31 de dezembro de 2014

FELIZ ANO NOVO!
Fim de tarde em Icaraí (foto do autor, 14/12/2014).

27 de dezembro de 2014

PREVISÕES IMPREVISÍVEIS DE PAI PRUDENÇO PARA 2015


NOTA PRÉVIA: Este espaço foi cedido “gentilmente” a Pai Prudenço, como sempre. Caso contrário, eu seria “presenteado” com algum olho gordo “ni minha pessoa”, como ele garantiu. Com Pai Prudenço, não brinco, não fresqueio. É mais voluntarioso que o Analista de Bagé.
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Zifios e zifias.
Suncêis pidiro e aqui tá as previsão para o ano que envém aí. Quero dizê a suncêis que demorei um poco mais, por causa de que tou assuntado cos pobrema da tar da Petrobras. É munta gente me pricurando pra resorvê pendença. Finarmente pude pará uns trinta minuto para mandá essas previsão pra suncêis.
Vô começá ca Petrobras meso. O trem lá vai continuá feio. Aquela tar de Venina vai butá mais veneno. Periga até contaminá as gasolina que suncêis usa nos carro e eis pará de andá. As ação da Petrobras vai pará no Pré-Sar. Cuidado!
Já a tar de Eletrobras vai dá um choque n’ocêis. Bem no borso, que é pr’ocêis largá mão de sê besta e pagá os prejuízo que dão tumando banho quente e uvindo musga sertaneja no rádio.
O dono aqui do espaço tumém me pediu pra oiá seu time de futebor. Ni que quano ele me falou que era o Botafogo, sortei uma gargaiada danada. É que num vi futebor no ano escorrido e num tou veno no ano que envém. Posso até fazê uns trabaio de encomenda, cum reza braba, pra vê se ele num trupica na segunda e desce pra tercera. Mas o trem tá feio. Iguar à Petrobras!
O futebor como um todo tá mais pior do que em 2014, que já num foi bão. Suncêis vão vê cada joguinho ruim da peste, que vai dá mais saudade do Garrincha e do Pelé. Acho mió comprá uma prancha e um pé de pato e caçá onda nesse marzão de Deus.
As economia do Brasi, sem aquele tar de Mantega, vai continuá escorregano no quiabo. Conseio quem quisé sergurá o seu que vorte a butá dentro do corchão, que nem antigamente.
A violença vai continuá violenta. Os ladrão vão continuá robano. Tanto o seu cascaio, quanto o cascaio do Brasi. A Puliça Federá vai tê um trabaio danado, mas no fim os devogado vão enrolá as lei e sortá quaje todos ele.
De bão meso é que as muié vão continuá mais bonita que já são. De modo que é bão apurá os óio, trocá as lente dos oclo que é pra mode oiá bem. Já os homi permanece tudo feio cumé que sempre foro. Cruzcredo!
No campo do amô, vai tá tudo certo. Com arguns chifre espaiado por riba da testa de uns e otro. Que é pra num perdê o custume. O qué que se vai fazê, né meso? Ah! E num mexa caquela vizinha gostosa que vive espicaçano suncê, que o marido dela comprô um trabuco na fêra de Caxia.
No campo do jogo, aqueles que fô infeliz no amô tumém vão se dá munto mar. Vão perdê dinhero no bicho, na loteria e nas megasena. Conseio desviá dinheiro pra pinga, que vai dá mais prazê a suncêis.
As viage que suncêis pranejaro pra 2015 só vai ocorrê em 2016. 2015 vai tá de teto baxo o ano intero e ninguém vai pudê levantá voo, nem arribá a bunda do sofá. Conseio comprá revista de turismo que vai sê mió.
No que se refere às otoridade, tudo vai continuá do jeitinho que envém dês que nós nascemo. Vai tê juiz achano que é Orixá e vai tê gente meteno a mão na nossa grana. Dispois, nas inleição, nós vota tudo neles traveiz.
Nas arte e nas saliença, vai tê munto caipira sertanejo ganhano dinheiro às custa dos bobo, tar como uns pagodeiro mixuruca. Conseio suncêis a fugi dessa gente. Eu posso sê até um homi simpres, mas num sô bobo não. E os baile da tercera idade já vai chegá na quarta. É munto véio saliente, sô!
Na tar pulítica internacionar, os arábio e os judeu vão continuá a metê ferro uns nos otro. Nem Oxalá consegue dá jeito nisso. É pió que briga de marido e muié. Se ocê ficá preocupado, vai acabá doente. Conseio largá mão disso tumém. Num são eis que qué briga? Já os tar de Talibã, nem o diabo pode cum eis. Aquele minino roliço da Coreia vai continuá brincano de War, aquele joguim que suncêis dão pros fio de suncêis. E cortano o cabelo daquele jeito ridico, que só ele. Putin vai continuá putim da silva. Ô homim inquiziado! E o Papa Paco vai cansá de puxá as oreia da Cúria Romana e eis vão continuá a fazê ovido moco.
Pessoarmente acho que suncê vai se ferrá em 2015, mas eu vô baxá umas obrigação aqui no meu roncó, pra vê se tiro essa carga pesada da sua cacunda.
Se Pai Prudenço fala, Pai Prudenço cumpre. Bom Ano Novo procêis tudo! Se é que é possive!

