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26 de abril de 2019

JOÃO PERIGOSO


João Perigoso era perigoso lá para a negas dele. Em casa, andava pianinho, pisando em ovos. Só dava palpite se Dona Encrenca, este o modo como se referia à sua santa esposa nas rodas do botequim do mercado, fizesse inquirição de sua pessoa em matéria de cano furado, curto-circuito e assuntos adjacentes. No mais, não tugia nem mugia, sob pena de levar descompostura em que sua periculosidade descia às raias de traquinagens de criança de fralda.
Na vida civil, contudo, por uma questão tocada na base do sopapo numa pelada de futebol não se sabe quantos anos atrás, quando ganhou o apelido, fazia de conta para manter o eco do bofete liberado nas ventas de um rapaz franzino que ousou dar-lhe uma tesoura voadora, no exato instante em que ia inaugurar o placar do jogo entre os de camisa e os sem camisa, num acanhado campinho de chão batido e traves de bambu. Coisa de somenos importância, de relevância discutível. Naquele instante, entretanto, no destampatório de que foi possuído, levou a mão aberta no pé do ouvido do magrelo, e passou a carregar o assustador apelido de Perigoso, que, a partir de então, substituiu por completo o sobrenome de família, de que nem tinha assim tanto orgulho: Morgado. Foi até um progresso: de Morgado a Perigoso.
Só dona Engrácia, a Dona Encrenca, nunca deu bola para seu afamado marido. Aliás, desde que começaram a entabular namoro, nos idos do governo do General Gaspar Dutra, ele já portava tal alcunha. Com ela, contudo, ele jamais tirou farinha, jamais levantou a voz, jamais questionou seus desejos. Vivia num cabresto curto, dando conta de cada passo seu, a fim de não ferir as suscetibilidades de Engrácia, conhecida desde a escola primária por seu mau gênio. E passou de namorado a noivo, de noivo a marido, sempre nessa levada, porque não gostava de guerras conjugais, como garantia. No sacrossanto recesso do lar, conforme pontificava, gostava de que reinasse a paz. Deixava seu proceder periculoso apenas para a vida mundana, nos extravasos do espaço doméstico.
- E aí, Perigoso? Qual é a última?
Perguntavam-lhe sempre que adentrava o recinto pé-sujo do botequim do Braz, para beber umas e outras e inventar reinações que nunca tinha vivido, apenas para manter a fama de mau, como na canção do Erasmo. E dizia do arranca-rabo num baile a candeeiro lá pelos lados da Serrinha, em que teve de exemplar um dançarino audacioso, que passou dos limites na saliência com a filha de um amigo. E contava do causo no jogo do Liberdade, em que invadiu o campo para exigir do árbitro a validação de um gol do time da casa, em total impedimento. A turma do deixa-disso correu atrás, para sossegar o possível perigo que ele causaria ao clube, no julgamento da súmula durante a reunião da Liga Bonjesuense de Desportos, a rigorosa LBD, na semana entrante. A diretoria do Liberdade, aliás, enviou ofício caprichado à Liga, eximindo-se de toda e qualquer responsabilidade por “aquele ato insano e de todo reprochável”, como no segundo parágrafo aduzia o remetente.
Outras periculosidades de menor perigo ele nem avalizava. Uns e outros se metiam a inventar histórias suas, nas rodas de conversa em torno da sinuca do bar do Mateus, na Coreia, e ele posava de superior. Não daria aval a coisa menor, a temeridades banais. Com ele, pelo menos no quesito ostentação, era só coisa desassombrada, coisa de vulto, que pudesse deixar os circunstantes de queixo caído.
Mas, um dia, as coisas não funcionaram a contento. Estava ele passando o giz no taco, a fim de tafuiar a bola sete na caçapa do lado direito da mesa, quando dona Engrácia, a indigitada Dona Encrenca, adentrou os domínios masculinos daquele recinto de jogatina e beberagem e exigiu dele, diante de todos os presentes, e para humilhação total de sua alcunha, que imediatamente retornasse a casa, a fim de acabar de lavar a louça que deixara pela metade.
Daí em diante João Perigoso não se aprumou mais. Avexado com a situação, ficou quase quinze dias sem pôr a cara na moldura da janela que dá para a rua. Enfim, quando saiu de seu esconderijo de opróbrio, levou pelas fuças mais uma ofensa de um moleque que passou pedalando morro abaixo:
- João Dengoso!
E nunca mais ninguém ouviu falar, em Liberdade, de um tal João Perigoso. De João Dengoso também não, porque, na semana seguinte, já se tinha bandeado, com todos os seus pertences, mais Dona Encrenca, para os lados de Nanuque, bem na divisa do Espírito Santo com a Bahia, onde ninguém soubesse da má fama que acabara de adquirir.

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17 de fevereiro de 2019

A LOURA LUDOMANÍACA


Jane e eu tomamos as poltronas 17B e 17C do Airbus 318 da Avianca de volta ao Rio de Janeiro, saindo de São Paulo. Um pouco depois que nos sentamos, chegou a companheira de viagem do assento A da mesma fileira. De imediato, vendo a tela diante de cada poltrona, exclamou feliz:
- Oba! Tem joguinho.
Devo dizer que ela não é jovenzinha. Deve ter por volta de seus quarenta e lá vai fumaça, cabelos louros um tanto desgrenhados, pele queimada de sol e grandes óculos de lentes corretivas.
Os avisos costumeiros acabaram, e a tela ficou disponível para os passageiros. Ela logo tirou o controle escamoteável de seu habitáculo, selecionou alguma coisa e passou a digitar o teclado. E não aceitou o lanche e a água oferecidos, tenho a impressão, para não interromper seu lazer fortuito.
Confesso que durante os quarenta e poucos minutos de voo tentei cochilar e não prestei muita atenção ao que ela e os demais passageiros faziam. Só fiquei atento, quando a aeromoça baixinha, com porte de cão farejador, vinha conferindo, fileira por fileira, cada um de nós, a fim de ver se tínhamos atendido o comandante, que anunciara o pouso dentro de poucos minutos no Santos Dumont. Ela, então, pediu à colega da cadeira em frente que voltasse o assento para a posição vertical e à nossa vizinha da poltrona A que desconectasse a tomada USB de seu celular e voltasse com o controle da tela para o habitáculo.
A loura de cabelos desgrenhados fez menção de voltar com o controle ao seu lugar, enquanto a comissária de bordo a olhava, mas refugou o gesto, assim que ela seguiu adiante em sua vigília.
Fiquei cabreiro com a loura, a imaginar o avião se precipitando ao solo, apenas porque a viciada não largou nem um instante aquele controle. Será que ela não tem consciência da desgraceira que poderia causar, por causa de um joguinho de voo?
Mas ela continuou a jogar, até que a aeronave pousasse e Jane e eu nos levantássemos e fôssemos embora.
Já no saguão do aeroporto, à espera do táxi que nos traria de volta a casa, vimos a vizinha de viagem, a loura oxigenada, de cabelos desgrenhados e ludomaníaca, passando em passos comedidos e mexendo freneticamente no celular. Jane ainda observou:
- Acho que continua jogando.

