19 de abril de 2018

ANOTAÇÕES DE CARABUÇU



Resultado de imagem para studebaker 51
Studbaker 51 (imagem em auto.howstuffworks.com).
No final dos anos 50 do século escorrido, aconteceu em Carabuçu um acidente que foi transformado em anedota.
Ivo Basílio, dono da minúscula empresa de ônibus da vila, ia para Bom Jesus do Itabapoana em seu automóvel. Como iria sozinho, resolveu dar carona para Nico Dutra, fazendeiro com propriedade na entrada da vila e seu vizinho, e também para seu xará, o subdelegado conhecido pelo apelido de Ivo Saratonga.
O choffeur, como se dizia então, dono de uma visão estrambótica, corrigida por grossas lentes, e reconhecidamente inábil na condução de veículos com motor a explosão, perdeu o controle do seu Studebacker e o precipitou num dos remansos do Rio Itabapoana, ao lado da estrada de terra, de onde o bólido derrapou.
Depois de salvos do afogamento por pescadores ali perto, Nico Dutra entrou a reclamar a perda de suas dentaduras duplas, feitas recentemente pelo Dirceu dentista; e o subdelegado, dos seus óculos de grau.
Indagado pelos curiosos de sempre, que se reuniam nos finais de tarde na esquina das ruas Coronel Alfredo Portugal e Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo, o Ivo motorista justificou a barbeiragem por  ter caído na gargalhada com a pergunta estapafúrdia do seu xará:
- Vocês já orçalo o Reportelesso hoje?
O Repórter Esso era o noticiário de maior audiência e credibilidade da época.
-o-o-o-o-o-
Ferreirinha, da grande família Monteiro, tinha propriedade na curva dos eucaliptos, à margem da estrada que ia até a sede do município. Era produtor de leite e negociante nas horas vagas, como boa parte dos homens da vila, os quais não podiam vislumbrar um bom negócio em qualquer ocasião, sem que dele pudessem tirar proveito.
Ferreirinha, que à época devia ter por volta de quarenta anos, era um homem divertido, cheio de causos a contar, apenas com o intuito de ver seus parceiros gargalharem. Também criava passarinhos, um dos entretenimentos mais difundidos naquela época, agora transformado em crime ambiental, a depender das condições.
Na venda do meu pai, a que sempre ia em busca de uma boa conversa, no meio de uma roda de amigos, tentava fazer negócios com cavalos, bois e passarinhos.
Certa feita, voltando com meus primos da casa de seu Isaque Mestre, que tinha um sítio pelos lados do Elias Nunes, passamos dentro da propriedade do Ferreirinha. Era um caminho mais alongado até a vila, mas nos dava a oportunidade de tomar banho no poço do valão que banhava as terras dele.
Embora fôssemos um grupo de crianças, ele nos recebeu com toda simpatia, nos levou até sua cozinha, ofereceu café com broa e aproveitou para contar casos. Pouco depois, ao sairmos, vi na cocheira um de seus cavalos, que achei meio debilitado, tipo pangaré, e perguntei a ele como estava o animal. Marotamente, nos disse:
- Aqui para nós, está perrengue, meio capenga. Mas, se for para negociar, é o melhor cavalo do mundo!
E deu uma boa gargalhada.
-o-o-o-o-o-
Meu pai tinha um grupo de amigos que saíam à pesca com ele no Rio Itabapoana. O trajeto, de cerca de seis quilômetros, era vencido de bicicleta. Todos tinham a sua magrela.
Normalmente seguiam com ele o Domingos Peçanha, o João Coleto, o João Dutra e o Alcino, dentre outros. Às vezes saíam de madrugadinha, o dia ainda escuro. Acendiam os faróis e pedalavam em meio à neblina, que chamávamos cerração, que, de tão densa, não permitia que se avistasse longe.
Numa dessas vezes, vinham em sentido contrário dois fracos faróis de seis volts tentando romper aquela massa turva. Alcino, sempre muito divertido e gaiato, produziu uma de suas imitações mais fidedignas: a sirene de uma ambulância. E era tão alto o som produzido, que o motorista do veículo jogou o carro para os lados da estrada de chão, a fim de permitir a passagem do comboio que vinha logo atrás da “ambulância”.
E o Alcino, depois, contou essa peripécia às gargalhadas, entre um e outro pé de moleque que comia na venda do meu pai.

