Siqueira.
Mais uma vez, Aladir disse que não havia entendido. O futuro cliente, então, escandiu o nome, acrescentando explicação:
- Josaphat, pela antiga ortografia, com ph e t mudo no fim, Teixeira de Siqueira.
Ah! bom! Assim estava entendido o nome.
Pessoas há, entretanto, que, mesmo parecendo ter um nome mais usual, têm verdadeiro pavor do que carregam como um fardo. Encontrei algumas dessas em meus alunos. Uma era bonita morena ainda adolescente, que não gostava de seu nome Felisbela, e pedia para ser chamada de Bela durante as aulas. O apelido combinava muito bem com sua aparência. Já outra, diferentemente, exigia ser chamada de Linda, ainda que estivesse distante disso, por não gostar de seu nome: Maria Hermelinda. Severino, que depois foi até meu colega na escola onde trabalhava, quando meu aluno pediu a mim e a todos os colegas que lhe chamássemos de Bill. Tive de escrever a lápis, no diário de classe, o apelido, para não me esquecer. Tempos depois, descobri que quase todo nordestino que se chama Severino é conhecido pelo nome americanizado de Bill. Por fim, uma que era ainda mais grave: odiava seu nome, Rosângela. No primeiro dia de aulas na faculdade, disse em alto e bom som para todos:
- Não me chamem por esse nome horroroso. Eu sou a Nina.
E Nina ficou até se formar. Na colação de grau, o mestre de cerimônias, avisado, teve o cuidado de anunciá-la pelo apelido, no momento de receber seu canudo de papel.
Vá lá se entender o bicho gente!

26 de março de 2011

NOITES DE SÁBADO

nas noites de sábado
os bares da cidade ficam repletos de corações vadios
e o ronco dos motores de explosão
são abafados pelos gritos desesperados dos solitários.
os que se fazem acompanhar
apenas iludem a solidão avassaladora
que enche os copos e os corpos.

Toulouse-Lautrec, No Moulin Rouge, 1892,
Instituto de Arte de Chicago.

25 de março de 2011

OS POETAS

Os poetas municipais rimam agora com nunca mais
Rimam meu amor não me arrebente o coração
Com o conteúdo de um pastel de vento
E metrificam versos e sonetos
E produzem espetáculos reluzentes entre quatro paredes

Os poetas estaduais rimam sempre com jamais
Rimam o tempo que flui em minhas veias
Com alguma coisa mais sólida que o ar
E rompem a sintaxe e violentam a lógica
E encenam suntuosas peças de monólogos monótonos

Os poetas federais rimam eternamente com vozes atemporais
Rimam o pesado estar no mundo é minha tragédia
Com a profundidade abissal de um poça d’água no asfalto
E criam neologismos exóticos e produzem sons inesperados
E orquestram concertos de mil vozes harmônicas com gran finale

Imagem em agal-gz.org.
Os poetas universais rimam açúcares com sais
Abacaxi com ananás
Vem cá que eu quero mais
E vão levando a poesia aos píncaros da glória
E faturam polpudos direitos autorais

Esses poetas são do cacete!

