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26 de abril de 2019

JOÃO PERIGOSO


João Perigoso era perigoso lá para a negas dele. Em casa, andava pianinho, pisando em ovos. Só dava palpite se Dona Encrenca, este o modo como se referia à sua santa esposa nas rodas do botequim do mercado, fizesse inquirição de sua pessoa em matéria de cano furado, curto-circuito e assuntos adjacentes. No mais, não tugia nem mugia, sob pena de levar descompostura em que sua periculosidade descia às raias de traquinagens de criança de fralda.
Na vida civil, contudo, por uma questão tocada na base do sopapo numa pelada de futebol não se sabe quantos anos atrás, quando ganhou o apelido, fazia de conta para manter o eco do bofete liberado nas ventas de um rapaz franzino que ousou dar-lhe uma tesoura voadora, no exato instante em que ia inaugurar o placar do jogo entre os de camisa e os sem camisa, num acanhado campinho de chão batido e traves de bambu. Coisa de somenos importância, de relevância discutível. Naquele instante, entretanto, no destampatório de que foi possuído, levou a mão aberta no pé do ouvido do magrelo, e passou a carregar o assustador apelido de Perigoso, que, a partir de então, substituiu por completo o sobrenome de família, de que nem tinha assim tanto orgulho: Morgado. Foi até um progresso: de Morgado a Perigoso.
Só dona Engrácia, a Dona Encrenca, nunca deu bola para seu afamado marido. Aliás, desde que começaram a entabular namoro, nos idos do governo do General Gaspar Dutra, ele já portava tal alcunha. Com ela, contudo, ele jamais tirou farinha, jamais levantou a voz, jamais questionou seus desejos. Vivia num cabresto curto, dando conta de cada passo seu, a fim de não ferir as suscetibilidades de Engrácia, conhecida desde a escola primária por seu mau gênio. E passou de namorado a noivo, de noivo a marido, sempre nessa levada, porque não gostava de guerras conjugais, como garantia. No sacrossanto recesso do lar, conforme pontificava, gostava de que reinasse a paz. Deixava seu proceder periculoso apenas para a vida mundana, nos extravasos do espaço doméstico.
- E aí, Perigoso? Qual é a última?
Perguntavam-lhe sempre que adentrava o recinto pé-sujo do botequim do Braz, para beber umas e outras e inventar reinações que nunca tinha vivido, apenas para manter a fama de mau, como na canção do Erasmo. E dizia do arranca-rabo num baile a candeeiro lá pelos lados da Serrinha, em que teve de exemplar um dançarino audacioso, que passou dos limites na saliência com a filha de um amigo. E contava do causo no jogo do Liberdade, em que invadiu o campo para exigir do árbitro a validação de um gol do time da casa, em total impedimento. A turma do deixa-disso correu atrás, para sossegar o possível perigo que ele causaria ao clube, no julgamento da súmula durante a reunião da Liga Bonjesuense de Desportos, a rigorosa LBD, na semana entrante. A diretoria do Liberdade, aliás, enviou ofício caprichado à Liga, eximindo-se de toda e qualquer responsabilidade por “aquele ato insano e de todo reprochável”, como no segundo parágrafo aduzia o remetente.
Outras periculosidades de menor perigo ele nem avalizava. Uns e outros se metiam a inventar histórias suas, nas rodas de conversa em torno da sinuca do bar do Mateus, na Coreia, e ele posava de superior. Não daria aval a coisa menor, a temeridades banais. Com ele, pelo menos no quesito ostentação, era só coisa desassombrada, coisa de vulto, que pudesse deixar os circunstantes de queixo caído.
Mas, um dia, as coisas não funcionaram a contento. Estava ele passando o giz no taco, a fim de tafuiar a bola sete na caçapa do lado direito da mesa, quando dona Engrácia, a indigitada Dona Encrenca, adentrou os domínios masculinos daquele recinto de jogatina e beberagem e exigiu dele, diante de todos os presentes, e para humilhação total de sua alcunha, que imediatamente retornasse a casa, a fim de acabar de lavar a louça que deixara pela metade.
Daí em diante João Perigoso não se aprumou mais. Avexado com a situação, ficou quase quinze dias sem pôr a cara na moldura da janela que dá para a rua. Enfim, quando saiu de seu esconderijo de opróbrio, levou pelas fuças mais uma ofensa de um moleque que passou pedalando morro abaixo:
- João Dengoso!
E nunca mais ninguém ouviu falar, em Liberdade, de um tal João Perigoso. De João Dengoso também não, porque, na semana seguinte, já se tinha bandeado, com todos os seus pertences, mais Dona Encrenca, para os lados de Nanuque, bem na divisa do Espírito Santo com a Bahia, onde ninguém soubesse da má fama que acabara de adquirir.

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5 de fevereiro de 2019

GRACINHA E GUMERVAL


Gracinha herdou da mãe a alvura da pele, as sardas de ferrugem do rosto, os cabelos ruivos encaracolados. Do pai, Gracinha herdaria fazenda de caprichada extensão, com gado subindo e descendo morros, pastando para engorda e produzindo carroças de queijo curado. Por isso era considerada a moça mais interessante da vila. Sua beleza tinha, assim, o brilho de sua herança.
Morava numa vasta casa de várias portas e janelas, com eira, beira e algumas outras besteiras de que os demais habitantes da vila não desfrutavam. Por exemplo, geladeira, que em sua casa, no tempo em que não havia luz elétrica, era um luxo movido a querosene. Só ela e os pais – fora as visitas de prestígio – tomavam água geladinha. Até mesmo o velho guarda-comida, peça mobiliária presente na casa de quase todos, na dela era coisa morta e enterrada de alguns verões.
Contudo Gracinha não fazia conta de nada disso, para que se considerasse o melhor partido dentre todas as moças do lugar, por causa da filha do padeiro, Margarida, e sua, dela, cor de jambo, seu cabelo negro e liso, a chegar até as duplas covinhas da anca, só vislumbradas quando ela tomava banho no açude do valão Liberdade. Mais o jeito brejeiro de andar, a cruzar as ruas e entortar as cabeças dos homens pelas esquinas. Coisa de deixá-la com profunda e silenciosa inveja. Inveja ressentida de moça de maiores posses materiais, porém menos riqueza física. Sabia que em beleza não podia concorrer com a rival, apesar de ser ela a preferida dos rapazes do lugar, os quais, no entanto, achava bobos e mocorongos.
Por essa época, a vila não oferecia futuro promissor a nenhum dos rapazes que circulavam na pracinha nos finais de semana à procura de uma namorada. Para isso, havia, então, um ritual marcado, contra o qual não se lutava: as moças passeavam no sentido horário; os rapazes, no sentido anti-horário, de modo que era possível, a cada volta completa pela praça, flertar – verbo da época – a pretendida duas vezes, em trezentos e sessenta graus.
Até que, num sábado à tardinha, surgiu moço de blusão de couro, capacete de couro, óculos protetores, botas compridas até quase o joelho, roncando o motor poderoso de uma brilhante motocicleta preta, guidão alto, assento baixo com o banco do carona em couro acolchoado, terminando em franjas.
O estranho chegou à vila com a missão de conquistar a futura herança de Gracinha, não importassem os sacrifícios que teria de fazer. Soubera, por fonte amiga, que a moça, embora não fosse feia, também bonita não era, mas que o futuro estaria garantido sobre os alqueires, as vacas e a produção leiteira. E ele sempre fora um aproveitador de ocasiões.
Mesmo a motocicleta reluzente havia sido o último presente que recebera de viúva rica, a quem cortejava, antes que os filhos dela interferissem no caso e dessem uma carreira nele, a poder de um parente de maus bofes lotado na Invernada de Olaria, dos velhos tempos da Invernada de Olaria de tão sombrias lembranças.
Quando a moto soltou o último suspiro carbônico na pracinha da vila, o coração da menina parece ter sido abduzido, e seus olhos se fixaram naquela figura desconhecida. Pode-se dizer que foi amor à primeira vista, bem de acordo com o espírito romântico dela.
O estranho recém-chegado atendia pelo nome de Gumerval dos Prazeres, um criado ao dispor da moça, com rapapés e tudo mais que pudesse impressionar.
Do assalto ao coração de Gracinha até o primeiro cafezinho na sala da casa vasta de eira, beira e outras besteiras, não decorreram vinte e quatro horas, prazo mais do que suficiente para o espertalhão se promover, dilatar falsamente suas posses e pretensões e afirmar sua admiração antiga por Gracinha, apenas pelas informações que recebia de conhecidos que moravam na cidade grande.
Ocorrera que, numa noite de lua cheia, meses atrás, com a moto estacionada no Joá, teve a certeza de que aquela moça, lá naquela vilazinha perdida no interior do estado, era a sua alma gêmea. Ele também um romântico incorrigível, como confessou, aproveitando para declamar alguns versos de ocasião, que tinha memorizado desde os bancos escolares.
Foi por isso que Gracinha não resistiu.
Quem resistiu, no entanto, foi o pai da moça e futuro e pretendido sogro de Gumerval. Tendo ele relações fortes com o delegado de polícia de Bom Jesus do Itabapoana, solicitou que se levantasse a ficha pregressa do pretendente, a fim de que não fosse assaltado via coração da filha.
Passados cerca de trinta dias, durante os quais Gumerval passeou de motocicleta para todos os lados, inclusive adentrando ainda mais na intimidade da casa, chegou a informação de que o tipo era um mandrião conhecido nas imediações da 28 de Setembro, em Vila Isabel, na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, useiro e vezeiro em expedientes condenáveis, através dos quais mantinha uma vida mansa de folgados colarinhos.
O pretenso futuro sogro, certa noite, no entanto, convidou Gumerval a tomar uma cerveja no bar do Chambão, a fim de que se entendessem melhor acerca das pretensões do forasteiro. Armou-se da garrucha cano duplo, cabo de madeira maciça, cuspideira de fogo em molde de canhão dos tempos de Dom João VI, levou dois homens de sua propriedade para ficarem sentados a uma mesa ao lado, de sobreaviso, pediu uma cerveja e foi direto ao assunto, respaldado pela arma, que colocou ao lado do copo.
- Levantei sua ficha completa na praça de Vila Isabel, com a auxílio de meu amigo delegado, e vim propor um negócio bom pra você: pegue sua moto e escafeda-se daqui, na santa paz do Senhor. Nem vai falar com Gracinha. Isso depois eu resolvo com ela. Está vendo aqueles dois armários dobrados ali na mesa ao lado tomando cerveja? Podem melhorar meus argumentos, no caso de você não ter entendido bem.
Gumerval, lívido como uma folha de papel, levantou-se sem uma palavra, fez pequena reverência com a cabeça, saiu de passo hesitante pela porta do meio do bar do Chambão, ligou sua potente moto preta e sumiu no oco do mundo.
Segundo o sogro, que passou a contar a história para seus amigos mais chegados, Gumerval tinha ido para o caixa-prego, para onde o Judas perdeu as botas, para o cu do conde.



