21 de abril de 2017

CHAPÉUS


Tenho tido chapéus e boinas há algumas décadas. Não sou uma pessoa antiga, nem saudosista, embora já entrado em anos, para usar uma expressão eufemística que me alivie a proximidade dos setenta, mas que gosta deste complemento do traje masculino, caído em desgraça, pelo menos, desde a década de 50 do século XX.
Durante bom tempo fazia uso esporádico ou recreativo desses apetrechos, em determinadas circunstâncias. Contudo há cerca de uns cinco anos, comecei a usar chapéu cotidianamente, a fim de tentar fugir da recomendações da minha dermatologista, que me exigiu filtro solar, até sob céu nublado anunciador de chuva. Na oportunidade em que ela me receitou o creme, manifestei meu desagrado em seu uso dada a oleosidade da minha pele. Ela, então, para me deixar sob sua tutela permanente – não poderia jamais em minha vida de branco azedo prescindir dessa proteção – me ofereceu amostra grátis de um apropriado, que só usei no primeiro dia. Assim optei pelo chapéu. É mais elegante – posso até pretender ficar mais bonito, coisa, aliás, difícil de conseguir – e não emplastra o rosto com aquela película gosmenta.
Entretanto devo dizer que fico parecendo um estranho no ninho. A devastadora maioria da população masculina prefere até mesmo uma calva reluzente – ainda não atingi este nível – a um disfarce de tal arquitetura. É verdade que, ao me olhar no espelho, no quesito beleza, não vejo diferença alguma nessa minha estampa que, à medida que o tempo escoa no calendário, vai ficando mais decadente. Porém o que se há de fazer? É isto ou morrer subitamente. Prefiro envelhecer.
Assim, a cada dia, ao sair, encastoo no alto da cabeça um dos meus vários chapéus de panamá comprados por aí. E ponho na cabeça – então lá dentro – que estou protegido de todas as gamas de raios emitidos pelo Astro Rei, de modo a evitar um possível câncer de pele, vez que nasci branquelo num país tropical, abençoado por Deus, e o resto o prezado leitor sabe.
Caso contrário, se é noite, ponho uma boina, um boné de aba curta, um chapéu de feltro – tenho mesmo um argentino próprio para dançarino de tango, apesar de não dar um passinho que seja nem de bolero – e saio para o encontro com amigos, a tomar um vinho, numa noite amena, o que tem sido cada vez mais difícil na cidade grande.
Algumas vezes, no entanto, tenho de dar explicações sobre a excrecência que levo alguns centímetro acima de minha pessoa e, para não dizer que pretendo ficar mais bonito, ou simplesmente que é um gosto maior que três vinténs, dou a desculpa de que estou seguindo recomendação médica, para me proteger das emissões de raios ultravioletas e quejandos. A explicação é aceita de muito bom grado. Todos morrem de medo de câncer.
Relativamente ao uso desse acessório, minha dermatologista me disse certa vez, quando a informei desta minha opção, que, num país ensolarado como o nosso, ele jamais deveria ter sido deixado de lado.
E isto me remete a certas fotos que tenho na memória sobre acontecimentos públicos nas grandes cidades do mundo, nas quais todos os homens, quase sem exceção, estão de chapéu. Mesmo na minha infância e juventude em Carabuçu, do final dos anos 40 até meados dos 60, era comum que vários homens ainda o usassem: os que trabalhavam na roça, sempre; os da vila, já nem tanto. Há uma fotografia na família em que está registrado o valoroso esquadrão do Liberdade Esporte Clube, da época em que meu pai brilhava na extinta ponta-esquerda. Lá está todo o time em pose da época e, atrás, de pé, os dirigentes do clube, todos indefectivelmente de chapéu, inclusive meu avô Chico Albino, numa elegância inusual atualmente.
Assim, mesmo não me considerando saudosista ou antigo – tenho na minha cabeça de que o gosto pelo rock me salva desta pecha –, uso chapéu como um exemplar saído das fotografias de antigamente, seguindo uma tradição que não mais existe nos dias de hoje.

