23 de maio de 2017

SOBRAS E FALTAS


Quando no Brasil se faz uma canoa
Faltam paus e sobram buracos
Faltam carpinteiros e sobram projetistas
Faltam projetos e sobram lobistas
Para construir uma canoa
Que irá afundar no Amazonas
No Chuí
No São Francisco ou no Beberibe
Em alguma lagoa seca por aí

Quando no Brasil se faz um pagode
Sobram sambistas e falta samba
Sobram pandeiros e faltam bambas
Como dos tempos de Cartola
De Sinhô de Ataulfo
Adoniran

Quando no Brasil se fazem cenas
Sobram atores faltam textos
Sobram encenações falta o poema
Sobra o simulacro falta o enredo

Quando no Brasil se fazem os acertos
Sobram corruptos faltam corretos
Falta propina sobram dejetos
Quando se tenta apurar o que está debaixo
Do mesmo teto
Sobram ratos sobram gatos sobram raposas
Sobram larápios
Faltam honestos

Piet Mondrian, A árvore vermelha, 1908-1910, Gemeentemuseum, Haia (em pt.wikipedia.org).

8 de maio de 2017

BEIÇUDO


(Para o amigo Marcelino Medeiros, dono da história.) 
A coisa se dá mais ou menos assim.
Você viveu a infância toda como um bicho solto nas ruas da vila, algumas de paralelepípedo, outras de chão batido. Fazia corriola com o irmão e os amigos. Reinava absoluto num tempo em que até as chuvas torrenciais dos verões eram matéria lúdica. Correu pelos pastos, varou cercas de arame farpado atrás de frutas em quintais alheios, soltou pipa, brincou de siliprina e pique-esconde, andou em lombo de burro e levou corrida de cachorro bravo. Mas aí tem de sair de lá. Tem de acompanhar os pais, que procuram melhor sustento para a família. E não lhe resta nada, a não ser ir quietinho, chorando por dentro, a fim de não levar um pito daqueles, quando não um cascudo, para deixar de ser banana.
E, com o passar dos anos, cresce, vira adolescente, namora, mas ainda lá por dentro, lá no imo, como dizem os textos românticos, aquele jeito de mato permanece, recalcitrante que só ele, a manter acesos certos desejos, certos sonhos.
Um deles, por exemplo, é ter um cavalo.
Resolve, então, passados uns anos, a trocar a velha bicicleta de quadro duplo, pneu balão, campainha descascada, por um equino do vizinho do fim da rua. Você está em Nova Iguaçu e tem dezesseis anos, nesta altura. Ali você passou a morar com seus pais e irmãos. O quintal espaçoso, com algumas árvores frutíferas, pode acomodar bem o animal. Você toma coragem e vai até o vizinho e propõe a troca:
- Dou a bicicleta pelo cavalo.
Naquele tempo ainda não se tratava por magrela a duas rodas. Era bicicleta mesmo. O outro negociante, mais ou menos da sua idade, resolveu pensar no assunto. E pediu para examinar o veículo que conhecia de o ver rodando por ali.
Entrou com seu olhar minucioso, viu o estado da pintura, a sobrevida provável dos pneus, o selim com o escudo do Vasco da Gama, que ele iria tirar, com certeza, e pediu cem cruzeiros novos de volta. Não era um mau negócio para nenhum dos dois. E você ainda lhe daria a bomba manual de encher pneus.
- Por acaso esse cavalo tem nome? – você perguntou, a fim de não trocar o nome do bicho.
- Beiçudo! – disse o vizinho, sem muito entusiasmo.
E você entendeu. Beiçudo, pela aparência, já era entrado em anos. Tinha umas costelas salientes, sinal de penúria alimentar, um pelo baio desigual, a crina toda embaraçada por falta de cuidado.
Você leva o Beiçudo pela rédea. A sela não veio, por muito velha e deteriorada.
- Não tem problema, amigo, eu compro uma nova. Vou pedir ao meu pai para ajudar.