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16 de janeiro de 2019

DONA HILDA


Pior que o tombo foi a desatenção do filho preferido.
Dona Hilda teve uma tontura, rodopiou no corredor da casa e caiu para trás, batendo com a cabeça na parede. A sobrinha acorreu em socorro e a levou ao hospital mais próximo. Não fora nada de pior, constatou o médico, após uma bateria de exames. Apenas a contusão na nuca, que se chocou sem grande impacto contra o reboco fofo da parede da casa simples. Nenhuma sequela a mais.
Voltou para casa, com recomendação de que fizesse repouso e aguardasse a ocorrência de possíveis outros sintomas até o próximo dia, com o que deveria se reportar ao médico atendente. Se nada mais houvesse, seguisse a vida de noventa e dois anos bem vividos, bem sacudidos, como até aquele dia. Despreocupadamente, como dissera o médico. Dona Hilda tinha uma saúde praticamente inoxidável.
Nada houve. E dona Hilda pôde voltar a cuidar da irmã doente, em casa de quem ocorrera o acidente.
Contudo, se não houve consequentes danos físicos, um dano ainda pior começou a minar seu prazer em viver: o filho primogênito, seu xodó dentre a prole imensa, ainda não havia ligado de Belo Horizonte, para saber como ela estava e, mesmo, se estava viva. E aquilo começou a lhe remoer a alma, fazendo com que ficasse deprimida.
Depois de quarenta e oito horas, prazo mais do que suficiente para a manifestação de qualquer problema, mas já com o psicológico definitivamente abalado, o filho ligou. Até mesmo uma sobrinha que estava de passeio pela Noruega, avisada pelo grupo de Whatsapp da família, telefonara no mesmo dia do ocorrido, preocupada com a saúde dela. E ele, logo ali em Beagá, a menos de cinco horas de Visconde de Rio Branco, demorou infindáveis quarenta e oito horas para se lembrar da mãe agora praticamente uma moribunda psicológica.
Melhor não tivesse ligado.
O filho se justificou com a mãe pela demora em entrar em contato, porque no dia do acidente tinha saído com o Rex para uma volta na praça próxima à sua casa, na Savassi, e, de repente, o Rex começou a vomitar inexplicavelmente sobre a grama. Ele ficou apavorado, voltou célere a casa, pegou o carro e levou o cão ao hospital veterinário de que sempre se vale, quando o Rex apresenta algum problema. E lá ficou com o cachorro, que permaneceu internado para exames e cuidados, sendo liberado apenas no dia seguinte, já lépido e fagueiro, curado de um mal-estar por ter ingerido algo que lhe fizera mal.
E então passara todo o dia seguinte cuidando da dieta do cão, a fim de que não tornasse a repetir aquele episódio. Entretanto também nada de grave, como disse à mãe ao final da sua justificativa.
A mãe ouviu calada, mas preferia não ter ouvido. Sentiu-se preterida por aquele maldito cachorro, que vivia mordendo suas pantufas confortáveis, quando se hospedava na casa do filho, até o ponto de torná-las inúteis. Aquele mesmo maldito cão que lhe devotava uma solene antipatia, sempre que ia lá passar uns dias com o filho e a nora, como vinha ocorrendo com mais frequência, depois de ter cedido sua casa para o neto desempregado e sua família. Aquele odioso animal que sempre subia na cadeira a ela destinada durante o café da manhã, a lhe demonstrar caninamente sua condição de intrusa.
A depressão de dona Hilda piorou bastante desde então, tanto que se mudou para Niterói, para ficar próxima da filha e do genro flamenguista que vive a lhe perturbar a tranquilidade.
Do tombo, já nem se lembra. Da ingratidão do filho, esta levará consigo para o túmulo e para a eternidade.

Banana (foto do autor).


2 de março de 2018

SÃO PANCRÁCIO, SANTA ENGRÁCIA

(Para Lucir Moraes.)

Meu assento era quase sobre a asa direita do avião, um pouco para trás. Dali era possível ver a turbina.
A decolagem deu-se naquilo que é uma decolagem em aeroportos nacionais: a aeronave no empuxo máximo, sobre uma pista um tanto irregular, trepidou, resfolegou, mas subiu. A sensação de estar passando sobre costelas no chão abrandou-se tão logo ela atingiu uma altura razoável.
Nunca tive medo de avião. Nem mesmo quando voei, pela primeira vez na vida, num velho turboélice Buffalo, que pareceu chegar batendo asas, no aeroporto aberto numa clareira na selva, na cidade de Puerto Suárez, na fronteira da Bolívia com o Brasil. Aliás, aquilo não era bem um aeroporto, mas tão somente um campo de aviação, como se dizia na minha terra. Faltava-lhe certa dignidade arquitetural para assim ser  considerado. Acho que, no instante em que vimos aquele monte de alumínio modelado a poder de arrebites pousar no chão de terra, sob o olhar apavorado da minha mulher e de uns amigos, a informação do boliviano ao nosso lado, num portunhol fronteiriço, me deu a tranquilidade que levaria como divisa por toda a vida em tais situações, mas que iria ser posta à prova anos depois:
- Estadísticamente es el avión que menos cai.
Como fomos levados sãos e salvos a Santa Cruz de la Sierra, pus na cabeça que nenhuma outra máquina voadora mais moderna, nas quais viajei desde então, fosse capaz de me fazer uma desfeita, uma trapaça de mau gosto.
Até o instante em que o comandante anunciou, com indisfarçável acento grave na voz, que a turbina direita entrara em pane. Num átimo, retirei os olhos da revista, olhei pela janelinha acanhada ao meu lado e constatei a informação. Ela realmente parecia inerte.
De imediato os passageiros entraram em pânico. Começou um vozerio confuso, com gritos desesperados e orações suplicantes. Percebi que até ateus convictos começaram a apelar aos poderes celestiais. Eu, por exemplo! Naquele instante sombrio, a fé que perdera no início da idade adulta, como que por milagre, recebeu o que na linguagem cibernética se conhece como refresching: voltou fresquinha à tona. E não tive o mínimo pudor em implorar:
- São Pancrácio! Santa Engrácia! Valei-me! – disse baixinho, para que só os dois santos me ouvissem.
A esta altura da narrativa, é preciso fazer um esclarecimento.
Quando religioso, descobri esses santos ao ler um compêndio de hagiografia antiga e tomei a decisão de que, em minhas agruras e atribulações, para não entrar em pânico, pediria por seu socorro, na hipótese de que, por certamente desconhecidos por aqui, estivessem sempre desocupados para acudir seus minguados devotos, dentre os quais me incluí. E sempre me dei bem enquanto era crente. Portanto não seria naquele exato momento em que eles me faltariam.
E, para garantir que eu não tinha preferência no atendimento, repeti a invocação fazendo uma inversão nos vocativos:
- Santa Engrácia! São Pancrácio! Valei-me! – agora com a voz já ligeiramente alterada, em função dos segundos a menos de vida que vislumbrava, e com acento na forma culta do imperativo verbal, porque me dirigia a santos e não a um zé mané qualquer.
Nesse instante, meu pensamento chegou até minha mulher, que deveria estar cuidando inocentemente de seus afazeres. Eu me esquecera de renovar o seguro de vida! Embora não seja vultosa, a grana poderia até lhe dar a possibilidade de arranjar a vida – dela, evidentemente, já que a minha estava indo pro beleléu –, até mesmo conseguir namorado novo, que com certeza iria dissipar o que eu lhe deixaria. Pensei, então, com certo conforto, que tinha sido melhor assim. Não ia querer minha viúva em desfrute sobre minha memória.
Os passageiros mais próximos de mim berravam apopléticos!
Sempre fui um cara tranquilo, controlado, e, embora a situação fosse de consequências funestas, eu também estava chegando ao descontrole. Contudo não sei de onde surgiu certa lucidez, que me fez gritar com todos:
- Tenham calma! Se vamos morrer, que seja com um pouco de dignidade! E não como um bando de desesperados, parecendo galinhas fugindo de mão-pelada!
Naquele momento não tinha certeza de que mão-pelada comesse galinha, mas foi o que saiu na hora.
Uma senhora de cabelos avermelhados, com a expressão estertorante, gritou comigo:
- Não está percebendo que vamos todos morrer e fica aí querendo compostura da gente?
- Só quero morrer em paz, minha senhora! E não no meio de uma balbúrdia infernal! Isso aqui está virando a antessala do inferno! – falei decisivo.
O avião negaceou um pouco, parecendo carroça com o eixo quebrado, o que fez sacolejar sua carga humana.
E voltei a apelar a São Pancrácio e a Santa Engrácia, enquanto tornei a olhar a turbina, através da janelinha.
Não sei se foi por obra deles ou de algum dos outros santos invocados naquela confusão insana, mas a turbina começou a voltar à vida, no justo momento em que a voz do comandante, já visivelmente aliviada, informou que a pane elétrica fora  superada, inesperadamente e sem explicação plausível, de  modo que o voo continuaria até o seu destino. E em segurança, desejei eu!
O suspiro de alívio generalizado daqueles mais de cem passageiros candidatos a defuntos quase despressurizou o avião. A mulher de cabelos avermelhados logo solicitou à comissária de bordo um copo d'água fresquinho, para diminuir a palpitação.
A tripulação determinou que todos guardassem seus lugares, porque o pior havia passado, e procurou atender os mais nervosos.
Perguntei se havia uísque. Não havia. Queria afogar o nó na garganta com uma boa talagada, mas não foi possível. Tomei em seguida o café quente servido a alguns, o qual me pareceu o mais saboroso que já bebera, e relaxei.
Ao desembarcar, passei na capela ecumênica do aeroporto, para agradecer a São Pancrácio e a Santa Engrácia. Não sei se eles tiveram participação efetiva no conserto da turbina, mas é melhor não duvidar. E, se tiveram, podem estar orgulhosos agora do seu milagre.
Eu iria renovar o seguro de vida. E pedi perdão aos santos por aquele pensamento vexaminoso sobre minha ex-futura viúva. Porque não se pode, até na hora da morte, ser tão egoísta como fui. Ou não veria as faces cândidas de Santa Engrácia e São Pancrácio quando desembarcasse do outro lado da vida.

