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22 de setembro de 2015

LUMIAR X SÃO PEDRO DA SERRA



Voltei de Lumiar ontem à tardinha. Já há alguns anos não ia por aquelas montanhas tão aprazíveis de Nova Friburgo. Até me lembro da agradável impressão de quando estive na vila de São Pedro pela primeira vez. Jane e eu chegamos no finzinho de uma sexta-feira comum, e me encantei vendo as crianças saindo da escola. Comentei, então, que nunca havia visto uma tão grande concentração de crianças bonitas, bem nutridas e felizes daquele jeito. Foi aquela primeira impressão que conquista o forasteiro.
Tempos depois, nosso amigo Eduardo Campos lá construiu uma bela casa a que, com certa frequência, íamos.
Por aquela época, São Pedro era o coração pulsante daquelas grimpas de serra. Lumiar, embora famosa pela canção magistral de Beto Guedes, mostrava-se extremamente pacata, recatada, como uma donzela pudica. Sua noite não tinha nada de excitante ou convidativa. São Pedro era o que se podia esperar de um lugarzinho pequeno e agitado, embora mantendo seu ar interiorano tão encantador.
Desta vez foi diferente.
Lumiar está um outro lugar. Transformou-se. Aquilo que nos parecia abandonado pelo poder público, como o laguinho no centro da cidade, que se resumia a uma grande poça d’água feiosa, agora está cuidado, com as margens perfeitamente urbanizadas, iluminação destacada e um entorno de bares e restaurantes, com mesas externas, música ao vivo e sedução para uma parada, uma cerveja artesanal, um vinho correto, uma comidinha honesta.

Lumiar à noite (foto do autor).
A antiga pracinha acabou de ser reinaugurada, com o tradicional coreto em seu centro, e está rodeada de lugares acolhedores para o encontro dos amigos. Por seu lado, as crianças divertem-se pelo espaço renovado com cuidado arquitetônico. O agito veio para cá.
São Pedro, ao contrário, perdeu seu elã, sua badalação. Os antigos hippies que faziam o sucesso de lá já não são notados. O agito tornou-se calma e modorra.
Durante um show na pracinha de Lumiar, no último sábado, uma mulher aparentemente doidona invadiu a apresentação do cantor que se se fazia acompanhar ao violão, para cantar sua versão de Hotel California, sob o riso generalizado dos que ali estavam. Ela terminou sua performance com o grito eufórico de que “São Pedro tinha virado um cemitério”.
Fiquei triste.
Nem São Pedro, nem Lumiar merecem este antagonismo antigo e estúpido que tanto rivaliza estados, cidades, vilas, bairros, ruas e gente vizinha. Podemos crescer juntos, sem que o outro regrida. Contudo é o que pude observar nesta última passagem por essas duas vilas simpaticíssimas da serra fluminense.
Seria tão bom que tanto São Pedro da Serra, quanto Lumiar, pudessem ter seu charme, seu encanto e sua badalação própria, sem que uma vila se sobrepujasse à outra.

Gostei muito de ver Lumiar como está agora. Mas fiquei triste em constatar que São Pedro, aonde já fomos passar o réveillon de 2003, logo depois de tê-lo feito em Paris em 2002, perdeu seu jeito todo especial de conquistar o visitante. Seus escolares devem continuar tão bonitos quanto antes, mas sua noite já não tem mais o encanto de outrora.

Encontro dos rios, Lumiar (foto do autor).


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PS: Excluído e republicado por ter saído com incorreções que não puderam ser corrigidas no texto anterior.

10 de setembro de 2014

QUINTA-FEIRA EM ROMA

(Para Jane, Rosa e Rogério.)

