30 de junho de 2012

C O R T E J O

meio-dia, sol a pino.
há um enterro na vila.

rumo ao morro da coréia
segue o féretro cansado,
levando um morto estimado.
e é possível sofrer
com a morte, mesmo o calor
sendo mais forte, escaldante,
que a lágrima que brota
do rosto de cada um.
é que dos olhos escorre
um suor, tipo de sangue:
são nossos poros que choram,
quando já ao coração
é proibido chorar.

segue o féretro ritmado
ao cemitério do morro,
enquanto todas as lágrimas,
rolando, olhos e rosto,
como se fossem um riacho
cheio de pedras, de seixos,
fazem com que o coração
despenque de morro abaixo.

e dentro do ataúde
um pouco daquela gente.

Cândido Portinari, Enterro, 1940, coleção particular (em portinari.org.br).
(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 18/3/2010.)

28 de junho de 2012

MINHA PRIMEIRA CALÇA COMPRIDA

Quando fiz doze anos, minha mãe me fez a minha primeira calça comprida. Lembro-me muito bem dela: era de um tecido riscado – finas riscas verticais espaçadas, na cor preta, sobre um fundo na cor algodão cru. Eu a achei bonita, se bem que de um gosto, ou um padrão, um tanto antigo, para as minhas pretensões de novel ouvinte do famigerado rock‘n’roll, que começava a dar seus trilos e grunhidos nas ondas hertzianas do rádio.

Naquela época, criança era criança e se vestia como criança. Não havia essa de os pais vestirem os filhos como se fossem pequenos adultos, como um pouco depois passou a ser moda. Hoje, por exemplo, com muita frequência, vemos meninas pequenas vestidas como periguetes e meninos travestidos de malandros e abestados jogadores de futebol. No meu tempo, não havia isso: eu era menino e como tal me vestia.

Só que ao fazer os tais doze anos, além de ter merecido de meu pai a deferência de poder andar em sua fantástica bicicleta inglesa Humber (veja crônica A bicicleta, de 8/3/12), minha mãe resolveu que eu deveria esconder as minhas compridas pernas, que começavam a ficar peludas, embora ralamente, pois não parecia coisa de bom tom demonstrar que já assumíamos a adolescência com todos os seus encargos hormonais.

Só depois de adulto – já burro velho, como dizemos lá –, é que desconfiei que a atitude de minha mãe deve ter vindo a reboque de um fato ocorrido anteriormente.

Alguns dias antes, estava indo passar o fim de semana com tia Alda, irmã de minha mãe, na casa da serra. Por essa época ela morava no início da subida da Serra da Boa Esperança, depois da Fazenda da Forquilha, no meio de uma natureza exuberante. Íamos a pé: ela, vários de seus filhos – ela tem nove entre homens e mulheres – e eu. Só o Zé Fábio era mais velho que eu, e apenas três meses. Os demais, todos mais novos.

Pois não é que um deles, o Elsinho, se virou para tia Alda e disse, em português claro e sem rodeios, quando chegávamos perto da casa do seu Manuel Pereira, onde tomávamos o caminho de ida:

- Mãe, sabia que o Saint-Clair já tem cabelo no saco?

A notícia não provocou desespero, nem trauma, embora tenha sentido em sua fisionomia certo ar de nojo. Tia Alda apenas me disse que, a partir de então, eu deveria sempre usar cueca, mesmo com o calção, que era a roupa de uso corriqueiro de meninos.

Eu fiquei sem jeito, pois isto era, até aquele momento, um segredo entre os primos, mas concordei com ela. E já me achei a partir daquela bifurcação da rua, no fim da Coreia – a casa do seu Manuel Pereira separando os caminhos da Vala e do Jacó –, uma pessoa diferente: eu deveria, a partir dali, usar cueca sempre. Acho que tinha virado homem!

Minha tia, penso então, deve ter comentado com minha mãe. Eu mesmo não lhe dissera nada. E ela providenciou a tal calça nova.

Não sem antes fazer uma recomendação em tom severo, das mães daquele tempo:

- Olha só, estou te dando esta calça comprida, mas não é para achar que já é homem. Se ficar com bobice de arranjar namorada, faço como a Colola fez com o Zé Carlos: meto a tesoura e faço dela uma calça curta.

Tia Colola era sua irmã mais velha e puniu meu primo, ao lhe dar sua primeira calça comprida e o encontrar na Praça Governador Portela já engatilhando namoro com certa menina. Linha dura como sempre foram nossas mães, quando o galinho garnisé metido a dono do terreiro chegou a casa, teve sua bela calça comprida reduzida a calça curta, a poder de tesouradas.

Meti-me dentro da minha e saí, naquela noite gloriosa de um sábado perdido nos anteontens, para passear na pracinha e mostrar aos meus amigos e demais circunstantes que havia virado homem. Não sabia muito bem as consequências disso, mas achava que ia dar o maior pé, para repetir também uma expressão da época.

E, com a recomendação em tom de lei draconiana ecoando em meus ouvidos, resolvi preservar a calça. Eu ainda teria muito tempo de homem feito pela frente!