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5 de fevereiro de 2019

GRACINHA E GUMERVAL


Gracinha herdou da mãe a alvura da pele, as sardas de ferrugem do rosto, os cabelos ruivos encaracolados. Do pai, Gracinha herdaria fazenda de caprichada extensão, com gado subindo e descendo morros, pastando para engorda e produzindo carroças de queijo curado. Por isso era considerada a moça mais interessante da vila. Sua beleza tinha, assim, o brilho de sua herança.
Morava numa vasta casa de várias portas e janelas, com eira, beira e algumas outras besteiras de que os demais habitantes da vila não desfrutavam. Por exemplo, geladeira, que em sua casa, no tempo em que não havia luz elétrica, era um luxo movido a querosene. Só ela e os pais – fora as visitas de prestígio – tomavam água geladinha. Até mesmo o velho guarda-comida, peça mobiliária presente na casa de quase todos, na dela era coisa morta e enterrada de alguns verões.
Contudo Gracinha não fazia conta de nada disso, para que se considerasse o melhor partido dentre todas as moças do lugar, por causa da filha do padeiro, Margarida, e sua, dela, cor de jambo, seu cabelo negro e liso, a chegar até as duplas covinhas da anca, só vislumbradas quando ela tomava banho no açude do valão Liberdade. Mais o jeito brejeiro de andar, a cruzar as ruas e entortar as cabeças dos homens pelas esquinas. Coisa de deixá-la com profunda e silenciosa inveja. Inveja ressentida de moça de maiores posses materiais, porém menos riqueza física. Sabia que em beleza não podia concorrer com a rival, apesar de ser ela a preferida dos rapazes do lugar, os quais, no entanto, achava bobos e mocorongos.
Por essa época, a vila não oferecia futuro promissor a nenhum dos rapazes que circulavam na pracinha nos finais de semana à procura de uma namorada. Para isso, havia, então, um ritual marcado, contra o qual não se lutava: as moças passeavam no sentido horário; os rapazes, no sentido anti-horário, de modo que era possível, a cada volta completa pela praça, flertar – verbo da época – a pretendida duas vezes, em trezentos e sessenta graus.
Até que, num sábado à tardinha, surgiu moço de blusão de couro, capacete de couro, óculos protetores, botas compridas até quase o joelho, roncando o motor poderoso de uma brilhante motocicleta preta, guidão alto, assento baixo com o banco do carona em couro acolchoado, terminando em franjas.
O estranho chegou à vila com a missão de conquistar a futura herança de Gracinha, não importassem os sacrifícios que teria de fazer. Soubera, por fonte amiga, que a moça, embora não fosse feia, também bonita não era, mas que o futuro estaria garantido sobre os alqueires, as vacas e a produção leiteira. E ele sempre fora um aproveitador de ocasiões.
Mesmo a motocicleta reluzente havia sido o último presente que recebera de viúva rica, a quem cortejava, antes que os filhos dela interferissem no caso e dessem uma carreira nele, a poder de um parente de maus bofes lotado na Invernada de Olaria, dos velhos tempos da Invernada de Olaria de tão sombrias lembranças.
Quando a moto soltou o último suspiro carbônico na pracinha da vila, o coração da menina parece ter sido abduzido, e seus olhos se fixaram naquela figura desconhecida. Pode-se dizer que foi amor à primeira vista, bem de acordo com o espírito romântico dela.
O estranho recém-chegado atendia pelo nome de Gumerval dos Prazeres, um criado ao dispor da moça, com rapapés e tudo mais que pudesse impressionar.
Do assalto ao coração de Gracinha até o primeiro cafezinho na sala da casa vasta de eira, beira e outras besteiras, não decorreram vinte e quatro horas, prazo mais do que suficiente para o espertalhão se promover, dilatar falsamente suas posses e pretensões e afirmar sua admiração antiga por Gracinha, apenas pelas informações que recebia de conhecidos que moravam na cidade grande.
Ocorrera que, numa noite de lua cheia, meses atrás, com a moto estacionada no Joá, teve a certeza de que aquela moça, lá naquela vilazinha perdida no interior do estado, era a sua alma gêmea. Ele também um romântico incorrigível, como confessou, aproveitando para declamar alguns versos de ocasião, que tinha memorizado desde os bancos escolares.
Foi por isso que Gracinha não resistiu.
Quem resistiu, no entanto, foi o pai da moça e futuro e pretendido sogro de Gumerval. Tendo ele relações fortes com o delegado de polícia de Bom Jesus do Itabapoana, solicitou que se levantasse a ficha pregressa do pretendente, a fim de que não fosse assaltado via coração da filha.
Passados cerca de trinta dias, durante os quais Gumerval passeou de motocicleta para todos os lados, inclusive adentrando ainda mais na intimidade da casa, chegou a informação de que o tipo era um mandrião conhecido nas imediações da 28 de Setembro, em Vila Isabel, na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, useiro e vezeiro em expedientes condenáveis, através dos quais mantinha uma vida mansa de folgados colarinhos.
O pretenso futuro sogro, certa noite, no entanto, convidou Gumerval a tomar uma cerveja no bar do Chambão, a fim de que se entendessem melhor acerca das pretensões do forasteiro. Armou-se da garrucha cano duplo, cabo de madeira maciça, cuspideira de fogo em molde de canhão dos tempos de Dom João VI, levou dois homens de sua propriedade para ficarem sentados a uma mesa ao lado, de sobreaviso, pediu uma cerveja e foi direto ao assunto, respaldado pela arma, que colocou ao lado do copo.
- Levantei sua ficha completa na praça de Vila Isabel, com a auxílio de meu amigo delegado, e vim propor um negócio bom pra você: pegue sua moto e escafeda-se daqui, na santa paz do Senhor. Nem vai falar com Gracinha. Isso depois eu resolvo com ela. Está vendo aqueles dois armários dobrados ali na mesa ao lado tomando cerveja? Podem melhorar meus argumentos, no caso de você não ter entendido bem.
Gumerval, lívido como uma folha de papel, levantou-se sem uma palavra, fez pequena reverência com a cabeça, saiu de passo hesitante pela porta do meio do bar do Chambão, ligou sua potente moto preta e sumiu no oco do mundo.
Segundo o sogro, que passou a contar a história para seus amigos mais chegados, Gumerval tinha ido para o caixa-prego, para onde o Judas perdeu as botas, para o cu do conde.