24 de março de 2011

VOU SAIR DESSE TROÇO

Tomava o café da tarde numa caneca de ágate aqui e ali descascada, encostado ao caixonete da porta da cozinha, joelho esquerdo ligeiramente projetado à frente, cigarro enrolado na outra mão, quando falou com a mulher, sem rodeios:
- Zefa, vou largar mão desse negócio de fazer mesa e banco, que isso já deu o que tinha de dar.
Havia pensado muito em como abordar assunto tão delicado com a mulher e entrou, assim, de sola, como nos tempos de beque central do Liberdade Esporte Clube. E continuou:
- Agora já vem tudo pronto, muito mais barato do que eu consigo fazer e ainda comprado à prestação. Madeira anda cara e difícil. Tava pensando, aqui com meus botões, que melhor seria a gente caçar rumo pruma cidade grande, que eu não tou vendo mais jeito de sobreviver na vila.
-Que é isso, homem?! Perdeu o juízo? Que é que nós vamos fazer numa cidade grande, com a idade que nós temos? Já passamos dos quarenta! - E pôs certa ênfase na palavra quarenta. E continuou. - Morar aonde? Viver sobressaltado, com medo de tudo? - Espantou-se a mulher, que naquele instante entretia-se em marcar uma toalha de mesa.
- Sou carpinteiro dos bons, mulher! Se esqueceu? Posso muito bem trabalhar em qualquer obra. Cidade grande tá cheia de obra. É um prédio atrás do outro. Lá não falta trabalho pra quem quer. E disposição eu tenho, e você sabe muito bem disso!
- Eu sei, Tonico, mas tenho tanto medo de sair daqui, da nossa vidinha sossegada, tranquila, e ir aventurar em lugar estranho, cheio de gente ruim.
Tonico tinha oficina que trabalhava com madeira: carpinteiro, carapina, marceneiro, não havia função que não exercesse com certa competência. Ultimamente, no entanto, viu o volume de trabalho diminuir drasticamente. A tal da modernidade cobra, por vezes, valor muito alto de certas profissões. Por exemplo, a vila não tinha mais os antigos sapateiros, os tradicionais cocheiros, nem mesmo os necessários barbeiros, com seus salões modestamente montados, o cheiro das loções se espargindo porta fora, a entrar no nariz dos passantes.
Tudo tem seu tempo marcado, e agora chegara sua vez. A vila não mais oferecia meios de sobrevivência para Tonico e Zefa. O carpinteiro de mão cheia, como tinha orgulho de dizer, fora derrotado pelas pinceladas da modernidade que, com seus borrões sedutores, acaba por atingir a mais remota vila perdida no interior do país.
Por essa época, o rádio já despejava sobre aquelas lonjuras os poderosos acordes do roquenrol. E Tonico percebeu que as coisas estavam mudando inexoravelmente. É difícil escapar ileso ao progresso, que facilita a vida de uns e sacrifica a de outros.
Por isso ali estava. Sem perspectivas, ficava matutando possibilidades em terras estranhas, talvez com as mesmas dúvidas da mulher. Apenas não as externava, para não deixá-la ainda mais insegura. No entanto, qual era a saída que se apresentava? O que não podia era ficar esperando as coisas melhorarem. Era como doença ruim: dali, só para pior. E, antes que seus poucos recursos se evaporassem no ar, tinha de procurar novo rumo para suas vidas. Ele era, afinal, o cabeça do casal. Sempre fora e não podia fraquejar exatamente agora.
Já tinha até conversado com o amigo Joanico, durante uma partida de bilhar no bar do Mateus, que ficava pelos lados da Coreia, depois do cemitério, antes um pouquinho de sair da vila, na rua que se bifurcava em demanda ao Jacó e à Vala, direção diametralmente oposta à que tomaria para sair dali. Naquela direção, as coisas só piorariam. O bar do Mateus era o limite máximo que se permitia para o que considerava atraso e retrocesso.
Apesar da opinião contrária de Joanico, que tinha as mesmas ponderações de Zefa, ele já se decidira. Aquilo se havia transformado quase numa obsessão. Conversara com Joanico apenas para trocar ideias, e não ficar dando tacadas, mudo como uma porta. Afinal talvez estivesse jogando com o amigo dileto a última partida de suas vidas. Nunca se sabe. O mundo tem a péssima mania de alterar os itinerários constantemente: atalhos, trilhas e veredas cada vez mais tortuosos e sombrios.  As estradas largas e pavimentadas são para alguns poucos. Para a maioria, restavam os caminhos intransitáveis. Talvez, um dia, até voltasse à vila, mas apenas para visitar parentes e amigos como ele. E ninguém seria capaz de demovê-lo deste propósito.
Joanico ainda tentou uma última cartada, como que a reforçar as ponderações já alinhavadas:
- Pense bem, Tonico! Pense bem, para não fazer besteira!
E foram as frases que ficaram em seu ouvido.
Tonico foi para casa, olhando o desenho impreciso dos paralelepípedos da rua. Falou com a mulher para ajeitar as coisas, dar um jeito na mudança, que o caminhão do Mansur Turco, que era como na vila se chamava o descendente de libanês, não sem protesto veemente dele, já estava contratado para o frete.

Em blogdomenezes.
wordpress.com.
Chorando, Zefa fez o que Tonico pediu. Amarrou a trouxa de roupas, amarrou a cara, fechou as caixas com os teréns, fechou a alma, vestiu-se de roxo semana-santa e ficou aguardando a chegada do caminhão.

