29 de outubro de 2017

CAÇOADA E CAÇOADORES

Um dos divertimentos preferidos da minha Carabuçu da infância e da adolescência era a caçoada. Havia na vila um bom número de moradores cujo entretenimento predileto era caçoar dos outros.

Talvez aqui algum leitor citadino, sem a experiência das coisas do interior, não atine bem para o que seja este tipo de divertimento ou esporte, sei lá.

É que, por aquela altura, a vila não oferecia muitas opções de lazer. A folhinha marcava os anos cinquenta e sessenta do século passado. Então algumas pessoas se divertiam em caçoar dos outros.

Mas você, leitor amigo, não sabe o que é caçoar? Vou esclarecer, transcrevendo as definições do dicionário Michaelis, a fim de que você entenda como isso poderia funcionar.

No Dicionário Michaelis (michaelis.uol.com.br/moderno-portugues) estão registradas as seguintes acepções da palavra: “1 Dizer ou fazer algo para causar riso ou chacota; fazer troça a, zombar de; cachetar, ridicularizar, zoar: Caçoava os adversários políticos. Não caçoo de ninguém. Você caçoa, sim.
2 Mentir de brincadeira: Vai caçoar pra lá; matou nada!
3 COLOQ Desacreditar; não dar importância, duvidar: Não podia acreditar; afinal, a vida toda caçoara de histórias de fantasmas.
4 Fazer caçoadas com a intenção de provocar alguém ou apenas para brincar; atiçar, implicar, instigar: Caçoa do apelido do irmão até provocá-lo para briga.”

Alguns carabucenses (cuidado com a palavra) se destacavam.

Niltinho Pontes, por exemplo. Bancário do extingo BERJ – Banco do Estado do Rio de Janeiro, que tinha um posto na vila, Niltinho era uma pessoa culta, para a média da população local, o que lhe permitia caçoadas inteligentes. Ou Paulinho Sucanga, meu tio, e um dos maiores jogadores de futebol que já vi atuar, com seu jeito moleque de encarar a vida. Havia o Elias Pelanquinha também. Meu primo de terceiro grau, meio-campista do Liberdade Esporte Clube, e grande carnavalesco. Gostava de sair, durante a folia momesca, fantasiado de bebê, com um fraldão, chupeta pendurada ao pescoço, levando na mão um penico com cerveja e algumas salsichas boiando, numa sugestão nojenta para olhos mais sensíveis. Ele tirava a salsicha do líquido amarelo e a comia na frente de mulheres envergonhadas. Os irmãos Renato e Antônio Milton, irmãos do meu amigo Cabeção, grandes jogadores de sinuca, que debochavam sempre dos parceiros mais fracos. O Coberta Velha, que se destacava pela risada escandalosa, motivo do apelido, logo após suas caçoadas. Parecia uma coberta velha sendo dilacerada à força. O Elias Penudo era outro caçoador emérito. Com uma cara de sujeito sem graça, o andar meio desengonçado de marreco, vivia de caçoar o que estivesse mais próximo. Outro era o Dadá Machado, também meu primo, e cheio de deboches e brincadeiras com seus fregueses do bar. Mas do Dadá era de se esperar isso. Sua cara já o denunciava de antemão. O Moreninho barbeiro era outro brincalhão. Muito falante, como é comum aos barbeiros, cinéfilo de carteirinha, Moreninho fazia do seu salão o ponto de encontro para uma conversa descontraída e cheia de humor. Durante dois anos, fui aprendiz do ofício que ele exercia com extrema maestria e pude desfrutar daquele ambiente de saudável descontração, embora fosse um ambiente de trabalho como outro qualquer. O China alfaiate talvez fosse o maior deles. É impossível lembrar do China, hoje residente em Bom Jesus do Itabapoana, sem que venha à memória as brincadeiras que aprontava com todos. Do seu ateliê saíam tanto roupas muito bem cortadas, quanto caçoadas afiadíssimas. Aliás, China me disse há algum tempo que foi meu pai quem lhe deu o apelido, que lhe substituiu completamente o nome, Otoniel. E meu pai era um homem sisudo, de poucas palavras e ainda menos sorrisos. Mas um apelidador de marca maior.

O interessante desse tipo de brincadeira é a de que era inconsequente. Não produzia nenhum malefício ao outro, que, no fim, também acabava caindo na gargalhada – ou, como se diz lá ainda hoje, pocando de rir – e se divertindo. Era um jeito lúdico e descontraído de se estreitarem relações sociais numa vila tão pequena, em que todos se conheciam e se estimavam. Claro que havia escaramuças raras, mas, no geral, na normalidade, todos viviam em paz, no sossego das casas e das ruas. E cuidando para não cair na próxima caçoada de um desses conhecidos gozadores.


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Militão dos Santos Lima, Paisagem rural (em pinterest.com).