21 de dezembro de 2014

HISTÓRIA DE UMA SEPARAÇÃO ANUNCIADA


Ontem passei uma mensagem, via Whatsapp, para meu filho Pedro, que está morando em Vitória, para lhe pedir que me traga o novo CD do Silva, talentoso jovem músico capixaba. Em novembro, quando lá estive, o disco estava em falta na loja próximo ao prédio onde ele mora. Após o OK, vem o pedido dele: "Ah, faça um kit vinil pra mim tb. Que contenha Allman". Ao ler, comecei a temer pelo desenrolar da história. Tanto que lhe mandei um torpedo de volta: Vinis novos, ou dos meus/seus?
Aqui tenho que explicar ao leitor amigo o porquê do meu temor.
Tudo começou há quase trinta e oito anos. Eram os primeiros dias de fevereiro de 1977. Pedro, nascido em 31 de janeiro, adentrou solene no seu novo lar. Primogênito, o pai, muito emocionado, não se conteve e lhe doou sua até então mediana coleção de discos de vinil:
- Meu filho, tudo isso é seu. - falei solene.
À época deveriam ser cerca de oitocentos elepês de várias tendências musicais.
Eu não sabia, então, da gravidade do meu gesto. O menino foi crescendo, assim como a coleção (Hoje são cerca de três mil.). Até que chegou o tempo de lhe comprar também os seus discos: Família Barbapapa, a trilha sonora de Flash Gordon do Queen, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, o próprio Queen, Nirvana, Pearl Jam e por aí afora. Depois vieram os CDs, e pai e filho continuaram a adquirir música na nova mídia, sempre com o desembolso monetário deste que lhe escreve, leitor.  Deste modo começou a se formar uma outra coleção, só dele, exclusiva. E o menino continuou a crescer, formou-se, arranjou trabalho, saiu de casa, namorou, casou, e não se esqueceu dessa promessa, que nunca me neguei a lhe dizer.
Agora recentemente, sua esposa lhe traz de presente, de uma viagem ao exterior, um belo toca-discos, daqueles capazes de reproduzir vinis.
O leitor está acompanhando minha exposição e poderá ver que meu temor tem fundamento. Pois a resposta dele àquela última indagação acerca de que vinis dizia foi: "Os velhos. Meus e meus. Olha a herança!!!". E cravou três pontos de exclamação, para que não restassem dúvidas. Tentou abrandar: "Brincadeira. Depois devolvo. Faz uma seleção. Uns 10.". Na sequência, disse que eu poderia escolher as bolachas e que poderiam ser mais de dez. Resolvi selecionar quinze, para, então, chegar aos vinte.
Veja, leitor condoído da minha situação, a que extremo chega um pai que, num arroubo de sentimentalismo da juventude, promete mundos e fundos ao filho amado. Não sei se, no Livro Sagrado, há história semelhante. Pois esta mereceria estar lá.
Então separei os vinte elepês e lhe explico - e também a ele - os motivos que me levaram a escolher esses e não outros.
De sua coleção – dele mesmo, entenda bem! –, vão os seguintes, que peguei aleatoriamente: Titãs (Go back 1988), Os Paralamas do Sucesso (D, 1987), Legião Urbana (Dois, 1986), Faith No More (The real thing, 1990) e Nirvana (Nevermind, 1991).
Da sua coleção – minha, que lhe passei naquele arroubo –, vão os seguintes, com minha justificativa:
Dentre os nacionais: Alceu Valença (Molhado de suor, 1974), Geraldo Azevedo (Geraldo Azevedo, 1977) Belchior (Todo sujo de batom,1974), por serem os primeiros discos individuais desses artistas, Gilberto Gil (Refavela, 1977) e Novos Baianos (Novos Baianos F. C., 1973). De todos eles, Pedro, em criança, cantava várias músicas, com sua linguagem ainda incompleta, e deles certamente se lembra perfeitamente, já que eles estavam sempre rodando em casa.
Dos internacionais: Atendendo seu pedido, The Allman Brothers Band (Eat a peach, 1972), disco duplo que traz talvez a mais longa música popular que já ouvi: os lados 2 e 4 contêm a execução ao vivo de Mountain jam. Além disso, tem clássicos como Blue sky, com um dos mais belos solos de guitarra de todo o rock, Little Martha, Trouble no more e Melissa. The Beatles (Oldies - A collection of Beatles. 1987), disco que mal ouvi e deve estar novinho ainda. Deep Purple (Machine head, 1972), um clássico do grupo, cheio de grandes rocks, como Smoke on the water e Pictures of home. Focus (3, 1973), o primeiro disco do interessante grupo progressivo holandês lançado no Brasil, que teve um sucesso marcante, Sylvia. Foghat (Foghat, 1972), grupo de hard rock inglês, com acentuada pegada bluseira, tinha duas guitarras que tocavam em uníssono. Genesis (Foxtrot, 1973), disco superlativo, que tem em Supper’s ready uma das mais belas peças que o rock progressivo já produziu. Neil Young (Harvest, 1972) produziu, segundo minha opinião, sua melhor obra com este álbum. O solo de guitarra que ele faz em Words (Between the lines of age) é lancinante. Rush (Power windows, 1985), grupo canadense que é mais cultuado pelos da geração de meu filho do que por mim mesmo. Este disco ainda está novinho. The Who (Quadrophenia, 1973) produziu a sua obra mais brilhante com este álbum duplo. Na verdade, é tudo de Pete Townshend. Por fim, Ken Hensley (Proud words on a dusty shelf, 1973), líder do grupo inglês Uriah Heep, produziu uma pérola. Multi-instrumentista, tocou quase todos os instrumentos das faixas. Destaque para a música título, para Rain, também gravada por seu grupo, e a fabulosa When evening comes
Espero que meu filho goste muito e possa resgatar sons que devem estar em sua memória musical. Quanto a mim, neste exato instante, penso naquele famoso soneto As pombas, de Raimundo Correa, ao ver esses meus/deles primeiros vinis voando da minha discoteca:

