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30 de junho de 2017

FUGINDO DA MORTE

Nascemos já com o compromisso de resistir, de tentar ficar longe da morte, a inominada, a Dama Branca de Manuel Bandeira, que o espreitou, tuberculoso que era, desde jovem até a seu passamento, já com oitenta e dois anos. Eu não fujo à regra. Adentrei os setenta com o vigor da idade, a despeito da avaliação de menoscabo do esculápio que me submeteu a uma prova de esforço nos primeiros dias do ano, numa esteira ergométrica miserenta, e revelou que meu preparo físico é fraco. Não precisava disso. Eu já sabia. Abuso na preguiça, por conta de não haver cardíacos na família. Morremos de câncer, normalmente, ou de diabetes. O que vier primeiro. Sem preferências. Por isso me cuido. Ao meu modo, evidentemente. Tudo porque, como disse alhures, não almejo a paz dos cemitérios tão cedo.
Vou aqui, então, relatar aos amigos as providências, condutas e jeitinhos para adiar o mais que puder a morte, através da explicação de seus diversos torneios vocabulares, a fim de que possa orientá-los em suas vidas. Minha família tem o péssimo hábito de ser longeva.
Vamos a eles.
ABOTOAR O PALETÓ: Não tenho mais paletós. Minto. Até tenho, para cerimônias formais, mas não lhes dou confiança. Aliás vou doá-los, assim que termine este texto. Se não conseguir me desvencilhar deles tão logo, vou arrancar-lhes os botões, a fim de não correr risco de abotoá-los inadvertidamente.
ESPICHAR AS CANELAS: Sou renitente! Não espicho! Tenho o cuidado de sempre manter meus joelhos dobrados, até mesmo quando durmo, no intuito de prevenir qualquer incidente grave.
COMER CAPIM PELA RAIZ: Raiz? Não tenho comido nada. Nem aipim, beterraba, batata, inhame, cenoura. Minha glicose anda saliente, e estou me abstendo de consumir coisas subterrâneas. Todas, invariavelmente, viram açúcar.
VESTIR O PALETÓ DE MADEIRA: Se estou abrindo mão dos paletós de tecido, muito mais confortáveis, por que iria usar paletó de madeira? Seria, inclusive, pouco ecológico. E, também, porque o caimento não fica bem. A madeira não se conforma à minha anatomia um tanto irregular, na parte situada nas imediações do ventre. Se é que me entendem.
PASSAR DESTA PARA MELHOR: Não comprei nenhuma passagem para melhor. Portanto não vou passar para lugar nenhum. Se houver vale transporte para isso, pode ser que eu estude a possibilidade, num remoto futuro. Caso contrário, fico por aqui mesmo: nesta!
VIRAR PRESUNTO: Não fui criado com bolotas, nem nasci em áreas demarcadas propícias, o famoso terroir. A não ser que Carabuçu seja considerado um terroir caboclo! Assim minha carne e minha gordura não se prestam a virar um bom presunto de Chaves, Barroso, Barrancos, Vinhais, Pata Negra, de Parma, dentre outros menos conhecidos. Nem mesmo acredito que sirvam para mortandela.
TER AS HORAS CONTADAS: Não uso relógio desde a juventude. Assim que terminei o curso primário, no saudoso Grupo Escolar Marcílio Dias, em Carabuçu, ganhei um relógio de presente do prefeito do município. Foi o único. Nem sei onde anda mais. Por isso, não conto as horas. Deixo para os mais preocupados com o tempo.
IR PARA A CIDADE DOS PÉS JUNTOS: Como no caso de partir desta para melhor, não comprei passagem. E, ademais, não encontrei tal cidade no planisfério. Nem mesmo o GPS, o Viber ou o Google Maps conseguiram localizá-la. Estou abortando a viagem sempre.
ENTRAR NO SONO ETERNO: Não consigo dormir muito, embora goste bastante. Um pouquinho só, umas oito horas, me bastam a cada dia. Esse negócio de sono eterno não faz minha cabeça. Prefiro acordar sempre no dia seguinte e beber um generoso e fumegante gole de café amargo. Assim também vale para o tal descanso eterno. Como diz o vulgo, prefiro viver cansado, embora aposentado em tempo integral.
ESTAR COM O PÉ NA COVA: Não sou couve, alface ou rúcula, para enfiar o pé em cova nenhuma. Talvez um pouco hidropônico. Sou desenraizado. Plano acima da linha do chão por dois centímetros de sola de sapato ou de sandálias de dedo, que me hão de evitar enfiar o pé na cova. Estou fora!
BATER AS BOTAS: Desde os dezoito anos, época em que servi o glorioso exército nacional, não uso botas. Nem nunca comprei. Já há bom tempo só tenho mocassins, que não servem para bater em nada, nem em ninguém. E, quando entro na areia da praia para fotografar, lá mesmo bato os mocassins na beira do calçadão, para me livrar dos grãozinhos que penetram sem convite.
DAR COM OS COSTADOS NA CERCA: Acerca, sem trocadilho, desta expressão, já me expressei aqui em outra postagem (Clique aqui para ver.). Nem chego perto de cerca, a fim de evitar, se falsear a passada, que eu possa esbarrar em qualquer tipo de cerca, de madeira, bambu, cerca-pinto, arame farpado, ou mesmo e sobretudo elétrica. Minhas costas estão incólumes até hoje.
DAR O ÚLTIMO SUSPIRO: Esta expressão é dúbia. Suspiro é também o nome de um doce muito apreciado, feito de clara de ovo, açúcar e tenras farpelas de casca de limão, que se desmancha na boca milagrosamente, mas que também eleva a taxa de glicose aos píncaros. Quem compra um pacote de suspiros dá qualquer um deles, menos o último, que é justamente o que encerra, enfeixa, potencializa seu derradeiro paladar. Ninguém dá o último suspiro. Eu, por questões já ditas acima, nem compro o pacote. Ainda mais dar o último suspiro! Quanto ao suspiro propriamente dito, esse que movimenta o ar que entra e sai dos pulmões, quero informar que vai bem obrigado. Meu fole anatômico tem funcionado muito bem. Os pulmões continuam livres e desimpedidos. Espero, assim, dar o último suspiro só depois de morto.
Por hoje é isso! Até a próxima encarnação!

