31 de dezembro de 2011

FELIZ ANO NOVO

Vem aí o Ano Novo
resfolegando sobre os trilhos d'antanho
abrindo brechas em nossos sonhos
anunciando o improvável o impossível

Tomara que não descarrilando
o trem que vem cheio de planos
possa trazer como é nosso desejo
goiabada com queijo
abraços e beijos
alfenins de açúcar
paladares suaves
muita paz e justiça
se possível dinheiro
pelo ano inteiro.

Miracema-RJ, Praça Dona Ermelinda, 23/12/2011 (foto do autor).

(Permiti-me repetir o poema postado no ano passado, porque os votos não mudaram. Feliz 2012 para todos!)

30 de dezembro de 2011

HORÓSCOPO URGENTE

Chega fim de ano e é um atropelo só nas esferas astrais, nos búzios e nas cartas de tarô. Há baforadas de charutos no ar e prenúncios de bons fluidos nas camas dos motéis e nos descampados das Alagoas.
Dentro deste contexto erótico-esotérico, alguma coisa soprou ao ouvido deste escriba que, paramentado conforme mandam os rituais, psicografou, mais uma vez este horóscopo urgente, para gente urgente, que não tem tempo a perder lendo baboseiras que não levam a nada.
Quero esclarecer que há mais signos que o espaço astral permite, pois usei sinônimos de alguns deles, de modo que uns e outros podem achar aqui sua casa astral. Também foi incluído o novo signo, recentemente descoberto e que estava perdido no mundéu de estrelas, cometas e planetas deste cosmos afora (Soube, por fonte fidedigna, que o Ministério dos Transportes vai asfaltar uma estrada superfaturada para lá.). O nome que lhe deram é responsabilidade deles lá. Não tenho nada com isto. Apenas repito aqui. Embora seja de muito mau gosto!
Aí vão as orientações desorientadas, que, como fiz de outra vez, coloco em ordem alfabética, a fim de facilitar a consulta. E também porque, daqui mais uns tempos, vai-se ver, está tudo errado mesmo.
Aquário: seco, em função do preço da água, ou sujeito às inundações de verão.
Áries: como castigo, irá para Buenos Aires, seu parente próximo (Áries=Aires, percebem?).
Balança (ver tb Libra): cassada, sem certificação do INMETRO.
Câncer (ver tb Caranguejo): só do tipo incurável e galopante.
Capricórnio: tome tenência, cabra chifrudo! (Este aqui só leva esporro.)
Caranguejo (ver tb Câncer): na casquinha, desfiado, ou no recheio de pastéis.
Escorpião: frito, no espeto, em feira do Vietnã, a R$0,50 a dúzia.
Gêmeos: adulterinos e de pais diferentes, sem DNA previsto.
Leão: todos na malha fina e sem devolução do IR em 2012.
Libra (ver tb Balança): a próxima a se desvalorizar diante do real forte.
Ofiúco (o mais novo signo): rege os oxiúros no furico dos nascidos sob ele.
Peixes: o mar não está para vós, ó peixes!
Sagitário: só agita otário. E olhe lá!
Touro: chifrudo que só ele.
Virgem: nem aqui, nem na China. Conta outra, vai!


Este aí sou eu, quando procurava
os astros distraído
(em tiopetrus.blogia.com).


(Omar Xerife, astrólogo egípcio radicado no Badu.)
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PS: Não revogo nenhuma das previsões que fiz e aqui postei em 13/10/2010. Se quiserem conferir, é só clicar aqui.

29 de dezembro de 2011

PENSAMENTOS BEM PENSADOS XI

Imagem em st-andrews.ac.uk.
Entrego aos meus prezados leitores mais vinte pensamentos bem pensados, para reflexão neste final de ano, em que nada de proveitoso acontece. Por isto, eles se justificam.
Para não me alongar em explicações desnecessárias, ei-los aí.


1. A alegria do carrasco é a desgraça do enforcado.

2. Se a cachaça é boa, o tira-gosto sobra.

3. Quiabo pouco, meu xinxim primeiro.

4. O galo do vizinho sempre canta fora de horas.

5. No Dia das Bruxas, as mulheres feias evitam varrer a casa, a fim de não despertar suspeitas.

6. Quem se submete a lavagem cerebral arrisca a ter seus miolos comidos por porcos.

7. Goiás tem produzido tanta dupla sertaneja, que já estuda a possibilidade de iniciar a exportação para a China, ou melhor, para a Cochinchina, para lá do caixa-prego, onde o Judas perdeu as botas.