20 de outubro de 2017

COISAS DO INTERIOR

Na minha vila de Carabuçu, lá pelos fins de 50, princípios de 60 do século passado, Narck Pontes tinha um serviço de alto-falantes de quatro bocas, montado sobre o prédio comercial do tio Nalim, na esquina das ruas Coronel Alfredo Portugal e Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo.
O prédio era – e ainda é – o maior da vila. Tem dois andares. E sobre a cobertura instalaram-se aquelas quatro bocas metálicas que, duas vezes por dia, faziam a trilha sonora de nossas vidas simples de gente do interior.
Nos finais de semana, o proprietário, dublê de locutor, apresentava um programa de “oferendas musicais”, assim mesmo nomeado. As pessoas escolhiam uma música para dedicar a alguém. Pagava-se, então, a módica quantia de dois cruzeiros, o preço de um picolé do Barrosinho ou do tio Tônio, por cada oferenda, e transformava seus devaneios românticos em acordes musicais.
Enquanto passeávamos na pracinha, que ficava a duas quadras da esquina do tio Nalim, ouvíamos prazerosos o som espargido das quatro bocas do sistema de som do Narck Pontes, que caprichava na locução. Algumas dedicatórias eram praticamente criptografadas:
- Alguém oferece a alguém, e esse alguém sabe quem, o samba-canção Meu vício é você, de Adelino Moreira, na voz inconfundível de Nelson Gonçalves!
E, sem o chiado comum aos toca-discos de então, o som da música enchia o ar da vila. Meu amigo José Luiz Padilha, no entanto, que morava numa vasta chácara à meia distância, sempre dizia que a continuidade das ondas sonoras dependia da direção do vento. E suas audições eram entrecortadas por instantes de silêncio e instantes de som. Mais ou menos como Lulu Santos pontua na música Certas coisas.
Certo sábado de verão, noite cálida, passeando pela Pracinha do Sabiá, ouço espantado a dedicatória que o Pedro Nunes fez para minha prima Bibinha: Boneca cobiçada.
Devo esclarecer aos mais novos que, por essa época, ainda não havia a famosa MPB – Música Popular Brasileira, como nosso cancioneiro popular viria a ser conhecido a partir do final dos anos 60, com a revolução estética trazida pela Bossa Nova, ainda incipiente, e a Tropicália, ainda em gestação. Nossas canções mais difundidas eram sambas-canções e boleros, estes de origem cubana, em que a temática amorosa falava de amores quase impossíveis entre o “poeta” e sua musa, a maior parte das vezes, uma personagem de vida airosa, como no caso de Boneca cobiçada.
Minha prima Bibinha era uma jovem tímida, simples, recatada, estudiosa, que morava em outro lugar e estava passando férias em Carabuçu. Como fosse uma moça muito bonita, certamente que despertou o interesse do Pedro Nunes. E ele não pestanejou: ofereceu a música, no meu julgamento de garoto atento, errada. E Narck Pontes propagou em ondas sonoras:
- Pedro Nunes oferece à senhorita Alba – Esse é o nome da minha prima. –, como prova de muita admiração e carinho, o bolero Boneca cobiçada, de Biá e Bolinha, na interpretação de Carlos Galhardo.
E Carlos Galhardo soltou a voz, amplificada pela aparelhagem sonora, cantando os versos a seguir:

                        Quando eu te conheci
Do amor desiludida
Fiz tudo e consegui
Dar vida à tua vida

Dois meses de aventura
O nosso amor viveu
Dois meses com ternura
Beijei os lábios teus

Porém eu já sabia
Que perto estava o fim
Pois tu não conseguias
Viver só para mim

Eu poderei morrer
Mas os meus versos não
Minha voz hás de ouvir
Ferindo o coração

Boneca cobiçada
Nas noites de sereno
Teu corpo não tem dono
Teus lábios têm veneno

Se queres que eu sofra
É grande o teu engano
Pois olha nos meus olhos
Vê que não estou chorando.              


Naquela noite, percebi que nem sempre se acerta ao tentar conquistar o coração de uma mulher. No meu entender, Pedro escolheu a música imprópria. Nem sei como minha prima reagiu a isso. Lembro-me, contudo, que não ouvi nenhum dedicatória de volta. Na minha percepção, fez-se o tal silêncio que Lulu Santos viria a cantar décadas depois. E sem sinfonia nenhuma!

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Imagem colhida em amlece.blogspot.com.br.