Resultado de imagem para Caronte Gustave Doré
Gustave Doré (1832-1883), Caronte (ilustração para a Divina Comédia; em worldofdante.org).

24 de fevereiro de 2017

O VERBETE NÃO FOI ENCONTRADO


Dia desses, ao parar o carro numa vaga demarcada no estacionamento do shopping, soltei uma palavra muito usada em minha terrinha natal que não consta de nenhum dicionário. A vaga não era paralela às demais, mas em um ângulo diferente, oblíquo, por estar entre duas colunas. Então a Jane achou estranha a posição em que estacionara o veículo e me perguntou se estava correta. Eu disse que sim e acrescentei:
- A vaga é de vangüê! (Usei o banido e injustiçado trema, para que o leitor saiba exatamente a pronúncia do vocábulo.)
Perguntei a ela, então, se em Miracema, sua terra, também se usava isso.
É preciso informar aqui ao distinto leitor que Miracema e Bom Jesus do Itabapoana distam cerca de cem quilômetros entre si, o que pode determinar usos particulares de nossa mesma língua. Mas não era o caso. Lá também se usa tal palavra.
E veio, em seguida, pela força da memória que me resta, o seu sinônimo, também não dicionarizado: revesguete (com /e/ fechado em todas as sílabas e também com a pronúncia do /u/).
Veja, caro leitor, que para enviesado, quer dizer, de viés, usamos com frequência vanguê e revesguete. Desta forma, um olhar de soslaio é um olhar de vanguê ou de revesguete. Sair de fininho de uma situação embaraçosa também significa, por metáfora, sair de revesguete ou de vanguê. A bola que se chuta e sai pela tangente, não indo na direção pretendida pelo jogador, é uma bola de vanguê ou de revesguete. A peça mal encaixada num conjunto é porque entra de revesguete ou de vanguê.
Aí fico a me perguntar por que os dicionários, que sempre vivo consultando para encontrar esse tipo de registro, numa busca pela validação da linguagem que falamos, nunca deram muita confiança para nosso jeitão caipira de usar a bela língua de Camões, Vieira, Drummond, Bandeira, Torga, Leminski, Caetano, Chico, Eça, Machado e Abrunhosa.
E os exemplos não ficam só nesses.
O leitor haverá de saber, por acaso e sorte, o que é caracaxento? Ou calibrina? Camulaia? Briguelo? Cachimbau? Funicado? Miserento? Balango e balangar? Bitelo? Gibaita? Escabufado? Gafurinha? Esgulepar e esgulepado? Puaia? Istrudia? Mironga? Remandiar? Maxambomba? Marom? Preca? Cabrunco? Baleba? Lambreta? Pois essas são algumas das palavras que usamos com frequência para nomear, qualificar e representar as mais diversas coisas, qualidades e situações do dia a dia.
Alguns poucos desses vocábulos até aparecem em um ou outro dicionário; às vezes com a acepção diferente da que lhe é atribuída, como marom, por exemplo, que para nós é a saborosíssima cocada assada. Caracaxento é áspero. Já calibrina é sinônimo de aguardente, assim como camulaia. Briguelo nomeia o boneco do teatro de marionetes. Cachimbau é a outra denominação do peixe conhecido como cascudo. Funicado, corruptela de fornicado, significa “em maus lençóis”; talvez uma forma branda a evitar o uso do termo fodido. Miserento é miserável, no sentido moral da acepção e não no econômico. Balango e balangar são as formas usadas em lugar de balanço e balançar. Bitelo e gibaita significam muito grande, não apenas grande. Escabufado é mal-arranjado, desajeitado. Gafurinha nomeia o cabelo muito embaraçado, de difícil penetração de pente. Istrudia equivale a “em outro dia atrás” e deve ser corruptela da forma arcaica estoutro dia. Mironga nomeia uma espécie de pudim de pão, embora seja um pouco diferente deste. Remandiar também é forma paralela de remanchear, ou remanchar, com o mesmo sentido. Maxambomba é o nome que se dá ao carrossel de parque de diversões equipado com cadeirinhas. Preca e cabrunco são formas de xingamento, empregadas sobretudo diante de situação adversa ou de difícil transposição, e revelam profunda contrariedade do usuário. Baleba é a prosaica bola de gude. Lambreta é/era o nome que damos/dávamos para sandália de dedos. 
puaia merece um parágrafo à parte. O termo começou a ser usado em expressões como dar puaia ou comer puaia, lá por volta dos anos sessenta do século passado. Ele se presta a identificar situações em que o falante, por meio de palavras de falso elogio, pretende conseguir algo favorável do ouvinte. Nesta situação, ele dá puaia no outro. Se o ouvinte, sem perceber a intenção do falante, acredita naquelas palavras, ele come a puaia. Há alguns conhecidos vaidosos na comunidade local, muito sensíveis a aceitar esses falsos elogios: são os comedores de puaia.
Bom Jesus do Itabapoana, por essa expressão, é conhecida como a cidade da puaia. Houve um cidadão, aliás, com certos parafusos frouxos no juízo, que dizia que na cidade só o sino da igreja não comia puaia. Assim mesmo por estar com a boca para baixo.
Qualquer dia, para suprir a lacuna, ainda faço um glossário completo das palavras e expressões usuais na nossa terra. Só de birra, de pirraça!

