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17 de maio de 2018

SINGING IN THE BATHROOM

Às vezes, canto no banheiro. E até gosto do que ouço, no pequeno ambiente com acústica favorável. Parece que minha voz de pato esganado melhora um pouco, com o amortecimento da chuva que cai do chuveiro e com a fofura das toalhas de banho.
E, quando canto, não canto nada além dos meus trinta anos. Se tanto! O que minha memória reteve de letras de música são, principalmente, os versos das canções que ouvia em menino. Talvez até Geraldo Azevedo e Alceu Valença, em seus primeiros discos. Ou mesmo Caetano, Chico, Gil, Paulinho, também só no início. Um tanto de  Belchior, Fagner e Ednardo, em seus começos. Depois nada mais retive. Não sei cantar nenhuma canção dos Titãs, por exemplo. Ou da linda Tiê, de que tanto gosto. Nem da Vanessa da Mata, outra minha paixão musical. Ou mesmo da Roberta Sá. Oh, céus!
Por isso é que canto coisas antigas, até mesmo canções de que nunca gostei, mas que ouvia em criança, em Carabuçu, espalhadas aos quatro ventos pelo alto-falante do Narck Pontes. Ou as canções de serestas, que odeio, mas ouvia o Darcizinho cantar pelas ruas e praça da minha vila natal. E também jamais gostei daquele canto empolado, de timbre potente, voz de tenor ou barítono, que nossos cantores populares à época faziam, com raríssimas exceções.
Assim, quando surgiu João Gilberto, com sua voz de pavio de lamparina, achei mesmo que poderia – eu também – me tornar um cantor famoso. Até que ouvi minha voz gravada e não a reconheci. “Esse não sou eu falando!”, disse para o amigo Dalmar, que fizera a gravação num poderoso gravador de rolo de fita recém importado, à venda na Ótica Avenida, onde trabalhávamos. “É exatamente a sua voz!”, informou ele, para a minha total decepção, mas para garantir a qualidade do produto. Não, eu não ganharia a vida cantando, pois aquele não era um gravador qualquer!
Mas, a despeito de todas as provas em contrário, continuei cantando no banheiro até semana passada. E, nessas oportunidades, me vêm à memória canções que ficaram no limbo de nossa música popular, porque, segundo me parece, estiveram entre a velha canção brasileira, cujos últimos intérpretes foram Nelson Gonçalves e Orlando Silva, e a revolução trazida pela Bossa Nova e, logo depois, pela hoje identificada MPB, com expoentes como Gil, Caetano, Chico, dentre os mais badalados. Porém, naquele vácuo lá pelos idos de 50/60, já se prenunciava que a estética da música popular brasileira estava a mudar de cara. Ou melhor, de poesia, de letra. Até então o que se tinha de maior veiculação nas rádios era uma música com temática de cais do porto, de bordel, de paixões por mulheres de vida airosa, para ficar num eufemismo, em que o autor chorava dores de cotovelo irremediáveis.
Tais músicas fizeram a transição entre aquela estética antiga – e de mau gosto, para os meus ouvidos – e a nova MPB. Traziam uma linguagem mais moderna, com novas metáforas, e um ritmo que prenunciava a bossa-nova. E tenho quase certeza de que a maioria de meus leitores nunca as ouviu. Menina moça, Mulher de trinta, E daí, Carinho e Amor, Bolinha de sabão, Balanço Zona Sul, Lembranças, Cara de palhaço, dentre outras, e que podem soar velhas para as novas gerações.
Por isso é que continuo singing in the bathroom tais músicas, já que não consegui gravar nenhuma letra das que vieram depois que meu disco rígido natural já estava sem muito espaço livre.

Resultado de imagem para cantando no banheiro
Imagem em elo7.com.br.