4 de outubro de 2017

A PRIMEIRA VEZ QUE VI OURO PRETO

(Para Eduardo Campos e Rogério Barbosa, amigos.)
Já disse por aí – ou alhures, para enobrecer o texto – que devo ter alma mineira, ainda que me considere um animal sem alma. A não ser que se entenda alma como alguma coisa interior que nos individualize, nos torne particulares no meio da multidão: esse jeito próprio de ver o mundo e nele se inserir de forma única.
Pois muito bem! Esta minha alma mineira, sobretudo barroca, chegada a um queijo e a uma pinga de alambique, foi definitivamente estabelecida em meu ser na primeira vez que vi Ouro Preto. E o encantamento pelo colonial, pelo barroco, consolidou-se com a argamassa dos prazeres gustativos que as terras das Gerais têm a capacidade de despertar em qualquer ser humano que esteja aberto a novas experiências.
E, como toda primeira vez, a minha também foi inesquecível, marcada por momentos que permanecem ainda hoje na minha memória afetiva.
Era a época do então famoso Festival de Inverno de Ouro Preto, um acontecimento organizado pelos alunos da Universidade Federal de Ouro Preto, como um contraponto de liberdade, naquilo que era possível à época, ao regime militar. Ele já acontecia há uns três ou quatro anos, quando os amigos Eduardo Campos e Rogério Barbosa propuseram a viagem, em julho de 1974.
Em um bar da Miguel de Frias, encostados ao balcão e alimentados por cervejas, planejamos a viagem, enquanto a capanga do Duda, com todos os seus documentos, era roubada do seu Fusca Acidentes do Parto, estacionado bem na frente do estabelecimento. Por essa época, não tínhamos ainda o hábito de trancar tudo, com medo de ladrões. Talvez tenha começado aí com este episódio a via crucis, que só vem agravando, por que passamos atualmente.
Tivemos – Rogério e eu – de vencer a contrariedade do Eduardo, para que a viagem não se frustrasse. Na sexta-feira seguinte, à tardinha, saímos de Niterói. A Jane ia conosco. Ainda éramos apenas namorados. E, dos quatro, apenas eu não conhecia a cidade.
Como era nosso hábito então, ficamos acampados um pouco antes da entrada da cidade. Chegamos ao camping, armamos nossas barracas, tomamos o banho e partimos para a zona urbana. Os amigos e a Jane prepararam o encontro entre mim e a cidade: a partir de determinado ponto, eu deveria fechar os olhos e só abri-los assim que fosse autorizado. Rodamos alguns quilômetros – não muitos –, até que descemos do Acidentes do Parto. De olhos fechados, saí do carro guiado pela Jane e sob o comando dos três. Assim que fiquei sobre uma calçada, tive a permissão de ver. E o que vi foi de uma beleza estonteante.
Devia ser lá pelas oito ou nove horas da noite. Em pleno quadrilátero da Praça Tiradentes, bem na esquina com a Rua Cláudio Manuel, lentamente fui abrindo os olhos e o espetáculo urbano que se descortinou aos poucos foi inesquecível: a cidade estava tomada por uma névoa baixa, que encobria os telhados dos casarões e se inundava com a luz dos lampiões. Aos poucos, fui girando o corpo, conduzindo o olhar pela praça, até dar com o Museu da Inconfidência, que ficara às minhas costas. Completara, assim, o primeiro impacto em trezentos e sessenta graus com a cidade.
Fui tomado de uma emoção incomum, até então não sentida diante das coisas feitas pelo homem. A cidade não poderia ter-se preparado de melhor forma, para que o barroco e o colonial se instalassem entre minhas preferências estéticas.
Entretanto, para não dizer que tudo fosse perfeito, observamos no centro da praça, junto à estátua de Tiradentes, um veículo estranho, carrancudo, de cor preta, antena parabólica sobre sua carroceria blindada, com letras brancas a indicar que não estávamos liberados para tudo: DOPS, a famigerada polícia política do regime militar, ali a postos para as ações de praxe.
Passados esses dois sustos, carro estacionado, ainda muito poucas pessoas nas ruas, saímos para o conhecimento do que ocorria. Subindo e descendo ladeiras, ladeadas por casarões preservados, procuramos por gente, por música, por bebida e comida. Alguns porões abrigavam bares e restaurantes, onde os jovens se reuniam para confraternizar. Num desses, fomos apresentados a certa iguaria da mais tradicional cozinha mineira: o bambá de couve. Também conhecido como mambá de couve, o prato é um tipo de mingau de fubá, acrescido de pedaços de carne de porco e tiras finas de couve. É um prato de sustança, que acompanhado por vinho em caneca, desses que hoje não mais temos coragem de beber, esquentava o peito, o estômago, as canelas e a alma. E deu a energia necessária a que percorrêssemos outras tantas ladeiras, parássemos em rodas de violão a céu aberto, confraternizássemos com grupos que passavam, até voltarmos ao camping, já entrada a madrugada, para a primeira noite de sono sob o manto colonial da lua de Ouro Preto.

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Alberto da Veiga Guignard, Paisagem de Ouro Preto, 1950 (em criticadeartebh.com).


25 de setembro de 2017

SERESTEIROS

Como nos faroestes clássicos, em que a cidadezinha era invadida periodicamente por um forasteiro mal-encarado, barba por fazer, banho por tomar, chapéu de aba larga quebrada sobre o cenho cerrado, cigarro mascado no canto da boca e duas pistolas Colt no coldre, assim também Carabuçu e Bom Jesus tinham seus invasores contumazes.
Por volta dos anos 50/60, vez e outra, apareciam forasteiros bem-falantes, comunicativos, simpatia incomodativa, barba escanhoada, brilhantina perfumada nos cabelos, beiço superior ornado por um bigode aparado a navalha Solingen e munidos de uma arma perigosa: o violão.
Chegavam chegando, sem muitas cerimônias, fazendo-se enturmados, dirigiam-se ao primeiro botequim mais bem frequentado, pediam um traçado, um rabo-de-galo, uma cerveja gelada, e puxavam conversa com o mais próximo.
Eram os tais seresteiros-viajantes. Nos moldes dos também antigos caixeiros-viajantes que saíam oferecendo suas bugigangas país afora, com suas malas recheadas de novidades, tais seresteiros iam derramar seus cantos por janelas diversas, na busca de conquistar corações desavisados de donzelas – ou nem tanto – sonhadoras.
Um desses chegou a Carabuçu, quando eu menino, e por lá ficou por certo tempo. Sacava seu violão na Pracinha do Sabiá, dedilhava seus bemóis e sustenidos e soltava sua voz tremente – o tal vibrato – em boleros e sambas-canções chorosos. Mostrou sua arte como compositor, apresentando uma canção de própria lavra, de que até poucos anos atrás eu sabia a melodia e a letra.
Até que resolveu soltar seus trinados sob o alpendre de mulher casada, tida por facilitadora de situações, e acabou levando uns contravapores da pior espécie do senhor marido da dita mulher, que o fizeram sair de Carabuçu com a cara toda amarfanhada e o violão estilhaçado em várias partes.
Dele nunca mais se soube.
Um outro, pelo mesmo tempo, e nem sei se seria o mesmo, invadiu a praça de Bom Jesus com as mesmas deletérias intenções.
Na verdade, quando se diz Bom Jesus, é preciso que se entenda como uma cidade dupla: uma no Rio de Janeiro – Bom Jesus do Itabapoana – e outra no Espírito Santo – Bom Jesus do Norte – apenas separadas pelo rio que dá o nome à primeira, mas unidas pela velha ponte de concreto.
Pois também aquele tal seresteiro ambulante, de conversa em botequim da guaxa, pediu informações sobre possíveis vítimas de seu canto de sereia. Indicaram-lhe a casa do senhor José Cordeiro, exatamente postada logo à saída da ponte, já no Espírito Santo. Seu Cordeiro morava num sobrado na diagonal da esquina em relação ao posto de gasolina de sua propriedade. Segundo o cantor de milongas apurou, seu Cordeiro era possuidor de três belas donzelas solteiras, moças discretas e de peregrinas virtudes, como assegurava A Voz do Povo, hebdomadário da outra Bom Jesus, sempre que se referia a qualquer senhora da sociedade local.