Cabrunco!

21 de maio de 2016

ESSA NOSSA RICA LÍNGUA III - XINGAMENTOS E IMPRECAÇÕES DA CARABUÇU DOS MEUS DIAS DE MENINO


Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso. O dito popular já define bem que cada lugarejo, por menorzinho que seja, tem lá seu jeito todo especial de viver, sobreviver e levar a vida adiante.
Embora tenha vivido em Carabuçu, minha terra natal, apenas até meus dezessete-dezoito anos, tenho boa parte daquilo por que me entendo marcado por esse tempo de formação. São as tais raízes, que, por vezes, teimam em aflorar à terra antiga da minha memória e produzir certos textos que divido aqui com meus amigos.
Assim, de vez em quando, sou assaltado por algum tipo de reminiscência que imagino ser interessante dividir com os leitores. Sobretudo aquelas de cunho linguístico, que tão bem caracterizam uma comunidade. Quem, por exemplo, nunca se notou estranho em meio diverso do seu apenas por seu modo de falar, por uma expressão própria, um sotaque diferente? Ou que não tenha reparado isso em pessoas que se intrometeram no seu ambiente?
O Brasil, esse país de dimensões sentimentais, tem uma unidade linguística invejável, malgrado sua extensão territorial. Com poucas exceções, principalmente no âmbito do vocabulário, nos entendemos perfeitamente de norte a sul, de leste a oeste, sem maiores sobressaltos.
Já aqui no blog trouxe alguns textos em que tentei resgatar a maneira peculiar por que usávamos a nossa rica língua, à época em que lá vivi, anos 50 e 60 do século passado.
Hoje trago um aspecto bem especial deste mesmo falar, focado nos xingamentos e imprecações comuns àquela altura, na nossa vilazinha perdida no noroeste do Estado do Rio de Janeiro. Apesar do caráter fortemente rural, simplório e conservador, Carabuçu também tinha – e deve ter até hoje! – suas raivas, seus aborrecimentos, suas contrariedades, e os verbalizava com jeito muito peculiar. Claro que muitos dos vocábulos e expressões aqui arrolados são comuns a outros territórios linguísticos, já que somos frutos da mesma colonização, que, na bagagem dos seus feitos e malfeitos, como toda e qualquer colonização porta, deixou uma língua comum em todo o nosso território.
Organizo por intenções de uso as principais formas que utilizávamos para xingar e imprecar.
RAIVA – Para expressar raiva diante de um fato adverso ou de um aborrecimento, era comum usarmos:
Capeta! Cabrunco! Diabo! Saci! Corisco! Raio! Merda! Bosta! Desgraça! Desgraceira! Desgrama! Cacete! Praga! Preca! Caralho! Puta que pariu!
Desses, cabrunco seja talvez o termo que mais identificava o falante de Carabuçu, embora fosse também empregado em outras áreas próximas. Parece-me variação da forma carbúnculo, doença grave que acomete sobretudo bovinos, ovinos e caprinos. Entretanto, no dicionário Caldas Aulete, sua origem é dada como desconhecida. Michaelis não o registra, bem como o Aurélio.
Preca, por exemplo, não está dicionarizado e equivale a praga.
Não era de muito uso o vocábulo caralho, que o consenso julgava extremamente pesado do ponto de vista moral.
Nesses xingamentos, não raro se reforçava a expressividade com o emprego de que, comum no uso geral da língua: Que preca! Que praga! Que merda!
ESPANTO – Para expressar espanto diante de algum fato inusitado, imprevisto, sempre ocorriam formas como Que isso?! Pelo amor de Deus! Cruz-credo! Cruz em credo! Desconjuro! Desconjuro credo! Nossa Senhora! Meu Deus! Meu Deus do céu!
OFENSA – Usavam-se várias palavras e expressões para ofender a pessoa com quem se estivesse discutindo rispidamente.
Feadazunha! Feadaputa! Filhote de cruz-credo! Filhote de saci! Estropício! Encravo! Cuiudo! Roncolho! Rendido! Arrombado! Safado! Moleque! Pilantra! Atraso de vida! Desgramado! Desgraçado!
Feadazunha ou fidazunha correspondem a filho das unhas e são formas eufemísticas de filho da puta, às vezes pronunciado feadaputa ou fidaputa, raramente usadas diante do outro por serem extremamente ofensivas. E também porque quase todos se conheciam, bem como as mães de quase todo mundo. O xingamento filho da puta, assim dito com todas as letras, poderia provocar até morte, por aquela altura. Entretanto a forma mais eufêmica de fazer este tipo de xingamento era chamar o outro de Filho da mãe!, que ofendia só um pouquinho. Como se fosse possível!
As formas cuiudo, roncolho, rendido e arrombado têm conotação sexual e eram dirigidas aos homens. Desnecessário esclarecer a que referem tais xingações. As formas safado e moleque, se aplicadas a homens feitos, também eram muito ofensivas.
Atraso de vida era expressão que denotava pessoa sem iniciativa, dessas que atrapalham o progresso alheio, e equivalia a encravo, estropício.
Criança arteira, desobediente ou enjoada, recebia do adulto, até mesmo dos pais, xingamentos mais brandos, como: Bruaca! Cagança! Entojo! Entojado(a)!
Ao homem também se ofendia com as formas Corno! Chifrudo! Galhudo!, como a levantar suspeitas sobre a fidelidade da esposa. Quanto à dúvida sobre sua masculinidade, aplicavam-se Mariquinha! Mulherzinha! Frouxo! e Veado!
Caso, no entanto, a referência fosse ao aspecto físico – evidentemente, ninguém elogia -, eram comuns as formas: Caolho! Zarolho! Fiação trocada!, se o problema fosse o estrabismo. Se se tratasse das feições, aí usavam-se: Cara de motor de arranque! Cara de cu! Os que manquitolavam ou tinham problemas na marcha, com frequência eram identificados como Deixa que eu chuto! Aqui tá alto, aqui tá fundo! Esacabufado!
Porco! se aplicava aos que eram descuidados com a higiene pessoal. Aos teimosos ou ignorantes, aplicavam-se: Burro! Jumento! Besta! Besta quadrada! Mula! Tapado!
Por vezes, acrescentava-se a esses xingamentos, para reforçar a carga semântica negativa, a palavra empacado/empacada: Mula empacada! Burro empacado!
O que tinha caráter suspeito era sempre identificado como Boa bisca!, com evidente ironia no adjetivo boa.
Boca suja! Boca de cumbaca! e Língua de trapo! aplicavam-se aos que proferiam palavrões ou eram indiscretos e não mantinham segredos alheios.
Para ressaltar o caráter avarento, utilizavam-se expressões de sentido humorístico, como: Mão de vaca! Munheca de porco!, bem como as palavras Miserável! Miserento! e Pão-duro!
Ofensas raciais eram sobretudo Negro safado! Tição! Branquelo! e Branco azedo!
Banana! Lesma! Preguiça! e Preguiçoso! serviam para ofender os que não demonstravam muito entusiasmo por realizar trabalhos e afazeres. Os que eram vagarosos na realização de algo eram conhecidos como marcha lenta.
É bom registrar que as palavras desgraça desgraçado tinham sentido bastante negativo, por sua perspectiva religiosa – “aquilo ou aquele que estavam sem a graça de Deus”. Usadas mais raramente, por isso mesmo, e denotando evidente raiva do falante, eram à miúde substituídas por desgrama desgramado.
Com frequência, muitos desses xingamentos eram antecedidos por seu/suaSeu miserável! Seu banana! Sua besta quadrada! Sua mula empacada!

