30 de abril de 2012

TIPO ASSIM, NUMA BOA!

Tipo assim: ela não entrou no salão de beleza, ela invadiu comunidade. E chegou pagando geral:
- Aí, quem é a periguete que tá dando mole pro meu homem?
O salão fica na parte baixa da favela, na rua de acesso, próximo ao posto policial. É razoavelmente grande, com cinco cadeiras que trabalham quase sem parar, sobretudo quando há baile funk na quadra da AMAVO - Associação dos Moradores e Amigos da Vila Operária. Numa dessas cadeiras, quem dá as cartas, ou melhor, as tesouras e pentes, é Katiene.
Para descrever a pessoa de Katiene seria necessária uma câmara digital, com grande angular, cheia de pixels, gravação de vídeo, porque ela é uma mulata quase criminosa de tão bonita. Basta dizer que o último lambe-lambe que tentou fazer uma foto do seu corpo inteiro teve a placa de sua máquina definitivamente queimada, motivo que o fez abandonar a profissão em caráter irrevogável. Ela é do tipo de mulher que se garante. De pé, é quase um monumento. E, quando põe o biquíni para tomar banho de sol na laje, é um tal de neguinho soltar pipa, que é uma festa.
Por isso é que não se fez de rogada e, tilintando a tesoura entre os dedos, disse com todas as letras:
- Sou eu mesma, Katiene Conceição da Silva! Por quê? Tá pegando alguma coisa, meu bem?
Marcilene - esse é o nome da invasora - também não é de se jogar fora. Subida no seu salto plataforma, palmeava com a outra em tamanho e não perdia no quesito harmonia e adereços. A seu favor, naquele momento, o fato de ser considerada a oficial de Cleisson, mulato dobrado, cabeça raspada a máquina com desenhos refeitos a cada semana, alguns piercings espalhados pelo rosto, de atividade suspeita, já que oficialmente nada faz, mas está sempre montado na grana, a beca impecável, correntão de ouro a aparecer na abertura da camisa, pisante maneiro.
A rede de informantes do morro o avisara há tempo, de modo que ele chegou logo atrás de Marcilene, encontrando as duas de frente uma para outra, em atitude francamente hostil, já com os primeiros paus do barraco a ser montado ali mesmo.
A dona do salão, no entanto, adiantou-se ao conflito e ordenou que eles fossem resolver suas diferenças na rua, porque ali era local de trabalho e ela não iria admitir furdunço em seu estabelecimento.
Cleisson puxou Marcilene pelo braço, com a força necessária para mostrar quem comandava a situação, levou-a para fora e convocou Katiene para a reunião de aparar diferenças.
E quem começou falando foi justamente ele, assumindo a culpa, admitindo que ciscava fora do terreiro, que gostava das duas, que tinha condições de dar boa vida para ambas, que elas deveriam considerar essa hipótese, que seus planos no trampo eram ambiciosos, que em pouco tempo estaria por cima da carne-seca, que ele não era mané, que não ia tolerar ver nenhuma das duas com outros, que o melhor caminho era elas se entenderem e que, se tivessem juízo, aceitariam a proposta, “tipo assim” – nas palavras dele: é pegar ou largar.
E enlaçou as duas pela cintura, puxou-as contra si, deu-lhes um cheiro no cangote perfumado, que as deixou arrepiadas e boquiabertas - duas mulatas monumentais diante de um dilema crucial.
Katiene sorriu suavemente, superiora. Marcilene fechou a cara, contrariada.
- Vou deixar as duas conversando, se entendendo, acertando os ponteiros. Não quero saber de barraco. Vou subir para a birosca do Ceará, tomar uma cerva, Espero só duas garrafas pela resposta. Ou é a minha proposta, ou será melhor mudar de comunidade, falou? Aê, mulher não falta na cidade!
As cervejas estavam geladas e se fizeram acompanhar de uns belisquetes. Ceará notou o jeito de preocupação de Cleisson, mas não disse nada. Não havia por que se meter com um cara tipo ele, nem para saber como passara a noite anterior. E deixou para lá.
O próximo baile funk na AMAVO foi patrocinado por ele, com entrada franca para a comunidade. E aproveitou para comunicar a todos que ninguém se metesse a engraçadinho com Katiene e Marcilene, suas protegidas desde a última quinta-feira.
E todos entenderam, tipo assim, numa boa!

Lourival Viegas, Favela (em br.artmajeur.com).

29 de abril de 2012

NOITES SEM SOL


Guignard, Noite de São João, 1961
(imagem em www1.cultura.mg.gov.br).

