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19 de agosto de 2019

TIPO ASSIM (VII) - SEU ELIAS


Seu Elias era o ascensorista do prédio onde eu trabalhava. Magro, alto, cabelo preto liso e farto, bigodinho aparado, tinha o queixo afundado a fórceps, como o de Noel Rosa. Sua fisionomia era uma mistura de Jacó do Bandolim com o compositor da Vila. Mas era um homem simples, trabalhador humilde, num ambiente de vossas excelências e excelsos sodalícios.
E desenvolvia seu trabalho de subir e descer andares, nos velhos elevadores de porta pantográfica, com bom humor, simpatia e uma verbosidade acima da média. Enquanto com uns dizia “bom dia, excelência!”, “pois não, excelência!”, com os funcionários comuns como eu, sempre tinha uma brincadeira, uma conversa descontraída. Comigo, por exemplo, vivia a questionar meu suspeito preparo físico, minha minguada habilidade corporal para alguns exercícios, a fim de me instigar, já que eu lhe havia confessado minha preguiça proverbial.
Às vezes, chegava à porta da sala onde eu estava, jogava seu molho de chaves ao chão e o pegava flexionando o tronco, mas mantendo os joelhos fixos, com uma facilidade afrontosa. E perguntava, debochado, se eu faria semelhantemente. E ria triunfal!
Certo dia, porém, mostrei a ele que não haveria dificuldades. Joguei minhas chaves ao chão, flexionei os joelhos, mantendo o tronco ereto, e as peguei, sem dificuldades à época. E lhe disse, zombeteiro:
- Como mocinha de saia plissada curta, seu Elias. Bem-comportada!
E todos rimos.
Algum tempo depois, chegou-nos a notícia de que seu Elias tinha sido atropelado por um ônibus urbano, enquanto andava de bicicleta pelas ruas do seu bairro, atividade que fazia com frequência.
Meses depois, volta seu Elias ao trabalho, após bom período de recuperação de seu acidente, ainda um tanto estropiado do contravapor que levara do veículo descontrolado.
Aí foi a minha vez de me vingar:
- Viu, seu Elias, o que dá ser atleta? Acabou atropelado andando de magrela. Isso não acontece comigo. Talvez eu pudesse até estar dentro do ônibus que o atropelou. Nunca de bicicleta.  
Ele riu meio sem-graça e percebeu que, desta vez, tinha perdido para o preguiçoso.
E continuamos a boa convivência, cada um em sua função, até que troquei de setor, de local e de prédio.
E lá ficou seu Elias, subindo e descendo o velho elevador de porta pantográfica, brincando com uns e cumprimentado outros com a deferência que o cargo exigisse.


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Imagem em flickr.com/photos/violinha/300456704

2 de julho de 2019

CARABUÇU DOENTE (Parte III)