Manhãzinha do dia seguinte, tudo em cima do bruto, Mansur no comando da tropa de cavalos aboletada no motor do Ford Gigante, o casal na boleia, o ronco potente a sair pelo escapamento, uma golfada de fumaça escura, e lá vão eles saindo da vila pela estrada que leva ao desconhecido.
Zefa ainda olhou a última casa do seu lado direito, a casa do Dorival, antes de subir o Morro do Marta, enxugou uma lágrima que escorregava dos olhos, quando ouviu a ordem do marido para o motorista:
- Mansur, toca pra não sei onde, que aqui na vila eu não fico mais. Vou morrer à míngua onde ninguém me conheça. Essa vergonha eu não passo na minha terra.
E o motorista, assustado, acelerou ainda mais o Ford Gigante na curva do morro, a exigir do velho motor forças descomunais.
Para trás ficava uma vida sem perspectivas. À frente, apenas uma incógnita, uma vida ao Deus dará.

23 de março de 2011

PROJETOS

sair sozinho e sentar ao vento
ver as gaivotas
e o vazio da tarde

(tudo é tão disperso)

recolher as amostras
dos seres que passam sobre mim
e juntá-las aos meus sonhos
na imprevisível paixão
que me acompanha

Pedro de Payalvo, A hora das gaivotas, em br.olhares.com.

22 de março de 2011

PEQUENAS MISÉRIAS


P. Picasso, La vie, 1903.


A lua à noite deita sua luz de leite sobre o nada.
De minha rede à varanda aconchegado
Conto as estrelas que se salvam no céu.
Da casa mal dormida vem um barulho de criança
E todas as ideologias estão simplesmente soterradas.
Porém na escuridão atônita dos espaços siderais
O homem busca mais sempre mais
Como se não lhe bastassem suas pequenas misérias.


 

20 de março de 2011

VELÓRIO DE CARNAVAL

Com a sem-cerimônia com que sempre viveu, Quincas foi morrer justo no domingo de carnaval deste ano, atrapalhando a fuzarca que, na vila, já se armava. Porém ele, coitado, não tinha culpa nenhuma em seu desenlace. Foi contemplado por um maldito câncer no pâncreas, que o fulminou em apenas um mês. Deste modo, mal comemorou o réveillon, e já entrou nos preparativos para fazer a passagem.
Quem se constrangeu demais, quando soube da notícia, foi o vizinho, João Bagacinho. Não que morresse de amores por ele. Sabem como é vizinho: a convivência, com porcos, cachorros e galinhas circulando por todos os lados, fica sempre sobre o fio da navalha. Mas também não o odiava. Enfim, suportavam-se mutuamente e fingiam ser bons amigos aos olhos dos demais.
No entanto, a notícia da morte trouxe desconforto. É que João Bagacinho já se preparara para o carnaval dentro dos preceitos tradicionais: carvão, carne, cerveja e o grupo musical Só No Sacolejo, liderado por Dirceuzinho do Cavaco, contratado há mais de mês, a peso de comida e bebida a fartar.
Depois, também, estava esperando a chegada de seu filho, Bagacinho como ele, que iria trazer amigos de Niterói, dentre os quais, Guilherme e Márcia, afilhados de casamento do filho. Todos dispostos a curtir o carnaval na vila.
Por volta do meio-dia do domingo, todos em torno da churrasqueira, que começava a fumegar, tem início o velório do Quincas, na casa ao lado.
Antes, cedo, João dera uma passada para falar com a viúva e os filhos, lamentar muito a perda do amigo prestimoso, vizinho exemplar, essas coisas que se dizem num momento como este. Lamentou muito que o falecimento se desse justamente num momento em que todos estavam felizes e cantando pelas ruas, mas o que se há de fazer, a vida é mesmo assim, como se cansaram de dizer compositores populares de todas as gerações. A música brasileira está aí para não deixar ninguém mentir. A viúva, no que precisasse, podia contar com ele. E pensou lá com seus botões, ao falar assim: que, pelo menos, não seja agora, logo na hora da churrascada.
Quando o afinado e barulhento grupo Só No Sacolejo, capitaneado por Dirceuzinho, adentrou o recinto, já trouxe seu bandleader quase aportando em Marraquexe, em virtude do trajeto etílico que percorrera até chegar à casa de João Bagacinho. Entre bares, tendas e biroscas, o caminho comportava quase meia dúzia. E, em cada um deles, o cantor cavaquinista metia goela adentro talagada da cachaça Matinhos, no sistema caubói, vapt-vupt, não sem antes declamar:
                                   Bem no fundo deste copo
                                   Vejo o vulto da minha amada
                                   Vou tomar tudo de uma vez
                                   Antes que ela morra afogada.