Dada a minha proverbial preguiça, herança antiquíssima do tempo das caravelas e passada de pai para filho desde 1800 e poucos, resolvi achar um título para esta postagem que não significa nada além do que a palavra inicial já contém, sem depender da locução que lhe vem imediata. Olhem que beleza ficou: noites sem sol.
Ninguém poderá contestar isto. É o óbvio. É o lógico. É o esperado. Não haverá polêmicas, réplicas e tréplicas. Nem mesmo considerações metafísicas ou reparos hegelianos, com viés marxista.
Não darei trabalho à sua inteligência, para descobrir o escondido por entre a trama do discurso. Aqui a comunicação é direta.
Porque blog tem esse problema: se você disser que a Angelina Jolie é uma linda mulher, há um sem número de cidadãos e cidadãs de bofe virado que vai contestar o que você disse. Eles vão alegar o excesso de lábios lindos; o excesso de morenice brejeira; o excesso de... sei lá mais o quê! Certamente até o incontestável que todos vemos.
Por outro lado, se você taxa o Brad Pitt de pitbull horroroso, feio da cabeça aos pés, aí, então, é praticamente crucificado entre os ladrões do Congresso Nacional. Coisa assim muito pesada, de não achar salvação nem em trocentas encarnações.
Por isso é que resolvi dar este título: noites sem sol.
E me lembrei da bela música de Flávio Venturini e Ronaldo Bastos, Noites com sol, cujo título deve ter dado um trabalho do cão. Eles devem ter ficado muitas noites sem sol sem dormir, para pensar num título tão estranho quanto este. Pensem que estamos no Brasil, este “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”, em que a natureza funciona mais ou menos sincronizada com o relógio.
Porém me dirão os propagadores do óbvio que, é claro, um dos dois – por exemplo, o letrista/poeta Ronaldo Bastos – deve ter viajado a terras do norte da Europa e constatado o fenômeno. Há, inclusive, excursões já montadas para se admirar este fato extraordinário.
Eu mesmo mal saí de Carabuçu. Ainda que lá não viva desde os primórdios dos 60. E, por todos os lugares por onde ando, sempre acho alguma coisa semelhante à minha terrinha natal. Mesmo em Paris, com sua beleza arquitetônica acachapante, sua história de mais de mil anos, encontrei um cidadão, numa das várias lojas de queijos da cidade, parecidíssimo com o Antônio Turco, um antigo fazedor de fumo de rolo da minha vila. Vejam como o mundo é pequeno: não era ele, mas era ele escarrado e cuspido, como diz o dito atravessado.
Talvez por um atavismo horroroso, que não desgruda da gente por mais que se queira, estamos sempre reconhecendo nossa aldeia nos mais diversos cantos do universo. São as tais raízes. Ou talvez a necessidade de não se perder na vastidão do planeta. Por onde se vá, sempre haverá alguma coisa semelhante ao seu torrão natal, às gentes que lá habitam. E aí ficamos tranquilos!
Certa vez – e foi a primeira em que ouvi isto – meu primo Zé Fábio, mais mocorongo do que eu, tentando justificar seu início mal adaptado a Niterói, pelo início dos 70 do século passado, disse que “às veiz a gente sai do mato, mas o mato não sai da gente”. E falou assim, com a frase estropiada mesmo, para marcar ainda mais este nó duro que se encontra lá no interior de nosso caráter de gente do mato. O que é uma verdade verdadeira – expressão também que gostávamos de repetir, porque lá não conhecíamos a palavra insofismável.
Vejam, então, que fiquei eu, em torno desse título arranjado por minha preguiça, sem falar absolutamente nada, somente para enrolar os meus leitores com uma conversa de cerca Lourenço, um papo furado, um circunlóquio, apenas por um gosto roceiro de puxar conversa fiada e fazer amigos por onde passa.
E, se, por vezes, nos desentendemos ao falar, o que mais cumpre à linguagem é nos acertarmos, nos entendermos e, quem sabe até, nos amarmos como iguais e irmãos.
Por isso é que não falei nada a respeito de noites sem sol. Também não tinha o que dizer. Ou iria chover no molhado. Se é que me entendem!

27 de abril de 2012

LADAINHA PROFANA

Queria balangar beiço,
Antes que seja tarde,
Com a Isabel Filardis.
E ter dois dedos de prosa
Com a Tahis Fersoza.
E, antes que o mundo caia,
Levar um papo bem sério
Com tudo que é Cláudia Raia.
Se não for pedir demais,
Estabelecer entrevero
Com a Carolina Ferraz.
Ou com a Aline Morais
(aí tanto faz).
Partir direto pro ataque
Com a Lavínia Vlasak.
E trabalhar, sem ter sócio,
Com a Ana Paula Arósio
Ou a Paola Oliveira.
Mas viro o cão chupando manga,
Se devorar a Pitanga,
Que tem por nome Camila.
E ser o primeiro da fila
Com meu coração insieme
Da Fernanda Paes Leme.
E, sem jogar feio ou sujo,
Triscar Taís Araújo,
Molhar a Deborah Secco,
E converter-me em pateta
Se acaso Patrícia Poeta
Olhar-me pedindo bis.
E grudar-me como carrapato
Na japa Sabrina Sato,
Pilotar avião que não voa
Que é Ticiana Villas-Boas
Ou até que voa demais
Sobre torres e menires
Tal qual Juliana Paes
Assim como Cléo Pires.
Ou maduras bem bacanas
Com a bela Cláudia Ohana,
De floresta memorável,
E Ana Paula Padrão,
Sempre em primeira mão,
E a linda Luiza Brunet,
Para fazer um fuzuê.
Ou a Luma de Oliveira
Só pra fazer besteira.
E se houver bota e tira
Agarrar-me com Shakira
Com Beyoncé, com Rihanna,
E com a loura comprida
De sobrenome Hickmann,
E nome singelo de Ana,
Talvez mesmo com Luana,
A maravilhosa Piovani,
Ou com a linda caipira
Deste outro lado dos Andes
Chamada Paula Fernandes.
E, como cão, seguir o rastro
De duas morenas Castro:
Ana Luiza e Carol
Ou da Giselle Itiê.
E ficar de trelelê
Mandar um som bem maneiro
Com a bela Dora Vergueiro
E com a Ivete Sangalo.
Aí então cantar de galo,
Cumprindo com meu deleite
Na rede com Cláudia Leite,
Que não vai cantar axé,
Porque senão não dá pé.
Ou emaranhar-me às avessas
Nos cabelos de Vanessa
Que, da mata, cantará pra mim.
E, pra que o papo não espiche,
Vou dizer pra Vera Fischer
Que meu amor não se apaga
Por ela e por Sônia Braga,
Musas do meu passado.
Bem antes, porém, que uma pane
Me dominasse a cuca
Vali-me do amor de Jane.
Mas dada a relevância do assunto
E o aperreio da hora
Peço perdão a outras belas
Que ficaram de fora
Desta minha ladainha.
Mas é que não é culpa minha.
Parodiando Camões:
São muitos os aviões
É muita mulher bonita
Para esta tão curta vida!