Aqui vai a terceira e última parte do levantamento sobre as doenças da vila, no tempo da minha meninice e adolescência.
Mau olhado: O mau olhado é uma doença, ou antes, uma condição sobretudo psíquica e mítica na crença do povo do interior. Atribuía-se a algumas pessoas a capacidade de, com seu olhar, produzir efeitos nocivos e às vezes fatais sobre plantas, animais e pessoas. Tive um tio-avô que era conhecido por seu olhar perigoso. Contavam que ele descobriu esse seu lado negro, quando admirou um pássaro sobre um galho de árvore e o bichinho, de imediato, tombou fulminado. Ao visitar um conhecido, ele alertava a pessoa para tirar de seus olhos qualquer passarinho de estimação. Tal característica também era nomeada como “olhar de seca pimenteira”. Por outro lado, também, meu tio era chamado para olhar bicheiras de animais, a fim de que elas acabassem. Era pôr o olho na bicheira, para o boi, por exemplo, ficar curado.
Nó nas tripas: A obstrução intestinal, que provoca a retenção de fezes, era assim chamada na vila. É provocado pela torção do intestino e requer até mesmo procedimento cirúrgico em hospital.
Paludismo: É o mesmo que impaludismo ou malária. Nunca soube de casos de malária na nossa região, apenas era referida como uma doença antiga, que havia causado grandes problemas.
Panariço, var. de panarício: O panariço é o que a medicina chama de paroníquia, isto é, unheiro. Quando criança, era a doença que mais me causava apreensão. O panariço tinha a fama de ser uma doença de reincidência programada: se desse no dedo fura-bolo da mão direita, daria no fura-bolo da mão esquerda, tão logo fosse curado da primeira vez. Não era incomum ver pessoas com os dedos enrolados em gaze, com a mão para cima, a fim de aliviar a pressão que ocorria pela inflamação. Ao saber que aquele dedo mumificado era panriço, eu dava um jeito de me afastar, com medo de pegar a doença.
Pedra nos rins: Ainda hoje assim se diz para o cálculo renal. Quando percebido a tempo, corria-se para o João Gregório ou o Doca Nascimento e suas poções milagrosas. O preparado levava o nome de chá de quebra pedra e tinha função de destruir, antes que se expelisse com muito sofrimento, os cristais solidificados na bexiga.
Pescoço duro: Na vila, ninguém dizia torcicolo para a contração dolorida do pescoço que deixava a cabeça de lado. O pescoço duro podia ocorrer por um movimento brusco ou por um vento encanado que soprava sobre tal região do corpo. Nesse caso, não havia remédio melhor do que uma reza poderosa de dona Carola ou Sá Luiza, as benzedeiras mais famosas da vila. Minha bisavó Mariquinha também era conhecida como rezadeira. Eu mesmo, em criança, tive um, após uma pelada no campo do Liberdade, e fui atendido pela Sá Luiza. Ela colocou minha cabeça sobre suas pernas, pegou um pedaço de pano limpo e uma agulha e linha e foi costurando o pano sobre a área afetada e fazendo sua oração quase inaudível. Quando ela terminou, meu pescoço estava curado.
Minha irmã Cristina também conhece uma simpatia boa para todo tipo de torção, contração e estiramento, com o mesmo procedimento acima. Deve ser feita por três vezes, durante três dias, com exceção de sábados e domingos, e antes do pôr do sol. É assim:
O que eu rezo?
Rezo nervo torcido,
Osso quebrado
E carne magoada.
O que eu rezo?
Segundo ela, é tiro e queda!
Piriri: É a diarreia nossa de cada dia, normalmente motivada por algum tipo de comida; excesso de garapa, na época da colheita da cana; excesso de manga ou de mamão, frutas danadas para soltar intestino de menino! Na época, não havia o soro caseiro. Então o tratamento, às vezes, era com comida também: suco de caju, ou mesmo a fruta, feijão com farinha durinho, os mais comuns. Às vezes, uma homeopatia do meu bisavô Antonico Pinto, ou o socorro dos remédios do Zé da Farmácia e do Antônio Miranda, quando o piriri persistia por mais tempo.
Sapinho: É a candidíase oral, produzida por um fungo e muito comum em bebês e crianças. Era habitual tratar-se o sapinho com violeta de genciana, um antisséptico de coloração vibrante que deixava a carinha das crianças pintadas.
Sífilis: Sífilis foi uma doença extremamente letal antes que se descobrisse a penicilina. É uma doença infecto-contagiosa, sexualmente transmitida, que fez muitas vítimas. Até que surgiu uma injeção milagrosa, vulgarmente conhecida como 1914. Meu pai contava que o doente de sífilis que aguentasse a potência da 1914 estaria curado. Se não aguentasse, batia as botas. Era propriamente um coice de mula em forma de remédio.
Simple (pronúncia local para “simples”) é um tipo de retardo mental em crianças.
Tesourinha: consiste no problema caracterizado por uma moleza nas pernas de crianças.
Tiriça: é icterícia e se tratava com banho de carrapicho.
Unha encravada e unheiro são aparentadas do panariço, descrito mais acima.
Vento virado: esta doença não permitia que a criança conseguisse colocar as mãos nos pés. Era tratada com o exercício de juntar a mão esquerda com o pé direito, na direção das costas da criança; e a mão direita com o pé esquerdo.
Havia também as doenças infecto-contagiosas que acometiam sobretudo as crianças: caxumba, sarampo, catapora ou varicela, coqueluche, as mais comuns; e varíola, também conhecida como bexiga, menos comum.
A caxumba exigia também, como tratamento, repouso absoluto, inclusive com a recomendação de que o menino doente ficasse de pernas para cima, para a caxumba não descer para as partes, sob pena de ficar rendido. Essa consequência é a inflamação dos testículos, o que levava os pais a temerem que o filho se tornasse estéril.
Com o aparecimento da vacina, o posto de saúde da vila começou campanha de vacinação das crianças. Meu tio-avô Cícero era o responsável por aplicá-las. Numa delas, o procedimento se dava assim: ele passava um algodão com álcool no braço; pegava uma pena de caneta tinteiro (Os mais novos nem devem saber o que é isso.) com a ponta quebrada, de modo a ficar rombuda; escalavrava a pele, esticada com os dedos, até minar sangue; em seguida soprava por um canudinho fino a dose do remédio. Ao fim recomendava que não se podia lavar, secar ou passar a mão sobre o remédio, que deveria secar naturalmente no local. É por isso que ficamos com a marca da vacina no braço.
Com esta terceira parte, fica encerrado o levantamento das doenças que nos acometiam por aquele tempo. Muitas delas estão até hoje entre nós, já que as condições sanitárias ainda não são as ideais, às vezes apenas com os nomes modernos.

