18 de julho de 2017

O SENHOR ESTÁ DE MAU HUMOR HÁ MILÊNIOS


O bom humor do Criador durou até o episódio da maçã. O que, convenhamos, foi por muito pouco tempo! Após uma sentença de rito sumaríssimo, Ele determinou a um de seus oficiais de justiça, célebre por seu pavio curto, a executar a ação de despejo daquela dupla de inadimplentes. Daí para cá, foi uma sequência estarrecedora de punições, maldições, pragas, furacões, terremotos, dilúvios e o escambau. Quando percebeu que havia exagerado, mandou seu Filho como embaixador da boa vontade, da política da boa vizinhança, o qual, no entanto, também perdeu as estribeiras e andou metendo a gurumbumba no lombo de uns e outros que apenas queriam sobreviver à margem do governo, fazendo seus biscates, vendendo suas traquitanas. Mas aí o gênero humano já tinha virado genérico. E nunca mais deu certo.
Hoje, para tentar recuperar a desumanidade, tratamos com pachorrenta benevolência tudo quanto é tipo de bicho, mas nos esquecemos de outra parte substancial do gênero desumano que não tem nem o que comer. Não sei se isso dará certo. Se daqui a alguns anos estivermos prontos para viajar pelo espaço sideral como quem vai a Miracema e Bom Jesus, será, então, que levaremos nossos dessemelhantes humanos ou nossos semelhantes animais? Vi, por exemplo, em Paris, restaurantes que aceitam de bom grado a presença de bichos: Votre pet est bienvenu. Já, pobre, não sei bem se seria recebido com tanta sympathie, como dizem os descentes de Asterix, o gaulês.
E, depois de tanto tempo, parece mesmo que o Senhor nos deixou de lado. Cada um faz o que quer. Cada estado se arranja do jeito que as guerras e as cobiças permitem. Ele não está nem aí para o que sua criação anda fazendo. Até criação de galinha tem mais atenção. Senão, como explicar a duração do conflito entre judeus e árabes até hoje? Reparem que eles são primos – se não forem irmãos – e se digladiam ferozmente por uma terra seca, sem floresta, sem cachoeiras, sem praias paradisíacas – sem um bando de gente corrupta, também –, a qual, lá por volta de dois mil antes de Cristo, um visionário saído de Ur resolveu chamar de Terra Prometida.
O que pode explicar tudo isso, isto é, ser a Terra Prometida aquele areal em torno de uma lagoa de águas mortas, só pode já ter sido a má vontade e o péssimo humor do Criador para com a criatura. Caso contrário, ele teria prometido os verdes campos da Toscana, a aprazível Provença, ou mesmo a costa baiana cheia de resorts de luxo e coqueiros onde pendurar uma rede.
E, pelo que sinto hoje da Natureza – delegada imediata Dele junto ao genérico humano –, posso dizer que não adianta ficarem inventado religiões, a três por quatro, que os Seus maus bofes não se aplacaram e só tendem a piorar. Terremotos, tsunamis, destrambelhamento geral do tempo e do placar de jogo estão aí para não me deixarem mentir.
Quem sobreviver verá!

Imagem relacionada
Hans Memling, O juízo final; séc. XV (sauvage27.blogspot.com.br).