Chapéus (foto do autor).
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 17/6/2015.

11 de abril de 2017

ADEGA PÉROLA

(Para Roberto Assis, primo.)
Meu primo Bedu (Roberto Assis) e eu, lá pelo início dos anos 70, resolvemos ver o show que Rita Lee faria no Teatro Tereza Rachel (hoje Net Rio), num sábado de tempo agradável. Por aquela altura, éramos solteiros e abandonados.
O teatro fica na sobreloja de um shopping na Rua Siqueira Campos. Ao chegar lá, para a compra dos ingressos, encontramos uma verdadeira muvuca, que não nos permitia saber onde começava ou terminava a fila. Gal Costa desfilava sua vasta cabeleira, seu largo sorriso e suas saias rodadas no meio do povaréu.
Entramos naquilo que seria uma fila. Depois de certo tempo, combinei com o Bedu que iria dar uma volta pelas imediações, para conhecer, e depois eu ficaria na fila, para que ele também saísse na prospecção da área. Desci as escadas e saí pela entrada principal, na Siqueira Campos. Do lado oposto da rua, me chamou a atenção o movimento de pessoas num bar. Li o letreiro – Adega Pérola – e resolvi fazer uma incursão de reconhecimento. Já na entrada, fiquei maravilhado com o balcão de bons metros de comprimento, todo envidraçado e repleto de um número impensável de variados tira-gostos.
As pessoas sentavam-se em barris de vinho, em que também depositavam seus copos e os pratos com petiscos, à esquerda de quem entrava no estabelecimento. Ao fundo havia umas poucas mesas, todas já ocupadas. Da parede, pedia um aviso proibindo tocar instrumentos e fazer cantoria.
Voltei imediatamente ao furdunço da fila do teatro e disse para o Bedu abandonar a missão, porque outro valor mais alto se alevantava lá fora, a exigir nossa presença.
- Você precisa conhecer a tal Adega Pérola aqui em frente.
Descemos as escadas e, em menos de cinco minuto, já estávamos com o umbigo encostado ao balcão, com uma caneca de vinho nacional de barrica – por essa época bebíamos o que se apresentasse plausível aos nossos parcos poderes econômicos – e atrapalhados na escolha de um dos muitos tira-gostos para acompanhar.
A partir de então voltei à Adega Pérola muitas vezes. Saía de Icaraí, normalmente acompanhado de amigos – o Bedu mesmo foi em várias ocasiões comigo – e, posteriormente, da Jane, para passar uma noite de delícias gastronômicas populares do cardápio lusitano e brasileiro, regados ao tal vinho ou a chope, a depender das condições climáticas.
Assim que nos nasceu o primeiro filho, a vida mudou, como é comum. E fiquei anos sem lá voltar. Até que há cerca de oito anos, ao levar minha filha e a Jane a Copacabana, nas imediações do local, decidi, enquanto as esperava, tornar ao bar. Lá encontrei o último proprietário remanescente daqueles tempos, em que religiosamente a polícia fazia uma vistoria de olhos ditatoriais sobre os presentes.
O ambiente tinha passado por uma reforma que inverteu a posição da prateleira e do balcão. Agora eles ficam à esquerda, e as mesinhas de seis bancos fixos ficam à direita. Falei para ele sobre minha história com a casa, os bons momentos ali passados. Seus olhos brilharam, e ele abandonou a caixa registradora e veio sentar-se comigo. Disse da perda dos irmãos que eram seus sócios no empreendimento. Contou que dois antigos fregueses, na iminência do fechamento da adega, entraram na sociedade, injetando capital e propiciando a reforma que eu estava vendo. E reclamou que o Chico Buarque, que sempre ia lá para tomar sua cachacinha, não mais aparecia.
Jane chegou daí a pouco, e ele ficou tão feliz que a presenteou com uma embalagem de chocolate. Algum tempo depois, tivemos a notícia de sua morte. E temi pelo destino da casa.
Neste último sábado retornamos a ela, agora com meu cunhado Jorge e sua mulher. Ele que várias vezes fora conosco nos áureos tempos em que podíamos sair de Niterói e voltar tarde da noite, de ônibus e barca, sem o mínimo problema de segurança. Chegamos de táxi, vindos do Teatro Casa Grande, onde vimos Ubu Rei, e saímos de uber.
E o balcão gigante continua lá, bonito como só, um convite irresistível a qualquer tipo de paladar, repleto dos mais diversos tira-gostos: azeitonas variadas, quase todos os frutos do mar ao molho vinagrete, diversos peixes à escabeche, favas, ovos de codorna, alho assado, muitos embutidos, boa quantidade de queijos, sardinhas fritas, bolinhos de bacalhau, frango a passarinho e outros tantos que a cozinha providencia para chegarem quentinhos à mesa, bem ao gosto do freguês.
Desta vez, foi tudo bem planejado, para que não perdêssemos nada. Saímos com a alma e a memória revigoradas por doses de boas lembranças e sabores que ultrapassam o tempo.