E o Beiçudo o acompanhou a passos lentos, do fim da rua até sua casa. Você entrou solene pelo portão e o deixou no quintal, amarrado a uma árvore, para que não saísse devastando o canteiro de hortaliças verdinhas da mãe. Não queria trazer problemas para casa. Apenas realizar aquele velho sonho de infância que ficou no fundo da memória, desde Carabuçu.
Providenciou ração e foi-se aconselhar com quem tinha mais experiência no cuidado com bicho de casco.
Começou a dar um trato no Beiçudo, para que ele perdesse aquele ar dolente, aquele olhar de peixe morto, que não fica bem num cavalo, num ginete fogoso. E se lembrou dos gibis de Roy Rogers, Gene Autry, Cavaleiro Negro, Zorro, Hopalong Cassidy, Durango Kid, Fantasma, que lia na farmácia do Zé. Seu cavalo ia ficar tão bonito como aqueles: Trigger, Campeão, Satan, Silver, Topper, Corisco e Herói.
Mas a vida não é uma história em quadrinhos, que sempre termina com a vitória do mocinho sobre o bandido e as forças do mal. E o Beiçudo, nem de longe, lembrava nenhum daqueles belos espécimes da família dos equídeos, desenhados à perfeição nas páginas dos gibis. Nascido e criado quase ao Deus dará pelas ruas de um bairro de Nova Iguaçu, amanheceu inapelavelmente morto, numa manhã fria de agosto, a carcaça já quase rígida, quando você foi procurá-lo com o balde de ração na mão.
Diante da fatalidade, não lhe restava alternativa a não ser rebocar dali o corpo defunto do Beiçudo, antes que seus pais encrencassem com aquele estorvo. Em vez de contratar alguém para resolver seu problema, você mesmo tenta. Sempre pôde tudo até ali em sua vida, e não seria isto a não ser resolvido.
Amarrou o corpo do Beiçudo, na altura do vazio, como se dizia em Carabuçu, com uma corda grossa, que foi atada com todos aqueles nós que aprendera no manual do escoteiro mirim ao para-choques traseiro do velho jipe Willys do pai.
Abriu o portão, deu a partida no veículo e saiu bem devagarinho, para não dar um estacão e ali mesmo pocar a corda. Aí saiu puxando o cadáver do Beiçudo, rua afora. Saiu da rua, entrou noutra e mais noutra. Chegou até a pracinha do bairro. Quando ia dobrar à direita para ganhar a direção do aterro em que deixaria seu efêmero amigo, a corda se rompeu, pelo desgaste com o asfalto irregular.
Parou o velho jipe. Olhou a situação. Viu que não podia fazer mais nada e resolveu abandoná-lo ali mesmo, pois sabia que a prefeitura daria um jeito de levar o Beiçudo à sua morada final, antes mesmo que também ele pocasse de inchado: o bico dos urubus voantes do aterro de Gramacho.
Voltou ao jipe, que acelerou com mais vigor, para voltar a casa, resmungando feito pobre pela manta que levara. Ao chegar ao portão ainda aberto, viu pelo retrovisor o parceiro de negócio passar na sua antiga bicicleta feito um corisco. E falou entredentes, dando uma sacudidela de ombros, como que para fechar a história:
-Vai-se a bicicreta e o Beiçudo. Me espere, papudo, que vou te fazer comer poeira como meu novo sonho: uma Lambretta vermelha e branca 1967.
Antes tivesse ficado com a magrela!

Imagem em depositphotos.com.

3 de maio de 2017

CONFISSÃO


Assumo que resumo o que eu fiz
Em quase nada.
Quase tudo foi fortuito
Um outro tanto gratuito.
Planejados
Somente os armários do quarto
E as aulas que ministrava aos quatro ventos
Para alguns tantos alunos atentos
Porque os outros oh! os outros
Nem queriam saber do que tratava a gramática
Apenas o resultado do jogo do Flamengo
Como aquele aluno ao lado da janela
Fone aos ouvidos
A se preocupar com os lances do primeiro tempo
Enquanto a prova pedia sua atenção.