5 de abril de 2018

MALDITO PEDESTRE


O governo autorizou, através do DETRAN, a multa a pedestres que atravessarem fora da faixa, já a partir deste ano.
Não quero nem saber como é nos países ditos civilizados. Não me interessa! Estive na Suécia há menos de quatro anos e não vi nada disso lá. Vivo aqui nessa mixórdia chamada Brasil e sou visceralmente contra tal tipo de multa.
Que diabos afinal quer o governo, a não ser arrecadar mais dinheiro do já combalido contribuinte?
O pedestre, dizia Darcy Ribeiro, é o dono da rua, que a cedeu para o trânsito de veículos. A preferência é sempre do cidadão.
É bem verdade que o pedestre deve ter a consciência de atravessar em segurança. E ele sabe discernir o que lhe é favorável, a não ser que seja um suicida. E onde haverá faixas suficientes e próximas ao ponto de interesse para o cruzamento de uma rua?
Se eu sou capaz de escolher o presidente da república, por que não posso escolher onde atravessar a via pública? Não quero que os veículos parem, assim que ponho meu pé na sarjeta, embora exija que eles assim o façam quando eu pisar na faixa. E isto nem sempre acontece. Tenho, às vezes, que forçar a barra para que o motorista freie seu carro um pouco antes da faixa. No meio da rua, contudo, não sou maluco de desafiá-lo. Sei das minhas fraquezas e limitações. Contudo sempre sou responsável por minha integridade física. Tenho meu juízo, assim como todos os demais pedestres. Pelo menos, é isso que imagino.
Agora vem o governo com esta medida odiosa, que visa tão-somente a arrecadação de multas. Então passamos a ser mais uma fonte de renda para um governo voraz, que não se cansa de inventar meios de, cada vez mais, fazer com que trabalhemos em benefício da máquina administrativa, que não oferece o devido retorno em serviços que dela se espera.
Somos acossados por bicicletas transitando sobre as calçadas e até mesmo por veículos nelas estacionados, em total desrespeito ao transeunte.
Não bastou que, há poucos anos, o motorista tenha sido transformado em criminoso, assim que ingira um copo de cerveja e mantenha a direção do veículo. Certo motorista de táxi, inclusive, comentou comigo, durante uma viagem, tal situação, dizendo que o rigor é maior nesses casos, do que no atropelamento de uma pessoa em via pública. Atropelou, mas não bebeu, não é crime. Bebeu um copo de cerveja, não atropelou ninguém, mas foi pego no bafômetro, é criminoso. Alguma coisa está fora da ordem.
Aliás não é só nisso que nosso país prima pelo inusitado.
Maldito pedestre!

Rua Miguel de Frias (foto do autor).

18 de março de 2018

TIRANTE


Tirante o mato crescido
Por baixo já não há erva
Tirante o peso dos ombros
A vida segue de quebra
Tirante o gosto de fel
A língua bem se machuca
Tirante o caos nacional
A política vai turva
Tirante a faca no peito
A vida supre a miséria
Tirante a borra do vinho
O espírito reverbera
Tirante o caco de vidro
Por sob os pés é só pedra
Tirante o que já não presta
É desespero o que resta.



The Clash of the Titans - Gustave Doré
Gustave Doré, A queda dos Titãs, 1866 (em wikiart.org).

2 de março de 2018

SÃO PANCRÁCIO, SANTA ENGRÁCIA

(Para Lucir Moraes.)