ana1111 Fotos   Ana Hickmann
Ana Hickmann (em compimenta.com).
(Explicação necessária: Relutei em publicar este poema, escrito há algum tempo, porque não passou pela censura prévia da minha mulher. Ela disse que os outros iriam achar que eu já estou um velho meio bobo. E que, também, só a inclui no poema, para aliviar minha barra. Acho que ela tem razão nas duas opiniões. Aliás, ela sempre tem razão - não sou besta de dizer o contrário -, mas, às vezes, também sou um pouco desobediente. Por isso, resolvi postá-lo, na esperança de que ela não veja isto.)

26 de abril de 2012

ZIFIO TAVA SUMIDO!

Pai Prudenço (em talesvale.blogspot.com).

Zifio tava sumido e agora assuntô pur riba da minha soleira. É sempre assim. Toda vez que zifio tem pobrema, ele parece aqui, com cara de cachorro que virô a panela do vizinho, oiando pra baixo, pescoço sem levantá aquele zói azul. Aí eu sei que o pobrema é brabo. Pode dizê, zifio! Pai Prudenço tá aqui pra escuitá. Abre seu coração, zifio! Num deixa nenhua mágoa de fora, pra mode eu podê mexê meus pauzinho tudo nos conforme das entidade e dos caboco. Que se eu num subé direitim, os trem pode desandá. E entonce, pra consertá, é um desassombro medonho! Mas cumé que ocê tá dizendo, zifio? Se meteu traveiz ca muié dos otro? E dessa vez os otro descobriu? Xiiii, zifio, ocê só faz o que o gato enterra, né meso? Aquela brigação que eu passei pr’ocê lá na cachoeira num adiantô nada, zifio? Ocê fez tudo direitim, conforme manda o figurino e, assim meso, num deu certo? É, entonce, ocê tá é cum um encosto brabo. Mas eu lá posso sabê quem é essa tar muié dos otro? Quem sabe eu num possa acorrentá o trabaio novo com o nome dela, pra tirá ocê dessa sufrega? A Candinha do Antõi Padero? Mas aí, zifio, vai ficá munto difice. Candinha é um muierão! É uma muié munto jeitosa! Vô meso te dizê, zifio, que até Pai Prudenço era capaz de se enredá nas teia de aranha dela, de num desapartá nem com reza forte. Aquilo é uma muié e tanto, de requistá purso forte pra sua governança. E nóis sabe que Antõi Padero é um carça froxa, que, quano num tá fazeno pão, tá na igreja orano pela arma dos pecadô. Casô cum ela só porque fez saliença na juventude e o pai dela chegô de trinta e oito engatiado nos corno dele e aí ele num teve saída. Mas já sabia que num ia consegui governá muié tão apetrechada de fornidos e murundus. E piorô despois que entrô pra igreja. Acho que agora ele nem gosta mais das coisa. Ocê sabe bem do que tô falano! Vô meso te dizê, zifio, num convém fazê serviço nenhum pr’ocê. Ocê tá mais é do que certo! Se é comigo o enredo, afundo no mundo de não querê sabê de otra coisa. Candinha é joia preciosa, chegada numa saliença das boa. Sempre foi ansim. Eu, na qualidade de seu guia espirituá, tô te dizeno: afunda nas carne da Candinha sem medo, que eu vô fazê um trabaio pra neutralizá o corno. Que aquilo ali não vale o pão que amassa. Ah! eu nos amontoado da Candinha, zifio! Ai! que inveja danada d’ocê, zifio! Vai em paz, zifio, e deixa o corno comigo, que vô amarrá ele pelos sete lado, de ele num dá cobro de tanto fazê pão e se desvencilhá das obrigação da igreja. Vai tê até de badalá sino na morte de cachorro e gato. Vai na paz de Pai Prudenço, zifio! Ai! se inveja matasse, Pai Prudenço tava desencarnado!

25 de abril de 2012

POESIA x POESIA

Poesia não é uma questão de rima
Uma questão de metro
Nem o debordamento sentimental
De um coração incerto
Ou o amor sensual
Praticamente um incesto
Entre o poeta e o verso
Um soluço furtivo
Ou engajado protesto
Cujo grito ecoe da menor das cidades
À amplidão do universo.