ENFANTS- UN MONDE DIFFICILE
Imagem em bruixeta.centerblog.net.

26 de junho de 2012

VENTO DE OUTRORA

Venta lá fora agora.
É o mesmo vento forte que bate portas
Revira as roupas nos varais
Entorta as folhas das hortas
Anuncia nos assobios das pontas das cercas
O medo que se planta dentro de nós
Meninos que veem nas sombras da noite
Às horas mortas
Assombrações terríveis
Visões malditas
A preencher os espaços escuros dos nossos espíritos
Antes que a luz elétrica trouxesse a calma do progresso
A certeza de que meninos foram feitos para temer
Até que seus corações aflitos
Suportem todos os sofrimentos que lhes trará a vida.

Foto por Galileo, em www.galileo-web.com.

24 de junho de 2012

ITINERÁRIO PARA QUEM CHEGA A LIBERDADE

a estrada desce o morro do marta em curva e pó
e se aproxima vagarosa do calçamento
os paralelepípedos (palavra tão grande
quanto a vila)
amparam os passos as rodas os pneus os cascos
como colchões de ar
no silêncio da praça antônio guimarães
(antiga praça do sabiá)
e espalham-se por algumas ruas e travessas
antes de deixarem ou no morro da coreia
ou no morro do grupo escolar ou na ponte
do valão liberdade
quem apenas faz de liberdade
uma passagem minúscula
para uma viagem idem

na porta das casas dos botequins e das vendas
os olhares amigos vigiam quem passa
burro carroça automóvel cachorro boi cavalo gente
e cumprimentam
uns respondem outros não
uns outros param e trocam dois dedos de prosa
sem pressa
depois seguem ou se deixam ficar
para o jogo de sinuca
para o cisprandi
para continuarem a viver conforme têm vivido
esquecidos do mundo
perdidos no tempo
dispersos no coração de cada filho ausente

André Dunoyer de Segonzac, Le petit village et son église, 1884 (em artvalue.com).
(Publicado orginalmente em Gritos&Bochichos em 29/3/2010.)

22 de junho de 2012

SOBRE A CHUVA DE INVERNO

Guarda-chuvas expostos por camelô em praça pública de São Paulo.
Foto Breno Raigorodsky (imagem em vitruvius.com.br).


Ao sair ontem de casa, para ir à clínica de oftalmologia, a fim de vigiar minha saliente pressão ocular, fui confrontado por uma garoazinha chata dessa derradeira manhã soturna de outono, muito propícia a nos manter mais sob os cobertores do que a nos empurrar para compromissos externos.
Como fosse imperceptível do décimo terceiro andar, a garoa me obrigou a voltar pelo mesmo elevador, no intuito de me socorrer de um guarda-chuva.

Já munido com o estropício aparentado do urubu, foi só dobrar a esquina da Miguel de Frias em direção da Moreira César, para que cruzasse com vendedor ambulante fazendo seu pregão:
- Olha o guarda-chuva! Olha a sobrinha! Não se molhe na chuva! Olha o guarda-chuva! Cinco real, dez real!
E me veio à memória certo episódio relacionado a precipitações pluviométricas inesperadas, na única vez em que estive em Nova Iorque, acompanhado de mulher e filhos, lá por volta de 1996.
Era o último dia de nossa visita de sete dias à cidade, uma sexta-feira - embarcaríamos de volta na manhã do dia seguinte.
Saímos cedo do hotel com dois propósitos: conhecer o Museu de História Natural e a manjada Estátua da Liberdade.
Assim que saímos do museu, tomamos a linha do metrô que nos levaria até as proximidades do cais de onde partem os barcos para a Liberty Island.
Desembarcamos numa estação localizada em posição oposta ao atracadouro, o que nos fez atravessar a praça no sentido diagonal.
Havia acabado de partir uma barca. A próxima levaria ainda alguns minutos.
Pois foi o tempo exato de começarem uns raindrops keep falling on our heads. Diga-se, de passagem, uns raindrops de grosso calibre. Era verão no hemisfério norte.
O jeito foi despencar-nos em sentido inverso pela praça e enfiar-nos no mesmo buraco do metrô de onde havíamos saído há coisa de quinze minutos.
E resolvemos descer em uma estação qualquer, nas proximidades da Times Square, a fim, inclusive, de almoçar, já que até aquele momento nos tínhamos alimentado apenas de cultura e entretenimento.
Ao emergir do metrô, fomos recebidos por uma copiosa chuva muito parecida com a dos verões tropicais.
Só que, com uma grande diferença: não havia por perto nenhum camelô oferecendo os salvadores guarda-chuvas, tão comuns nessas ocasiões no Rio de Janeiro.
Não nos restou alternativa a não ser dar uma corrida até uma galeria nas imediações, onde, por sorte, havia um restaurante.
E lá, em terras de Tio Sam, pude constatar a supremacia do nosso comércio sobre o dos ianques: à mínima garoa, aqui no Rio de Janeiro - e em Niterói, of course -, ninguém se molhará. É só ter cinco ou dez real, para adquirir o trambolho que nos livrará de um banho inesperado. E com uma vantagem: a oferta atual está cheia de opções nas mais diversas padronagens, e não apenas naquela tradicional cor preta.
Ao voltar da clínica, algum tempo depois, e com a continuidade da garoa anunciadora do inverno, encontro o mesmo vendedor, agora andando em sentido contrário ao anterior.
É a garantia de que não nos molharemos. Nem na ida, nem na volta! Tudo porque, no quesito, somos primeiro mundo.