Imagem em robsonpiresxerife.com.


VOCIFERAÇÃO – Aqui arrolarei as várias frases que eram proferidas contra o outro, a fim de que ele se afastasse e parasse de importunar. Começo pelas de sentido mais brando, até as mais ofensivas.

Vai peidar n’água pra fazer borbulha!, cuja última palavra era pronunciada borbolha ou bibolha.
Vai caçar preá!
Vai ver se eu estou na esquina!
Vai caçar (procurar) sua turma!
Vai te catar!
Vai à merda!
Vai cagar! / Vai cagar no mato!
Vai pro raio que o (te) parta!
Vai pro diabo que o (te) carregue!
Vai pro inferno! Vai pro meio do inferno! Vai pro quinto dos infernos!
Vai tomar no cu! / Vai tomar na olhota do seu cu!

Evidentemente que essas duas últimas frases ofendiam gravemente e, não raro, provocavam as famosas vias de fato.

OFENSAS INFANTIS - As crianças, também frequentemente, punham-se a implicar mutuamente, gerando, por vezes, brigas. Havia algumas formas de provocação utilizadas nas preliminares dessas contendas.

Por vezes, um ofendia o outro chamando-o de Mané! ou Zé Mané! O menino que não jogava bola muito bem era chamado de Pereba!*, depreciativo que se aplicava também a adultos. 

Frases mais elaboradas eram essas que ocorriam em forma de poesia cantada:

Zé Prequeté / tira bicho do pé, / pra comer com café!
Ou esta outra em que se introduzia o nome da criança:
João, / catibiribão, / pega a matutagem / do firinfinfão!
José, / catibiribé, / pega a matutagem / do firinfinfé!

Ainda que brandas, as ofensas dessas frases quase sempre provocavam desavenças, brigas e trocas de mal por algum tempo.

Como os amigos leitores podem perceber, sabíamos xingar com certa criatividade, às vezes produzindo expressões engraçadas, que atenuavam um pouco a carga semântica negativa que elas portassem, de modo que a ofensa também não ofendesse tanto assim. Afinal de contas, a vila era muito pequena, e os possíveis desafetos iriam encontrar-se com bastante frequência, senão no bar do Chambão, para uma partida de sinuca, na venda do Argemiro, para uma roda de prosa em volta do vidro de pé de moleque.

É bem verdade que esses sãos os principais vocábulos e expressões deste tipo de uso que me ocorreram. Espero que meus conterrâneos possam enriquecer este texto com sua contribuição.

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* Lembrança do amigo Marcelino Medeiros, que confessou ser assim qualificado, como, aliás, eu também era.