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

Imagem em ultradownloads.com.br.

17 de dezembro de 2014

FUI!

De pronto, escreveu que não gostava mais dela, na sacola do pão, sobre a mesa do café da manhã. A mensagem só não ficou estranha, porque a letra grande ultrapassou o círculo de manteiga embaixo da letra M, de modo que se lia quase com perfeição NÃO TE AMO MAIS, assim mesmo com letras maiúsculas. E não terminou de modo elegante, porque não era do tempo do bolero e do samba-canção. Grafou apenas FUI, sem assinar, porque também era desnecessário. Só ela iria ler; só a ela interessaria a mensagem.
Deixou a xícara suja e o bilhete esculhambado entre as migalhas de pão. Saiu sem bater a porta, para que ela não acordasse, e ganhou a rua e o mundo. Se sentiu mais livre que pipa avoada.
Quando ela acordou e foi fazer o desjejum, percebeu o recado somente ao pegar o pão. Achou estranho. Eram apenas duas frases em letras grandes: NÃO TE AMO MAIS. FUI. Como não houvesse destinatário nem assinatura, imaginou que a inscrição já tivesse vindo da padaria, onde comprara o pão na noite anterior, ao sair do trabalho. Só foi atinar para que o TE era para si e o autor era o companheiro, ao ver que ele levara a mala preta e várias peças de roupa do armário. Canalha, não teve nem a elegância de lhe dizer, pensou furiosa! Não iria chorar por um traste daquele. Bem que tinha certa paixão pelo tipo, mas não era de sair debulhando lágrimas por alguém que a tratara deste modo. Que vá para o inferno, o diabo que o carregue. Ou uma vagabunda qualquer, naturalmente! Deve ter ido atrás de outra idiota, que lhe prometera mundos e fundos.
Ela se arrumou, como sempre, para ir ao trabalho no centro da cidade. Somente Elizete, sua amiga e confidente, saberia desta armadilha em que caíra. Também pudera. Encontrou o outro num samba na Gamboa, achou que fosse o príncipe encantado, só porque sabia cantar as canções de Paulinho da Viola de cabo a rabo. Quando o ouviu se esgoelar dizendo que havia sido um rio que lhe passara pela vida, achou que a Portela estivesse entrando na avenida e abriu seu coração para ele. Tal uma passista desavisada das imperfeições da passarela.
O que certo tipo de homem mais gosta é achar uma mulher que saiba lavar e cozinhar, ainda bem à moda antiga. Ela não era bem deste tipo, porém tinha seu apartamento montado em Del Castilho, a vida financeira equilibrada, bom emprego numa repartição pública do estado e o gosto das rodas de samba, dos carnavais e dos passeios frequentes. É dela que ele precisava, para encostar sua malandragem nem tão carioca assim, pois que viera do interior de Minas Gerais, para tentar a vida no Rio de Janeiro.
Assim que começaram a relação, ela gostava de apresentá-lo como noivo – ele com aquela cara lavada na sem-vergonhice, de não se deixar intimidar pelos olhares de desaprovação das amigas mais chegadas. Como noivar com um tipinho deste, pensavam as amigas. Ela fingia não entender tais olhares e tocava o barco adiante, pensando que, um dia, elas se renderiam à sinceridade dele.
No entanto, ele se aboletou com todas as honras na vida dela e servia-lhe de companhia por vários lugares onde o pandeiro batesse, onde houvesse cerveja gelada, onde pudesse beliscar tira-gosto, sem nunca se preocupar em meter a mão no bolso para pagar a conta. Ela o havia transformado quase num potentado árabe. Só lhe faltava o harém!
E chegou o tipo à coragem – se é que tal gesto seja qualquer tipo de coragem – de lhe dizer, via sacola de pão, que não gostava mais dela. É que, já há algum tempo, sua vida não era o alvoroço dos primeiros tempos. Já lhe era cobrado ver o jogo em casa, com cervejinha gelada e petiscos da padaria comprados cedo e requentados no micro-ondas. Isto já lhe andava a dar comichões por dentro. Começou a se sentir cão de guarda de madame. E coleira ele não admitia em nenhuma hipótese.
E, por isso, e por mais outras tantas coisas que se dispensam enumerar, pois que nenhuma alma feminina seria capaz de entender, é que tomou seu rumo, a mala preta arrastada calçada afora, sem deixar rastros. Caiu no mundo, caiu na vida.
Como, nem sempre, as histórias modernas terminam em happy end, esta também teve final quase trágico.
Certa madrugada, saindo ela de mais um roda de samba, acompanhada de novo parceiro, dá de cara com o tipo, bêbado, a roupa em desalinho, barba por fazer, consumindo, num último trago da garrafa, a desesperança de um vida sem solução. Mal ela o reconheceu, ajeitou o cabelo farto, deu o braço ao parceiro e lhe disse:
- Querido, cuidado com esse bêbado aí, que ele pode esbarrar em nós.

