5 de julho de 2018

PRERROGATIVAS DO UMBIGO AO BALCÃO


Não há nada tão democrático e interativo, quanto encostar o umbigo a um balcão de bar.
Ontem, por exemplo, fui encomendar sanduíches no Ponto Jovem e, enquanto aguardava sua feitura, resolvi beber um chope no Botequim Chalé, exatamente ao lado, já que a lanchonete não vende bebida alcoólica.
Ao entrar, entre pessoas e barris, o garçom que conversava com os outros clientes que já lá estavam abriu espaço no balcão, para que eu também ali encostasse meu umbigo. Era o justo instante em que ele perguntava ao português ao lado se havia bares desse tipo na Terrinha.
Já de posse da minha tulipa sob pressão, de farto colarinho cremoso, servida pelo João e espécie de alvará para me meter em conversas alheias, entrei no papo que se desenvolvia àquela altura.
Daquele lado do balcão do botequim, que fornece um dos melhores chopes de Niterói, tornamo-nos quatro com a minha chegada. Eu e o outro à direita passamos a explicar ao português, que desde 2008 vem uma vez ao ano a trabalho ao Brasil, como se dá o funcionamento das relações num balcão de bar aqui abaixo da linha do equador. Expliquei para ele, com a autoridade de várias décadas naquele ambiente, que é do estatuto dos bares e botequins nacionais, que não se pode beber sem puxar conversa com o vizinho. Garanti-lhe que em todos esses anos jamais bebi um chope ali, sem que puxasse conversa, ou me metesse em conversas já entabuladas. E ninguém jamais estranhou isso, ou fez cara feia em sinal de desaprovação. Ao contrário, todo conversador de balcão de bar é sempre muito bem-vindo a qualquer papo.
É que, em princípio, ninguém está ali debulhando problemas estritamente pessoais, coisas de foro íntimo, confissões inconfessáveis. Os assuntos são sempre de âmbito macro, como na economia que rege o país, e quase nunca chegam ao varejo das lamentações privadas. A não ser que se tenha teor alcoólico muito elevado, capaz de tirar o lacre da discrição e da língua. Por isso é que todos podem meter sua colher de pau nas conversas de balcão de botequim, sem causar constrangimentos, pois elas não têm dono, pertencem ao fundo coletivo das preocupações humanas presentes nesses ambientes. Aliás, bem ao contrário, são públicas e notórias.
Na segunda tulipa do líquido dourado, eu e o lusitano já éramos quase amigos de infância, embora ele seja bem mais novo do que eu. E contei-lhe da minha única visita ao seu país e da minha próxima viagem para lá agora em agosto. Ele disse morar em Alenquer, ao me ouvir dizer que conheci Torres Vedras, onde comemos – Jane e eu – o melhor polvo de grelha, expressão que ele me ensinou, com batatas ao murro que um vivente pode experimentar.
Daí a instantes o jovem que estava à minha esquerda, sumido por alguns minutos, voltou com churrasquinhos no espeto e farofa, que fez questão de compartilhar com todos, inclusive com os garçons que simpaticamente nos atendiam.
O português, ao pegar seu pedaço, que fez rolar generosamente na farofa, reclamou que na sua terra não existe essa iguaria tão brasileira, que minha mãe fazia questão de dizer, para nos incentivar a comê-la, em criança, ser um produto da incomparável cozinha francesa.
Resolvi fechar a conta e pegar os sanduíches na lanchonete. Contudo o lusitano, em prol da amizade lusófona, cavalheirescamente pagou outra rodada de chope para nós, que, antes de levantar o brinde, nos apresentamos, a fim de que ninguém saísse incógnito daquele prazeroso encontro: Mário, o português; eu, papa-goiaba do norte do estado; Fernando, niteroiense; e Marcos, o rapaz do churrasquinho, goiano da capital, com seus erres característicos e uma simpatia quase mineira.
Nó último instante, ao cumprimentar o Mário, assim que saía do bar, ainda recebi uma recomendação veemente:
- Não deixes de tomar um Cartuxa.  É de facto excecional! – com aquele jeito tão lusitano de tirar o P onde o mantemos e de colocar o C de onde o tiramos.

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Bartolomeo Manfredi (1582-1622), Cena de taberna com um tocador de alaúde (wikipedia.org.).

24 de junho de 2018

NOITE ANTIGA

na noite antiga da venda de meu pai
em volta do vidro de pé de moleque
caçadores pescadores trabalhadores rurais
criadores de passarinhos
contam causos caçoam uns dos outros
conversam conversam conversam
o menino ali está bebendo cada anedota
surpreendendo-se a cada história
do domingos peçanha
do joão dutra
do azamor
do aristides lugão
do joão coleto
do antônio/pedro/tião romualdo
do alcino carroceiro
do china
do alcides almeida
do ferreirinha
do todinho
do aristóbulo
do zé carola
do dico hilário
e de tanta gente mais que não cabe
naquela pequena venda
senão na minha memória
na minha teimosa memória de bicho do mato






Casa em ruínas, em São Domingos, Niterói-RJ (foto do autor).