Meu assento era quase sobre a asa direita do avião, um pouco para trás. Dali era possível ver a turbina.
A decolagem deu-se naquilo que é uma decolagem em aeroportos nacionais: a aeronave no empuxo máximo, sobre uma pista um tanto irregular, trepidou, resfolegou, mas subiu. A sensação de estar passando sobre costelas no chão abrandou-se tão logo ela atingiu uma altura razoável.
Nunca tive medo de avião. Nem mesmo quando voei, pela primeira vez na vida, num velho turboélice Buffalo, que pareceu chegar batendo asas, no aeroporto aberto numa clareira na selva, na cidade de Puerto Suárez, na fronteira da Bolívia com o Brasil. Aliás, aquilo não era bem um aeroporto, mas tão somente um campo de aviação, como se dizia na minha terra. Faltava-lhe certa dignidade arquitetural para assim ser  considerado. Acho que, no instante em que vimos aquele monte de alumínio modelado a poder de arrebites pousar no chão de terra, sob o olhar apavorado da minha mulher e de uns amigos, a informação do boliviano ao nosso lado, num portunhol fronteiriço, me deu a tranquilidade que levaria como divisa por toda a vida em tais situações, mas que iria ser posta à prova anos depois:
- Estadísticamente es el avión que menos cai.
Como fomos levados sãos e salvos a Santa Cruz de la Sierra, pus na cabeça que nenhuma outra máquina voadora mais moderna, nas quais viajei desde então, fosse capaz de me fazer uma desfeita, uma trapaça de mau gosto.
Até o instante em que o comandante anunciou, com indisfarçável acento grave na voz, que a turbina direita entrara em pane. Num átimo, retirei os olhos da revista, olhei pela janelinha acanhada ao meu lado e constatei a informação. Ela realmente parecia inerte.
De imediato os passageiros entraram em pânico. Começou um vozerio confuso, com gritos desesperados e orações suplicantes. Percebi que até ateus convictos começaram a apelar aos poderes celestiais. Eu, por exemplo! Naquele instante sombrio, a fé que perdera no início da idade adulta, como que por milagre, recebeu o que na linguagem cibernética se conhece como refresching: voltou fresquinha à tona. E não tive o mínimo pudor em implorar:
- São Pancrácio! Santa Engrácia! Valei-me! – disse baixinho, para que só os dois santos me ouvissem.
A esta altura da narrativa, é preciso fazer um esclarecimento.
Quando religioso, descobri esses santos ao ler um compêndio de hagiografia antiga e tomei a decisão de que, em minhas agruras e atribulações, para não entrar em pânico, pediria por seu socorro, na hipótese de que, por certamente desconhecidos por aqui, estivessem sempre desocupados para acudir seus minguados devotos, dentre os quais me incluí. E sempre me dei bem enquanto era crente. Portanto não seria naquele exato momento em que eles me faltariam.
E, para garantir que eu não tinha preferência no atendimento, repeti a invocação fazendo uma inversão nos vocativos:
- Santa Engrácia! São Pancrácio! Valei-me! – agora com a voz já ligeiramente alterada, em função dos segundos a menos de vida que vislumbrava, e com acento na forma culta do imperativo verbal, porque me dirigia a santos e não a um zé mané qualquer.
Nesse instante, meu pensamento chegou até minha mulher, que deveria estar cuidando inocentemente de seus afazeres. Eu me esquecera de renovar o seguro de vida! Embora não seja vultosa, a grana poderia até lhe dar a possibilidade de arranjar a vida – dela, evidentemente, já que a minha estava indo pro beleléu –, até mesmo conseguir namorado novo, que com certeza iria dissipar o que eu lhe deixaria. Pensei, então, com certo conforto, que tinha sido melhor assim. Não ia querer minha viúva em desfrute sobre minha memória.
Os passageiros mais próximos de mim berravam apopléticos!
Sempre fui um cara tranquilo, controlado, e, embora a situação fosse de consequências funestas, eu também estava chegando ao descontrole. Contudo não sei de onde surgiu certa lucidez, que me fez gritar com todos:
- Tenham calma! Se vamos morrer, que seja com um pouco de dignidade! E não como um bando de desesperados, parecendo galinhas fugindo de mão-pelada!
Naquele momento não tinha certeza de que mão-pelada comesse galinha, mas foi o que saiu na hora.
Uma senhora de cabelos avermelhados, com a expressão estertorante, gritou comigo:
- Não está percebendo que vamos todos morrer e fica aí querendo compostura da gente?
- Só quero morrer em paz, minha senhora! E não no meio de uma balbúrdia infernal! Isso aqui está virando a antessala do inferno! – falei decisivo.
O avião negaceou um pouco, parecendo carroça com o eixo quebrado, o que fez sacolejar sua carga humana.
E voltei a apelar a São Pancrácio e a Santa Engrácia, enquanto tornei a olhar a turbina, através da janelinha.
Não sei se foi por obra deles ou de algum dos outros santos invocados naquela confusão insana, mas a turbina começou a voltar à vida, no justo momento em que a voz do comandante, já visivelmente aliviada, informou que a pane elétrica fora  superada, inesperadamente e sem explicação plausível, de  modo que o voo continuaria até o seu destino. E em segurança, desejei eu!
O suspiro de alívio generalizado daqueles mais de cem passageiros candidatos a defuntos quase despressurizou o avião. A mulher de cabelos avermelhados logo solicitou à comissária de bordo um copo d'água fresquinho, para diminuir a palpitação.
A tripulação determinou que todos guardassem seus lugares, porque o pior havia passado, e procurou atender os mais nervosos.
Perguntei se havia uísque. Não havia. Queria afogar o nó na garganta com uma boa talagada, mas não foi possível. Tomei em seguida o café quente servido a alguns, o qual me pareceu o mais saboroso que já bebera, e relaxei.
Ao desembarcar, passei na capela ecumênica do aeroporto, para agradecer a São Pancrácio e a Santa Engrácia. Não sei se eles tiveram participação efetiva no conserto da turbina, mas é melhor não duvidar. E, se tiveram, podem estar orgulhosos agora do seu milagre.
Eu iria renovar o seguro de vida. E pedi perdão aos santos por aquele pensamento vexaminoso sobre minha ex-futura viúva. Porque não se pode, até na hora da morte, ser tão egoísta como fui. Ou não veria as faces cândidas de Santa Engrácia e São Pancrácio quando desembarcasse do outro lado da vida.