Ando pelas ruas de Roma à procura de personagens e cenários de Roma de Felini, de 1972, magistral filme do não menos magistral diretor Federico Fellini.
Aqui cabe uma digressão sexagenária. Tenho como grandes do cinema os diretores italianos: além de Felinni, Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti e Vittorio de Sica. Todos os demais hão de me perdoar.
Mas, como dizia, procurava sobretudo certo largo da cidade, em frente a uma igreja de estilo romano, em que se comemorou com uma lauta macarronada o dia de San Genaro.
Claro que não achei. Nem a igreja de San Genaro, nem o Largo de San Genaro, nem aquele italiano gordo que levou a gigante panela de pasta para o deleite da pequena multidão aglomerada no enquadramento da câmara comandada por Giuseppe Rotunno. Seria impossível achá-los. Mas a cena se estabeleceu em minha memória de forma definitiva. Lembro-me, mesmo, de que saí da sessão no extinto Cinema Icaraí e fui direto para a Gruta di Capri, ainda hoje no mesmo endereço da Rua Miguel de Frias, saciar o desejo por um suculento espaguete.
Mas nem toda a procura se revelou vã.
Na quinta-feira (4/9) à noite, fomos até a margem do Rio Tibre, para comes e bebes. O local, que os romanos chamam de Lungotevere e tem por acréscimo a região onde está, lembra um pouco as margens do Sena, em Paris, onde, durante o verão as pessoas vão para comer, beber; divertir-se, enfim. Tínhamos a indicação de um amigo da Rosa, nossa parceira de viagem, com o Rogério.
O taxista que nos conduziu nos deixou além do rio, no Trastevere, pela ponte Garibaldi, no trecho conhecido como Lungotevere della Anguillara onde estavam armadas várias tendas de comidas, bebidas e badulaques em geral. Durante três meses por ano, naqueles menos frios, isto é uma espécie de diversão dos moradores da cidade.
Descemos pela escadaria ao lado da ponte, até a margem do rio, cujas águas não me pareceram totalmente limpas. Ali, porém, não encontramos nada de interessante, e sobrelevava no ar um cheiro enjoado de fritura de camarão vinda de uma das barracas. Para não passar de todo em branco nossa ida ao local, Jane comprou algumas lembrancinhas. Embora o local fosse agradável, e a temperatura da noite convidativa, retornamos pela ponte e seguimos pela Via Arenula, à procura de um bom lugar para comer. Até que vimos uma ruazinha estreita e simpática – Via de Santa Maria del Pianto –, em que avistamos pessoas sentadas a mesas de bares.
Passamos por uma espécie de tronqueira moderna, que impede a passagem de autos e motos, e, num pequeno largo encontramos alguns restaurantes, um deles, inclusive, com cerca de duas dezenas de crianças que pareciam comemorar o aniversário de uma delas. Curiosamente, ao passarmos, ouvimos um dos pequenos dizer “É tudo brasileiro!”, assim mesmo, na língua de Camões e Tom Zé.
Percebemos que esta é uma área de restaurantes judaicos, pois todos ofereciam comida kosher. Um, contudo, nos chamou a atenção pelo ambiente: o Beppe e i suoi formaggi, cujo nome faz uma evidente alusão ao filme Rocco e i suoi fratelli, famoso drama de 1960 de Luchino Visconti.
Depois de alguma troca de ideias, optamos pelo Beppe e qual não foi nossa agradável surpresa. Estávamos numa casa – como o nome indica – especializada em queijos. Ao abrir a porta, fomos atacados pelo sensacional cheiro dos queijos dispostos dentro de um comprido balcão de vidro. Se o odor sugeria, a visão convidava.
Tivemos sorte de, não tendo feito reservas, encontrar mesa vaga.
O serviço é gentil, atencioso, porém vagaroso, como aliás está assinalado em cada página do cardápio. A pressa ali não tem vez. E foi preciso que recalibrássemos nossas expectativas para aquilo que agora chamam slow food.
Jane e Rosa optaram pela mesma salada verde, com pequenos pedaços de tomates, queijos, nozes e croûtons. Rogério e eu nos deliciamos com uma tábua com oito queijos diversos, produzidos com leite de vaca, de cabra e de ovelha, cada um deles explicado, e colocados na ordem da degustação. Acompanhavam os queijos um pouco de geleia, uma espécie de gelatina de mel e condimentos secos espalhados no centro da tábua, que na verdade era uma folha de metal escuro, com caroços de romã, que deram um toque todo especial aos queijos. Para o toque de harmonia, um vinho branco Elena Walch Pinot Grigio, Alto Adige DOC, pois a noite não estava muito fresca. Ao deixarmos o local, sentado ao lado do balcão dos queijos, um italiano nos saudou com um Viva!, erguendo sua taça.
Saímos dali praticamente purificados. E, para completar o fascínio da experiência, após alguns instantes esperando um táxi que nos reconduzisse ao hotel, fomos surpreendidos por uma bela e jovem taxista italiana, a fazer sua última corrida da noite.
Não se gastou nenhum euro em vão!