11 de janeiro de 2018

ENQUANTO MINHA GUITARRA CHORA SUAVEMENTE

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 4/2/2013.)
Uma das minhas frustrações na vida é não ser guitarrista. Mas não um guitarrista qualquer. Queria ser um senhor guitarrista, como David Gilmour, para mim o maior de todos (Não me venham com razões técnicas, porque isto é coisa de sentimento, inexplicável.)
Quando jovem, tentei aprender a tocar violão. Eu e meu irmão Gutenberg compramos um, à prestação, na loja que era sua xará, Gráfica Gutenberg, em Bom Jesus, nos áureos anos 60.
Quando cheguei a Niterói, em 67, dedilhava alguma coisa despretensiosa e alguns dos antigos companheiros de pensão imaginam até hoje, como já me disseram, que eu soubesse tocar.
Meu irmão hoje, além de compor, toca bem. O pouco que eu sabia acabou. A única música de que ainda me lembro é The house of the rising sun, canção folclórica norte-americana também gravada pelos ingleses The Animals, de Eric Burdon, coqueluche à época: There is a house in New Orleans / They call the rising sun...
E música, como qualquer outra arte, funciona mais ou menos assim: ou você é chamado por ela, e desenvolve um caso sério, ou é meramente um espectador. Pois, quanto à música, sou um mero espectador, ou melhor, ouvinte. Talvez até um pouco mais atento. Mas parei por aí. Se não podia ser um David Gilmour, melhor seria não tentar. Preferi permanecer na plateia, deixando que ele e todos os grandes guitarristas façam isso por mim. Por nós!
E, como sempre ocorre, às vezes uns fazem e outros executam. Uns compõem, outros interpretam. Felizes os que compõem e interpretam ao mesmo tempo. Na Itália, pela década de sessenta, com o surgimento de diversos compositores que também cantavam suas músicas, criou-se a palavra cantautore, para distingui-los dos que eram apenas intérpretes.
Porém, este papo quase furado com que preambulo este texto é apenas para dizer para vocês que a célebre e magistral canção dos Beatles While my guitar gently weeps, de autoria do meu beatle preferido, George Harrison (Também não me perguntem por quê!), com diversas gravações espetaculares, recebeu de Peter Frampton talvez aquela mais bela, mais sensível a que seu título alude. Sua guitarra chora suavemente na gravação feita para seu álbum Now, de 2003. Tanto o riff inicial, quanto o solo no meio da canção são das coisas mais belas que a guitarra pôde fazer. Parece que, ali, Frampton entrou em estado de graça. Fez um pacto com o Cramulhão para executar como o fez.
E reparem que, além dos Beatles e de Frampton, há outras interpretações sensacionais, como de Eric Clapton e o próprio Harrison; de Tom Petty, coadjuvado por Prince, Jeff Lynne, Dhani Harrison e Steve Winwood, dentre outros, no tributo a Harrison no Royal Albert Hall; de Santana, com o vocal fantástico de Indie Arie e o violoncelo clássico de Yo-Yo Ma; de Jeff Healey e sua surpreendente guitarra tocada sobre o colo; da versão explosiva de Toto com a guitarra incendiária de Steve Lukather; da versão impressionante de Jake Shimabukuro no ukelelê, dentre outras que não repassei ou não conheço.
Para mim, no entanto, se sobressai a interpretação dada por Peter Frampton, hoje um senhor calvo, mas com a sensibilidade para fazer chorar sua guitarra de tal forma, que me leva ainda a pensar, como nos anos 60/70, que um dia a música possa nos salvar da estupidez da guerra e da violência.
É o que sinto.
E também não me perguntem por quê!

Capa do cd Now, de Peter Frampton, de 2003.


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Se quiser ouvir a gravação de Frampton, clique aqui.