30 de junho de 2017

FUGINDO DA MORTE

Nascemos já com o compromisso de resistir, de tentar ficar longe da morte, a inominada, a Dama Branca de Manuel Bandeira, que o espreitou, tuberculoso que era, desde jovem até a seu passamento, já com oitenta e dois anos. Eu não fujo à regra. Adentrei os setenta com o vigor da idade, a despeito da avaliação de menoscabo do esculápio que me submeteu a uma prova de esforço nos primeiros dias do ano, numa esteira ergométrica miserenta, e revelou que meu preparo físico é fraco. Não precisava disso. Eu já sabia. Abuso na preguiça, por conta de não haver cardíacos na família. Morremos de câncer, normalmente, ou de diabetes. O que vier primeiro. Sem preferências. Por isso me cuido. Ao meu modo, evidentemente. Tudo porque, como disse alhures, não almejo a paz dos cemitérios tão cedo.
Vou aqui, então, relatar aos amigos as providências, condutas e jeitinhos para adiar o mais que puder a morte, através da explicação de seus diversos torneios vocabulares, a fim de que possa orientá-los em suas vidas. Minha família tem o péssimo hábito de ser longeva.
Vamos a eles.
ABOTOAR O PALETÓ: Não tenho mais paletós. Minto. Até tenho, para cerimônias formais, mas não lhes dou confiança. Aliás vou doá-los, assim que termine este texto. Se não conseguir me desvencilhar deles tão logo, vou arrancar-lhes os botões, a fim de não correr risco de abotoá-los inadvertidamente.
ESPICHAR AS CANELAS: Sou renitente! Não espicho! Tenho o cuidado de sempre manter meus joelhos dobrados, até mesmo quando durmo, no intuito de prevenir qualquer incidente grave.
COMER CAPIM PELA RAIZ: Raiz? Não tenho comido nada. Nem aipim, beterraba, batata, inhame, cenoura. Minha glicose anda saliente, e estou me abstendo de consumir coisas subterrâneas. Todas, invariavelmente, viram açúcar.
VESTIR O PALETÓ DE MADEIRA: Se estou abrindo mão dos paletós de tecido, muito mais confortáveis, por que iria usar paletó de madeira? Seria, inclusive, pouco ecológico. E, também, porque o caimento não fica bem. A madeira não se conforma à minha anatomia um tanto irregular, na parte situada nas imediações do ventre. Se é que me entendem.
PASSAR DESTA PARA MELHOR: Não comprei nenhuma passagem para melhor. Portanto não vou passar para lugar nenhum. Se houver vale transporte para isso, pode ser que eu estude a possibilidade, num remoto futuro. Caso contrário, fico por aqui mesmo: nesta!
VIRAR PRESUNTO: Não fui criado com bolotas, nem nasci em áreas demarcadas propícias, o famoso terroir. A não ser que Carabuçu seja considerado um terroir caboclo! Assim minha carne e minha gordura não se prestam a virar um bom presunto de Chaves, Barroso, Barrancos, Vinhais, Pata Negra, de Parma, dentre outros menos conhecidos. Nem mesmo acredito que sirvam para mortandela.
TER AS HORAS CONTADAS: Não uso relógio desde a juventude. Assim que terminei o curso primário, no saudoso Grupo Escolar Marcílio Dias, em Carabuçu, ganhei um relógio de presente do prefeito do município. Foi o único. Nem sei onde anda mais. Por isso, não conto as horas. Deixo para os mais preocupados com o tempo.
IR PARA A CIDADE DOS PÉS JUNTOS: Como no caso de partir desta para melhor, não comprei passagem. E, ademais, não encontrei tal cidade no planisfério. Nem mesmo o GPS, o Viber ou o Google Maps conseguiram localizá-la. Estou abortando a viagem sempre.
ENTRAR NO SONO ETERNO: Não consigo dormir muito, embora goste bastante. Um pouquinho só, umas oito horas, me bastam a cada dia. Esse negócio de sono eterno não faz minha cabeça. Prefiro acordar sempre no dia seguinte e beber um generoso e fumegante gole de café amargo. Assim também vale para o tal descanso eterno. Como diz o vulgo, prefiro viver cansado, embora aposentado em tempo integral.
ESTAR COM O PÉ NA COVA: Não sou couve, alface ou rúcula, para enfiar o pé em cova nenhuma. Talvez um pouco hidropônico. Sou desenraizado. Plano acima da linha do chão por dois centímetros de sola de sapato ou de sandálias de dedo, que me hão de evitar enfiar o pé na cova. Estou fora!
BATER AS BOTAS: Desde os dezoito anos, época em que servi o glorioso exército nacional, não uso botas. Nem nunca comprei. Já há bom tempo só tenho mocassins, que não servem para bater em nada, nem em ninguém. E, quando entro na areia da praia para fotografar, lá mesmo bato os mocassins na beira do calçadão, para me livrar dos grãozinhos que penetram sem convite.
DAR COM OS COSTADOS NA CERCA: Acerca, sem trocadilho, desta expressão, já me expressei aqui em outra postagem (Clique aqui para ver.). Nem chego perto de cerca, a fim de evitar, se falsear a passada, que eu possa esbarrar em qualquer tipo de cerca, de madeira, bambu, cerca-pinto, arame farpado, ou mesmo e sobretudo elétrica. Minhas costas estão incólumes até hoje.
DAR O ÚLTIMO SUSPIRO: Esta expressão é dúbia. Suspiro é também o nome de um doce muito apreciado, feito de clara de ovo, açúcar e tenras farpelas de casca de limão, que se desmancha na boca milagrosamente, mas que também eleva a taxa de glicose aos píncaros. Quem compra um pacote de suspiros dá qualquer um deles, menos o último, que é justamente o que encerra, enfeixa, potencializa seu derradeiro paladar. Ninguém dá o último suspiro. Eu, por questões já ditas acima, nem compro o pacote. Ainda mais dar o último suspiro! Quanto ao suspiro propriamente dito, esse que movimenta o ar que entra e sai dos pulmões, quero informar que vai bem obrigado. Meu fole anatômico tem funcionado muito bem. Os pulmões continuam livres e desimpedidos. Espero, assim, dar o último suspiro só depois de morto.
Por hoje é isso! Até a próxima encarnação!

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Gustave Doré (1832-1883), Caronte (ilustração para a Divina Comédia; em worldofdante.org).

18 de junho de 2017

CORDEL DAS AGÊNCIAS NACIONAIS


Tenho trauma da ANEEL
E sua trama elétrica:
Verde, amarela, vermelha,
A conta vem bem estética,
Mas come no nosso bolso
Sem pudores e sem ética.

A ANATEL não me engana
Com seu zelo internético.
Faz o jogo das empresas
Deixa o cliente patético.
Viver sem acesso à rede
Vai me deixar apoplético.

A ANAC, pelos céus!,
É uma agência estranha.
Faltou água, vem a conta
Por conta da agência ANA,
E mesmo o gás natural,
O petróleo e os combustíveis
Pelos ritos da ANP,
Andam a preços incríveis.

