28 de novembro de 2014

OCASO


Por acaso
No ocaso
Quando o sol se puser
Estando o sol posto
E o meu querer
Não mais quiser
É porque já estarei morto
E aí talvez eu viva
Se de fato morto estiver
Nos muitos versos que fiz
Já que viver post-mortem
É um mistério incontrolável
Intangível
Tão inverso ao viver
Até difícil dizer
E não um querer qualquer


Pôr do sol na Baía da Guanabara, com o Corcovado (foto do autor).

25 de novembro de 2014

RECEITAS DE MINHA MÃE


Minha mãe amassa a massa
Com que faz pastéis de sonhos
Beijus que cintilam no céu da boca
Enrola a massa em tranças de Rapunzel
Cristalizadas de açúcar
Com que a vida adoça
Faz pão italiano de redondo feitio caipira
Bolo com gosto de infância
E broa de milho da roça
Mexe o tacho do açúcar mascavo
E na calda fumegante derrama amendoim torrado
Donde saem alegres pés-de-moleque
O pão dormido ela acorda como mironga
E com natas recolhidas por semanas
Misturadas à farinha
Faz pãezinhos indescritíveis que derretem em plena boca

Todas essas receitas traz de cor no coração de mãe
De avó
De bisavó
Não estão anotadas
E por menos que um por elas clame
Estarão prontas

E nenhuma delas jamais desanda


Obra de Johannes Vermeer, Leite fresco, 1658/60 (sv.wikipedia.org).

21 de novembro de 2014

TORDESILHAS


Eu vou tramar Tratado de Tordesilhas
Transpor as ilhas
Romper as trilhas com trinitrotolueno
Botar benzeno nas grutas frias
Nas grotas abruptas
Em que se precipitam rios aflitos
De desconforto pela existência
E vou levar a minha paciência
Aos limites intangíveis do viver
E aceitar o outro e seus defeitos
E seus problemas e seus conceitos
E sua estranha mania de querer
O ser humano é mesmo meu irmão
E não importa o quão estranho isto possa ser.


Amigos em Icaraí (foto do autor).

12 de novembro de 2014

REFLEXÕES CARTESIANO-ACHÍSTICAS ACERCA DA VIDA

1. INVEJA/INVEJOSOS: Pressupor que a inveja incomode mais o invejoso do que o invejado é um grande equívoco. Este, o invejado, passa parte de sua vida envolvido em mandingas, rezas, fechamentos de corpo, descarregos, banhos de proteção, uso de arruda atrás da orelha, espada-de-são-jorge e comigo-ninguém-pode na porta de casa. Já o invejoso apenas exerce seu direito à inveja. E quem quiser é que se proteja!

2. ECONOMISTAS/PROFETAS: Economistas e profetas exercem profissões semelhantes: fazem prospecção de futuro negro para os povos. Os profetas ainda podem anunciar alguma salvação à frente, como ocorreu no Velho Testamento. Contudo os economistas modernos só apontam um horizonte de desgraças. E nisto, fundamentalmente, eles acabam por não se parecer tanto quanto parece (Uma incongruência, pois não?). Embora eu, particularmente, não acredite em nenhum dos dois.

3. UNHAS/UNHEIROS: Tenho visto crescer, nestes últimos tempos, um afeto quase exagerado por parte das mulheres por suas unhas e pelas unhas mais bem pintadas de suas desafetas, isto é, as outras mulheres. O que causa sérios problemas psicológicos femininos. Proliferam na Internet sites, blogs e postagens a respeito do sem número de invenções modernas, para tornar as unhas mais importantes que os dedos, de tal forma exageradas tais invenções que vão acabar produzindo uma epidemia de unheiro. Depois não digam que não avisei.

4. CORRUPTOS/CONSCIÊNCIA: Há uma crença popular generalizada, criada pela elite corrupta e imposta ao povo como amortecedores eletrônicos, de que o pobre e/ou o honesto deitam a cabeça à noite em seu travesseiro e dormem o sono dos anjos, dos justos e dos inocentes. Já os safados, os corruptos e os larápios de toda gama – diz esta mesma crença – não têm sossego nem na hora do sono. E mais: não teriam coragem de olhar nos olhos dos filhos. Grande mentira! Os honestos é que não dormem tranquilos. Os safados têm a consciência petrificada e estão-se lixando para o que os outros pensem. E olham nos olhos do filho como canalhas que são, capazes até de inocular nos miúdos o veneno de sua canalhice. Ou não seriam canalhas. Se tivessem um pouquinho de consciência ética, seriam honestos.

5. CRIME SEM CASTIGO: Quanto mais a Polícia Federal e o Ministério Público investigam, tanto mais corruptos e criminosos se encontram. Parece aquela velha história do interior que diz que não se deve mexer em bosta de boi, pois quanto mais se mexe, mais fede. O mais interessante é que nossos conterrâneos não esquentam a cabeça com o fato e continuam fazendo as mesmas trapalhadas e falcatruas de sempre. A recente publicação do relatório sobre a violência no país traz dados alarmantes. O brasileiro, na verdade, não desiste nunca.

6. LADY GAGA/MADONA: Não sei qual é uma, qual é outra. Embora ache as duas um tanto teteias. De Madona tenho guardada a sete chaves a revista em que mostrou ao mundo a abundância de seus pelos pubianos em fotos P&B, no auge da sua juventude, antes mesmo de ser a diva do pop. Dessa eu me lembro bem. Porém quando vejo Lady Gaga cantando – acho que porque estou ficando gagá – me confundo e acho que seja Madona. Aí, ao aparecer Madona, acho que é Lady Gaga. Por isso é que sempre presto muita atenção à performance erótico-musical de ambas. Estou aposentado, sem fazer nada mesmo, não me custa ficar olhando.


Lady Gaga, com o peito caído da Madona (en.wikipedia.org).


3 de novembro de 2014

DESTA JANELA

Desta janela
Aberta sobre o nada
Entrevejo a lua num céu de lata enferrujada
Entre prateadas nuvens distraídas
Salpicado de estrelas decadentes

Ao lado dela
Uma estrela amarela
Que parece tê-la como afilhada
Pois que confia a ela seus segredos de madrugada
Imersos em plangentes serenatas

Pode ser que seja Vênus desnudada
Tal estrela
Ou Marte tremeluzente
Júpiter apaziguado?
Ou mesmo quem sabe
Uma espaçonave abandonada
No estacionamento do céu onipresente
Na rota de serestas inexistentes
A iludir minha imaginação alucinada

Van Gogh, A noite estrelada, 1889 (em wikipedia.org.).