Poesia é antes de tudo um estro
De harmonia inaudita
Que se fixa
Entre o que se pretende
E o que de fato se explicita
Conteúdo e forma
Numa espécie de música
De entretecido ritmo
Que ajuste no tempo o aquilo e o isso
O expresso e o sugerido
O dito e o não dito.

Franz Marc (1880-1916), Biche dans le jardin fleuri (em repro-trableaux.com).


24 de abril de 2012

DEZ PLANOS DE AÇÃO GOVERNAMENTAL


No intuito de colaborar com o Governo e a tal da governabilidade, e depois de muito queimar os poucos neurônios que ainda me restam, bolei dez planos de ação a serem implementados a nível nacional, quiçá estadual, quem sabe municipal e até mesmo internacional (Nunca se sabe!), a fim de se aumentar a popularidade de nossas autoridades constituídas. Ainda mais porque as eleições estão aí mesmo, bem antes da Copa do Mundo e das Olimpíadas.
Tais planos poderão ser usados desavergonhadamente e sem necessidade de nenhuma despesa pública para sua aquisição. São gratuitos. Isto é, de grátis!

Portanto não venham depois dizer que tiveram de pagar milhões de reais por eles, que, de antemão, será tudo uma deslavada mentira.
Eis aí:

1. Promover a transposição das águas de enchentes para regiões que sofrem com as secas.
2. Propiciar a transposição de secas para regiões assoladas por enchentes periódicas.

3. Implementar o plano definitivo de salvação da educação pública brasileira: privatizar tudo e transformar as escolas em locais para baile funk.
4. Criar pequenas prisões de segurança mínima para trancafiar os poucos políticos honestos e deixar os desonestos livres, como forma de economizar. Se, depois de tanto roubar, o Estado ainda gastar com essa corja, será uma despesa ainda maior.

5. Alterar o nome da Esplanada dos Ministérios para Esplanada dos Mistérios e Suspeições.
6. Proibir brasileiro pobre e sem plano de saúde de ficar doente e precisar de hospitais públicos. Morrer fica permitido, desde que tenha onde cair morto.

7. Criar, em caráter suplementar à Lei Seca, a Lei Úmida e, em seguida, a Lei Molhada, cuja utilidade não se saberá direito, mas isto não tem importância nenhuma, desde que também se criem multas, a fim de reforçar a arrecadação do Governo. E aí tudo se justificará.
8. Tornar a atividade político-partidária crime hediondo, a ser punido com a pena perpétua de recebimento de um salário mínimo mensal pelos infratores.

9. Exigir de todos os indicados para cargos públicos de confiança, para qualquer escalão, atestado de maus antecedentes, de forma a evitar instalação de CPIs e investigações policiais inócuas e extremamente dispendiosas para os cofres públicos.
10. Enviar para as áreas de conflito armado, por todo o planeta, cantores de axé music, grupos de sertanejo universitário, forró universitário, pagode romântico, tecnobrega, como forma de cooperação com organismos internacionais na busca pela paz. Será dispensado o retorno dos despojos.
Imagem em assimeugosto.com.

23 de abril de 2012

DECLARAÇÃO

Sou fluminense
Maneiro
Menino
Roceiro
Retinto
Festeiro
Crioulo
Cantante
Mulato
Fagueiro

Sou popular
Circunstante
Metamorfose
Ambulante
Ambivalente
Distante
Dos arraiais
Dos mandantes

Sou esfaimado
Doente
Tão desdentado
Demente
Muito mais povo
Que gente
Dessa que o papo
Indecente
Incha a mostrar
Sorridente
Quão serviçal
E servente
Pra todo tipo de obra
Até mesmo engolir cobra
É esse tipo de gente

Sou miserável
E inocente
Vítima réu moribundo
Muito mais raso
Que fundo
Bem menos frio
Que quente
Muito mais triste
Descrente
De todo o clã
Dominante
Porém vivo qual serpente 
Gustave Doré, Dom Quixote e Sancho Pança,
séc. XIX (em pt.wikipedia.com).

Sou tudo isso
E somente
Boca que cala
E consente
Língua que diz
E não mente
Riso que ri
E não sente
Cegos mil olhos
De frente
Sonhos futuros
Presentes
Até que a gota que falta
Da minha baba insolente
Nos sirva à ira fecunda
E meta o pé pela bunda
Dos corruptos
Dos mentirosos
Dos incompetentes

(Poema do fim dos anos 70.)

21 de abril de 2012

CRÔNICAS DE MIRACEMA II

Quando conheci Miracema, lá pelos fins de 70 do século passado, levado por minha mulher, que é oriunda de lá, fiquei muito bem impressionado com a cidade.

Embora pequena –  para repetir uma implicância que gosto de fazer, menor que a minha Bom Jesus do Itabapoana –, Miracema tem uma praça ajardinada maior e muito mais bonita que a Governador Portela de minha terra natal. Ambas sofreram remodelação há pouco, numa onda de reformas de praças em cidades do interior que parecia coisa orquestrada.
O povo miracemense, contudo, não difere do bonjesuense: ambos são receptivos, simpáticos e gostam de uma conversa fiada, que se puxa com o umbigo colado ao balcão do botequim, ou nas outras diversas oportunidades que a vida numa cidade do interior proporciona.