30 de maio de 2015

PEDRO ABRUNHOSA


Não temos hábito de ouvir música portuguesa. Às vezes, até sabemos alguma canção antiga, que entrou no cancioneiro nacional há muito. Sobretudo se fado. Das modernas, pouquíssimas. Salvo, apenas, aquelas que são veiculadas por novelas. Eu mesmo sou assim. Temos aqui a quase certeza de que o Brasil faz a melhor música popular do mundo e nos achamos os reis da cocada preta, exceção feita, tão-somente, à música norte-americana.
Mas temos passado por maus pedaços como ouvintes de rádio e tevê em termos musicais. Nossa mídia resolveu que ouviremos o pior que se faz no país, e tome lá uma enxurrada de canções fraquinhas, letras tatibitate, cantores e cantoras de duvidosa competência e por aí afora, quando não são ruins pra burro. Todos parecem dispostos a faturar a qualquer preço, sem se importar em oferecer qualidade. Aliás, boa parte desses que aí estão – tenho quase certeza – não é capaz de voos mais altos nesse aspecto. Assim ficamos sem a autêntica manifestação popular em termos musicais, nem temos a MPB de tão excelente qualidade, que nos fez conhecidos em todos os recantos do mundo.
Mas qualquer país, tenho a impressão, é mais ou menos assim. No Brasil é que tudo o que é ruim é muito mais cultuado, sempre em nome da diversão, do frege, do beijinho no ombro, da boquinha da garrafa, da abaixada até o chão na coreografia sexual de muitas dessas novas danças.
Portugal, por exemplo, tem um maravilhoso compositor, cantor e músico que muito pouco conhecemos e que nunca, em tempo algum, ouvimos em nossas rádios. É ele Pedro Abrunhosa. De sólida formação musical, gravou em 1994 seu primeiro disco, Viagens, com o grupo Bandemónio, que o acompanharia por alguns anos.
Tenho dele apenas o único cd que vi em terras brasileiras: Momento, de 2002, seu quarto álbum de músicas inéditas, todas de sua autoria – letra e música. O mais que dele conheço é via YouTube.
Basicamente as músicas são feitas a partir do piano, têm uma levada lenta, com letras extremamente bem feitas, melodias interessantes e inesperadas, cantadas com uma poderosa voz grave, a escandir os versos de forma marcante. Seu estilo lembra muito o de outro grande artista: o canadense Leonard Cohen, que fala/canta suas próprias criações.
É impossível ouvi-lo sem prestar atenção. Sua música não é feita para o consumo imediato, sôfrego, inconsequente, como os brasileiros estamos sendo levados a ouvir em nossas rádios e tevês. É preciso silêncio e reflexão. Nada do que Abrunhosa diz em suas letras é gratuito. E elas, as letras, muitas das vezes, atingem o valor de verdadeiros poemas.  
Gostaria que meu leitor atento fosse até a ligação abaixo e visse/ouvisse um exemplo da maravilhosa música de Pedro Abrunhosa.
Espero que goste como eu.

Capa do cd Momento (imagem em pt.wikipedia.org).

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Para ver/ouvir a música, clique na ligação: https://youtu.be/loCDq_Cbygs


