24 de outubro de 2015

NAU SEM RUMO


Não faço planos
Não vou cumprir nenhum deles

Vivo os anos
Os meses
As semanas
Ao sabor dos desenganos

Porém há dias em que me iludo
E traço metas
Estabeleço objetivos
Que não se completam
Não se cumprem
E me engano

Vivo aos trancos e barrancos
Como um barco frágil ao sabor do vento
Por entre as vagas traiçoeiras do oceano

E se acaso o cais se vislumbrar ao fim da lida
Recolho a vela
Lanço âncora
E como um velho marujo enrijecido pelos danos
Vou sorver um vinho alegre numa velha taberna conhecida

Théodore Géricault, A balsa da medusa, 1818-1819, Museu do Louvre (em pt.wikipedia.org). 

19 de outubro de 2015

NA CASA MATERNA

Sobre a mesa posta para o café da tarde
O sol entra num átimo
Por uma fresta de outono na claraboia de vidro
E banha com sua luz oblíqua
O pão o queijo a chávena
Compondo um quadro delicado
À Johannes Vermeer.
Como não pinto
Registro apenas
Com a câmara digital
Aquela cena
Mas a minha memória grava a fogo
Este momento sutil na simples casa materna.


Foto do autor.

15 de outubro de 2015

AS JABUTICABAS VÃO ABUNDAR NOS PÉS


Tenha juízo
Tome tento
Afrouxe este desalento
Com chave de fenda
Aos poucos
Sua vida não precisa ser aberta às escâncaras
Como um ataúde em que repousa um morto

Pegue leve
Evite o sufoco
E a correria que nos deixa tontos
Há muita coisa ainda a se viver
E é possível que o fôlego
Acabe numa curva qualquer

Sinta o vento que sopra manso
Cuidado com os vendavais de outono
Esteja certo
De que neste ano
As jabuticabas vão abundar nos pés


Imagem em youtube.com.

9 de outubro de 2015

DEIXE QUE O AMOR O AME


Deixe que o amor o ame
E não reclame
Não diga imprecações pela janela do sótão
Simplesmente deixe que o amor
Reclame a parte que lhe toca em sua vida
E saia da toca em que se esconde
Faça por onde
Redija um ofício à moça dos seus sonhos
Faça um requerimento àquela que o tresnoita
Siga o que o improvável lhe sugere
E não bata em retirada
O amor é assim mesmo
Um nada ao acaso num oceano de lágrimas
Que pode um dia achá-lo no buraco
E convertê-lo em casquinhas de prazer
Um coisa tão à toa
Mas que pode fazê-lo se perder

Deixe que o amor o ame
E depois não haverá mais do que reclamar

Rolinhas (foto do autor).

5 de outubro de 2015

SONHAR NÃO CUSTA NADA

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.)

Houve um tempo em nossas vidas – para aqueles que têm, por exemplo, a minha idade – em que era quase impossível pensar egoisticamente.

Em minha concepção, não haveria lugar para a felicidade pessoal. Antes, ela deveria passar pela felicidade geral de todos. De todos os que estávamos do lado de cá. Já que os que estavam do lado de lá – a minoria com as armas na mão – ditavam as regras que deveríamos seguir.

Não peguei em armas contra eles. Não cheguei a este extremo, como alguns companheiros de então. Talvez não tivesse este espírito. Esta disposição. Ou esta coragem.

Sempre achei que se pudesse combater com outro tipo de arma, que não fosse mortal ao corpo, mas sim ao pensamento.

No entanto, vivi o mesmo desespero de milhões de brasileiros que se submetiam a um regime injusto. E fiz do meu papel de professor, durante vinte e três anos, não só um mero passador de informações e conhecimentos, mas, principalmente, de um despertador de consciências.

Pessoalmente nunca fui infeliz. Não fui dotado pela natureza de pessimismo. E jamais tive ódios pessoais, bem como inimigos. Minha natureza não foi feita para isto.

Posso ter sido preguiçoso, mas nunca vacilei entre o que me parecia ético e o antiético. E, sobretudo, o respeito pelo outro. Postura que tenho até hoje e passei para meus filhos.

Se, em determinado tempo de minha vida, perdi a fé – esta coisa que nada tem a ver com erudição ou cultura, mas está em outro patamar –, assim mesmo, nunca abdiquei de princípios. O ser humano é a medida de todas as coisas, para mim. Apesar de todas as suas fraquezas e erros. Mas fora do homem não há solução. Nada se salvará.

E, se nós somos os culpados por todas as desgraças, todas as misérias e injustiças que há, sem nós não haverá salvação possível. Embora sejamos os lobos de nós mesmos, teremos de aprender a ser solidários e fraternos, antes que a natureza varra da face da terra a nossa existência.

E, então, a felicidade será uma verdade social e não apenas um valor individual que se possa esfregar na cara de nosso semelhante.

E a miséria, a fome, o desamparo e a injustiça serão alguma coisa vaga na memória dos mais velhos, dos mais antigos. As futuras gerações só saberão disto, ao lerem nos manuais escolares, como coisa do passado.

É com isto que eu sonho!

Valquíria Barros, Trabalhadores do café (em anuncios.adclass.com.br).