15 de setembro de 2017

MUNDINHO


Cinco dias por semana, Mundinho trabalhava duro: caixa de banco. Dois dias consumia bebendo cachaça cerveja steinhaeger traçado de cinzano com conhaque de mel fogo paulista chope vinho tinto martini seco rabo-de-galo creme de ovos catuaba com jurubeba do norte genebra underberg com soda pau-pereira limãozinho bagaceira vodka com crush rum com coca-cola campari arak pisco aquavit saquê, dentre outras coisas. De tira-gosto: careta, cusparada, assopro, assovio, estralo de língua, estralo de dedo, rodopio de corpo, muxoxo de preto-velho hum! hum! mizifio!, grito de ajudante de bandido mexicano em películas da Pelmex iahuuuuuu! e um diabo de arroto nojento, puxado das tripas, que ninguém suportava. À distância recendia a alambique, tonel, chão de botequim. Não acendessem fósforo num raio de três metros, sob pena de explodir. Ainda assim, nem ficava bêbado.
Nos fins de semana, sempre pelas redondezas, entornando aqui e ali. Num domingo à noite, final de expediente etílico, caiu na besteira de desembaraçar um arroto caprichado, para arrematar tudo, na porta do bar do Jésus, um mosqueiro como tantos outros. O dito cujo arroto foi tão indecente, mas tão indecente, que Mundinho teve de sair correndo para não apanhar dos demais fregueses.
Chegando à antiga pensão onde morava, no vinte e nove da Pereira da Silva, a língua em forma de gravata colorida até o meio da barriga, só teve tempo de fechar a porta e deixar seus perseguidores do lado de fora.
Se o fígado tinha, até aquela altura, sustentado todas as suas estripulias, o medo foi tão grande que o transformou em abstêmio. Fundou até os A. A. em Bom Jesus do Itabapoana, entrou pros crentes e, hoje, o mais forte que bebe é café coado em coador de pano, bem temperadinho no açúcar mascavo.

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Imagem em daler.ru.
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.

30 de agosto de 2017

AS MULHERES QUE MERECEM SER AMADAS

Que mulheres merecem ser amadas?
As que passeiam com seus cães pelas calçadas
As desalmadas
As que riem por nada
As que transitam suas dores escondidas
As fingidas
As autênticas
Aquelas que sofrem
As que festejam
As que estão à janela vendo a vida passar
As que lutam que labutam que usufruem
As temidas as destemidas
As intelectuais as simplórias
As que oram as que maldizem
As baixinhas as gordotas
As compridas as magrelas
As inditosas anoréxicas
As gulosas
As que não dão bola e portam seus olhares soberanos
As oferecidas
As da hora
As que estão fora do tempo há tanto tempo
As que cuidam dos seus filhos com desvelos
As que tecem teias em seus teares milenares com suas mãos de fada
As índias
As amarelas
As ruivas e as loiras
As negras as mulatas as morenas
As branquelas
E todas as demais restantes delas

Não é assim por nada
Mas toda mulher merece ser amada

Foto do autor.