20 de junho de 2012

REDONDILHA DA TARDE MOLHADA

a janela se entreabre
sob a chuva vê-se a árvore
nos derradeiros da tarde.
nas folhas verdes nos galhos
apenas restos de pássaros
pequenos tufos plumagem
gorjeios que silenciam
nos derradeiros da tarde
que molhada recolheu-se
antes que a noite chegasse
sobre a copada da árvore
da janela avistada
nos estertores da tarde
antes que a noite chegasse
antes que a noite descesse
com sua escura voragem
sobre o restinho da tarde.

Van Gogh, A chuva, 1889 (em briantmaurer.wordpress.com).

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos em 26/312010).

18 de junho de 2012

TRATADO PERFUNCTÓRIO SOBRE A CARA-METADE

O homem, bípede implume, mamífero e sexualmente promíscuo, começou a ter problemas com a mulher, também bípede implume, mamífero, porém cheio de nós pelas costas, no dia em que acordou do profundo sono em que fora metido pelo Criador e se deparou com aquela bem acabada pessoa, cheia de curvas e reentrâncias, murundus e cacimbas, de voz suave, que lhe serviria de companhia pelo restante dos tempos, e da qual é impossível se desvencilhar, Deus seja louvado!

E verificou ele, o homem, que a criatura que lhe saíra de uma costela custaria muito mais que isto. Se fosse apenas o valor de uma costela, estaria tudo de muito boa relação custo-benefício, mais-valia, ou lá o que seja, pois ainda não se tinha criado a Economia, bem como os tais economistas e estudiosos encucados, cuja missão foi meter caraminholas na cabeça do povo (Vide Marx, Engels, Smith, Galbraith e Keynes, dentre outros.).
Em função desta relação próxima com o dito cujo homem, a mulher passou a ser sua cara-metade, enquanto o homem assumiu, em definitivo, o papel de pobre-metade, principalmente quando chega o dia de fazer as compras do mês, ou quando se aproximam aquelas datas fatídicas do ponto de vista econômico: Dia dos Namorados, Natal, Ano Novo, aniversário de namoro, de noivado, de casamento, e por aí afora.

No entanto, tudo isso era perfeitamente compreensível até então. O que a maioria dos leitores não sabe – e eu estou aqui para esclarecer – é o sistema de funcionamento desse ser que tanto admiramos e atrás do qual vivemos correndo, como se fosse uma cafifa destrambelhada no céu, após ter seu fio cortado por cerol, ou mesmo um balão de festa junina decadente, a bucha já se apagando, mas ainda potencialmente perigoso para a propriedade alheia.

Sandro Botticelli, O nascimento de Vênus, 1486 (em ricci-art.biz).
E aqui estou para explicar.
A mulher, após aquela qualificação inicial e confrontante com a do homem, a qual se baseia em aspectos externos facilmente observáveis, também tem o seu modus operandi, isto é, seu sistema de funcionamento, a sua fisiologia.

Toda mulher, ao chegar à puberdade, passa a funcionar em três voltagens, em três tensões: 110v, 220v e TPM. Até a puberdade é uma única tensão, que ainda não se definiu como 110v ou 220v.

A primeira delas, 110v – baixa voltagem –, é o modo de operação em que a mulher está tranquila, sossegada, calma, distensa. Este período, normalmente, se dá durante o sono e pode ser observado pelo seu ressonar macio como o ruído de motor de automóvel de luxo: praticamente imperceptível. Se houver ronco incomodativo durante o sono, pode ter certeza que ela ainda não se desligou do 220v. De dia, nas horas de sol ou chuva, e até o início da primeira novela, não se percebe tal funcionamento.
Também podem ocorrer períodos curtos de funcionamento nesta voltagem, após a aquisição de novo par de sapatos ou nova bolsa, após um passeio pelo shopping. O que cessa de imediato, quando seu parceiro lhe pergunta sobre o preço da nova aquisição e como pagar a conta do cartão de crédito, na data do vencimento.

A segunda tensão, 220v – média voltagem –, é  o modo de operação mais comum da mulher, excetuados o período acima descrito e o seguinte.
Em qualquer tarefa que desempenhe, a mulher trabalha em 220v. Enquanto seu homem vai a 75v, ela já está em 220v, correntes alternada e contínua, cheia de altos e baixos, com períodos de curto-circuito e descargas de adrenalina. E pede ao marido que lhe conserte a torneira a pingar, a fechadura que não funciona, a janela emperrada. Como sempre, ele diz: “Agora, não; manhã eu vejo isso!”. De repente, ela passa ao sistema TPM, e aí não adianta o marido pedir a cervejinha no sofá, enquanto vê o jogo de futebol! Já era!