De mesmo jeito a saúde
Que todo povo merece
Morde parte do salário
Nos preços que a ANS
Autoriza aos prestadores
Dos planos de quem carece
De atendimento privado,
Porquanto o do INSS
Deixa o doente sofrendo
Tanto tempo que enlouquece.

Como avisa a ANVISA
Remédio vai ter aumento.
Faltou a vacina a tempo
Isto é outro contratempo.
Toda agência que se preze
Faz do prazer sofrimento.

Quem se transporta por terra
De onde pra não sei quê
Por sobre a buracaria
Das estradas que se vê
É da conta da autarquia
Da sigla ANTT.

Por sua vez a ANTAQ
Me causa ataques diários
Quando atravesso de barcas
Com seus serviços precários
De Niterói para o Rio
Nos meios aquaviários.

Restou por fim a ANCINE
Na solução do problema
Que se arrasta dolente
Na indústria do cinema:
A produção nacional
É ainda bem pequena.

Só me faltou referir
A uma nova autarquia:
A tal Agência Nacional
De Mineração, que um dia
Venha a sair do papel,
Para a nossa alegria.

E vou parar por aqui,
Por motivo de premência
Do tempo, que é exíguo,
E também da paciência
Em entender o que faz
Esse monte de agência.

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Imagem em coachingconcurseiros.com.

9 de junho de 2017

BRASILEIRO CORDIAL


O brasileiro é um ser cordial. Apesar de não termos muita educação em público, pois sujamos as ruas, avançamos os sinais, dirigimos no acostamento, não cedemos o lugar para o menos apto, não cumprimentamos ao chegar, não agradecemos costumeiramente, apesar de tudo isso e de outras coisas mais, somos um ser cordial. Às vezes xingamos o outro no trânsito, ou viramos a cara para não falar com o vizinho do prédio, ou empurramos o outro à entrada do transporte público, mas, no fundo, no fundo, somos cordiais. Até mesmo roubamos seus pertences, invadimos sua privacidade, nos apossamos de seus dados bancários, clonamos seus cartões, utilizamos seus dados para nosso próprio benefício, mandamos vírus eletrônicos, trucidamos uns aos outros por qualquer bicicleta ou celular, mas somos cordiais.

Alguns de nós, no entanto, não são assim tão cordiais e manifestam isto em letra de forma.

Há algum tempo vi num botequim mais que pé-sujo, no trevo de subida para Itaipuaçu, onde parei para comprar água, um cartaz feito à mão, colado na ensebada estufa de salgadinhos, em que o microempresário manifestava seu descontentamento com certos clientes folgados, que querem aquilo por que não pagaram. Dizia ele lá, em letra de caneta pilot:
VÁ ACENDER SEU CIGARRO ONDE O COMPROU.
AQUI SE VENDE ISQUEIRO E FÓSFORO.
Assim, simplesinho, e com todo o jeito carinhoso que caracteriza nossa índole cordial. Sem ofender, nem nada. Só para o cliente amigo entender onde está se metendo.
Quando o vendeiro perguntou se a água era sem gás, concordei para não incomodar seu dia de labuta. Paguei a garrafa e fiquei receoso de pedir copo descartável. Achei melhor não importuná-lo ainda mais. Jane e eu beberíamos a água pelo gargalo mesmo. Liguei o carro e me escafedi do local rapidinho.
Mais recentemente, na última sexta-feira, desci do ônibus no Terminal João Goulart, no centro de Niterói. Ao chegar ao saguão da estação, vi no letreiro de uma loja de tabacos esta mimosura de cordialidade, agora dirigida, aos “dimenor”:
SE VOCÊ AINDA NÃO TEM 18 ANOS. VÁ PARA
A LOJA DE DOCES QUE ESTÁ DO OUTRO LADO.

Achei tão simpática a mensagem, que a fotografei com o celular, bem verdade que um pouco à distância, para não ser brindado com observação, no mesmo tom, de algum funcionário do receptivo quiosque. Mas tive o cuidado de dar a volta, para ver se haveria algo do mesmo nível do lado oposto. E lá estava:

SE VOCÊ AINDA NÃO TEM 18 ANOS. VÁ PARA
A LOJA DE DOCES QUE ESTÁ ATRÁS DE VOCÊ.

E vi aquela imensa loja cheia de doces e biscoitos, naturalmente do mesmo dono do quiosque de tabaco. 

Somos ou não somos um povo cordial?

Quiosque de tabacos no Terminal João Goulart (foto do autor, via celular).
Quiosque no Terminal João Goulart (foto do autor).

23 de maio de 2017

SOBRAS E FALTAS


Quando no Brasil se faz uma canoa
Faltam paus e sobram buracos
Faltam carpinteiros e sobram projetistas
Faltam projetos e sobram lobistas
Para construir uma canoa
Que irá afundar no Amazonas
No Chuí
No São Francisco ou no Beberibe
Em alguma lagoa seca por aí

Quando no Brasil se faz um pagode
Sobram sambistas e falta samba
Sobram pandeiros e faltam bambas
Como dos tempos de Cartola
De Sinhô de Ataulfo
Adoniran

Quando no Brasil se fazem cenas
Sobram atores faltam textos
Sobram encenações falta o poema
Sobra o simulacro falta o enredo

Quando no Brasil se fazem os acertos
Sobram corruptos faltam corretos
Falta propina sobram dejetos
Quando se tenta apurar o que está debaixo
Do mesmo teto
Sobram ratos sobram gatos sobram raposas
Sobram larápios
Faltam honestos

Piet Mondrian, A árvore vermelha, 1908-1910, Gemeentemuseum, Haia (em pt.wikipedia.org).