21 de agosto de 2017

QUADRILHA

Tio Tatão tocava a sanfona. Eu até achava que ele não tocava assim tão bem. Mas tinha a boa vontade de estar ali. O Louro, irmão da minha mãe, batia o pandeiro, com maestria. Seu Alcino, sempre de bom humor, marcava a quadrilha, com comandos também num francês um tanto arrevesado. Embora isso eu só fosse entender algum tempo depois, ao estudar a língua de Balzac e Zola. E eu só queria dançar com a Rosélia, uma menina morena linda, de cabelos lisos, sorriso de dentes branquinhos, irmã dos meus parceiros Romildo e Ronei. Ou com a Marieta, outra belezura de menina, branquinha dos olhos claros, cabelos escuros curtos, irmã dos meus amigos Zito e Ronaldo. Ou com a Ana Maria, outra moreninha linda, magrelinha, olhos verdes, filha do seu Torquato.
Mas acho que nunca consegui tê-las como meus pares fixos durante a dança da quadrilha, pelas festas juninas do Grupo Escolar Marcílio Dias, lá na minha terrinha.
Contudo não me mortificava por isso. Sabia que, ao atender o comando do seu Alcino para trocar de par – “Tour com o par da direita!” –, num dado instante, eu rodopiaria com elas. E me sentiria quase nas nuvens.
Dançar a quadrilha junina era a experiência mais sensual que eu podia experimentar lá pelos meus dez–doze anos. Pegava a mão da menina, passava o braço por sua cintura, chegava meu rosto perto do dela, sentia seu cabelo esbarrar em mim, e de imediato saía do chão da minha escola em Carabuçu e entrava em órbita na vastidão daqueles céus estrelados de junho.
Pelo menos, a timidez produzia essas compensações, para não me deixar ainda mais frustrado. Como eu gostava daquele tempo das comemorações juninas! Jamais faltava aos ensaios, normalmente após as aulas, e ficava ansiando pela magia da grande noite da festa, para cujo sucesso o seu César Felício e o meu padrinho Said, pai e irmão da nossa diretora, dona Olívia, se empenhavam bastante. Armavam barraquinhas, estendiam bandeirolas coloridas, acendiam a fogueira a arder durante todo o decorrer dos folguedos. As professoras ajudavam nas barraquinhas e na preparação dos dançarinos. Lembro-me de Talita, Maria Amélia, Vera, Teresa, Dalta, Maria Clara, moças ainda a quem todos os alunos chamavam de “dona”.
E, enquanto seu Alcino não nos convocava para a exibição de gala da noite, nos púnhamos a correr pelos espaços abertos, soltando traques, fugindo de busca-pés, escapando de estrepa-moleques, detonando cabeças-de-nego. Ou, às vezes, mais sossegados, assando batata doce na fogueira, comendo milho assado, lambuzando-nos de molho de cachorro-quente, tomando refresco de groselha ou até mesmo umas doses de quentão, para aliviar o frio trazido pela noite.
Então chegava o momento da dança! Os meninos, com trajes à moda de caipiras – Não nos sentíamos os mocorongos que podíamos ser. – e as meninas, em seus belos vestidos rodados, quadriculados, e maquiadas como moças da roça em dia de festa, ainda mais belas que nos dias comuns de aula, corríamos para o espaço reservado à dança.
Seu Alcino se postava em frente às duas fileiras que se formavam, trilava o apito, para que todos estivessem atentos; tio Tatão puxava o fole; o Louro começava a marcar o ritmo com o pandeiro; e nós íamos sob as ordens do grande mestre de quadrilha desenhando no chão a coreografia ensaiada:
- Balancê em seus lugares!
- Tour com seu par!
- Anavan! Anarriê! Balancê!
- Changê de dame!
- Tour com o par do bisavio!
- Aos seus lugares!
- Preparando para o passeio na roça! Anavan! Olha cobra! É mentira! Evem chuva! É mentira! Cestinho de flor! Tour! Balancê!
E lá ia a quadrilha percorrendo o espaço, marcando o ritmo com a batida dos pés no chão de cimento, cada menino de braço com seu par, as famílias ao lado vendo seus filhos numa felicidade contagiante, e eu quase chegando às nuvens.

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Militão dos Santos, Festa junina (em elrincondeyanka.blogspot.com).
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PS: A quadrilha é uma dança tradicional, trazida ao Brasil pelos portugueses e derivada de uma dança do século XVIII de origem francesa, denominada quadrille. Muitos dos seus comandos permaneceram em francês, o que gerou formas populares adaptadas ao português do Brasil. Assim anavan vem de en avant (em frente!); anarriê, de en arrière; (para trás); tour (pronunciada tur), aqui mantive a grafia francesa, (rodopio); bisavio, da locução vis à vis (cara a cara); changê de dame, de changez de dame (troque de dama!).

