30 de agosto de 2014

AMARRANDO OS SAPATOS

Van Gogh, O par de sapatos (em pensaacabeca.blogspot.com).

Vivia na guaxa, na zona do meretrício, na margem direita do rio. Tinha até amante. Toda noite passava por lá para molhar o ganso. A mulher mesmo, a esposa de papel passado, mãe dos filhos, já não prestava para nada: gorda como porca cevada. Servia, isso sim, para brigar com ele, aporrinhar seu juízo e, vez ou outra, descer-lhe aquele braço balofo no meio da cara.

Também pudera: ele pequeno, magrelo, minguado e, sobretudo, homem de muita paz, diga-se de passagem! A não ser que tivesse de dar, salvo melhor juízo, data venia, um tiro nela. Isto, nem pensar! Assim, era melhor mesmo, de vez em quando, levar uns cacetes. Tinha lá também suas compensações.

Por causa desta vida de zona, com amante e tudo, fora exonerado do cargo de promotor de justiça ad hoc da comarca. Muito desclassificante tal comportamento em comarca do interior norte do estado. Está bem, conformou-se! Sua banca de advogado dava para o sustento da casa e da vida desregrada, o que era coisa passada em julgado.

A esposa, no entanto, nem sonhava com suas peripécias. Por isso é que, numa manhãzinha de segunda-feira, após uma noitada de esbórnia, estava ele chegando a casa com todo o cuidado para não acordá-la. Sutil como gato, sentou-se na cama, com o indefectível terno, e começou a desamarrar os sapatos.

Um movimento um tanto mais brusco, no entanto, acordou a mulher, que de imediato queria saber o que estava acontecendo. Ele, para não começar a semana levando safanões e contravapores, voltou a amarrar os sapatos, dizendo que tinha assunto urgente para tratar com cliente no Arraial dos Cabritos, no Arrebenta Rabicho, em Sacramento, sei lá.

Ajeitou o nó da gravata, passou a mão no paletó tresnoitado e saiu pela Praça Governador Portela, passo apressado, os olhos ardendo como brasa, sem direito de tirar um ronquinho em sua própria cama, em sua própria casa. E ia ter de tomar o café da manhã no bar do Salim, seu patrício.

Que ele podia ser tudo na vida, menos bobo!


26 de agosto de 2014

SEMPRE UMA NOVIDADE


Seu Fulano estava de saída para a banca de jornal, quando a mulher lhe pede que compre o remédio para o exame que iria fazer.
Quando se chega à idade dos estragos, há um sem número de exames a se fazerem. Aquele, especificamente, era do tipo desastroso: colonoscopia. O leitor mais jovem, com toda a certeza, nunca ouviu falar disso. O que é até razoável. Mas, depois que o Cabo da Boa Esperança é ultrapassado, as invasões corpóreas se dão de norte a sul: examina-se o estômago, por cima; e os intestinos, por baixo. Este é a colonoscopia. A palavra, se meu caro leitor tiver passado por aulas de etimologia, há de ser conhecida. Se não, não me custa dizer: visão do cólon. Quer dizer, é coisa de se introduzir um tipo de mangueira, com uma câmara na extremidade, naquilo que Mussum outrora chamava de forévis, para a prospecção do pré-sal, se é que me entendem. Só de pensar, é de dar arrepios a frade de pedra, aquele lá do Espírito Santo.
Por isso é que, para que a visão intestina não tenha atrapalhos, se faz necessário limpar as tripas de todo tipo de detrito. Então, a recomendação dela para que Seu Fulano trouxesse o laxante, o destranca tripa. Leu ele lá no papel com as indicações do laboratório e verificou: Ducolax ou Lacto-Purga.
- Querida, vou trazer Lacto-Purga.
- Ah, não! Traga outro! Esse, não!
- Por que não esse que já conhecemos?
- É que quero variar um pouco. Não gosto de ficar repetindo coisas.
Ah! a mulher e sua incontrolável mania de novidades!
O marido achou estranho. Que ela quisesse um novo sapato, uma bolsa diferente, um vestido de corte moderno, tudo bem! São novidades previstas no cardápio do estilo feminino de ser. Mas, diabos, querer novidades em laxante intestinal aí já chega às raias da insensatez.
E tentou ponderar com ela que nem sempre é preciso estar inovando, procurando ser diferente. Ela não iria a um desfile de cagonas, onde certamente diria dos benefícios de um novo remédio, da dinâmica da sua ação e das consequências daí advindas. Iria, bolas, apenas desobstruir os intestinos, para que o médico pudesse verificar se não haveria novidades indesejadas lá dentro. Nada além disso, pombas! Até lhe falou, todo cheio de dedos – há sempre de se ter muito tato com o espírito feminino –, do acerto dessa preocupação dela em estar sempre descobrindo coisas novas, para apresentar nas conversas com as amigas. Mas, para tudo, há um limite. Não seria necessário que um simples remédio para provocar caganeira fosse motivo para seu desejo novidadeiro.
Depois de alguns minutos de idas e vindas de argumentos, a mulher cedeu, sob certos protestos, mas resolveu não inovar no remédio desta vez. Ele havia ganhado a batalha do piriri programado. Foi à farmácia e voltou com o bendito Lacto-Purga.