8. Ladrão que rouba político tem indulto permanente.

9. Acabado o governo, as fotos oficiais do ex-presidente não servem nem para papel higiênico.

10. Político só dá a cara a tapa, se souber que o eleitor é maneta.

11. Boa parte das pessoas que vive com auxílio do governo, nos vários tipos de bolsa existentes, queria mesmo eram bolsas Vuitton ou Victor Hugo.

12. Vítima de erro médico vai-se queixar a Deus.

13. Se o vinho fizesse o bem que apregoam, vinhateiro não morreria.

14. Depois que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso, o homem pegou a mania de oferecer à mulher que almeja conquistar aquilo que perdeu para todo o sempre.

15. Entre ficar preso no trânsito das marginais e tomar um banho de mar antes do trabalho, o carioca prefere a segunda opção. E é isto que fundamentalmente o diferencia do paulista.

16. Na Finlândia tudo se cria. Na China, tudo se copia. No Brasil, para tudo se dá um jeito.

17. Não posso alimentar-me de luz, como alguns apregoam, porque minha tomada não está conforme o último padrão imposto pelo governo. Sou do tempo do "gato" e da gambiarra.

18. O coco não é originário do Brasil, assim como a galinha, a manga, o boi, o pardal. Só falta dizerem que a Juliana Paes é sueca e que a Alessandra Ambrósio veio do Cazaquistão. E o nosso ufanismo onde fica?

19. O paletó do aspone se pendura em cabide de emprego.

20. O pessimista viverá mais que o otimista só para, no fim dos tempos, dizer: "Não falei que o mundo não ia dar certo? Eu já sabia! Eu não disse?".

28 de dezembro de 2011

A MORTE NOS ESPREITA A CADA ESQUINA

A morte nos espreita a cada esquina
E um dia de surpresa
Saltará sobre nossos ombros cansados
E oh!...
Por isso é preciso viver
Como seres eternos naturais
Sem nos importar com o tique-taque enfadonho
Do carrilhão que carregamos no peito
Nem com esse intermitente piscar numérico
Dos relógios digitais
A assombrarem os transeuntes
Com o anúncio fatídico da hora final

É mesmo bom que ela nos espere
Pois a pressa – essa humana urgência –
Nos empurra muito mais para a vida
Que se esborracha pelas ruas pelas casas pelos quartos
Do que para o café requentado
Que provaremos
Depois do último suspiro das horas

Eu não quero nem saber
Apenas aguardo disfarçadamente
Como quem imagina que este jogo nunca terminará

Imagem em atentainquietude.blogspot.com.

27 de dezembro de 2011

MERA ILUSÃO

do vórtice do teu corpo louco de delírio e gozo
correm rios de estrume e lava
de odor e fogo
de alucinação e nojo
e eu impotente e aflito me submeto ao afogo
de que sair não possa por mais que tente o esforço
de viver sem ti
ou de pensar que o mundo assim
estará cheio de explicação
ou pleno de prazer e gosto

certamente tudo mera ilusão

Di Cavalcanti, Iracema (em pre-vestibular.artblog,com.br).

26 de dezembro de 2011

O GORDO

Observo-me agora ao espelho e chego à conclusão de que meu destino era ser gordo. Não consigo ver, em nenhuma parte do meu corpo, espaço que pudesse ter a magreza a preenchê-la (ou a esvaziá-la, como queiram!). E isto, às vezes, pode trazer problemas. Mas, por outro lado, tem suas compensações.