Tudo mais
Ou quase tudo
Inclusive a preocupação de criar os filhos
Foi como um experimento
A tentativa de que tudo desse certo
Embora sem a mínima noção do correto
De que um dia eles estivessem cobrando
A correção daqueles momentos
Para saber se tudo não teria sido em vão.

Música na praia (foto do autor).


21 de abril de 2017

CHAPÉUS


Tenho tido chapéus e boinas há algumas décadas. Não sou uma pessoa antiga, nem saudosista, embora já entrado em anos, para usar uma expressão eufemística que me alivie a proximidade dos setenta, mas que gosta deste complemento do traje masculino, caído em desgraça, pelo menos, desde a década de 50 do século XX.
Durante bom tempo fazia uso esporádico ou recreativo desses apetrechos, em determinadas circunstâncias. Contudo há cerca de uns cinco anos, comecei a usar chapéu cotidianamente, a fim de tentar fugir da recomendações da minha dermatologista, que me exigiu filtro solar, até sob céu nublado anunciador de chuva. Na oportunidade em que ela me receitou o creme, manifestei meu desagrado em seu uso dada a oleosidade da minha pele. Ela, então, para me deixar sob sua tutela permanente – não poderia jamais em minha vida de branco azedo prescindir dessa proteção – me ofereceu amostra grátis de um apropriado, que só usei no primeiro dia. Assim optei pelo chapéu. É mais elegante – posso até pretender ficar mais bonito, coisa, aliás, difícil de conseguir – e não emplastra o rosto com aquela película gosmenta.
Entretanto devo dizer que fico parecendo um estranho no ninho. A devastadora maioria da população masculina prefere até mesmo uma calva reluzente – ainda não atingi este nível – a um disfarce de tal arquitetura. É verdade que, ao me olhar no espelho, no quesito beleza, não vejo diferença alguma nessa minha estampa que, à medida que o tempo escoa no calendário, vai ficando mais decadente. Porém o que se há de fazer? É isto ou morrer subitamente. Prefiro envelhecer.
Assim, a cada dia, ao sair, encastoo no alto da cabeça um dos meus vários chapéus de panamá comprados por aí. E ponho na cabeça – então lá dentro – que estou protegido de todas as gamas de raios emitidos pelo Astro Rei, de modo a evitar um possível câncer de pele, vez que nasci branquelo num país tropical, abençoado por Deus, e o resto o prezado leitor sabe.
Caso contrário, se é noite, ponho uma boina, um boné de aba curta, um chapéu de feltro – tenho mesmo um argentino próprio para dançarino de tango, apesar de não dar um passinho que seja nem de bolero – e saio para o encontro com amigos, a tomar um vinho, numa noite amena, o que tem sido cada vez mais difícil na cidade grande.
Algumas vezes, no entanto, tenho de dar explicações sobre a excrecência que levo alguns centímetro acima de minha pessoa e, para não dizer que pretendo ficar mais bonito, ou simplesmente que é um gosto maior que três vinténs, dou a desculpa de que estou seguindo recomendação médica, para me proteger das emissões de raios ultravioletas e quejandos. A explicação é aceita de muito bom grado. Todos morrem de medo de câncer.
Relativamente ao uso desse acessório, minha dermatologista me disse certa vez, quando a informei desta minha opção, que, num país ensolarado como o nosso, ele jamais deveria ter sido deixado de lado.
E isto me remete a certas fotos que tenho na memória sobre acontecimentos públicos nas grandes cidades do mundo, nas quais todos os homens, quase sem exceção, estão de chapéu. Mesmo na minha infância e juventude em Carabuçu, do final dos anos 40 até meados dos 60, era comum que vários homens ainda o usassem: os que trabalhavam na roça, sempre; os da vila, já nem tanto. Há uma fotografia na família em que está registrado o valoroso esquadrão do Liberdade Esporte Clube, da época em que meu pai brilhava na extinta ponta-esquerda. Lá está todo o time em pose da época e, atrás, de pé, os dirigentes do clube, todos indefectivelmente de chapéu, inclusive meu avô Chico Albino, numa elegância inusual atualmente.
Assim, mesmo não me considerando saudosista ou antigo – tenho na minha cabeça de que o gosto pelo rock me salva desta pecha –, uso chapéu como um exemplar saído das fotografias de antigamente, seguindo uma tradição que não mais existe nos dias de hoje.

