17 de outubro de 2018

ENQUANTO O ARTISTA ENVELHECE


Enquanto o artista envelhece
Sua obra
E mais aquilo que tece
Com linhas sons cores palavras volumes etc
Parecem permanecer no limbo
Das coisas que nunca envelhecem.
Ou teria a Mona Lisa a idade das bromélias?
Ou a Vitória de Samotrácia aparentar-se caquética
Como se vinda houvesse dos velhos tempos da Grécia?
A Chacona de Bach
A Sinfonia Patética
Os Lusíadas de Camões
Os magos contos da Pérsia
A saga de Gilgamesh?
Quem é que há de datar
A obra que o artista trama
Pensando só no presente?
E o artista envelhece
Suas mãos seus dedos suas ideias seus sonhos
Vão as poucos perdendo a força
Enquanto suas obras
Parece que se fortalecem
Enquanto o artista envelhece.

Vitória de Samotrácia, autor desconhecido; Museu do Louvre (em wikipedia.org).

6 de outubro de 2018

MACROBIÓTICA E OUTRAS COMIDAS


Hoje, durante o almoço, uma cena me levou ao passado.
Já lá por volta do fim dos anos 60, certo colega de faculdade entrara na onda da alimentação saudável.
Eu tinha vinte e poucos anos e chegara há pouco do interior, onde comia praticamente tudo que se movesse, nadasse, voasse, arrastasse ou ficasse parado por tempo suficiente a que fosse capturado. Fora as plantinhas alvissareiras e os grãozinhos de ocasião. Tudo, evidentemente, assessorado por diversos temperos e movido a pimenta malagueta. Por isso é que me parecia muito esquisita aquela, digamos, comida desprovida de cores, odores e temperos, que deveria ser mastigada quarenta vezes a cada bocado, a fim de que produzisse seus benéficos efeitos, que se constituíam, pelo que se via nele, em pele amarelo-esverdeada, olhos macilentos, movimentos gerais do corpo na velocidade da preguiça e frases cujo ritmo dava sono ao ouvinte.
Era a tal da alimentação macrobiótica, que se expandiu, angariou adeptos e perdurou por umas duas dezenas de anos, sendo substituída posteriormente por novas tendências.
Até mesmo, algum tempo depois, quando participávamos da correção de redações, então incluídas no exame vestibular, enquanto íamos, no intervalo da tarefa, almoçar a comida farta e sofisticada oferecida pela Fundação Cesgranrio, a responsável pela organização do certame, ele abria a marmitinha trazida de casa, composta por reduzido grupo esquisitos alimentos inodoros, insossos e incolores, e a confrontava com soberba contra nossos pratos perfumados, fumegantes e deliciosos, mas incorretos do seu ponto de vista alimentar.
Pois estávamos Jane e eu hoje ao almoço, em restaurante de comida típica mineira, no sistema coma o que puder, quando reparei no prato arrumado com vontade por um jovem adulto magro e já com alguns fiapos brancos de cabelo a lhe colorir a cabeça: tinha enchido, além da faixa azul que delimita o fundo do prato, como marcando o espaço em que arrumar o alimento, com uma profusão de legumes e verduras. Eu, que não sou dado a esse tipo de observação, tive minha atenção chamada pelo volume do prato e comentei com a Jane sobre o desperdício de se vir a um restaurante desse tipo e comer tantos legumes e verduras, enquanto a feijoada, o leitão à pururuca, a vaca atolada, o feijão tropeiro, a galinha ao molho pardo, o lombinho estufado, a costelinha com mandioca, a dobradinha à lombeira, o mocotó com feijão manteiga, o tutu à mineira, a farofa de ovos e o sarapatel estavam ali gritando por socorro.
Jane então observou que não era a primeira vez que o vira rondando os balcões de comida, a arrumar seu prato, no exato instante em que notei que ele, antes de sair daquele espaço, encastoou em estratégico espaço deixado de propósito ao lado de uns galhos de brócolis americano uma bela sobrecoxa de galinha crocantemente assada.
Sua reputação estava salva.
Ah! e quanto ao meu companheiro macrobiótico de bancos escolares, o que tenho a informar ao distinto leitor é que não sei se ainda sobrevive àquela alimentação, por ter perdido o contato com ele. Até hoje, contudo, recalcitrante quanto à alimentação e mesmo com as artérias em estado de atenção em face do colesterol, vou vivendo com algum bom humor e certas ameaças veladas de entupimentos coronarianos. Sem nunca ter aberto mão de comer o que a cultura culinária do meu país me proporciona de prazer gastronômico. Eu sou um bicho da terra!

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