Se não fosse gordo, por exemplo, o que iria fazer do bom-humor de que fui dotado? Acho mesmo que a alegria de viver é parte inerente do meu tecido adiposo. Um magro, quando ri - o que não é muito frequente, convenhamos - parece que está tendo espasmos. Alguns músculos do corpo se contraem involuntariamente, e eu, ao ver magro rindo, como o meu primo Ronaldo, tenho ímpeto de socorrê-lo, imaginando que está tendo convulsões, capazes de levá-lo ao desmanche total.
Eu, não! Quando rio, transbordo, provoco enchente, com perigo de desabar as coisas próximas. Toda a minha pessoa ri, num ritmo cadenciado, que começa pelos ombros e vai até a cintura (Isto se estiver sentado; porque, de pé, até a panturrilha sacoleja.). Se for uma gargalhada, então, como ocorreu num show de Ari Toledo há alguns anos, o sacolejo é de tal potência, que perigo derrubar copos e garrafas de mesas; quando não, verter água em hora imprópria.
Aconteceu algo semelhante, quando jogava dominó no clube e meu amigo Salvador contou a piada do judeu que encontrou uma lâmpada mágica. Ri, como se dizia no tempo de Machado de Assis, ri, repito, às bandeiras despregadas e com tal gosto, que embaralhei o jogo, e algumas pedras foram parar embaixo do vestido curto da mulher do diretor social. Depois dessa, Salvador resolveu só contar piadas - arte em que é exímio - entre uma partida e outra, porque o jogo sempre vale um dinheirinho miúdo, que é para ter mais emoção.
E, quando o riso vem, não o controlo. Ele vem solto, liberado. Às vezes começa solerte, insidioso, lá no fundo da mente, até explodir em plena boca cheia de dentes.
Ontem mesmo, fui a uma clínica para fazer uns exames. A sala de espera estava cheia de homens, mulheres, senhoras mais idosas. Em dado momento, aparece na porta branca que dá acesso à área de exames a enfermeira de branco e, sem a devida atenção ao serviço, chama, em tom de voz que pudesse suplantar o vozerio e o barulho da tevê, o próximo paciente:
- Senhor Armando Pinto!
Não é necessário dizer do constrangimento inicial de todos ali. Olhamo-nos de soslaio um para o outro. Eu estava bem ao lado da senhorinha de vestido telha e cabelos grisalhos. Ela mesma foi a primeira a começar a sorrir - acho até que de um modo nostálgico. Um e outro como que foram contaminados. E acabamo-nos numa risadaria generalizada. Pelo volume que ocupo no espaço físico, cheguei a balançar o renque de cadeiras em que estávamos. E adivinhem qual foi o último a conseguir controlar a convulsão hilária? Exatamente: eu! Não verti água, mas cheguei a suar bastante. E aproveitei para lançar um chiste:
-Isto lá é nome que se dê a criança que já tem destinado o sobrenome Pinto. Nem esse Armando, nem Crescêncio, nem Inocêncio!
E voltamos todos a rir novamente.
E a branca enfermeira, no seu uniforme branco, saiu imaculada sem perceber que provocara uma pororoca hilariante.
Chegada minha vez, ao estender o braço para a conferência da pressão, o médico teve um sobressalto. Ela havia subido, acompanhando a frequência cardíaca, só por causa de uma bobagem dita descuidadamente pela enfermeira. Porém não adiantou explicar ao esculápio o que, de fato, ocorrera. Diante do quadro, colocou sob minha língua uma droga milagrosa e determinou que não só o braço, mas todo o resto do corpo redondo ficasse estendido na cama, por um bom período, até que tudo voltasse ao normal.
Em tom de brincadeira, ainda lhe disse:
- Doutor, então, avise à enfermeira para não repetir a chamada.
É que o Armando Pinto não tivera a coragem de aparecer da primeira vez. Certamente deve ter ido a um cartório para trocar aquele maldito primeiro nome.
Pintura de Fernando Botero colhida em eugordinha.wordpress.com.

23 de dezembro de 2011

FELIZ NATAL E BOM ANO!



Vejam:
O Natal aí vem vindo,
A seguir um novo ano,
E, a cada fim de jornada,
Todos os novos planos
Para o que vem pela frente,
Cheio de augúrios,
Desejos
E renitentes promessas,
Que quase nunca cumprimos.
Mas o que se há de fazer,
Se somos todos humanos?
Assim,
Na medida do impossível,
Desejo aos meus amigos,
Aos meus possíveis leitores,
Aos meus queridos parentes,
Do mais usado ao mais jovem,
Do mais tristonho ao contente,
Do mais magrinho ao mais fofo,
Os votos de que para o ano
Possamos estar por aí
Para reclamar de novo.

Feliz Natal e Bom Ano!

22 de dezembro de 2011

EU PODERIA PEDIR ARREGO

eu poderia pedir arrego
arriar meu coração
pô-lo no prego
empenhado sem vergonha sem desvelo
se você
– metáfora de todos os desejos –
suspirasse ao passar nesse molejo
que nos deixa sem ação boquiabertos
e dissesse
meu chuchu meu docinho de coco meu...
                                   eu me entrego!
Desenho de Lan, colhido em
mardehistorias.wordpress.com.