Jean Béraud (1849-1935), O café Absinto, 1909 - Museu Carnavalet (comjeitodearte.blogspot.com).

12 de dezembro de 2014

DEUS, NO CÉU; DOUTOR ULISSES, NA TERRA!


Lá pelos fins dos anos cinquenta, em Visconde de Rio Branco, Minas Gerais, o carro de transporte funerário era, na verdade, a carroça de burro do Ventura.

Ventura era um mulato alto, magro, cara de poucos amigos e beberrão. Seu café da manhã começava com uma lapada de cana caprichada. E o dia seguia entre doses e carretos. Quando não havia defunto, ele transportava qualquer tipo de carga, desde esterco de bosta de boi, até pequenas mudanças. Fazia o frete mais barato da cidade.

Minha amiga Cleia Miranda, que me contou esse causo, disse que, naquele tempo, o caixão das almas menos afortunadas consistia numa tábua, sobre a qual se colocava o corpo do morto, com uma armação de ripas cobertas por um tecido roxo tão fino, mas tão fino, que era possível identificar o defunto em seu interior.

- Ah, coitado! Lá vai seu Claudionor!

E lá ia o finado, mãos postas sobre o peito imóvel, a se balançar ao ritmo das irregularidades dos paralelepípedos.

Por essa época, doutor Ulisses era o diretor do hospital. Médico conceituado, era tido por todos como a palavra definitiva sobre a vida dos rio-branquenses. Era como se ninguém lá morresse sem a sua permissão. E, para Ventura, era Deus no céu e o Doutor Ulisses na terra.

Certo dia, Ventura passa pelo médico num dos corredores do hospital e recebe a incumbência de mais um frete.

- Ventura, mais um óbito! O paciente do quarto 106 faleceu. Vá lá pegar o corpo.

A cabeça já movida a algumas doses da mardita, Ventura se engana e entra no quarto errado. Periclitando na corda bamba da vida, já há dias sem comer seu franguinho com quiabo, seu Juquinha, morador do Barreiro, se espanta com a entrada do papa-defunto em seu quarto e tem uma súbita melhora no quadro, só pelo apavoramento com aquela aparição indesejada.

- Que é que ocê tá fazeno aqui, Ventura?

- Vim pegar ocê. Doutor Ulisses disse que é causo de morte.

- Que morte, Ventura? Não tá veno eu aqui vivinho da silva, falano com ocê?

