31 de dezembro de 2012


FELIZ ANO NOVO!

Pôr do sol alaranjado em Icaraí (foto do autor).


28 de dezembro de 2012

NOITES

como são as noites
quantas são as noites
a quem pertencem as noites que perdemos
em preocupações e desventuras
a quem aproveitam as noites indormidas
quem ilumina as noites de lua nova
com que pavio desatar o nó das noites nubladas
como sair do teu quarto se a noite
ainda nem começou
(sobram noites em nós dois
e o céu repleto de noites
desaba sobre todos os nossos precipícios)
as noites impropícias a que deixam de propiciar
quais são as noites de velórios
de autódromos desertos
de praias perdidas

não há noites
só desejos camuflados
não há noites
só alguma coisa pegando dentro de todos nós


Noite azul (Muriaé/MG; foto do autor).


24 de dezembro de 2012

PAPAI NOEL EXISTE

Durante os primeiros anos de minha vida acreditei em Papai Noel, como qualquer criança. Contudo minha crença era tão convicta, que cheguei a apostar com meu amigo Laércio sobre a existência do Bom Velhinho.
Não me lembro de quantos anos tinha. Laércio era meu amigo de infância e apenas um pouco mais velho do que eu, porém extremamente menos ingênuo.
Talvez eu tenha sido ingênuo por anos em excesso. A ingenuidade é adequada até os sete anos, mais ou menos. Daí em diante, passa a ser um defeito. Acho que carreguei esse defeito longe demais.
Mas, naquela época, quase fui desencantado por Laércio sobre a existência de Papai Noel. Ele bem que tentou.
Ora, o Velhinho batia o ponto regularmente em nossos natais – meu e de meus irmãos Guth e Eliza – com os presentinhos que uma família pobre do interior podia dar. Nós, então, não tínhamos o direito de desconfiar de nada. E, além disso, não fazíamos comparações do que ganhávamos com os presentes de outras crianças, o que poderia colocar em cheque a justeza do Papai Noel. E, daí, sua existência.
O Natal estava chegando e, por certo, comentei com Laércio algo relacionado, numa noite quente. Estávamos na rua, em frente ao bar do tio Tônio.
Toda criança mais velha, que já não acredita, parece ter o perverso desejo de informar ao mais novo que essa história de Papai Noel é uma grande lorota dos adultos para nos enganar.
Lembro-me de que discuti com ele, afirmando exatamente o contrário. Até que cheguei ao ponto de apostar um pé de moleque.
O pé de moleque era a única coisa valiosa de que eu podia dispor então. Minha mãe o fazia para vender no pequeno armazém de meu pai, que, na vila, chamávamos de venda.  E nos dirigimos até lá, para que meu pai desse a palavra final, o veredicto incontestável e irrecorrível.
Papai, do lado de dentro do balcão, foi então questionado por mim:
- Papai, não é verdade que Papai Noel existe?
E meu pai respondeu afirmativamente. Então expliquei a ele que fizera uma aposta com Laércio, valendo um pé de moleque. Óbvio que Laércio não me iria pagar. Eu podia comer o doce gratuitamente.
A vida continuou rolando, e não me lembro de quando deixei de acreditar nesse mito natalino. Com certeza, foi algo muito natural, pois não tenho o trauma da revelação, tão comum a muitas pessoas. Simplesmente deve ter acontecido.
Tempos depois, recordei esta história a meu pai e perguntei a ele como o Laércio aceitou a resposta dele, sem retrucar. Ele me disse, então, que, sem que eu percebesse, piscou o olho para o meu amigo e, tão logo me distraí, deu-lhe o pé de moleque da aposta. Eu perdera, mas também não soube na época. Foram mantidos dois segredos num só.
Mas, ainda mais um vez naquele Natal, engraxei os sapatos, como eu e meus irmãos fazíamos, e os coloquei sobre a máquina de costura de minha mãe, que estava arrumada com uma pequena toalha bordada, para a ocasião.
Na manhã do dia 25, lá estava o presente aguardado durante todo o ano. O único que crianças da nossa vila ganhavam: o presente do Papai Noel.
Ele não poderia deixar sua existência em dúvida!

Imagem em pt.dreamstime.com.

22 de dezembro de 2012

BOM NATAL E FELIZ ANO NOVO

Permitam-me os amigos leitores repetir aqui a mensagem de 2010. Mas os desejos são os mesmos e, às vezes, não encontramos novas palavras dispostas a repeti-los.