Tábua de queijos do Beppe e i suoi formaggi (foto do autor).

6 de setembro de 2013

RETOCANDO O COLESTEROL


Estive em Tiradentes, neste último fim de semana, retocando meu colesterol.

Vou sempre lá com a Jane e amigos. Desta vez, em petit comité, com Rogério e Laura. Mas já fomos em bando de mais de vinte amigos. Nunca há erro. Nunca há deslizes ou equívocos, e cada vez é sempre inusitada.

Tiradentes deve ser o meu destino preferido de viagem.  Até mais que Paris, porque mais acessível.

Já disse alhures que devo ter uma alma colonial, inconfidente; mineira, enfim. Ou não há outra explicação para esta identidade tão grande. Mesmo para mim que não acredito em almas. Deste ou do outro mundo. Mas é que há uma sintonia fina, em HD, sei lá, com a cidade. E, reparem, não tenho o mínimo interesse em morar lá: aquelas pedras do calçamento destruiriam o que ainda sobra de sadio em meus joelhos, já tão propensos à artrose.

Mas vou lá para retocar meu colesterol. Que meu endocrinologista não me leia! Contudo continuo tomando a droga que ele prescreve e entro de sola - ou melhor, caio de boca - em torresmos, costelinhas, lombinhos, linguiças, tutus, feijões tropeiros, movidos a cerveja e pinga. Que ninguém é de ferro! E, à noite, há libações enológicas de muito bom gosto, dentro dos limites que a economia nos impõe. Porque, se pobres ou minguados de pecúnia, somos soberbos em bom gosto.

A vida sem colesterol deve ser muito sem graça. Desde que nasci, no interior do Rio de Janeiro – em Carabuçu, para ser mais preciso –, ando de braços com o colesterol. Lá somos – ou éramos, pelo menos – criados à base de carne de porco e seus embutidos magníficos, o chouriço e a linguiça no topo da lista. Ainda hoje, em Bom Jesus do Norte, onde mora, minha mãe mantém nacos de porco mergulhados em gordura. Nunca falta carne numa emergência.

Aí vem a ciência médica e nos exige exames disso e daquilo, vampirismo em sangue alheio, e olha lá a taxa de colesterol gritando contra os abusos de dezenas de anos e um sedentarismo confortável. A gente se assusta. Eu, sem querer afrontar demais o progresso da ciência, me resigno a cuidar das (mal)ditas taxas, a fim de não sofrer um entupimento nas vias sanguíneas e fechar o paletó antes do tempo.

Entretanto não abro mão dos prazeres que aprendi a cultivar desde a mais tenra idade, quando era testemunha da matança de porco empreendida por minha saudosa avó Maína ou por minha tia Alda, que ainda está entre nós e não me deixa mentir.

Devo confessar que não tinha pena do bichinho, pelo muito de delícia que ele nos proporcionava. Ainda hoje também não tenho. Sobretudo quando se vai a Minas Gerais, onde o porco é o rei da culinária.

E em Tiradentes, no Bar do Celso, por exemplo, local a que nunca deixamos de ir, todas as vezes que chegamos à cidade, entramos na orgia gastronômica tão mineira, tão brasileira e tão carregada no colesterol. Mas quem há de resistir, tendo essa minha história gourmand, esse pedigree caipira que come carne sem constrangimentos. Não porque não tenha pena do bichinho, mas porque o ser humano só come outro ser vivo, como a couve, por exemplo, tão esquecida nesses argumentos politicamente corretos.