8 de maio de 2017

BEIÇUDO


(Para o amigo Marcelino Medeiros, dono da história.) 
A coisa se dá mais ou menos assim.
Você viveu a infância toda como um bicho solto nas ruas da vila, algumas de paralelepípedo, outras de chão batido. Fazia corriola com o irmão e os amigos. Reinava absoluto num tempo em que até as chuvas torrenciais dos verões eram matéria lúdica. Correu pelos pastos, varou cercas de arame farpado atrás de frutas em quintais alheios, soltou pipa, brincou de siliprina e pique-esconde, andou em lombo de burro e levou corrida de cachorro bravo. Mas aí tem de sair de lá. Tem de acompanhar os pais, que procuram melhor sustento para a família. E não lhe resta nada, a não ser ir quietinho, chorando por dentro, a fim de não levar um pito daqueles, quando não um cascudo, para deixar de ser banana.
E, com o passar dos anos, cresce, vira adolescente, namora, mas ainda lá por dentro, lá no imo, como dizem os textos românticos, aquele jeito de mato permanece, recalcitrante que só ele, a manter acesos certos desejos, certos sonhos.
Um deles, por exemplo, é ter um cavalo.
Resolve, então, passados uns anos, a trocar a velha bicicleta de quadro duplo, pneu balão, campainha descascada, por um equino do vizinho do fim da rua. Você está em Nova Iguaçu e tem dezesseis anos, nesta altura. Ali você passou a morar com seus pais e irmãos. O quintal espaçoso, com algumas árvores frutíferas, pode acomodar bem o animal. Você toma coragem e vai até o vizinho e propõe a troca:
- Dou a bicicleta pelo cavalo.
Naquele tempo ainda não se tratava por magrela a duas rodas. Era bicicleta mesmo. O outro negociante, mais ou menos da sua idade, resolveu pensar no assunto. E pediu para examinar o veículo que conhecia de o ver rodando por ali.
Entrou com seu olhar minucioso, viu o estado da pintura, a sobrevida provável dos pneus, o selim com o escudo do Vasco da Gama, que ele iria tirar, com certeza, e pediu cem cruzeiros novos de volta. Não era um mau negócio para nenhum dos dois. E você ainda lhe daria a bomba manual de encher pneus.
- Por acaso esse cavalo tem nome? – você perguntou, a fim de não trocar o nome do bicho.
- Beiçudo! – disse o vizinho, sem muito entusiasmo.
E você entendeu. Beiçudo, pela aparência, já era entrado em anos. Tinha umas costelas salientes, sinal de penúria alimentar, um pelo baio desigual, a crina toda embaraçada por falta de cuidado.
Você leva o Beiçudo pela rédea. A sela não veio, por muito velha e deteriorada.
- Não tem problema, amigo, eu compro uma nova. Vou pedir ao meu pai para ajudar.
E o Beiçudo o acompanhou a passos lentos, do fim da rua até sua casa. Você entrou solene pelo portão e o deixou no quintal, amarrado a uma árvore, para que não saísse devastando o canteiro de hortaliças verdinhas da mãe. Não queria trazer problemas para casa. Apenas realizar aquele velho sonho de infância que ficou no fundo da memória, desde Carabuçu.
Providenciou ração e foi-se aconselhar com quem tinha mais experiência no cuidado com bicho de casco.
Começou a dar um trato no Beiçudo, para que ele perdesse aquele ar dolente, aquele olhar de peixe morto, que não fica bem num cavalo, num ginete fogoso. E se lembrou dos gibis de Roy Rogers, Gene Autry, Cavaleiro Negro, Zorro, Hopalong Cassidy, Durango Kid, Fantasma, que lia na farmácia do Zé. Seu cavalo ia ficar tão bonito como aqueles: Trigger, Campeão, Satan, Silver, Topper, Corisco e Herói.
Mas a vida não é uma história em quadrinhos, que sempre termina com a vitória do mocinho sobre o bandido e as forças do mal. E o Beiçudo, nem de longe, lembrava nenhum daqueles belos espécimes da família dos equídeos, desenhados à perfeição nas páginas dos gibis. Nascido e criado quase ao Deus dará pelas ruas de um bairro de Nova Iguaçu, amanheceu inapelavelmente morto, numa manhã fria de agosto, a carcaça já quase rígida, quando você foi procurá-lo com o balde de ração na mão.
Diante da fatalidade, não lhe restava alternativa a não ser rebocar dali o corpo defunto do Beiçudo, antes que seus pais encrencassem com aquele estorvo. Em vez de contratar alguém para resolver seu problema, você mesmo tenta. Sempre pôde tudo até ali em sua vida, e não seria isto a não ser resolvido.
Amarrou o corpo do Beiçudo, na altura do vazio, como se dizia em Carabuçu, com uma corda grossa, que foi atada com todos aqueles nós que aprendera no manual do escoteiro mirim ao para-choques traseiro do velho jipe Willys do pai.
Abriu o portão, deu a partida no veículo e saiu bem devagarinho, para não dar um estacão e ali mesmo pocar a corda. Aí saiu puxando o cadáver do Beiçudo, rua afora. Saiu da rua, entrou noutra e mais noutra. Chegou até a pracinha do bairro. Quando ia dobrar à direita para ganhar a direção do aterro em que deixaria seu efêmero amigo, a corda se rompeu, pelo desgaste com o asfalto irregular.
Parou o velho jipe. Olhou a situação. Viu que não podia fazer mais nada e resolveu abandoná-lo ali mesmo, pois sabia que a prefeitura daria um jeito de levar o Beiçudo à sua morada final, antes mesmo que também ele pocasse de inchado: o bico dos urubus voantes do aterro de Gramacho.
Voltou ao jipe, que acelerou com mais vigor, para voltar a casa, resmungando feito pobre pela manta que levara. Ao chegar ao portão ainda aberto, viu pelo retrovisor o parceiro de negócio passar na sua antiga bicicleta feito um corisco. E falou entredentes, dando uma sacudidela de ombros, como que para fechar a história:
-Vai-se a bicicreta e o Beiçudo. Me espere, papudo, que vou te fazer comer poeira como meu novo sonho: uma Lambretta vermelha e branca 1967.
Antes tivesse ficado com a magrela!