10 de junho de 2018

SAUDADES DO LEITE QUEIMADO


Não sou dado a saudades de coisas, lugares e épocas. Sou mais chegado a saudade de pessoas, de gente. Mas hoje amanheci com saudades de mim, em minha terrinha natal, nos meus verde anos, como diria o poeta romântico. É que vi um programa de viagem gastronômica na tevê, e a linda apresentadora estava tomando leite queimado, num restaurante em Belo Horizonte.
A cena me deixou bem balançado. Só não chorei, porque ainda há um resquício de espírito machão lá no fundo dessa carcaça septuagenária a me mandar segurar certas emoções baratas. Mas que deu vontade verter umas lágrimas, isso deu! Tenho de ser sincero com vocês, pelo menos agora, em que resolvi abordar o assunto.
É que leite queimado, que os mineiros chamam de leite queimadinho, era uma das delícias da minha infância, sobretudo no dias frios do inverno de Carabuçu. Era só a temperatura cair, para que pedíssemos à nossa mãe que nos fizesse aquela delícia, elaborada com açúcar, que se queimava na panela; o leite, que se lançava sobre o açúcar derretido; e a canela em pau, lançada em seguida. Então, eu e meus irmãos tomávamos com cuidado, aquele líquido doce e quente, encorpado e cheio de sabor, para espantar um pouco o frio que entrava pelas gretas de portas e janelas e acabava por penetrar nos ossos e na pouca carne de nossos corpos miúdos.
Por essa época, o inverno em nossa vila costumava ser rigoroso. Já disse alhures que, certa vez, ouvi meu pai responder a uma pergunta sobre a temperatura e dizer que estava em oito graus. Lá fora, pela janela, era possível ver a cerração baixa sobre as casas e os paralelepípedos das ruas.
Hoje já não faz tanto frio. Os especialistas estão cansados de nos alertar sobre  o aumento gradual da temperatura do planeta.
Hoje também, já perdida a infância descompromissada do interior e as boas taxas da saúde geral, o leite queimado que me fazia tão bom gosto na vida é iguaria de que já não posso mais usufruir.
Por isso é que, ao ver a cena em que Mel Fronckowiak, a bela apresentadora do programa, provava maravilhada aquele gosto de infância, inverno e saudades provocou em mim um marejamento incômodo nos olhos. Bem que eu não queria, mas foi meio incontrolável, confesso.
Fui levado de supetão a uma infância que ficou perdida num tempo e num lugar mágico, que a memória, teimosa que só ela, ainda preserva. Para que a vida não pareça de toda sem sentido. E eu possa ter histórias a contar a meus netinhos.

Na casa da mãe (foto do autor).

5 de junho de 2018

ASFALTO & MATO AGORA É TAMBÉM LIVRO



Incentivado e quase exigido pelos amigos Eduardo Pachedo de Campos e Rogério Andrade Barbosa, resolvi juntar alguns contos que posto aqui no blog e publicá-los. Orientado pelo também amigo Hilário Francisconi, trago agora publicamente, pela editora Clube de Autores, ASFALTO & MATO, em formato impresso e em e-book. 
Os leitores que tiverem interesse em adquiri-lo é só se dirigirem ao endereço abaixo.
Espero que gostem.


https://www.clubedeautores.com.br/book/257005--ASFALTO_E_MATO#.WxbgxUgvyUk 

24 de maio de 2018

POEMA SEM FACES


Nas noites de frio
Haja ou não lua no céu
Tomo um cálice de conhaque
Para ver se comovido
Bebo os versos do poeta.
E me distancio sempre
À medida que sorvo os goles.
Não vejo a face da poesia.
Apenas tento compor alguma coisa em desalento
E para isto me bastam
A vontade e o tempo.
Se é poesia o que nasce
Nesses momentos
Bem não sei.
Talvez apenas e tão-somente
Um poema sem faces.

Patos (foto do autor).