No verão, o calor é semelhante em ambas: senegalesco, embora em Bom Jesus corra, por vezes, um vento suave favorecido pelos contornos do leito do rio Itabapoana, que marca a divisa entre os estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Tal calor só é ultrapassado pelo de Itaperuna, que fica à metade do caminho entre as duas cidades e por onde passo sempre que vou visitar meus familiares.

Mas o que, naqueles idos, me chamou muito a atenção foi a profusão de moças bonitas que a cidade tinha. Era um enxame delas, como não se via frequentemente em lugares do mesmo tamanho e com a mesma população. E, talvez motivada pelo momento – era carnaval –, a beleza das miracemenses ainda tinha o componente festeiro e alegre das devotas do Rei Momo.

Eu havia saído de Bom Jesus, para estudar em Niterói, onde acabei fixando residência, em 1967. Àquela altura, lembro-me bem, sabíamos dos nomes das moças bonitas da minha terra. Eram algumas, não muitas.

Niterói, por exemplo, é um celeiro de mulheres lindas. Mas isto era uma coisa mais ou menos previsível para mim: população muito maior, mais mulheres bonitas. Miracema, todavia, tinha proporcionalmente, mais moças jeitosas (palavra que então gostávamos de usar, com certo acento malicioso em sua pronúncia) do que Niterói. E, sobretudo naquele carnaval, fiquei imaginando a razão deste quase milagre (eu também me beneficiava de ter uma mulher bonita): a água – a escassa água – da terra deve ter lá os seus mistérios.

Lembro-me até de um comentário que a grande professora e artista plástica Maylda Bessa fez, por volta dos 80 – ela já beirando a terceira idade –, a respeito da beleza de nossas alunas na Faculdade do Centro Educacional de Niterói. Ela própria reconhecia que, “em sua época”, não havia tantas garotas bonitas. Até mesmo, segundo ela, a forma do corpo mudara. Eram corpos de padrão moderno, bem mais sensuais e harmônicos.
Passaram-se todos esses anos e, como que, me acostumei com isto. Na verdade, podemos constatar, tanto lá, quanto aqui em Niterói, como em Bom Jesus ou em qualquer rincão deste país, que o padrão de beleza do nosso povo melhorou bastante nas últimas décadas. Inclusive o dos homens, raça por que tenho ojeriza, mas cuja existência não posso deixar de reconhecer. Os filhos são normalmente maiores que os pais e, por conta da melhoria no padrão de vida, também são mais belos.

Pois, desta última vez que estivemos em Miracema, saímos com minha filha e o noivo, minha cunhada e seu marido e mais uma amiga, para conhecer um novo bar da moda, localizado bem diante da bela praça da cidade. E, mais uma vez, fiquei surpreendido com tanta garota bonita (Minha mulher deve ter notado os rapazes, mas não me disse.). E, agora, garotas mesmo, já que adentrei o território da terceira idade! Adolescentes e jovens mulheres com idade menor que minha filha, mas de uma beleza que chama a atenção. E isto é impossível de não se notar, pelo menos enquanto a visão estiver calibrada por grossas lentes corretivas.
Eh, terrinha abençoada!


Praça Dona Ermelinda, Miracema-RJ, decorada para o Natal de 2011.

20 de abril de 2012

NO PÁTIO DAS ILUSÕES PERDIDAS

No vasto pátio das ilusões perdidas
Vagueiam corações desnorteados
Esborracham-se sentimentos inusitados
E as gentes cantam canções
Que choram dores incompreensíveis.
Passeiam os tristes
Desfilam os descontentes
E não há nada que corra mais célere
Que um desespero impertinente
A parecer a areia que a ampulheta
Verte na correnteza incontível do tempo.

Imagem em voascomigo.blogspot.com.

19 de abril de 2012

CRÔNICAS DE NÁRNIA, ALIÁS, DE MIRACEMA

Igreja de Santo Antônio, Miracema-RJ (imagem em ferias.tur.br).

As coisas, ultimamente, andam tão esquisitas em Miracema, que fui levado ao equívoco no momento de dar o título a esta crônica.

A antes tranquila e quase bucólica cidade agora anda sofrendo as cólicas (para fazer um trocadilho torpe) de cidade grande. Após o aperto que a polícia deu aos criminosos em algumas favelas (Comunidade é termo politicamente correto, a ser usado quando estiver tudo às mil maravilhas.) da capital, a coisa desandou por lá.
Pelo menos uma vez por mês, eu e minha mulher vamos até a cidade, para ver como está a situação de seus pais, já dos noventa em diante. Fora isto, ela telefona diariamente e se põe, deste modo, a par de tudo que ocorre em sua casa e nas imediações. Miracema não é uma cidade assim tão grande, que não se possam ter informações sobre quase todos os seus habitantes.

Começou por informações de relatos acerca de furtos de objetos de áreas externas da casa de seus pais e de vizinhos: botijões de gás, cadeiras, ferramentas, escadas, dentre outros.
Pelos jornais, vimos notícias de ações mais violentas, como assaltos a casas comerciais de pequeno porte e residências, inclusive com agressões físicas a moradores.