O show da Rita Lee – aquele dos anos setenta – vimos tempos depois, no campo do Botafogo, em General Severiano.

Adega Pérola (imagem em Acervo O Globo).

6 de abril de 2017

NÃO HÁ


Não há sandália sem tira
Nem esteira sem embira
Comichão sem cafubira
Mentiroso sem mentira
Garrucha nova sem mira
Ou mesmo ódio sem ira
Velame sem macambira
Fogo sagrado sem pira
Cateretê sem catira
Amalucado sem gira
Viola sem caipira
Ou lusitano sem vira
Conjuração sem traíra
Azul real sem safira
Caxemir sem casimira
Mata virgem sem saíra
Caverna sem corruíra
Ou jugular sem vampira
Umbanda sem Pombagira
Retirante sem retira
Ubirajara sem Bira
Gado pastando sem xira
Floresta sem curupira
Ou curtume sem estira
Espiral sem a espira
Cachaçada sem ximbira
Inquietação sem cuíra
Má ordenha sem tibira
Terreiro sem pepuíra
Ou um poeta sem lira.

Imagem em efecade.com,.br.

23 de março de 2017

VIAGEM AO PASSADO

(Para os amigos Marina e Adilson Dutra.)
Fiz uma viagem ao passado no mês de dezembro. Aproveitei o convite dos amigos Marina e Adilson Dutra e voltei a Campos dos Goytacazes com a Jane, para rever velhos espaços de outrora, quando lá estudei no meu primeiro ano ginasial. Era 1960, por aquela época.
Adilson me fez a gentileza de agendar visita à minha antiga escola, o Colégio Bittencourt, situado na Rua Gil de Góis, próximo ao Jardim do Liceu.
Eu chegara ao colégio em março daquele ano, para iniciar o Curso Ginasial. Chovia fino e fazia um certo frio, mesmo para aquele mês. Por aquela altura, o calor não era tão intenso quanto hoje, ou, criança ainda, não me dava conta disso. Foram comigo os amigos e conterrâneos Augusto Pereira e Adilson Soares, este já falecido. Eles iriam para o terceiro ano e eram, portanto, velhos alunos do internato, que me guiariam e cuidariam de mim como irmãos mais velhos. Eu, apenas um calouro espantado com a novidade, sem, contudo, temer a experiência. Não havia trote. Os mais velhos recebiam os mais novos com a indiferença comum por então.
Lembro-me bem de que, após ter ido com minha mãe e nosso tio Nalim até as papelarias da cidade – À Normalista e Ao Livro Verde – comprar o material didático, entrei na posse do meu espaço no colégio. Fui conhecer o dormitório dos menores, a minha cama, as regras de conduta, os monitores de disciplina que velariam pela boa ordem no espaço interno, e as dependências do educandário.
E, no momento da despedida, quando vi minha mãe sair pelo portão principal, reunido com outros alunos sobre a laje de uma construção em frente à quadra, disse-me o Adilson:
- Pode chorar, Saint-Clair. Aqui todos choram nesta hora.
Aproveitei a chuva fina de março, para também derramar algumas lágrimas, que cessaram daí a pouco.
Pois agora, em dezembro do último ano, estava de volta e pude constatar que alguns desses espaços permaneciam os mesmos, como a antiga quadra de esportes, ainda descoberta, logo à direita de quem entra. Naqueles poucos degraus de uma arquibancada acanhada, nas tardes de sábado, lia para os colegas de internato. Manuel Joaquim, também mais velho do que eu, resolveu que eu era bom leitor, e um grupo ficava a ouvir a narrativa de textos condensados de Seleções do Reader’s Digest, cujo volume tomávamos emprestado à biblioteca do diretório acadêmico, localizado no prédio de dois andares, no fundo do terreno, ainda lá e próximo à casa em que morava o doutor José, um dos diretores da escola. Apesar da carranca de durão com as indisciplinas de uns e outros, ele permitia que os amantes de futebol vissem os jogos do campeonato carioca em seu novo televisor preto e branco. Por diversas vezes, estive sentado no chão da sala a acompanhar as partidas. 
Ainda está lá a velha sala de aula, com as carteiras na posição invertida. Parei um instante diante dela e troquei dois dedos de prosa com a professora que atendia um grupo de miúdos. Por todas as salas em que passei, algumas inexistentes à época, vi crianças ainda bem pequenas, na fase da pré-escola, a enfeitá-las com suas carinhas interessadas, seus brinquedos corporais, seus sorrisos receptivos. Numa delas, em que falei para os pequenos que eu também já havia sido aluno ali como eles, dois aluninhos arregalaram os olhos incrédulos. Devem ter pensado em como um velho como eu teria sido aluno dali. Inacreditável!