Aos amigos
E aos parentes,
Aos crentes
E aos descrentes,
Aos que se bastam
E aos carentes,
Aos desestimulados
E aos renitentes,
A todos nós, enfim, gente,
Um NATAL cheio de alegrias
E um ANO NOVO
Com 365 dias!
E, se isso for pouco,
Que não haja sufoco,
Que não falte dinheiro,
Que tenhamos saúde,
Cada um a seu jeito,
E, se não for pedir muito,
Que a felicidade abunde!
Mas com todo o repeito.

Natal brasileiro, de Leo Macial (em arteblog.com.br).

20 de dezembro de 2012

SE O MUNDO ACABAR AMANHÃ


Estou aqui de tocaia, esperando esse tal fim do mundo. Sou do interior, e lá temos o hábito da tocaia, para pegar alguma caça ou alguém desprevenido. Eu estou prevenido. Não sei se o propalado dia derradeiro sabe que é o derradeiro.
Tenho visto/ouvido declarações desencontradas. Eu mesmo não acredito em nada disto. Costumo dizer, brincando, que não acredito nem mesmo em homeopatia – e não acredito mesmo – e tenho certa desconfiança da alopatia. O último anunciador de tal catástrofe em que ainda depositava alguma crença, mesclada a boas gargalhadas, era o Zé do Apocalipse, personagem de Glauco, que também morreu com seu autor, violentamente, em 2010.
Zé do Apocalipse, de Glauco.
Mas vamos supor que o mundo acabe amanhã, contra todas as evidências atuais. São 17h07 desta quinta-feira abúlica, em que não se tem vontade de nada, nem mesmo de morrer. Aliás, muito menos de morrer. Mas, como dizia, estou imaginando que, se de fato isto se der, o que eu perderei? Vamos à contabilidade.

Pelo menos doze garrafas de vinho, que venho guardando para uma boa ocasião e uma temperatura amena, ficarão sem ser consumidas. Não são caros, que não tenho estipêndios suficientes para vinhos estrelados. Contudo, sempre será um prejuízo. Sobretudo, do paladar. Uma garrafa de aguardente de Cabo Verde, presente de meu amigo Rogério Barbosa, ainda não aberta, e outra de Quinado Ramos Pinto, adquirido há alguns anos, com parte da indenização por distrato da função de professor. É um aperitivo de que gosto muito. Outro tanto de exemplares de cervejas de muito boa produção, que me aguardam pachorrentamente na geladeira, inclusive uma presenteada por meu filho Pedro há pouco. Toda essa espera se justifica, porque tenho o hábito de beber com outro e não sozinho. Só assim se apura mais o paladar da bebida.
Também há no congelador um lombo de porco recheado que trouxe de Miracema que ainda não tivemos a oportunidade de enfornar. Será, também, um prejuízo e tanto. As frutas que comprei esta semana foram à conta de chegar até amanhã, desde que o mundo não acabe logo no café da manhã. Se deixar para o fazer lá pela noite, é possível que também acabe com uma penquinha de banana ouro adquirida no pare-siga da estrada de Teresópolis. Faltam apenas seis bananinhas miúdas.

Também tenho alguns cds e dvds que ainda não consegui ouvir/ver, já que o tempo de aposentado, embora elástico, é impressionantemente curto para muitas coisas. Dentre eles, estão alguns documentários sobre blues, da série dirigida por Martin Scorsese – The Blues - e outro tanto de cds de coleções adquiridas em banca de jornal, com valor documental: blues, MPB e música clássica.
Outro tanto de livros que dormem em prateleiras, para que um dia sejam lidos, quando me sobrar tempo. Por exemplo, a segunda parte da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Li apenas o Inferno, que achei muito bom, mas o Paraíso me pareceu um tanto sem paladar e não prossegui na leitura. Dante que me perdoe essa confissão e não me mande para seu inferno.

E tenho também muito interesse em saber como ficarão certas mocinhas novinhas e lindas que andam por aí. Gostaria muito de ter mais tempo de existência, para vê-las na maturidade. Acho que é um desejo justo. Se não for pedir muito.
Na verdade, a mulher é a culminância do belo sobre a face da terra. Portanto, o maior prejuízo que terei. Ela nos dá um trabalho do cão, mas não nos cansamos de admirá-la. E esse encantamento talvez seja uma das coisas que nos mobilizam a seguir adiante, imaginando que, no futuro, tudo terá jeito. Ledo engano, como sabemos bem, mas o que fazer?