8 de agosto de 2017

OTIMISMO DESENFREADO

Qualquer -ismo tem boa probabilidade de se tornar desenfreado, com o passar do tempo e a predisposição do cidadão que o adota. Seja ele de caráter ideológico, alcoólico ou cismático.
Nos campos da ideologia e da manguaça, não há necessidade de comprovação, porque todos estão carecas de ver exemplos por aí. Vou-me ater, então, ao campo da cisma, da pretensão, esta coisa tão humana.

O otimismo é um deles. E se submete às mesmas regras de exagero que qualquer outro, como o pessimismo, o egocentrismo, o machismo e, por que não dizer, o parnasianismo, ainda nem de todo debelado do moderno convívio poético.

Mas tenho notado que estão exagerando um pouco. Aliás, o sero mano (para relembrar a grafia de um candidato do vestibular) é dado à hybris, aquele elemento da tragédia grega que fatalmente leva o herói a erro de avaliação, por desmedida. Estamos chutando o pau da barraca na hybris, apesar de que, desde que o mundo é mundo e o Brasil foi constituído como nação abaixo da linha do Equador, com pequena exceção inexpressiva do ponto de vista geográfico ao norte, colocamos o otimismo na ponta da chuteira e invadimos a área adversária.

Neste ponto, a sabedoria popular já nos tem dado mostras. Senão, é só relembrar aqui alguns exemplos, como o dito popular “Ruim com ele, pior sem ele”. Ora, quem já está avaliado deste modo não pode oferecer nada de bom. Mas nossa concepção chama a atenção de que poderia ser pior. Nesta linha de raciocínio, pior que o pior só o péssimo. Há também “De hora, em hora, Deus melhora”, como se as coisas não estivessem piorando a olhos vistos.

Na língua, há outros exemplos de otimismo, que a gramática resolveu chamar de eufemismo. O exemplo clássico que ouvia dos professores era o da palavra “melhorzinho/a” aplicada à situação de uma pessoa gravemente enferma. Ao perguntar por ela, a resposta que se ouvia com frequência era “Está melhorzinha!”. Quando menino, sempre tinha a ideia de que o doente estava mais para morrer do que para sobreviver, porque daí a pouco ele abotoava o paletó.

Assim também, em relação a “morrer”, a língua registra uma série de torneios verbais para atenuar o sentido básico da palavra, numa espécie de visão otimista do fato: partir desta para melhor, entregar a alma a Deus, virar estrela.

Contudo, por agora, tenho ouvido algumas novas formulações neste sentido, que me têm chamado a atenção.

Um pouco depois desta última eleição municipal, um conhecido meu que concorreu à reeleição para vereador, indagado sobre seu desempenho nas urnas, disse simplesmente que tinha sido “eleito suplente”. Ora, meu caro leitor, ele entrega a alma a Deus, mas não admite que perdeu. É, mais ou menos, como o torcedor do time rebaixado dizer que seu time foi “classificado para a Série B do campeonato”.

Na linguagem da Economia, já fomos surpreendidos com a expressão “crescimento negativo” para significar que o desempenho do país deu retrocesso econômico. Ora, não há, em sã consciência, crescimento negativo: ou se cresce, ou não se cresce; ou se diminui, se decresce. Isto é pior do que os pleonasmos que minha professora primária fazia questão de nos corrigir: sair pra fora, entrar pra dentro, subir pra cima, descer pra baixo; que tanto gostávamos de falar lá na nossa Carabuçu dos anos 50, como se o sentido das ações expressas pelos verbos não fosse cabalmente inequívoco e necessitasse do reforço da expressão adverbial. Ou mesmo esta outra, na mesma linha: crescimento zero. Crescimento zero é o escambau!