Voltei com o colesterol lubrificado. E a alma mineira – se é que ela exista – retemperada. No alho, na cebola, na pimenta-do-reino e no alecrim.
 
Imagem em gastronomirian.blogspot.com.br.

(PS: Em Miracema, utilizando o modem da Vivo, é impossível conexão decente com a Internet. Por isso, esta postagem vai sem ilustração. Tão logo seja possível, ela aqui estará.
PS2: Incluí a imagem, como podem ver aí.) 

17 de agosto de 2013

INUMERÁVEL CIDADE (Crônica de Paris IV)


(Para Jane.)


Estou aqui, sentado em minha poltrona, lamentando o que não vi/fiz em Paris, nesta última visita.

Paris é dessas cidades que, tão logo a deixamos, infunde na gente o sentimento da falta, do não feito, do não curtido, daquilo que não se usufruiu. Apesar de você fazer o mais, daí a pouco lhe bate a sensação de que foi o menos. Que faltaram várias coisas. É só começar a rever as fotos, a percorrer com o dedo o mapa da cidade que trouxe da viagem.

Tenho a impressão de que será sempre assim, por mais que a visitemos.

De uma feita, fiquei durante vinte e três dias com meu filho Pedro. Além dos jogos da Copa do Mundo, motivo central da viagem, andamos por vários cantos da cidade, caminhamos longamente por muitas ruas, avenidas e bulevares. Visitamos vários museus. Sentamo-nos para tomar chope e cerveja, a bebida preferida dele, em diversos bares. Também bebemos vinho em alguns outros. Percorremos diversas lojas de cds – música é uma das nossas maiores paixões. E, mesmo assim, não vimos quase nada. É que Paris é uma cidade inumerável, incontável, praticamente infinita de possibilidades.

Há pouco, você, leitor, sabe, Jane e eu voltamos de lá, aonde fomos levar nossa netinha Gabriela, filha do Pedro, para um passeio infantil. A estada só não foi perfeita, porque sobraram intenções. Não conseguimos fazer tudo o que pretendíamos em dez dias. E tudo o que pretendíamos era uma parte pequena do que a cidade oferece, até mesmo para crianças. E Paris tem tão pouca fama de cidade para miúdos. Como disse certa vez Jaguar, no Pasquim: ledo engano ivo!

Paris é cheia de atrações para todas as idades, para todos os gostos. Evidentemente desde que o viajante tenha gostos. E não se limite a um só, como aquele nosso companheiro de pacote da Copa do Mundo ligando do orelhão do hotel em que estávamos. Aos berros, dizia para a mulher: “A cidade é uma merda! Não tem nada para a gente fazer!”. Talvez ele estivesse fazendo coisas inconfessas e quis iludir a esposa a milhares de quilômetros. Ou, na verdade, era uma besta quadrada mesmo, que só enxergava a bola rolando como o fim último da existência.

Por isso é que, agora, estou aqui, sentado em minha poltrona, a refletir sobre tudo o que não fizemos lá desta vez. E já sentindo uma comichão para uma nova viagem, a fim de experimentar várias outras coisas que não fizemos. E, depois, quando voltar, começar a sentir tudo de novo.

Porque Paris é inumerável, incontável, praticamente infinita em possibilidades.
Pont Neuf à noite, Paris (foto do autor)

29 de julho de 2013

TURISTAS, OH! OS TURISTAS! (Crônica de Paris III)

Pôr do sol em Paris, com o Sena e suas pontes (foto do autor).

Vendo a multidão de turistas que invade Paris no verão, fico imaginando o que não deve sentir o habitante da cidade.

Eu, com certeza, não quero isso para a minha. Podemos até mesmo viver um pouco menos rico, com o dinheiro que certamente eles trariam. Mas vivemos muito mais confortavelmente.

Com certeza os que vivem do turismo até toleram o desconforto de tanta gente, que fala as mais estranhas línguas do planeta, já que o dindim faz suas caixas registradoras tilintarem. Mas o morador comum, aquele que tem de tocar sua vida regularmente, cumprir seus afazeres diários, deve odiar esta invasão de novas hordas de bárbaros semicivilizados, que fazem de Paris a cidade mais visitada do mundo.