Naquela mesma noite, mal a lua cheia tomou o zênite no céu estrelado de Bom Jesus, o cantador começou a debulhar canções do repertório nacional. Começou com “oh! lua branca de fulgores e de encanto / se é verdade que ao amor tu dás abrigo”, (Lua branca), da maestrina Chiquinha Gonzaga; reforçou com “a lua vem surgindo cor de prata / lá no alto da montanha verdejante” (Malandrinha), gravada pelo mago Orlando Silva; e emendou, de enfiada, com “lá no alto a lua esquiva / está no céu tão pensativa” (Noite cheia de estrelas), do portentoso tenor Vicente Celestino.


Como nenhuma das donzelas se dispusesse a abrir a janela e se encantar com sua voz maviosa, o bardo notívago, revoltado com tanta indiferença, adaptou a letra da última canção às circunstâncias do momento e cravou, no meio da noite tranquila, “só tu dormes, não me escutas / filha-da-puta”, escandindo bem a última palavra em sílabas cristalinas. Foi o instante exato de receber pelas platibandas o jorro de mijo de três penicos cheios, lançados por Zé, Justino e Pedro Cordeiro, as supostas filhas de seu José Cordeiro, já chateados daquele cantorzinho meia-bomba a incomodar-lhes o sono tranquilo daquela noite fria de julho.

J. Emilio Rocha, Cantores seresteiros (em arterocha.blogspot.com.br).

15 de setembro de 2017

MUNDINHO


Cinco dias por semana, Mundinho trabalhava duro: caixa de banco. Dois dias consumia bebendo cachaça cerveja steinhaeger traçado de cinzano com conhaque de mel fogo paulista chope vinho tinto martini seco rabo-de-galo creme de ovos catuaba com jurubeba do norte genebra underberg com soda pau-pereira limãozinho bagaceira vodka com crush rum com coca-cola campari arak pisco aquavit saquê, dentre outras coisas. De tira-gosto: careta, cusparada, assopro, assovio, estralo de língua, estralo de dedo, rodopio de corpo, muxoxo de preto-velho hum! hum! mizifio!, grito de ajudante de bandido mexicano em películas da Pelmex iahuuuuuu! e um diabo de arroto nojento, puxado das tripas, que ninguém suportava. À distância recendia a alambique, tonel, chão de botequim. Não acendessem fósforo num raio de três metros, sob pena de explodir. Ainda assim, nem ficava bêbado.
Nos fins de semana, sempre pelas redondezas, entornando aqui e ali. Num domingo à noite, final de expediente etílico, caiu na besteira de desembaraçar um arroto caprichado, para arrematar tudo, na porta do bar do Jésus, um mosqueiro como tantos outros. O dito cujo arroto foi tão indecente, mas tão indecente, que Mundinho teve de sair correndo para não apanhar dos demais fregueses.
Chegando à antiga pensão onde morava, no vinte e nove da Pereira da Silva, a língua em forma de gravata colorida até o meio da barriga, só teve tempo de fechar a porta e deixar seus perseguidores do lado de fora.
Se o fígado tinha, até aquela altura, sustentado todas as suas estripulias, o medo foi tão grande que o transformou em abstêmio. Fundou até os A. A. em Bom Jesus do Itabapoana, entrou pros crentes e, hoje, o mais forte que bebe é café coado em coador de pano, bem temperadinho no açúcar mascavo.

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Imagem em daler.ru.
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.

30 de agosto de 2017

AS MULHERES QUE MERECEM SER AMADAS

Que mulheres merecem ser amadas?
As que passeiam com seus cães pelas calçadas
As desalmadas
As que riem por nada
As que transitam suas dores escondidas
As fingidas
As autênticas
Aquelas que sofrem
As que festejam
As que estão à janela vendo a vida passar
As que lutam que labutam que usufruem
As temidas as destemidas
As intelectuais as simplórias
As que oram as que maldizem
As baixinhas as gordotas
As compridas as magrelas
As inditosas anoréxicas
As gulosas
As que não dão bola e portam seus olhares soberanos
As oferecidas
As da hora
As que estão fora do tempo há tanto tempo
As que cuidam dos seus filhos com desvelos
As que tecem teias em seus teares milenares com suas mãos de fada
As índias
As amarelas
As ruivas e as loiras
As negras as mulatas as morenas
As branquelas
E todas as demais restantes delas

Não é assim por nada
Mas toda mulher merece ser amada

Foto do autor.