Os parentes e amigos, caso o mundo realmente acabe amanhã, estarão no mesmo barco furado que eu, e sucumbiremos todos, de mãos dadas ou não, crendo ou não que uma bobagem dessas possa ocorrer.
Pelo sim, pelo não, até amanhã ou depois de amanhã, tão logo as coisas sosseguem um pouco! Já até agendei a publicação de mais um texto para o dia 22 de dezembro. Se ele aparecer na tela do seu computador, é sinal de que a hecatombe final não passou de um blefe.

18 de dezembro de 2012

SÓ UM VENTO FRESCO E BRANDO

só um vento fresco e brando pela fresta da janela
só uma lua a um canto da casa desolada
só uma estrela no céu ácido da boca
e no corpo dourado do sol salgado do mar
um ponto perdido na memória
dos dias findos
e do prazer etílico dos sentidos

só uma luz furtiva e baça nos olhos úmidos
só um odor perdido entre lençóis molhados
só uma canção nas línguas retorcidas
e na alma condoída de dores e remorsos
um conto inverossímil no passado
das noites indormidas
e dos sonhos que sonhamos nossos

Icaraí ao pôr do sol (foto do autor).

15 de dezembro de 2012

EM MIRACEMA

Em Miracema
Dois poemas
Valem um pedaço de chouriço
Um coração partido
Vale um joelho de porco cozido
Dois jilós recheados
Valem mais que um encontro  marcado
E se pode trocar uma dose de pinga exótica
Em qualquer botequim do mercado
Por um estado de nervos caótico
E se não for bem isso
Aquilo que você cobiça
Ainda restará um saboroso pão com linguiça
Ou um caldo de feijão apimentado
Cujo valor ultrapassa
Qualquer dia estressado
E até mesmo uma primogenitura contestada
Valerá menos que um prato de torresmo.

E assim seguirá a vida com tais dilemas:
Trocar por iguarias caipiras
Um banquete de problemas.

Tudo ao sabor de Miracema!



Imagem em torresmocabeludo.blogspot.com.







13 de dezembro de 2012

O POMBO

O pombo tonto sobrevoa o carro
De pronto esbarra a asa doída no capô
E cai no chão duro da rua
O carro não faz a curva
E não compactua com o tombo do pombo
O primeiro pneu pega o pombo parvo
O segundo o de trás amassa-o ainda mais
E sobre o negrume do asfalto quente
Sobra apenas uma triste paçoca de pombo
Cheia de penas incidentais.


Imagem em monstrosagrado.wordpress.com.



11 de dezembro de 2012

A FÁBRICA DO POEMA

Um poema não se fabrica
Não se estica
Não se complica
O poema não precisa de brisa
Que o refresque
Nem de camisa de força
Que o comprima
Ou de rima
Por certo de ritmo
Que lhe seja íntimo
E diga qualquer bobagem
Ou alguma coisa em que se acredita
O poema precisa de quem o leia
Ou veja
Ou sinta
Todo poema que se pretenda poesia
Necessita de que algum dia
Possa dizer o que não se entenda
Por isso é que não há fábrica de poema:
Qualquer forma que se lhe aplique
Pode ser que não o fabrique.

Imagem em universofantástico.wordpress.com.