No meio do pátio, soberba de muitos anos, está a mesma mangueira, cujos frutos não chegavam a amadurecer à época, pois os devorávamos antes, ainda verdes, com sal, à espera do almoço de sábado, chamado ajantarado, que, por sair um pouco mais tarde, agravava o apetite daquele bando de adolescentes vorazes.
E não pude deixar de lembrar de alguns dos meus contemporâneos de internato, dentre aqueles que a memória guardou com maior precisão, além de Augusto e Adilson: Rubens e Roberto Neiva, Floriano, Fernando, Zé Pimentão, Nilson, Carlinhos Gordo, Gil, Laerte, Rubens Galaxe, Ari Tijolo, Chiquinho, Newton, Manuel Joaquim, Osni; os monitores Nei, Paulinho, Lúcio de Lauro, seu Alair, e o chefe de todos, o Badô, que era capaz de reunir em si qualidades aparentemente conflitantes: era, ao mesmo tempo, severo, justo e camarada conosco.
Após o percurso por vários desses espaços, alguns novos, outros do mesmo tempo em que lá estive, fomos recebidos pelo atual diretor, Guilherme, filho de dona Maria José, minha primeira professora de latim, esposa do professor Delamar e irmã dos também professores Mário, José e Clóvis, da mesma família de educadores responsáveis por aquela escola centenária, fundada em 1914 pelo velho professor Mário Bittencourt.
Ao final do encontro, ganhei de recordação o opúsculo “O centenário do Colégio Bittencourt”, em que se registra a história da família, desde o mais remoto Bittencourt, na França, até os dias atuais.
Confesso que fiquei tão feliz, que nem deu tempo de minar água nos olhos, fato, aliás, muito comum nesta minha sentimental pessoa.



