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28 de julho de 2019

O TEMPO


Você espera que o tempo passe diante de si
Sem se importar se irá com ele ou não
Ignora o tempo
E vive cada dia da vida como uma repetição
Os mesmos dias as mesmas coisas de sempre

O tempo se vai
E você fica sentado à varanda
Olhando o escorrer da vida
Como se observasse a água mansa daquele córrego tranquilo
A rumorejar cantiga dolente
Sob a paineira solene
No fundo do quintal

O turbilhão que não pressente
Dará seu jeito
Imprimirá seu ritmo
E quando você notar
Infelizmente
Já estará com a quilha do barco apontada para o poente

Assim
Não mais que de repente
Como diria aquele poeta distante do tempo presente

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Gustave Doré, ilustração para a Divina Comédia (A barca de Caronte).

11 de maio de 2019

O QUE POSSO, O QUE NÃO POSSO


O que posso
Faço
O que não posso
Passo
E passo a passo
Vou no embaraço da vida
Desfazendo os laços
Daquilo que me intriga

E se não houver saída
Simplesmente torço
Para que todo o esforço
Que tenha despendido em vão
Me deixe lasso
Sobre o torso morno
Aconchegado fofo
Da mulher amada
No limiar do nada
Enquanto eu possa
Sobreviver da ilusão
De ter vivido um pouco



Resultado de imagem para la maja desnuda goya
Francisco Goya, A maja nua (séc. XVIII; Museu do Prado, Madri).

19 de dezembro de 2018

UM DIA


Um dia
O céu cairá sobre minha cabeça
Com o peso de suas estrelas
Alguns meteoros
Certos planetas
E eu
Sobejo por tantos anos de espera
Estarei tranquilo
Como se fosse possível
Ao empreender a última partida
Ter o bilhete roto na mão fendida
Entre o balaústre do trem
E a plataforma da vida



Foto do autor.

13 de novembro de 2018

CADEIRA NA CALÇADA


Pode entrar
A casa é sua
Vamos colocar as cadeiras na calçada
Em frente à rua
Vamos conversar até as horas
Enquanto a lua passeia no céu estrelado
Vamos deixar de lado
As preocupações que temos tido
Vamos falar dos tempos idos
Das coisas findas
Dos amores esgarçados pela lida
Pegue a sua cadeira
Ponha do lado de fora da porta
Depois entraremos para um café fresquinho
Os dias andam muito esbaforidos
E não nos interessa esperar a morte
Deste lado de cá
Jogando com a sorte de ela não chegar
Vamos conversar sob a lua alta no céu de maio
Contando estrelas cadentes
Enquanto as crianças brincam de pique-esconde
Até não sei quando
Até não sei onde

Ponha sua cadeira na calçada ao lado da minha
E vamos voltar no tempo enquanto ainda há tempo


Imagem relacionada
Almeida Júnior, Leitura, 1892, Pinacoteca do Estado de São Paulo (em acervodigital.unesp.br).

17 de outubro de 2018

ENQUANTO O ARTISTA ENVELHECE


Enquanto o artista envelhece
Sua obra
E mais aquilo que tece
Com linhas sons cores palavras volumes etc
Parecem permanecer no limbo
Das coisas que nunca envelhecem.
Ou teria a Mona Lisa a idade das bromélias?
Ou a Vitória de Samotrácia aparentar-se caquética
Como se vinda houvesse dos velhos tempos da Grécia?
A Chacona de Bach
A Sinfonia Patética
Os Lusíadas de Camões
Os magos contos da Pérsia
A saga de Gilgamesh?
Quem é que há de datar
A obra que o artista trama
Pensando só no presente?
E o artista envelhece
Suas mãos seus dedos suas ideias seus sonhos
Vão as poucos perdendo a força
Enquanto suas obras
Parece que se fortalecem
Enquanto o artista envelhece.

Vitória de Samotrácia, autor desconhecido; Museu do Louvre (em wikipedia.org).

4 de setembro de 2018

O CAPITÃO E SEUS MARES BRAVIOS

(À memória de meu pai.)

Viajar
Romper estradas
Varar mares e oceanos
Desfraldar velas
Desbravar continentes
Do quarto à sala
Da sala à cozinha
Da cozinha ao quintal
Onde à tardinha sentar-se à cadeira
O tronco desnudo
A bermuda folgada
Os chinelos velhos
E sentir a brisa da tarde
O voo das aves em busca do pouso noturno
Assuntar o tempo prever a chuva
Pelo movimento das nuvens no alto do céu
Ou estar à varanda perscrutando o bulício da rua
O vaivém de gente bicho e viatura
Adentrar a casa
Sorver o café com leite bem açucarado
Tomar a solda
Tornar à sala
Ir para o quarto
E assim viajar por todo o lado
Da casa simples que habita

Eis meu pai ainda em vida
Toda ela passada por um fio
O capitão e seus mares bravios.