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Quebrava-se a ponta da pena da caneta, de modo a servir para arranhar a pele onde se aplicava a vacina.
(imagem em mercadolivre.com).

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Nota final: Agradeço a preciosa ajuda da minha mãe e da minha irmã Cristina, com suas memórias sobre o tema, as quais enriqueceram o texto..

13 de junho de 2019

CARABUÇU DOENTE (Parte II)

Dando continuidade ao elenco das doenças, suas denominações locais e curiosidades no tratamento, na vila de Carabuçu da minha meninice e juventude, aqui vai o segundo texto. Espero que os leitores gostem, mas peço aos hipocondríacos para não me acusarem de estar incitando doença em ninguém.

Boa leitura!

Cravo: Há dois tipos distintos. Um, mais comum, é o que ocorre no rosto e nas costas, que consiste no entupimento de um poro, e é parente próximo da espinha (acne). O outro, menos comum, porém mais doloroso, é o que ocorre nos pés, motivado pela pressão na planta do pé e pelo acúmulo de queratina. Enquanto o primeiro era removido por uma compressão de unhas, o segundo dependia de uma intervenção mais rigorosa do Zé da Farmácia ou do Antônio Miranda.

Crista de galo: É o nome popular do condiloma acuminado, doença venérea nem tão incomum naqueles tempos em que os homens frequentavam zonas de prostituição.

Descadeiramento, também comumente dito escadeiramento: É uma doença comum, principalmente, entre os cães, que atinge as articulações da coxa e dos quadris e faz com que o paciente, seja bicho ou gente, ande torto, fora do prumo. Era comum os mais gaiatos fazerem alusão a problemas mecânicos de caminhões e dizerem que “fulano está com o parafuso de centro corrido”. O parafuso de centro é o que mantém o alinhamento da carroceria do caminhão. Também era dito “dor nos quartos”.

Doença de São Guido: Tecnicamente a Doença de São Guido é conhecida como Coreia de Swdenham ou Coreia Reumática e tem como característica o movimento involuntário do corpo, sobretudo das mãos.

Dor de barriga: Nossa diarreia era chamada assim, ou piriri (veja a seguir).

Dor de olhos: Era o nome da conjuntivite. Lembro que, de vez em quando, eu e meu irmão ficávamos com dor de olhos e, ao acordar, tínhamos as pálpebras coladas pela purgação ressecada da moléstia. Nossa mãe, então, vinha com um chumaço de algodão embebido em água morna, que desfazia a “cola”, para conseguir que abríssemos os olhos.