11 de março de 2017

BEBERAGENS E COMILANÇAS


A publicidade do produto que aparece na minha página de abertura da Internet informa que, "além da cafeína”, ele tem “Pods com camomila, eletrólitos e zinco".
Detesto beber ingredientes. Bebo o troço pronto, finalizado, sem saber o que leva na composição; restrição apenas para o açúcar, já que as taxas de glicose andam salientes. Mas não sou contra quem consome açúcar. Dia desses, por exemplo, na fila do caixa na padaria, uma jovem mulher estava esquecendo suas duas embalagens de doces. Ainda brinquei dizendo que não as levaria escondidas, porque não os comeria em casa. Ela, então, retrucou que não se perdoaria em deixá-los para trás. Os doces eram bonitos como a Gisele Bündchen! E ela, a dona das guloseimas, um tanto envergonhada, ainda comentou que o açúcar não serve para nada em nossa vida. Disse-lhe, ao contrário, que serve para nos dar felicidade, prazer. E isto já é muita coisa.
Mas, voltando, à história dos ingredientes, alguém, por acaso, sabe o que há na Coca-Cola? Ou no Campari? No Fogo Paulista? Ou no vinho quinado que o tio Aldany fazia para vender aos seus fregueses em Carabuçu lá pelos anos 60, e de cuja alquimia minha mãe, irmã dele, participava? Eu mesmo, depois de pronta a beberagem e antes que ela fosse engarrafada para ser deixada enterrada por alguns dias a fim de apurar o paladar, dava uma bicolada inocente e achava aquilo muito bom. Sinceramente!
Como chouriço de botequim. Sei o que ele contém, mas não penso nos ingredientes quando o saboreio. Seria um breque no paladar. Tripa de porco, sangue, redanha, como dizíamos na terrinha, e temperos muitos e variados, aí incluída a pimenta.
Bebo vinho porque gosto. Não estou preocupado com os efeitos benéficos para a saúde do resveratrol. Nem para os nocivos do álcool, se excessivo. Bebo para ser um pouco mais feliz do que já consigo ser.
Mas, em tudo, procuro sempre a temperança, resquício de minha formação religiosa, em todas as coisas do mundo. E também o prazer, agora em oposição à essa mesma formação religiosa. Creio que apenas o amor deve ser desmedido.
O resto a gente acomoda, quando se pode extrair um tanto de prazer da vida. Contudo prometo não experimentar aquele produto, só de implicância porque ele contém cafeína, Pods com camomila, eletrólitos e zinco. Vai que isso dê um revertério em minha pessoa, e eu desencarne antes do previsto na tabela de classificação periódica dos elementos!

Imagem em fisioterapiapersonalizada.wordpress.com.