Certa vez, levei as ações do antigo BANERJ – o Banco do Estado do Rio de Janeiro – que meu sogro adquirira à sede da empresa no edifício da avenida Nilo Peçanha. Lá, depois de algum tempo examinando aqueles papéis amarelados do tempo, o cidadão engravatado me disse: “O valor de face dessas ações no mercado hoje é nulo”. E o meu sogro perdeu seu rico dinheirinho para o governo do estado. Também a frase dele foi de caráter otimista. Segundo me pareceu, eu deveria ver pelo lado positivo aquele valor de face no mercado. É ter muita cara de pau, não é não?

E assim, de otimismo em otimismo, vamos construindo uma falsa visão de que as piores coisas não são tão ruins assim. Aliás, conforme sejam vistas, podem ser ótimas! Eu posso até ter sido eleito suplente de vereador. E, um dia, após a morte de todos os outros que estão à minha frente, eu assuma a cadeira a que faço jus no legislativo municipal!

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Carlitos (em academiaparaninfo.wordpress.com).

27 de julho de 2017

A MORTE DE UMA ESQUINA

Até a construção de Brasília, não se entendia cidade brasileira sem esquina. Por maior ou menor que fosse, por mais ou menos importante, cidade, para ser cidade, tinha de ter suas esquinas. Havia até um dito, lá pelo meado do século passado, de que se identificava a cidade como brasileira por um bar na esquina e um cartaz da Coca-Cola, com tudo o que isso já trazia de submissão econômica.
Por isso é que, com a construção de Brasília, sem esquinas, dizia-se que a vida na cidade não teria graça, a cidade seria praticamente inabitável. O governo federal, inclusive, teve de oferecer um capilé a mais aos servidores públicos que transferiu para a nova capital. Nenhum deles, que vivia no Rio de Janeiro, cheio de esquinas famosas, se disporia a ir para uma cidade desesquinada. O cala-boca serviu como motivação financeira para muitos trocarem o Rio por Brasília.
Mesmo em Carabuçu, minha vilazinha natal lá no norte do estado, tinha sua esquina especial: era o cruzamento das Ruas Coronel Alfredo Portugal e Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo. Nela estavam as vendas do meu pai, de um lado, e do seu Cirilo Braz, do outro. Em frente à nossa venda, estava o armarinho do João Mestre e, do lado de lá, o do tio Nalim. Contudo, a mais festeira, era a próxima. Ali estavam os bares do tio Tônio Pinto, do Barrosinho, do libanês Mansur Sabino e o armarinho do Enéas Lírio, que depois transformou seu comércio de tecidos em negócio de beberagens e tira-gostos. Até hoje, mudados os proprietários, alterada um pouco a arquitetura, melhorado o urbanismo, com a inclusão de um calçadão de pedestres, a esquina ferve em determinadas ocasiões.
Há esquinas que até ganham nome especial, como em Bom Jesus do Itabapoana dos anos 60 a Esquina do Pecado, na confluência um tanto destrambelhada, fora do esquadro, das ruas Tenente José Teixeira, Vinte e Um de Abril e Carlos Firmo.
Toda esta introdução é para levar o leitor ao meu foco principal.
Quando cheguei a Niterói, em março de 1967, fui morar na pensão da Dona Dinorah, no número vinte e nove da Rua Pereira da Silva. Na esquina desta, com a Moreira César, a trinta metros da pensão, já estava estabelecido de alguns anos o bar do Joaquim e do Zé Português, que se tornaria meu amigo fraterno e colega de pensão e, posteriormente, de apartamento. Desde então e até o início deste ano, o local sempre foi bar. Ao seu lado já houve boate, outro bar, loja de roupas, o diabo a quatro. Mas o bar da esquina resistia ao tempo. O imóvel continua pertencendo ao meu amigo, embora ele não toque mais o empreendimento.
Nessa esquina, apenas o bar era o estabelecimento aberto ao público. Em dois cantos estão prédios residenciais e no último, uma escola pública de ensino fundamental. Assim a presença do bar sempre animou a esquina, onde também havia uma banca de revista e outra de flores. Os frequentadores que, por acaso, exagerassem nas doses e nos belisquetes tinham uma farmácia ao lado onde se socorrer. Vê-se que era um empreendimento muito bem localizado. E a apenas um quarteirão da praia. Certa manhã de domingo de verão, quando bebia lá uma cerveja e vendo a excitação do jovem lusitano João, recém-chegado da Ilha da Madeira, para o serviço de garrafas e copos, disse ao meu amigo Zé Português, patrão dele:
- Zé, se eu fosse o dono da firma, não pagaria salário ao João. O pagamento dele seria curtir as garotas bonitas que por aqui passam em direção à praia.
O João babava ao admirar o desfile sensual das meninas em seus trajes de banho.
Pois muito bem! A última empresa que ali explorou o ponto tinha o nome de fantasia de Bar Fragatas. Espalhando mesas e cadeiras na calçada larga, ganhou o apelido jocoso de Queima-Filme, já que os beberrões ficavam expostos aos olhares dos passantes.
Numa certa manhã, há alguns meses, encontrei o bar fechado, já sem os letreiros. Minha mulher, preocupada, ligou para a casa do Zé e falou com sua esposa, Agostinha, que ficou até mesmo envergonhada de dizer o montante da dívida que os ex-donos do Fragatas tinham com eles. Há muito não pagavam o aluguel e foram despejados, por ordem judicial.
O local, daí a alguns dias, entrou em obras. Terminados os trabalhos, abriram-se as portas de mais uma farmácia de uma rede da cidade. E, o pior, sem nenhum charme, sem nenhum trabalho mais elaborado de arquitetura de interiores que atraia, pelo menos, os olhares dos passantes. A farmácia é feia como purgante para matar lombriga, como a rasgadura da lanceta em postema de bicheira. Eu lá não entro.
A esquina está um deserto! Está morta!