Imagem relacionada
Imagem em labs.sogeti.com.

16 de fevereiro de 2018

VIAGEM

Vou apontar meu barco para o ontem
Guiar meu leme em direção ao nascente
Lá onde num passado distante
O sol nascia brando sobre a terra
E as noites se enchiam de vaga-lumes estroboscópicos.
Vou encontrar os meus parceiros de outrora
Trocar dedos de prosa
Beber doses de pinga
Com tira-gosto de torresmo e saudade.
Vou encher meu tempo com o nada
E olhar as pessoas sobre as calçadas
Conversando sobre o onde o como e o porquê.
Vou assestar meu rifle contra os corações desavisados
E enchê-los com flores sempre-vivas
As mesmas flores simples que enfeitavam os caminhos
Por onde andava em menino
E vou dizer a todos que o tempo urge
O vento range as portas do nosso passado imortal
Construído sobre esta memória que não se cansa de lembrar.

Barco na Enseada de São Francisco, Niterói-RJ (foto do autor).


31 de janeiro de 2018

MORRA-SE COM UM BARULHO DESSES


Vou chamá-lo seu Gumercindo, para não criar melindres com seus familiares. E trocarei, também, os nomes de todos os demais. Só eu serei eu mesmo.
Pois seu Gumercindo, após o almoço de domingo, cercado pela família numerosa, sentiu uma pontada no peito e foi levado às carreiras para a emergência do Hospital do Andaraí, não muito distante de casa.
O médico de plantão percebeu que o quadro não era dos melhores e resolveu interná-lo imediatamente. Parte da família que o acompanhou ficou estacionada na sala de espera, aguardando por notícias vindas lá de dentro. Passado algum tempo, veio outro médico a procurar por familiares do senhor Gumercindo Nascimento, aos quais minuciou a gravidade do seu estado geral, motivo por que resolvera deixá-lo no centro de tratamento intensivo. A enfermeira que o acompanhava anotou os telefones do filho mais velho, para qualquer emergência, e disse que eles poderiam voltar para casa e só retornar no dia seguinte, pela manhã, para notícias atualizadas sobre as novidades do doente e uma possível visita a ele.
No dia seguinte, logo cedo, lá foram três de seus filhos. O mais velho, Roberto, foi autorizado a ver o pai. Ele se paramentou, higienizou as mãos e foi conduzido até o leito em que o pai estava. Chegou próximo a ele, que tinha os olhos fechados, e disse baixinho:
- Pai, é o Roberto. Está me ouvindo?
O velho abriu os olhos e respondeu que sim. Deu as informações ao filho de como passara a noite, pediu que rezassem por ele, sem desespero, e falou que precisava dizer-lhe algo importante, muito importante mesmo. Roberto dobrou-se um pouco sobre o leito, já um tanto apreensivo, a fim de ouvir o que o pai lhe tinha a dizer.
- Filho, quero que você vá até a agência do Banco do Brasil, na Rua Senador Dantas, e procure pelo gerente Ricardo. Acho que não escapo desta e preciso que você faça isso por mim.
- Sim, pai! Pode dizer.
- Procure por ele. Ele é seu irmão.
Roberto pensou não entender, pois a voz do pai não tinha a potência e a clareza costumeiras, e perguntou:
- Como é mesmo, pai?!
- Procure o Ricardo, gerente da agência. Ele é seu irmão, e é preciso acertar as coisas.
Seu Gumercindo e dona Sílvia já tinham ultrapassado as bodas de ouro como casados, tinham cinco filhos – três homens e duas mulheres – e vários netos. Desses, Roberta, filha do Roberto, era a mais velha e já cursava Arquitetura na PUC. Sua vida, a dele, sempre fora devotada à família, com quem gastava seu vasto salário de fiscal de rendas aposentado. Pudera, por isso mesmo, dar conforto material a todos, e sua presença era constante entre eles, apenas interrompida pelas viagens de fiscalização aos mais diversos pontos do estado, a que todo fiscal está sujeito.