Há residências, por exemplo, que já foram roubadas por duas e três vezes.
Por tudo isso, espalhou-se por Miracema um pânico na população, que optou por gradear portas e janelas. A cidade está transformando suas casas em prisões domiciliares. O cidadão de bem se prende e deixa a cidade livre para a ação da bandidagem.

Apesar de toda a neurose e de todo o medo que tomaram conta dos miracemenses, há casos interessantes e engraçados.
Um deles é o de uma moradora das vizinhanças de meu sogro, Silvana. Ela acorda no meio da madrugada, sobressaltada por um barulho no seu quarto. Quando abre os olhos, dá de cara com o ladrão, de pé, apenas contornado pela fraca iluminação que atravessa os vidros da janela.

- Que é isto, meu Deus? O que está acontecendo? - grita ela, sem entender completamente a situação.
O gatuno, calmamente, lhe diz:

- Pode ficar tranquila, dona! Já peguei o que queria e já estou indo embora. Sem estresse!
Candírio, competente mecânico das antigas, conseguiu descobrir o autor do furto de algumas de suas ferramentas. Segurou o rapaz pelo colarinho e o obrigou a ir até sua casa, a fim de tentar recuperar seus instrumentos de trabalho. Não encontrou nada. Aliás, na casa do ladrão viciado em crack, não há nem portas, janelas ou caixonetes. Ele vendera tudo, para manter o vício.

Já com Bolinha, caminhoneiro corpulento e disposto, é que se deu caso mais esquisito.
Tendo percebido que havia homem estranho em casa, conseguiu atacar-se com ele e dominá-lo. Amarrou-o com cordas, jogou-o sobre a carroceria do caminhão e o levou até a delegacia, que não fica distante de sua residência.

Apresentou o meliante aos solavancos ao policial de plantão:
- Esse miserável entrou em minha casa para roubar e o prendi.

O policial, naturalmente irritado por ter sido incomodado àquela hora da madrugada, lhe diz na lata:
- Quem é o senhor para prender alguém? Que autoridade o senhor pensa que é, para julgar que pode pender um e outro por aí? O senhor sabe que eu posso lhe prender por isso? Desamarre já o cidadão, senão quem vai pra trás das grades é o senhor!

- Mas ele entrou na minha casa para roubar! - disse Bolinha meio abobado com a postura da otoridade.
- Isto é o senhor que está dizendo. Solte o cidadão imediatamente!

Sem alternativa, Bolinha desamarrou o ladrão e disse:
-Aqui, seu ladrão, quando o senhor quiser, pode voltar lá em casa, para roubar à vontade. Não vou mais incomodar. E me desculpe!

Então o policial cresceu em sua já vasta autoridade e ameaçou:
- O senhor está querendo ir preso agora, por zombar da minha autoridade? Posso trancafiá-lo por desacato!

Mais uma vez, Bolinha curvou-se diante do representante da ordem e da lei, pegou sua corda para não ter prejuízo nenhum, entrou no caminhão e retornou a casa. E não mais pregou os olhos naquela noite e em algumas posteriores.
A situação tinha mais poder que o energético que a moçada toma, a fim de aguentar virar a noite na balada.

18 de abril de 2012

ESTOU PERDIDO NESTA CIDADE

estou perdido nesta cidade suja
há anos há séculos há milênios
estou perdido e sujo nesta cidade eterna
nesta construção quimérica de homens

estou perdido e enfim
os sonhos que telúricos
nunca vingaram em campos de concreto
passam a pesadelos
dos tristes que nós somos

estou perdido nesta cidade histérica
e apático me entrego ao abandono
daqueles que não têm
daqueles que não são
daqueles que têm fome
até que o ronco desses corpos flácidos
me acorde e embale
em seus cantos bélicos

Hieronymus Bosch (1450-1516), em contemporarysmart.com.


17 de abril de 2012

VOU COMPRAR UMA MIRONGA NA PADARIA DO CHICO FURTADO

(Para Ivo, Chiquinho e Roque, filhos de seu Chico e dona Mocinha, mestres padeiros até hoje em Bom Jesus do Itabapoana.)