21 de dezembro de 2011

TIPOS ATÍPICOS

Quando Marly foi trabalhar no departamento de lentes de contato da Ótica Olhar, chegou com a exuberância de um sorriso com mais de vinte centímetros de dentes grandes e bonitos, emoldurado por uma pinta sensual um pouco acima do lábio, do lado esquerdo do rosto, que quase sumia no vinco da face. Séria, ela voltava a seu lugar.
Marly era uma moça alta, cabelos castanhos escuros lisos, olhos negros, sobrancelhas grossas bem cuidadas. Lembrava a atriz grega Irene Pappás, do filme Zorba, o grego. Chegou com uma aliança a indicar-lhe a condição de noiva. E toda sua espontaneidade, toda sua alegria não poderiam ser confundidas com nenhuma permissividade, para que qualquer desavisado chegasse com cantilenas velhas e conhecidas. Estava com os dias contados para dar fim a sua vida de solteira e mostrava isso com a expressividade possível.
Sílvio, rapaz mais jovem que já trabalhava lá, via-a com a cobiça dos adolescentes, sabendo que tudo não passava de um sem jeito danado para com as mulheres. Mas se comprazia em ficar imaginando saliências com ela, na vã esperança de que seu dia haveria de chegar. Mesmo ela sendo mais velha do que ele: ela uma mulher feita, ele um projeto de homem cheio de espinhas no rosto.
Os dois seguiam em seu trabalho normal. Ela, técnica já formada em lentes de contatos – daquelas primeiras que apareceram no mercado –, dava-lhe informações, ensinava-lhe coisas, com todo jeito, o que fazia aumentar, ainda mais, as bobagens que ele imaginava. Nunca, porém, Marly dava a mínima demonstração de que houvesse qualquer coisa que não fosse a relação de colegas de trabalho, também porque o via quase como um menino.
Até que um dia, passados dois meses desde que ela chegara, seu noivo, Edvaldo, resolveu aparecer para pegá-la, pois iam ver alguma coisa para o enxoval.
Aquilo não era um noivo, pensou Sílvio na sua inocente esperança adolescente! Um cara gordo, mal ajambrado, linguinha, zarolho, grossos óculos redondos a fazer par com as bochechas vermelhas também mais que redondas, o cabelo ruivo cortado à escovinha, tipo Sargento Tainha. Que tipo Marly escolhera para noivo, continuava seu pensamento. Deve ser rico, não é possível! Não há outra explicação!
O contraste entre noivo e noiva ficou ainda mais escandaloso, quando os dois saíram porta afora, ela dando-lhe o braço, destacada sua perna bem feita no vestido curto, e ele, calça afivelada acima do umbigo, a bunda murcha dos gordos da cintura para cima, os joelhos um tanto junteiros.
Só pode ser isso: Edvaldo deve ser montado na nota! Deve ser filho de papai, já coroa, meio panaca, como sua cara demonstrava, e Marly, mais do que esperta, esperava faturar um casamento cheio de facilidades. Um dia, quem sabe, ela lhe daria uma sova na cama, daquelas de abalar quarteirões, e aquele coração gordo explodiria – era impossível aguentar o tranco de Marly – e ela ficaria uma viúva bonita, nova, rica e com um sorriso de vinte centímetros de lado a lado da cara. Aí, quem sabe, ele teria a chance que vivia imaginando. Como diz o samba, sonhar não custa nada.
Mais outros dois meses se passaram, quando seu patrão inaugurou lanchonete na galeria do prédio, para diversificar suas atividades de comerciante. E qual não foi a surpresa de Sílvio ao constatar que o cozinheiro da lanchonete era o Edvaldo.
Então foi que ele não entendeu nada mesmo. Estava claro que o cara não era, assim, filhinho de papai. Antes, era feio à beça, mal ajambrado e não tinha dinheiro. Mas que diabos Marly viu nele?
Ah, já sei, continuou pensando. Aliás, era o que mais fazia o rapaz: pensar na situação de Marly. O Edvaldo deve ser bom de cama. Eu aqui pensando merda e o feio é uma máquina de fazer sexo, de deixar a Marly louca. Outra explicação não seria possível, segundo a cabeça aparvalhada do jovem.
Até que chegou um dia que teve coragem de perguntar a Marly, num momento de folga, como ela conhecera Edvaldo.
As famílias dos dois eram vizinhas e eles se conheciam desde meninos. Edvaldo sempre foi seu amigo, estudaram juntos na mesma escola, embora não fossem colegas de turma, e um dia, assim como que por acaso, numa brincadeira ainda de adolescentes, Edvaldo, já com seus óculos redondos e suas bochechas gordas, falou que era apaixonado por ela. Deu-lhe um beijo no rosto, ficou todo vermelho, embaçou as lentes e disse que queria se casar com ela quando ficassem adultos.
Agora estavam os dois arranjando a casa, comprando móveis, terminando o enxoval, e iriam casar-se como quem vai fazer a coisa mais natural do mundo: um homem e uma mulher morarem juntos, dividirem a vida e, se possível, serem felizes, não importassem as diferenças. Era apenas uma coisa de gosto, de sentimento, de amor.
Lá no fundo, Sílvio pensou um puta que pariu contrafeito e desentendeu ainda mais da vida de que ele já tão pouco entendia. Vai-se dormir com uma coisa dessas!