Dor de ouvido: Assim chamávamos a otite, inflamação do ouvido médio, normalmente tratado com um emplastro morno de farinha, acomodado num paninho.

Dor de urina, tecnicamente disúria: Era a dificuldade em urinar, que causava incômodo, pela dor.

Enxaqueca: Talvez uma das doenças mais comuns. A enxaqueca acompanha o doente por muito tempo da vida. Em alguns casos, a crise era de tal modo incomodativa, que levava o doente a se isolar num quarto escuro, a fim de amenizar os efeitos que ela produz: uma dor de cabeça insuportável.

Escandescência: Embora uma das acepções consignadas no dicionário dê escandescência como sinônimo de prisão de ventre, na vila o significado era exatamente o contrário: forte diarreia acompanhada por sangramento. O tratamento tinha de ser imediato, a fim de não deixar o paciente em situação periclitante.

Espinhela caída (dor na região do osso esterno): Por qualquer motivo, alguém dizia que estava com a espinhela caída. Essa era uma doença, como o descadeiramento, que uma boa reza poderia curar num instante.

Esporão (esporão do calcâneo): Eis aí uma doença que até hoje ataca as pessoas. Trata-se do crescimento irregular de um osso do calcanhar, que acaba provocando incômodo e dor ao caminhar. Certa pessoa das minhas relações teve o problema e, já cansada de recorrer a remédios, foi até uma cidade do sul capixaba, onde havia um padre famoso por curar alguns males desse tipo. Já na igreja lotada, o padre começa a missa de cura fazendo alusão aos diversos males alvos das orações. Ele teve o requinte de citar “a senhora que aí está com o esporão doendo”. Embora religiosa, ela não levou a sério. Ao fim da missa, saiu andando normalmente da igreja e nunca mais foi acometida pelo maldito esporão.

Espravão, var. de esparavão: É um tumor que nasce por baixo da curva da perna dos cavalos. Era comum as pessoas com tumor dizerem que estavam com espravão.

Fogo selvagem (pênfigo): Doença autoimune grave que atinge pessoas por volta dos 50 anos. Os relatos acerca do sofrimento gerado pelo fogo selvagem eram apavorantes. Diziam que a pessoa acabava a vida como que carbonizada. Felizmente tais relatos aludiam a casos ocorridos há muito tempo e em lugares bem distantes, com pessoas desconhecidas.

Gonorreia: Outra das doenças hoje classificadas como DST, doenças sexualmente transmissíveis.

Gota: É uma doença que atinge mais os homens do que as mulheres e se origina no aumento da taxa de ácido úrico no sangue, fazendo com que as articulações fiquem doloridas. Na antiga revista em quadrinhos Sobrinhos do capitão, criada pelo alemão Rudolph Dirks, que líamos muito na juventude, o Capitão, um personagem gordo e de barba negra, com frequência era acometido por surtos de gota.

Gripe: É gripe mesmo, a doença infecciosa das vias respiratórias mais comum entre as pessoas. Às vezes, aparecia uma variação mais grave da gripe que causava até mortes. Lembro-me de meus pais referirem a gripe espanhola, de 1918, que causou muitas mortes. Em menino, foi a vez da gripe asiática, chegada ao Brasil em 1957. Também foi uma forma mais grave, que, além dos incômodos comuns às gripes, provocava dor nas articulações dos braços, fazendo com que a posição menos incômoda fosse com os braços levantados. Quando um moleque via o outro nessa posição, sempre dizia “Mãos ao alto!”, a repetir a frase célebre dos filmes de faroeste. Eu mesmo e meu irmão Gute pegamos tal gripe.