Lá pelos anos cinquenta do século passado, Chico Furtado tinha uma padaria que recendia a pão duas vezes por dia, na vila. A primeira, logo cedinho, para o café da manhã. E a segunda, por volta das duas horas da tarde, para aquilo que chamávamos de café do meio-dia, que era tomado, na verdade, por volta das quatro horas. Mas valia a expressão e todos a empregávamos.
- Venham tomar o café do meio-dia, crianças! – dizia mamãe, por exemplo.
A casa em que morávamos eu e minha família ficava na esquina das ruas Coronel Alfredo Portugal, avô dos meus amigos Paulo e Élber, e Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo, o Papai Antonico, meu bisavô. Eles viraram nomes de rua ainda em vida.
A padaria ficava logo do outro lado, na diagonal, na Rua Coronel Alfredo Portugal, colada ao único prédio de dois andares – e com marquise! –, que pertencia ao meu tio-avô Nalim. Na época, ele mandou colocar na parede externa um acabamento de malacacheta esverdeada, que era a última moda (pelo menos lá para nós).
Por essa proximidade, não era difícil sentir o aroma do pão quentinho que se espalhava nas imediações. Confesso que só me lembro do cheirinho vespertino, pois no primeiro eu ainda estava dormindo.
Além dos pães de sal – na vila eles não eram chamados de pães franceses, nome sofisticado que só fui descobrir em Niterói – dessas duas fornadas, brotavam lá de dentro roscas de vários tipos e alguns pães doces de nomes engraçados: pão tatu, pão cangalha, pão sovado e pão doce, simplesmente, com aquele açúcar cristal granulado sobre uma crosta morena untada de manteiga e outro com estrias de creme desenhadas e saborosamente úmido.
E também nasciam bom-bocados, mirongas, rabanadas, marons, cocadas, beijinhos de coco e sonhos, todos eles feitos por dona Mocinha, esposa de seu Chico.
Eu gostava de tudo, e só não me empanturrava com esses doces, porque o dinheiro era regrado, difícil de ganhar.
Meu pai tinha uma pequena venda de secos e molhados, na parte da frente da casa, que sustentava a família de então quatro filhos – além de mim, Guth, Elisa e Cristina –, com os apertos naturais para a ocasião. Às vezes, para reforçar o almoço ou o jantar, ele ia pescar nos valões e rios próximos à vila, de onde sempre trazia algum peixe. Meu pai era um exímio pescador.
Contudo, sempre que possível, ele me dava uma moeda de cruzeiro, o velho dinheiro criado durante do governo Getúlio Vargas, para que eu fosse até a padaria de seu Chico Furtado comprar alguma guloseima. E, embora gostasse de tudo, como disse, no bit de minha memória de menino ficou guardado, com um jeitinho mais forte de interior, o sabor da mironga de dona Mocinha.
A mironga, para os que não sabem, é uma espécie de pudim de pão, um pouco menos doce, sem calda, e era feita com o aproveitamento dos pães dormidos da padaria. Uma forma de não se desperdiçar alimento.
Embebiam-se os pães em leite e, assim que ficavam molinhos, eles eram desfeitos à mão. Grosseiramente desfeitos. A seguir misturavam-se ovos, açúcar e manteiga, e punham-se cravo da índia e uns pauzinhos de canela para apurar o sabor, receita que até hoje minha mãe também faz. A massa era deitada em uma forma untada e levada ao forno.
Tão logo estivesse assado, o conteúdo do tabuleiro era cortado em fatias quadradas, com a altura de dois dedos de menino, as quais se exibiam na vitrine do balcão.
Não duravam muito ali aquelas fatias de infância. Como, aliás, a própria infância não dura muito no tempo, senão na nossa memória empedernida de bicho do mato.
Imagem em padarialeticia.com.br.

16 de abril de 2012

ME DIGA, AMIGO!


me diga amigo
como vai a vida
como andam as coisas perdidas
nos caminhos que deixamos para trás

me diga amigo meu
como vão os planos
os sonhos depositados sobre as mesas de bares
que ficaram ao sabor dos anos

me diga meu amigo
o que será de nós
daqui a pouco mais que um nada
quando o barco sobre as águas rasas
em que partimos para esta viagem
desatar a última amarra
e se perder no oceano largo
no nevoeiro denso
além da barra
em meio a um mundo só perigo

me diga, amigo!

Imagem em sufiheart.com.


14 de abril de 2012

CERTAS AÇÕES

beber beber beber
e esquecer de verdade
por que se está a beber

comer comer comer
e lembrar constantemente
que há muita gente com fome

cantar cantar cantar
e espantar esses males
para a elite abastada

sonhar sonhar sonhar
enquanto este pesadelo
não for desfeito a porrada

Honoré Daumier (1808-1879), La Soupe. Gravura. Museu do Louvre
(em bistrozinho.com).

(Texto dos anos 70/80)