20 de janeiro de 2016

FAZER OU NÃO FAZER


Mesmo que você seja um preguiço contumaz – e não vou aqui enumerar alguns que me conheço –, sempre terá o que fazer do ponto de vista linguístico. Nossa língua nos provê de um bom número de expressões do fazer que, propriamente, podem não produzir nenhuma obra que se preze, mas, ao contrário, servirão para expressar muitos e variados conceitos. Aliás, conceitos pertinentes a respeito das coisas do dia a dia (Até hoje não concordo muito com a reforma ortográfica que suprimiu o trema e escorraçou o hífen de muitas palavras de forma inexplicável.).
Consegui arrolar algumas delas para a sua apreciação, caro leitor.
Aí vão.
Fazer a vida – Trabalhar; exercer certo ramo de atividade; sair do estado de inatividade para o de produtividade.
Fazer água – Romper-se o casco, com a consequente entrada de água na embarcação. Produzir resultado pífio ou aquém da expectativa; resultar uma ação em consequência desprezível.
Fazer barulho – Alardear; manifestar-se em altos brados; propagar; tornar público.
Fazer beiço/beicinho – Chorar; começar a chorar; fingir chorar a fim de comover o outro.
Fazer bobice – Fornicar; manter relações sexuais. Agir de forma debochada, ou com brincadeira. / Também na forma popular interiorana: fazer bobiça.
Fazer cara de paisagem: Fingir distanciamento do que acontece; mostrar-se alheio ou indiferente à situação.
Fazer caminho – Viajar; ir em busca de realizar algo; sair. Procurar um rumo na vida.
Fazer cera – Demorar propositadamente a fazer algo, na intenção de ganhar tempo; remanchar; retardar a execução de uma tarefa. No futebol, demorar na reposição da bola em jogo, a fim de ganhar tempo, quando o próprio time está com o placar favorável.
Fazer chacota – Zombar; tratar com desconsideração ou desprezo.
Fazer comichão – Instigar; incentivar; motivar.
Fazer (cu) doce – Colocar-se acima da situação, fingindo não se interessar por aquilo que acontece; fingir distanciamento; fingir superioridade.
Fazendo doce, literalmente (em guiadicas.net).
Fazer das tripas coração – Transformar, pelo trabalho exaustivo, algo negativo em positivo. Produzir bom resultado, a partir de dados negativos.
Fazer de conta – Fingir; fabular.
Fazer feio/ bonito – Realizar algo com bom/mau resultado; errar/acertar na execução de uma tarefa.
Fazer figa – Tentar precaver-se de maus resultados; fingir não dar importância a algo.
Fazer figura/cena – Fazer pose; fingir um estado de espírito; mostrar-se; pavonear-se.
Fazer filho – Engravidar alguém (o homem); engravidar-se (a mulher).
Fazer firula – Expressão oriunda da linguagem do futebol: tentar ou executar jogada de efeito bonito, mas sem aplicação prática na partida. Fazer algo sem praticidade, apenas na tentativa de aparecer para o outro.
Fazer gato e sapato – Tratar de maneira irresponsável reiteradamente; abusar.
Fazer mal – Manter o homem relações sexuais com mulher inexperiente, normalmente virgem.
Fazer merda/cagada – Fazer algo que produza resultado negativo, por imperícia ou precipitação; fazer algo malfeito, inútil ou sem bom acabamento.
Fazer mundo – Viajar; viajar sem roteiro pré-programado; sair em busca de realizar algo; viver vida errante.
Fazer o diabo – Agir de forma abusada e excessiva. Exercer muitas atividades; fazer muitas coisas.
Fazer onda – Mostrar-se superior diante do outro em determinada situação. Também se diz tirar onda.
Fazer ouvidos de mercador – Fingir que não ouve algo que é dito, a fim de não se obrigar a reagir.
Fazer piada/troça – Zombar; não levar a sério um assunto; ridicularizar.
Fazer pouco – Desconsiderar; levar em pouca conta ou consideração.
Fazer presença – Estar presente; comparecer; estar em determinado lugar ou situação, sem se comprometer com o que ocorre.
Fazer-se ao mar – Partir em viagem marítima; navegar.
Fazer-se de morto – Não participar de determinada atividade ou opinião, para não se compromete; omitir-se.
Fazer-se de vítima – Aparentar inocência para fugir à responsabilidade de sua própria ação; dissimular.
Se você, leitor, quiser aplicar algumas dessas expressões a alguém que conheça, da vida pública ou privada, esteja à vontade. Não sou proprietário delas; é a língua que nos provê deste vasto repertório de palavras e expressões de que podemos dispor, para exprimir nosso conceito do mundo que nos cerca. E pelos sete lados, como numa aposta do jogo de bicho.
Até a próxima, que tenho mais o que fazer!
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.

2 de setembro de 2015

SOU CHEIO DE OPINIÕES


Não sou pessoa de uma única palavra. Tenho várias. Menos que o dicionário, é óbvio, mas cheio delas. Desde pequeno, desde criança. E também não tenho a última palavra. Seria ela zwingliano? Vejam que não sei ao certo. Quando aluno do Colégio Bittencourt, em Campos dos Goytacazes (Morrerei sem concordar com esta grafia!), na falta do que estudar - todas as lições já feitas -, resolvi contar as palavras do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, que se vangloriava de elencar mais de 90.000 vocábulos. Não contei nem a décima parte, mas vi lá, na década de 60, que a última dicionarizada era essa aí: zwingliano, "adepto ou seguidor do zwinglianismo". Hoje já não sei mais. Já não tenho a curiosidade da juventude e deixo com o Aurélio a derradeira palavra.