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31 de janeiro de 2018

MORRA-SE COM UM BARULHO DESSES


Vou chamá-lo seu Gumercindo, para não criar melindres com seus familiares. E trocarei, também, os nomes de todos os demais. Só eu serei eu mesmo.
Pois seu Gumercindo, após o almoço de domingo, cercado pela família numerosa, sentiu uma pontada no peito e foi levado às carreiras para a emergência do Hospital do Andaraí, não muito distante de casa.
O médico de plantão percebeu que o quadro não era dos melhores e resolveu interná-lo imediatamente. Parte da família que o acompanhou ficou estacionada na sala de espera, aguardando por notícias vindas lá de dentro. Passado algum tempo, veio outro médico a procurar por familiares do senhor Gumercindo Nascimento, aos quais minuciou a gravidade do seu estado geral, motivo por que resolvera deixá-lo no centro de tratamento intensivo. A enfermeira que o acompanhava anotou os telefones do filho mais velho, para qualquer emergência, e disse que eles poderiam voltar para casa e só retornar no dia seguinte, pela manhã, para notícias atualizadas sobre as novidades do doente e uma possível visita a ele.
No dia seguinte, logo cedo, lá foram três de seus filhos. O mais velho, Roberto, foi autorizado a ver o pai. Ele se paramentou, higienizou as mãos e foi conduzido até o leito em que o pai estava. Chegou próximo a ele, que tinha os olhos fechados, e disse baixinho:
- Pai, é o Roberto. Está me ouvindo?
O velho abriu os olhos e respondeu que sim. Deu as informações ao filho de como passara a noite, pediu que rezassem por ele, sem desespero, e falou que precisava dizer-lhe algo importante, muito importante mesmo. Roberto dobrou-se um pouco sobre o leito, já um tanto apreensivo, a fim de ouvir o que o pai lhe tinha a dizer.
- Filho, quero que você vá até a agência do Banco do Brasil, na Rua Senador Dantas, e procure pelo gerente Ricardo. Acho que não escapo desta e preciso que você faça isso por mim.
- Sim, pai! Pode dizer.
- Procure por ele. Ele é seu irmão.
Roberto pensou não entender, pois a voz do pai não tinha a potência e a clareza costumeiras, e perguntou:
- Como é mesmo, pai?!
- Procure o Ricardo, gerente da agência. Ele é seu irmão, e é preciso acertar as coisas.
Seu Gumercindo e dona Sílvia já tinham ultrapassado as bodas de ouro como casados, tinham cinco filhos – três homens e duas mulheres – e vários netos. Desses, Roberta, filha do Roberto, era a mais velha e já cursava Arquitetura na PUC. Sua vida, a dele, sempre fora devotada à família, com quem gastava seu vasto salário de fiscal de rendas aposentado. Pudera, por isso mesmo, dar conforto material a todos, e sua presença era constante entre eles, apenas interrompida pelas viagens de fiscalização aos mais diversos pontos do estado, a que todo fiscal está sujeito.
Roberto como que não acreditou no que ouvira. E o pai moribundo teve de repetir o pedido:
- Procure o Ricardo, na agência da Rua Senador Dantas. Ele é seu irmão. Precisa acertar as coisas.
Pela cor com que Roberto saiu do centro de tratamento intensivo, seus outros dois irmãos, Regina e Ronaldo, sentiram que a situação devia ser de extrema gravidade.
- Falou com ele? Como ele está? O que você achou? Papai está bem, não está, Roberto? – uma sucessão de interrogações apreensivas.
Roberto não sabia como dizer o que ouvira, mas garantiu que o velho estava em recuperação, embora ainda um tanto debilitado e completamente ligado à parafernália hospitalar. Mas começou cuidadoso.
- Preciso dizer a vocês uma coisa grave. Não é quanto à saúde do papai, mas é capaz de causar um choque em vocês.
Os irmãos se entreolharam apreensivos com que estava por vir.
- Papai pediu que eu vá à agência do Banco do Brasil na Senador Dantas, para falar com um irmão nosso lá. Um tal de Ricardo.
- O quê?! – indagaram ambos com espanto.
E foi lá, no dia seguinte, o Roberto à procura do Ricardo.
De imediato, espantou-se com a fisionomia do irmão, que era da mesma forma de todos. Nem precisaria de teste de DNA. Estava na cara! E mais espantado ficou, ao saber que seu pai tinha outra família semelhante à sua, com outros três irmãos, sendo duas mulheres e o Ricardo, todos com a letra inicial R no nome: Roberta e Rosália. Todos mais ou menos com as mesmas idades, nascidos em anos subsequentes uns aos outros, e já com outros tantos filhos.
A filha mais velha do Ricardo, a Ricarda, era também estudante de Arquitetura da PUC, da mesma sala da Roberta, e sua melhor amiga.
Quando as duas jovens descobriram os laços que as unia, ficaram estremecidas uma com a outra, sem saber o que se dizerem, até que, à medida que os relacionamentos entre todos os familiares se foram estreitando, no período de recuperação do velho Gumercindo, voltaram ao mesmo convívio fraterno anterior.
Seu Gumercindo, ainda no leito do hospital - e antes que fizesse a passagem desta para a melhor -, foi perdoado por suas esposas, seus filhos e netos, motivo que o fez se recuperar por completo, ainda mais celeremente. Confortável com a situação, resolveu promover um almoço de congraçamento, com o beneplácito das mulheres, para que todo o estranhamento se dissipasse.
A festa rolou, todos se divertiram, se confraternizaram, com exceção das duas esposas, que apenas trocaram cumprimentos protocolares ao início da festa, restando cada uma no seu canto do salão, como a que demarcar ainda seus territórios.
Passados seis meses, o coração do velho deu-lhe novo tranco, agora com a potência redobrada, fazendo-o finado, num pequeno átimo de tempo, sem mais essa ou aquela.
O velório foi marcado para o Cemitério São Francisco de Paula, no Catumbi, num sábado à tarde, para onde acorreram todos os membros das duas famílias.
Tão logo o corpo de seu Gumercindo foi encaixado na gaveta que lhe cabia nesse epílogo da vida, dona Sílvia mandou chamar a segunda viúva, dona Otília, aqui nomeada apenas nos estertores do texto, para lhe dizer com todas as letras do alfabeto romano:
- Agora sumam da minha vida! Escafedam-se! Não quero mais saber de ninguém! Desatou-se o elo que nos atava. Está desfeito e acabado! Desapareçam!
Eu estava lá, mas não ouvi a fala desabrida de dona Sílvia. Um dos seus netos me contou depois.
E seu Gumercindo, com o corpo ainda nem de todo frio pelo bafo da morte, deve ter-se contorcido na gaveta apertada em que foi descansar em paz.

Cemitério, Carabuçu-RJ (foto do autor).


15 de setembro de 2017

MUNDINHO


Cinco dias por semana, Mundinho trabalhava duro: caixa de banco. Dois dias consumia bebendo cachaça cerveja steinhaeger traçado de cinzano com conhaque de mel fogo paulista chope vinho tinto martini seco rabo-de-galo creme de ovos catuaba com jurubeba do norte genebra underberg com soda pau-pereira limãozinho bagaceira vodka com crush rum com coca-cola campari arak pisco aquavit saquê, dentre outras coisas. De tira-gosto: careta, cusparada, assopro, assovio, estralo de língua, estralo de dedo, rodopio de corpo, muxoxo de preto-velho hum! hum! mizifio!, grito de ajudante de bandido mexicano em películas da Pelmex iahuuuuuu! e um diabo de arroto nojento, puxado das tripas, que ninguém suportava. À distância recendia a alambique, tonel, chão de botequim. Não acendessem fósforo num raio de três metros, sob pena de explodir. Ainda assim, nem ficava bêbado.
Nos fins de semana, sempre pelas redondezas, entornando aqui e ali. Num domingo à noite, final de expediente etílico, caiu na besteira de desembaraçar um arroto caprichado, para arrematar tudo, na porta do bar do Jésus, um mosqueiro como tantos outros. O dito cujo arroto foi tão indecente, mas tão indecente, que Mundinho teve de sair correndo para não apanhar dos demais fregueses.
Chegando à antiga pensão onde morava, no vinte e nove da Pereira da Silva, a língua em forma de gravata colorida até o meio da barriga, só teve tempo de fechar a porta e deixar seus perseguidores do lado de fora.
Se o fígado tinha, até aquela altura, sustentado todas as suas estripulias, o medo foi tão grande que o transformou em abstêmio. Fundou até os A. A. em Bom Jesus do Itabapoana, entrou pros crentes e, hoje, o mais forte que bebe é café coado em coador de pano, bem temperadinho no açúcar mascavo.