Veleiro na Baía de Guanabara (foto do autor).


24 de julho de 2018

ENQUANTO OUÇO AS NOTÍCIAS


Jane está lá dentro
Vasculhando o computador.
Na sala
Acompanho o noticiário na tevê
Enquanto bebo conhaque para espantar o frio.
Ou antes
Bebo conhaque
Enquanto assisto ao noticiário na tevê
Recheado de péssimas notícias.
Dedilho este texto
Ao mesmo tempo em que tudo acontece no mundo
- Apesar de nós
Malgrado nossas expectativas –
A uma velocidade estonteante
Como na canção do Caetano.
Não tenho planos para amanhã
Muito menos para o futuro.
Apenas espero que a estupidez humana
Produza tão boas notícias
Quanto o conhaque que bebo
E sóbrio
Eu possa ter a certeza de que no mais
Não destruiremos a vida em nome de bobagens ilusórias.

Samuel e Thales combinando brincadeiras (foto do autor).





24 de junho de 2018

NOITE ANTIGA

na noite antiga da venda de meu pai
em volta do vidro de pé de moleque
caçadores pescadores trabalhadores rurais
criadores de passarinhos
contam causos caçoam uns dos outros
conversam conversam conversam
o menino ali está bebendo cada anedota
surpreendendo-se a cada história
do domingos peçanha
do joão dutra
do azamor
do aristides lugão
do joão coleto
do antônio/pedro/tião romualdo
do alcino carroceiro
do china
do alcides almeida
do ferreirinha
do todinho
do aristóbulo
do zé carola
do dico hilário
e de tanta gente mais que não cabe
naquela pequena venda
senão na minha memória
na minha teimosa memória de bicho do mato






Casa em ruínas, em São Domingos, Niterói-RJ (foto do autor).

24 de maio de 2018

POEMA SEM FACES


Nas noites de frio
Haja ou não lua no céu
Tomo um cálice de conhaque
Para ver se comovido
Bebo os versos do poeta.
E me distancio sempre
À medida que sorvo os goles.
Não vejo a face da poesia.
Apenas tento compor alguma coisa em desalento
E para isto me bastam
A vontade e o tempo.
Se é poesia o que nasce
Nesses momentos
Bem não sei.
Talvez apenas e tão-somente
Um poema sem faces.

Patos (foto do autor).


18 de março de 2018

TIRANTE


Tirante o mato crescido
Por baixo já não há erva
Tirante o peso dos ombros
A vida segue de quebra
Tirante o gosto de fel
A língua bem se machuca
Tirante o caos nacional
A política vai turva
Tirante a faca no peito
A vida supre a miséria
Tirante a borra do vinho
O espírito reverbera
Tirante o caco de vidro
Por sob os pés é só pedra
Tirante o que já não presta
É desespero o que resta.



The Clash of the Titans - Gustave Doré
Gustave Doré, A queda dos Titãs, 1866 (em wikiart.org).

16 de fevereiro de 2018

VIAGEM

Vou apontar meu barco para o ontem
Guiar meu leme em direção ao nascente
Lá onde num passado distante
O sol nascia brando sobre a terra
E as noites se enchiam de vaga-lumes estroboscópicos.
Vou encontrar os meus parceiros de outrora
Trocar dedos de prosa
Beber doses de pinga
Com tira-gosto de torresmo e saudade.
Vou encher meu tempo com o nada
E olhar as pessoas sobre as calçadas
Conversando sobre o onde o como e o porquê.
Vou assestar meu rifle contra os corações desavisados
E enchê-los com flores sempre-vivas
As mesmas flores simples que enfeitavam os caminhos
Por onde andava em menino
E vou dizer a todos que o tempo urge
O vento range as portas do nosso passado imortal
Construído sobre esta memória que não se cansa de lembrar.

Barco na Enseada de São Francisco, Niterói-RJ (foto do autor).


22 de dezembro de 2017

BOM NATAL E FELIZ ANO NOVO

Em 2010 postei este poema de Natal. Em 2012, com preguiça e sem encontrar outras palavras, repeti-o. 2017 está um ano muito fraco para ideias novas, em vista de tantos problemas. E, acumulando-se a preguiça renitente, repito-o novamente.