Hemorroidas: Todo mundo sabe o que é, e não preciso aqui entrar em detalhes. Apenas talvez dizer que havia um tratamento caipira para as hemorroidas: pegar um olho-de-boi, espécie de castanha lisa com um risco preto lateral, esquentá-lo e colocar sobre as hemorroidas. Tal procedimento também servia para tratar dor-de-olhos. No caso das hemorroidas, não sei se funcionava. Na de dor-de-olhos, dava um certo alívio. Mas era um olho-de-boi para cada local!

Insolação: A insolação era provocada por calor intenso, com elevação da temperatura corporal e certa confusão mental. Não era comum verem-se pessoas assim, já que quase todas que se expunham ao sol se cuidavam, com chapéu ou com guarda-sol, o nome que o guarda-chuva tinha na vila, conforme o tempo. Vi apenas um rapaz assim na vila, em minha época de menino.

Mãe do corpo: Essa doença me foi lembrada por minha irmã e se trata de problema de colamento da placenta. Segundo crenças antigas, após o bebê nascer, a mãe ainda continua a senti-lo mexer-se no útero.

Mal dos sete dias: É o mal que acomete os bebês nos primeiros dias de vida, sendo o tétano neonatal e a hemorragia dos bebês os mais frequentes. Tal doença, com o avanço das medidas de prevenção, felizmente estão desaparecendo.

(Continua.)

Imagem relacionada
Jacques-Lous David (séc. XVIII-XIX), Érasistrate et la maladie de Antiochius (em reproduction-grands-peintres.com).

23 de março de 2019

TOMO A LIBERDADE DE LHE DIZER

Tomo a liberdade de lhe dizer que...

Tenho pela minha vila natal um amor poético, patético, desmedido, embora silencioso, calado dentro de mim. Um amor que teima em continuar pulsando a cada batida do coração, a cada respirar compassado dos pulmões, a cada olhar curioso pelas coisas à minha volta.

Vivi lá durante meus anos de meninice e juventude, o que foi determinante para que as raízes se aprofundassem e não me permitissem pensar, sem que dela me lembre. Há sempre a vila em minha vida.

Todas as pedras do seu chão ainda estão presentes em mim. Todos os casos dos fregueses da venda do meu pai ainda reverberam nos meus ouvidos encantados de criança. Todas as tentações do futuro, que lia nos jornais, revistas e livros de ficção científica emprestados pelo primo Célio, ainda estão lá na minha infância, movida a dias claros, a dias chuvosos, a verões secos, a invernos rigorosos, a brincadeiras com os amigos. E a uma felicidade indescritível!

Não consigo pensar em mim, sem que esse lado poderoso esteja presente. Sou filho de uma terra singela, simples, sem sofisticação, e, por isso, algumas vezes assim fui classificado por meus amigos: o mesmo jeito simplório que dela brota. Alguns deles não entendiam como é possível acomodar opostos e continuar a ser feliz.

É impossível querer ser diferente, se as raízes o agarram ao chão, de tal forma devastadora, que não permitem que seus passos vão além da rua de chão batido, do valão Liberdade, do colégio Marcílio Dias, da Praça do Sabiá, dos picolés do Barrosinho e do Roldão, dos jogos do Liberdade Esporte Clube nos fins de semana, das festas juninas da escola, do caxambu batido em caixas de sabão na esquina da minha rua, dos passeios de bicicleta diante da casa das meninas bonitas, das noites quentes pontilhadas de vaga-lumes.

Andei muito – e ainda ando – por esse vasto mundo. Nem tanto como queria, mas sempre adequado ao que posso e ao que minha curiosidade desafia. Mas minha vila ainda pulsa dentro de mim, como a me lembrar que sou, apesar de todo o tempo acumulado na vida, aquele menino simples, um tanto ingênuo, de olhar encantado pelo visível, de pés no chão, a correr, sem camisa e de calção, pela vastidão da Liberdade da minha infância.

E disso tenho o maior prazer!

Por isso tomei a liberdade de lhe dizer.


A Noite Estrelada
Vincent Van Gogh, 1889, Noite estrelada (MOMA, Nova Iorque).