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Imagem em blogdopitako.com.br.

18 de julho de 2017

O SENHOR ESTÁ DE MAU HUMOR HÁ MILÊNIOS


O bom humor do Criador durou até o episódio da maçã. O que, convenhamos, foi por muito pouco tempo! Após uma sentença de rito sumaríssimo, Ele determinou a um de seus oficiais de justiça, célebre por seu pavio curto, a executar a ação de despejo daquela dupla de inadimplentes. Daí para cá, foi uma sequência estarrecedora de punições, maldições, pragas, furacões, terremotos, dilúvios e o escambau. Quando percebeu que havia exagerado, mandou seu Filho como embaixador da boa vontade, da política da boa vizinhança, o qual, no entanto, também perdeu as estribeiras e andou metendo a gurumbumba no lombo de uns e outros que apenas queriam sobreviver à margem do governo, fazendo seus biscates, vendendo suas traquitanas. Mas aí o gênero humano já tinha virado genérico. E nunca mais deu certo.
Hoje, para tentar recuperar a desumanidade, tratamos com pachorrenta benevolência tudo quanto é tipo de bicho, mas nos esquecemos de outra parte substancial do gênero desumano que não tem nem o que comer. Não sei se isso dará certo. Se daqui a alguns anos estivermos prontos para viajar pelo espaço sideral como quem vai a Miracema e Bom Jesus, será, então, que levaremos nossos dessemelhantes humanos ou nossos semelhantes animais? Vi, por exemplo, em Paris, restaurantes que aceitam de bom grado a presença de bichos: Votre pet est bienvenu. Já, pobre, não sei bem se seria recebido com tanta sympathie, como dizem os descentes de Asterix, o gaulês.
E, depois de tanto tempo, parece mesmo que o Senhor nos deixou de lado. Cada um faz o que quer. Cada estado se arranja do jeito que as guerras e as cobiças permitem. Ele não está nem aí para o que sua criação anda fazendo. Até criação de galinha tem mais atenção. Senão, como explicar a duração do conflito entre judeus e árabes até hoje? Reparem que eles são primos – se não forem irmãos – e se digladiam ferozmente por uma terra seca, sem floresta, sem cachoeiras, sem praias paradisíacas – sem um bando de gente corrupta, também –, a qual, lá por volta de dois mil antes de Cristo, um visionário saído de Ur resolveu chamar de Terra Prometida.
O que pode explicar tudo isso, isto é, ser a Terra Prometida aquele areal em torno de uma lagoa de águas mortas, só pode já ter sido a má vontade e o péssimo humor do Criador para com a criatura. Caso contrário, ele teria prometido os verdes campos da Toscana, a aprazível Provença, ou mesmo a costa baiana cheia de resorts de luxo e coqueiros onde pendurar uma rede.
E, pelo que sinto hoje da Natureza – delegada imediata Dele junto ao genérico humano –, posso dizer que não adianta ficarem inventado religiões, a três por quatro, que os Seus maus bofes não se aplacaram e só tendem a piorar. Terremotos, tsunamis, destrambelhamento geral do tempo e do placar de jogo estão aí para não me deixarem mentir.
Quem sobreviver verá!