21 de agosto de 2017

QUADRILHA

Tio Tatão tocava a sanfona. Eu até achava que ele não tocava assim tão bem. Mas tinha a boa vontade de estar ali. O Louro, irmão da minha mãe, batia o pandeiro, com maestria. Seu Alcino, sempre de bom humor, marcava a quadrilha, com comandos também num francês um tanto arrevesado. Embora isso eu só fosse entender algum tempo depois, ao estudar a língua de Balzac e Zola. E eu só queria dançar com a Rosélia, uma menina morena linda, de cabelos lisos, sorriso de dentes branquinhos, irmã dos meus parceiros Romildo e Ronei. Ou com a Marieta, outra belezura de menina, branquinha dos olhos claros, cabelos escuros curtos, irmã dos meus amigos Zito e Ronaldo. Ou com a Ana Maria, outra moreninha linda, magrelinha, olhos verdes, filha do seu Torquato.
Mas acho que nunca consegui tê-las como meus pares fixos durante a dança da quadrilha, pelas festas juninas do Grupo Escolar Marcílio Dias, lá na minha terrinha.
Contudo não me mortificava por isso. Sabia que, ao atender o comando do seu Alcino para trocar de par – “Tour com o par da direita!” –, num dado instante, eu rodopiaria com elas. E me sentiria quase nas nuvens.
Dançar a quadrilha junina era a experiência mais sensual que eu podia experimentar lá pelos meus dez–doze anos. Pegava a mão da menina, passava o braço por sua cintura, chegava meu rosto perto do dela, sentia seu cabelo esbarrar em mim, e de imediato saía do chão da minha escola em Carabuçu e entrava em órbita na vastidão daqueles céus estrelados de junho.
Pelo menos, a timidez produzia essas compensações, para não me deixar ainda mais frustrado. Como eu gostava daquele tempo das comemorações juninas! Jamais faltava aos ensaios, normalmente após as aulas, e ficava ansiando pela magia da grande noite da festa, para cujo sucesso o seu César Felício e o meu padrinho Said, pai e irmão da nossa diretora, dona Olívia, se empenhavam bastante. Armavam barraquinhas, estendiam bandeirolas coloridas, acendiam a fogueira a arder durante todo o decorrer dos folguedos. As professoras ajudavam nas barraquinhas e na preparação dos dançarinos. Lembro-me de Talita, Maria Amélia, Vera, Teresa, Dalta, Maria Clara, moças ainda a quem todos os alunos chamavam de “dona”.
E, enquanto seu Alcino não nos convocava para a exibição de gala da noite, nos púnhamos a correr pelos espaços abertos, soltando traques, fugindo de busca-pés, escapando de estrepa-moleques, detonando cabeças-de-nego. Ou, às vezes, mais sossegados, assando batata doce na fogueira, comendo milho assado, lambuzando-nos de molho de cachorro-quente, tomando refresco de groselha ou até mesmo umas doses de quentão, para aliviar o frio trazido pela noite.
Então chegava o momento da dança! Os meninos, com trajes à moda de caipiras – Não nos sentíamos os mocorongos que podíamos ser. – e as meninas, em seus belos vestidos rodados, quadriculados, e maquiadas como moças da roça em dia de festa, ainda mais belas que nos dias comuns de aula, corríamos para o espaço reservado à dança.
Seu Alcino se postava em frente às duas fileiras que se formavam, trilava o apito, para que todos estivessem atentos; tio Tatão puxava o fole; o Louro começava a marcar o ritmo com o pandeiro; e nós íamos sob as ordens do grande mestre de quadrilha desenhando no chão a coreografia ensaiada:
- Balancê em seus lugares!
- Tour com seu par!
- Anavan! Anarriê! Balancê!
- Changê de dame!
- Tour com o par do bisavio!
- Aos seus lugares!
- Preparando para o passeio na roça! Anavan! Olha cobra! É mentira! Evem chuva! É mentira! Cestinho de flor! Tour! Balancê!
E lá ia a quadrilha percorrendo o espaço, marcando o ritmo com a batida dos pés no chão de cimento, cada menino de braço com seu par, as famílias ao lado vendo seus filhos numa felicidade contagiante, e eu quase chegando às nuvens.

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Militão dos Santos, Festa junina (em elrincondeyanka.blogspot.com).
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PS: A quadrilha é uma dança tradicional, trazida ao Brasil pelos portugueses e derivada de uma dança do século XVIII de origem francesa, denominada quadrille. Muitos dos seus comandos permaneceram em francês, o que gerou formas populares adaptadas ao português do Brasil. Assim anavan vem de en avant (em frente!); anarriê, de en arrière; (para trás); tour (pronunciada tur), aqui mantive a grafia francesa, (rodopio); bisavio, da locução vis à vis (cara a cara); changê de dame, de changez de dame (troque de dama!).

8 de agosto de 2017

OTIMISMO DESENFREADO

Qualquer -ismo tem boa probabilidade de se tornar desenfreado, com o passar do tempo e a predisposição do cidadão que o adota. Seja ele de caráter ideológico, alcoólico ou cismático.

Nos campos da ideologia e da manguaça, não há necessidade de comprovação, porque todos estão carecas de ver exemplos por aí. Vou-me ater, então, ao campo da cisma, da pretensão, esta coisa tão humana.

O otimismo é um deles. E se submete às mesmas regras de exagero que qualquer outro, como o pessimismo, o egocentrismo, o machismo e, por que não dizer, o parnasianismo, ainda nem de todo debelado do moderno convívio poético.

Mas tenho notado que estão exagerando um pouco. Aliás, o sero mano (para relembrar a grafia de um candidato do vestibular) é dado à hybris, aquele elemento da tragédia grega que fatalmente leva o herói a erro de avaliação, por desmedida. Estamos chutando o pau da barraca na hybris, apesar de que, desde que o mundo é mundo e o Brasil foi constituído como nação abaixo da linha do Equador, com pequena exceção inexpressiva do ponto de vista geográfico ao norte, colocamos o otimismo na ponta da chuteira e invadimos a área adversária.

