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23 de setembro de 2011

CORRIGINDO O POLITICAMENTE INCORRETO

Não quero ficar à margem da modernidade. Quero ser, como se dizia outrora, up-to-date. Detesto estar por fora, ainda mais que não sou umbigo de vedete (Na minha época de menino só as vedetes punham os umbigos de fora, o que gerou a frase: Mais por fora que umbigo de vedete. Depois as coisas começaram a melhorar.)
Por isso, estou antecipando-me às cabeças mais antenadas e venho propor a alteração do título de algumas obras, ou de algumas expressões consagradas na língua, porém eivadas (gostaram do adjetivo?) de preconceitos.
Aí vão elas.
O negrinho do pastoreio – Lenda do sul do Brasil também presente no Uruguai, contada pelo gaúcho Simões Lopes Neto no livro Contos Gauchescos & Lendas do Sul (1912), que agora, está totalmente fora dos padrões da correção política. Seu título será alterado para O afrodescendentezinho do pastoreio.
Criado mudo – Peça do tradicional mobiliário doméstico brasileiro, cujo nome foi dado, porque, à época de sua criação, os criados não tinham direito à voz. Hoje tudo mudou (sem trocadilho): quase ninguém tem mais criado em casa. Na verdade, boa parte das pessoas se cria nas ruas. Em todos os casos, se o tiver, deve adotar o nome criado deficiente falante (forma popular) ou criado afásico (forma culta), a fim de se enquadrar aos novos tempos.
Cachaça Nega Fulô – Cachaça de excelente qualidade – e digo isso de ciência própria – fabricada no município de Nova Friburgo/RJ. Por um descuido de seu fabricante, saiu o nome politicamente incorreto. Vamos corrigi-lo para Cachaça Afrodescendente Fulô. O porre pode ser até o mesmo, mas o nome não.
O navio negreiro – Talvez a obra (1869) mais representativa entre todas as que escreveu, no curto espaço de sua vida no século XIX, o bardo baiano Castro Alves, “poeta colosso, sujeito moço, mas soube o que fez”. Como sempre foi um batalhador das causas sociais, certamente estaria entre os combativos politicamente corretos de hoje e mudaria o título de seu belo poema para O navio fretado para o transbordo de afrodescendentes.
A moura torta – Célebre conto popular da Península Ibérica, surgido à época da sua ocupação por forças da Al-Qaeda medieval vindas do Oriente Médio, via Magreb, comandadas por Tárique, que atravessou o Estreito de Gribraltar, no início do século VIII. Por isso, portugueses e espanhóis criaram a história de uma moura extremamente feia que aterrorizava as criancinhas, só para sacanear os sarracenos. Como hoje fazer isso é um perigo medonho, sugiro a mudança para A conterrânea de Maomé portadora de deficiência física deformante. (A história pode muito bem nem ser essa, mas fica politicamente incorreta, não é?)
O velho e o mar – Romance famoso (1952, The old man and the sea, no original) do não menos famoso Ernest Hemingway, inveterado escritor, casador e bebedor norte-americano que acabou por suicidar-se aos 61 anos de idade. Hoje não se pode mais chamar velho de velho, como todos estão cansados de saber. Inventaram tantas expressões hipocorísticas para atenuar os problemas advindos da vida longa, que quase não se veem mais velhos por aí. Sua obra hoje certamente se intitularia O portador de hipertrofia etária e o mar.
O escudo negro – Filme hollywoodiano de 1954, estrelado por Tony Curtis e Janet Leigh, os bonitões da época, e dirigido... por quem mesmo? Naquela altura não se dava muita atenção a diretores, mas vá lá: Rudolph Mate. Norte-americano às vezes é meio sem-noção mesmo. Já quando do seu lançamento ocorriam historinhas desairosas sobre o título do filme, que foi levado às telas do Cine Monte Líbano, em Bom Jesus do Itabapoana, em sessão nobre de domingo.  Parodiando a paródia da época que fazia trocadilho infame, o título deve ser: Os ânus dos afrodescendentes.
Terça-feira gorda – Embora hoje ninguém mais use esta expressão em língua portuguesa para referir-se à terça-feira de Carnaval, é bom que se lhe troque, no mínimo, o adjetivo incorreto. Nos Estados Unidos ainda se usa a expressão francesa Mardi Gras, que é exatamente terça-feira gorda. Os problemas com a balança devem ser restritos a quem os tem. Os outros, sob pena de serem acusados de incorretos, devem abster-se desse tipo de juízo de valor. Isto também vale para a farra do Carnaval, que deverá ser, assim, terça-feira com sobrepeso, mas já está fazendo regime para emagrecer.

Olha o mardi gras aí, gente! (imagem em anaviaja.blogspot.com).