Guilherme, testemunha ocular da história, para resumir, disse que foi problema quase insanável controlar os arroubos do grupo musical, que, contrariamente à orientação de João Bagacinho, cantava em altos brados marchinhas, sambas, maxixes, frevos, maracatus e axés, numa mistura de norte a sul de tudo o que a cultura carnavalesca tinha produzido, para o bem e para o mal.

Roda de samba, em
secultjaraguao.blogspot.com.
E era um tal de “se eu morrer amanhã, seu doutor, estou pertinho do céu”, “até amanhã, se Deus quiser; se não chover, eu volto pra te ver, oh, mulher!”, “você pensa que cachaça é água?”, “este ano não vai ser igual àquele que passou”, “não se perca de mim, não desapareça”. Dirceuzinho parecia possuído. E, a toda hora, João Bagacinho a pedir moderação no tom da música:
- Baixe a voz, Dirceuzinho, diminua o som, que a viúva acaba invadindo nossa festa!
Assim durou a função. Na casa ao lado, separada apenas por uma aleia de cerca-pinto, aqui e ali arrombada, os enlutados entoavam hinos, recitavam preces, encomendando a alma também cheia de buracos de Quincas, com contas seriíssimas a acertar lá em cima. Na casa de João, o pau quebrava rente à raiz, voava música para todos os lados, o cheiro de churrasco enchendo o ar.
Morrer no carnaval é um problema: não só atrapalha a festa alheia, bem como põe à prova a boa vontade de São Pedro, que, a todo minuto, tem de interromper seus embalos celestes, para atender aos mal-vindos de sempre.

19 de março de 2011

NÃO ME IMPORTA


Não me importa se a esquerda torta suporte meu verso
Se a direita estreita condene sua rima
Se o socialismo progressista critique meu ego
Ou o fascismo canhestro impeça que se imprima
Se o castrismo obsoleto lhe meta no prego
E o nazismo abjeto odeie seu tema
Assim como o niilismo efusivo
V. Vasnetsov, A princesa que nunca
sorria, séc. XIX.
Lhe mova campanha infamante
Ou que os epicuristas altruístas
Se revoltem num súbito instante
E condenem ou joguem por terra
O que não contiver só prazer
Tanto quanto o marxismo renovado
Ou o velho movimento dadá
Recrudesçam em suas verdades
E o pilhem na próxima estrofe
E lhe quebrem o metro impreciso

Não me importa nenhum referendo
Que não seja apenas aquele
Norteado por quem num momento
Busque apenas sem ânsia sem medo
Preencher seus segundos de tédio
E não tenha a menor compaixão
Se meu verso sirva a isso ou não

18 de março de 2011

SEU ANACLETO


Lucas Cranach, A cortesã e o velho, 1530.
  
 Seu Anacleto soprou com dificuldade a vela sobre o bolo com que comemorava cento e cinco anos. Segurou com a mão a dentadura, para que não acabasse provocando constrangimentos aos convidados.