Neste ponto, a sabedoria popular já nos tem dado mostras. Senão, é só relembrar aqui alguns exemplos, como o dito popular “Ruim com ele, pior sem ele”. Ora, quem já está avaliado deste modo não pode oferecer nada de bom. Mas nossa concepção chama a atenção de que poderia ser pior. Nesta linha de raciocínio, pior que o pior só o péssimo. Há também “De hora, em hora, Deus melhora”, como se as coisas não estivessem piorando a olhos vistos.

Na língua, há outros exemplos de otimismo, que a gramática resolveu chamar de eufemismo. O exemplo clássico que ouvia dos professores era o da palavra “melhorzinho/a” aplicada à situação de uma pessoa gravemente enferma. Ao perguntar por ela, a resposta que se ouvia com frequência era “Está melhorzinha!”. Quando menino, sempre tinha a ideia de que o doente estava mais para morrer do que para sobreviver, porque daí a pouco ele abotoava o paletó.

Assim também, em relação a “morrer”, a língua registra uma série de torneios verbais para atenuar o sentido básico da palavra, numa espécie de visão otimista do fato: partir desta para melhor, entregar a alma a Deus, virar estrela.

Contudo, por agora, tenho ouvido algumas novas formulações neste sentido, que me têm chamado a atenção.

Um pouco depois desta última eleição municipal, um conhecido meu que concorreu à reeleição para vereador, indagado sobre seu desempenho nas urnas, disse simplesmente que tinha sido “eleito suplente”. Ora, meu caro leitor, ele entrega a alma a Deus, mas não admite que perdeu. É, mais ou menos, como o torcedor do time rebaixado dizer que seu time foi “classificado para a Série B do campeonato”.

Na linguagem da Economia, já fomos surpreendidos com a expressão “crescimento negativo” para significar que o desempenho do país deu retrocesso econômico. Ora, não há, em sã consciência, crescimento negativo: ou se cresce, ou não se cresce; ou se diminui, se decresce. Isto é pior do que os pleonasmos que minha professora primária fazia questão de nos corrigir: sair pra fora, entrar pra dentro, subir pra cima, descer pra baixo; que tanto gostávamos de falar lá na nossa Carabuçu dos anos 50, como se o sentido das ações expressas pelos verbos não fosse cabalmente inequívoco e necessitasse do reforço da expressão adverbial. Ou mesmo esta outra, na mesma linha: crescimento zero. Crescimento zero é o escambau!

Certa vez, levei as ações do antigo BANERJ – o Banco do Estado do Rio de Janeiro – que meu sogro adquirira à sede da empresa no edifício da avenida Nilo Peçanha. Lá, depois de algum tempo examinando aqueles papéis amarelados do tempo, o cidadão engravatado me disse: “O valor de face dessas ações no mercado hoje é nulo”. E o meu sogro perdeu seu rico dinheirinho para o governo do estado. Também a frase dele foi de caráter otimista. Segundo me pareceu, eu deveria ver pelo lado positivo aquele valor de face no mercado. É ter muita cara de pau, não é não?

E assim, de otimismo em otimismo, vamos construindo uma falsa visão de que as piores coisas não são tão ruins assim. Aliás, conforme sejam vistas, podem ser ótimas! Eu posso até ter sido eleito suplente de vereador. E, um dia, após a morte de todos os outros que estão à minha frente, eu assuma a cadeira a que faço jus no legislativo municipal!

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Carlitos (em academiaparaninfo.wordpress.com).