Chocolate Diamante Negro – A Lacta, apesar de branca em sua marca – Lacta é praticamente leite –, deu nome politicamente incorreto ao seu chocolate mais famoso. Hoje deve renomeá-lo para Chocolate Diamante Afro.
Anão de jardim – Peça decorativa, normalmente de cerâmica, de duvidoso gosto estético, que se vende em barracas à beira da estrada para Itaboraí/RJ. Embora tenha esse pedigree de baixa extração, não merece o nome que lhe deram. Sugiro: prejudicado verticalmente de jardim. Quem sabe o preço de venda não possa ser até maior?
O vermelho e o negro – Obra-prima da literatura francesa (1830), escrita por Stendhal, que teve muitos problemas por suas posições políticas. No entanto – como diz o ditado: casa de ferreiro, espeto de pau –, não atentou para o título incorreto, mesmo em francês, de seu romance, Le rouge e le noir. Proponho a retificação para O vermelho e o afro.
Cabra cega – Inocente brincadeira infantil, da fase pré-cibernética, que fazia alusão à impossibilidade de o animal ter a visão das coisas que o cercavam. A palavra usada, então, hoje está marcada por um odioso preconceito, embora cego continue não enxergando do mesmo jeito. Em todo caso, proponho a alteração para cabra deficiente visual, ainda que não veja (Veja só: será que eu sou um cabra cego?) criança nenhuma brincado mais disso.
Loura burra – Atualmente não é mais possível identificar as pessoas pela cor de sua pele – a não ser a própria, a fim de ganhar sua cota em diversos estamentos sociais –, ou pelo emaranhado e colorido de seus cabelos, nem pela circunferência de sua cintura, assim como suas inclinações eróticas. Estes são tempos realmente difíceis, que nos exigem um grande conhecimento de sinônimos, antônimos, parônimos, homônimos e, por que não dizer, homófilos. Tem-se a impressão de que o burra, na expressão, não ofende tanto quanto o loura, por isso proponho sua alteração para mulher portadora de cabelos desprovidos de melanina e deficiente do ponto de vista do quociente de inteligência e das informações culturais adquiridas (Vejam só o trabalho que dá a loura burra.)
Negro é lindo – Música que deu título a elepê (O troço é antigo, como podem perceber: é de 1971.) do compositor, cantor, músico e guitarreiro Jorge Ben, meu ídolo e hoje nomeado Jorge Ben Jor, fazendo a propaganda da beleza dos de pele tisnada. Mais correto seria, numa releitura carregada de boas intenções modernas e que, com toda certeza, aumentaria a arrecadação de direitos autorais: O afrodescendente não é feio, não!
Roda de fogo – Novela da Rede Globo, exibida entre l986 e l987, que faz grosseira referência a problemas que ocorrem no fiofó da pessoa que sofre de prurido anal. Na época, as coisas eram muito liberadas mesmo, e os autores lançaram mão desta expressão chula para se referir àquela parte da anatomia do herói que passava por problemas. Nela, é bom dizer, não havia o sentido subjacente de “queimar a rosca”, como querem os maledicentes. Como evoluímos bastante no quesito mestre-sala e porta-bandeira, bem como em evolução e harmonia, sugiro mudança do título, agora com viés médico: Hemorroidas ardem.
O caso dos dez negrinhos – Agatha Christie, a autora do livro publicado em 1939, não tinha nada que se meter no caso deles. Deixasse para lá. Era coisa que não dizia respeito a ela. Mas sabem como são os escritores, não é mesmo? Bastava não usar a palavra politicamente incorreta negrinhos, que pegou muito mal, tanto que nos Estados Unidos, o livro ganhou outro título, a fim de que não fosse acusado de racismo. A edição brasileira traduziu ao pé da letra a expressão little niggers presente no título inglês. É preciso mudar, sem esconder o caso deles, pois hoje está tudo muito liberado: O bofe dos dez afrodescendentezinhos.
Por aqui ficamos, por hoje.