Lampião e Maria Bonita (em tyba.com.br).

20 de dezembro de 2011

ÀS VÉSPERAS DE TEU CORPO

às véspera de teu corpo
brinco com meus antigos mitos
e minhas incompetências
e me vejo imóvel
incapaz
pequeno
talvez a única satisfação
com que te envolva
seja este me mutismo tolo
nos dias conturbados de hoje

às vésperas de teu corpo
luto contra a derradeira impossibilidade
que me apeia do sonho de ti
e vadio
– cachorro doido a revirar vazios –
as incertezas que me assaltam

às véspera de teu corpo
o sono invade a noite
e o dia seguinte me revela
todos os sóis do teu amanhecer

Imagem em opernalta.wordpress.com.

19 de dezembro de 2011

APRENDIZAGEM AMOROSA

um tanto é amar-te morto
absorto dos problemas diários.
outro tanto é sofrer-te
em conjunto, acasalados,
com todas as peripécias
a nos empurrarem um para o outro.
mas entre o primeiro amar-te
tranquilo e evasivo
e o segundo,
o mundo normalmente nos impõe
a dura condição de sermos dois,
pessoas bem distintas
a se quererem machucando-se.
amar-nos, então, além do tal
remédio eficaz da solidão,
é também uma dor na carne
um mal no cerne,
que agride, que estraçalha, que corrompe.

William Bouguereau, Elegie et manque
d'amour, séc. XIX
(enviedailleurs.forumpro.fr).




17 de dezembro de 2011

BENQUERENÇA NUMA HORA DESSAS?

Melaine tinha ficado viúva às cinco horas da manhã, após um afrontamento cardíaco que lhe levara o marido, Melchíades, com CH e tudo, já um tanto imprestável de alguns anos para serviços pesados ou leves, e, às quatro da tarde, seu vizinho olhudo, Messias, já estava fazendo propostas a ela.

A viúva, ainda nem bem acomodara a roupa de luto sobre suas curvas e boleios, e já havia urubu de olho grande sobre seus guardados. Achou aquilo um despropósito, e justamente na hora em que o povo do velório entoava o hino que diz “Com minha mãe estarei, na santa glória um dia”, em molde de última despedida.
Ele se aproveitou do momento de vozerio entoado na sala ampla, para sentar-se ao lado dela, lenço molhado em suas mãos fechadas sobre o colo, e desfiar rosário de duvidosas intenções em seus ouvidos.

Messias tinha essa capacidade extra, além do artesanato em couros e dos remendos em sapatos, que praticava com razoável perícia: dizer saliências nos ouvidos das mulheres que ele imaginava  dispostas a qualquer tipo de franquia de suas pudendas partes.

Para não fazer escândalo no meio da cantoria religiosa, olhou feio para ele, que se levantou de mansinho, sorriso amarelo pregado logo abaixo de um bigodezinho muito do sem-vergonha, do tipo cantor de bolero de bar da guaxa, na beira rio.
Saiu com o chapéu na mão e pegou o primeiro pedaço de broa que encontrou no caminho da cozinha, encheu aquela boca infame e foi sentar-se no banco da mesa espaçosa, onde estavam os quitutes preparados para a ocasião.

Para a mãe de Melaine, dona Mariquinha, que preparava os comes e bebes, Messias fez tais mesuras e rapapés, que a própria senhora desconfiou. Ele era, na verdade, um sapateiro que ia acima das tamancas, sem a menor cerimônia.
Ali ficou por mais um bom quarto de hora, quando percebeu o movimento de fechar a tampa do caixão, ocasião que aproveitou para voltar para perto da viúva, agora ao lado do extinto todo florido de margaridinhas e marias-sem-vergonha.