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Imagem em daler.ru.
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.

8 de maio de 2017

BEIÇUDO


(Para o amigo Marcelino Medeiros, dono da história.) 
A coisa se dá mais ou menos assim.
Você viveu a infância toda como um bicho solto nas ruas da vila, algumas de paralelepípedo, outras de chão batido. Fazia corriola com o irmão e os amigos. Reinava absoluto num tempo em que até as chuvas torrenciais dos verões eram matéria lúdica. Correu pelos pastos, varou cercas de arame farpado atrás de frutas em quintais alheios, soltou pipa, brincou de siliprina e pique-esconde, andou em lombo de burro e levou corrida de cachorro bravo. Mas aí tem de sair de lá. Tem de acompanhar os pais, que procuram melhor sustento para a família. E não lhe resta nada, a não ser ir quietinho, chorando por dentro, a fim de não levar um pito daqueles, quando não um cascudo, para deixar de ser banana.
E, com o passar dos anos, cresce, vira adolescente, namora, mas ainda lá por dentro, lá no imo, como dizem os textos românticos, aquele jeito de mato permanece, recalcitrante que só ele, a manter acesos certos desejos, certos sonhos.
Um deles, por exemplo, é ter um cavalo.
Resolve, então, passados uns anos, a trocar a velha bicicleta de quadro duplo, pneu balão, campainha descascada, por um equino do vizinho do fim da rua. Você está em Nova Iguaçu e tem dezesseis anos, nesta altura. Ali você passou a morar com seus pais e irmãos. O quintal espaçoso, com algumas árvores frutíferas, pode acomodar bem o animal. Você toma coragem e vai até o vizinho e propõe a troca:
- Dou a bicicleta pelo cavalo.
Naquele tempo ainda não se tratava por magrela a duas rodas. Era bicicleta mesmo. O outro negociante, mais ou menos da sua idade, resolveu pensar no assunto. E pediu para examinar o veículo que conhecia de o ver rodando por ali.
Entrou com seu olhar minucioso, viu o estado da pintura, a sobrevida provável dos pneus, o selim com o escudo do Vasco da Gama, que ele iria tirar, com certeza, e pediu cem cruzeiros novos de volta. Não era um mau negócio para nenhum dos dois. E você ainda lhe daria a bomba manual de encher pneus.
- Por acaso esse cavalo tem nome? – você perguntou, a fim de não trocar o nome do bicho.
- Beiçudo! – disse o vizinho, sem muito entusiasmo.
E você entendeu. Beiçudo, pela aparência, já era entrado em anos. Tinha umas costelas salientes, sinal de penúria alimentar, um pelo baio desigual, a crina toda embaraçada por falta de cuidado.
Você leva o Beiçudo pela rédea. A sela não veio, por muito velha e deteriorada.
- Não tem problema, amigo, eu compro uma nova. Vou pedir ao meu pai para ajudar.
E o Beiçudo o acompanhou a passos lentos, do fim da rua até sua casa. Você entrou solene pelo portão e o deixou no quintal, amarrado a uma árvore, para que não saísse devastando o canteiro de hortaliças verdinhas da mãe. Não queria trazer problemas para casa. Apenas realizar aquele velho sonho de infância que ficou no fundo da memória, desde Carabuçu.
Providenciou ração e foi-se aconselhar com quem tinha mais experiência no cuidado com bicho de casco.
Começou a dar um trato no Beiçudo, para que ele perdesse aquele ar dolente, aquele olhar de peixe morto, que não fica bem num cavalo, num ginete fogoso. E se lembrou dos gibis de Roy Rogers, Gene Autry, Cavaleiro Negro, Zorro, Hopalong Cassidy, Durango Kid, Fantasma, que lia na farmácia do Zé. Seu cavalo ia ficar tão bonito como aqueles: Trigger, Campeão, Satan, Silver, Topper, Corisco e Herói.
Mas a vida não é uma história em quadrinhos, que sempre termina com a vitória do mocinho sobre o bandido e as forças do mal. E o Beiçudo, nem de longe, lembrava nenhum daqueles belos espécimes da família dos equídeos, desenhados à perfeição nas páginas dos gibis. Nascido e criado quase ao Deus dará pelas ruas de um bairro de Nova Iguaçu, amanheceu inapelavelmente morto, numa manhã fria de agosto, a carcaça já quase rígida, quando você foi procurá-lo com o balde de ração na mão.
Diante da fatalidade, não lhe restava alternativa a não ser rebocar dali o corpo defunto do Beiçudo, antes que seus pais encrencassem com aquele estorvo. Em vez de contratar alguém para resolver seu problema, você mesmo tenta. Sempre pôde tudo até ali em sua vida, e não seria isto a não ser resolvido.
Amarrou o corpo do Beiçudo, na altura do vazio, como se dizia em Carabuçu, com uma corda grossa, que foi atada com todos aqueles nós que aprendera no manual do escoteiro mirim ao para-choques traseiro do velho jipe Willys do pai.
Abriu o portão, deu a partida no veículo e saiu bem devagarinho, para não dar um estacão e ali mesmo pocar a corda. Aí saiu puxando o cadáver do Beiçudo, rua afora. Saiu da rua, entrou noutra e mais noutra. Chegou até a pracinha do bairro. Quando ia dobrar à direita para ganhar a direção do aterro em que deixaria seu efêmero amigo, a corda se rompeu, pelo desgaste com o asfalto irregular.
Parou o velho jipe. Olhou a situação. Viu que não podia fazer mais nada e resolveu abandoná-lo ali mesmo, pois sabia que a prefeitura daria um jeito de levar o Beiçudo à sua morada final, antes mesmo que também ele pocasse de inchado: o bico dos urubus voantes do aterro de Gramacho.
Voltou ao jipe, que acelerou com mais vigor, para voltar a casa, resmungando feito pobre pela manta que levara. Ao chegar ao portão ainda aberto, viu pelo retrovisor o parceiro de negócio passar na sua antiga bicicleta feito um corisco. E falou entredentes, dando uma sacudidela de ombros, como que para fechar a história:
-Vai-se a bicicreta e o Beiçudo. Me espere, papudo, que vou te fazer comer poeira como meu novo sonho: uma Lambretta vermelha e branca 1967.
Antes tivesse ficado com a magrela!

Imagem em depositphotos.com.