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16 de janeiro de 2019

DONA HILDA


Pior que o tombo foi a desatenção do filho preferido.
Dona Hilda teve uma tontura, rodopiou no corredor da casa e caiu para trás, batendo com a cabeça na parede. A sobrinha acorreu em socorro e a levou ao hospital mais próximo. Não fora nada de pior, constatou o médico, após uma bateria de exames. Apenas a contusão na nuca, que se chocou sem grande impacto contra o reboco fofo da parede da casa simples. Nenhuma sequela a mais.
Voltou para casa, com recomendação de que fizesse repouso e aguardasse a ocorrência de possíveis outros sintomas até o próximo dia, com o que deveria se reportar ao médico atendente. Se nada mais houvesse, seguisse a vida de noventa e dois anos bem vividos, bem sacudidos, como até aquele dia. Despreocupadamente, como dissera o médico. Dona Hilda tinha uma saúde praticamente inoxidável.
Nada houve. E dona Hilda pôde voltar a cuidar da irmã doente, em casa de quem ocorrera o acidente.
Contudo, se não houve consequentes danos físicos, um dano ainda pior começou a minar seu prazer em viver: o filho primogênito, seu xodó dentre a prole imensa, ainda não havia ligado de Belo Horizonte, para saber como ela estava e, mesmo, se estava viva. E aquilo começou a lhe remoer a alma, fazendo com que ficasse deprimida.
Depois de quarenta e oito horas, prazo mais do que suficiente para a manifestação de qualquer problema, mas já com o psicológico definitivamente abalado, o filho ligou. Até mesmo uma sobrinha que estava de passeio pela Noruega, avisada pelo grupo de Whatsapp da família, telefonara no mesmo dia do ocorrido, preocupada com a saúde dela. E ele, logo ali em Beagá, a menos de cinco horas de Visconde de Rio Branco, demorou infindáveis quarenta e oito horas para se lembrar da mãe agora praticamente uma moribunda psicológica.
Melhor não tivesse ligado.
O filho se justificou com a mãe pela demora em entrar em contato, porque no dia do acidente tinha saído com o Rex para uma volta na praça próxima à sua casa, na Savassi, e, de repente, o Rex começou a vomitar inexplicavelmente sobre a grama. Ele ficou apavorado, voltou célere a casa, pegou o carro e levou o cão ao hospital veterinário de que sempre se vale, quando o Rex apresenta algum problema. E lá ficou com o cachorro, que permaneceu internado para exames e cuidados, sendo liberado apenas no dia seguinte, já lépido e fagueiro, curado de um mal-estar por ter ingerido algo que lhe fizera mal.
E então passara todo o dia seguinte cuidando da dieta do cão, a fim de que não tornasse a repetir aquele episódio. Entretanto também nada de grave, como disse à mãe ao final da sua justificativa.
A mãe ouviu calada, mas preferia não ter ouvido. Sentiu-se preterida por aquele maldito cachorro, que vivia mordendo suas pantufas confortáveis, quando se hospedava na casa do filho, até o ponto de torná-las inúteis. Aquele mesmo maldito cão que lhe devotava uma solene antipatia, sempre que ia lá passar uns dias com o filho e a nora, como vinha ocorrendo com mais frequência, depois de ter cedido sua casa para o neto desempregado e sua família. Aquele odioso animal que sempre subia na cadeira a ela destinada durante o café da manhã, a lhe demonstrar caninamente sua condição de intrusa.
A depressão de dona Hilda piorou bastante desde então, tanto que se mudou para Niterói, para ficar próxima da filha e do genro flamenguista que vive a lhe perturbar a tranquilidade.
Do tombo, já nem se lembra. Da ingratidão do filho, esta levará consigo para o túmulo e para a eternidade.

Banana (foto do autor).


6 de outubro de 2018

MACROBIÓTICA E OUTRAS COMIDAS


Hoje, durante o almoço, uma cena me levou ao passado.
Já lá por volta do fim dos anos 60, certo colega de faculdade entrara na onda da alimentação saudável.
Eu tinha vinte e poucos anos e chegara há pouco do interior, onde comia praticamente tudo que se movesse, nadasse, voasse, arrastasse ou ficasse parado por tempo suficiente a que fosse capturado. Fora as plantinhas alvissareiras e os grãozinhos de ocasião. Tudo, evidentemente, assessorado por diversos temperos e movido a pimenta malagueta. Por isso é que me parecia muito esquisita aquela, digamos, comida desprovida de cores, odores e temperos, que deveria ser mastigada quarenta vezes a cada bocado, a fim de que produzisse seus benéficos efeitos, que se constituíam, pelo que se via nele, em pele amarelo-esverdeada, olhos macilentos, movimentos gerais do corpo na velocidade da preguiça e frases cujo ritmo dava sono ao ouvinte.
Era a tal da alimentação macrobiótica, que se expandiu, angariou adeptos e perdurou por umas duas dezenas de anos, sendo substituída posteriormente por novas tendências.
Até mesmo, algum tempo depois, quando participávamos da correção de redações, então incluídas no exame vestibular, enquanto íamos, no intervalo da tarefa, almoçar a comida farta e sofisticada oferecida pela Fundação Cesgranrio, a responsável pela organização do certame, ele abria a marmitinha trazida de casa, composta por reduzido grupo esquisitos alimentos inodoros, insossos e incolores, e a confrontava com soberba contra nossos pratos perfumados, fumegantes e deliciosos, mas incorretos do seu ponto de vista alimentar.
Pois estávamos Jane e eu hoje ao almoço, em restaurante de comida típica mineira, no sistema coma o que puder, quando reparei no prato arrumado com vontade por um jovem adulto magro e já com alguns fiapos brancos de cabelo a lhe colorir a cabeça: tinha enchido, além da faixa azul que delimita o fundo do prato, como marcando o espaço em que arrumar o alimento, com uma profusão de legumes e verduras. Eu, que não sou dado a esse tipo de observação, tive minha atenção chamada pelo volume do prato e comentei com a Jane sobre o desperdício de se vir a um restaurante desse tipo e comer tantos legumes e verduras, enquanto a feijoada, o leitão à pururuca, a vaca atolada, o feijão tropeiro, a galinha ao molho pardo, o lombinho estufado, a costelinha com mandioca, a dobradinha à lombeira, o mocotó com feijão manteiga, o tutu à mineira, a farofa de ovos e o sarapatel estavam ali gritando por socorro.
Jane então observou que não era a primeira vez que o vira rondando os balcões de comida, a arrumar seu prato, no exato instante em que notei que ele, antes de sair daquele espaço, encastoou em estratégico espaço deixado de propósito ao lado de uns galhos de brócolis americano uma bela sobrecoxa de galinha crocantemente assada.
Sua reputação estava salva.
Ah! e quanto ao meu companheiro macrobiótico de bancos escolares, o que tenho a informar ao distinto leitor é que não sei se ainda sobrevive àquela alimentação, por ter perdido o contato com ele. Até hoje, contudo, recalcitrante quanto à alimentação e mesmo com as artérias em estado de atenção em face do colesterol, vou vivendo com algum bom humor e certas ameaças veladas de entupimentos coronarianos. Sem nunca ter aberto mão de comer o que a cultura culinária do meu país me proporciona de prazer gastronômico. Eu sou um bicho da terra!