- Ocê tá morto, Juquinha! Quer saber mais que o doutor Ulisses?!

E, não fosse a intervenção da enfermeira-chefe Clotilde, alertada pela discussão entre o papa-defunto e o quase defunto, Juquinha seria rebocado por Ventura, para mais um carreto funéreo. Porque palavra de doutor Ulisses não se discutia. Era Deus no céu; e doutor Ulisses, na terra!


Imagem em notícias.uol.com.br.

9 de dezembro de 2014

CONVERSA DE HOMEM


Jane e eu temos vários amigos gays, de ambos os sexos, se é que me entendem. Pois há algum tempo estávamos na casa de um desses amigos(as), em Miracema, para uma visita e lá estava também um outro amigo comum. Eu e ele – vou-me permitir omitir o nome de todos – ficamos conversando na copa, tomando cerveja, enquanto as que nasceram femininas estavam no quarto vendo o derradeiro capítulo da novela das nove.

Então ele, que de discreto nunca teve nada, pois sempre foi um gay do tipo assumidíssimo, me disse que já havia uns quinze anos que não fazia mais nenhuma das loucuras que se permitira quando mais jovem, dentre elas, inclusive, o consumo de drogas. Com sua voz de contralto, bem de acordo com seu porte físico franzino, cujas pernas se enroscavam uma na outra, me explicou que agora estava todo devotado à religião, permitindo-se apenas beber cerveja moderadamente. Hoje já nem mais álcool consome.

Mostrou-me, então, como se dirigia ao Cristo crucificado na igreja matriz da cidade:

- Jesus, eu te amo muito, e não tenho culpa de o Senhor ter me feito assim uma borboletinha.

Soltei uma sonora gargalhada com a sua sinceridade ao dizer isso, rodando os olhos para o teto, como se tivesse falando naquele instante com o Crucificado.

Minha gargalhada chamou a atenção da Jane, que saiu do quarto e veio saber que tipo de conversa estávamos entabulando. Ele, do alto de sua segurança, respondeu a ela:

- Não se meta, Jane! Isso aqui é conversa de homem!


Imagem em mundodacerveja.com.br.



5 de dezembro de 2014

VIAGENS NA MINHA TERRA (CORDEL DE TURISMO LOW COST)


      Fui andando por aí
      De tudo que é transporte,
      Pra conhecer nossa terra,
      Sem que com o tempo me importe,
      Apenas pra descobrir
      Lugares de sul a norte.
Entretanto tal viagem,
Que não pude planejar,
Revelou algumas coisas
Difíceis de acreditar:
Quase tudo era o contrário
Em relação ao lugar.
Em Bom Jesus dos Perdões,
A vingança é deletéria;
Já lá em Três Corações
Troquei amor por pilhéria;
Em Dourados, Mato Grosso,
Vivi em triste miséria.
E, no outro Mato Grosso,
A terra está devastada;
Em Santo Antônio da Platina,
De prata não havia nada,
E, em Águas de São Pedro,
Sentia sede danada.
Não sei o que fui fazer
Em São João Nepomuceno.
Na Serra do Rola Moça,
Só via velha descendo.
No Paraná, Porto Rico,
Todo mundo está devendo.
No Raso da Catarina,
A solidão é profunda,
E quem sobe Vargem Alta
No lamaceiro se afunda,
E quem vai a Vai-volta
Chega de ré, sai de bunda.
Em Volta Fria, esquenta;
Em Caldas Novas, esfria;
Em Brumadinho, porém,
É sol por todo o dia.
Já em Dores do Indaiá,
O povo esbanja alegria.
Uma neblina escura
Encobria Montes Claros.
Em Curralinho, os bois
São animais muito raros.
Em São José do Hortêncio
Os hortifrútis são caros.
Em Lajeado há lama;
Há malquerença em Querência;
E desatinos sem fim
Nas ruas de Paciência.
Em Perdões, Minas Gerais,
Não encontrei indulgência.
Retornei a Mangue Seco
E deu enchente por lá.
Afogados da Ingazeira
Em tal secura está.
Que o povo vai beber água
No lago Paranoá.
Santana do Livramento
Prendeu um monte de gente;
Já de Espera Feliz,
Fui saindo descontente,
Enquanto em Frei Inocêncio
Prenderam um padre imprudente.
      Até em Baixo Guandu
      As coisas estão por cima.
      Em Catas Altas, por baixo.
      Contrariando a rima,
      Direi: apague esses versos,
      Embora queira que imprima.