Assim fico com as palavras do meio, vez que a primeira pertenceu ao Criador, que fez tudo a partir dela: Fiat lux! E a luz e o fósforo de segurança foram feitos. Acho que até a minhoca e a lombriga foram feitas assim. O ornitorrinco, no entanto, tenho quase certeza, foi feito por Adão, com as sobras de alguns bichos que o Criador desistiu de criar e deixou jogadas num canto do almoxarifado celeste. Por isso deu no animal esquisito que é. Até na oficina mecânica do Mané Gibaita, lá em Carabuçu, se fazia coisa mais bem acabada do que o ornitorrinco.

E no meio dessas palavras e ajuntamento de palavras há coisas engraçadas, que merecem uma análise perfunctória e irresponsável, como sói ser de meu vezo e para o que sempre tenho a palavra incerta.

Por exemplo: autoajuda. Se isso não se refere a oficina mecânica, certamente tratará de carro guincho. Ou da ajuda daquelas pessoas que empurram seu carro, quando ele dá uma pane elétrica. Eu mesmo nunca vi alguém autoajudar outra pessoa: o leitor, no caso. Jamais vi alguém, cheio de problemas, chegar para um amigo e dizer: Preciso de uma autoajuda. Por isso, todos esses livros de autoajuda, na verdade, ajudam o seu autor. Aí, sim, a definição se ajusta.

Como jamais tive a pretensão de ficar dando conselhos aos outros, tenho a maior implicância com a palavra e a finalidade para a qual é usada.

Aliás, isto tem sido uma das preocupações da minha vida. Tanto que até cunhei um pensamento bem pensado: Muito se autoajuda quem não se atrapalha.

Não sei se isso ajudará alguém, mas fica aí para a reflexão dos meus parcos leitores.

Outra expressão que sempre futucou meu cérebro nervoso, como diz aquele samba-canção da época em que se usava cueca samba-canção, é "a merencória luz da lua". Em tempo algum, em nenhum dos textos que li, desde os gongóricos aos românticos, vi merencória ser usada. Ary Barroso, autor dos versos e da música em que a expressão se encontra, era verdadeiramente um homem muito esquisito. E olhem que não lhe tenho má vontade. Quando, há tempos, lhe faziam crítica por outro verso - "esse coqueiro que dá coco" -, em que o acusavam de tautologia, de obviedade, sempre estive com ele:  ora, todo coqueiro dá coco; Ary está coberto de razões e cocos e não poderia dizer esse coqueiro que dá goiaba, por exemplo. Mas essa "merencória luz da lua" é velha de dar com o pau. Chega a doer no ouvido. Talvez melhor ficar com a modernidade e o gosto estranho da música dos Titãs em que se arrolam vários nomes de doenças: O pulso. 

Mas vejam como é o povo: na Copa do Mundo da França, em 1998, no Parque dos Príncipes, em Paris, a torcida brasileira cantou a plenos pulmões, durante o jogo contra o Chile, a Aquarela do Brasil, com merencória, coqueiro que dá coco e tudo mais. E eu e meu filho Pedro estávamos naquele coral ensandecido.

Tenho muito mais opiniões a dar, mas, por hoje, fico por aqui. Não que seja esta a última palavra, mas a penúltima ou antepenúltima.

Cartum de Kemp, sobre Zé do Apocalipse, de Glauco (em lactobacilom.blogspot.com).


Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.

5 de abril de 2015

AMARCORD


Ψ
Tenho cravada em minha memória a cena sedutora de um filme mexicano em que a belíssima atriz cubana Maria Antonieta Pons, dentro de um vagão de trem, deixava que o mocinho (ou seria o bandido?) lhe beijasse o lindo tornozelo torneado, apenas insinuado com o suave levantar de sua saia comprida. Não sei quem era o canalha que lhe beijava o tornozelo, nem o título do filme, nem o nome do diretor, assim como não me recordo de nenhum fotograma anterior ou posterior a esse. Mas esse ainda está incrustado num escaninho qualquer lá dentro de mim. Imaginem, então, o que a cena causou em minha cabeça! Devia ter lá meus doze/treze anos, quando vi o filme. E tive o cuidado de, após a sessão, saber o nome daquela bela atriz e seu tornozelo maravilhoso: Maria Antonieta Pons! Aliás, o cinema mexicano da época, através da Pelmex, era pródigo em belas mulheres. Só para citar algumas: Libertad Lamarque, Dolores Del Rio, Ninón Sevilla, Maria Felix. E desconfio de que continue assim até hoje...

María Antonieta Pons (em cinemexicano.mty.itesm.mx).