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17 de maio de 2018

SINGING IN THE BATHROOM

Às vezes, canto no banheiro. E até gosto do que ouço, no pequeno ambiente com acústica favorável. Parece que minha voz de pato esganado melhora um pouco, com o amortecimento da chuva que cai do chuveiro e com a fofura das toalhas de banho.
E, quando canto, não canto nada além dos meus trinta anos. Se tanto! O que minha memória reteve de letras de música são, principalmente, os versos das canções que ouvia em menino. Talvez até Geraldo Azevedo e Alceu Valença, em seus primeiros discos. Ou mesmo Caetano, Chico, Gil, Paulinho, também só no início. Um tanto de  Belchior, Fagner e Ednardo, em seus começos. Depois nada mais retive. Não sei cantar nenhuma canção dos Titãs, por exemplo. Ou da linda Tiê, de que tanto gosto. Nem da Vanessa da Mata, outra minha paixão musical. Ou mesmo da Roberta Sá. Oh, céus!
Por isso é que canto coisas antigas, até mesmo canções de que nunca gostei, mas que ouvia em criança, em Carabuçu, espalhadas aos quatro ventos pelo alto-falante do Narck Pontes. Ou as canções de serestas, que odeio, mas ouvia o Darcizinho cantar pelas ruas e praça da minha vila natal. E também jamais gostei daquele canto empolado, de timbre potente, voz de tenor ou barítono, que nossos cantores populares à época faziam, com raríssimas exceções.
Assim, quando surgiu João Gilberto, com sua voz de pavio de lamparina, achei mesmo que poderia – eu também – me tornar um cantor famoso. Até que ouvi minha voz gravada e não a reconheci. “Esse não sou eu falando!”, disse para o amigo Dalmar, que fizera a gravação num poderoso gravador de rolo de fita recém importado, à venda na Ótica Avenida, onde trabalhávamos. “É exatamente a sua voz!”, informou ele, para a minha total decepção, mas para garantir a qualidade do produto. Não, eu não ganharia a vida cantando, pois aquele não era um gravador qualquer!
Mas, a despeito de todas as provas em contrário, continuei cantando no banheiro até semana passada. E, nessas oportunidades, me vêm à memória canções que ficaram no limbo de nossa música popular, porque, segundo me parece, estiveram entre a velha canção brasileira, cujos últimos intérpretes foram Nelson Gonçalves e Orlando Silva, e a revolução trazida pela Bossa Nova e, logo depois, pela hoje identificada MPB, com expoentes como Gil, Caetano, Chico, dentre os mais badalados. Porém, naquele vácuo lá pelos idos de 50/60, já se prenunciava que a estética da música popular brasileira estava a mudar de cara. Ou melhor, de poesia, de letra. Até então o que se tinha de maior veiculação nas rádios era uma música com temática de cais do porto, de bordel, de paixões por mulheres de vida airosa, para ficar num eufemismo, em que o autor chorava dores de cotovelo irremediáveis.
Tais músicas fizeram a transição entre aquela estética antiga – e de mau gosto, para os meus ouvidos – e a nova MPB. Traziam uma linguagem mais moderna, com novas metáforas, e um ritmo que prenunciava a bossa-nova. E tenho quase certeza de que a maioria de meus leitores nunca as ouviu. Menina moça, Mulher de trinta, E daí, Carinho e Amor, Bolinha de sabão, Balanço Zona Sul, Lembranças, Cara de palhaço, dentre outras, e que podem soar velhas para as novas gerações.
Por isso é que continuo singing in the bathroom tais músicas, já que não consegui gravar nenhuma letra das que vieram depois que meu disco rígido natural já estava sem muito espaço livre.

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2 de março de 2018

SÃO PANCRÁCIO, SANTA ENGRÁCIA

(Para Lucir Moraes.)

Meu assento era quase sobre a asa direita do avião, um pouco para trás. Dali era possível ver a turbina.
A decolagem deu-se naquilo que é uma decolagem em aeroportos nacionais: a aeronave no empuxo máximo, sobre uma pista um tanto irregular, trepidou, resfolegou, mas subiu. A sensação de estar passando sobre costelas no chão abrandou-se tão logo ela atingiu uma altura razoável.
Nunca tive medo de avião. Nem mesmo quando voei, pela primeira vez na vida, num velho turboélice Buffalo, que pareceu chegar batendo asas, no aeroporto aberto numa clareira na selva, na cidade de Puerto Suárez, na fronteira da Bolívia com o Brasil. Aliás, aquilo não era bem um aeroporto, mas tão somente um campo de aviação, como se dizia na minha terra. Faltava-lhe certa dignidade arquitetural para assim ser  considerado. Acho que, no instante em que vimos aquele monte de alumínio modelado a poder de arrebites pousar no chão de terra, sob o olhar apavorado da minha mulher e de uns amigos, a informação do boliviano ao nosso lado, num portunhol fronteiriço, me deu a tranquilidade que levaria como divisa por toda a vida em tais situações, mas que iria ser posta à prova anos depois:
- Estadísticamente es el avión que menos cai.
Como fomos levados sãos e salvos a Santa Cruz de la Sierra, pus na cabeça que nenhuma outra máquina voadora mais moderna, nas quais viajei desde então, fosse capaz de me fazer uma desfeita, uma trapaça de mau gosto.
Até o instante em que o comandante anunciou, com indisfarçável acento grave na voz, que a turbina direita entrara em pane. Num átimo, retirei os olhos da revista, olhei pela janelinha acanhada ao meu lado e constatei a informação. Ela realmente parecia inerte.
De imediato os passageiros entraram em pânico. Começou um vozerio confuso, com gritos desesperados e orações suplicantes. Percebi que até ateus convictos começaram a apelar aos poderes celestiais. Eu, por exemplo! Naquele instante sombrio, a fé que perdera no início da idade adulta, como que por milagre, recebeu o que na linguagem cibernética se conhece como refresching: voltou fresquinha à tona. E não tive o mínimo pudor em implorar:
- São Pancrácio! Santa Engrácia! Valei-me! – disse baixinho, para que só os dois santos me ouvissem.
A esta altura da narrativa, é preciso fazer um esclarecimento.
Quando religioso, descobri esses santos ao ler um compêndio de hagiografia antiga e tomei a decisão de que, em minhas agruras e atribulações, para não entrar em pânico, pediria por seu socorro, na hipótese de que, por certamente desconhecidos por aqui, estivessem sempre desocupados para acudir seus minguados devotos, dentre os quais me incluí. E sempre me dei bem enquanto era crente. Portanto não seria naquele exato momento em que eles me faltariam.
E, para garantir que eu não tinha preferência no atendimento, repeti a invocação fazendo uma inversão nos vocativos:
- Santa Engrácia! São Pancrácio! Valei-me! – agora com a voz já ligeiramente alterada, em função dos segundos a menos de vida que vislumbrava, e com acento na forma culta do imperativo verbal, porque me dirigia a santos e não a um zé mané qualquer.
Nesse instante, meu pensamento chegou até minha mulher, que deveria estar cuidando inocentemente de seus afazeres. Eu me esquecera de renovar o seguro de vida! Embora não seja vultosa, a grana poderia até lhe dar a possibilidade de arranjar a vida – dela, evidentemente, já que a minha estava indo pro beleléu –, até mesmo conseguir namorado novo, que com certeza iria dissipar o que eu lhe deixaria. Pensei, então, com certo conforto, que tinha sido melhor assim. Não ia querer minha viúva em desfrute sobre minha memória.
Os passageiros mais próximos de mim berravam apopléticos!
Sempre fui um cara tranquilo, controlado, e, embora a situação fosse de consequências funestas, eu também estava chegando ao descontrole. Contudo não sei de onde surgiu certa lucidez, que me fez gritar com todos:
- Tenham calma! Se vamos morrer, que seja com um pouco de dignidade! E não como um bando de desesperados, parecendo galinhas fugindo de mão-pelada!
Naquele momento não tinha certeza de que mão-pelada comesse galinha, mas foi o que saiu na hora.
Uma senhora de cabelos avermelhados, com a expressão estertorante, gritou comigo:
- Não está percebendo que vamos todos morrer e fica aí querendo compostura da gente?
- Só quero morrer em paz, minha senhora! E não no meio de uma balbúrdia infernal! Isso aqui está virando a antessala do inferno! – falei decisivo.
O avião negaceou um pouco, parecendo carroça com o eixo quebrado, o que fez sacolejar sua carga humana.
E voltei a apelar a São Pancrácio e a Santa Engrácia, enquanto tornei a olhar a turbina, através da janelinha.
Não sei se foi por obra deles ou de algum dos outros santos invocados naquela confusão insana, mas a turbina começou a voltar à vida, no justo momento em que a voz do comandante, já visivelmente aliviada, informou que a pane elétrica fora  superada, inesperadamente e sem explicação plausível, de  modo que o voo continuaria até o seu destino. E em segurança, desejei eu!
O suspiro de alívio generalizado daqueles mais de cem passageiros candidatos a defuntos quase despressurizou o avião. A mulher de cabelos avermelhados logo solicitou à comissária de bordo um copo d'água fresquinho, para diminuir a palpitação.
A tripulação determinou que todos guardassem seus lugares, porque o pior havia passado, e procurou atender os mais nervosos.
Perguntei se havia uísque. Não havia. Queria afogar o nó na garganta com uma boa talagada, mas não foi possível. Tomei em seguida o café quente servido a alguns, o qual me pareceu o mais saboroso que já bebera, e relaxei.
Ao desembarcar, passei na capela ecumênica do aeroporto, para agradecer a São Pancrácio e a Santa Engrácia. Não sei se eles tiveram participação efetiva no conserto da turbina, mas é melhor não duvidar. E, se tiveram, podem estar orgulhosos agora do seu milagre.
Eu iria renovar o seguro de vida. E pedi perdão aos santos por aquele pensamento vexaminoso sobre minha ex-futura viúva. Porque não se pode, até na hora da morte, ser tão egoísta como fui. Ou não veria as faces cândidas de Santa Engrácia e São Pancrácio quando desembarcasse do outro lado da vida.