Imagem em depositphotos.com.

3 de maio de 2017

CONFISSÃO


Assumo que resumo o que eu fiz
Em quase nada.
Quase tudo foi fortuito
Um outro tanto gratuito.
Planejados
Somente os armários do quarto
E as aulas que ministrava aos quatro ventos
Para alguns tantos alunos atentos
Porque os outros oh! os outros
Nem queriam saber do que tratava a gramática
Apenas o resultado do jogo do Flamengo
Como aquele aluno ao lado da janela
Fone aos ouvidos
A se preocupar com os lances do primeiro tempo
Enquanto a prova pedia sua atenção.

Tudo mais
Ou quase tudo
Inclusive a preocupação de criar os filhos
Foi como um experimento
A tentativa de que tudo desse certo
Embora sem a mínima noção do correto
De que um dia eles estivessem cobrando
A correção daqueles momentos
Para saber se tudo não teria sido em vão.

Música na praia (foto do autor).


21 de abril de 2017

CHAPÉUS


Tenho tido chapéus e boinas há algumas décadas. Não sou uma pessoa antiga, nem saudosista, embora já entrado em anos, para usar uma expressão eufemística que me alivie a proximidade dos setenta, mas que gosta deste complemento do traje masculino, caído em desgraça, pelo menos, desde a década de 50 do século XX.
Durante bom tempo fazia uso esporádico ou recreativo desses apetrechos, em determinadas circunstâncias. Contudo há cerca de uns cinco anos, comecei a usar chapéu cotidianamente, a fim de tentar fugir da recomendações da minha dermatologista, que me exigiu filtro solar, até sob céu nublado anunciador de chuva. Na oportunidade em que ela me receitou o creme, manifestei meu desagrado em seu uso dada a oleosidade da minha pele. Ela, então, para me deixar sob sua tutela permanente – não poderia jamais em minha vida de branco azedo prescindir dessa proteção – me ofereceu amostra grátis de um apropriado, que só usei no primeiro dia. Assim optei pelo chapéu. É mais elegante – posso até pretender ficar mais bonito, coisa, aliás, difícil de conseguir – e não emplastra o rosto com aquela película gosmenta.
Entretanto devo dizer que fico parecendo um estranho no ninho. A devastadora maioria da população masculina prefere até mesmo uma calva reluzente – ainda não atingi este nível – a um disfarce de tal arquitetura. É verdade que, ao me olhar no espelho, no quesito beleza, não vejo diferença alguma nessa minha estampa que, à medida que o tempo escoa no calendário, vai ficando mais decadente. Porém o que se há de fazer? É isto ou morrer subitamente. Prefiro envelhecer.
Assim, a cada dia, ao sair, encastoo no alto da cabeça um dos meus vários chapéus de panamá comprados por aí. E ponho na cabeça – então lá dentro – que estou protegido de todas as gamas de raios emitidos pelo Astro Rei, de modo a evitar um possível câncer de pele, vez que nasci branquelo num país tropical, abençoado por Deus, e o resto o prezado leitor sabe.
Caso contrário, se é noite, ponho uma boina, um boné de aba curta, um chapéu de feltro – tenho mesmo um argentino próprio para dançarino de tango, apesar de não dar um passinho que seja nem de bolero – e saio para o encontro com amigos, a tomar um vinho, numa noite amena, o que tem sido cada vez mais difícil na cidade grande.
Algumas vezes, no entanto, tenho de dar explicações sobre a excrecência que levo alguns centímetro acima de minha pessoa e, para não dizer que pretendo ficar mais bonito, ou simplesmente que é um gosto maior que três vinténs, dou a desculpa de que estou seguindo recomendação médica, para me proteger das emissões de raios ultravioletas e quejandos. A explicação é aceita de muito bom grado. Todos morrem de medo de câncer.
Relativamente ao uso desse acessório, minha dermatologista me disse certa vez, quando a informei desta minha opção, que, num país ensolarado como o nosso, ele jamais deveria ter sido deixado de lado.
E isto me remete a certas fotos que tenho na memória sobre acontecimentos públicos nas grandes cidades do mundo, nas quais todos os homens, quase sem exceção, estão de chapéu. Mesmo na minha infância e juventude em Carabuçu, do final dos anos 40 até meados dos 60, era comum que vários homens ainda o usassem: os que trabalhavam na roça, sempre; os da vila, já nem tanto. Há uma fotografia na família em que está registrado o valoroso esquadrão do Liberdade Esporte Clube, da época em que meu pai brilhava na extinta ponta-esquerda. Lá está todo o time em pose da época e, atrás, de pé, os dirigentes do clube, todos indefectivelmente de chapéu, inclusive meu avô Chico Albino, numa elegância inusual atualmente.
Assim, mesmo não me considerando saudosista ou antigo – tenho na minha cabeça de que o gosto pelo rock me salva desta pecha –, uso chapéu como um exemplar saído das fotografias de antigamente, seguindo uma tradição que não mais existe nos dias de hoje.