Não há recanto da cidade em que estive em que lá também não havia mais turistas. Eu mesmo, um deles! E, às vezes, embora gostando de cada passo pela cidade, me sentia um intruso a atrapalhar a rotina que faz o conforto dos moradores.

Já estou em Niterói. E agora cedo fui à rua andar para fazer alguma coisa e me deparei com alguns jovens que aqui estão para a Jornada Mundial da Juventude. Não são tantos quantos os turistas que infestam Paris no verão, mas já provocam uma mudança na vida da cidade, apesar de ainda não causarem o tal desconforto que imagino existir.

Lá, por exemplo, não conseguimos nem ultrapassar as roletas de entrada do Louvre, tal era a aglomeração de visitantes. Para subir à Torre Eiffel, enfrentamos uma fila serpenteante de mais de duas horas, até atingir o topo, onde já chegamos com nossa neta cheia de sono. E demos, apenas, uma vista d’olhos lá de cima. Nos parques Euro Disney e Asterix, novas filas e atropelos. Parece que a infância e a juventude da Europa marcaram encontro na mesma data nesses locais.

Pouco andamos de metrô. Preferimos os ônibus, para que pudéssemos ver melhor a cidade. Nesses, no entanto, o sufuco não foi tão grande, até porque as linhas também não atendem todos os pontos da cidade com a eficiência do transporte sobre trilhos.

A glória de ser a cidade mais visitada talvez não seja um motivo de orgulho para os parisienses. Ao contrário, talvez constitua uma grande chateação em suas vidas.

De qualquer forma, sempre que tiver oportunidade, darei uma passada por lá, porque não tenho culpa por eles terem feito uma cidade tão interessante. O que posso prometer é não fazer como um bando deles faz: sujar as ruas da cidade com o descarte de garrafas de água, papeluchos, restos de coisas.

Pelo menos, neste ponto, sou um turista um pouco menos inconveniente.

27 de julho de 2013

AU REVOIR, PARIS! (Crônica de Paris II)


De volta ao avião, para retornar a casa, ao lar de todas as seguranças e confortos.

Cada viagem que fizemos com nossa netinha Gabriela se transformou em uma experiência específica. Desde quando ela morava em São Paulo e mal tinha dois anos. Gabi sempre foi uma pessoa especial em nossa vida. Talvez porque tenha sido a primeira neta, como agora ocorre com Francisco, para os seus avós paternos.

Não houve uma única viagem que não nos tenha deixado lembranças. Pelo menos, enquanto o alemão perverso não nos venha dominar - a mim e à sua avó Jane.

Nesta viagem de agora a Paris, Gabriela se mostrou como sempre uma pessoa marcante. Ela tem tão-somente oito anos, mas sua maturidade está além desta marca etária. Esperta, antenada, consciente, crítica, observadora, parece muito mais velha e experiente, do que seu minúsculo ajuntamento de idade sugere, como se a vida fosse uma coisa muito natural de ser vivida, sem grandes preocupações. Em outras palavras, Gabi quase nunca se atrapalha.

No hotel em que ficamos, em minha ausência, ela se virou para estabelecer comunicação com a camareira, fazendo de tudo, até conseguir.

Andando pelas ruas de Paris, sempre se mostrou orientada e chegou ao ponto de dizer, quando fomos à Bastilha, por recomendação específica de seu pai, em virtude de toda carga histórica do lugar, que talvez já se estivesse esquecendo do português, tal era sua identificação com a cidade. Demos boas gargalhadas com sua frase.

Agora estamos de volta, ao berço esplêndido, à casa da mãe gentil, com um sem-número de novas informações em sua tenra cabecinha - que nós, adultos, assim julgamos, muito pela pretensão da nossa própria idade. Informações essas que, para ela, constituirão experiências únicas, inolvidáveis, através das quais eu me pretendo tornar menos mortal, menos passageiro, como o sabor do sorvete Berthillon, que ela provou no sábado, na Ile de Saint Louis, e disse, com alegria, ter sido o melhor já experimentado em toda sua pequenina vida.