9 de dezembro de 2012

O CARIOCA DE VERÃO

O carioca, quando não está roubando, assaltando e traficando, é um povo engraçado, hospitaleiro e inventador de moda. Sobretudo quando se aproxima o verão.
Pois não é que o verão está batendo às portas de nossa primavera envergonhada e produzindo temperaturas saarianas, condições mais que propícias a que o carioca comece a armar no nervoso do seu cérebro uma maneira de marcar esta estação?
Na semana passada, os adeptos da ioga (com ó e não ô, como querem os adeptos da ioga) de corpo sarado e gostoso inventaram a ioga sobre prancha de stand up paddle na Lagoa Rodrigo de Freitas.
A ioga (com ó aberto mesmo) mesma não está nem aí para essas novidades, porque vem de milhares de anos e é muito conservadora. Mas a gostosa que apareceu de biquininho no meio da água poluída da Lagoa conseguiu seu instante de febre, sua fama passageira, em poses para Kama Sutra nenhum botar defeito. Até eu, com minha provecta idade, senti certa comichão nas partes ao ver as fotos da bela iogue.
Não é que agora se inventou ioga (com ó) na corda bamba, a tal de slackline, a yogaline.
E tudo isso com nomes em inglês que é para os beócios de sempre, como eu, não saberem dizer, quando querem se mostrar antenados com a modernidade, em rodas de chope nos bares mais descolados, segundo a mais recente lista do jornal.
Mas a coisa não para na ioga (com ó)!
Inventaram também um novo penteado que deixa os cabelos com jeito de que acabaram de sair do mar em que se fazia surf. Mesmo a carioca que acabe de sair de seu ambiente sustentado a ar condicionado – as temperaturas têm sido, como disse, saarianas –, vai dar a impressão aos amigos e parentes que, na mentira, desceu de uma prancha de surf há alguns minutos. E fica com aquela cara de excelsa superioridade no quesito felicidade que só o carioca sabe fazer, para mostrar que mora na melhor cidade do mundo, principalmente se comparada a São Paulo.
Para que o tal efeito funcione melhor, usa-se um spray de alga marinha que, segundo informações, deixa o cabelo armado e cheirando a maresia. É que, na concepção carioca de vida, melhor cheirar a maresia que a eflúvios do Tietê.
E esse jeito orgulhoso do carioca para com sua cidade chegou até o quesito tatuagem: os cariocas estão plantando em suas peles reproduções de pontos turísticos e vistas da cidade. Umas, com estilo bucaneiro – aquele Cristo Redentor parecendo pirata do Caribe –; outras, com estilo Niemeyer – apenas dois riscos falsamente despretensiosos para reproduzir o contorno das montanhas da orla em antebraços, braços, coxas, cacundas e cangotes.
Fora a retomada de estilo de vida artística consagrado há décadas pelos Novos Baianos, em que um bando de gente se reúne em comunidade para tocar sua arte, seja lá ela qual seja ou mesmo que eles pensem que seja. O que, no fundo e afinal, não faz a mínima diferença. Só que agora, em vez de sítio, é um amplo apartamento dúplex com ar condicionado e o verbo utilizado é um verbo da moda: agregar. Pois é, tais comunidades estão agregando amigos, para que, assim, o furdunço soe da maneira mais muderna possível.
É... quando chega o verão, o carioca fica com o miolo mole e começa a inventar modismos.
Mas é melhor isso do que assaltar, roubar e traficar. Né não?

Cariocas aptos a inventarem modismos de verão (em sosriosdobrasil.blogspot.com).

3 de dezembro de 2012

FOR ABSENT FRIENDS*

Aqui não está o amigo que ficou pelo caminho
Não o vejo mais
Não o sinto como antes

Por que os amigos se perdem assim?
Por que somos levados para outros lugares
Tão distantes
Tão desconhecidos?

Por que os amigos se tornam criaturas estranhas
Com o tempo escorrido na folhinha
De muitos e muitos janeiros?

Aqui não está o amigo que não vejo mas sinto
Sinto-o perdido em algum lugar de minha memória
Sinto-o guardado bem lá no fundo do meu apreço

E se fecho meus olhos
Seu vulto surge tão nitidamente
Que parece que a vida está recomeçando
Nos mesmos espaços de outrora
Na mesma praça da cidade
Que ficou distante
Como os amigos perdidos no tempo.

Vincent VAN GOGH
V. Van Gogh, Le banc de Saint Rémy, 1889 (em impressionism-art.org).

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*Título de uma canção do Genesis, gravada no álbum Nursery Cryme, de novembro de 1971 e editado no Brasil pela Phonogram em 1972.

1 de dezembro de 2012

UNS GOSTAM DOS OLHOS; OUTROS, DA REMELA!


O problema todo foi Timóteo ter chegado cedo à casa da noiva, antes do horário combinado e sem avisar. Encontrou-a ainda em roupas de dormir, sem maquiagem, os cabelos desgrenhados, apeada de toda minuciosa produção com que se apresentava socialmente. Parecia uma assombração da Quaresma.
Nem na figueira mal-assombrada da curva da estrada da Fazenda da Liberdade, logo depois do grupo escolar, houve aparição mais esquisita na vila. Por isso ele começou a pensar seriamente em desembarcar do compromisso assumido com seu Dorival e dona Dozinha, pais de Carminha, a vítima de seus planos matrimoniais.