Imagem em singrandohorizontes.wordpress.com.

Quando as tarraxas começaram a gemer, ao serem arrochadas pelos amigos mais chegados, Melaine entrou em pranto convulso, entrecortado de soluços de rasgar o coração dos circunstantes. Messias, muito prestativo, segurou-lhe o cotovelo, como quem a amparasse, com a mão quente da lubricidade.
Melaine sentiu uma coisa ruim subindo-lhe da base da coluna até o alto da nuca, com aquela mão em seu cotovelo, que interrompeu o choro para assoar o nariz, movimento com que se libertou do sapateiro abusado.

Moto contínuo, o conquistador disse-lhe em sussurro, no pavilhão da orelha esquerda:
- Gostaria de que, agora, a senhora considerasse essa minha benquerença de muitos anos.

- Que benquerença é essa, seu Messias? E numa hora dessas, seu Messias sapateiro? Dê-se ao respeito! Tenha respeito pela dor alheia!
E disse isto com a voz alterada, em bom timbre, de modo que os mais próximos olharam em direção a Messias. Vermelho como uma brasa, o sapateiro enfiou o chapéu na cabeça e tratou de sair o mais depressa que pôde, a fim de não tomar uns catiripapos naquela cara estanhada de homem safado e acabar como o finado Melchíades, com CH e tudo, de canelas espichadas e rodeado por margaridinhas e marias-sem-vergonha.

Onde já se viu?!

16 de dezembro de 2011

BARCA VIDA DESGARRADA

eu te transei transado em tempo
e foi pecado
eu te perdi em barca vida desgarrada
sem sair do pequeno cais do nosso porto
e meu silêncio profundo como o campo
navegou errado e vai seguindo
ainda que o tempo caduco sem sossego
apague a trilha estreita da tua boca
 ou reviva inconsequente o teu sorriso


Imagem em momentosarrepiadospelovento.blogspot.com.


15 de dezembro de 2011

ANOTA AÍ, ZIFIO!

Anota aí, zifio, o que eu vô passá pra suncê.
Suncê pega uma galinha preta, um moio de arruda, umas foia de comigo-ninguém-pode. Amarra as foia, mais a arruda, no pé da galinha. Leva tudo pruma cachoeira no meio da mata fechada, numa menhãzinha de sexta-fera treze. Chegano lá, suncê tira a ropa, fica pelado, c’as coisa de fora, balangano, tumano a viração da menhã. Moia os pé na água fria, pega o amarrado que tô mandano suncê fazê, merguia bem merguiado na água, que não pode sê de remanso, tem de sê de correnteza, e começa a batê no corpo de suncê do mais baixo pro mais arto, da solera dos pé à cumiera da cabeça, de frente e despois des costa. No momento em que suncê tivé bateno vai dizeno essas palavra que eu vô ditá pra suncê. Anota direitim que é pra mode num tê enroscamento com os orixá, com as potença celeste. Tá prestano atenção, zifio? Então, anote aí: Eu – aí fala cumé que suncê chama - sou um disgramado ferrado, tô no mato sem cachorro e perciso de proteção. Venho trazê meu corpo nu aqui nessa água pura e de corrente, que é pra afastá os male do corpo e fechá ele das quizília dos meus inimigo. Arrogo a todos os orixá, a todas as potença celeste, daqui e da mãe África, que é pra mode eu pará de fazê merda, caçá rumo na vida, aprumá meus negoço, largá mão de andá atrás de muié casada, butá um freio na marafa e no cisprandi. Des’ modo, entrego meu destino nas mão de todos os orixá e de todas as potença celeste, arrenego as bestera que fiz no antigamente e bem nesses úrtimo dia, como no entrevero c'a muié do Vardi, que quaje cabô em morte matada. E, se no prazo de três mês huvé quarqué miora na minha situação, prometo arriá despacho suntuoso, de fazê inveja nos otro, nos conforme das orientação do Pai Prudenço, nas intenção do seu orixá de cabeça. Saravá! Aí, suncê fala saravá três vez. Joga o amarrado da galinha, c’arruda, mais a comigo-ninguém-pode no meio do mato, e dá um merguio nas água fria do riberão, sem se incomodá se os trem encoeiê demais. Despois eles vorta no normá, conforme a lei naturá do encoie-espicha, do espicha-encoie.
Escreveu tudim, zifio? Tá tudo anotadim aí? Entonce, suncê pricura um corgo d’água conforme disse e vai fazê essa obrigação. No finá de três lua cheia, suncê vorta aqui, com um conto de réis na mão, mais dois frango preto, sangue de um bode novo, sete pena de urubu, quatro pata de galinha d’angola e meio quilo de mio de pipoca, pra mode fazê as obrigação pro meu santo. Causa que senão, isso vai dá um revertero na sua vida, de suncê se arrependê de tê nascido. Periga de suncê até virá muiezinha. Num toma tenença não, pra suncê vê só! Vai em paz, zifio, debaixo da proteção de Pai Prudenço!