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Hans Memling, O juízo final; séc. XV (sauvage27.blogspot.com.br).

30 de junho de 2017

FUGINDO DA MORTE

Nascemos já com o compromisso de resistir, de tentar ficar longe da morte, a inominada, a Dama Branca de Manuel Bandeira, que o espreitou, tuberculoso que era, desde jovem até a seu passamento, já com oitenta e dois anos. Eu não fujo à regra. Adentrei os setenta com o vigor da idade, a despeito da avaliação de menoscabo do esculápio que me submeteu a uma prova de esforço nos primeiros dias do ano, numa esteira ergométrica miserenta, e revelou que meu preparo físico é fraco. Não precisava disso. Eu já sabia. Abuso na preguiça, por conta de não haver cardíacos na família. Morremos de câncer, normalmente, ou de diabetes. O que vier primeiro. Sem preferências. Por isso me cuido. Ao meu modo, evidentemente. Tudo porque, como disse alhures, não almejo a paz dos cemitérios tão cedo.
Vou aqui, então, relatar aos amigos as providências, condutas e jeitinhos para adiar o mais que puder a morte, através da explicação de seus diversos torneios vocabulares, a fim de que possa orientá-los em suas vidas. Minha família tem o péssimo hábito de ser longeva.
Vamos a eles.
ABOTOAR O PALETÓ: Não tenho mais paletós. Minto. Até tenho, para cerimônias formais, mas não lhes dou confiança. Aliás vou doá-los, assim que termine este texto. Se não conseguir me desvencilhar deles tão logo, vou arrancar-lhes os botões, a fim de não correr risco de abotoá-los inadvertidamente.
ESPICHAR AS CANELAS: Sou renitente! Não espicho! Tenho o cuidado de sempre manter meus joelhos dobrados, até mesmo quando durmo, no intuito de prevenir qualquer incidente grave.
COMER CAPIM PELA RAIZ: Raiz? Não tenho comido nada. Nem aipim, beterraba, batata, inhame, cenoura. Minha glicose anda saliente, e estou me abstendo de consumir coisas subterrâneas. Todas, invariavelmente, viram açúcar.
VESTIR O PALETÓ DE MADEIRA: Se estou abrindo mão dos paletós de tecido, muito mais confortáveis, por que iria usar paletó de madeira? Seria, inclusive, pouco ecológico. E, também, porque o caimento não fica bem. A madeira não se conforma à minha anatomia um tanto irregular, na parte situada nas imediações do ventre. Se é que me entendem.
PASSAR DESTA PARA MELHOR: Não comprei nenhuma passagem para melhor. Portanto não vou passar para lugar nenhum. Se houver vale transporte para isso, pode ser que eu estude a possibilidade, num remoto futuro. Caso contrário, fico por aqui mesmo: nesta!
VIRAR PRESUNTO: Não fui criado com bolotas, nem nasci em áreas demarcadas propícias, o famoso terroir. A não ser que Carabuçu seja considerado um terroir caboclo! Assim minha carne e minha gordura não se prestam a virar um bom presunto de Chaves, Barroso, Barrancos, Vinhais, Pata Negra, de Parma, dentre outros menos conhecidos. Nem mesmo acredito que sirvam para mortandela.