17 de maio de 2018

SINGING IN THE BATHROOM

Às vezes, canto no banheiro. E até gosto do que ouço, no pequeno ambiente com acústica favorável. Parece que minha voz de pato esganado melhora um pouco, com o amortecimento da chuva que cai do chuveiro e com a fofura das toalhas de banho.
E, quando canto, não canto nada além dos meus trinta anos. Se tanto! O que minha memória reteve de letras de música são, principalmente, os versos das canções que ouvia em menino. Talvez até Geraldo Azevedo e Alceu Valença, em seus primeiros discos. Ou mesmo Caetano, Chico, Gil, Paulinho, também só no início. Um tanto de  Belchior, Fagner e Ednardo, em seus começos. Depois nada mais retive. Não sei cantar nenhuma canção dos Titãs, por exemplo. Ou da linda Tiê, de que tanto gosto. Nem da Vanessa da Mata, outra minha paixão musical. Ou mesmo da Roberta Sá. Oh, céus!
Por isso é que canto coisas antigas, até mesmo canções de que nunca gostei, mas que ouvia em criança, em Carabuçu, espalhadas aos quatro ventos pelo alto-falante do Narck Pontes. Ou as canções de serestas, que odeio, mas ouvia o Darcizinho cantar pelas ruas e praça da minha vila natal. E também jamais gostei daquele canto empolado, de timbre potente, voz de tenor ou barítono, que nossos cantores populares à época faziam, com raríssimas exceções.
Assim, quando surgiu João Gilberto, com sua voz de pavio de lamparina, achei mesmo que poderia – eu também – me tornar um cantor famoso. Até que ouvi minha voz gravada e não a reconheci. “Esse não sou eu falando!”, disse para o amigo Dalmar, que fizera a gravação num poderoso gravador de rolo de fita recém importado, à venda na Ótica Avenida, onde trabalhávamos. “É exatamente a sua voz!”, informou ele, para a minha total decepção, mas para garantir a qualidade do produto. Não, eu não ganharia a vida cantando, pois aquele não era um gravador qualquer!
Mas, a despeito de todas as provas em contrário, continuei cantando no banheiro até semana passada. E, nessas oportunidades, me vêm à memória canções que ficaram no limbo de nossa música popular, porque, segundo me parece, estiveram entre a velha canção brasileira, cujos últimos intérpretes foram Nelson Gonçalves e Orlando Silva, e a revolução trazida pela Bossa Nova e, logo depois, pela hoje identificada MPB, com expoentes como Gil, Caetano, Chico, dentre os mais badalados. Porém, naquele vácuo lá pelos idos de 50/60, já se prenunciava que a estética da música popular brasileira estava a mudar de cara. Ou melhor, de poesia, de letra. Até então o que se tinha de maior veiculação nas rádios era uma música com temática de cais do porto, de bordel, de paixões por mulheres de vida airosa, para ficar num eufemismo, em que o autor chorava dores de cotovelo irremediáveis.
Tais músicas fizeram a transição entre aquele estética antiga – e de mau gosto, para os meus ouvidos – e a nova MPB. Traziam uma linguagem mais moderna, com novas metáforas, e um ritmo que prenunciava a bossa-nova. E tenho quase certeza que a maioria de meus leitores nunca as ouviu. Menina moça, Mulher de trinta, E daí, Carinho e Amor, Bolinha de sabão, Balanço Zona Sul, Lembranças, Cara de palhaço, dentre outras, e que podem soar velhas para as novas gerações.
Por isso é que continuo singing in the bathroom tais músicas, já que não consegui gravar nenhuma letra das que vieram depois que meu disco rígido natural já estava sem muito espaço livre.

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Imagem em elo7.com.br.

7 de maio de 2018

ATÉ AS FARMÁCIAS!


Preferia a farmácia do Zé da Farmácia, lá em Carabuçu, nos idos dos 60. Hoje, em Niterói (Não sei em outras cidades.), ter necessidade de comprar um remédio é mais um motivo de estresse. É até perigoso você ficar doente, só de tentar comprar um rolo de esparadrapo.
A maioria delas tem filas para atendimento, filas para o pagamento e filas para torrar a paciência do paciente, cliente, usuário, seja lá o que for. Mas paciente cai bem aqui. Você tem de ser paciente, senão acaba se aporrinhando sério. E o que dizer dos preços?
Na farmácia do Zé, por exemplo, que eu frequentava diariamente à cata de gibis e de algum papo, não havia filas. Havia falas, conversas, atendimento humanizado. Embora a injeção de Gadusan na veia, para os males provocados pela gripe, fosse um petardo, o restante eram amenidades.
As farmácias de grandes cidades despertam suspeitas. A cada esquina é uma delas. Estão substituindo bares, restaurantes, postos de gasolina e, pasmem, até lanchonete famosa. Posso dizer que é o comércio mais prolífico das grandes cidades. As pessoas, a cada novo estabelecimento, acendem o desconfiômetro sobre a motivação real que gera tantas farmácias. O povo não está assim tão doente, que precise de tantas delas.
Tenho horror a farmácias! Menos à do Zé da Farmácia, que existia lá na minha vilazinha no norte do estado, onde eu lia gibis e conversava com o Ronaldo, lá uma vez ou outra com o Zé, sempre ocupado com alguma coisa.
Essas daqui parecem dizer que você não tem saída, a não ser que entre numa delas, para comprar aquele medicamento que vai aliviá-lo dos males do corpo, da alma e de lá mais sei o quê.
A farmácia do Zé tinha o cheirinho característico das farmácias pequenas do interior, com seus vapores de manipulação e do esterilizador de seringas e agulhas.
As daqui cheiram estranhamente, embora sejam quase assépticas, insossas e inodoras.
Tenho muito receio destas farmácias!



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