Já a tensão TPM – alta voltagem – não ocorre, como se pode supor, apenas antes daqueles dias. Há mulheres, inclusive, que só funcionam nesta tensão. E aí, mermão, a casa costuma pegar fogo! Se você cria criação de terreiro, tipo galinha ou pato, os bichos não sossegam. Se você cultiva horta de hortaliças, a couve murcha, a cebolinha míngua, a salsa dá praga.
Quando esta terceira voltagem se limita apenas aos dias capitulados em lei, embora aí também possa haver crimes de sangue, tudo está previsto dentro da normalidade. E ninguém pode reclamar. O troço é assim desde aquela primeira lá no jardim do Éden.

Na TPM, a mulher pode inclusive esquartejar o marido e alegar, posteriormente, na justiça que estava em seu juízo perfeito e no seu direito, e que o culpado era o desinfeliz. Nesses casos, via de regra, ela tem o beneplácito da lei, que lhe assegura a tal obnubilação dos sentidos, que é praticamente como conceder alvará ao capeta.
Conheço um casal – aqui não lhe declino o nome por uma questão de preservar as fontes de informação – cujos filhos, hoje adultos, passaram boa parte de sua infância e adolescência aterrorizados por certo vestido vermelho que a mãe usava na TPM. Ao acordarem e darem de cara com a mãe, com o tal vestido vermelho, sabiam que aqueles dias seriam piores que o cerco da volante a Lampião e Maria Bonita em Angicos: iria chover bala para todos os lados.

Ao entrar a mulher nesta fase de funcionamento, fica difícil para qualquer pesquisador mais temeroso fazer prognóstico de volta, minimamente confiável, a quaisquer dos ciclos anteriores.
Aí, malandro, vai depender do lá de cima!

E seja o que Deus quiser!

16 de junho de 2012

D O M I C I A N A

Algumas tardes de maio, o sol costumava vir por entre as copas das árvores, um pouco timidamente, e entrava pela janela aberta, encontrando na cama a mesma figura quase imóvel de Domiciana. Os lábios apertados, rezando ou resmungando imprecações contra o frio e o desconforto das brancas tardes de maio.

No simulacro de quarto, a pobreza por portas e paredes, janelas e mobiliário, urinol de ágate descascado sob a cama. Exuberantes, somente a dor e a doença.

Desde os tempos de adolescência, uma estranha doença a tinha atirado sobre um colchão de capim e transformado uma esperança de dona de casa, com filhos e criações de quintal, marido chegando a cavalo de noitinha, num trapo de gente, resto de vida desprezível, cujo único horizonte agora era aquela janela aberta das tardes claras de maio.

Seu único e perdido namorado de juventude andava campeando gado em outras terras, deslembrado dela, inutilidade em que se convertera. A família, pequeno ajuntamento de gente resignada que a suportava como um fardo confiado pela provação divina, a quem não se podia contrariar, sob pena de perder a bem-aventurança eterna.

Quem sabe um terço, uma jaculatória, uma ladainha de Nossa Senhora? Quem sabe um mingau ralinho de fubá ou araruta, uma canja de galinha, um café com leite e migalhas de pão dormido? Quem sabe um baile na casa de seu Zinho, os lampiões iluminando mal e mal, a sanfona do Tatão, o pandeiro do Louro, o banjo do Tião da Hortênsia? Quem sabe um namoriquinho à-toa, quase inocente, só um apertinho dolorido no peito, uma babugem morna na nuca? Quem sabe a cama quente com o homem amado, garanhão fogoso nas noites de nunca mais? Quem sabe a morte, essa milagreira infectada, essa nojenta companheira de todos os desgostos, essa viajora dos descaminhos noturnos? Quem sabe o nada?

Mais um pouco e o sol suave das brancas tardes de maio despede-se também da devastadora solidão de Domiciana. No quarto, o murmúrio das rezas e das imprecações contra a noite e o desconforto que se avizinham.

Hieronymus Bosch, O jardim das delícias, detalhe, 1504 (em artwallpapers.net).

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos em 25/3/2010.)

14 de junho de 2012

CANÇÃO DA MINHA TERRA


Jacek Yerka, House in a tree (em wallpapers-free.co.uk)


minha terra tem de um tudo
um tiquinho só de nada na minha terra é mundo
como o cansaço do gado o suor do povo dobrado sobre a enxada
as tardes desconsoladas dos verões chuvarentos
ou a secura de certos invernos temporões.
minha terra tem de tudo
e quase tudo na minha terra vale muito:
o desconsolo da moça que espera seu dia
a modorra vesperal dos gatos nas calçadas
o tropel atropelado dos corações vadios. 
minha terra só tem lucro
e o lucro da minha terra é o ser telúrico
que brota dela cada vez que um ventre de mulher frutifica
como frutificam as jabuticabeiras os mamoeiros
nos quintais das casas de porta e janela para a rua
como se abertas a empurrar seus filhos só raízes para o mundo.

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 19/3/2010.)