TER AS HORAS CONTADAS: Não uso relógio desde a juventude. Assim que terminei o curso primário, no saudoso Grupo Escolar Marcílio Dias, em Carabuçu, ganhei um relógio de presente do prefeito do município. Foi o único. Nem sei onde anda mais. Por isso, não conto as horas. Deixo para os mais preocupados com o tempo.
IR PARA A CIDADE DOS PÉS JUNTOS: Como no caso de partir desta para melhor, não comprei passagem. E, ademais, não encontrei tal cidade no planisfério. Nem mesmo o GPS, o Viber ou o Google Maps conseguiram localizá-la. Estou abortando a viagem sempre.
ENTRAR NO SONO ETERNO: Não consigo dormir muito, embora goste bastante. Um pouquinho só, umas oito horas, me bastam a cada dia. Esse negócio de sono eterno não faz minha cabeça. Prefiro acordar sempre no dia seguinte e beber um generoso e fumegante gole de café amargo. Assim também vale para o tal descanso eterno. Como diz o vulgo, prefiro viver cansado, embora aposentado em tempo integral.
ESTAR COM O PÉ NA COVA: Não sou couve, alface ou rúcula, para enfiar o pé em cova nenhuma. Talvez um pouco hidropônico. Sou desenraizado. Plano acima da linha do chão por dois centímetros de sola de sapato ou de sandálias de dedo, que me hão de evitar enfiar o pé na cova. Estou fora!
BATER AS BOTAS: Desde os dezoito anos, época em que servi o glorioso exército nacional, não uso botas. Nem nunca comprei. Já há bom tempo só tenho mocassins, que não servem para bater em nada, nem em ninguém. E, quando entro na areia da praia para fotografar, lá mesmo bato os mocassins na beira do calçadão, para me livrar dos grãozinhos que penetram sem convite.
DAR COM OS COSTADOS NA CERCA: Acerca, sem trocadilho, desta expressão, já me expressei aqui em outra postagem (Clique aqui para ver.). Nem chego perto de cerca, a fim de evitar, se falsear a passada, que eu possa esbarrar em qualquer tipo de cerca, de madeira, bambu, cerca-pinto, arame farpado, ou mesmo e sobretudo elétrica. Minhas costas estão incólumes até hoje.
DAR O ÚLTIMO SUSPIRO: Esta expressão é dúbia. Suspiro é também o nome de um doce muito apreciado, feito de clara de ovo, açúcar e tenras farpelas de casca de limão, que se desmancha na boca milagrosamente, mas que também eleva a taxa de glicose aos píncaros. Quem compra um pacote de suspiros dá qualquer um deles, menos o último, que é justamente o que encerra, enfeixa, potencializa seu derradeiro paladar. Ninguém dá o último suspiro. Eu, por questões já ditas acima, nem compro o pacote. Ainda mais dar o último suspiro! Quanto ao suspiro propriamente dito, esse que movimenta o ar que entra e sai dos pulmões, quero informar que vai bem obrigado. Meu fole anatômico tem funcionado muito bem. Os pulmões continuam livres e desimpedidos. Espero, assim, dar o último suspiro só depois de morto.
Por hoje é isso! Até a próxima encarnação!

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Gustave Doré (1832-1883), Caronte (ilustração para a Divina Comédia; em worldofdante.org).