Imagem em talesvale.blogspot.com.

14 de dezembro de 2011

GRAVITO

gravito
qual lua grávida de granito
em torno do leve corpo astral
em que te expões
e desta órbita pesada
não consigo
por mais que tente
escapar

levito
tão leve aerólito me sinto
quando toco teu corpo
e deste atrito
explodem estrelas novas
novos gritos
num reboar de sons
imprevisíveis

e sigo
a tua rota límpida
e neste rito transformo
em meteoritos meus desejos
que se perdem na via láctea
do teu riso
e na poeira cósmica
dos teus beijos

Imagem em sitedecuriosidades.com.

13 de dezembro de 2011

DIGA QUE ME AMA

preciso que você minta e diga que me ama
assovie chupe cana cuspa longe ria falso
mas diga que me ama
invente história iluda o dia esqueça leis
mas diga que me ama
aplique golpes fraude documentos troque nomes
mas diga que me ama

Paul Gauguin, Mahana Maa I Aka
O momento da verdade I
(em mystudios.com).
diga que sou seu homem
diga que sou insuperável irresistível
oh! por favor diga que me ama

eu ando tão cheio das verdades do mundo


12 de dezembro de 2011

É DA PARTE DE SEU ELEUTÉRIO!

Bateu palmas, chegou com ares de compadre, meneando a cabeça e levando a mão à aba larga do chapéu de feltro:
- Lorrado seje Nosso Sinhô Jesus Cristo!
O outro respondeu, porta já aberta:
- Para sempre seje lorrado!
E não teve tempo de voltar correndo para dentro da casa simples, porque o tiro lhe atingiu as costas.
O que chegou tirou o chapéu, fez uma reverência, certificou-se de que o tiro pegara em local mortífero, deu uma cusparada de lado e disse para o moribundo:
- Passe munto bem! É da parte de seu Leutero.
Recolocou o pito na boca, montou no cavalo castanho pé-duro, mal arriado, e sumiu na volta da estrada que contorna o morro plantado de café e milho.
A mulher da vítima, tão logo ouviu o estampido, voltou correndo dos fundos do quintal, onde dava milho às galinhas. Isto era cedinho. Mal o sol despontara nas abas da Serra da Boa Esperança, e já havia desgraça plantada na chácara.
Desesperada, chegou à frente da casa e encontrou o marido agonizando, de borco, na soleira da porta, as pernas espichadas para a varanda de madeira seca, o resto do corpo para dentro. Um rombo nas costas vertia sangue.
Ainda viu um pouco de poeira levantada na curva do caminho, amarelada pelo sol matinal de um abril fresco e despreocupado.
Naquele dia, Honório, seu marido ali estendido, agora já morto, completaria trinta e dois anos. Morreu em antes de arredondar a conta, com a galinha ao molho pardo que a mulher prepararia para comemorar a data, como combinado na véspera: Mulher, faz aquela galinha que só você sabe!
Os dois filhos pequenos, de nove e sete anos, ainda dormiam. Não haveria aula na escolinha rural a uns bons dois quilômetros dali. A nova professora tinha compromisso na sede do município, para resolver problemas de sua matrícula na Secretaria de Educação.
Com os gritos da mulher, os filhos acordaram sobressaltados e chegaram até a porta da frente da casa. De início, não entenderam muito bem a cena, porém entraram em pânico, ao ver a mãe agarrada ao corpo do pai, o sangue correndo pelo chão e entrando nas gretas das tábuas do assoalho.
A casa ficava isolada no meio de uma chácara, cercada de arame farpado, uma tronqueira a barrar o acesso de animais, e um rústico canteiro de florezinhas bobas da roça do lado esquerdo de quem entra.
Vizinhos de algumas centenas de metros correram em direção à fonte do barulho do tiro e chegaram, três deles, em poucos minutos. Neca trazia a espingarda; Dilino, o facão e Crisanto, uma garrucha quarenta e quatro, armas sem utilidade. Não houve tempo para nada. Honório, naquele instante, já era defunto.
Providenciaram a saída da viúva e das crianças da cena. Neca os levou para sua casa, e Crisanto arriou o cavalo para ir até a sede do distrito – que eles chamavam simplesmente “rua” –, a fim de comunicar o fato ao subdelegado de polícia.