12 de junho de 2012

OS QUE VÃO, OS QUE VÊM

Meu  pai aos poucos torna-se criança
Perde a memória do mundo
Alheia-se
Minha mãe reza compungidas preces
E a noite silenciosa reúne nossas dores
Que leva em tom pesado para os travesseiros.
Sempre haverá sonhos a se sonharem
E um dia uma outra criança há de chorar
Reclamando por cuidados
Que dispensaremos com o mesmo fervor
Com que cuidamos dos que vão
E dos que vêm
Numa repetição religiosa do ritual do existir.

Van Gogh, Au seuil de l'éternité, 1890 (em impressionism-art.org).

10 de junho de 2012

MEU PAI MENINO


Arco-íris sobre a BR-356, em Itaperuna/RJ (foto do autor).

É cedo ainda.
O dia amanheceu com uma chuvinha chorosa de outono.
Minha mãe foi para a cozinha preparar o café, enquanto eu vou para o quarto fazer companhia a meu pai.
Ele está com seus noventa e cinco anos sentados à beira da cama, perdido em algum lugar do passado.
Sento-me ao seu lado, peço a bênção e procuro trazê-lo um pouco para esta sexta-feira fresca de junho de dois mil e doze:
- Dormiu bem à noite, pai?
Com certa dificuldade para ouvir, tenho de repetir a pergunta, um tom acima.
- Não, dormi muito mal! - responde ele.
Percebi, pela inflexão da resposta, que me reconhecera. Quando isto não ocorre, ele fala com certa formalidade na voz.
Algumas vezes, ocorre não reconhecer ninguém; penso que nem a si mesmo, com todos esses anos acumulados.
Peguei meu pente, a fim de lhe dar um jeito aos cabelos, a esta altura da vida tão ou mais abundantes que os meus, em seu minguamento generalizado.
Ele sorri e me agradece o gesto, o mesmo que me fazia na minha meninice. E faço-o agora, para retribuir ao carinho que então me dispensava, quando, com suas mãos ainda úmidas do perfume que usava, passava-as sobre meus cabelos, para que também ficassem cheirosos.
Volto a me sentar ao seu lado, e ele retoma a conversa de data perdida no tempo:
- Quero que você telefone para mamãe. Peça para ela vir passar uns dias comigo.
Com bastante frequência, nestes últimos meses, ele é uma mistura confusa de homem jovem, maduro e idoso, no emaranhado do cérebro afrontado por calcificações no lobo frontal.
Então lhe digo que vou fazer o que me pede. Vou procurar o número do telefone dela, para passar seu recado. Um telefone que não existia em Liberdade, por aquele tempo.
- Deixe comigo, pai! Vou ligar para ela.
Percebo, então, que ele faz cara de choro e pega um paninho para enxugar o nariz.
- Sem ela, eu não sou ninguém! - diz ele com jeito de menino carente. - Mas seja discreto: não diga pra ela que não estou muito bem.
E me emociono em ver meu pai numa fragilidade impensada.
Ponho minha mão sobre seu joelho, num afago que tenta consolar. Como os adultos fazem com as crianças desconsoladas.
Na hora do café, comento sobre esta passagem com minha mãe, que, embora durona, tem os olhos marejados. E comento com ela sobre o papel avassalador que têm as mães sobre seus filhos, não importem as idades deles ou o fato de que já se tenham ido há mais de seis décadas do nosso convívio, como é o caso de vovó Benedita, mãe do meu pai.

(Para minha mãe e minhas irmãs, que se desdobram nos cuidados quotidianos de meu pai.)

8 de junho de 2012

AO CONTRÁRIO DO QUE DIZ (cordel onomástico)

Hilário ri de nervoso
Da imprudência de Prudente
Clemente não tem clemência
Até de quem é parente
E Divino mais parece
Filho daquela Serpente.

E só odeia o Amando
Quando devia amar
Omar vive em plena seca
Longe da beira do mar
Enquanto Justo promove
Injustiças de matar.

Luna não é aluada
Não vive em mundo da lua
Crescêncio só diminui
É o oposto de grua
E Ascêncio se afundou
Mais que buraco de rua.

Também Cármen não é poesia
Muito ao contrário só prosa
Já Vitória perde todas
Vive muito desgostosa
Enquanto Vivaldo teve
Uma morte dolorosa.

Dona Santa é pecadora
Como comadre Inocência
Vivem pulando a cerca
Só fazendo saliência
Armando desarma tudo
Sem perder a paciência.

Benedito é excomungado
Glauco tem boa visão
Das Dores só tem prazeres
Socorro vive em prisão
Branca tem pele preta
Mais escura que carvão.

Nascimento já morreu
Altivo baixou a crista
E segue em vida pagã
O meu amigo Batista
Pra Fidélis eu não vendo
Nem fiado nem à vista.

Cantídio é esparramado
Sem um canto pra viver
Ovídio não ouve nada
E ainda está pra nascer
Clarice bem ao contrário
Só tende a escurecer.

Simplício é só soberba
Ângelo é um capeta
Tino não tem juízo
Linda é uma careta
Que espanta até neném
Mesmo chupando chupeta.

Jacinto é insensível
Se sente algo não diz
Rico nasceu muito pobre
E continua infeliz
Patrício é imperador
A quem falta imperatriz.