Santuário do Caraça, em Catas Altas-MG (foto do autor)

28 de novembro de 2014

OCASO


Por acaso
No ocaso
Quando o sol se puser
Estando o sol posto
E o meu querer
Não mais quiser
É porque já estarei morto
E aí talvez eu viva
Se de fato morto estiver
Nos muitos versos que fiz
Já que viver post-mortem
É um mistério incontrolável
Intangível
Tão inverso ao viver
Até difícil dizer
E não um querer qualquer


Pôr do sol na Baía da Guanabara, com o Corcovado (foto do autor).

25 de novembro de 2014

RECEITAS DE MINHA MÃE


Minha mãe amassa a massa
Com que faz pastéis de sonhos
Beijus que cintilam no céu da boca
Enrola a massa em tranças de Rapunzel
Cristalizadas de açúcar
Com que a vida adoça
Faz pão italiano de redondo feitio caipira
Bolo com gosto de infância
E broa de milho da roça
Mexe o tacho do açúcar mascavo
E na calda fumegante derrama amendoim torrado
Donde saem alegres pés-de-moleque
O pão dormido ela acorda como mironga
E com natas recolhidas por semanas
Misturadas à farinha
Faz pãezinhos indescritíveis que derretem em plena boca

Todas essas receitas traz de cor no coração de mãe
De avó
De bisavó
Não estão anotadas
E por menos que um por elas clame
Estarão prontas

E nenhuma delas jamais desanda


Obra de Johannes Vermeer, Leite fresco, 1658/60 (sv.wikipedia.org).

21 de novembro de 2014

TORDESILHAS


Eu vou tramar Tratado de Tordesilhas
Transpor as ilhas
Romper as trilhas com trinitrotolueno
Botar benzeno nas grutas frias
Nas grotas abruptas
Em que se precipitam rios aflitos
De desconforto pela existência
E vou levar a minha paciência
Aos limites intangíveis do viver
E aceitar o outro e seus defeitos
E seus problemas e seus conceitos
E sua estranha mania de querer
O ser humano é mesmo meu irmão
E não importa o quão estranho isto possa ser.


Amigos em Icaraí (foto do autor).

12 de novembro de 2014

REFLEXÕES CARTESIANO-ACHÍSTICAS ACERCA DA VIDA

1. INVEJA/INVEJOSOS: Pressupor que a inveja incomode mais o invejoso do que o invejado é um grande equívoco. Este, o invejado, passa parte de sua vida envolvido em mandingas, rezas, fechamentos de corpo, descarregos, banhos de proteção, uso de arruda atrás da orelha, espada-de-são-jorge e comigo-ninguém-pode na porta de casa. Já o invejoso apenas exerce seu direito à inveja. E quem quiser é que se proteja!

2. ECONOMISTAS/PROFETAS: Economistas e profetas exercem profissões semelhantes: fazem prospecção de futuro negro para os povos. Os profetas ainda podem anunciar alguma salvação à frente, como ocorreu no Velho Testamento. Contudo os economistas modernos só apontam um horizonte de desgraças. E nisto, fundamentalmente, eles acabam por não se parecer tanto quanto parece (Uma incongruência, pois não?). Embora eu, particularmente, não acredite em nenhum dos dois.

3. UNHAS/UNHEIROS: Tenho visto crescer, nestes últimos tempos, um afeto quase exagerado por parte das mulheres por suas unhas e pelas unhas mais bem pintadas de suas desafetas, isto é, as outras mulheres. O que causa sérios problemas psicológicos femininos. Proliferam na Internet sites, blogs e postagens a respeito do sem número de invenções modernas, para tornar as unhas mais importantes que os dedos, de tal forma exageradas tais invenções que vão acabar produzindo uma epidemia de unheiro. Depois não digam que não avisei.

4. CORRUPTOS/CONSCIÊNCIA: Há uma crença popular generalizada, criada pela elite corrupta e imposta ao povo como amortecedores eletrônicos, de que o pobre e/ou o honesto deitam a cabeça à noite em seu travesseiro e dormem o sono dos anjos, dos justos e dos inocentes. Já os safados, os corruptos e os larápios de toda gama – diz esta mesma crença – não têm sossego nem na hora do sono. E mais: não teriam coragem de olhar nos olhos dos filhos. Grande mentira! Os honestos é que não dormem tranquilos. Os safados têm a consciência petrificada e estão-se lixando para o que os outros pensem. E olham nos olhos do filho como canalhas que são, capazes até de inocular nos miúdos o veneno de sua canalhice. Ou não seriam canalhas. Se tivessem um pouquinho de consciência ética, seriam honestos.

5. CRIME SEM CASTIGO: Quanto mais a Polícia Federal e o Ministério Público investigam, tanto mais corruptos e criminosos se encontram. Parece aquela velha história do interior que diz que não se deve mexer em bosta de boi, pois quanto mais se mexe, mais fede. O mais interessante é que nossos conterrâneos não esquentam a cabeça com o fato e continuam fazendo as mesmas trapalhadas e falcatruas de sempre. A recente publicação do relatório sobre a violência no país traz dados alarmantes. O brasileiro, na verdade, não desiste nunca.