Imagem em agenciailumina.spaceblog.com.br.

21 de agosto de 2014

PEDALANDO POR UM REFRIGERANTE

(Para meu irmão Gutenberg.)


Estamos pedalando pela estrada de chão batido, seco de um verão medonho, e pensando no refrigerante que iremos beber, assim que estivermos de volta.

Às vezes, meu pai nos mandava ir a Apiacá, no Espírito Santo, para comprar peças para suas bicicletas, que ele mesmo gostava de consertar, reconsertar, arrumar, rearrumar, como um exercício monástico para sobreviver na pachorra da nossa vila. Não havia muita coisa que fazer lá. Ele tinha uma pequena venda de secos-e-molhados, como se dizia, na esquina da rua principal, e passava boa parte do tempo, atrás do balcão, olhando a falta de movimento que era o mote comum da vida. Também gostava de pescar no Rio Itabapoana, divisa natural entre o Rio de Janeiro e o território capixaba. E se utilizava sempre da bicicleta inglesa Humber, seu xodó maior, para chegar até seus pesqueiros prediletos.

E nos mandava – a mim e a meu irmão mais novo, Gute – à vila do outro lado do rio, para comprar a relação de peças, escrita num papelucho qualquer: cônicos, esferas, lonas para o freio, raios das rodas, câmaras de ar.

Gostávamos da aventura que demandava pedaladas vigorosas pelos quase dez quilômetros de poeira, numa estrada quase sem veículos motorizados. Era frequente não encontrar com nenhum automóvel durante o trajeto. E o único obstáculo que se apresentava, logo à saída de Carabuçu, abstraído o sol escaldante, era o Morro do Marta, com seu chão de saibro e seu aclive acentuado, que não nos permitia vencê-lo sem que nos desapeássemos das magrelas, então empurradas morro acima.

Contudo, sempre que papai nos dava tal missão, a exigência que fazíamos – se é que se pudesse chamar exigência a um pedido candente – era que nos desse dinheiro para um Crush ou um Grapette na venda do seu Jáder, ainda do lado fluminense, quase na boca da ponte, antes da travessia do rio por uma aparentemente comprida ponte de madeira. Anos depois, passando de automóvel sobre ela, é que descobri que nem tão comprida assim é ela.

Posso dizer mesmo que a maior recompensa pelo serviço, a que não podíamos fugir, era aquele momento de frescor que nos descia garganta abaixo, em generosos goles, sob a árvore gigantesca que sombreava quase toda a encruzilhada e boa parte da venda. Talvez eu nunca tenha provado um sabor tão inesquecível.

Por isso é que, mais esta vez, meu irmão e eu estivéssemos ansiosos por cumprir logo a missão dada: chegar rápido a Apiacá, comprar a encomenda e voltar de carreira até a venda do seu Jáder. O roteiro era meu pai quem traçava, e dele não escapávamos. No entanto, só nós desfrutávamos deste prazer.

Seu Jáder era um homem alto, magro, óculos de aro redondo, sempre de suspensório, que me parecia muito elegante e educado. Morava por ali mesmo, numa casa alta, com alpendre na frente. A venda, imóvel apartado da casa, era uma construção baixa, de fachada larga, como as boas vendas de beira de estrada do interior, com seu sortimento de tudo de que o povo das redondezas necessitava. Sob a sombra da árvore, ela se mantinha fresca para o verão que abrasava lá fora. Seu Jáder tinha refrigerador largo, daqueles bem antigos, para suas bebidas. Com frequência, contudo, por essa época, os comerciantes que vendiam bebidas usavam colocá-las num buraco na terra, que enchiam com sal grosso e serragem. Aí parecia que ficavam geladas. Pelo mesmo, era a sensação que tínhamos. E o Crush e o Grapette geladinhos do seu Jáder eram um alívio para nossa sede.

Por isso é que eu e meu irmão gostávamos tanto deste momento. Como meninos pobres, não tínhamos o hábito de tomar refrigerantes. E aquela viagem era a oportunidade para que saciássemos uma vontade infantil tão barata e corriqueira, mas que impregnou na nossa memória como uma placa de gelo eterno. 

Antiga garrafa de Crush (imagem em produto.mercadolivre.com.br).

14 de agosto de 2014

INVERNO


Estou aqui me lembrando, sob este frio de 13°C em Niterói, de certo inverno infantil lá na minha vilazinha de Carabuçu, quando ouvi meu pai dizendo que o termômetro marcava apenas oito graus. Não me dei conta de que isto era muito frio. Criança não leva essas coisas em consideração. Isto é preocupação de adulto.