21 de dezembro de 2014

HISTÓRIA DE UMA SEPARAÇÃO ANUNCIADA


Ontem passei uma mensagem, via Whatsapp, para meu filho Pedro, que está morando em Vitória, para lhe pedir que me traga o novo CD do Silva, talentoso jovem músico capixaba. Em novembro, quando lá estive, o disco estava em falta na loja próximo ao prédio onde ele mora. Após o OK, vem o pedido dele: "Ah, faça um kit vinil pra mim tb. Que contenha Allman". Ao ler, comecei a temer pelo desenrolar da história. Tanto que lhe mandei um torpedo de volta: Vinis novos, ou dos meus/seus?
Aqui tenho que explicar ao leitor amigo o porquê do meu temor.
Tudo começou há quase trinta e oito anos. Eram os primeiros dias de fevereiro de 1977. Pedro, nascido em 31 de janeiro, adentrou solene no seu novo lar. Primogênito, o pai, muito emocionado, não se conteve e lhe doou sua até então mediana coleção de discos de vinil:
- Meu filho, tudo isso é seu. - falei solene.
À época deveriam ser cerca de oitocentos elepês de várias tendências musicais.
Eu não sabia, então, da gravidade do meu gesto. O menino foi crescendo, assim como a coleção (Hoje são cerca de três mil.). Até que chegou o tempo de lhe comprar também os seus discos: Família Barbapapa, a trilha sonora de Flash Gordon do Queen, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, o próprio Queen, Nirvana, Pearl Jam e por aí afora. Depois vieram os CDs, e pai e filho continuaram a adquirir música na nova mídia, sempre com o desembolso monetário deste que lhe escreve, leitor.  Deste modo começou a se formar uma outra coleção, só dele, exclusiva. E o menino continuou a crescer, formou-se, arranjou trabalho, saiu de casa, namorou, casou, e não se esqueceu dessa promessa, que nunca me neguei a lhe dizer.
Agora recentemente, sua esposa lhe traz de presente, de uma viagem ao exterior, um belo toca-discos, daqueles capazes de reproduzir vinis.
O leitor está acompanhando minha exposição e poderá ver que meu temor tem fundamento. Pois a resposta dele àquela última indagação acerca de que vinis dizia foi: "Os velhos. Meus e meus. Olha a herança!!!". E cravou três pontos de exclamação, para que não restassem dúvidas. Tentou abrandar: "Brincadeira. Depois devolvo. Faz uma seleção. Uns 10.". Na sequência, disse que eu poderia escolher as bolachas e que poderiam ser mais de dez. Resolvi selecionar quinze, para, então, chegar aos vinte.
Veja, leitor condoído da minha situação, a que extremo chega um pai que, num arroubo de sentimentalismo da juventude, promete mundos e fundos ao filho amado. Não sei se, no Livro Sagrado, há história semelhante. Pois esta mereceria estar lá.
Então separei os vinte elepês e lhe explico - e também a ele - os motivos que me levaram a escolher esses e não outros.
De sua coleção – dele mesmo, entenda bem! –, vão os seguintes, que peguei aleatoriamente: Titãs (Go back 1988), Os Paralamas do Sucesso (D, 1987), Legião Urbana (Dois, 1986), Faith No More (The real thing, 1990) e Nirvana (Nevermind, 1991).
Da sua coleção – minha, que lhe passei naquele arroubo –, vão os seguintes, com minha justificativa:
Dentre os nacionais: Alceu Valença (Molhado de suor, 1974), Geraldo Azevedo (Geraldo Azevedo, 1977) Belchior (Todo sujo de batom,1974), por serem os primeiros discos individuais desses artistas, Gilberto Gil (Refavela, 1977) e Novos Baianos (Novos Baianos F. C., 1973). De todos eles, Pedro, em criança, cantava várias músicas, com sua linguagem ainda incompleta, e deles certamente se lembra perfeitamente, já que eles estavam sempre rodando em casa.
Dos internacionais: Atendendo seu pedido, The Allman Brothers Band (Eat a peach, 1972), disco duplo que traz talvez a mais longa música popular que já ouvi: os lados 2 e 4 contêm a execução ao vivo de Mountain jam. Além disso, tem clássicos como Blue sky, com um dos mais belos solos de guitarra de todo o rock, Little Martha, Trouble no more e Melissa. The Beatles (Oldies - A collection of Beatles. 1987), disco que mal ouvi e deve estar novinho ainda. Deep Purple (Machine head, 1972), um clássico do grupo, cheio de grandes rocks, como Smoke on the water e Pictures of home. Focus (3, 1973), o primeiro disco do interessante grupo progressivo holandês lançado no Brasil, que teve um sucesso marcante, Sylvia. Foghat (Foghat, 1972), grupo de hard rock inglês, com acentuada pegada bluseira, tinha duas guitarras que tocavam em uníssono. Genesis (Foxtrot, 1973), disco superlativo, que tem em Supper’s ready uma das mais belas peças que o rock progressivo já produziu. Neil Young (Harvest, 1972) produziu, segundo minha opinião, sua melhor obra com este álbum. O solo de guitarra que ele faz em Words (Between the lines of age) é lancinante. Rush (Power windows, 1985), grupo canadense que é mais cultuado pelos da geração de meu filho do que por mim mesmo. Este disco ainda está novinho. The Who (Quadrophenia, 1973) produziu a sua obra mais brilhante com este álbum duplo. Na verdade, é tudo de Pete Townshend. Por fim, Ken Hensley (Proud words on a dusty shelf, 1973), líder do grupo inglês Uriah Heep, produziu uma pérola. Multi-instrumentista, tocou quase todos os instrumentos das faixas. Destaque para a música título, para Rain, também gravada por seu grupo, e a fabulosa When evening comes
Espero que meu filho goste muito e possa resgatar sons que devem estar em sua memória musical. Quanto a mim, neste exato instante, penso naquele famoso soneto As pombas, de Raimundo Correa, ao ver esses meus/deles primeiros vinis voando da minha discoteca:

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

Imagem em ultradownloads.com.br.