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31 de janeiro de 2018

MORRA-SE COM UM BARULHO DESSES


Vou chamá-lo seu Gumercindo, para não criar melindres com seus familiares. E trocarei, também, os nomes de todos os demais. Só eu serei eu mesmo.
Pois seu Gumercindo, após o almoço de domingo, cercado pela família numerosa, sentiu uma pontada no peito e foi levado às carreiras para a emergência do Hospital do Andaraí, não muito distante de casa.
O médico de plantão percebeu que o quadro não era dos melhores e resolveu interná-lo imediatamente. Parte da família que o acompanhou ficou estacionada na sala de espera, aguardando por notícias vindas lá de dentro. Passado algum tempo, veio outro médico a procurar por familiares do senhor Gumercindo Nascimento, aos quais minuciou a gravidade do seu estado geral, motivo por que resolvera deixá-lo no centro de tratamento intensivo. A enfermeira que o acompanhava anotou os telefones do filho mais velho, para qualquer emergência, e disse que eles poderiam voltar para casa e só retornar no dia seguinte, pela manhã, para notícias atualizadas sobre as novidades do doente e uma possível visita a ele.
No dia seguinte, logo cedo, lá foram três de seus filhos. O mais velho, Roberto, foi autorizado a ver o pai. Ele se paramentou, higienizou as mãos e foi conduzido até o leito em que o pai estava. Chegou próximo a ele, que tinha os olhos fechados, e disse baixinho:
- Pai, é o Roberto. Está me ouvindo?
O velho abriu os olhos e respondeu que sim. Deu as informações ao filho de como passara a noite, pediu que rezassem por ele, sem desespero, e falou que precisava dizer-lhe algo importante, muito importante mesmo. Roberto dobrou-se um pouco sobre o leito, já um tanto apreensivo, a fim de ouvir o que o pai lhe tinha a dizer.
- Filho, quero que você vá até a agência do Banco do Brasil, na Rua Senador Dantas, e procure pelo gerente Ricardo. Acho que não escapo desta e preciso que você faça isso por mim.
- Sim, pai! Pode dizer.
- Procure por ele. Ele é seu irmão.
Roberto pensou não entender, pois a voz do pai não tinha a potência e a clareza costumeiras, e perguntou:
- Como é mesmo, pai?!
- Procure o Ricardo, gerente da agência. Ele é seu irmão, e é preciso acertar as coisas.
Seu Gumercindo e dona Sílvia já tinham ultrapassado as bodas de ouro como casados, tinham cinco filhos – três homens e duas mulheres – e vários netos. Desses, Roberta, filha do Roberto, era a mais velha e já cursava Arquitetura na PUC. Sua vida, a dele, sempre fora devotada à família, com quem gastava seu vasto salário de fiscal de rendas aposentado. Pudera, por isso mesmo, dar conforto material a todos, e sua presença era constante entre eles, apenas interrompida pelas viagens de fiscalização aos mais diversos pontos do estado, a que todo fiscal está sujeito.
Roberto como que não acreditou no que ouvira. E o pai moribundo teve de repetir o pedido:
- Procure o Ricardo, na agência da Rua Senador Dantas. Ele é seu irmão. Precisa acertar as coisas.
Pela cor com que Roberto saiu do centro de tratamento intensivo, seus outros dois irmãos, Regina e Ronaldo, sentiram que a situação devia ser de extrema gravidade.
- Falou com ele? Como ele está? O que você achou? Papai está bem, não está, Roberto? – uma sucessão de interrogações apreensivas.
Roberto não sabia como dizer o que ouvira, mas garantiu que o velho estava em recuperação, embora ainda um tanto debilitado e completamente ligado à parafernália hospitalar. Mas começou cuidadoso.
- Preciso dizer a vocês uma coisa grave. Não é quanto à saúde do papai, mas é capaz de causar um choque em vocês.
Os irmãos se entreolharam apreensivos com que estava por vir.
- Papai pediu que eu vá à agência do Banco do Brasil na Senador Dantas, para falar com um irmão nosso lá. Um tal de Ricardo.
- O quê?! – indagaram ambos com espanto.
E foi lá, no dia seguinte, o Roberto à procura do Ricardo.
De imediato, espantou-se com a fisionomia do irmão, que era da mesma forma de todos. Nem precisaria de teste de DNA. Estava na cara! E mais espantado ficou, ao saber que seu pai tinha outra família semelhante à sua, com outros três irmãos, sendo duas mulheres e o Ricardo, todos com a letra inicial R no nome: Roberta e Rosália. Todos mais ou menos com as mesmas idades, nascidos em anos subsequentes uns aos outros, e já com outros tantos filhos.
A filha mais velha do Ricardo, a Ricarda, era também estudante de Arquitetura da PUC, da mesma sala da Roberta, e sua melhor amiga.
Quando as duas jovens descobriram os laços que as unia, ficaram estremecidas uma com a outra, sem saber o que se dizerem, até que, à medida que os relacionamentos entre todos os familiares se foram estreitando, no período de recuperação do velho Gumercindo, voltaram ao mesmo convívio fraterno anterior.
Seu Gumercindo, ainda no leito do hospital - e antes que fizesse a passagem desta para a melhor -, foi perdoado por suas esposas, seus filhos e netos, motivo que o fez se recuperar por completo, ainda mais celeremente. Confortável com a situação, resolveu promover um almoço de congraçamento, com o beneplácito das mulheres, para que todo o estranhamento se dissipasse.
A festa rolou, todos se divertiram, se confraternizaram, com exceção das duas esposas, que apenas trocaram cumprimentos protocolares ao início da festa, restando cada uma no seu canto do salão, como a que demarcar ainda seus territórios.
Passados seis meses, o coração do velho deu-lhe novo tranco, agora com a potência redobrada, fazendo-o finado, num pequeno átimo de tempo, sem mais essa ou aquela.
O velório foi marcado para o Cemitério São Francisco de Paula, no Catumbi, num sábado à tarde, para onde acorreram todos os membros das duas famílias.
Tão logo o corpo de seu Gumercindo foi encaixado na gaveta que lhe cabia nesse epílogo da vida, dona Sílvia mandou chamar a segunda viúva, dona Otília, aqui nomeada apenas nos estertores do texto, para lhe dizer com todas as letras do alfabeto romano:
- Agora sumam da minha vida! Escafedam-se! Não quero mais saber de ninguém! Desatou-se o elo que nos atava. Está desfeito e acabado! Desapareçam!
Eu estava lá, mas não ouvi a fala desabrida de dona Sílvia. Um dos seus netos me contou depois.
E seu Gumercindo, com o corpo ainda nem de todo frio pelo bafo da morte, deve ter-se contorcido na gaveta apertada em que foi descansar em paz.