Chapéus (foto do autor).
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 17/6/2015.

11 de abril de 2017

ADEGA PÉROLA

(Para Roberto Assis, primo.)
Meu primo Bedu (Roberto Assis) e eu, lá pelo início dos anos 70, resolvemos ver o show que Rita Lee faria no Teatro Tereza Rachel (hoje Net Rio), num sábado de tempo agradável. Por aquela altura, éramos solteiros e abandonados.
O teatro fica na sobreloja de um shopping na Rua Siqueira Campos. Ao chegar lá, para a compra dos ingressos, encontramos uma verdadeira muvuca, que não nos permitia saber onde começava ou terminava a fila. Gal Costa desfilava sua vasta cabeleira, seu largo sorriso e suas saias rodadas no meio do povaréu.
Entramos naquilo que seria uma fila. Depois de certo tempo, combinei com o Bedu que iria dar uma volta pelas imediações, para conhecer, e depois eu ficaria na fila, para que ele também saísse na prospecção da área. Desci as escadas e saí pela entrada principal, na Siqueira Campos. Do lado oposto da rua, me chamou a atenção o movimento de pessoas num bar. Li o letreiro – Adega Pérola – e resolvi fazer uma incursão de reconhecimento. Já na entrada, fiquei maravilhado com o balcão de bons metros de comprimento, todo envidraçado e repleto de um número impensável de variados tira-gostos.
As pessoas sentavam-se em barris de vinho, em que também depositavam seus copos e os pratos com petiscos, à esquerda de quem entrava no estabelecimento. Ao fundo havia umas poucas mesas, todas já ocupadas. Da parede, pedia um aviso proibindo tocar instrumentos e fazer cantoria.
Voltei imediatamente ao furdunço da fila do teatro e disse para o Bedu abandonar a missão, porque outro valor mais alto se alevantava lá fora, a exigir nossa presença.
- Você precisa conhecer a tal Adega Pérola aqui em frente.
Descemos as escadas e, em menos de cinco minuto, já estávamos com o umbigo encostado ao balcão, com uma caneca de vinho nacional de barrica – por essa época bebíamos o que se apresentasse plausível aos nossos parcos poderes econômicos – e atrapalhados na escolha de um dos muitos tira-gostos para acompanhar.
A partir de então voltei à Adega Pérola muitas vezes. Saía de Icaraí, normalmente acompanhado de amigos – o Bedu mesmo foi em várias ocasiões comigo – e, posteriormente, da Jane, para passar uma noite de delícias gastronômicas populares do cardápio lusitano e brasileiro, regados ao tal vinho ou a chope, a depender das condições climáticas.
Assim que nos nasceu o primeiro filho, a vida mudou, como é comum. E fiquei anos sem lá voltar. Até que há cerca de oito anos, ao levar minha filha e a Jane a Copacabana, nas imediações do local, decidi, enquanto as esperava, tornar ao bar. Lá encontrei o último proprietário remanescente daqueles tempos, em que religiosamente a polícia fazia uma vistoria de olhos ditatoriais sobre os presentes.
O ambiente tinha passado por uma reforma que inverteu a posição da prateleira e do balcão. Agora eles ficam à esquerda, e as mesinhas de seis bancos fixos ficam à direita. Falei para ele sobre minha história com a casa, os bons momentos ali passados. Seus olhos brilharam, e ele abandonou a caixa registradora e veio sentar-se comigo. Disse da perda dos irmãos que eram seus sócios no empreendimento. Contou que dois antigos fregueses, na iminência do fechamento da adega, entraram na sociedade, injetando capital e propiciando a reforma que eu estava vendo. E reclamou que o Chico Buarque, que sempre ia lá para tomar sua cachacinha, não mais aparecia.
Jane chegou daí a pouco, e ele ficou tão feliz que a presenteou com uma embalagem de chocolate. Algum tempo depois, tivemos a notícia de sua morte. E temi pelo destino da casa.
Neste último sábado retornamos a ela, agora com meu cunhado Jorge e sua mulher. Ele que várias vezes fora conosco nos áureos tempos em que podíamos sair de Niterói e voltar tarde da noite, de ônibus e barca, sem o mínimo problema de segurança. Chegamos de táxi, vindos do Teatro Casa Grande, onde vimos Ubu Rei, e saímos de uber.
E o balcão gigante continua lá, bonito como só, um convite irresistível a qualquer tipo de paladar, repleto dos mais diversos tira-gostos: azeitonas variadas, quase todos os frutos do mar ao molho vinagrete, diversos peixes à escabeche, favas, ovos de codorna, alho assado, muitos embutidos, boa quantidade de queijos, sardinhas fritas, bolinhos de bacalhau, frango a passarinho e outros tantos que a cozinha providencia para chegarem quentinhos à mesa, bem ao gosto do freguês.
Desta vez, foi tudo bem planejado, para que não perdêssemos nada. Saímos com a alma e a memória revigoradas por doses de boas lembranças e sabores que ultrapassam o tempo.