Roberto como que não acreditou no que ouvira. E o pai moribundo teve de repetir o pedido:
- Procure o Ricardo, na agência da Rua Senador Dantas. Ele é seu irmão. Precisa acertar as coisas.
Pela cor com que Roberto saiu do centro de tratamento intensivo, seus outros dois irmãos, Regina e Ronaldo, sentiram que a situação devia ser de extrema gravidade.
- Falou com ele? Como ele está? O que você achou? Papai está bem, não está, Roberto? – uma sucessão de interrogações apreensivas.
Roberto não sabia como dizer o que ouvira, mas garantiu que o velho estava em recuperação, embora ainda um tanto debilitado e completamente ligado à parafernália hospitalar. Mas começou cuidadoso.
- Preciso dizer a vocês uma coisa grave. Não é quanto à saúde do papai, mas é capaz de causar um choque em vocês.
Os irmãos se entreolharam apreensivos com que estava por vir.
- Papai pediu que eu vá à agência do Banco do Brasil na Senador Dantas, para falar com um irmão nosso lá. Um tal de Ricardo.
- O quê?! – indagaram ambos com espanto.
E foi lá, no dia seguinte, o Roberto à procura do Ricardo.
De imediato, espantou-se com a fisionomia do irmão, que era da mesma forma de todos. Nem precisaria de teste de DNA. Estava na cara! E mais espantado ficou, ao saber que seu pai tinha outra família semelhante à sua, com outros três irmãos, sendo duas mulheres e o Ricardo, todos com a letra inicial R no nome: Roberta e Rosália. Todos mais ou menos com as mesmas idades, nascidos em anos subsequentes uns aos outros, e já com outros tantos filhos.
A filha mais velha do Ricardo, a Ricarda, era também estudante de Arquitetura da PUC, da mesma sala da Roberta, e sua melhor amiga.
Quando as duas jovens descobriram os laços que as unia, ficaram estremecidas uma com a outra, sem saber o que se dizerem, até que, à medida que os relacionamentos entre todos os familiares se foram estreitando, no período de recuperação do velho Gumercindo, voltaram ao mesmo convívio fraterno anterior.
Seu Gumercindo, ainda no leito do hospital - e antes que fizesse a passagem desta para a melhor -, foi perdoado por suas esposas, seus filhos e netos, motivo que o fez se recuperar por completo, ainda mais celeremente. Confortável com a situação, resolveu promover um almoço de congraçamento, com o beneplácito das mulheres, para que todo o estranhamento se dissipasse.
A festa rolou, todos se divertiram, se confraternizaram, com exceção das duas esposas, que apenas trocaram cumprimentos protocolares ao início da festa, restando cada uma no seu canto do salão, como a que demarcar ainda seus territórios.
Passados seis meses, o coração do velho deu-lhe novo tranco, agora com a potência redobrada, fazendo-o finado, num pequeno átimo de tempo, sem mais essa ou aquela.
O velório foi marcado para o Cemitério São Francisco de Paula, no Catumbi, num sábado à tarde, para onde acorreram todos os membros das duas famílias.
Tão logo o corpo de seu Gumercindo foi encaixado na gaveta que lhe cabia nesse epílogo da vida, dona Sílvia mandou chamar a segunda viúva, dona Otília, aqui nomeada apenas nos estertores do texto, para lhe dizer com todas as letras do alfabeto romano:
- Agora sumam da minha vida! Escafedam-se! Não quero mais saber de ninguém! Desatou-se o elo que nos atava. Está desfeito e acabado! Desapareçam!
Eu estava lá, mas não ouvi a fala desabrida de dona Sílvia. Um dos seus netos me contou depois.
E seu Gumercindo, com o corpo ainda nem de todo frio pelo bafo da morte, deve ter-se contorcido na gaveta apertada em que foi descansar em paz.