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De quando em vez, meu saudoso avô Chico Albino, que à época morava em Duque de Caxias, ia visitar os parentes – dentre eles meu pai, seu filho – que deixara na pequena vila de Carabuçu. Eu o admirava profundamente. Achava-o um homem elegante, porte nobre, sempre vestido com correção e dono de uma dicção limpa, clara. Não tenho lembranças de que me levasse presentes. Nesse tempo, não era comum, pelo menos na minha terra, que se dessem presentes. Mas sua presença por lá era motivo de grande satisfação minha. Numa dessas visitas, estava conversando com os amigos na venda de meu pai, contando lá as histórias de Duque de Caxias, quando se referiu a certo cidadão, personagem do que dizia, com a palavra cafajeste:
- Fulano era um verdadeiro cafajeste!
Na hora, achei a palavra muito bonita, muito sonora, e gostei de ouvi-la da boca de meu avô. Como já era um menino esperto, perguntei-lhe o que significava cafajeste. Tive, então, a maior decepção com o sentido. Como podia uma palavra tão sonora, tão bonita, significar aquilo que me dizia? Comecei, assim, a perceber que nem sempre os sons correspondiam aos sentidos.
Quando fui para a faculdade, tive confirmada essa percepção, ao saber do lamento do grande poeta francês Guillaume Apollinaire, autor de Calligrammes, com a língua francesa, que tem a palavra jour (pronunciada /jur/), de sonoridade fechada, escura, para o que em português é dia, de pronúncia aberta, clara. Dizia ele da necessidade poética, em francês, de adjetivar a palavra para carrear, para seu sentido de claridade, também a claridade da pronúncia, que há na palavra portuguesa. Assim propunha, por exemplo, clair jour (pronúncia /klér jur/) – dia claro – em que o adjetivo de som aberto como que clareia o sentido de jour.

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Lá nos idos de 1950, meu pai soube, por um dos fregueses de sua venda, que certo conhecido, durante uma partida de futebol de várzea das roças no entorno da vila, tinha sido esfaqueado, por motivo de discussão boba, desmotivada. Virou-se, então, para o que trazia a notícia e exclamou:
- Xi! Coitado! Deu com os costados na cerca!
Ao ouvir isso, quis saber do meu pai se o homem se ferira na cerca, normalmente feita de arame farpado. Meu pai deu um sorriso amarelo e me disse:
- Não, morreu mesmo! Dar com os costados na cerca quer dizer morrer.
Dessa vez, percebi também que as palavras nem sempre querem dizer o que dizem e podem nos meter em enrascada. Ê vida difícil! É o que talvez justifique aquele camarada que se explicou à autoridade, dizendo que chamara o outro de filho da puta no bom sentido.

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Bom sentido que não existia há algumas décadas. E foi o que motivou um tio-avô a atirar num desafeto, justamente por chamá-lo de filho da puta. Na época, era a maior ofensa que se fazia a um homem, porque atingia diretamente sua mãe. Era um agravo na raiz da nascença, como se dizia, que manchava toda a descendência, ainda que por tabela. Tão logo foi xingado, meu tio agrediu o ofensor. A turma do deixa-disso fez a separação dos briguentos. Após a rixa, correu a notícia de que o outro estava andando armado, para dar fim a meu tio, que também pôs revólver na cinta. Não era, então, estranho as pessoas andarem armadas. Os de menor posse muniam-se de facas e peixeiras; os de maior, de garruchas e revólveres. Mesmo que não se portassem as armas, elas estavam dentro das casas. Por isso ocorreu que, estando meu tio num bar, em conversa com amigos, de costas para a porta, ao ouvir o chamamento do desafeto – não se matava um homem pelas costas –, ele já se virou atirando. O homem, alvejado, foi levado para o hospital de Bom Jesus, vindo a falecer, tempos depois, em consequência de complicações pelo tiro que levou.

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Os mais velhos contam uma história interessante, ocorrida em Carabuçu. Durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, foi instituída uma força policial volante, que vasculhava o interior para desarmar as pessoas. Nessa época, havia por todo lado muitos jagunços, muitos grupos armados, e os confrontos eram corriqueiros*. Para o norte do antigo estado do Rio de Janeiro – a Velha Província que teimava em sobreviver –, foi mandada a volante comandada pelo tenente Coaracy, homem de estatura baixa, mas tido como enquizilado, carne de pescoço, temido por todos.
Vem a volante entrando na vila, tenente Coaracy à frente, montado em sua garbosa mula alta. Ele, de pequetito, virava um homenzarrão sobre a besta. Na porta do botequim, estava um homem que, ao ver o grupamento, julgou por bem não se afastar, para não levantar qualquer tipo de suspeita, o que, certamente, o levaria a passar maus momentos. Tenente Coaracy estaca a montaria diante do homem, que já imagina o pior. Com sua voz firme e autoritária, pergunta ao homem:
- Caboclo, você fuma?
Tremendo de medo, o pobre coitado não teve como mentir e disse, com a voz já por um fiapo:
- Fumo, sim, senhor! Mas, se o senhor quiser, eu largo o vício.
- Não é nada disso, caboclo! Me arranja um cigarro, que o meu acabou!
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(* Se quiserem conhecer mais detalhes desse período da história brasileira, indico o excepcional romance de Mário Palmério Chapadão do bugre, que também serviu de base para minissérie homônima, levada ao ar pela Rede Bandeirantes, no ano de 1988, com direção de Valter Avancini e Jardel Mello.)