O show da Rita Lee – aquele dos anos setenta – vimos tempos depois, no campo do Botafogo, em General Severiano.

Adega Pérola (imagem em Acervo O Globo).

6 de abril de 2017

NÃO HÁ


Não há sandália sem tira
Nem esteira sem embira
Comichão sem cafubira
Mentiroso sem mentira
Garrucha nova sem mira
Ou mesmo ódio sem ira
Velame sem macambira
Fogo sagrado sem pira
Cateretê sem catira
Amalucado sem gira
Viola sem caipira
Ou lusitano sem vira
Conjuração sem traíra
Azul real sem safira
Caxemir sem casimira
Mata virgem sem saíra
Caverna sem corruíra
Ou jugular sem vampira
Umbanda sem Pombagira
Retirante sem retira
Ubirajara sem Bira
Gado pastando sem xira
Floresta sem curupira
Ou curtume sem estira
Espiral sem a espira
Cachaçada sem ximbira
Inquietação sem cuíra
Má ordenha sem tibira
Terreiro sem pepuíra
Ou um poeta sem lira.

Imagem em efecade.com,.br.

23 de março de 2017

VIAGEM AO PASSADO

(Para os amigos Marina e Adilson Dutra.)
Fiz uma viagem ao passado no mês de dezembro. Aproveitei o convite dos amigos Marina e Adilson Dutra e voltei a Campos dos Goytacazes com a Jane, para rever velhos espaços de outrora, quando lá estudei no meu primeiro ano ginasial. Era 1960, por aquela época.
Adilson me fez a gentileza de agendar visita à minha antiga escola, o Colégio Bittencourt, situado na Rua Gil de Góis, próximo ao Jardim do Liceu.
Eu chegara ao colégio em março daquele ano, para iniciar o Curso Ginasial. Chovia fino e fazia um certo frio, mesmo para aquele mês. Por aquela altura, o calor não era tão intenso quanto hoje, ou, criança ainda, não me dava conta disso. Foram comigo os amigos e conterrâneos Augusto Pereira e Adilson Soares, este já falecido. Eles iriam para o terceiro ano e eram, portanto, velhos alunos do internato, que me guiariam e cuidariam de mim como irmãos mais velhos. Eu, apenas um calouro espantado com a novidade, sem, contudo, temer a experiência. Não havia trote. Os mais velhos recebiam os mais novos com a indiferença comum por então.
Lembro-me bem de que, após ter ido com minha mãe e nosso tio Nalim até as papelarias da cidade – À Normalista e Ao Livro Verde – comprar o material didático, entrei na posse do meu espaço no colégio. Fui conhecer o dormitório dos menores, a minha cama, as regras de conduta, os monitores de disciplina que velariam pela boa ordem no espaço interno, e as dependências do educandário.
E, no momento da despedida, quando vi minha mãe sair pelo portão principal, reunido com outros alunos sobre a laje de uma construção em frente à quadra, disse-me o Adilson:
- Pode chorar, Saint-Clair. Aqui todos choram nesta hora.
Aproveitei a chuva fina de março, para também derramar algumas lágrimas, que cessaram daí a pouco.
Pois agora, em dezembro do último ano, estava de volta e pude constatar que alguns desses espaços permaneciam os mesmos, como a antiga quadra de esportes, ainda descoberta, logo à direita de quem entra. Naqueles poucos degraus de uma arquibancada acanhada, nas tardes de sábado, lia para os colegas de internato. Manuel Joaquim, também mais velho do que eu, resolveu que eu era bom leitor, e um grupo ficava a ouvir a narrativa de textos condensados de Seleções do Reader’s Digest, cujo volume tomávamos emprestado à biblioteca do diretório acadêmico, localizado no prédio de dois andares, no fundo do terreno, ainda lá e próximo à casa em que morava o doutor José, um dos diretores da escola. Apesar da carranca de durão com as indisciplinas de uns e outros, ele permitia que os amantes de futebol vissem os jogos do campeonato carioca em seu novo televisor preto e branco. Por diversas vezes, estive sentado no chão da sala a acompanhar as partidas. 
Ainda está lá a velha sala de aula, com as carteiras na posição invertida. Parei um instante diante dela e troquei dois dedos de prosa com a professora que atendia um grupo de miúdos. Por todas as salas em que passei, algumas inexistentes à época, vi crianças ainda bem pequenas, na fase da pré-escola, a enfeitá-las com suas carinhas interessadas, seus brinquedos corporais, seus sorrisos receptivos. Numa delas, em que falei para os pequenos que eu também já havia sido aluno ali como eles, dois aluninhos arregalaram os olhos incrédulos. Devem ter pensado em como um velho como eu teria sido aluno dali. Inacreditável!