24 de fevereiro de 2017

O VERBETE NÃO FOI ENCONTRADO


Dia desses, ao parar o carro numa vaga demarcada no estacionamento do shopping, soltei uma palavra muito usada em minha terrinha natal e que não consta de nenhum dicionário. A vaga não era paralela às demais, mas em um ângulo diferente, oblíquo, por estar entre duas colunas. Então a Jane achou estranha a posição em que estacionara o veículo e me perguntou se estava correta. Eu disse que sim e acrescentei:
- A vaga é de vangüê! (Usei o banido e injustiçado trema, para que o leitor saiba exatamente a pronúncia do vocábulo.)
Perguntei a ela, então, se em Miracema, sua terra, também se usava isso.
É preciso informar aqui ao distinto leitor que Miracema e Bom Jesus do Itabapoana distam cerca de cem quilômetros entre si, o que pode determinar usos particulares de nossa mesma língua. Mas não era o caso. Lá também se usa tal palavra.
E veio, em seguida, pela força da memória que me resta, o seu sinônimo, também não dicionarizado: revesguete (com /e/ fechado em todas as sílabas e também com a pronúncia do /u/).
Veja, caro leitor, que para enviesado, quer dizer, de viés, usamos com frequência vanguê e revesguete. Desta forma, um olhar de soslaio é um olhar de vanguê ou de revesguete. Sair de fininho de uma situação embaraçosa também significa, por metáfora, sair de revesguete ou de vanguê. A bola que se chuta e sai pela tangente, não indo na direção pretendida pelo jogador, é uma bola de vanguê ou de revesguete. A peça mal encaixada num conjunto é porque entra de revesguete ou de vanguê.
Aí fico a me perguntar por que os dicionários, que sempre vivo consultando para encontrar esse tipo de registro, numa busca pela validação da linguagem que falamos, nunca deram muita confiança para nosso jeitão caipira de usar a bela língua de Camões, Vieira, Drummond, Bandeira, Torga, Leminski, Caetano, Chico, Eça, Machado e Abrunhosa.
E os exemplos não ficam só nesses.
O leitor haverá de saber, por acaso e sorte, o que é caracaxento? Ou calibrina? Camulaia? Briguelo? Cachimbau? Funicado? Miserento? Balango e balangar? Bitelo? Gibaita? Escabufado? Gafurinha? Esgulepar e esgulepado? Puaia? Istrudia? Mironga? Remandiar? Maxambomba? Marom? Preca? Cabrunco? Baleba? Lambreta? Pois essas são algumas das palavras que usamos com frequência para nomear, qualificar e representar as mais diversas coisas, qualidades e situações do dia a dia.
Alguns poucos desses vocábulos até aparecem em um ou outro dicionário; às vezes com a acepção diferente da que lhe é atribuída, como marom, por exemplo, que para nós é a saborosíssima cocada assada. Caracaxento é áspero. Já calibrina é sinônimo de aguardente, assim como camulaia. Briguelo nomeia o boneco do teatro de marionetes. Cachimbau é a outra denominação do peixe conhecido como cascudo. Funicado, corruptela de fornicado, significa “em maus lençóis”; talvez uma forma branda a evitar o uso do termo fodido. Miserento é miserável, no sentido moral da acepção e não no econômico. Balango e balangar são as formas usadas em lugar de balanço e balançar. Bitelo e gibaita significam muito grande, não apenas grande. Escabufado é mal-arranjado, desajeitado. Gafurinha nomeia o cabelo muito embaraçado, de difícil penetração de pente. Istrudia equivale a “em outro dia atrás” e deve ser corruptela da forma arcaica estoutro dia. Mironga nomeia uma espécie de pudim de pão, embora seja um pouco diferente deste. Remandiar também é forma paralela de remanchear, ou remanchar, com o mesmo sentido. Maxambomba é o nome que se dá ao carrossel de parque de diversões equipado com cadeirinhas. Preca e cabrunco são formas de xingamento, empregadas sobretudo diante de situação adversa ou de difícil transposição, e revelam profunda contrariedade do usuário. Baleba é a prosaica bola de gude. Lambreta é/era o nome que damos/dávamos para sandália de dedos. 
puaia merece um parágrafo à parte. O termo começou a ser usado em expressões como dar puaia ou comer puaia, lá por volta dos anos sessenta do século passado. Ele se presta a identificar situações em que o falante, por meio de palavras de falso elogio, pretende conseguir algo favorável do ouvinte. Nesta situação, ele dá puaia no outro. Se o ouvinte, sem perceber a intenção do falante, acredita naquelas palavras, ele come a puaia. Há alguns conhecidos vaidosos na comunidade local, muito sensíveis a aceitar esses falsos elogios: são os comedores de puaia.
Bom Jesus do Itabapoana, por essa expressão, é conhecida como a cidade da puaia. Houve um cidadão, aliás, com certos parafusos frouxos no juízo, que dizia que na cidade só o sino da igreja não comia puaia. Assim mesmo por estar com a boca para baixo.
Qualquer dia, para suprir a lacuna, ainda faço um glossário completo das palavras e expressões usuais na nossa terra. Só de birra, de pirraça!

Cabrunco!