8 de abril de 2014

ESSA NOSSA RICA LÍNGUA II - A PERMANÊNCIA DE UMA METÁFORA

A tradição literária da língua portuguesa remonta aos fins do século XII, período em que está atestado o mais antigo texto escrito:  a Cantiga da Ribeirinha, poema de autoria de Paio Soares de Taveirós. A língua da época não era simplesmente o português, mas o chamado galaico-português (ou galego-português), evolução natural do latim vulgar falado no oeste da Península Ibérica, que recebeu as influências de substrato da língua celta da região.
Com o passar o tempo, galego e português foram-se desenvolvendo de forma autônoma, sobretudo em virtude da criação do Condado Portucalense, por D. Afonso Henriques, o D. Afonso I, fundador do que hoje conhecemos como Portugal.
Ao longo de sua história, nossa língua também recebeu, dentre outras, contribuições do árabe, com o qual conviveu por séculos, durante a ocupação da Península, de línguas negras africanas em função do contato com diversos povos para cá trazidos como escravos, bem como do tupi, sobretudo, entre as línguas indígenas faladas no território brasileiro.
O jeito brasileiro de falar é mais próximo à forma como Cabral e seus marinheiros falavam quando aqui chegaram, do que o atual sotaque de Portugal, que começou a se acentuar a partir de Lisboa na segunda metade do século XIX.
O que interessa aqui, no entanto, é a permanência de certos símbolos literários – metáforas – que se comprovam em textos arcaicos e modernos.
Um desses casos, que me parece bastante interessante, é a semelhança temática entre as cantigas medievais de Pero Meogo, jogral português do século XIII, possivelmente contemporâneo do grande rei-poeta D. Dinis, e, particularmente, a música de Vital Farias Sete cantigas para voar, do seu disco Sagas Brasileiras, de 1982, que também foi posteriormente gravada por Elba Ramalho, versão*, inclusive, mais executada nas rádios de então.
Numa das estrofes da composição de Vital Farias, está assim expressa a desculpa da moça que vai à fonte para encontrar o amado:
Cantiga de ninar 
a criança na rede 
mentira de água 
é matar a sede: 
diz pra mãe que eu fui pro açude 
fui pescar um peixe 
isso eu num fui não 
tava era com um namorado 
pra alegria e festa 
do meu coração 
Voa, voa azulão 
Voa, voa azulão
Deve-se dizer que foram preservadas nove cantigas** de Pero Meogo, que constituem uma narrativa em versos, a respeito da iniciação amorosa de uma jovem no século XIII. Nelas, mãe e filha conversam sobre o acontecido: o encontro às escondidas da filha com o amado e as inquirições da mãe acerca do seu comportamento. Na nona e última cantiga, estabelece-se um diálogo em que a mãe desconfia da demora da filha na fonte, ao que ela se justifica dizendo ter ido lavar os cabelos, mas as águas estavam turvas pela presença de cervos, por isso a demora. A mãe não crê na desculpa. Veja o texto da cantiga em galego-português.
- Digades, filha, mia filha velida:
porque tardastes na fontana fria?
            - Os amores ei.

Digades, filha, mia filha louçana:
porque tardastes na fria fontana?
           - Os amores ei.

- Tardei, mia madre, na fontana fria,
cervos do monte a augua volvian:
           - Os amores ei.

Tardei, mia madre, na fria fontana,
cervos do monte volvian a augua:
           - Os amores ei.

-Mentir, mia filha, mentir por amigo;
nunca vi cervo que volvess' o rio:
           - Os amores ei.

Mentir, mia filha, mentir por amado;
Nunca vi cervo que volvess’o alto:
           - Os amores ei

(Possível atualização textual: - Diga-me, filha, minha filha querida, / por que tardastes na fonte fria? / - Estou apaixonada. /Diga-me, filha, minha filha bonita, / por que tardaste na fria fonte? / - Estou apaixonada. / - Tardei, minha mãe, na fonte fria, / cervos do monte a água volviam. / - Estou apaixonada. / - Tardei, minha mãe, na fria fonte, / cervos do monte volviam a água. / - Estou apaixonada. / - Mentir, minha filha, mentir por namorado, / nunca vi cervo que volvesse o rio / - Estou apaixonada. / Mentir, minha filha, mentir por amado, / nunca vi cervo que volvesse a água. / - Estou apaixonada.)

Nesta cantiga de amigo paralelística, a fala da mãe está presente nas duas primeiras estrofes, cujo teor se repete por formas diferentes. A mãe indaga sobre a demora da filha na fonte. A terceira e a quarta estrofes representam a resposta da filha à mãe, ao justificar a demora pela presença de cervos que turvavam as águas onde iria lavar os cabelos. Nas duas últimas estrofes, volta a fala da mãe, que sabe ser a desculpa da filha uma mentira. O refrão (Os amores ei) funciona como o coro que representa a voz interior da moça, ao reconhecer o verdadeiro motivo da demora: ela foi encontrar o namorado, porque estava apaixonada.
Na canção de Vital Farias, a moça pede que se diga à mãe uma mentira, que ela mesma assume: “diz à mãe que eu fui pro açude / fui pescar um peixe / isso eu não fui não / tava era com o namorado /pra alegria e festa / do meu coração”. Observe que o traço moderno da canção da canção de Vital Farias talvez esteja no fato de que a moça assume a mentira, sem titubear, enquanto na canção medieval ela tenta escamotear a verdade para a mãe.
De qualquer forma, constata-se aí uma metáfora que ultrapassa os séculos: a fonte, o açude, como espaço para o encontro amoroso.

Esse fato representa tanto a permanência de tal metáfora, quanto evidencia o elo entre a cultura medieval e a cultura atual, sem um processo de ruptura. Isso significa constatar que somos muito mais antigos do que pensamos. E o que, às vezes, imaginamos ser muito moderno pode estar com um pé fincado há séculos e séculos atrás. E, no caso do Brasil, o Nordeste é um repositório repleto dessas permanências.

Symphonia da Cantiga 160, Cantigas de Santa Maria de Afonso X, o Sábio - Códice do Escorial. (1221-1284). Imagem em pt.wikipedia.org.

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