Au revoir, Paris!
Imagem em around-the-world.wardspace.co.uk.

25 de julho de 2013

PARIS, ALORS ALLONS Y! (Crônica de Paris I)


Há dois anos, prometi a minha netinha Gabriela, então com seis, que a levaria a Paris quando ela tivesse oito anos.

A promessa teve basicamente três motivações.

A primeira, é claro, é a cidade em si. Quando lá estive com Jane, pela primeira vez, fui acometido de uma emoção tão peculiar, acachapado pela beleza da cidade como espaço urbano recheado de cultura e história - aquilo que a mão humana é capaz de fazer, ao intervir no meio -, que tive a convicção - talvez um tanto islâmica, confesso - de que todo ser humano deveria ter o direito de, pelo menos uma vez na vida, ir a Paris.

A segunda era para que eu tivesse um tempo razoável, a fim de dar certa ordem econômica à minha vida, sempre tão propensa ao dia de hoje, ao carpe diem. A imprevidência com o futuro é o mote que me move.

A terceira e última é aquela que não deveria confessar de público, porque há de me tornar quase um monstro calculista a olhares mais sensíveis. Quis esperar que ela passasse aquela primeira fase da amnésia infantil, tivesse com seu disco rígido cerebral cheio terabytes livres, para que, daqui a oitenta anos, possa dizer para seus netos e bisnetos que seu avô foi o primeiro a levá-la a conhecer a Cidade Luz. Porque, se há uma pretensão em mim, é a de que não morra, tão logo o meu cadáver seja inumado sob primitivos sete palmos, ou sofra um processo de churrasqueamento tão em voga. Justamente eu, que não acredito em outra vida, sou dado a essa preocupação.

Agora estamos os três – ela, a avó e eu – num avião rumo à capital da França.

Em casa, um pouco antes de sair, chamei-a para dizer sobre a cidade e o país, e a importância tão acentuada que já tiveram para o mundo. Seu pai já a havia também preparado.

Recentemente ela esteve na Flórida, com os pais, o irmão e os tios, para desfrutar dos parques de diversões, o que poderia ter como parâmetro para esta viagem de agora.

No momento, enquanto estamos a caminho do nosso destino, em cuja programação também estão incluídos parques, castelos, viagem de TGV, passeios por pontos turísticos tradicionais e as baladas badaladas de Paris, não sei qual será o resultado desta viagem. Daqui mais alguns anos, contudo, há de ser uma mina de que ela extrairá preciosas joias de sua experiência.

Paris, alors allons y!
Imagem em zazzle.com.br.

11 de junho de 2013

TOMANDO UM TÁXI EM PARIS


Pedro e eu tínhamos ido à França para a Copa do Mundo de 1998, para a segunda fase, a partir das quartas de final.
Fomos numa excursão da extinta Grantur Turismo, que nos hospedou num hotel recém-inaugurado da rede Accor - o Etap - em Saint Ouen, na Rue du Docteur Babinski, juntinho da antiga muralha que circundava Paris.

Sempre que íamos circular pela cidade, tomávamos um ônibus em seu ponto inicial na Avenida de Saint Ouen, a uma pequena caminhada. A estação do metrô era um pouco mais distante.
O primeiro jogo que vimos foi aquele Brasil 4x1 Chile, no estádio Parc des Princes.

A Seleção deu um chocolate nos chilenos. Parte da torcida adversária também se hospedava no Etap e passou parte daquele dia, antes do jogo, cantando uma espécie de mantra:
- Brasil es un caramelo! Ô-oooô! Brasil es un caramelo! Ô-oooô!

Sem entender muito bem o sentido obscuro que pudesse estar por trás daquela frasezinha cantada à exaustão, de forma provocativa, depois do jogo indaguei a um chileno sobre o que, diabos, queriam eles dizer. Sem graça, pela coça que levaram, o chileno me explicou, então, o óbvio: caramelo era caramelo mesmo, doce, saboroso e fácil de ser comido.
Ri da ingenuidade de nossos hermanos e de seu jeito inocente e pré-histórico de torcer. Enquanto eles nos chamavam de caramelo, nós os mandávamos tomar naquele lugar e xingávamos a mãe deles, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ali vi que os chilenos ainda estavam na fase romântica como torcedores de futebol. Nós estávamos na pós-moderna.