Entre eles não se encontrava nenhum dos seus sete filhos – quatro mulheres e três homens –, todos já com as almas vagando pelo éter há alguns anos, aporrinhando mesas espíritas, querendo psicografar mensagens que jamais seriam lidas pelos parentes, que tinham mais o que fazer. Nenhum deles sobreviveu àquele homem curtido pelas intempéries da vida.
De sua família, só de neto para baixo. Três mulheres ele já havia enterrado com as devidas pompas. A atual, objeto de seu bem-querer, de vestido encarnando, sessenta anos mais nova do que ele – mais nova até mesmo que alguns netos –, parecia uma pombagira escapada de terreiro, tal o assanhamento com que se comportava.
De presente, pediu que lhe dessem cartelas daquele comprimido azul, de muito boa fama atualmente, ou as garrafadas de treze ervas preparadas pelo João Gregório, herborista de também muito boa reputação. Nenhum dos dois haveria de falhar. Juntasse os dois, ia até derrubar muro de arrimo, que dirá os guardados da mulher.
Foi um escândalo!
Até na rádio, num programa de debates populares, saiu a notícia da comemoração dos seus incríveis verões e de sua saliência extemporânea.
Uns elogiavam sua gana de viver, sua disposição física, sua libido ajudada pela indústria farmacêutica e pela farmacopéia cabocla.
Mas houve uma voz destoante. Um dos debatedores, com visível má vontade, talvez inveja, dizia que já era o momento de seu Anacleto pôr um terço nas mãos, treinar algumas orações, fazer um exame de consciência da maior abrangência possível, pois sua hora estava chegando, seu livro de débito e crédito na iminência do balanço final. E, daquele jeito, ele teria péssimas referências do lado de lá, assim que cantasse para subir.
Como fosse do tempo do cagar de cócoras – na sua fala, “do cagá de coque” -, seu Anacleto usou expressão gasta de muitos anos, para refutar os argumentos do debatedor, rádio ligado no meio da festa:
- Eu quero é rosetar!
Seu Anacleto parecia briguela de teatro de fantoches: roupa larga colorida, a destacar a magreza, os movimentos corporais regidos por hipotético maestro possuído por desvario. Disse para os convivas – os netos e bisnetos constrangidos – que, à noite, haveria reinação. E, dirigindo-se à mulher, com sua voz de taquara rachada:
- Mulher, cuida das partes, que hoje tem!
Ao fim da festa, todos retirados, seu Anacleto foi cumprir o prometido, após ingerir alguns goles do preparado, que reforçou com duas pílulas milagrosas: rezou sobre o corpo da mulher, altar emoldurado por crispados pelos castanhos, a derradeira oração que aprendera em vida, sem medo do amanhã.

17 de março de 2011

EU CONFIO NA PINGA DA ESQUINA

Eu confio na pinga da esquina,
Colhida em ronaldorossi.com.br
Na higiene do sanduba de carne assada
E no ovo colorido do botequim,
No churrasquinho de gato da calçada,
Na firmeza da coroa do meu dente postiço.
Eu confio naquilo e nisso,
Nas coisas mais improváveis de se crer,
Mas é difícil que se creia com firmeza
Nas autoridades que costumam, a cada dia,
Nos jornais, nas revistas, na tevê,
Discursarem como imaculadas virgens,
Garantindo que trabalham com afinco
Para a minha segurança e a de você.
Não confio na polícia que investiga
A polícia que investiga a polícia
Que é investigada e presa
Dentro da própria delegacia
Que fingia que investigava
Aquilo em que investia
O trabalho que pagamos
Para lucrar por baixo dos panos
Com propinas com achaques e extorsões.
Não confio e tenho cá minhas razões
Pelo pouco que as notícias evidenciam.
Eu confio mais na permanência do fio do pavio
Que se queima no rastilho do balão.
Em quem mais devo confiar:
Na polícia ou no ladrão?
Afinal qual dos dois de que lado estará
Ou os dois de que lado estão?
Eu confio mais na pinga da esquina
Ou no pastel frito em óleo saturado
Com recheio duvidoso, mareado,
Que em nossas lamentáveis autoridades
E seu discurso recheado de falácias e ausências.
Tenham a santa paciência,
Pois a nossa se esgotou!

Colhida em livroerrante.blogspot.com


16 de março de 2011

CANÇÃO CONTEMPLATIVA

da janela vejo a chuva que despenca com o outono
não são lágrimas que choro apesar da solidão
a ninguém se destina um gesto de afago
e o olhar penetra fundo no emaranhado das gotas
e das lembranças que se vão perdidas

há apenas um tempo hoje e nada mais

15 de março de 2011

O CORPO EM DELITO

Seu erro foi ter voltado para casa antes do combinado! Pegou o corpo da mulher em delito de fornicação, na cama de seu filho pequeno, com o piloto de chapa quente da lanchonete Blue Horizon, que fica em frente ao local do vitupério.
O maldito foi esquentar a patroa, num momento de ausência de sua pessoa, requisitada que fora para resolver problemas de um tio entrevado lá pelos lados de Italva, Cardoso Moreira, sabe-se lá onde. Antes de chegar ao destino, deu de cara com os maus bofes do rio Muriaé, mais uma vez transbordando de não dar passagem seca para veículo de passeio. Deu meia volta na viatura e chegou mais cedo a casa. Foi o que bastou!