12 de abril de 2012

ÓPERA BUFA EM TRÊS ATOS RIDÍCULOS - 3º ATO

SAIU PARA COMPRAR CIGARRO, E FUGI COM A MULHER DO SÍNDICO

Meu nome é Marinaldo Alves e sou da Paraíba. Estou aqui no Rio há uns dez anos. No prédio? Ah! trabalho há oito anos e dois meses. Sim, foi seu Osvaldo que me contratou. Ele é síndico lá há muito tempo. Ninguém quer pegar aquilo. É um abacaxi! Ainda mais em prédio velho: toda hora aparece um problema. Quando não é água – cano furado – é luz. Não... faço de um tudo. Sou pau pra toda obra, doutor. Não, doutor, isso não! Não estou debochando. Saiu sem querer e também não quero contar vantagem. Essa coisa com a Lourdes, ou melhor, com a dona Lourdes, foi coisa do destino, doutor. Parece que estava escrito. Nunca tive tenção de nada com nenhuma moradora. Mas aconteceu! O que é que se pode fazer? Quando eu vim? Só tinha o primário, as primeiras séries. Aqui completei até o segundo grau num curso por módulos. É... a gente leva o material pra casa, estuda e depois faz as provas. Sempre gostei de ler, doutor. Lá, eu lia muito os livrinhos de cordel, o senhor conhece? Um muito bom é O cachorro dos mortos, do Leandro Gomes de Barros. Eu mesmo tinha esse livreto. Pois é. Aqui eu gosto de ler jornal. Na portaria aproveitava para ler jornal até que o dono pedisse. Sempre sei das novidades. Principalmente de futebol. Gosto muito! Mas, como eu ia dizendo ao senhor, comecei a reparar que dona Lourdes, sempre que passava pela portaria, me cumprimentava sorridente, sempre simpática. Se eu não estivesse, ela me procurava, para saber se estava tudo certo, se tudo ia bem. Achava até que ela era olheira de seu Osvaldo. Ela sempre saía pra trabalhar à tarde, porque é funcionária do governo. Pela manhã estava sempre pelo prédio, fazia compras, ia à feira. É... teve um dia que eu me ofereci para levar a sacola, porque fazia muito calor e ela estava esbofada, como se diz. Reparei, sim senhor! Estava com uma bermudinha apertada que ela sempre usa. Não! Ela é muito jeitosa, uma mulher muito bonita. Já tinha notado alguma coisa, sim. Aí nesse dia, infelizmente, não aguentei mais e me ofereci. Não... isso foi no princípio. Só depois de uns quatro ou cinco meses é que notei que havia alguma coisa a mais na atenção dela comigo. Então... ela ia subindo as escadas e eu fui atrás, quando percebeu que eu olhava pra suas pernas. Fiquei acanhado, sim! Mas, quando eu entrei no apartamento, tomei coragem e falei umas coisas pra ela. Pensei comigo: é agora ou nunca. Se ela me der um fora, fico quieto, mais parado que calango quando é pego. Nunca se sabe, não é, doutor? De lá pra cá, as coisas foram acontecendo e, cada vez mais, ela ficando enrabichada. Acho que é um pouco de falta de atenção. Ela é que deu a ideia, que quis fugir. Disse que era um sonho que ela tinha desde novinha: fugir com o amor da vida dela. Deve ter lido isso em algum romance, visto em algum filme, não é? O senhor sabe como as mulheres são sonhadoras! Já tem quase um ano que ela fala nisso sempre. Aí eu resolvi aceitar, porque também fiquei num beco sem saída. Não... gosto dela, sim. Acho uma mulher muito bonita, como falei pro senhor. Mas se ficasse do jeito que tava, pra mim ia ser melhor. Ah! mas ele nunca que ia saber. Ele é meio desligado, não presta muita atenção nas coisas. Não... é uma boa pessoa. Nunca tivemos uma desavença, por nada. É... mas o que se vai fazer? Eu não quis trair o seu Osvaldo. Não tive essa intenção. Mas aconteceu! Lá na Paraíba? A bem da verdade, doutor, deixei lá mulher e três filhos. Todo mês mando um dinheirinho pra eles. Lá não tinha serviço. Aqui o salário não é bom, mas é muito melhor. Moro num puxadinho, na casa de um primo que é de lá também e que veio bem antes de mim pro Rio. Ó xente! Eu ia levar ela pra lá, até ver o que podia fazer. Não... ela não sabe que eu tenho família lá na Paraíba. Não sei... Pode ser até que ela não me queira mais. É só o senhor não dizer pra ela. O senhor tem de dizer que eu tenho mulher e filhos? É da sua obrigação? Bom, então não sei. Boas intenções... boas intenções? Não sei. Não sei se isso são boas intenções. O senhor sabe como é homem, não é, doutor? A gente joga a rede, e o que vier é peixe. Sim! Voltando ao que aconteceu: na hora em que a gente ia atravessar a rua, o sinal já estava abrindo pra nós, e ele veio desembestado, avexado como um carcará. Aí jogou o carro em cima da gente, mas eu ainda estava com um pé na calçada. A coitada da dona Lourdes é que quase morre. Acho que sim! Depois que ele viu os bilhetes, deve ter ficado aperreado da vida, pegou o carro e, quando viu a gente, pensou na forra. Ainda bem que não aconteceu nada demais. Só a mala dela é que levou a breca. Voou roupa pra todos os lados. Ela foi só triscada. O vestido tá perdido. Um vestido vermelho bonito, lascado atrás. Eu é que pedi a ela pra botar. Ia ficar mais bonita ainda. Gosto sim, doutor. Eu falei essas coisas de que se cair na rede é peixe, mas eu gosto dela. Mas o senhor não precisa falar com ela, deixa que eu mesmo falo. Vou ver o que vai acontecer. Se ela aceitar, eu me arranjo com Antônia. Mando uma carta pra ela, explicando tudo. Pode ser até que ela já tenha outro. Só voltei lá uma vez, isso há quatro anos. Eu entendo ele, não tenho raiva dele, não. Agora, também não precisava me ofender assim, quando saiu da sala. Se fosse lá em cima, lá no Norte? Pode ser que acabasse em desgraceira, mas aqui no Rio isso é muito natural, ninguém mais mata por causa disso. O pessoal aqui fala que a fila anda, não é mesmo? (...) Assino aqui? Tá bom, doutor, assim que o senhor chamar, eu volto. O meu endereço é o da casa do meu primo. Agora não adianta mais mandar para o prédio onde eu trabalhava. Nem sei como vou fazer para receber as cartas que chegam lá. Vou ter de pedir ao primo para ir pegar. Pode ter certeza, doutor, não tive prevenção nenhuma pro que aconteceu. Foi só o acaso. Só roubei ela dele, porque ela quis. Aí aproveitamos a hora em que ele saiu pra comprar cigarro, como sempre faz de manhã, e fugi com ela.

Colhida em
as-borboletas-de-fevereiro.blogspot.com