6. LADY GAGA/MADONA: Não sei qual é uma, qual é outra. Embora ache as duas um tanto teteias. De Madona tenho guardada a sete chaves a revista em que mostrou ao mundo a abundância de seus pelos pubianos em fotos P&B, no auge da sua juventude, antes mesmo de ser a diva do pop. Dessa eu me lembro bem. Porém quando vejo Lady Gaga cantando – acho que porque estou ficando gagá – me confundo e acho que seja Madona. Aí, ao aparecer Madona, acho que é Lady Gaga. Por isso é que sempre presto muita atenção à performance erótico-musical de ambas. Estou aposentado, sem fazer nada mesmo, não me custa ficar olhando.


Lady Gaga, com o peito caído da Madona (en.wikipedia.org).


3 de novembro de 2014

DESTA JANELA

Desta janela
Aberta sobre o nada
Entrevejo a lua num céu de lata enferrujada
Entre prateadas nuvens distraídas
Salpicado de estrelas decadentes

Ao lado dela
Uma estrela amarela
Que parece tê-la como afilhada
Pois que confia a ela seus segredos de madrugada
Imersos em plangentes serenatas

Pode ser que seja Vênus desnudada
Tal estrela
Ou Marte tremeluzente
Júpiter apaziguado?
Ou mesmo quem sabe
Uma espaçonave abandonada
No estacionamento do céu onipresente
Na rota de serestas inexistentes
A iludir minha imaginação alucinada

Van Gogh, A noite estrelada, 1889 (em wikipedia.org.).

26 de outubro de 2014

RESTO DE CANÇÃO


Em comum, Miguelzinho e cabo Astolfo tinham somente uma paixão lúbrica pela mulher de Rolando, que, ao contrário do personagem famoso, não era de briga e, muito menos, furioso. Aliás, era até manso demais. Mas isto não vem ao caso agora.
O que interessa, na verdade, é que os dois não se cruzavam, não se entendiam, fora o gosto pela mulher do dono do bar.
Miguelzinho, boêmio inveterado, olhos injetados de conhaque de mel, vivia de violão pelas noites, vagando de janela em janela, cantando amores e dores de cotovelo.
Cabo Astolfo, estranhamente a voz mais fina que já se ouviu num homem, que dirá numa autoridade de farda, chefe do destacamento local, tinha o mau hábito de andar farejando crimes e criminosos numa terra onde, antes de matar uma galinha para o ajantarado de domingo, as pessoas pediam perdão a Deus.
A mulher de Rolando, uma moreninha mestiça, só podia sofrer de furor uterino, vez que deixava derreados, cada um no seu tempo, o marido corno, o boêmio seresteiro e o cabo fala fino. Todos eles muito felizes, muito bem satisfeitos! Dos três, no entanto, apenas o marido não sabia dos outros dois, mas isto também não interessa à história.
Por isso é que Miguelzinho e o cabo Astolfo se olhavam de soslaio, sem nunca se encarar, nem trocar palavra. Mas, frequentemente, estavam no bar, um bebendo conhaque, o outro tomando cafezinho, matando o tempo no pano verde da sinuca, no jogo da vida, ou em conversas fiadas.
Numa noite de chuva, o bar apinhado, Miguelzinho, já com conhaque até a medula dos ossos, afinou a voz e falou, imitando o desafeto:
- Pinto de soldado sobe mesmo ou é apenas soldado?
A resposta veio imediata no estrondo de dois balaços trinta e oito, que arrebentaram a boca do cantor. Os demais fregueses, imobilizados pela cena, não se atreveram a deter o homem da lei, que, absolvido posteriormente, mereceu todas as promoções que um meganha podia ter.

Miguelzinho, no entanto, quando foi socorrido no hospital da sede do município, era apenas um resto de canção, uma página virada do cancioneiro popular brasileiro, mero fragmento de um setenta e oito rotações inaudível.

Geri Garcia, Assassinato em Granada, 1936 (ardotempo.blogs.sapo.pt).

21 de outubro de 2014

POEMA DE INVERNO


O frio entra pela greta da porta
(no meu idioleto fresta é palavra de poeta)
E traz o ar gelado lá de fora

Aqui dentro é hora de um conhaque potente
Para espantar o frio que está na alma
Enquanto tecemos conversas sem ponto

Pode ser que solucionemos nossas dores
Antes do fim do trago
Não importa

Por isso é que durante o frio
Se não saio para a rua
A experimentar o ar gelado que do mar aporta
É porque estou cogitando de coisas
Que no calor nunca me ocorrem

Mas não vedo a porta
É preciso estar assim disposto a tal incômodo
Que um gole de conhaque reconforta

Araucárias de Campos do Jordão (foto do autor).