Carminha tinha uma irmã mais nova que ela três anos e toda apetrechada de beleza: Felícia. As duas juntas pareciam a prova contundente de que a natureza trata seus filhos, às vezes, como malvada madrasta: uma, feiosa de dar dó; a outra, de uma formosura brejeira de doer nos olhos.
Quando viu, pela primeira vez, as duas juntas, Timóteo imaginou, então que a vítima talvez fosse ele, como chegou a cogitar naquele malparado instante. Foi susto demais para coração tão desavisado. Porém havia força maior a nortear suas intenções.

Timóteo, na verdade, não era flor que se cheirasse. Tinha contra si todas as fundadas acusações que comumente se fazem aos mandriões, aos poltrões, aos dissipadores de pecúnia, aos desocupados. Vivia entre víspora e cisprandi, entre jogo de vida na sinuca do bar do Roldão e as apostas no jogo do bicho do seu César. Ganhava uma ninharia aqui, outra ali e ia tocando a vida nesse ramerrão.
Porém Carminha era de um encalhe só. A pobre coitada já nascera feia, mal ajambrada. E, logo no berço, pai e mãe viram que seria difícil a beleza, essa joia perseguida por todas as pessoas e engastada em Felícia como um brilhante, se afeiçoar a ela. Isto porque a beleza passou batida por Carminha de não dar as caras desde o berço, bem como na fase de menininha miúda. Quando ela chegou à fase da troca de dentes, a figura de Carminha fazia criança pequena chorar.

Quando botou corpo, cresceram-lhe os seios e arredondaram-lhe as formas, os pais tomaram a providência de enchê-la de cremes e bases, de lápis daqui e dacolá, em riscos nos olhos, batom nos beiços e cuidados nos cabelos de palha, para que não parecesse espantalho para moço desavisado.
Era preciso preparar Carminha para algum descuidado pretendente. Depois dos papéis assinados, o marido é que se virasse. E tinham a esperança de que os possíveis futuros netos desagravassem, um pouco que fosse, esse desapreço da filha pela beleza.

Era uma esperança legítima daqueles pais desconsolados, que circulavam com ela por todos os espaços sociais em que pudesse ocorrer a oportunidade de laçar um genro.
Por isso é que faziam questão de sempre estar de olho em possíveis pretendentes, aos quais prometiam alqueires de terra e plantações de café, além de outras benfeitorias que iriam deixar para o abençoado genro.

Dona Dozinha, não por acaso, era devota de primeira linha de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, a quem endereçava contundentes novenas e outras tantas promessas, além das doações costumeiras à capela da vila, com orientações para que o altar em que se aninhava a imagem da santa fosse o mais vistoso de todos, até mesmo do que o do Filho pendurado na cruz, “que Deus me perdoe por isso”, como sempre terminava suas orações.
Timóteo, contudo, foi mais ou menos encaminhado para ela, quando disputava uma partida de sinuca com Dorival, que chegou cheio de insinuações. E não teve como escapar de concordar com ele sobre certa esconsa beleza que se poderia entrever na cor dos olhos de Carminha, talvez um azul esverdeado, um verde azulado, herança de uns genes portugueses perdidos de muito antigamente.

Poltrão como era, Timóteo pensou que poderia suportar aquele tanto de feiura, no amparo da beleza de Felícia, que haveria de estar sempre próxima da irmã. E dirigiu-se, como boi para o matadouro, para o altar enfeitado para as núpcias, numa tarde fagueira de um sábado perfumado de primavera.
A igreja, abarrotada de gente, alguns com o único interesse em testemunhar o desencalhe de Carminha, coisa tida por inacreditável, outros com o sincero voto de que aquele desassombrado homem pudesse dar um pouco de felicidade à moça.

Num dos últimos bancos da igreja, sentou-se o amigo que viera de Campos dos Goytacazes para testemunhar os votos dos noivos. E, depois de ver a noiva chegar ao adro da igreja, não se conteve em saber de Timóteo por que, diabos, havendo duas irmãs – uma bela e outra feia que só aquela –, ele justamente optou pela feia.
Timóteo, até para se consolar e não deixar entrever seus interesses mais mesquinhos pelo dote da Carminha, disse ao amigo:

- É que uns gostam dos olhos, amigo; outros, da remela!
E seguiu resignado pela nau da capela de Santo Antônio de Liberdade, onde daria um fim àquela vida de incertezas e periclitâncias, seguido logo após por Carminha, em sua triunfante marcha para o desencalhe derradeiro.
Imagem em perfeitocasamento.com.br.