Chapéus (foto do autor).
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 17/6/2015.

11 de abril de 2017

ADEGA PÉROLA

(Para Roberto Assis, primo.)
Meu primo Bedu (Roberto Assis) e eu, lá pelo início dos anos 70, resolvemos ver o show que Rita Lee faria no Teatro Tereza Rachel (hoje Net Rio), num sábado de tempo agradável. Por aquela altura, éramos solteiros e abandonados.
O teatro fica na sobreloja de um shopping na Rua Siqueira Campos. Ao chegar lá, para a compra dos ingressos, encontramos uma verdadeira muvuca, que não nos permitia saber onde começava ou terminava a fila. Gal Costa desfilava sua vasta cabeleira, seu largo sorriso e suas saias rodadas no meio do povaréu.
Entramos naquilo que seria uma fila. Depois de certo tempo, combinei com o Bedu que iria dar uma volta pelas imediações, para conhecer, e depois eu ficaria na fila, para que ele também saísse na prospecção da área. Desci as escadas e saí pela entrada principal, na Siqueira Campos. Do lado oposto da rua, me chamou a atenção o movimento de pessoas num bar. Li o letreiro – Adega Pérola – e resolvi fazer uma incursão de reconhecimento. Já na entrada, fiquei maravilhado com o balcão de bons metros de comprimento, todo envidraçado e repleto de um número impensável de variados tira-gostos.
As pessoas sentavam-se em barris de vinho, em que também depositavam seus copos e os pratos com petiscos, à esquerda de quem entrava no estabelecimento. Ao fundo havia umas poucas mesas, todas já ocupadas. Da parede, pedia um aviso proibindo tocar instrumentos e fazer cantoria.
Voltei imediatamente ao furdunço da fila do teatro e disse para o Bedu abandonar a missão, porque outro valor mais alto se alevantava lá fora, a exigir nossa presença.
- Você precisa conhecer a tal Adega Pérola aqui em frente.
Descemos as escadas e, em menos de cinco minuto, já estávamos com o umbigo encostado ao balcão, com uma caneca de vinho nacional de barrica – por essa época bebíamos o que se apresentasse plausível aos nossos parcos poderes econômicos – e atrapalhados na escolha de um dos muitos tira-gostos para acompanhar.
A partir de então voltei à Adega Pérola muitas vezes. Saía de Icaraí, normalmente acompanhado de amigos – o Bedu mesmo foi em várias ocasiões comigo – e, posteriormente, da Jane, para passar uma noite de delícias gastronômicas populares do cardápio lusitano e brasileiro, regados ao tal vinho ou a chope, a depender das condições climáticas.
Assim que nos nasceu o primeiro filho, a vida mudou, como é comum. E fiquei anos sem lá voltar. Até que há cerca de oito anos, ao levar minha filha e a Jane a Copacabana, nas imediações do local, decidi, enquanto as esperava, tornar ao bar. Lá encontrei o último proprietário remanescente daqueles tempos, em que religiosamente a polícia fazia uma vistoria de olhos ditatoriais sobre os presentes.
O ambiente tinha passado por uma reforma que inverteu a posição da prateleira e do balcão. Agora eles ficam à esquerda, e as mesinhas de seis bancos fixos ficam à direita. Falei para ele sobre minha história com a casa, os bons momentos ali passados. Seus olhos brilharam, e ele abandonou a caixa registradora e veio sentar-se comigo. Disse da perda dos irmãos que eram seus sócios no empreendimento. Contou que dois antigos fregueses, na iminência do fechamento da adega, entraram na sociedade, injetando capital e propiciando a reforma que eu estava vendo. E reclamou que o Chico Buarque, que sempre ia lá para tomar sua cachacinha, não mais aparecia.
Jane chegou daí a pouco, e ele ficou tão feliz que a presenteou com uma embalagem de chocolate. Algum tempo depois, tivemos a notícia de sua morte. E temi pelo destino da casa.
Neste último sábado retornamos a ela, agora com meu cunhado Jorge e sua mulher. Ele que várias vezes fora conosco nos áureos tempos em que podíamos sair de Niterói e voltar tarde da noite, de ônibus e barca, sem o mínimo problema de segurança. Chegamos de táxi, vindos do Teatro Casa Grande, onde vimos Ubu Rei, e saímos de uber.
E o balcão gigante continua lá, bonito como só, um convite irresistível a qualquer tipo de paladar, repleto dos mais diversos tira-gostos: azeitonas variadas, quase todos os frutos do mar ao molho vinagrete, diversos peixes à escabeche, favas, ovos de codorna, alho assado, muitos embutidos, boa quantidade de queijos, sardinhas fritas, bolinhos de bacalhau, frango a passarinho e outros tantos que a cozinha providencia para chegarem quentinhos à mesa, bem ao gosto do freguês.
Desta vez, foi tudo bem planejado, para que não perdêssemos nada. Saímos com a alma e a memória revigoradas por doses de boas lembranças e sabores que ultrapassam o tempo.