16 de junho de 2011

"PAN AMÉRICA" NA VISÃO DE UM LEITOR MEDIANO

Imagem em livrariaresposta.com.br.
Terminei de ler, há cerca de um mês, o livro Pan América, de José Agripino de Paula (Editora Papagaio), em reedição atual, que adquiri na Livraria Cultura, em minha última visita a São Paulo. E, como prometi em outra oportunidade, está aqui a minha impressão de leitor.
Tal livro já havia sido citado, de forma um tanto difusa, na música Sampa (1978), de Caetano Veloso, conforme ficamos sabendo depois, acho que por informação do próprio compositor. Por isto, sempre esteve em minhas metas de leitura.
Consta, ainda, que foi objeto de teses acadêmicas e de culto de artistas e intelectuais, logo após seu lançamento em 1967.
Quero dizer-lhes que não foi sem uma grande dose de sacrifício que levei sua leitura a cabo, já que leituras de textos literários, em princípio, devem ser prazerosas, a não ser que sejamos críticos literários ou revisores de textos.
No entanto impus-me este encargo, a fim de justificar a expectativa que tinha, motivada pelo conhecimento da existência do livro, há muito fora de catálogo, e também pela devoção de Caetano Veloso, um dos meus compositores prediletos, por ele.
Para reforçar, ainda mais, este encasquestamento em levar a leitura até o fim, estava o fato de que, durante todo o tempo em que fui professor, Caetano e Sampa se misturavam a outros autores e obras, daqui, de Portugal e de outros países lusófonos, d'antanho e de hoje, na exemplificação do uso competente e criativo de nossa bela língua.
Assim não podia fazer cara de pastel diante de obra incensada por um dos meus ídolos.
No prefácio que fez para esta nova edição da obra de José Agripino de Paula, Caetano reitera sua admiração pelo caráter inovador e revolucionário do texto, afirmando que a literatura brasileira seria outra com ele e que nada tinha sido produzido até então que se lhe pudesse comparar. Para ele, seria antes e depois de Pan América. E não teria havido o Tropicalismo (1968) sem a leitura prévia desta obra.
Vejam que importância ele atribui ao livro!
Ora (e quando se diz ora é porque haverá discordância), infelizmente vou ter de discordar de Caetano.
Em primeiro lugar, a massa impressa apresentada pelo texto - sem parágrafos - foi introduzida pelo chamado roman nouveau francês (1952), que antecedeu um pouco o livro de de Paula e já era tema de estudos do meu curso de Letras, em Literatura Francesa, no final dos 60. Não era, assim, recurso tão revolucionário.
Em segundo lugar, a despeito de conter em sua narrativa, personagens comunistas, agentes de repressão e espionagem, exércitos, guerrilheiros, CIA, nazistas e fascistas, o personagem-narrador (o texto é todo em primeira pessoa) é desprovido de ideologia, assim como o texto em sua totalidade. Diria mesmo que também não há Ética nas ações e nos comportamentos dos personagens na história narrada, apesar de atos por eles praticados que, aos nossos olhos, possam ter um quê de reprovação, como casos de pedofilia. Não há constrangimentos do personagem narrador em descrever suas ações neste sentido.
A seu turno, a fabulação fantasiosa e inverossímil, mais caótica que as histórias em quadrinhos de Robert Crumb - que veem à mente tão logo se começa a leitura -, não apresenta lógica, coerência ou sintaxe narrativa, parecendo produto de uma viagem psicodélica, movida por não sei que tipo de droga. E termina porque acaba, sem um desfecho que justifique o tempo que se gastou a ler. Como se todo o texto fosse produto de anotações inconsúteis juntadas, algum tempo depois, na composição do livro.
A narrativa rompe, também, com a lógica espacial, uma vez que, de uma frase para outra, a ação se desloca abruptamente de Brasília para a selva sul-americana, e daí para Hollywood, levando alguns personagens, abandonando outros, aparentemente sem um critério que se justifique na narrativa, a não ser a estilística do caos. Em boa parte, não se sabe mesmo onde ocorre a ação.
Já os personagens - figuras, sobretudo, do cinema americano das décadas de 50 e 60, com destaque para Marilyn Monroe, fixação do narrador - não guardam verossimilhança com pessoas, uma vez que morrem e revivem de forma aleatória no curso da história. Bem como se agigantam, se encolhem, inflam como balões e explodem, na narrativa alucinada do personagem-narrador.
Na linguagem literária propriamente dita, aquela de que o personagem-narrador se utiliza para contar a história e que estrutura a narrativa, é talvez onde estejam os maiores problemas, segundo meu ponto de vista.
O texto se faz arrastado pelo uso mais que exagerado - diria, mesmo, abusivo - do pronome sujeito, numa imitação tosca, e não vernácula, da sintaxe da língua inglesa. Há assim uma profusão de eu. Também repetem-se enfadonhamente palavras e expressões, em frases contíguas, produzindo uma dicção infantilizada e pesada estilisticamente, o que torna a leitura arrastada e maçante.
O exagero no uso da coordenação, em detrimento da subordinação, trabalha para que o texto, como estrutura frasal, se mostre pobre e incipiente, tal qual ocorre com alunos aprendendo a fazer redações.
Querer que tal tipo de frase seja inovadora é um equívoco. Sua estrutura está muito mais próxima à linguagem infantil do que da fala de um adulto razoavelmente desenvolto.
É como pretender, relativamente ao texto da música popular brasileira, descobrir avanços no texto do rap, do funk e do hip-hop, ou mesmo do chamado pagode romântico, diante da excelência poética que atingimos da década de 60 do século XX para cá. Ao contrário, penso mesmo que a poesia, ou letra, que acompanha estas novas manifestações se constitui numa regressão, numa involução, se comparada a qualquer texto produzido pela MPB.
Por todos e apenas esses motivos, o livro de José Agripino de Paula não faz falta a nenhum leitor ou a nenhuma biblioteca. Não vi, não senti e não vislumbrei em sua leitura nada do que Caetano disse, ou que justificasse a pretensa idolatria que despertou, quando do seu lançamento.
Desgraçadamente isto só vem demonstrar a distância que há entre as cabeças de ídolo e de fã.