9 de março de 2019

CARABUÇU DOENTE


Nem tudo na vila eram flores. Aliás, em lugar nenhum tudo são flores. Apesar da vida pacata que vivíamos por volta dos anos cinquenta e sessenta do século passado, também a vila era acometida por diversos males físicos. Alguns de gravidade relativa, outros nem tanto, e um pouquinho só bastante graves. Não quero que os leitores pensem que em Carabuçu vivêssemos para sempre, sem as mazelas e as ziquiziras que atacavam as cidades e as vilas próximas. Morríamos também, embora nem tanto assim. Foram poucos os enterros que presenciei, sendo o mais impactante o do jovem goleiro do Liberdade Esporte Clube, Reginaldo, que morreu afogado nas águas do Itabapoana e levou à vila uma imensa quantidade de pessoas ligadas ao futebol.
Minha avó materna, a quem chamávamos Maína, sempre dizia que tinha uma “novidade”, referindo-se a problemas de saúde, quando lhe perguntávamos como estava passando. E também outras pessoas assim se expressavam. Outras tantas, indagadas sobre sua situação, falavam que estavam com perrengues, a denunciar algum incômodo.
Desta forma, “novidades” e “perrengues” eram as palavras mais comuns com que o carabucense aludia a males do corpo físico.
De vez em quando, eu mesmo pude ouvir alguém a reclamar na venda do meu pai que estivesse adoentado.
- Como é que vai, Tião?
E ele respondia, um tanto contrariado:
- Estou com um perrengue aqui, que está me deixando estropiado.
E lá fui eu perguntar ao meu pai, na primeira vez que ouvi, o que era perrengue.
Assim, as doenças e os males físicos tinham na vila uma identificação popular e, muitas vezes, estranha. Vou aqui tentar fazer um inventário das principais.
É bem verdade que tínhamos algumas alternativas para enfrentá-las. Uma delas, pelo menos, poderia ser bem sucedida, a não ser no caso “daquela doença ruim”. Começava-se pelo auxílio de uma benzedeira. E na vila tínhamos duas, que conseguiam debelar os males mais tradicionais e de menos malignidade: Dona Carola, mãe do carpinteiro Zé Carola, e Sá Luiza, uma senhorinha pequenininha que estava sempre com um pano enrolado nos cabelos. Quando o perrengue exigia um pouco mais, recorríamos às garrafadas do João Gregório e do Doca Nascimento, famosos pelas infusões que faziam com as mais diversas ervas. Se o assunto fosse um pouco mais complicado, eles requeriam uns dias para preparar o sanativo recomendado para tal ziquizira. Alguns problemas, no entanto, só com a intervenção quase miraculosa do Zé da Farmácia ou do Antônio Miranda, que conheciam manipulação de drogas, os meandros da alopatia e a eficácia de uma boa injeção. Já meu bisavô Antonico Pinto cuidava dos doentes com homeopatia. Ele tinha um grande baú de madeira, cheio daqueles vidrinhos com as aguinhas mais eficientes para debelar uma febre, uma gripe renitente. Se nada disso surtisse efeito, o jeito era correr para Bom Jesus do Itabapoana, sede do município, e pedir socorro a doutor de diploma na parede, como os médicos José Seródio, Waldyr Nunes, Ari Morais, Colombino Teixeira, Rui Marques.
Feita essa introdução, vamos aos males que nos acometiam.
Açúcar no sangue: era a expressão usada para diabetes.
Amarelão:  é o que a ciência chama por ancilostomíase, infecção causada por vermes que provoca grave anemia.
Aquela doença ruim: O povo sempre teve a ideia de que pronunciar certas palavras poderia fazer com que o seu sentido se materializasse ou ganhasse ainda mais força. Por isso, não se ouvia ninguém dizer câncer, mas “aquela doença ruim”, embora, no tempo em que lá vivi, não tenha tido ciência de algum morador acometido por ela. Assim como não se enunciava a palavra câncer, evita-se também demônio, diabo, satanás. Provavelmente o bicho poderia aparecer. Desconjuro!
Barriga d'água: é o que a medicina denomina ascite. Era o jeito de se referir à cirrose hepática.
Berruga (var. de verruga): Comumente dizíamos berruga, em lugar de verruga, embora este segundo termo não fosse desconhecido.
Bexiga: é o que se conhece por varíola, doença que deixa o paciente com o rosto marcado por pequenas cicatrizes.
Boba: era a forma como se dizia bouba, doença infecciosa da pele, causada pela bactéria Treponema pertenue. Meus avós Maina e Papai Juquinha, no tempo em que moravam na Serra da Boa Esperança, tratavam os pacientes infectados com injeções (penicilina), que iam à vila buscar. Como auxiliar do tratamento, tais pacientes ficavam isolados durante três dias e eram alimentados exclusivamente com frango assado, na época uma comida especial. Tanto que há um ditado popular a confirmar isso: Se um pobre come frango, um dos dois está doente.
Boqueira: tecnicamente é a queilite angular, ferida no canto da boca, provocada pelo desenvolvimento excessivo de fungos ou bactérias
Bucho virado: é o mesmo que espasmo do músculo do diafragma e acometia sobretudo bebês.
Cobreiro: é o que hoje se conhece como herpes zoster.
Constipação: tanto poderia referir-se a prisão de ventre (“estar com os intestinos constipados”), quanto a obstrução das vias respiratórias, em virtude de forte gripe.
Ficamos aqui nesta primeira parte. Breve, neste mesmo blog, a continuação desta doente crônica.