Cemitério, Carabuçu-RJ (foto do autor).


20 de novembro de 2017

DEU CAVALO DE AÇO NA CABEÇA

Esta última semana, a da comemoração da Proclamação da Infeliz República do Brasil, também foi, não sei por que cargas d’água ou conjunção astral, a semana do sapato Cavalo de Aço. Pelo menos comigo e meus circunstantes.
Estava bebendo uma cerveja com uns amigos e um deles, metido a me conhecer profundamente, se saiu com essa, depois que alguém lembrou os tempos daquele fatídico sapato:
- Aposto que o Saint-Clair nunca usou o Cavalo de Aço!
Como dizia o Jaguar, falei, para certo pasmo de alguns:
- Ledo engano Ivo seu! Eu também já tive esse maldito sapato lá pelo início dos anos 70.
Jovem, então, e um pouco suscetível aos movimentos da moda, fui levado de roldão pela onda do Cavalo de Aço e comprei um par para mim.
O tal sapato tinha como diferencial um solado tipo plataforma, que elevava seu usuário a cerca de três ou quatro centímetros acima do rés do chão. E tinha um visual abrutalhado. Não era um sapato fru-fru. Era coisa para destacar a possível masculinidade do seu dono.
O meu, além da tal altitude elevada, era feito de um couro imitando jacaré e tinha uma fivelona nas laterais. Bico fino, como convinha, e na cor marrom escuro. Era uma visão!
Quando o levei para a pensão da Dona Dinorah, onde morava por essa ocasião, na Rua Pereira da Silva, causei espanto. Fiquei soberbo diante dos meus colegas. Era um sábado, pela hora do almoço. Naquele dia, haveria a estreia do Cavalo de Aço.
Não sei se todos sabem, mas também houve uma novela com o mesmo nome, que, tenho a impressão, veio na onda do modelo do sapato. Embora eu não acompanhasse novela, tenho a memória de que uma das personagens masculinas ostentava em seus pés aquele troço.
Pois muito bem.
No dia seguinte a esse encontro com os amigos – este último sábado – na casa da minha mãe, mais uma vez surgiu a referência ao tal sapato. Nem me lembro de quem puxou o assunto. Até mesmo meu primo José Manuel, mais novo do que eu dezessete anos, lembrou a chamada da novela e algumas coisas que a identificavam.
Estranhei o assunto voltar à tona. É que isso é coisa de somenos importância. Talvez seja porque estejamos de saco cheio do noticiário político, então tentamos desanuviar as conversas lembrando de coisas assim.
Agora, de volta à pensão da Dona Dinorah, naquele sábado de estreia dos anos 70, me vejo outra vez descendo a escada de madeira do andar superior, onde os rapazes se hospedavam, e o térreo da velha casa geminada, hoje inexistente. O barulho produzido pelo salto volumoso nas tábuas já chamava a atenção. Era o Saint-Clair estreando o Cavalo de Aço!
Saí pela noite de Niterói e, ao voltar, já passada a meia-noite, tive o cuidado de remover dos pés aquelas ferraduras duplas de couro maciço, a fim de não acordar os moradores do andar de baixo.
Foi um alívio! Pois, além de tudo, comprimia os pés com uma sem-cerimônia infernal!
No dia seguinte, domingo, voltei a usar – tinha-me custado caro –, e agora pela última vez, aquela espécie de tanque de guerra minúsculo, adaptado – mal, diga-se de passagem – ao pé humano.
Alguns sábados depois, estamos Michel e eu sentados no parapeito da varanda, numa tarde fresca, jogando conversa fora e vendo a vida passar em forma de moças bonitas, quando chegou um senhor, vestido humildemente, de chapéu à cabeça e bigode quadrado sobre a platibanda do beiço, a nos solicitar ajuda:
- Será que os meninos não têm uma muda de roupa e um par de sapatos fora de uso para me dar?
Michel, também meu conterrâneo de Bom Jesus do Itabapoana, disse que tinha uma calça e uma camisa que já não usava. Eu então me lembrei do maldito Cavalo de Aço e disse ao homem que tinha o tal par de sapatos.
- Que número o senhor calça?
- Quarenta.
Era o meu número! Pedimos que aguardasse e subimos para pegar as doações. De volta, entregamos a muda de roupa e o par de sapatos, todos ainda muito bem conservados, sobretudo o sapato, usado apenas duas vezes.
O homem ficou tão feliz, que quis saber nossos nomes.
- Qual o seu nome? – dirigindo-se ao Michel.
- Michel.
- Muito obrigado, seu Michel! Gostei muito! E o seu? – agora dirigindo-se a mim.
- Saint-Clair.
- Checré?! Que nome esquisito, sô!
- Me devolve o sapato agora! – disse em tom de falsa ameaça – O senhor me pede um par de sapato, pergunta meu nome e diz que ele é esquisito! Pode me devolver!
- Desculpe, seu Checré! É que é muito difice falar ele!
O homem saiu levando seus presentes, e eu e Michel demos boas gargalhadas com a história.
Agora estou eu aqui compondo este texto, motivado pelo sapato Cavalo de Aço. É ou não é um conluio astral para nos levar a até fazer uma fezinha no bicho?
- Põe dez mangos aí no cavalo!
Vai que dê cavalo na cabeça!