14 de fevereiro de 2017

TPO ASSIM (VII) - DOUTOR LAMARTINE


Foi só pegar num velho cartão de visita, guardado de muitos amarelos, para voltar de imediato no tempo. É o cartão do doutor Lamartine Costa, cirurgião dentista de Corumbá. É tão antigo, que o número do telefone tem apenas quatro dígitos 2674. Os mais novos vão achar que é da época do tacape e da flecha, mas faz tão-somente uns poucos instantes. É só a memória funcionar!
Jane tinha-se disposto a casar comigo, por uma deferência toda especial da sua beleza mulata, em 20 de dezembro de 1975. Sacramentado o acordo em cartório e vencida a primeira tentativa frustrada de lua de mel em Teresópolis e na posse de um mês de férias no janeiro seguinte, resolvemos mudar os planos iniciais e armamos uma longa viagem pelo chamado Cone Sul da nossa América: Bolívia, Peru, Chile e Argentina. Acompanhavam-nos nesta nova lua de mel, de mochila às costas, os amigos e padrinhos Rogério Barbosa, Eduardo Campos e sua então namorada, cujo nome não citarei, mas que era uma loura tão bela, quanto complicada.
Os planos foram traçados no mapa, apenas com o dia da partida e o da chegada.
Saímos do Rio, a bordo do vagão de bagagem do antigo Trem de Prata, até a Estação da Luz em São Paulo, porque não havia mais passagens nas demais classes. De lá, tomamos o comboio a nos levar a Corumbá. O projeto era, de lá, pegar o famoso Trem da Morte, que ligava Corumbá a Santa Cruz de la Sierra, já nos contrafortes dos Andes. Chegamos ao fim da tarde do dia seguinte. Na outra manhã, Jane começou a sentir dor em um dos dentes. Naquela situação, resolvemos procurar auxílio de um profissional, e nos foi indicado o doutor Lamartine.
Em chegando ao consultório, explicamos a ele o que estava ocorrendo e nossa situação passageira pela cidade. Doutor Lamartine dispensou duas mocinhas que aguardavam seus serviços, dizendo a elas que aquilo era uma emergência, caso de dor, remarcou suas consultas e foi atender a Jane.
Era problema de canal! E canal quando apresenta problema não dá para esperar. Prontamente ele perfurou o dente, extraiu a raiz doente, fez o curativo e as recomendações necessárias. Poderíamos continuar a viagem, sem, contudo, pegar o Trem da Morte, e, ao chegar a Niterói, Jane deveria procurar seu dentista, explicar o que houve e providenciar o tratamento definitivo, já que o curativo que fizera não tinha tal caráter. Aconselhou-nos também a, no alto dos Andes, usar pastilhas de Coramina, para prevenir palpitação, comer e beber moderadamente e evitar fazer sexo nos primeiros dias, a fim de que Jane não voltasse viúva das grimpas da América do Sul. Se você, leitor, está lendo isto, é sinal de que estou vivo até hoje.
Ao final da consulta, perguntamos o valor do tratamento, e o doutor Lamartine se recusou a receber. Disse que iríamos precisar do dinheiro para a viagem, que não aceitaria pagamento naquela hora. Quando chegássemos de volta a casa, poderíamos fazer a transferência para sua conta bancária. Ainda insistimos em pagar, mas ele, definitivamente, não aceitou.
Ficamos emocionados com seu gesto. Então pedi o número de sua conta. Foi o momento em que ele me passou o seu cartão de visita, onde anotei com caneta esferográfica: Banco do Brasil, conta número tal.
Agradecemos grandemente ao doutor Lamartine, que talvez fosse menos dez anos mais velho que nós, e nos dirigimos até os Correios, onde adquirimos um telegrama pré-pago, no qual pedi ao primo Zé Fábio, funcionário do Banco do Brasil com quem deixara alguns cheques assinados para emergências, que transferisse a quantia para o dentista.
Anos depois, tive uma colega no curso de mestrado na UFF, também de Corumbá, a quem contei toda a história. Para minha surpresa, ela me disse que o doutor Lamartine era velho amigo de sua família. Aproveitei uma de suas idas à terra natal para enviar minhas saudações a ele.
Agora o velho cartão de visita amarelado reaviva todas essas lembranças, calcadas numa emoção que só as grandes pessoas podem proporcionar.
Nunca mais tivemos notícias do doutor Lamartine Costa, cirurgião dentista de Corumbá.
Espero que ele continue do mesmo jeito que era, talvez apenas com alguns cabelos brancos.

Dentista, mestre Vitalino (em conradoleiloeiro.com.br).