Bárbara muito educada
Encanta a toda gente
E Fabrício nada faz
Que possa ser pertinente
Firmino não tem firmeza
Nunca pegou no batente.

Pacífico ao contrário
Só vive armando guerra
Enquanto Celeste está
Muito agarrada à terra
E Constância é inconstante
Tanto acerta quanto erra.

Angélica não tem nada
Que pareça angelical
Urbano mora na roça
Cercado por matagal
Honorino é desonrado
Et cetera coisa e tal.

Imagem em superduper.com.br.

6 de junho de 2012

TIPO ASSIM (IV) - OMIR, MEU AMIGO DE CINEMA

Omir foi um dos meus amigos de infância na vilazinha natal. Crescemos juntos, estudamos no mesmo Grupo Escolar Marcílio Dias, embora fôssemos de turmas diferentes - eu era uns dois anos mais velho que ele -, porém tivemos uma convivência especial na barbearia do Moreninho. Ele regulava idade com meu irmão Gutenberg, seu parceiro de brincadeiras.

Ele era um dos flhos do seu Quincas Eletricista, que, com sua mulher, nomeou a descendência com antropônimos começados por O: Ogáper, Omar, Odimar, Odir, Omir, Ozete e Odarci, da mais velha ao mais novo.

Como filhos de gente humilde do interior, pelos idos dos anos 50 do século passado, éramos encaminhados ao trabalho desde cedo, sem que isto fosse condenado socialmente. Ao contrário, era muito positivo.

Eu já havia vendido verduras e laranjas para minha avó materna Maína, dona de um grande quintal, e me revezava com ele, algumas vezes, no comando das graxas e das escovas na cadeira de engraxate da barbearia. Até que um dia, meu pai chegou-se para mim e perguntou:

- Você quer aprender o ofício de barbeiro?

- Não, pai! - respondi-lhe com a segurança de meus quinze anos, livro à mão, estudando.

- Pois pode ir, que o Moreninho está esperando para ensinar.

E, por isso, passei de engraxate à meia com meu amigo a aprendiz de barbeiro, responsável sozinho pela segunda cadeira do salão. A partir de então, não mais coloquei minhas habilidosas mãos na faina de dar lustre em sapato alheio. Agora eu começava a dar piques de navalha no queixo de uns e outros e a fazer caminhos de rato na cabeça dos moleques mais pobres que eu, a quem convencia a servirem-me de cobaia gratuitamente.

Tínhamos, então, a mesma convivência, mas, convenhamos, eu desfrutava de um status mais elevado que ele. Isto, contudo, era tão diluído, tão insensível, que, à época, nada significava. Nunca percebemos. E só agora o refiro em tom de brincadeira.

Certa ocasião, Zezete, um proprietário rural apaixonado por cinema, resolveu retomar as projeções cinematográficas na vila, interrompidas havia tempo, desde que um cidadão da vizinha cidade de Apiacá suspendera tal atividade, e foi até a barbearia, a fim de solicitar nossa colaboração.

Imagem em cultura.al.gov.br.


Claro que aceitamos de imediato. Ficamos responsáveis por receber os rolos de película que vinham pelo ônibus desde Bom Jesus do Itabapoana, e também por fazer os cartazes de publicidade dos filmes, com a utilização das fotos que acompanhavam os rolos. Além disso, no dias da sessão, auxiliávamos o Zezete na projeção. Ele dispunha de dois projetores novos, de 16mm, que permitiam que não houvesse interrupção durante as sessões, uma novidade na vila.

Por causa da confecção desses cartazes, ficamos com prestígio de garotos de letra bonita, embora a do Omir fosse mais caprichada que a minha, o que nos levou a ser contratados a leite de pato - se é que me entendem - para escrever em muros e calçadas, durante à noite, após as aulas, a propaganda de Luís Teixeira Borges, candidato a vereador.

Passamos, assim, a mais essa outra atividade, que, algumas vezes, entrava pela madrugada. Com o material fornecido pelo candidato e as indicações dos locais previamente autorizados, partíamos para pintar a propaganda pelas ruas da vila.

No encerramento da campanha, Luís foi até lá nos encontrar e agradecer pelo trabalho realizado. Levou-nos, então, ao bar do tio Tônio, onde nos regalamos comendo um prato de tomates fatiados, temperados com azeite doce e sal, acompanhados de pão e guaraná. O paladar estava tão bom, que repetimos a pedida, que era, na verdade, a única opção àquela hora.

Durante esse segundo prato, aparece minha mãe, à porta do bar, próximo à nossa casa, procurando-me preocupada.

No momento, alguns homens ainda jogavam sinuca e se espantaram ao vê-la ali.

Terminamos de comer a salada e cada um foi para sua casa.

Pouco tempo depois, já passada minha fase de barbeiro - em dificuldades, Moreninho vendeu a cadeira - fui para Bom Jesus, e meu irmão me substituiu como auxiliar não remunerado de projecionista cinematográfico. Um pouco depois, Omir se mudou com a família para Duque de Caxias.