1 de dezembro de 2016

A ENCOMENDA FICA PARA DEPOIS


          Sebastião Seleiro estendeu o braço avantajado e recolheu o pito na beira do cocho. Tirou uma baforada profunda e gostosa e mirou, no ar, a nuvenzinha de fumaça formando morrotes acinzentados. O céu azulinho, azulinho, limpo de doer nas vistas, repetia-se enfastiadamente no depois do almoço já há bem uns sessenta dias, prenunciando um verão danado de calorento. Para ele, o vaivém de sol e chuva era vital, não que vivesse diretamente da roça, dessa ou daquela cultura, senão do próprio encharcar a terra, verdejar o pasto, florescer a plantação, frutificar o pé de fruta, comerem os homens o alimento do chão puro e daí tirarem seu sustento. Isso, o que o deixava feliz. No mais, era ele mesmo tocar a vida na sovela, nas agulhas, nas linhas e no couro; fazer um dinheirinho rendido miúdo para o fumo, a roupa do corpo e uma ou outra besteirinha que lhe pudessem passar pelo juízo. Enfim, coisa pouca para os seus sessenta e tantos anos, naquele arremedo de felicidade em que desconhecia os melhores do conforto de um tal de progresso. Ali onde estava, no sombrão generoso da tulha, sentia no bafo da viração o mesmo gosto de estar como uma peça a mais no desempenho de sua função nesta vivência. Sabia perfeitamente que não faria falta grande, caso morresse, mas ficava feliz quando, num dos acessos de tosse gosmenta que o atormentava vez e outra, ouvia sempre Aurélio, o patrão, brincar:
        - Cuidado, hem, seu Sebastião, cuidado com essa catarreira toda, que ainda lhe entope os peitos e eu fico sem as cangalhas novas para a tropa!
        E ria o velho, grasnando feito um marreco esganiçado. A cusparada amarelo-cinzenta sempre complementava essa descontração com a doença, nem de todo atinada, e, de mais a mais, incapaz de vergar aquele negro grandalhão.
        Nessas ocasiões, vinha-lhe a lembrança de tempos morridos e enterrados em que podia abusar de uma pinga mais braba, de uma afronta séria em baile a candeeiro, ou mesmo de uma virada de noite na cata de satisfazer os desejos da carne. Mulher, naqueles ermos, padecia de falta. Acaso Nora não estivesse nas boas com o Rufino, dava para sentir a fungação dela debaixo da sua pessoa, numa sensação de gente e cama que lhe ficava no ouvido durante mês e tal, esquentando o corpo no gozo desses barulhos. Casar com ela é que não quis, dado que a mulher não segurava os guardados, quando via um corte de tecido, um vidro de extrato, um sapato novo. Preferia era levar a situação nos moldes em que estava. Além do mais, esse negócio de casamento não era de seu namoro, de sua preferência. Agora, porém, estava ele ali, sem casa, sem mulher e sem ter feito filho que lhe pudesse ajudar. Dormia no que dormia: um estrado de madeira coberto por colchão de capim, na tulha de arreios e cangalhas. O cheiro ativo do couro que o nariz não mais sentia como no início, cambaleões nas paredes, ratos a passarem de noite e algumas aranhas, bichos que não o incomodavam muito; antes, faziam-lhe companhia. Mas também sabia dar um fim, em pouco tempo, a um montão deles. A tulha da sombra era essa que o guardava, nas horas de folga, no sono e nos pensamentos de coisas que não acontecem mais.
        No costurar dessas cogitações, se levantou molengo do tamborete e foi buscar no interior do espaçoso salão dos couros a continuação do serviço encomendado há algum tempo. Passou a mão nas ferramentas, no couro e na armação da cangalha, a quarta a ser possivelmente aprontada naquela semana: serviço de requerer perícia e arte, marca registrada do seu ofício. E voltou para fora, onde tinha uns apetrechos auxiliares, a tempo de cumprimentar, com um oba garganteado e um aceno de mão, Zé Durval, que passava sestroso na besta baia de sua predileção. Ainda imaginou o velho o trabalho que tivera, anos passados, na feitura de semelhante tarefa para o fazendeiro da Forquilha. Este, agora, enricado com o café, mas a mesma consideração de sempre.
        Naquele tempo, as dificuldades se avolumavam nas fazendas como madeira cortada em beira de estrada. O plantio do café requeria derrubada de mata e uma trabalheira danada no estabelecimento da terra de cultivo e no cuidado da cultura de sustentação, normalmente milho. É que o cafezal, por essa época, só começava a produzir economicamente a partir do sétimo ano de plantado, e o milho tinha a incumbência de manter estável a situação das fazendas. Tanto é que a tropa de burros da Forquilha foi tendo os arreios trocados espaçadamente, à medida que o dinheiro entrava e sobrava para a compra do material necessário. No intervalo do seu serviço, Sebastião ajudava na quebra do milho, o que lhe garantia casa, comida e um salário espremido, como sempre. Foi aí que conheceu Nora.
        Negra bonita, durinha nas carnes, olhos de jamelão, Nora não pôde fugir à lábia de Rufino, vendeiro montado em terras da Forquilha e fornecedor de suprimentos os mais diversos para as necessidades daqueles arredores. Nora, explodindo sensualidade pelos poros, coisa rara em ocasião de mulheres cheias de pano, entrou pela primeira vez na venda para comprar pimenta-do-reino, e dali só saiu quando a primeira briga separou os dois. No quarto dos fundos, ela se estabeleceu como dona da casa, fazendo o amásio construir cozinha e sala, além de uma privada na beira do valão da laje, que roçava a casa. Nessa vida, de farinha de mandioca, carne seca, feijão e arroz, entremeada de verduras e legumes à vontade, Nora não viu motivos para voltar ao rancho de sapé, um quarto de légua estrada acima, onde vivia com sua família, num aperto de espaço e de barriga. E foi seguindo os desejos e taras do Rufino que ela começou a se aprimorar, a se empinar, a se alisar, o que despertou nos demais homens a vontade de deitar com ela. E as desculpas para ver a negra bonita repetiam-se, na venda, com uma frequência impertinente, nos dias de sábado, quando muitos se juntavam para as compras, o papo, a cachaçada, o joguinho de cisplandim, que lá todos diziam cisprandi.
        - Ô Rufino, pede lá a Dona Nora mais uns bolinhos de manjoca. – O tratamento respeitoso a esconder pensamentos arrevesados.
        E lá vinha ela, apertada nas roupas, lenço na cabeça, luzindo a banha de porco, trazendo um prato de bolinhos de mandioca, uma das suas várias especialidades na cozinha.
        - Boa noite, Dona Nora! Como tem passado? – perguntavam alguns, comendo-a com os olhos, a boca cheia de bolinho.
        Umas talagadas de cachaça já faziam a festa, quando Sebastião percebeu, todo satisfeito, um rabo de olho procurando por ele no meio daquele pessoal todo.
        - Me adescurpe, Dona Nora, mas a senhora tem lá umas tripinha de porco frita? – Sebastião procurou um meio de fazer a mulher do Rufino retornar à venda. – Bota mais dois dedo aí da branquinha!
        Se a história não envolvesse dinheiro, Rufino realmente não percebia. E foi o que aconteceu naquele momento: Nora piscou maldosamente para Sebastião, agora um potro fogoso a não caber no espaço entre a porta da frente da venda e o balcão. Lambeu aquele meio copo de cachaça, cuspiu uma goma arredondada que nem baleba e disse, disfarçado:
        - Vô mijá, cambada!
        No que falou, tomou o rumo do valão, passando no beco entre a casa da venda e a grande tulha de madeira. O terreno descaía quase uns dois metros até chegar à água barulhenta que corria sobre uma grande laje de pedra, espremendo-se ora aqui, ora ali. Se o acesso à tulha, pela frente, não demandava mais de dois degraus de madeira maciça, nos fundos as vigas de sustentação quase se emparelhavam a Sebastião em altura, antes de entrarem na terra úmida. Sebastião, palmeando a parede da venda para se aprumar, a cachaça já a lhe entortar as coisas, passou defronte da janela da cozinha e viu Nora entretida no preparo da tripa de porco.
        - Capricha no tempero! – Exclamação inesperada que fez a mulher voltar-se nas ancas... E que ancas! Susto de nada, coisiquinha à toa, e abriu-se ela num sorriso branquinho de dar gosto.
        - Se ocê quisé, faço um molho caprichado. Qué?
        Baba, Sebastião, baba! Tens aí nas fuças uma das negras mais bem aparelhadas de carne de toda essa zona. Baba, desgraçado!
        A fim de provocar ainda mais, Nora abaixou-se para pegar alguma coisa no armário, fazendo projetar em direção dos olhos pidões do admirador seus avantajados.
        - Ô, essa menina, será qu’ocê num esqueceu de lavá essas tripa direitim? Vamo lá no valão, vamo!
        Se há alguém que provoca e assume a provocação, esse alguém é Nora. Nem precisou Sebastião ser mais claro, mais objetivo, para ela largar a bacia de tripas em cima da mesa e sair da casa, limpando a mão no avental de saco de farinha de trigo que lhe contornava os quadris. E foi só ganhar o beco para receber na cintura o bração musculoso e rijo do seleiro que, ato contínuo, cheirando-lhe o cangote, deu um suspiro fundo de macho. O que se passou entre os dois embaixo do assoalho da tulha é dispensado narrar. Bastasse ver o ar vitorioso da mulher, olhos amormaçados, remelexo assossegado. Sebastião, ele o negro seleiro, evaporou o álcool acumulado naquele princípio de noite e voltou apostando alto no cisprandi.
        Chapéu descaído em riba dos olhos, entrou na venda sem coragem de olhar para Rufino. Meio de banda, assim como quem não quer nada, pediu mais aguardente, sem exagerar no tom da voz, agora amaciada:
        - Outra dósia, Rufino. E vê lá se as tripa já envém.
        De sua boca não sairia nunca a menor menção do corrido, não fosse, dias depois, Nora ter dado com a língua nos dentes, com uma companheira de lavagem de roupa na beira do corgo, onde elogiou as vantagens do seleiro no isso e no aquilo. Vai daí que essa tal companheira não se preocupou em fazer segredo para o marido, amigo de Sebastião.
        - Tô sabeno, home, to sabeno das suas estripulia.
        - Ques estripulia, sô?
        - Cacilda me contô que istrudia ocê passô a Nora na cara.
        - Sê besta! Nem fala num trem desses, sô!
        - Vai querê negá? Inda ela disse que a Nora inté gavô munto ocê, que fez, que aconteceu, lá na tulha da fazenda.
        - Boca de siri, rapaz! Faz de conta qu’ocê num sabe de nada!
        - Ah, é! E cum’é que ela é? Das boa?
        - Ques coxa, sô! Ques carne! Quem tá bem servido é o desgraçado do Rufino!
        - Agora, ocê tomém, uai!
        A história a partir daí deu pano para as mangas. Os encontros se amiudaram até que o vendeiro, num aperto dos intestinos, pegou os dois dentro da privada de madeira em plena prática de besteira: o traidor com uma perna pendurada pelo buraco por onde se faziam as necessidades. Tempo teve Sebastião de sumir, o que não aconteceu com Nora. Essa, coitada, levou uma surra de fumo de rolo de ficar de molho em água de sal e vinagre, as costas que eram vergões só.
        Sebastião, ao saber dos maus tratos sofridos pela amante, se arvorou em valente e quis ir tirar satisfações com Rufino, coisa, aliás, que não passou da soleira da porta do quarto, barrado que foi por Marcelino, ouvinte de seus particulares. Aí é que ele ficou mais brabo ainda.
        - Eu ainda vô às forra! Eu quebro a cara daquele cachorro! – era o que sabia dizer ao amigo, que retrucava:
        - Larga disso, dexa de bestera, Tião!
        Amainado aquele espírito de fera, a vida voltou ao normal para o seleiro. Porém nem de longe lhe passou pela cabeça procurar Nora, trancada a sete chaves, na casa dos fundos da venda, de não arredar o pé, nem para ir lá fora, sem que Rufino ficasse de olho em seus passos. Se havia situação que prometia durar para sempre, era essa. Soube, entretanto, a mulher, nos tremeluzes do quarto e nos aconchegos das cobertas, reconquistar aos poucos sua liberdade. Até que uma noite, mais desajuizada ainda, foi parar num baile em casa de Antônio Fuleiro, com desculpa de ir ver a mãe.
        Quando Nora chegou, o espanto de Sebastião, que lá se encontrava para uma dança, fez seus olhos se arregalarem como se estivesse vendo o próprio diabo. Ora, veja só a danada da negra procurando chifre em cabeça de cavalo! Depois daquele caso todo, ela ali, cheirando a extrato, em roupa nova, e o corno lá na venda a despachar um quilo de açúcar para o Zé Pedro, duzentos e cinquenta gramas de bicarbonato para o Arcionílio, e outros pesos e outras medidas para os fiados do borrador. Veja só o desplante da mulher, bonita que ela só, se dirigindo para o embaraçado Sebastião, trêmulo como vara verde:
        - Ocê tomô um chá de sumiço, meu nego. Vim dançá uma parte com ‘cê.
        Nada mais faltou ao embaralhado negro para encher-se como biju. No volteio da sanfona de Astolfinho, saíram os dois contando a passos o salão da casa do Antônio Fuleiro, como se fosse em dia de festa. A música ainda mais gostosa no calor e no cheiro da Nora.
        - Senta o sarrafo, Astorfinho!
        A briga arrumada com a chegada do Rufino, entrando de supetão no baile, a faca de cortar salame na cinta, foi de ser contada ainda por muito tempo. Sebastião mal teve tempo de desviar a mulher para o lado dos músicos e o facão tiniu no ar, indo cravar-se num dos esteios da sala. Pegando de surpresa o traído, por um segundo desarmado, varejou-lhe na cara o candeeiro mais à mão, que, por um triz, não o transforma numa tocha humana. Desnorteado com a pancada, Rufino apanhou que nem boi ladrão, sendo corrido, ainda, escada abaixo, para desmoralização do seu nome e da sua venda, posteriormente conhecida como Venda do Capão.
        Para quem não tem mesmo um pingo de vergonha na cara, difícil não foi, corridos uns sete dias do acontecido, ir até a choça da mãe da Nora, implorar pela volta daquela que lhe esquentava o colchão e preparava os bolinhos da venda. Mas, para que sua cantilena não caísse em desprestígio, levou uns presentinhos, “coisa à toa, dona Marieta”, com que conquistou sogra e filha. E melhor argumento não houve.
-o-o-o-o-o-o-
        Tudo morrido e enterrado, pensava o velho Sebastião Seleiro. “Águas passadas, coisas do tempo do cagá de coque”.
        Puxou uma tragada mais longa a ver se voltava, outra vez, no tempo. O peito fracassado misturou, lá dentro, a fumaça e a catarreira grossa que já o fizera cuspir sangue mais de uma vez. Faltou-lhe o ar. E, num sorvo pastoso, uma tosse empesteada botou para fora placas de sangue. Mais tosse a fazer-lhe os olhos esbugalhados pelo esforço. Mais sangue. Pedaços de pulmão. Menos ar. O rosto inchado, a veia do pescoço dilatada, a ronqueira na caixa do peito. Tosse, tosse, tosse!... Golfadas de sangue e farpelas do órgão esbagaçado. Menos ar. Mais tosse. E o corpo tomba sobre a armação da cangalha, a sovela varando-lhe a bochecha esquerda com um filete de sangue.
        Aurélio Pereira, o patrão, montado em seu burro de sela, passa pelo quadro, que não entende:
        - Tirando uma pestana, hem, seu Sebastião?! Assim nem no dia de São Nunca essas cangalhas ficam prontas!
          E bate a porteira atrás de si, rumo da vila.