27 de julho de 2017

A MORTE DE UMA ESQUINA

Até a construção de Brasília, não se entendia cidade brasileira sem esquina. Por maior ou menor que fosse, por mais ou menos importante, cidade, para ser cidade, tinha de ter suas esquinas. Havia até um dito, lá pelo meado do século passado, de que se identificava a cidade como brasileira por um bar na esquina e um cartaz da Coca-Cola, com tudo o que isso já trazia de submissão econômica.
Por isso é que, com a construção de Brasília, sem esquinas, dizia-se que a vida na cidade não teria graça, a cidade seria praticamente inabitável. O governo federal, inclusive, teve de oferecer um capilé a mais aos servidores públicos que transferiu para a nova capital. Nenhum deles, que vivia no Rio de Janeiro, cheio de esquinas famosas, se disporia a ir para uma cidade desesquinada. O cala-boca serviu como motivação financeira para muitos trocarem o Rio por Brasília.
Mesmo em Carabuçu, minha vilazinha natal lá no norte do estado, tinha sua esquina especial: era o cruzamento das Ruas Coronel Alfredo Portugal e Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo. Nela estavam as vendas do meu pai, de um lado, e do seu Cirilo Braz, do outro. Em frente à nossa venda, estava o armarinho do João Mestre e, do lado de lá, o do tio Nalim. Contudo, a mais festeira, era a próxima. Ali estavam os bares do tio Tônio Pinto, do Barrosinho, do libanês Mansur Sabino e o armarinho do Enéas Lírio, que depois transformou seu comércio de tecidos em negócio de beberagens e tira-gostos. Até hoje, mudados os proprietários, alterada um pouco a arquitetura, melhorado o urbanismo, com a inclusão de um calçadão de pedestres, a esquina ferve em determinadas ocasiões.
Há esquinas que até ganham nome especial, como em Bom Jesus do Itabapoana dos anos 60 a Esquina do Pecado, na confluência um tanto destrambelhada, fora do esquadro, das ruas Tenente José Teixeira, Vinte e Um de Abril e Carlos Firmo.
Toda esta introdução é para levar o leitor ao meu foco principal.
Quando cheguei a Niterói, em março de 1967, fui morar na pensão da Dona Dinorah, no número vinte e nove da Rua Pereira da Silva. Na esquina desta, com a Moreira César, a trinta metros da pensão, já estava estabelecido de alguns anos o bar do Joaquim e do Zé Português, que se tornaria meu amigo fraterno e colega de pensão e, posteriormente, de apartamento. Desde então e até o início deste ano, o local sempre foi bar. Ao seu lado já houve boate, outro bar, loja de roupas, o diabo a quatro. Mas o bar da esquina resistia ao tempo. O imóvel continua pertencendo ao meu amigo, embora ele não toque mais o empreendimento.
Nessa esquina, apenas o bar era o estabelecimento aberto ao público. Em dois cantos estão prédios residenciais e no último, uma escola pública de ensino fundamental. Assim a presença do bar sempre animou a esquina, onde também havia uma banca de revista e outra de flores. Os frequentadores que, por acaso, exagerassem nas doses e nos belisquetes tinham uma farmácia ao lado onde se socorrer. Vê-se que era um empreendimento muito bem localizado. E a apenas um quarteirão da praia. Certa manhã de domingo de verão, quando bebia lá uma cerveja e vendo a excitação do jovem lusitano João, recém-chegado da Ilha da Madeira, para o serviço de garrafas e copos, disse ao meu amigo Zé Português, patrão dele:
- Zé, se eu fosse o dono da firma, não pagaria salário ao João. O pagamento dele seria curtir as garotas bonitas que por aqui passam em direção à praia.
O João babava ao admirar o desfile sensual das meninas em seus trajes de banho.
Pois muito bem! A última empresa que ali explorou o ponto tinha o nome de fantasia de Bar Fragatas. Espalhando mesas e cadeiras na calçada larga, ganhou o apelido jocoso de Queima-Filme, já que os beberrões ficavam expostos aos olhares dos passantes.
Numa certa manhã, há alguns meses, encontrei o bar fechado, já sem os letreiros. Minha mulher, preocupada, ligou para a casa do Zé e falou com sua esposa, Agostinha, que ficou até mesmo envergonhada de dizer o montante da dívida que os ex-donos do Fragatas tinham com eles. Há muito não pagavam o aluguel e foram despejados, por ordem judicial.
O local, daí a alguns dias, entrou em obras. Terminados os trabalhos, abriram-se as portas de mais uma farmácia de uma rede da cidade. E, o pior, sem nenhum charme, sem nenhum trabalho mais elaborado de arquitetura de interiores que atraia, pelo menos, os olhares dos passantes. A farmácia é feia como purgante para matar lombriga, como a rasgadura da lanceta em postema de bicheira. Eu lá não entro.
A esquina está um deserto! Está morta!

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18 de julho de 2017

O SENHOR ESTÁ DE MAU HUMOR HÁ MILÊNIOS


O bom humor do Criador durou até o episódio da maçã. O que, convenhamos, foi por muito pouco tempo! Após uma sentença de rito sumaríssimo, Ele determinou a um de seus oficiais de justiça, célebre por seu pavio curto, a executar a ação de despejo daquela dupla de inadimplentes. Daí para cá, foi uma sequência estarrecedora de punições, maldições, pragas, furacões, terremotos, dilúvios e o escambau. Quando percebeu que havia exagerado, mandou seu Filho como embaixador da boa vontade, da política da boa vizinhança, o qual, no entanto, também perdeu as estribeiras e andou metendo a gurumbumba no lombo de uns e outros que apenas queriam sobreviver à margem do governo, fazendo seus biscates, vendendo suas traquitanas. Mas aí o gênero humano já tinha virado genérico. E nunca mais deu certo.
Hoje, para tentar recuperar a desumanidade, tratamos com pachorrenta benevolência tudo quanto é tipo de bicho, mas nos esquecemos de outra parte substancial do gênero desumano que não tem nem o que comer. Não sei se isso dará certo. Se daqui a alguns anos estivermos prontos para viajar pelo espaço sideral como quem vai a Miracema e Bom Jesus, será, então, que levaremos nossos dessemelhantes humanos ou nossos semelhantes animais? Vi, por exemplo, em Paris, restaurantes que aceitam de bom grado a presença de bichos: Votre pet est bienvenu. Já, pobre, não sei bem se seria recebido com tanta sympathie, como dizem os descentes de Asterix, o gaulês.
E, depois de tanto tempo, parece mesmo que o Senhor nos deixou de lado. Cada um faz o que quer. Cada estado se arranja do jeito que as guerras e as cobiças permitem. Ele não está nem aí para o que sua criação anda fazendo. Até criação de galinha tem mais atenção. Senão, como explicar a duração do conflito entre judeus e árabes até hoje? Reparem que eles são primos – se não forem irmãos – e se digladiam ferozmente por uma terra seca, sem floresta, sem cachoeiras, sem praias paradisíacas – sem um bando de gente corrupta, também –, a qual, lá por volta de dois mil antes de Cristo, um visionário saído de Ur resolveu chamar de Terra Prometida.
O que pode explicar tudo isso, isto é, ser a Terra Prometida aquele areal em torno de uma lagoa de águas mortas, só pode já ter sido a má vontade e o péssimo humor do Criador para com a criatura. Caso contrário, ele teria prometido os verdes campos da Toscana, a aprazível Provença, ou mesmo a costa baiana cheia de resorts de luxo e coqueiros onde pendurar uma rede.
E, pelo que sinto hoje da Natureza – delegada imediata Dele junto ao genérico humano –, posso dizer que não adianta ficarem inventado religiões, a três por quatro, que os Seus maus bofes não se aplacaram e só tendem a piorar. Terremotos, tsunamis, destrambelhamento geral do tempo e do placar de jogo estão aí para não me deixarem mentir.
Quem sobreviver verá!