8 de abril de 2014

ESSA NOSSA RICA LÍNGUA II - A PERMANÊNCIA DE UMA METÁFORA

A tradição literária da língua portuguesa remonta aos fins do século XII, período em que está atestado o mais antigo texto escrito:  a Cantiga da Ribeirinha, poema de autoria de Paio Soares de Taveirós. A língua da época não era simplesmente o português, mas o chamado galaico-português (ou galego-português), evolução natural do latim vulgar falado no oeste da Península Ibérica, que recebeu as influências de substrato da língua celta da região.
Com o passar o tempo, galego e português foram-se desenvolvendo de forma autônoma, sobretudo em virtude da criação do Condado Portucalense, por D. Afonso Henriques, o D. Afonso I, fundador do que hoje conhecemos como Portugal.
Ao longo de sua história, nossa língua também recebeu, dentre outras, contribuições do árabe, com o qual conviveu por séculos, durante a ocupação da Península, de línguas negras africanas em função do contato com diversos povos para cá trazidos como escravos, bem como do tupi, sobretudo, entre as línguas indígenas faladas no território brasileiro.
O jeito brasileiro de falar é mais próximo à forma como Cabral e seus marinheiros falavam quando aqui chegaram, do que o atual sotaque de Portugal, que começou a se acentuar a partir de Lisboa na segunda metade do século XIX.
O que interessa aqui, no entanto, é a permanência de certos símbolos literários – metáforas – que se comprovam em textos arcaicos e modernos.
Um desses casos, que me parece bastante interessante, é a semelhança temática entre as cantigas medievais de Pero Meogo, jogral português do século XIII, possivelmente contemporâneo do grande rei-poeta D. Dinis, e, particularmente, a música de Vital Farias Sete cantigas para voar, do seu disco Sagas Brasileiras, de 1982, que também foi posteriormente gravada por Elba Ramalho, versão*, inclusive, mais executada nas rádios de então.
Numa das estrofes da composição de Vital Farias, está assim expressa a desculpa da moça que vai à fonte para encontrar o amado:
Cantiga de ninar 
a criança na rede 
mentira de água 
é matar a sede: 
diz pra mãe que eu fui pro açude 
fui pescar um peixe 
isso eu num fui não 
tava era com um namorado 
pra alegria e festa 
do meu coração 
Voa, voa azulão 
Voa, voa azulão
Deve-se dizer que foram preservadas nove cantigas** de Pero Meogo, que constituem uma narrativa em versos, a respeito da iniciação amorosa de uma jovem no século XIII. Nelas, mãe e filha conversam sobre o acontecido: o encontro às escondidas da filha com o amado e as inquirições da mãe acerca do seu comportamento. Na nona e última cantiga, estabelece-se um diálogo em que a mãe desconfia da demora da filha na fonte, ao que ela se justifica dizendo ter ido lavar os cabelos, mas as águas estavam turvas pela presença de cervos, por isso a demora. A mãe não crê na desculpa. Veja o texto da cantiga em galego-português.
- Digades, filha, mia filha velida:
porque tardastes na fontana fria?
            - Os amores ei.

Digades, filha, mia filha louçana:
porque tardastes na fria fontana?
           - Os amores ei.

- Tardei, mia madre, na fontana fria,
cervos do monte a augua volvian:
           - Os amores ei.

Tardei, mia madre, na fria fontana,
cervos do monte volvian a augua:
           - Os amores ei.

-Mentir, mia filha, mentir por amigo;
nunca vi cervo que volvess' o rio:
           - Os amores ei.

Mentir, mia filha, mentir por amado;
Nunca vi cervo que volvess’o alto:
           - Os amores ei

(Possível atualização textual: - Diga-me, filha, minha filha querida, / por que tardastes na fonte fria? / - Estou apaixonada. /Diga-me, filha, minha filha bonita, / por que tardaste na fria fonte? / - Estou apaixonada. / - Tardei, minha mãe, na fonte fria, / cervos do monte a água volviam. / - Estou apaixonada. / - Tardei, minha mãe, na fria fonte, / cervos do monte volviam a água. / - Estou apaixonada. / - Mentir, minha filha, mentir por namorado, / nunca vi cervo que volvesse o rio / - Estou apaixonada. / Mentir, minha filha, mentir por amado, / nunca vi cervo que volvesse a água. / - Estou apaixonada.)