Aos amigos
E aos parentes,
Aos crentes
E aos descrentes,
Aos que se bastam
E aos carentes,
Aos desestimulados
E aos renitentes,
A todos nós, enfim, gente,
Um NATAL cheio de alegrias
E um ANO NOVO
Com 365 dias!
E, se isso for pouco,
Que não haja sufoco,
Que não falte dinheiro,
Que tenhamos saúde,
Cada um a seu jeito,
E, se não for pedir muito,
Que a felicidade abunde!
Mas com todo o respeito.

Natal brasileiro, de Leo Macial (em arteblog.com.br).

7 de dezembro de 2017

BORBOTÕES DE LÁGRIMAS

Na praça
Cantam pássaros próximo de mim
A esta hora
Falta água na minha casa
E por ironia
Chove uma chuva fina sobre o chafariz

Dos meus olhos
Não brotam borbotões de lágrimas
Meus rios secaram no estio do último inverno
E só mesmo os temporais tardios
Para inundar seus tristes leitos vazios
Como previsto na última estação

Plantamos desertos pelos campos
Ateamos fogo à terra
Até que não haja mais nada a arder
A não ser os nossos olhos ressequidos
Feridos pela fuligem ácida que cairá do céu
Como uma chuva maldita


Foto do autor.

30 de agosto de 2017

AS MULHERES QUE MERECEM SER AMADAS

Que mulheres merecem ser amadas?
As que passeiam com seus cães pelas calçadas
As desalmadas
As que riem por nada
As que transitam suas dores escondidas
As fingidas
As autênticas
Aquelas que sofrem
As que festejam
As que estão à janela vendo a vida passar
As que lutam que labutam que usufruem
As temidas as destemidas
As intelectuais as simplórias
As que oram as que maldizem
As baixinhas as gordotas
As compridas as magrelas
As inditosas anoréxicas
As gulosas
As que não dão bola e portam seus olhares soberanos
As oferecidas
As da hora
As que estão fora do tempo há tanto tempo
As que cuidam dos seus filhos com desvelos
As que tecem teias em seus teares milenares com suas mãos de fada
As índias
As amarelas
As ruivas e as loiras
As negras as mulatas as morenas
As branquelas
E todas as demais restantes delas

Não é assim por nada
Mas toda mulher merece ser amada

Foto do autor.

18 de junho de 2017

CORDEL DAS AGÊNCIAS NACIONAIS


Tenho trauma da ANEEL
E sua trama elétrica:
Verde, amarela, vermelha,
A conta vem bem estética,
Mas come no nosso bolso
Sem pudores e sem ética.

A ANATEL não me engana
Com seu zelo internético.
Faz o jogo das empresas
Deixa o cliente patético.
Viver sem acesso à rede
Vai me deixar apoplético.

A ANAC, pelos céus!,
É uma agência estranha.
Faltou água, vem a conta
Por conta da agência ANA,
E mesmo o gás natural,
O petróleo e os combustíveis
Pelos ritos da ANP,
Andam a preços incríveis.

De mesmo jeito a saúde
Que todo povo merece
Morde parte do salário
Nos preços que a ANS
Autoriza aos prestadores
Dos planos de quem carece
De atendimento privado,
Porquanto o do INSS
Deixa o doente sofrendo
Tanto tempo que enlouquece.

Como avisa a ANVISA
Remédio vai ter aumento.
Faltou a vacina a tempo
Isto é outro contratempo.
Toda agência que se preze
Faz do prazer sofrimento.

Quem se transporta por terra
De onde pra não sei quê
Por sobre a buracaria
Das estradas que se vê
É da conta da autarquia
Da sigla ANTT.

Por sua vez a ANTAQ
Me causa ataques diários
Quando atravesso de barcas
Com seus serviços precários
De Niterói para o Rio
Nos meios aquaviários.

Restou por fim a ANCINE
Na solução do problema
Que se arrasta dolente
Na indústria do cinema:
A produção nacional
É ainda bem pequena.

Só me faltou referir
A uma nova autarquia:
A tal Agência Nacional
De Mineração, que um dia
Venha a sair do papel,
Para a nossa alegria.

E vou parar por aqui,
Por motivo de premência
Do tempo, que é exíguo,
E também da paciência
Em entender o que faz
Esse monte de agência.


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Imagem em coachingconcurseiros.com.