17 de outubro de 2014

MINHA TERRA


Minha terra
Também como um antigo quadro
Está pregada
Na parede interna do meu coração distraído
Obstruindo coronárias alteradas
Tal Itabira na memória do poeta
Só que no meu caso
Com prego galeota
Daqueles de pregar pranchas
Em velhas pontes de madeira
Sobre os valões cristalinos no meio do mato
De modo tão profundo quanto o de Carlos
Apenas Carabuçu não dói
E a ferrugem inexorável do tempo
Os pregos não corrói
Mas volta e meia
Como se dizia outrora
Uma lágrima furtiva
Escorre dos meus olhos
E seca célere tão logo aflora

Igreja de Santo Antônio, Carabuçu-RJ (foto do autor).

13 de outubro de 2014

TERNO MARROM


Esta história se deu na Paróquia do Senhor Bom Jesus, na cidade de Bom Jesus do Itabapoana, nos anos tais, com as pessoas quais, cujos nomes alterei, que não estou aqui para ser processado por calúnia, injúria e difamação. Mas é tão verídica, quanto qualquer outra que já contei ou posso vir a contar, para fazer a crônica da minha cidade natal. Para o bem ou para o mal.
Zé de Lina é corno. Lina é a que o fez ser corno. Mas ele se conforma: não leva para o lado da ofensa pessoal o comportamento deletério da mulher. É corno sem vergonha naquela cara estanhada, bexiguenta, de homem desmoralizado. Lina não chega a ser essa belezura toda. Mas tem ancas largas, cabelo preto comprido penteado em grossa trança, que desce até a vertente da popa. E uns seios estofados de fazer platibanda sobre a barriga já um tanto redonda. E não se esconde atrás de nenhuma dessas posturas falsas, fingindo-se dona de virtudes peregrinas, como estampa sempre A Voz do Povo, o jornal local, ao se referir às damas da sociedade. Conta para as vizinhas suas reinações e a bonomia de Zé, que a tudo assiste impávido, como convém a um corno conformado. Ele não desconfia, mas é a vergonha da rua do cemitério, onde mora. Todos ali sabem de sua condição vexaminosa. E ele continua a jogar sua sinuca e a tomar sua cerveja com os parceiros, com a mesma cara como se fosse o mais amado dos maridos das senhoras de respeito.
Dentre os casos de que detinha a posse, Lina tinha certa predileção por Zinho Mateus e seus mimos. Homem de muitos alqueires de terra e de centenas de cabeças de gado, conduzia seu caso com Lina nas mesas dos bares por onde ia bebericar nas noites de calor, com os amigos parecidos com ele. Na cidade pequena, boa parte da população conhecia a história.
Zé sabia de Zinho, que pensava que o corno fosse inocente. E Zinho tinha até alguma comiseração pelo papel do marido, sem desconfiar de que o sujeito era de caráter mais frouxo que precata velha.
Certo dia, Zinho vinha chegando sem se dar conta de que Lina não pusera na janela da esquina a toalha vermelha, indicativa da ausência do marido. E foi contando os passos quintal adentro, ultrapassando o portão de madeira, que fechou com um golpe seco no trinco de ferro. Até o cachorro de Zé tinha o amante como pessoa das intimidades da casa.
Lina, pega então de surpresa, disse apreensiva para o marido que o amante estava chegando de supetão. Sem tempo para se escafeder dali e deixar o pasto livre para o cavalo pastar, Lino se atirou sob a cama do casal, já que o armário era acanhado demais para sua pessoa.
Com a sem-cerimônia dos amantes estabelecidos, Zinho foi entrando, enquanto Lina corria a se preparar para os embates que se anunciavam, como de hábito. O homem senta-se à beira da cama e começa a tirar as botinas, enquanto fala algo até então impensável para ela:
- Lina, ando com pena do Zé, coitado! Estou botando chifre nele há tanto tempo, que isso já está me deixando com remorso. Estou até pensando em comprar um corte de linho azul e dar de presente para ele mandar fazer um terno novo. Até pago o feitio para ele lá no Branco Alfaiate.
Embaixo da cama, Zé ouve a ponderação daquele que lhe aplica os chifres sobre a cabeça, futuca a mulher, já deitada ao lado com as lingeries do dia, e lhe diz baixinho para não ser ouvido:

- Pede marrom, que azul eu já tenho.

Imagem em mercadolivre.com.br.