Nesta cantiga de amigo paralelística, a fala da mãe está presente nas duas primeiras estrofes, cujo teor se repete por formas diferentes. A mãe indaga sobre a demora da filha na fonte. A terceira e a quarta estrofes representam a resposta da filha à mãe, ao justificar a demora pela presença de cervos que turvavam as águas onde iria lavar os cabelos. Nas duas últimas estrofes, volta a fala da mãe, que sabe ser a desculpa da filha uma mentira. O refrão (Os amores ei) funciona como o coro que representa a voz interior da moça, ao reconhecer o verdadeiro motivo da demora: ela foi encontrar o namorado, porque estava apaixonada.
Na canção de Vital Farias, a moça pede que se diga à mãe uma mentira, que ela mesma assume: “diz à mãe que eu fui pro açude / fui pescar um peixe / isso eu não fui não / tava era com o namorado /pra alegria e festa / do meu coração”. Observe que o traço moderno da canção da canção de Vital Farias talvez esteja no fato de que a moça assume a mentira, sem titubear, enquanto na canção medieval ela tenta escamotear a verdade para a mãe.
De qualquer forma, constata-se aí uma metáfora que ultrapassa os séculos: a fonte, o açude, como espaço para o encontro amoroso.

Esse fato representa tanto a permanência de tal metáfora, quanto evidencia o elo entre a cultura medieval e a cultura atual, sem um processo de ruptura. Isso significa constatar que somos muito mais antigos do que pensamos. E o que, às vezes, imaginamos ser muito moderno pode estar com um pé fincado há séculos e séculos atrás. E, no caso do Brasil, o Nordeste é um repositório repleto dessas permanências.

Symphonia da Cantiga 160, Cantigas de Santa Maria de Afonso X, o Sábio - Códice do Escorial. (1221-1284). Imagem em pt.wikipedia.org.

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Para ouvir a música com seu autor, clique aqui.

5 de fevereiro de 2014

ACORDEI CEDO!

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 13/11/2012.)

Sempre que um aposentado folgado e preguiçoso como eu acorda cedo é porque a providência divina tem um plano especial para o recalcitrante. Nunca há de ser à toa!
Não é para caminhar e colocar as taxas salientes em dia, nem para sair a pescar peixe que não caiba numa foto de celular.
Porém algo deve acontecer para justificar o sacrifício.
Explico-lhes, pacientes leitores.
Tendo, portanto, acordado antes do combinado, para não sei que providências que não poderiam ser adiadas, vi na tevê da casa de minha sogra, que está ligada à tal antena paranoica, um canal da Globo que jamais vi (Em Niterói não tenho acesso a ele.), que transmitia o programa Estúdio I, apresentado por uma bela mulher morena, Maria não sei das quantas, que apresentava um jovem músico capixaba, de nome Silva.
Segundo a reportagem, Silva está lançando seu cd Claridão, gravado em casa. E mostrou três ou quatro músicas de sua lavra que estão no disco.
Vou-lhes dizer algo desassombrado: o garoto – deve ter vinte e poucos anos – é um fenômeno, é magistral, é talentosíssimo. Ele e outro menino, ainda com cara de bebê e tocador de cavaquinho, ukelele, bateria eletrônica e outras percussões, mostraram que nem tudo está perdido na música popular brasileira. Nem tudo se resume a esta porcariada que a tevê aberta e as rádios tentam impingir à população, a poder de muito jabá. Nem tudo é Thiaguinho e esse sambanejo de baixa extração. Nem tudo é tecnobrega, sertanejo universitário com diploma de analfabeto e forró da mesma laia.
Salve Silva, o capixaba que vem mostrar que há inteligência na MPB.
Só vi isto e já estou achando que o mundo não mais acaba no dia 12/12/2012 ou 21/12/2012, sei lá! Os maias vão ter de esperar um pouco mais!
Se não tivesse acordado cedo, não teria conhecido o garoto Silva e sua música maravilhosa.
A providência divina tem cada uma: me incomodar na manhã de segunda-feira!
Veja aqui o clipe de uma das músicas que ele apresentou ao vivo no programa: A visita.