E nunca mais soubemos um do outro, como uma história que não teve nem final feliz, nem trágico, como acontecia nos filmes que ajudávamos Zezete a projetar no salão do Liberdade Esporte Clube, para o deleite de nossa pequena vila.

5 de junho de 2012

P A S S A G E M


passa por sob a barca
em meio ao mar
a rápida água
na direção da barra

 
passa diante da tarde
à beira da noite
a célere cidade
na direção do norte

 
passa por dentro de mim
estátua na esquina
a mísera vida
na direção da morte

Gustave Doré, Caronte (séc. XIX), em it.wikipedia.com.

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 16/3/2010.)

3 de junho de 2012

O SEXTO DESAPARECIDO


Imagem em sorocaba.olx.com.br.

Apesar de as autoridades cariocas garantirem que, do trágico episódio do desabamento do Edifício Liberdade, no centro da cidade, no início do ano, ainda restarem cinco desaparecidos, nos bares de Vila Isabel corre a história de um sexto sumido nos escombros.
Se os cinco desaparecidos oficiais já constituem uma aberração, de vez que não houve sumiço de escombros, este sexto é um completo despautério (o quer que a palavra despautério signifique!).
Lico da Formiga, pretendente a compositor de samba e frequentador assíduo dos bares das imediações da Vinte e Oito, é o nome da possível vítima.
No fatídico dia do evento, ele não havia dado as caras em nenhum dos estabelecimentos de costume, porque sofrera um descontrole intestinal imoral, de não lhe permitir se afastar mais de cinco metros do banheiro, a bacia – como os arquitetos gostam de chamar o vaso sanitário – a reclamar a sua presença a cada trinta minutos. Assim permaneceu homiziado em sua aprazível residência de dois andares, encarapitada na Ladeira do Sossego, churrasqueira de roda de caminhão na laje e ducha de mangueira, para os dias de calor.
Como estivera, por todo aquele dia, em decúbito dorsal na cama, pôde acompanhar a cobertura televisiva completa sobre a ruína dos prédios da Rua Heitor de Melo, nos fundos do Teatro Municipal. Mergulhou tanto no noticiário, que bolou intrincado plano de também ter morrido soterrado, ao analisar pormenorizadamente a grave situação em que sua pessoa, como gostava de a si mesmo se referir, estava metida.
Dentre as pendências a que um exame apenas passageiro aludiria estava um mato esquisito que andava queimando, na base no pendura – coisa de cobrança já começando a incomodar –, e umas “ampolas de cerva”, outra de suas expressões favoritas, deixadas no ora-veja em dois ou três botequins ali pela Gonzaga Bastos, Visconde de Abaeté e Souza Franco. Era débito demais para o pouco crédito de que dispunha. E encontrou naquele acontecimento infausto a possibilidade de saldar tais compromissos, com sua morte incerta e não sabida entre os entulhos dos edifícios desabados. Além disso, nenhum dos sambas que compusera merecera a mínima atenção da ala de compositores do Bloco Carnavalesco Sovaco da Formiga. O que – vamos e venhamos – já se tratava de deslavada desconsideração.
Detalhou, então, o plano para a “criatura” com quem dividia os trampos da vida: iria para o sítio de um “pessoal seu” em Carabuçu, lá no norte do estado. Ficaria lá por uns meses. Enquanto isso deixava barba e cabelo crescerem. Dois dias depois do acidente dos prédios, a criatura, que atendia pelo nome de Maricleyde, espalharia para as vizinhas suas preocupações sobre o paradeiro do marido, que lhe dissera ir fazer um bico noturno perto da Cinelândia. No terceiro dia, ela se mostraria desesperada pela falta de notícias dele, “homem bom, prestativo, que nunca deixara faltar nada em casa, uma alma cândida”. No quinto, iria para a frente dos escombros e, aproveitando-se da presença constante das câmaras, mostraria um cartaz feito à mão com os dizeres “Procuro Lico da Formiga, meu marido”. Se algum microfone lhe fosse franqueado, contaria o enredo que armaram e a sua preocupação de que o trabalho extra seria exatamente num dos prédios. E assim repetisse, até que a montanha retorcida de entulhos dali fosse removida.
Todas os dias em que cumprisse essa rotina, passaria pelos botecos que ele frequentava procurando por Lico e dizendo de seus temores sobre a “desgraça que poderia ter ocorrido em sua vida”.
O acompanhamento da procura de corpos nos entulhos removidos também seria outra tarefa dela. Se possível, subiria sobre a pilha de tijolos e vergalhões, alucinada, procurando pelo “amor da sua vida”.
Como o corpo não seria mesmo encontrado, nem com ajuda de mandingueiro estabelecido, ela iria à delegacia do bairro comunicar seu sumiço.
Passado o primeiro mês do “luto fechado” em que se meteria, voltaria a frequentar a noite do Boulevard, mostrando-se, pouco a pouco, conformada com a tragédia do destino. E os credores teriam piedade dela, bem como o pessoal que comercia com ervas e pós, já que era uma pessoa muito benquista por todos, trabalhadora que só ela.
Até que numa noite qualquer, depois de quatro meses, ela começaria a se encantar com um cara novo, barbudo, cabeleira antiga black-power, grandes óculos escuros em plena noite, que chegaria para ela, todo cheio de dedos, muito respeitoso.
E ela lhe contaria da desgraça por que passara. Ele se condoeria com tal sorte e lhe diria, “com toda a pureza de seu coração”, que se sentiu balançado por ela, pelo seu jeito, e que estaria disposto a começar uma nova história com “a pessoa dela”, para soterrar o passado – “com perdão da palavra, que ela traz péssimas recordações”. E ela faria uma cara de espanto, a princípio, para que os circunstantes pudessem testemunhar que ela não era tão fácil assim e talvez ainda sofresse com o desaparecimento de Lico. E, depois de mais alguns encontros ali com aquele homem estranho ao pedaço, ela o convidaria para ir morar no barraco que o outro construiu com tanto gosto, mas que também já estava muito grande para um só – ela, uma mulher jovem, não poderia morrer com seu ex-amor.
Mas, como já dizia Abraham Lincoln acerca de políticos enganadores, mas que também se aplica a qualquer tipo de espertalhão, um dia a pantomima armada por Lico da Formiga teve seu fim inglório.
Certa noite de sexta-feira, após tomar algumas com os novos camaradas que fizera sob o disfarce de Aurênio, "vindo dos grotões de Carabuçu, conhece?", ele deixou a carteira cair do bolso largo do bermudão próximo ao balcão do boteco, onde se habituara a encostar o umbigo. Desatento, foi para casa.
O garçom encontrou a carteira e a abriu, para pesquisar a quem pertencia. Lá estava a identidade do malandro: Júlio César dos Santos, o Lico dos penduras perdidos, das dívidas caídas na paga de Deus, dos tombos no pessoal da erva e do pó.
O dono do botequim, o fel da vingança a amargar-lhe a boca, achou por bem que estes últimos é que deveriam ser informados em primeiro lugar.
E, quando Maricleyde foi mandada ao bar, para resgatar sua carteira, já voltou com péssimas impressões do clima sentido no ambiente.
Mal acabou de relatar ao companheiro a situação, e a mochila já estava pronta.
Aurênio, ou melhor, Lico da Formiga, deu linha na pipa, um perdido geral na rapaziada, de nunca mais ser reportado.
Maricleyde, no dia seguinte, também caçou seu rumo e, orientada pelo espertalhão, misturou-se a uma turma de romeiros que foi pedir a proteção de Frei Galvão, em seu santuário de Guaratinguetá.
E, para não despertar suspeitas, entrou na fila das pílulas milagrosas do santo. Quem sabe o primeiro santo brasileiro não quebrasse o seu galho!