Imagem em piadarts.blogspot.com

Na hora do desatino, deu tiro de garrucha no teto, jogou o colchão no quintal, abriu as janelas e gritou para a rua que estava sendo traído, “que eu vou matar um e outro, que isso, que aquilo”. Enquanto fazia seu teatrinho Trol, o esquentador de sanduíche providenciava repor as roupas e escafeder-se do local do crime, pela porta da frente, os vizinhos já de butucas atentas para se inteirarem do mau passo da mulher.
No dia seguinte, encomendou faixa a um pintor especializado, a qual estendeu diante da casa desmoralizada: “Minha mulher Zoraide me traiu com o f-d-p do Jucilei da lanchonete, na cama de nosso filho menor”. Coisa de sair nas folhas diárias e nas revistas semanais.
Jucilei tirou quinze dias de licença médica no INSS, alegando problemas psicológicos, e Zoraide botou exagerados óculos escuros e chapéu de aba larga, para ir à manicure dar um retoque de francesinha em suas unhas maltratadas.
O marido, Raulino de nome de batismo, o Lino da roda de habitués do botequim da esquina, estava soberbo com seu gesto, como se a faixa estendida diante da casa o aliviasse do opróbrio e da vergonha, ou fizesse estender sobre sua vida indulgência plenária. Entrava no boteco e pedia uma cerveja, como se fosse beber um Pera Manca tinto, tal era a empáfia. Os frequentadores estranharam a mudança de comportamento, mas foram incapazes de comentar com ele. Temiam que fossem contaminados por aquela autossuficiência advinda de fato tão lamentável.
A faixa ficou estendida por quase dez dias, Zoraide entrando e saindo de casa, atrás dos óculos e debaixo do chapéu, e ele com o peito estufado. Porém não se falavam mais. Trocaram de cama e de quarto, porquanto as relações estivessem suspensas a perder de vista.
No entretanto, num sábado escuro de tempestade forte, com vento encanado zunindo na ponta dos postes de energia, a faixa foi para as cucuias. Trovões e raios caindo amiúde, o barulhão roncando na cumeeira, ele correu para a cama da mulher, com o disfarce de um medo que tinha desde o baú da infância, e aproveitou a ocasião para se esquecer completamente da afronta sofrida.
Ela, que não mais vira o tal esquentador de pão com manteiga, porque não voltou a frequentar a lanchonete Blue Horizon, deu o assunto por encerrado e tratou de se embolar com ele, num fuzuê carnal de fazer vergonha.
O pipocar de raios e coriscos, no ribombo dos trovões, mandou todos os pudores na enxurrada que veio a seguir, o filho dos dois dormindo inocentemente no quarto ao lado.
Durante o café da manhã do dia seguinte, no rádio sintonizado na MPB FM, Zeca Pagodinho cantava Casal sem-vergonha, como a sacramentar os acertos ocorridos, entre os lençóis, na véspera.

14 de março de 2011

AS PRENDAS DO LAR

a dor extrapola o corpo
e atinge os móveis os lustres
e demais apetrechos domésticos
na casa semivazia.
a gota de azeite contém a lágrima da cebola cortada
e o paladar azedo do vinagre.
na sala suja os móveis revirados
as peças de porcelana na janela angustiada
as roupas encardidas.

(Em nomedopoema.blogspot.com)
os mesmos trastes espalhados pelo quarto.
diante dos espelhos as velhas faces enrugadas
lamentam os dias findos e os amores inconclusos
– farelos de casca de pão pela mesa das lembranças.
por detrás da persiana do quarto
alguns soluços e insônia
quando muito pesadelos.
nem mesmo a noite vem pressurosa
com seus presságios ou segredos.
a se concretizar
apenas o catarro amarelado
no fundo do urinol de ágate.