27 de novembro de 2012

FAGNER: COMO SE PERDER PELO CAMINHO

Correu, na década de setenta, notícia de que Roberto Carlos, não satisfeito com os rumos que sua carreira estava, então, tomando, pediu a Fagner, o grande astro fulgurante da MPB da época, auxílio para que desse uma sacudida em seu trabalho.
Não sei se isso foi verdade, embora tenha lido em jornais daquele tempo.
E fiquei maravilhado com a possibilidade de um jovem compositor cearense, que chegou ao sul cheio de ideias e belíssimas canções, acentuado por um jeito todo próprio de “dizer” as letras, entre o choro e o lamento nordestino, auxiliar o já rei RC.
Eu, que tivera grande apreço por Roberto desde o início, nas rádios de sua Cachoeiro do Itapemirim natal, começava a não entender a guinada que ele dera em seu repertório. De início, flertando com a rebeldia da juventude de então, no movimento cultural nascido do rock inglês e norte-americano, que culminou com a criação da Jovem Guarda, Roberto, em final dos sessenta, início dos setenta, passou a cantar para coroas. Isto é, trocou as músicas descontraídas, irônicas e jovens, por canções que falavam de um jeito convencional do amor, bem ao gosto de uma faixa etária mais velha – uma geração posterior à minha, no mínimo. Até mesmo a roupagem de suas melodias ganhou orquestração convencional, sepultando de vez o grupo que o acompanhava, o RC-7.
À época, senti isto como um golpe de mercado: ele passou a fazer música para quem tivesse dinheiro para comprar.
Hoje ele é o que é, embora eu ache seu parceiro de sempre, Erasmo Carlos, muito melhor, por ter mantido a pegada que os consagrara. Por incrível que pareça – ele já não é mais menino –, Erasmo fez dois bons discos recentemente, Rock ‘n Roll (2009) e Sexo (2011), sobretudo o primeiro, talvez o melhor de sua longa carreira.
Pois muito bem.
Alguns anos depois, quem também deu guinada semelhante foi Fagner, que passou a cantar canções alheias, de duvidoso gosto para sua bagagem anterior, o que o levou mesmo a desaparecer quase que por completo da mídia.
Fagner podia muito mais pelo que já nos tinha mostrado, contudo foi pela linha fácil da busca do sucesso popular. Não que isto necessariamente seja ruim em si, mas cobra seu preço. E lá se foi a qualidade de seus discos iniciais.
Só que Fagner não tem, nem de longe, a quase burra unanimidade de Roberto Carlos, como afirmava Nelson Rodrigues a respeito da unanimidade. Roberto vem-se repetindo enfadonhamente, anos a fio, e seus fãs mantêm-se fieis e em grande número.
Há pouco, postei para meu sobrinho-neto Lucas uma velha canção de Fagner, para que ele o conhecesse, uma vez que, para os da sua idade – dezoito anos –, Fagner se tornou um “chato”. Quer dizer, ele passou a falar uma linguagem musical que não mais interessa a esses jovens.
Estou reouvindo, no momento em que escrevo estas bem traçadas, os dois primeiros discos longa duração de Fagner: Manera Fru-Fru manera (1973) e Ave norturna (1975), duas obras-primas da música popular brasileira. Ele continuou ainda fazendo boa música por mais alguns discos, até que resolveu também se transformar musicalmente.
Fagner soube, como nenhum outro de sua geração, musicar poemas de nomes consagrados da literatura de língua portuguesa, inclusive pagando o preço caro de fazer de início, sem autorização de herdeiros, música sobre poemas de Cecília Meireles.
Lucas ouviu com atenção a canção que lhe enviei – Astro vagabundo – e entendeu esta minha velha admiração pelo cearense, de quem ainda costumo comprar CDs, na esperança de que ele, um dia, volte à velha forma, como Erasmo.
E, caso você que me dá o prazer da leitura dessas considerações achar o mesmo que meu sobrinho-neto Lucas, recomendo ouvir, por exemplo, Traduzir-se*, belo poema de Ferreira Gullar que ele musicou e gravou no disco homônimo, de 1980, cujo texto está aí abaixo:
Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém, fundo sem fundo

Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão

Uma parte de mim pesa, pondera
Outra parte delira

Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta

Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente

Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte linguagem

Traduzir uma parte na outra parte
Que é uma questão de vida e morte
Será arte?

Capa do disco Traduzir-se (em www.fagner.com.br).