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25 de setembro de 2017

SERESTEIROS

Como nos faroestes clássicos, em que a cidadezinha era invadida periodicamente por um forasteiro mal-encarado, barba por fazer, banho por tomar, chapéu de aba larga quebrada sobre o cenho cerrado, cigarro mascado no canto da boca e duas pistolas Colt no coldre, assim também Carabuçu e Bom Jesus tinham seus invasores contumazes.
Por volta dos anos 50/60, vez e outra, apareciam forasteiros bem-falantes, comunicativos, simpatia incomodativa, barba escanhoada, brilhantina perfumada nos cabelos, beiço superior ornado por um bigode aparado a navalha Solingen e munidos de uma arma perigosa: o violão.
Chegavam chegando, sem muitas cerimônias, fazendo-se enturmados, dirigiam-se ao primeiro botequim mais bem frequentado, pediam um traçado, um rabo-de-galo, uma cerveja gelada, e puxavam conversa com o mais próximo.
Eram os tais seresteiros-viajantes. Nos moldes dos também antigos caixeiros-viajantes que saíam oferecendo suas bugigangas país afora, com suas malas recheadas de novidades, tais seresteiros iam derramar seus cantos por janelas diversas, na busca de conquistar corações desavisados de donzelas – ou nem tanto – sonhadoras.
Um desses chegou a Carabuçu, quando eu menino, e por lá ficou por certo tempo. Sacava seu violão na Pracinha do Sabiá, dedilhava seus bemóis e sustenidos e soltava sua voz tremente – o tal vibrato – em boleros e sambas-canções chorosos. Mostrou sua arte como compositor, apresentando uma canção de própria lavra, de que até poucos anos atrás eu sabia a melodia e a letra.
Até que resolveu soltar seus trinados sob o alpendre de mulher casada, tida por facilitadora de situações, e acabou levando uns contravapores da pior espécie do senhor marido da dita mulher, que o fizeram sair de Carabuçu com a cara toda amarfanhada e o violão estilhaçado em várias partes.
Dele nunca mais se soube.
Um outro, pelo mesmo tempo, e nem sei se seria o mesmo, invadiu a praça de Bom Jesus com as mesmas deletérias intenções.
Na verdade, quando se diz Bom Jesus, é preciso que se entenda como uma cidade dupla: uma no Rio de Janeiro – Bom Jesus do Itabapoana – e outra no Espírito Santo – Bom Jesus do Norte – apenas separadas pelo rio que dá o nome à primeira, mas unidas pela velha ponte de concreto.
Pois também aquele tal seresteiro ambulante, de conversa em botequim da guaxa, pediu informações sobre possíveis vítimas de seu canto de sereia. Indicaram-lhe a casa do senhor José Cordeiro, exatamente postada logo à saída da ponte, já no Espírito Santo. Seu Cordeiro morava num sobrado na diagonal da esquina em relação ao posto de gasolina de sua propriedade. Segundo o cantor de milongas apurou, seu Cordeiro era possuidor de três belas donzelas solteiras, moças discretas e de peregrinas virtudes, como assegurava A Voz do Povo, hebdomadário da outra Bom Jesus, sempre que se referia a qualquer senhora da sociedade local.

Naquela mesma noite, mal a lua cheia tomou o zênite no céu estrelado de Bom Jesus, o cantador começou a debulhar canções do repertório nacional. Começou com “oh! lua branca de fulgores e de encanto / se é verdade que ao amor tu dás abrigo”, (Lua branca), da maestrina Chiquinha Gonzaga; reforçou com “a lua vem surgindo cor de prata / lá no alto da montanha verdejante” (Malandrinha), gravada pelo mago Orlando Silva; e emendou, de enfiada, com “lá no alto a lua esquiva / está no céu tão pensativa” (Noite cheia de estrelas), do portentoso tenor Vicente Celestino.


Como nenhuma das donzelas se dispusesse a abrir a janela e se encantar com sua voz maviosa, o bardo notívago, revoltado com tanta indiferença, adaptou a letra da última canção às circunstâncias do momento e cravou, no meio da noite tranquila, “só tu dormes, não me escutas / filha-da-puta”, escandindo bem a última palavra em sílabas cristalinas. Foi o instante exato de receber pelas platibandas o jorro de mijo de três penicos cheios, lançados por Zé, Justino e Pedro Cordeiro, as supostas filhas de seu José Cordeiro, já chateados daquele cantorzinho meia-bomba a incomodar-lhes o sono tranquilo daquela noite fria de julho.

J. Emilio Rocha, Cantores seresteiros (em arterocha.blogspot.com.br).

15 de setembro de 2017

MUNDINHO


Cinco dias por semana, Mundinho trabalhava duro: caixa de banco. Dois dias consumia bebendo cachaça cerveja steinhaeger traçado de cinzano com conhaque de mel fogo paulista chope vinho tinto martini seco rabo-de-galo creme de ovos catuaba com jurubeba do norte genebra underberg com soda pau-pereira limãozinho bagaceira vodka com crush rum com coca-cola campari arak pisco aquavit saquê, dentre outras coisas. De tira-gosto: careta, cusparada, assopro, assovio, estralo de língua, estralo de dedo, rodopio de corpo, muxoxo de preto-velho hum! hum! mizifio!, grito de ajudante de bandido mexicano em películas da Pelmex iahuuuuuu! e um diabo de arroto nojento, puxado das tripas, que ninguém suportava. À distância recendia a alambique, tonel, chão de botequim. Não acendessem fósforo num raio de três metros, sob pena de explodir. Ainda assim, nem ficava bêbado.
Nos fins de semana, sempre pelas redondezas, entornando aqui e ali. Num domingo à noite, final de expediente etílico, caiu na besteira de desembaraçar um arroto caprichado, para arrematar tudo, na porta do bar do Jésus, um mosqueiro como tantos outros. O dito cujo arroto foi tão indecente, mas tão indecente, que Mundinho teve de sair correndo para não apanhar dos demais fregueses.
Chegando à antiga pensão onde morava, no vinte e nove da Pereira da Silva, a língua em forma de gravata colorida até o meio da barriga, só teve tempo de fechar a porta e deixar seus perseguidores do lado de fora.
Se o fígado tinha, até aquela altura, sustentado todas as suas estripulias, o medo foi tão grande que o transformou em abstêmio. Fundou até os A. A. em Bom Jesus do Itabapoana, entrou pros crentes e, hoje, o mais forte que bebe é café coado em coador de pano, bem temperadinho no açúcar mascavo.

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Imagem em daler.ru.
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.

8 de agosto de 2017

OTIMISMO DESENFREADO

Qualquer -ismo tem boa probabilidade de se tornar desenfreado, com o passar do tempo e a predisposição do cidadão que o adota. Seja ele de caráter ideológico, alcoólico ou cismático.

Nos campos da ideologia e da manguaça, não há necessidade de comprovação, porque todos estão carecas de ver exemplos por aí. Vou-me ater, então, ao campo da cisma, da pretensão, esta coisa tão humana.

O otimismo é um deles. E se submete às mesmas regras de exagero que qualquer outro, como o pessimismo, o egocentrismo, o machismo e, por que não dizer, o parnasianismo, ainda nem de todo debelado do moderno convívio poético.

Mas tenho notado que estão exagerando um pouco. Aliás, o sero mano (para relembrar a grafia de um candidato do vestibular) é dado à hybris, aquele elemento da tragédia grega que fatalmente leva o herói a erro de avaliação, por desmedida. Estamos chutando o pau da barraca na hybris, apesar de que, desde que o mundo é mundo e o Brasil foi constituído como nação abaixo da linha do Equador, com pequena exceção inexpressiva do ponto de vista geográfico ao norte, colocamos o otimismo na ponta da chuteira e invadimos a área adversária.

Neste ponto, a sabedoria popular já nos tem dado mostras. Senão, é só relembrar aqui alguns exemplos, como o dito popular “Ruim com ele, pior sem ele”. Ora, quem já está avaliado deste modo não pode oferecer nada de bom. Mas nossa concepção chama a atenção de que poderia ser pior. Nesta linha de raciocínio, pior que o pior só o péssimo. Há também “De hora, em hora, Deus melhora”, como se as coisas não estivessem piorando a olhos vistos.

Na língua, há outros exemplos de otimismo, que a gramática resolveu chamar de eufemismo. O exemplo clássico que ouvia dos professores era o da palavra “melhorzinho/a” aplicada à situação de uma pessoa gravemente enferma. Ao perguntar por ela, a resposta que se ouvia com frequência era “Está melhorzinha!”. Quando menino, sempre tinha a ideia de que o doente estava mais para morrer do que para sobreviver, porque daí a pouco ele abotoava o paletó.