Na rua, Ivo tomava café no bar do Roldão, quando foi cientificado do crime. Mandou chamar o soldado Afrânio e o cabo Guilherme, e partiram os três, mais Crisanto, para a chácara Providência, localizada a uns seis quilômetros da vila, um pouco depois da Fazenda da Forquilha, já ameaçando subir a Serra.
A cena era a mesma que Crisanto havia deixado sob a vigilância de Dilino, preocupado em espantar os cachorros de perto do corpo do vizinho morto. Naquela hora, o sangue talhado no chão tinha uma cor esquisita.
Ivo e os dois meganhas examinaram canhestramente a cena, rodaram em torno do cadáver, fizeram perguntas, verificaram o chão próximo à casa à procura de pistas, olharam a estrada em curva, viram a altura do sol naquele momento e imaginaram coisas.
A viúva, muito abalada, foi poupada naquele instante pelo subdelegado, que mandou providenciar a remoção do corpo até a sede do município, onde o legista faria a autópsia.
Dois meses depois do ocorrido, as investigações chegadas a termo, o subdelegado encaminhou ao delegado da cidade o relato da ocorrência.
Como um cão farejador, o cabo Guilherme apurara tudo esmiuçadamente, indagando uns e outros, de casa em casa, de venda em venda, de birosca em birosca, por aqueles caminhos, e não tinha dúvidas de quem praticara o crime: Nestor da Zefa.
Nestor da Zefa não tinha trabalho certo. Fingia coisas, dizia que herdara herança em dinheiro do pai, com fazenda para os lados de Resplendor, em Minas, negociava cavalos, vendia relógios, ausentava-se com frequência, mas estava sempre bem, sem aparentar necessidades, sem dever na praça, comprando sempre à vista, coisa desacostumada na vila.
Depois do levantamento feito, tudo dentro do maior sigilo que um meganha conseguia naqueles tempos, naquelas bandas de mundo, ele e o soldado Afrânio, sob a chefia de Ivo, astuciaram plano para pôr as mãos em cima de Nestor da Zefa, no momento em que ele jogava partida de sinuca no bar do Roldão, o subdelegado na porta, com reforço de mais quatro meganhas da delegacia da cidade.
Quando Nestor da Zefa percebeu que o caldo havia entornado, quis fugir pelos fundos, passando por detrás do balcão, de onde derrubou um vidro de pirulitos. Foi recebido por dois soldados, que o imobilizaram, amarraram-no com corda grossa e o conduziram para sede do município.
Lá aplicaram os corretivos de praxe nos interrogatórios policiais dos idos dos anos cinquenta, e Nestor da Zefa deu com a língua nos dentes de não deixar pormenor sem esclarecimento, nomeando mandante, preço e demais combinações da encomenda, inclusive a data do aniversário do infeliz.
Eleutério Rocha, assim que soube da prisão de Nestor e conhecendo-o como o conhecia, sabedor de que era um cabra frouxo, sem couro na língua, disse para a mulher que estava de viagem marcada para São Mateus, no norte do Espírito Santo, divisa com a Bahia. E saiu dirigindo seu Ford cristaleira, cinquenta quilômetros por hora, pulando na estrada de chão, para fugir da justiça.
Nunca mais foi encontrado, ou dele notícia se teve. A mulher, mal recebeu carta sem remetente identificado, daí a uns tempos também se mudou da vila, levando filhos e abandonando tudo o que tinham construído até então.
Nestor da Zefa foi julgado, condenado e morreu na cadeia, por conta de desavenças com outro preso, dois anos depois. E não se soube que chorassem por ele. Na vila, mesmo, houve certo alívio nas pessoas.
A mulher e os filhos de Honório nunca saíram da chácara Providência.
Os meninos cresceram, viraram homens e, por qualquer conto de réis, dão cabo de não importa que sujeito tenha atravessado a vida de fazendeiros como seu Eleutério. Tal qual ocorreu com seu pai, tantos anos atrás, por conta de migalhas e mesquinharias, sem a mínima importância. A vida humana levada na conta de raspa de tacho.
Grant Wood, Stone city (séc. XX).