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Ilustração de Le malade imaginaire de Molière (em salon-literature.internaute.com).

10 de junho de 2018

SAUDADES DO LEITE QUEIMADO


Não sou dado a saudades de coisas, lugares e épocas. Sou mais chegado a saudade de pessoas, de gente. Mas hoje amanheci com saudades de mim, em minha terrinha natal, nos meus verdes anos, como diria o poeta romântico. É que vi um programa de viagem gastronômica na tevê, e a linda apresentadora estava tomando leite queimado, num restaurante em Belo Horizonte.
A cena me deixou bem balançado. Só não chorei, porque ainda há um resquício de espírito machão lá no fundo dessa carcaça septuagenária a me mandar segurar certas emoções baratas. Mas que deu vontade verter umas lágrimas, isso deu! Tenho de ser sincero com vocês, pelo menos agora, em que resolvi abordar o assunto.
É que leite queimado, que os mineiros chamam de leite queimadinho, era uma das delícias da minha infância, sobretudo nos dias frios do inverno de Carabuçu. Era só a temperatura cair, para que pedíssemos à nossa mãe que nos fizesse aquela delícia, elaborada com açúcar, que se queimava na panela; o leite, que se lançava sobre o açúcar derretido; e a canela em pau, lançada em seguida. Então, eu e meus irmãos tomávamos com cuidado aquele líquido doce e quente, encorpado e cheio de sabor, para espantar um pouco o frio que entrava pelas gretas de portas e janelas e acabava por penetrar nos ossos e na pouca carne de nossos corpos miúdos.
Por essa época, o inverno em nossa vila costumava ser rigoroso. Já disse alhures que, certa vez, ouvi meu pai responder a uma pergunta sobre a temperatura e dizer que estava em oito graus. Lá fora, pela janela, era possível ver a cerração baixa sobre as casas e os paralelepípedos das ruas.
Hoje já não faz tanto frio. Os especialistas estão cansados de nos alertar sobre  o aumento gradual da temperatura do planeta.
Hoje também, já perdida a infância descompromissada do interior e as boas taxas da saúde geral, o leite queimado que me fazia tão bom gosto na vida é iguaria de que já não posso mais usufruir.
Por isso é que, ao ver a cena em que Mel Fronckowiak, a bela apresentadora do programa, provava maravilhada aquele gosto de infância, inverno e saudades provocou em mim um marejamento incômodo nos olhos. Bem que eu não queria, mas foi meio incontrolável, confesso.
Fui levado de supetão a uma infância que ficou perdida num tempo e num lugar mágico, que a memória, teimosa que só ela, ainda preserva. Para que a vida não pareça de todo sem sentido. E eu possa ter histórias a contar a meus netinhos.