Cemitério, Carabuçu-RJ (foto do autor).


21 de janeiro de 2018

BOIADEIROS

Chovia forte, quando os boiadeiros entraram na vila em seus cavalos, após deixar o gado na fazenda do João Monteiro, um pouco antes do Morro do Marta. Vinham pela rua principal, depois de passar pela pracinha em frente à capela de Santo Antônio e se dirigiam à cocheira do Jair Passarelo.
Embora com os semblantes cansados, os cavalos já um tanto alquebrados pela lida, ainda assim, tinham um ar solene. Todos trajavam capa gaúcha e portavam chapéu de feltro de aba larga, barbicacho ajustado na altura do queixo. Eram seis, destacando-se à frente o líder do grupo, cujo cavalo parecia maior que os demais. A chuva forte compunha o quadro que o menino admirava. O líder à frente, e os demais distribuídos pelos lados, um pouco atrás. A água escorria de seus chapéus e de suas capas. As ferraduras produziam um som que se misturava ao tamborilar das gotas grossas a cair sobre o calçamento de paralelepípedo. A não ser por isso e mais um ou outro bufo dos animais, não havia outro som no ar. Eles não se falavam. Vinham em silêncio. Era como se uma procissão equestre, muda, acompanhasse algum falecido ilustre, a merecer quietude respeitosa, naquele fim de tarde escurecida pelo aguaceiro de verão que se precipitava do céu.
O menino estava extasiado diante da cena. Em sua fértil imaginação infantil, aqueles homens pareciam mensageiros de notícias graves. Talvez fossem os Cavaleiros do Apocalipse, de que tanto ouvia falar nas pregações do pároco nas missas mensais na capelinha. Ainda que um frio lhe corresse pela pele, não podia deixar de admirar a solenidade da cena. Alguns anos depois é que a viu reproduzida, de forma bem parecida, em um filme norte-americano sobre o velho oeste.
Aos poucos, a tropa em marcha passou lentamente diante da porta da venda em que ele se encontrava. Seus olhos acompanharam o movimento dos animais levando seus condutores até o pouso final. Um a um, deixaram a rua e entraram na cocheira.
As nuvens do temporal anteciparam a obscuridade da noite – lâmpadas ainda não acesas – e produziram o efeito cinematográfico de fade out em cada cavaleiro a entrar naquele espaço.
E o menino sonhou um dia ter uma capa gaúcha como aquelas, para assumir a solenidade da postura observada em cada um dos cavaleiros que desfilaram à sua frente.
Hoje o menino é um homem idoso. Vivenciou dezenas de anos de sucessivos fotogramas guardados em seu cérebro. Percorreu caminhos diversos, cheios de peripécias e sobressaltos. Andou por montanhas e planícies. Viu povos e costumes exóticos. Encantou-se com cada coisa que descobriu ao longo da caminhada. Mas aquela imagem ficou definitivamente gravada em sua memória, de onde, vez e outra, assoma à realidade do seu quotidiano e o leva de imediato àquele mesmo espaço da infância, àquela mesma cena mágica, cheia de mistérios e magia, diante da porta da venda de seu pai.
Aquele menino sou eu.

Resultado de imagem para capa gaúcha
Imagem em selariagauchauberaba.com.br.