(*Copie o endereço a seguir, para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=IF0UFCuypQc).

1 de outubro de 2012

A MÚSICA DO PINK FLOYD E EU

(Pelo Dia da Música)

Você pode passar a vida inteira não querendo fazer as coisas pela metade, ou mal feitas. Mas você pode, então, passar a vida toda sem fazer nada, porque o que nos restará – e digo isto em relação à grande maioria, eu incluído – é não fazer muita coisa bem. Então se contente a fazer assim mesmo. É imperioso que faça, apesar disto ou malgrado isto. Enfim é o que se exige de você. É o que você mesmo se exige. E aí vai fazendo as coisas do jeito que pode, que sabe, que dá, ainda que possa não ficar contente com o resultado final.
É, mais ou menos, como me comporto.

Queria fazer com perfeição todas as coisas em que me meti, embora saiba que nunca tenha sido assim. E olhem que já fiz coisas diferentes à beça, desde minha juventude. Agora, no ócio da aposentadoria, ainda continuo fazendo, apesar de, algumas vezes, brincar que nada faço. Por exemplo, dou-me ao trabalho de criar textos para meus dois blogs, com o objetivo de mostrar algumas das centenas de textos que produzi e produzo ao longo do tempo.
Também eles queria que fossem perfeitos, os melhores. Há um monte de outros autores aí que gostaria de ter escrito. Mas sei das minhas limitações, tenho meu senso crítico. Assim mesmo os posto aqui e lá. Meus amáveis leitores hão de me entender com a benevolência de sempre. Talvez até, no fundo, pensem: Pelo menos, ele se esforça, coitado!

Durante mais de duas décadas, por exemplo, fui professor. E tive a pretensão de ser o melhor professor do mundo. Não por orgulho ou vaidade. Mas para ser apenas um bom professor. E nunca fiquei satisfeito com o que fazia. Talvez fosse possível fazer mais.
Gosto também de fotografia. Tenho também meu espaço no Flickr, pretensiosamente. Algumas delas podem até ser razoáveis. Porém o mundo está repleto de fotógrafos maravilhosos.

Mas, como dizia, se for apenas fazer a perfeição, não se faz nada.
No entanto, contudo, embora, mas, porém, etc. e tal, meter-me em música – que foi um dos meus grandes sonhos irrealizados – não ousei. E explico.

Jovem, eu e meu irmão compramos um violão à meia. Ele aprendeu a tocar. Eu não. Ao final da minha vida laborativa, meus amigos de trabalho me deram um novo violão de presente, para que, afinal, eu pusesse em prática o velho sonho.
Preferi não me arriscar, não tentar. Pois o meu desejo seria tocar como o David Gilmour. E aí tenho absoluta certeza de que jamais, em tempo algum, nunca, iria conseguir.

Como disse certa vez minha irmã Cristina, talvez só “em três encadernações” eu conseguiria tal façanha. E meu amigo músico Rogério Fernandes, ao ouvir minha pretensão, teve uma sequência de gargalhadas que pensei fosse levá-lo a ataque de apoplexia.
Pois acabei agora de ver o documentário sobre a gravação de Wish you where here e o ouvir o cd (bolacha original de 1975) e me dou por satisfeito em ser um bom ouvinte da música do Pink Floyd e um fã incondicional da guitarra de Gilmour.

Neste momento, substitui o Wish pelo Atom heart mother (1970), e sinto que nasci para ouvir Pink Floyd, sem cuja música, certamente, meu mundo seria muito mais sem graça, apesar de tudo de bom que me aconteceu até hoje.
Todos sabem que cada doido tem lá sua mania e seu gosto. Mas, dentre todas as músicas que já ouvi, de clássicas a populares, passando por música medieval e renascentista, moda de viola, samba, choro, forró e frevo, tangos e boleros, rock, blues, twist, chá-chá-chá, a que me dá mais prazer é a música do Pink Floyd. Isto desde que a ouvi pela primeira vez com o elepê das vaquinhas holandesas, adquirido na antiga loja Sabiá, da Avenida Amaral Peixoto, em Niterói, lá por 1971.

Eu tinha descoberto meu eldorado sonoro!
Capa do disco Atom heart mother, o primeiro do Pink Floy lançado no Brasil (imagem em pt.wikipedia.org).