Na casa da mãe (foto do autor).

17 de maio de 2018

SINGING IN THE BATHROOM

Às vezes, canto no banheiro. E até gosto do que ouço, no pequeno ambiente com acústica favorável. Parece que minha voz de pato esganado melhora um pouco, com o amortecimento da chuva que cai do chuveiro e com a fofura das toalhas de banho.
E, quando canto, não canto nada além dos meus trinta anos. Se tanto! O que minha memória reteve de letras de música são, principalmente, os versos das canções que ouvia em menino. Talvez até Geraldo Azevedo e Alceu Valença, em seus primeiros discos. Ou mesmo Caetano, Chico, Gil, Paulinho, também só no início. Um tanto de  Belchior, Fagner e Ednardo, em seus começos. Depois nada mais retive. Não sei cantar nenhuma canção dos Titãs, por exemplo. Ou da linda Tiê, de que tanto gosto. Nem da Vanessa da Mata, outra minha paixão musical. Ou mesmo da Roberta Sá. Oh, céus!
Por isso é que canto coisas antigas, até mesmo canções de que nunca gostei, mas que ouvia em criança, em Carabuçu, espalhadas aos quatro ventos pelo alto-falante do Narck Pontes. Ou as canções de serestas, que odeio, mas ouvia o Darcizinho cantar pelas ruas e praça da minha vila natal. E também jamais gostei daquele canto empolado, de timbre potente, voz de tenor ou barítono, que nossos cantores populares à época faziam, com raríssimas exceções.
Assim, quando surgiu João Gilberto, com sua voz de pavio de lamparina, achei mesmo que poderia – eu também – me tornar um cantor famoso. Até que ouvi minha voz gravada e não a reconheci. “Esse não sou eu falando!”, disse para o amigo Dalmar, que fizera a gravação num poderoso gravador de rolo de fita recém importado, à venda na Ótica Avenida, onde trabalhávamos. “É exatamente a sua voz!”, informou ele, para a minha total decepção, mas para garantir a qualidade do produto. Não, eu não ganharia a vida cantando, pois aquele não era um gravador qualquer!
Mas, a despeito de todas as provas em contrário, continuei cantando no banheiro até semana passada. E, nessas oportunidades, me vêm à memória canções que ficaram no limbo de nossa música popular, porque, segundo me parece, estiveram entre a velha canção brasileira, cujos últimos intérpretes foram Nelson Gonçalves e Orlando Silva, e a revolução trazida pela Bossa Nova e, logo depois, pela hoje identificada MPB, com expoentes como Gil, Caetano, Chico, dentre os mais badalados. Porém, naquele vácuo lá pelos idos de 50/60, já se prenunciava que a estética da música popular brasileira estava a mudar de cara. Ou melhor, de poesia, de letra. Até então o que se tinha de maior veiculação nas rádios era uma música com temática de cais do porto, de bordel, de paixões por mulheres de vida airosa, para ficar num eufemismo, em que o autor chorava dores de cotovelo irremediáveis.
Tais músicas fizeram a transição entre aquela estética antiga – e de mau gosto, para os meus ouvidos – e a nova MPB. Traziam uma linguagem mais moderna, com novas metáforas, e um ritmo que prenunciava a bossa-nova. E tenho quase certeza de que a maioria de meus leitores nunca as ouviu. Menina moça, Mulher de trinta, E daí, Carinho e Amor, Bolinha de sabão, Balanço Zona Sul, Lembranças, Cara de palhaço, dentre outras, e que podem soar velhas para as novas gerações.
Por isso é que continuo singing in the bathroom tais músicas, já que não consegui gravar nenhuma letra das que vieram depois que meu disco rígido natural já estava sem muito espaço livre.

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Imagem em elo7.com.br.