O show da Rita Lee – aquele dos anos setenta – vimos tempos depois, no campo do Botafogo, em General Severiano.

Adega Pérola (imagem em Acervo O Globo).

6 de abril de 2017

NÃO HÁ


Não há sandália sem tira
Nem esteira sem embira
Comichão sem cafubira
Mentiroso sem mentira
Garrucha nova sem mira
Ou mesmo ódio sem ira
Velame sem macambira
Fogo sagrado sem pira
Cateretê sem catira
Amalucado sem gira
Viola sem caipira
Ou lusitano sem vira
Conjuração sem traíra
Azul real sem safira
Caxemir sem casimira
Mata virgem sem saíra
Caverna sem corruíra
Ou jugular sem vampira
Umbanda sem Pombagira
Retirante sem retira
Ubirajara sem Bira
Gado pastando sem xira
Floresta sem curupira
Ou curtume sem estira
Espiral sem a espira
Cachaçada sem ximbira
Inquietação sem cuíra
Má ordenha sem tibira
Terreiro sem pepuíra
Ou um poeta sem lira.

Imagem em efecade.com,.br.

23 de março de 2017

VIAGEM AO PASSADO

(Para os amigos Marina e Adilson Dutra.)
Fiz uma viagem ao passado no mês de dezembro. Aproveitei o convite dos amigos Marina e Adilson Dutra e voltei a Campos dos Goytacazes com a Jane, para rever velhos espaços de outrora, quando lá estudei no meu primeiro ano ginasial. Era 1960, por aquela época.
Adilson me fez a gentileza de agendar visita à minha antiga escola, o Colégio Bittencourt, situado na Rua Gil de Góis, próximo ao Jardim do Liceu.
Eu chegara ao colégio em março daquele ano, para iniciar o Curso Ginasial. Chovia fino e fazia um certo frio, mesmo para aquele mês. Por aquela altura, o calor não era tão intenso quanto hoje, ou, criança ainda, não me dava conta disso. Foram comigo os amigos e conterrâneos Augusto Pereira e Adilson Soares, este já falecido. Eles iriam para o terceiro ano e eram, portanto, velhos alunos do internato, que me guiariam e cuidariam de mim como irmãos mais velhos. Eu, apenas um calouro espantado com a novidade, sem, contudo, temer a experiência. Não havia trote. Os mais velhos recebiam os mais novos com a indiferença comum por então.
Lembro-me bem de que, após ter ido com minha mãe e nosso tio Nalim até as papelarias da cidade – À Normalista e Ao Livro Verde – comprar o material didático, entrei na posse do meu espaço no colégio. Fui conhecer o dormitório dos menores, a minha cama, as regras de conduta, os monitores de disciplina que velariam pela boa ordem no espaço interno, e as dependências do educandário.
E, no momento da despedida, quando vi minha mãe sair pelo portão principal, reunido com outros alunos sobre a laje de uma construção em frente à quadra, disse-me o Adilson:
- Pode chorar, Saint-Clair. Aqui todos choram nesta hora.
Aproveitei a chuva fina de março, para também derramar algumas lágrimas, que cessaram daí a pouco.