Assim também, em relação a “morrer”, a língua registra uma série de torneios verbais para atenuar o sentido básico da palavra, numa espécie de visão otimista do fato: partir desta para melhor, entregar a alma a Deus, virar estrela.

Contudo, por agora, tenho ouvido algumas novas formulações neste sentido, que me têm chamado a atenção.

Um pouco depois desta última eleição municipal, um conhecido meu que concorreu à reeleição para vereador, indagado sobre seu desempenho nas urnas, disse simplesmente que tinha sido “eleito suplente”. Ora, meu caro leitor, ele entrega a alma a Deus, mas não admite que perdeu. É, mais ou menos, como o torcedor do time rebaixado dizer que seu time foi “classificado para a Série B do campeonato”.

Na linguagem da Economia, já fomos surpreendidos com a expressão “crescimento negativo” para significar que o desempenho do país deu retrocesso econômico. Ora, não há, em sã consciência, crescimento negativo: ou se cresce, ou não se cresce; ou se diminui, se decresce. Isto é pior do que os pleonasmos que minha professora primária fazia questão de nos corrigir: sair pra fora, entrar pra dentro, subir pra cima, descer pra baixo; que tanto gostávamos de falar lá na nossa Carabuçu dos anos 50, como se o sentido das ações expressas pelos verbos não fosse cabalmente inequívoco e necessitasse do reforço da expressão adverbial. Ou mesmo esta outra, na mesma linha: crescimento zero. Crescimento zero é o escambau!

Certa vez, levei as ações do antigo BANERJ – o Banco do Estado do Rio de Janeiro – que meu sogro adquirira à sede da empresa no edifício da avenida Nilo Peçanha. Lá, depois de algum tempo examinando aqueles papéis amarelados do tempo, o cidadão engravatado me disse: “O valor de face dessas ações no mercado hoje é nulo”. E o meu sogro perdeu seu rico dinheirinho para o governo do estado. Também a frase dele foi de caráter otimista. Segundo me pareceu, eu deveria ver pelo lado positivo aquele valor de face no mercado. É ter muita cara de pau, não é não?

E assim, de otimismo em otimismo, vamos construindo uma falsa visão de que as piores coisas não são tão ruins assim. Aliás, conforme sejam vistas, podem ser ótimas! Eu posso até ter sido eleito suplente de vereador. E, um dia, após a morte de todos os outros que estão à minha frente, eu assuma a cadeira a que faço jus no legislativo municipal!

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Carlitos (em academiaparaninfo.wordpress.com).

27 de julho de 2017

A MORTE DE UMA ESQUINA

Até a construção de Brasília, não se entendia cidade brasileira sem esquina. Por maior ou menor que fosse, por mais ou menos importante, cidade, para ser cidade, tinha de ter suas esquinas. Havia até um dito, lá pelo meado do século passado, de que se identificava a cidade como brasileira por um bar na esquina e um cartaz da Coca-Cola, com tudo o que isso já trazia de submissão econômica.
Por isso é que, com a construção de Brasília, sem esquinas, dizia-se que a vida na cidade não teria graça, a cidade seria praticamente inabitável. O governo federal, inclusive, teve de oferecer um capilé a mais aos servidores públicos que transferiu para a nova capital. Nenhum deles, que vivia no Rio de Janeiro, cheio de esquinas famosas, se disporia a ir para uma cidade desesquinada. O cala-boca serviu como motivação financeira para muitos trocarem o Rio por Brasília.
Mesmo em Carabuçu, minha vilazinha natal lá no norte do estado, tinha sua esquina especial: era o cruzamento das Ruas Coronel Alfredo Portugal e Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo. Nela estavam as vendas do meu pai, de um lado, e do seu Cirilo Braz, do outro. Em frente à nossa venda, estava o armarinho do João Mestre e, do lado de lá, o do tio Nalim. Contudo, a mais festeira, era a próxima. Ali estavam os bares do tio Tônio Pinto, do Barrosinho, do libanês Mansur Sabino e o armarinho do Enéas Lírio, que depois transformou seu comércio de tecidos em negócio de beberagens e tira-gostos. Até hoje, mudados os proprietários, alterada um pouco a arquitetura, melhorado o urbanismo, com a inclusão de um calçadão de pedestres, a esquina ferve em determinadas ocasiões.
Há esquinas que até ganham nome especial, como em Bom Jesus do Itabapoana dos anos 60 a Esquina do Pecado, na confluência um tanto destrambelhada, fora do esquadro, das ruas Tenente José Teixeira, Vinte e Um de Abril e Carlos Firmo.
Toda esta introdução é para levar o leitor ao meu foco principal.
Quando cheguei a Niterói, em março de 1967, fui morar na pensão da Dona Dinorah, no número vinte e nove da Rua Pereira da Silva. Na esquina desta, com a Moreira César, a trinta metros da pensão, já estava estabelecido de alguns anos o bar do Joaquim e do Zé Português, que se tornaria meu amigo fraterno e colega de pensão e, posteriormente, de apartamento. Desde então e até o início deste ano, o local sempre foi bar. Ao seu lado já houve boate, outro bar, loja de roupas, o diabo a quatro. Mas o bar da esquina resistia ao tempo. O imóvel continua pertencendo ao meu amigo, embora ele não toque mais o empreendimento.
Nessa esquina, apenas o bar era o estabelecimento aberto ao público. Em dois cantos estão prédios residenciais e no último, uma escola pública de ensino fundamental. Assim a presença do bar sempre animou a esquina, onde também havia uma banca de revista e outra de flores. Os frequentadores que, por acaso, exagerassem nas doses e nos belisquetes tinham uma farmácia ao lado onde se socorrer. Vê-se que era um empreendimento muito bem localizado. E a apenas um quarteirão da praia. Certa manhã de domingo de verão, quando bebia lá uma cerveja e vendo a excitação do jovem lusitano João, recém-chegado da Ilha da Madeira, para o serviço de garrafas e copos, disse ao meu amigo Zé Português, patrão dele:
- Zé, se eu fosse o dono da firma, não pagaria salário ao João. O pagamento dele seria curtir as garotas bonitas que por aqui passam em direção à praia.
O João babava ao admirar o desfile sensual das meninas em seus trajes de banho.
Pois muito bem! A última empresa que ali explorou o ponto tinha o nome de fantasia de Bar Fragatas. Espalhando mesas e cadeiras na calçada larga, ganhou o apelido jocoso de Queima-Filme, já que os beberrões ficavam expostos aos olhares dos passantes.
Numa certa manhã, há alguns meses, encontrei o bar fechado, já sem os letreiros. Minha mulher, preocupada, ligou para a casa do Zé e falou com sua esposa, Agostinha, que ficou até mesmo envergonhada de dizer o montante da dívida que os ex-donos do Fragatas tinham com eles. Há muito não pagavam o aluguel e foram despejados, por ordem judicial.
O local, daí a alguns dias, entrou em obras. Terminados os trabalhos, abriram-se as portas de mais uma farmácia de uma rede da cidade. E, o pior, sem nenhum charme, sem nenhum trabalho mais elaborado de arquitetura de interiores que atraia, pelo menos, os olhares dos passantes. A farmácia é feia como purgante para matar lombriga, como a rasgadura da lanceta em postema de bicheira. Eu lá não entro.
A esquina está um deserto! Está morta!

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