Cangalha de couro (em selariamarlex.com.br).



11 de novembro de 2016

QUEM MATOU JOÃO SOLDADO?

  
         Donga arriou na mesa quadra e quina, fechando a cacheta de cunca. Era a terceira vez que ganhava naquela noite de três de agosto. Os parceiros de jogo, mais quatro amigos, refizeram a banca de dois cruzeiros cada. Um acendeu cigarro de palha, depois de picar na concha da mão, com canivete amolado, o fumo de rolo grosso e cheiroso. Outro, mais chegado a coisas modernas, enrolou, rápido, o seu em papel Fio de Ouro. Este, o Edvar Abreu.

        Lá fora a noite era ainda mais escura que a sala fracamente iluminada por uma lamparina no centro da mesa de carteado. Chovia há alguns dias, ininterruptamente, aquela chuva choradeira e mansa que entra por dentro dos ossos e das coisas da casa: camas, cadeiras, mesas, janelas, assoalho, traves e baldrames. Motivo mais do que suficiente para a falta de luz elétrica: constante atrapalho nas linhas. 

        - Chuva boa pro arrozal, não é mesmo, Dídimo?

        Distraído, Dídimo não respondeu: atenção voltada para uma trinca de quatro, uma liga de seis e sete de ouros e mais outras cartas menos importantes. Mas, de fato, aquela era a chuva que todo plantador de arroz, como Donga, gostava de sentir. Propriedade na vargem, grande extensão plantada com arroz pacholinha, até a banqueta, nessa época do ano, ficava meio sem serventia, na sua função de irrigar as terras.

        Dídimo, o mão, descartou a primeira e comprou, logo a seguir, o oito de ouros:

        - Como é que você disse mesmo, Donga? – Novo descarte.

        - Essa chuva... boa pro arroz.

        - É verdade! Você deve fazer uma boa colheita este ano, não é mesmo?

        - Por volta de umas duas mil sacas de arroz em palha. Já teve ano melhor, mas este está muito bom. - Donga sempre a se lamentar do presente.

        Edvar estendeu o braço em direção ao baralho. De repente, dois tiros, vindos da janela entreaberta, estrondaram perto; pelas costas, à traição. Desamparado, seu corpo tomba sobre a mesa, lambuzando de sangue a toalha branca, empapando as cartas.

        A calma cedeu lugar ao desespero. Aqueles homens maduros, cada um mais desatinado, atiraram-se ao chão com medo de que a desgraça aumentasse de proporções justamente sobre suas peles.

        Passado algum tempo, Donga, o dono da casa, correu ao quarto e pegou sua garrucha de dois canos. Alair Moura sacou da cintura o trinta-e-oito que sempre trazia consigo e acompanhou o amigo até a porta da frente. A escuridão, porém, escondera o autor dos disparos. Os dois voltaram à sala e encontraram Antônio Simplício e Dídimo, janela aberta, procurando o assassino, na inocente atitude de quem o iria encontrar, talvez ainda escondido da chuva sob o avançado das telhas. A lamparina mal deu para alumiar as pegadas grandes que ficaram marcadas na terra encharcada. Pés grandes, pisadas profundas.

        Alair, quando chegou à casa do Jáder Pinto, do outro lado da pracinha, encontrou o subdelegado pronto para sair em busca do local de onde partiram os tiros. Este, vez e outra, tinha lá seus apertos com crimes assim. Liberdade não era, por assim dizer, uma vila sossegada. Há alguns meses, dois ou três, a família Peçanha tinha entrado em luta com a dos Moreira: questões de serventia de água de um valãozinho simpático que cortava ora a propriedade de uns, ora a de outros. A cadeiazinha sempre tinha hóspede, coisa sagrada.

        Quando os dois se dirigiam à casa de Donga, o subdelegado tomando ciência do ocorrido através do relato de Alair Moura, a chuva já passara. Mesmo assim, o homenzinho da lei vestiu seu pequeno corpo troncudo com uma capa gaúcha velha de outros invernos.

        O exame das marcas no chão era simples como de se esperar: olhos aguçados, na frente dos quais se ajeitavam uns óculos de aro redondo e fino, levemente folheado a ouro; corpo agachado sobre os calcanhares protegidos por sapatos com galocha; capa gaúcha resguardada do barro.

        Ali estavam os pés grandes chapados na lama. Dedos projetados para fora, como querendo fugir daquela parte de tamanho acima do normal. Pés de orangotango ou coisa parecida. De certo, só isso. O resto são hipóteses: pistoleiro de aluguel, empreitada traiçoeira, quem mandou, quem executou. Coisas da competência do Jáder Pinto, subdelegado nomeado da localidade. Resolução difícil. Enfim, a vida de gente da lei tem dessas mazelas, dessas questiúnculas: palavrinhas preferidas do dono do único posto de revenda de querosene e gasolina, acumulando há três anos essa função ingrata.

        Enquanto Jáder Pinto inquiria um e outro participante daquele joguinho sem pretensões sobre o ocorrido, foi aparecendo um borbotão de gente interessada no saber o que é que houve, o que é aconteceu. Sem perda de tempo, alguns fatos arrumados na cabeça, o subdelegado dirigiu-se à casa de João Soldado, a fim de solicitar-lhe ajuda na captura do assassino.

        Isolina, a mulher, reclamou que ele, mal chegado, já devia sair com aquele tempo ruim. João resmungou qualquer coisa, tornou a se enfiar no dólmã molhado, cobrindo a cabeça com o quepe puído e velho de soldado da polícia meganha. Para se proteger do frio insistente, deu uma golada no litro de cachaça, cuspiu grosso no canto da cozinha de terra batida e fez careta como que desaprovando o paladar da branquinha, se bem que gostasse muito de uma lambada de vez em quando. Acendeu, em seguida, na brasa de um tição, o toco de cigarro de palha e, sem se despedir, saiu, fechando atrás de si uma porta mal-ajambrada no caixonete. Olhou para o céu a procurar uma possível lua desembestada naquela noite e exclamou para seus botões:

        - Eta, noite escura, sô! Eh, breu!

        Longe dali não ficava a casa do Apolinário, soldado também como ele. Chegou manso, desviando-se de uma e outra poça d’água, e bateu firme três vezes, conforme a senha, na porta do companheiro. De dentro, respondeu a voz rouca e cansada do velho soldado já preste a se aposentar:

        - Guenta um pouco, ô João, que já vou abrir a porta!

        - Não precisa, Polinário. Seu Jáder Pinto foi me chamar pra gente procurar quem é que matou o seu Edvar Abreu.

        - Matou quem?!

        - O seu Edvar, da Fazenda do Fogão.