1 de junho de 2012

O CANTO CHORADO DE ZÉ DAS CANDONGAS (cordel desencantado)

Se eu fosse Zeca Baleiro
Não seria Caetano
Se eu fosse trezentos dias
Eu não seria um ano
Não sendo Mar Tenebroso
Também não sou oceano.

Não sou rio caudaloso
Também não sou cachoeira
Minha água corre pouca
Seca é minha companheira
E se acaso vem enchente
Leva minha casa inteira.

Não sou ponto de macumba
Mas também eu não sou samba
Eu choro sem sete cordas
Passeio na corda bamba
E se o sabão é fedido
A vida quer que eu lamba.

Podia ser uma fera
Mas não passo de mosquito
Vivendo assim como vivo
Desse jeito esquisito
Parece que estou alegre
No entanto estou aflito.

Podia rir disso tudo
Mas a tristeza me invade
Vim de uma roça tranquila
E me perdi na cidade
Andei atrás de mentiras
E nunca achei a verdade.

Riqueza também não tenho
Pobreza me bate à porta
Se eu rio de alguma coisa
Se alguma coisa conforta
Logo vem aquela praga
Que destrói a minha horta.

Se eu crio porco castrado
Vem a doença e carrega
Se eu planto feijão de corda
Eu só colho berdoega
O milho que eu plantei
Não vai dar para a refrega.

Cada um tem sua sina
Eu tenho também a minha
Um dia meu galo canta
Vitorioso na rinha
Enquanto tal não se dá
Eu vou criando galinha.

E por mais que um perrengue
Em minha vida persista
Eu sou o Zé das Candongas
Eu não sou Eike Batista
Meu fiado foi negado
Só posso comprar à vista.

Almeida Jr., Caipira picando fumo,
1893 (em pt.wikipedia.org).
 Aproveito o que me resta
Ou aquilo que me sobra
Há quem sofreu muito pouco
Para ter tão grande obra
Acho que vim para sapo
E o outro veio para cobra.

E quem disse que eu desisto
De viver mesmo assim
Do outro lado não sei
Se haverá o jardim
Que alguns prometem tanto
Depois que chegar o fim.

Vou terminar o meu canto
Vou terminar meu lamento
Não sendo Zeca ou Caetano
Nem oceano ou portento
Meu filete de água pouca
No entanto vai correndo
Enquanto alguns vão depressa
Sigo na vida bem lento
Não transbordo não desvio
Deste modo me sustento.