Pois agora, em dezembro do último ano, estava de volta e pude constatar que alguns desses espaços permaneciam os mesmos, como a antiga quadra de esportes, ainda descoberta, logo à direita de quem entra. Naqueles poucos degraus de uma arquibancada acanhada, nas tardes de sábado, lia para os colegas de internato. Manuel Joaquim, também mais velho do que eu, resolveu que eu era bom leitor, e um grupo ficava a ouvir a narrativa de textos condensados de Seleções do Reader’s Digest, cujo volume tomávamos emprestado à biblioteca do diretório acadêmico, localizado no prédio de dois andares, no fundo do terreno, ainda lá e próximo à casa em que morava o doutor José, um dos diretores da escola. Apesar da carranca de durão com as indisciplinas de uns e outros, ele permitia que os amantes de futebol vissem os jogos do campeonato carioca em seu novo televisor preto e branco. Por diversas vezes, estive sentado no chão da sala a acompanhar as partidas. 
Ainda está lá a velha sala de aula, com as carteiras na posição invertida. Parei um instante diante dela e troquei dois dedos de prosa com a professora que atendia um grupo de miúdos. Por todas as salas em que passei, algumas inexistentes à época, vi crianças ainda bem pequenas, na fase da pré-escola, a enfeitá-las com suas carinhas interessadas, seus brinquedos corporais, seus sorrisos receptivos. Numa delas, em que falei para os pequenos que eu também já havia sido aluno ali como eles, dois aluninhos arregalaram os olhos incrédulos. Devem ter pensado em como um velho como eu teria sido aluno dali. Inacreditável!

No meio do pátio, soberba de muitos anos, está a mesma mangueira, cujos frutos não chegavam a amadurecer à época, pois os devorávamos antes, ainda verdes, com sal, à espera do almoço de sábado, chamado ajantarado, que, por sair um pouco mais tarde, agravava o apetite daquele bando de adolescentes vorazes.
E não pude deixar de lembrar de alguns dos meus contemporâneos de internato, dentre aqueles que a memória guardou com maior precisão, além de Augusto e Adilson: Rubens e Roberto Neiva, Floriano, Fernando, Zé Pimentão, Nilson, Carlinhos Gordo, Gil, Laerte, Rubens Galaxe, Ari Tijolo, Chiquinho, Newton, Manuel Joaquim, Osni; os monitores Nei, Paulinho, Lúcio de Lauro, seu Alair, e o chefe de todos, o Badô, que era capaz de reunir em si qualidades aparentemente conflitantes: era, ao mesmo tempo, severo, justo e camarada conosco.
Após o percurso por vários desses espaços, alguns novos, outros do mesmo tempo em que lá estive, fomos recebidos pelo atual diretor, Guilherme, filho de dona Maria José, minha primeira professora de latim, esposa do professor Delamar e irmã dos também professores Mário, José e Clóvis, da mesma família de educadores responsáveis por aquela escola centenária, fundada em 1914 pelo velho professor Mário Bittencourt.
Ao final do encontro, ganhei de recordação o opúsculo “O centenário do Colégio Bittencourt”, em que se registra a história da família, desde o mais remoto Bittencourt, na França, até os dias atuais.
Confesso que fiquei tão feliz, que nem deu tempo de minar água nos olhos, fato, aliás, muito comum nesta minha sentimental pessoa.