        - Cruz credo! Logo o seu Edvar?!

        - É... Mas anda depressa que ele já tá esperano a gente lá no bar do Tonho Pinto.

        - Já tou ino. Pera um pouco!

        Num tico de tempo, Apolinário já se apresentava grotescamente fantasiado de polícia: o mesmo dólmã surrado do companheiro, quepe amarelado pelo tempo compondo a farda com uma calça de riscado barato; nos pés, alpargatas em melhor estado.

        - Hoje vou de precata porque tá meio frio e num posso tá apanhano constipação. – tentou se justificar ao ver os pés do outro amassando o barro.

        Era justamente por causa dessa indumentária mambembe que o povo de Liberdade andava dizendo que aqueles dois só eram polícia da cintura para cima e de frente. Porque, quando a coisa apertava, era de praxe ver a lei, em suas calças particulares, de fundos, azular da zona contestada. Se bem que era da ciência do povo, desde há uns quatro anos, ao chegar à vila o João Soldado, que aquele marmanjo de cara abestalhada tinha umas cinco mortes nas costas. Todas elas sem punição.

        O bar do Tonho estava atulhado de gente, todo mundo querendo detalhes do caso. As testemunhas não se cansavam de repetir o relato, cada um a seu modo, acrescentando, ora cá, ora acolá, um dado a mais, uma observação mais particularizada, um vaticínio tardio de desgraça rondando a casa. Alair Moura, esse então, exagerava na história da busca empreendida com o Donga, sacando do trinta e oito e o brandindo no ar como um facão, sempre que chega ao ponto em que dizia: “Aí, nós não vimo nada no breu da noite. Ah, seu eu pego aquele filho de uma égua!”

        Jáder Pinto, agradecendo os préstimos de mais de um afoito desejoso de participar da captura do desalmado, começou a vasculhar a vila, auxiliado pelos dois cães de fila piolhentos, o João Soldado e o Apolinário, garboso com suas “precatas” seminovas. Não ficou beco, rua ou quintal sem receber o faro da lei. Até mesmo o ouvido funcionou apurado, no silêncio da noite, a querer ouvir uma respiração ofegante, um passo acelerado a fugir na lama e no barro. Os olhos fracos do Jáder Pinto e do Apolinário se esforçaram inutilmente na percepção de um vulto fugidio, de uma sombra escorreguenta, de uma visão estranha. Nada!

        O jeito foi voltarem os três, desolados, principalmente o subdelegado, ao bar do Tonho, cerca de duas horas depois. Do povaréu que se juntou em volta da conversa, só os mais novos ficaram aguardando o “resultado das investigações policiais” que, segundo Jáder Pinto, “tinham-se mostrado infrutíferas até o presente momento”, vocabulário típico dos relatórios que, lá uma vez ou outra, remetia à Delegacia de Polícia de Bom Jesus, a sede do município, dando conta de seu trabalho.

        - Ô Tonho, me bota aí dois dedos de camulaia.

        Pelo visto, João Soldado estava mesmo sentindo frio: tremendo, virou o copo, a calibrina esquentando goela abaixo, o bastante para dar motivo a uma piada de mau gosto:

        - Nervoso, hem João?!

        - Sê bobo, sô!

        - Tá tremeno que nem vara verde! – confirmou o impertinente.

       - Tou só é com frio! – esbravejou o soldado da cara abestalhada. – Bota mais uma, Tonho!

        O subdelegado, perdido entre uma suposição e outra que cada qual procurava apresentar, não deu importância àquele diálogo. Sorveu, também, o seu gole de pinga, limpando a boca com as costas da mão, e pôs um fim no ajuntamento do bar:

        - Por hoje, não adianta mais. O jeito é a gente começar as investigações amanhã bem cedinho. Apolinário e João podem ir. Boa noite, gente!

        O burburinho remancheou no bar do Tonho ainda por uma boa hora. João Soldado bebeu mais um gole e saiu do bar, aquele porte de embaúba desconforme gangorrando sobre os pés a se agarrarem ao barro no rumo de casa. 

        Dídimo, meio chocado com a cena há pouco presenciada, tomou, também, o rumo das cobertas. Queria descansar o corpo e a cabeça, procurar esquecer o caso. Nos seus ouvidos permaneciam ainda frescas as palavras do amigo acerca da propriedade da viúva Castorina, esta às voltas com uma hipoteca de terras.


        Castorina Andrade, como meeira do finado Zeca Andrade e administradora do espólio, não conseguiu tocar a contento a propriedade da família, a Fazenda da Boa Esperança. Depois da morte do marido, homem de tino e conhecimento, a colheita do café começara a diminuir ano a ano. E, já decorridos três anos do desenlace, estava ela agora, filhos menores de idade, toda embrulhada num negócio mais estranho ainda: a hipoteca das terras, aí incluído o casarão da fazenda, de vencimento próximo e sem dinheiro à vista. Empréstimo para pagar empréstimo não era coisa que o banco fizesse. Nem que aí entrasse a penhora da próxima apanha. Quando os capitalistas inventaram a hipoteca não foi para encher a barriga de ninguém. Era o que costumava dizer o Edvar Abreu, vizinho de fazenda.

        Castorina, velha amiga da família Abreu, não tivera realmente alternativa a não ser o Edvar Abreu, quando precisou da ajuda de alguém para resolver o problema. Prestativo, desprendido de prevenção contra aquela mulher, prontificou-se ele a conseguir um empréstimo em seu nome, no mesmo e único Banco Hipotecário e Agrícola, em Bom Jesus, para tirar a família da enrascada. Por isso mesmo, já duas vezes estivera no estabelecimento de crédito, renovando a ficha cadastral, levando a papelada que essas ocasiões exigem. O gerente Ranulfo Santiago marcara o fim do mês de julho para que o crédito de mil contos de réis estivesse lançado na ficha do fazendeiro, prazo mais do que suficiente para a viúva saldar a hipoteca, a vencer no dia dez de agosto.

        Essa atitude chateou alguns fazendeiros do lugar, de olho naquela alqueirama boa, de colheita garantida, onde só faltava, de vera, alguém com mais tirocínio de administrador. Isto porque, caso a hipoteca não fosse saldada a tempo, a propriedade iria a leilão, e sempre havia a possibilidade de se arrematar por um precinho à toa, qualquer ninharia, a fazenda.

        Júlio Garcia, Donga Nunes e Antônio Simplício haviam declarado seu interesse pela Fazenda da Boa Esperança. Donga era um dos que mais falara no assunto nos últimos dois meses, tendo, inclusive, perguntado reservadamente ao amigo Edvar Abreu se ele não estaria arriscando capital e prestígio num negócio já dado por liquidado, “negócio podre”, insistia ele.

        - Confio muito na honradez de dona Castorina, além de ser seu amigo de muitos janeiros. Tou sabeno dos riscos que corro, se bem que ela tenha dado em garantia a próxima apanha do café. – Explicação até por demais esmiuçada. Mas era do feitio do Edvar essa abertura de alma, essa confiança nos amigos.

        - Dia cinco de agosto a gente vai até Bom Jesus pra eu passar o dinheiro pra ela. Na mesma hora ela liquida a hipoteca. – Edvar Abreu e sua incontinência verbal.


        Ali estava o corpo inchado do ex-dono da Fazenda do Fogão. Inchado, o corpo: dos pés à cabeça. Nesta, olhos salientes parecendo pular da linha do rosto; nariz intumescido esbarrando nos lábios exageradamente volumosos; bochechas salientes. Quadro de não se querer ver com insistência. Visão desconcertante mesmo para os mais duros. Segundo o Dr. Ademar Figueiredo, as duas balas, a da nuca e a do pulmão esquerdo, estavam envenenadas: coisa para matar, mesmo pegando no cotovelo. Plano de não falhar nem de raspão. Isso a causa da inchação.

        Em volta do defunto, curtido a broa de milho e café-com-leite entremeando cochichos e algumas risadas esporádicas, estavam a tristeza sentida dos amigos e a curiosidade gulosa dos demais. Especulava-se, nessa manhã de quatro de agosto, o motivo da tragédia: a história da fazenda hipotecada que ele iria salvar no dia seguinte ao do enterro.

         Das carpideiras assíduas, amantes da dor alheia, não se esperava choro dos mais comovidos, se bem que contritos, assim como o debulhar de lágrimas da administradora da Fazenda da Boa Esperança, agora, duas vezes desamparada. Dona Castorina, além do amigo, cuja morte encomendavam a Deus, através de um terço zeloso e sofrido, as mulheres de véu negro, sentia no coração o desamparo financeiro, causa de uma possível penúria da família, caso nos próximos seis dias não conseguisse acertar as contas com o Hipotecário e Agrícola.

        O irmão mais velho de Edvar Abreu, o Vitório Abreu, em casa de quem o finado aguardava o enterro, não faria, certamente, o mesmo negócio. Ainda mais porque, escrivão de paz, não dispunha de soma tão avultada de mil contos de réis, nem em cartório, nem em sonho. Não bastasse isso, ele não mantinha o mesmo relacionamento com Castorina, já que não era vizinho como seu irmão fora: fazendas ralando divisas.

        Donga Nunes, tarja de pano preto na lapela do paletó, semostrador dos laços de amizade dele e do defunto, chapéu seguro pela mão esquerda na altura dos rins, cumprimentou Carmelita Abreu, a viúva de Edvar, lamentando o ocorrido e clamando aos céus justiça rápida. Abraçou, comovido, o escrivão, com quem chorou a perda do amigo leal, do fazendeiro próspero e do benfeitor do próximo, assegurando estar a vaga dele, defunto, sem perspectivas de ser preenchida na sociedade da vila. Amealhou um e outro pensamento do Almanaque Biotônico Fontoura mais recente, para garantir que “vida, só uma”, e aproveitou a mão direita folgada para metê-la numa asa de caneca de leite queimado com canela em pau, quentinho de sair fumaça. Como a bandeja de brevidade e broa também passasse por ali, dependurou o chapéu de abas largas no cabide do canto da sala e ocupou a mão esquerda.