Papai, por exemplo, era um dos poucos a se importar com o tempo, dentre os amigos, e possuía este aparelhozinho que consultava sempre. Na verdade, nunca soube que em sua casa faltasse um. Ainda hoje – ele já falecido – está um termômetro pendurado no portal da porta da cozinha, a indicar a temperatura ambiente. Além disso, ele assuntava os céus para responder se choveria ou não naquele dia, sempre que alguém tinha de sair. E me lembro do tipo de resposta que gostava de dar, caso vislumbrasse água caindo das nuvens:

- Se não quiser se molhar, é melhor levar o guarda-chuva.

E era sempre confiável sua previsão de tempo, que mamãe, debochadamente, chamava de “mete o olho na orgia do Argemiro”.

Por aquele tempo, contudo, era comum termos frio bravo no inverno em Carabuçu. Até mesmo depois de já casado, pai de filhos, e de volta para uma festa da vila, durante um fim de semana de julho, experimentei tal frio, que os músculos das pernas tremiam desordenadamente, motivo por que fui me esconder em casa, naquela noite. Meu primo, com quem conversava, ainda insistiu para que ficasse mais um pouco. Mas, sem um bom conhaque, aquilo era tarefa para escandinavos.


A tal friaca que nos era comum deixou em minha memória uma cena que diria quase épica: os cavaleiros e suas compridas capas gaúchas, que sempre sonhei usar, mas que nunca encontrei por aí. E também já não há o frio para que se as usem.

Por várias vezes, eu os via cruzar a vila conduzindo bois, ou até mesmo depois dessa lida, voltando para seu pouso, imponentes sobre os cavalos, com seus chapéus de feltro de aba larga, copa baixa, o barbicacho sob o queixo, e a capa estendida do pescoço até abaixo do estribo, estendida sobre a anca do animal, de modo solene, quase clerical. Às vezes, sob uma chuva miúda e persistente, eles passavam – cavalos em marcha batida a criar uma melodia ente as ferraduras e as pedras da rua – como se fossem heróis de uma epopeia cabocla, simplória, mas cheia de significados grandiosos para minha mente de menino.

Em certas ocasiões, tais cenas se davam num cenário acinzentado, sob um céu pesado a encrespar o alto dos morros que circundam a vila. Alguns desses homens vinham com um brasa de cigarro queimando sob a aba do chapéu, a fumaça se confundindo com a cor cinérea do dia.

Diante disso, eu sabia que fazia frio. E não me lembro de nada mais relacionado ao inverno dos meus tempos de criança. A vila sempre foi, para mim, um misto de sol quente e chuvas torrenciais no verão. Nunca vi suas flores primaveris, nem suas folhas caindo no outono, ou as pessoas batendo o queixo entre junho e agosto. É que, no período mais frio do inverno, as fogueiras de São João esquentavam nossos corações despreocupados.


Imagem em amazonascountryclube.blogspot.com,br.

5 de agosto de 2014

PENSAMENTOS BEM PENSADOS REQUENTADOS


Como ando assoberbado de coisas por não fazer, falta-me tempo hábil para engendrar alguma coisa neste meu cérebro nervoso (Quem é da minha geração identificará o samba-canção de onde plagiei isto, certamente.). Assim vejo-me na contingência de lançar mão de alguns pensamentos bem pensados, já publicados em Gritos&Bochichos, porém inéditos aqui. Não são brilhantes que mereçam ser repetidos. Contudo, como dizem que não há piada velha, mas público novo, espero que eles ainda não tenham sido lidos pelos leitores que me honram com sua vista d’olhos sobre minhas bobagens.

Vamos a eles!

1. Não que eu tenha implicância com o ornitorrinco, porém até o nome do bicho é esquisito.

2. Chama-se de gaviões da fiel um bando de corintianos tarados que ficam de olho na honesta mulher do vizinho palmeirense.

3. Um dia é da cabritada; o outro, da buchada de bode.

4. Incongruências do reino animal: perua que solta a franga arrisca a desencaminhar a periquita.

5. O primeiro resultado prático do máximo divisor comum se deu quando Cristo dividiu um peixe e um pão com cinco mil seguidores. Depois disso, tal cálculo jamais funcionou muito bem.

6. Na Praça dos Três Poderes manda quem pode e obedece quem não tem nenhum poder.

7. A situação anda tão esquisita, que gavião real está aceitando emprego de urubu.

8. Adaptação da lei física: a toda ação corresponde uma réplica, uma tréplica e um sem-número de recursos protelatórios, que chegam até ao STF.

9. Nem cavalo marinho dá coice, nem pangaré respira embaixo d'água. Portanto, cada um na sua!


10. Diz a Bíblia que, "no princípio, era o verbo". Depois vieram as outras classes gramaticais e, consequentemente, os gramáticos. A partir daí, as coisas só se complicaram.

Imagem em fmanha.com.br.