Porém, o que interessa aqui, pelo título da crônica, é outra coisa.
Depois da partida, voltamos ao hotel, tomamos um banho rápido e partimos em direção à Avenida dos Campos Elíseos, a famosa Champs Elysées, que os franceses, com orgulho, dizem ser a mais bela avenida do mundo. Lá era o local de comemoração da torcida brasileira, como soubemos.

Devemos ter chegado à Avenida por volta das vinte horas e nos juntamos a vários torcedores patrícios, que agitavam bandeiras, vestiam camisas e portavam outros símbolos verde-amarelos. Cantávamos, gritávamos, comemorando a vitória. Tudo de forma bastante civilizada, como convinha ao local.
Após certo tempo, resolvemos jantar num dos restaurantes da Avenida, o Léon de Bruxelles, de uma cadeia que serve o prato nacional belga, que chamou nossa atenção: moules et frites, que traduzido em língua de gente significa mexilhões com batatas fritas. Aquela combinação estranha nos desafiou, e, desconfiados, pedimos uma das diversas fórmulas combinatórias para o serviço: uma panela média cheia de mexilhões ao vapor, com batatas fritas em refil, tipo coma o quanto quiser. Combinamos o prato com uma cerveja de que não me lembro mais. E foi excelente!

Ao final do jantar, já mais de uma hora da manhã, saímos do restaurante para retornar ao hotel. Metrô não havia mais. O serviço noturno de ônibus, com oferta muito mais restrita, também não chegava até onde estávamos hospedados. Restou-nos, então, o táxi.
Fiz sinal para dois. Os motoristas, assim que reconheciam meu sotaque estrangeiro, davam partida no carro. Não estavam ali, àquela hora da madrugada, para transportar turistas. Estes que se virassem.

O hotel ficava longe da Avenida, e não estava em cogitação andar até lá, embora todo o percurso fosse plano e não difícil. De dia, até andávamos mais do que a distância entre o hotel e a Champs Eliysées. À noite, porém...
Até que, logo após um dos táxis se recusar a nos levar, parou um automóvel americano antigo, bem conservado, com um rapaz ao volante. Ele se dirigiu a mim e perguntou se estávamos querendo um táxi. Eu disse que sim, e ele se prontificou a nos levar até o hotel. Achei aquilo estranho. Perguntei por quanto nos levaria até lá e ele deu o preço, alto, que foi negociado: oitenta francos (ainda não havia o euro). Falei com Pedro sobre o que estava acontecendo e combinei que eu iria no banco da frente, ao lado do motorista, e ele atrás, para, em caso de qualquer atitude suspeita, o meu filho providenciasse uma gravata de tecido muscular no cou (pescoço) do francês.

Fomos conversando até a Porta de Saint Ouen, juntinho ao hotel. Durante o trajeto, ele me disse ser universitário, vindo do interior para a capital, e que fazia esse tipo de “serviço” para conseguir um troco, pois sabia que os taxistas da madrugada, em Paris, têm uma má vontade histórica em transportar passageiros não franceses. E o dinheiro apurado ajudava na sua manutenção na cidade, uma das mais caras do mundo à época.
Acabei descobrindo que ele fazia Letras, como eu fizera entre 68/71 no Brasil, e percorremos todo o trajeto falando de língua, literatura e futebol, naturalmente, já que a Copa do Mundo estava fervendo na terra de Victor Hugo e do Corcunda de Notre Dame.

Melhor do que ter tomado um táxi com motorista mal-humorado e que, possivelmente, não trocaria um dedo de prosa com turistas chatos, vindo de países subdesenvolvidos. Arre! Malheur!
Edouard Cortès (1882-1969), O Arco do Triunfo e a Champs Elysées, crespúsculo (em worldpaintings.tumbir.com).