        Dídimo Madeira e Antônio Simplício conversavam tão entretidamente no quarto da frente que só notaram a chegada de Donga quando este, com a boca cheia de broa de milho, soprou-lhes alguns farelos misturados a um bom-dia grave e redondo. E engataram numa conversa animada, cujo assunto estava estirado num estrado improvisado, enquanto se aguardava a construção do caixão pelo Zé Carola.


        A manhã de quatro de agosto, mal raiada, pegou Zé Carola na labuta do fabrico do caixão: encomenda de render bom cobrezinho, visto nele abrigar, dali a umas quatro horas, defunto endinheirado.

        Lá pela volta das nove horas, suspensa a diligência para Jáder Pinto fazer sala ao amigo “barbaramente assassinado”, conforme repetira várias e enfáticas vezes o subdelegado, João Soldado deu um pulinho até a oficina do marceneiro, numa bateção de perna de desocupado.

        - ‘om dia, seu Izé!  - gorgolejou o cumprimento o soldado.

        - ‘om dia! – mesma preguiça de abrir a boca.

        - Encomendinha das boa, hem?! – soldado e dinheiro.

        - Sem falsidade, ô João, eu preferia nem tá fazeno esse caixão. Sujeito bão era o seu Edvar, rapaz! Pessoa de num fazer mal a mosca.

        - Verdade... mas uns cobrezinho sempre faz bem, né? Isso sem querer ofender seu sentimento, seu Izé, que sei que o senhor era amigo dele.

        - E do peito!

        - Adesculpe se lhe ofendi!

        Conversa vai, conversa vem, Zé Carola no vira e mexe do serviço, João Soldado no encosta que se recosta na procura de uma melhor posição para levar adiante o bate-papo, pito fedorento de fumo de rolo barato, reco-reco do serrote ofendendo madeira das boas. Num desses movimentos, escorna-se numa das traves de sustentação do barraco-oficina aquele mondrongo desconchavado, gola do dólmã sebenta de dar nojo, aquela cara de besta fugida, aquele porte esguio de embaúba de preguiça: vislumbre suficiente para o Zé Carola observar:

        - Gozado, ô João, esse pezão seu é tal e qual as marca do chão da jinela do seu Donga, hem?! – Brincadeira mais sem graça de quem olhou de cima a baixo o meganha piolhento.

        - Deixa de besteira, seu Izé! Sê bobo, sô! Nem diz um disparate desses!

        O soldado desmanchou aquele tamanho todo na tentativa de esconder os pés grandes, coisa impossível naquele momento.

        Dissera por dizer o Zé Carola, irônico e brincalhão como ele só! O soldado, aliviado, enxugou a testa preocupada com a manga do dólmã, cuspiu entre os dentes, forçando o jato com a língua, ajeitou o quepe, passando a mão imensa pelos cabelos em desalinho.

        - Bão, deix’eu ir andano, seu Izé, que tenho mais coisa pra ver! Inté! E tira essa maldade da ideia!

        - Inté! Foi só brincadeira, ô homem!

        Observação desse quilate é realmente incômoda. E ficou sem ter com quem trocar uma prosa o carpinteiro maritaca. 


        A partir da morte de Edvar Abreu, a chuva, estranhamente, deixara de regar as plantas, encharcar a terra, correr contente pelas grotas verdes de Liberdade. O povo todo já sabia que aquela estiagem súbita, em época chuvosa, era coisa ligada ao assassinato do fazendeiro da Serra do Fogão.

        A Fazenda da Boa Esperança, de Castorina Andrade, estava de leilão marcado para o dia trinta de agosto.

        As investigações policiais revelaram-se inúteis, motivo suficiente para fazer reaparecer as mazelas e as questiúnculas tão caras ao subdelegado. Já por diversas vezes, ele interrogara a população da vila, salvo menores e bichos. Ninguém sabia de nada. Isso levou o subdelegado a solicitar auxílio, através de ofício, à Delegacia de Polícia de Bom Jesus, “providência a ser atendida oportunamente”, conforme resposta rápida dois dias após. 

        Enquanto aguardava perito formado pela Escola de Polícia da capital, Jáder Pinto voltou a seu armazém de tambores de querosene e gasolina, onde não perdia oportunidade de matutar sobre o crime, na tentativa sempre frustrada de desvendar o mistério que o envolvia.

        Por isso é que ele aceitou o convite do Donga Nunes para um joguinho de cacheta naquele vinte e nove de agosto, domingo, de hora marcada para depois da janta. Lá estariam, também, o Dídimo Madeira, o Antônio Simplício, o Alair “Trinta e oito” Moura, apelido que a turma do bar do Tonho lhe pusera depois de umas mil repetições da história: “Aí, nós não vimo nada no breu da noite. Ah, se eu pego aquele filho de uma égua!”.  Joguinho sem compromisso, só pra distração, nas palavras do Donga.


        A toalha de linho branco, lavada com todo o cuidado para não guardar qualquer vestígio do sangue do amigo, estava novamente cobrindo a mesa de jogo. Os dois baralhos de papelão, um pouco gastos, pulavam nas mãos ágeis do dono da casa, carta entrando em carta. A banca, de dois cruzeiros por cabeça já feita, marcou o início da primeira mão.

        - Ô Donga, depois da morte do Edvar a chuva sumiu, hem? – Lembranças do Dídimo a futucar o atento Donga e seus pares, suas trincas e suas ligas de cartas.

        - É mesmo, Dídimo. Agora que o arroz tinha começado a cachear, precisava que a chuva continuasse a cair. Só a banqueta não vai dar conta de aguar aquele arrozal todo, não. Minha esperança é uma novena que a mulher ta fazeno aí. Nessas ocasiões, eu sempre conto com uma mãozinha de São Pedro.

        Jáder Pinto, à esquerda de Dídimo, comprou o sete de paus do descarte do companheiro e o enfiou entre o seis e o oito, empurrando com o cotovelo:

        - Ê gavetinha boa, sô! – ficando bate, não bate,

        O cunca corria tranquilo, principalmente para o subdelegado, que acabara de ganhar a terceira rodada, quando, repentinamente, ao se abrir a janela com um súbito sopro de vento, Donga cai para trás, tombando sobre o encosto da cadeira, como se empurrado por um potente coice de burro. O grito do homem apavorou os companheiros, por segundos imobilizados diante de fato tão despropositado. Imediatamente, levantaram-se os quatro para socorrer o amigo. Qual não foi sua surpresa ao notarem Donga debatendo-se como a querer tirar da garganta mãos firmes que a comprimissem. Jáder Pinto puxou por um braço e Alair por outro, na ânsia de auxiliar o fazendeiro, já com o rosto avermelhado. Assim que o pescoço ficou desimpedido, Donga começou a gritar, num delírio louco:

        - Que é isso, Edvar? Que é isso? Sai de cima de mim, seu merda! Você morreu, você não existe mais! Aquela fazenda vai ser minha, seu fazendeiro de uma figa!

        Entretanto, à medida que Donga vociferava, mais seu corpo se contorcia, se estrebuchava, respiração dificultada, voz gutural. A cena deixou estáticos os colegas de jogo, boquiabertos diante de coisa tão assombrosa.

        - Você não vai me impedir! Argh! Para com isso, Edvar! Me deixa em paz! Você morreu, não pode estar aqui se vingano!

        Jáder Pinto não acreditava no que os olhos e os ouvidos de guardião da lei testemunhavam. Um ou outro acorreram à cozinha a pedir cuidados à mulher do Donga; o subdelegado a postos.

        - Me deixa viver, Edvar, pelo amor de Deus! Eu preciso viver! Eu não devia ter feito isso, mas eu queria aquela fazenda! Não faz isso comigo, Edvar! Eu tou arrependido! Não fui eu quem mandou o João Soldado botar veneno nas balas! Isso foi idéia, argh!, dele, aquele cachorro bernento!

        Dos xingamentos iniciais ao pedido de perdão e ao arrependimento de agora, correspondeu maior agonia, maior desespero, respiração mais difícil, coração descontrolado. Pouco a pouco, as palavras foram cedendo lugar a ganidos e gemidos. Os músculos retesados, os olhos esbugalhados, a boca espumando como um cão danado, Donga estremeceu o corpo na última manifestação de vida que lhe corria pelos nervos. Uma inchação esquisita começou a tomar conta do cadáver, ainda quente, processando uma transfiguração que marcaria em definitivo a vingança de Edvar: as feições de Donga, paulatinamente, foram-se mudando até que assassino e assassinado tivessem a mesma máscara fatal, como gêmeos na morte.

        Nesse instante mesmo, a fraca luz elétrica, interrompida há cerca de dois meses por queda de rede, voltou a iluminar mortiçamente a vila. A chuva, desaparecida desde o dia quatro de agosto, recomeçou a beijar a terra com sua língua líquida, seu lábio fresco. 

        Jáder Pinto e Alair Moura, trinta e oito na cintura, partiram rápido no encalço de João Soldado, pistoleiro de aluguel da Zona da Mata de Minas Gerais, ali na vila convertido em defensor da lei. Antes mesmo de chegarem ao casebre onde o bandido morava com Isolina, ouviram dois tiros, dois estrondos de garrucha quarenta e quatro de se carregar pela boca.

        Do lado de fora da casa, mulher gritando na janela, estava, de bruços, fuçando o barro, o corpo inerte de João Soldado: nuca em frangalhos, pulmão esquerdo estuporado.

Jheronimus Bosch, A nau dos insensatos, 1490-1500 (Museu do Louvre).