No meio do pátio, soberba de muitos anos, está a mesma mangueira, cujos frutos não chegavam a amadurecer à época, pois os devorávamos antes, ainda verdes, com sal, à espera do almoço de sábado, chamado ajantarado, que, por sair um pouco mais tarde, agravava o apetite daquele bando de adolescentes vorazes.
E não pude deixar de lembrar de alguns dos meus contemporâneos de internato, dentre aqueles que a memória guardou com maior precisão, além de Augusto e Adilson: Rubens e Roberto Neiva, Floriano, Fernando, Zé Pimentão, Nilson, Carlinhos Gordo, Gil, Laerte, Rubens Galaxe, Ari Tijolo, Chiquinho, Newton, Manuel Joaquim, Osni; os monitores Nei, Paulinho, Lúcio de Lauro, seu Alair, e o chefe de todos, o Badô, que era capaz de reunir em si qualidades aparentemente conflitantes: era, ao mesmo tempo, severo, justo e camarada conosco.
Após o percurso por vários desses espaços, alguns novos, outros do mesmo tempo em que lá estive, fomos recebidos pelo atual diretor, Guilherme, filho de dona Maria José, minha primeira professora de latim, esposa do professor Delamar e irmã dos também professores Mário, José e Clóvis, da mesma família de educadores responsáveis por aquela escola centenária, fundada em 1914 pelo velho professor Mário Bittencourt.
Ao final do encontro, ganhei de recordação o opúsculo “O centenário do Colégio Bittencourt”, em que se registra a história da família, desde o mais remoto Bittencourt, na França, até os dias atuais.
Confesso que fiquei tão feliz, que nem deu tempo de minar água nos olhos, fato, aliás, muito comum nesta minha sentimental pessoa.



11 de março de 2017

BEBERAGENS E COMILANÇAS


A publicidade do produto que aparece na minha página de abertura da Internet informa que, "além da cafeína”, ele tem “Pods com camomila, eletrólitos e zinco".
Detesto beber ingredientes. Bebo o troço pronto, finalizado, sem saber o que leva na composição; restrição apenas para o açúcar, já que as taxas de glicose andam salientes. Mas não sou contra quem consome açúcar. Dia desses, por exemplo, na fila do caixa na padaria, uma jovem mulher estava esquecendo suas duas embalagens de doces. Ainda brinquei dizendo que não as levaria escondidas, porque não os comeria em casa. Ela, então, retrucou que não se perdoaria em deixá-los para trás. Os doces eram bonitos como a Gisele Bündchen! E ela, a dona das guloseimas, um tanto envergonhada, ainda comentou que o açúcar não serve para nada em nossa vida. Disse-lhe, ao contrário, que serve para nos dar felicidade, prazer. E isto já é muita coisa.
Mas, voltando, à história dos ingredientes, alguém, por acaso, sabe o que há na Coca-Cola? Ou no Campari? No Fogo Paulista? Ou no vinho quinado que o tio Aldany fazia para vender aos seus fregueses em Carabuçu lá pelos anos 60, e de cuja alquimia minha mãe, irmã dele, participava? Eu mesmo, depois de pronta a beberagem e antes que ela fosse engarrafada para ser deixada enterrada por alguns dias a fim de apurar o paladar, dava uma bicolada inocente e achava aquilo muito bom. Sinceramente!
Como chouriço de botequim. Sei o que ele contém, mas não penso nos ingredientes quando o saboreio. Seria um breque no paladar. Tripa de porco, sangue, redanha, como dizíamos na terrinha, e temperos muitos e variados, aí incluída a pimenta.
Bebo vinho porque gosto. Não estou preocupado com os efeitos benéficos para a saúde do resveratrol. Nem para os nocivos do álcool, se excessivo. Bebo para ser um pouco mais feliz do que já consigo ser.
Mas, em tudo, procuro sempre a temperança, resquício de minha formação religiosa, em todas as coisas do mundo. E também o prazer, agora em oposição à essa mesma formação religiosa. Creio que apenas o amor deve ser desmedido.
O resto a gente acomoda, quando se pode extrair um tanto de prazer da vida. Contudo prometo não experimentar aquele produto, só de implicância porque ele contém cafeína, Pods com camomila, eletrólitos e zinco. Vai que isso dê um revertério em minha pessoa, e eu desencarne antes do previsto na tabela de classificação periódica dos elementos!

Imagem em fisioterapiapersonalizada.wordpress.com.