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Hans Memling, O juízo final; séc. XV (sauvage27.blogspot.com.br).

30 de junho de 2017

FUGINDO DA MORTE

Nascemos já com o compromisso de resistir, de tentar ficar longe da morte, a inominada, a Dama Branca de Manuel Bandeira, que o espreitou, tuberculoso que era, desde jovem até a seu passamento, já com oitenta e dois anos. Eu não fujo à regra. Adentrei os setenta com o vigor da idade, a despeito da avaliação de menoscabo do esculápio que me submeteu a uma prova de esforço nos primeiros dias do ano, numa esteira ergométrica miserenta, e revelou que meu preparo físico é fraco. Não precisava disso. Eu já sabia. Abuso na preguiça, por conta de não haver cardíacos na família. Morremos de câncer, normalmente, ou de diabetes. O que vier primeiro. Sem preferências. Por isso me cuido. Ao meu modo, evidentemente. Tudo porque, como disse alhures, não almejo a paz dos cemitérios tão cedo.
Vou aqui, então, relatar aos amigos as providências, condutas e jeitinhos para adiar o mais que puder a morte, através da explicação de seus diversos torneios vocabulares, a fim de que possa orientá-los em suas vidas. Minha família tem o péssimo hábito de ser longeva.
Vamos a eles.
ABOTOAR O PALETÓ: Não tenho mais paletós. Minto. Até tenho, para cerimônias formais, mas não lhes dou confiança. Aliás vou doá-los, assim que termine este texto. Se não conseguir me desvencilhar deles tão logo, vou arrancar-lhes os botões, a fim de não correr risco de abotoá-los inadvertidamente.
ESPICHAR AS CANELAS: Sou renitente! Não espicho! Tenho o cuidado de sempre manter meus joelhos dobrados, até mesmo quando durmo, no intuito de prevenir qualquer incidente grave.
COMER CAPIM PELA RAIZ: Raiz? Não tenho comido nada. Nem aipim, beterraba, batata, inhame, cenoura. Minha glicose anda saliente, e estou me abstendo de consumir coisas subterrâneas. Todas, invariavelmente, viram açúcar.
VESTIR O PALETÓ DE MADEIRA: Se estou abrindo mão dos paletós de tecido, muito mais confortáveis, por que iria usar paletó de madeira? Seria, inclusive, pouco ecológico. E, também, porque o caimento não fica bem. A madeira não se conforma à minha anatomia um tanto irregular, na parte situada nas imediações do ventre. Se é que me entendem.
PASSAR DESTA PARA MELHOR: Não comprei nenhuma passagem para melhor. Portanto não vou passar para lugar nenhum. Se houver vale transporte para isso, pode ser que eu estude a possibilidade, num remoto futuro. Caso contrário, fico por aqui mesmo: nesta!
VIRAR PRESUNTO: Não fui criado com bolotas, nem nasci em áreas demarcadas propícias, o famoso terroir. A não ser que Carabuçu seja considerado um terroir caboclo! Assim minha carne e minha gordura não se prestam a virar um bom presunto de Chaves, Barroso, Barrancos, Vinhais, Pata Negra, de Parma, dentre outros menos conhecidos. Nem mesmo acredito que sirvam para mortandela.
TER AS HORAS CONTADAS: Não uso relógio desde a juventude. Assim que terminei o curso primário, no saudoso Grupo Escolar Marcílio Dias, em Carabuçu, ganhei um relógio de presente do prefeito do município. Foi o único. Nem sei onde anda mais. Por isso, não conto as horas. Deixo para os mais preocupados com o tempo.
IR PARA A CIDADE DOS PÉS JUNTOS: Como no caso de partir desta para melhor, não comprei passagem. E, ademais, não encontrei tal cidade no planisfério. Nem mesmo o GPS, o Viber ou o Google Maps conseguiram localizá-la. Estou abortando a viagem sempre.
ENTRAR NO SONO ETERNO: Não consigo dormir muito, embora goste bastante. Um pouquinho só, umas oito horas, me bastam a cada dia. Esse negócio de sono eterno não faz minha cabeça. Prefiro acordar sempre no dia seguinte e beber um generoso e fumegante gole de café amargo. Assim também vale para o tal descanso eterno. Como diz o vulgo, prefiro viver cansado, embora aposentado em tempo integral.
ESTAR COM O PÉ NA COVA: Não sou couve, alface ou rúcula, para enfiar o pé em cova nenhuma. Talvez um pouco hidropônico. Sou desenraizado. Plano acima da linha do chão por dois centímetros de sola de sapato ou de sandálias de dedo, que me hão de evitar enfiar o pé na cova. Estou fora!
BATER AS BOTAS: Desde os dezoito anos, época em que servi o glorioso exército nacional, não uso botas. Nem nunca comprei. Já há bom tempo só tenho mocassins, que não servem para bater em nada, nem em ninguém. E, quando entro na areia da praia para fotografar, lá mesmo bato os mocassins na beira do calçadão, para me livrar dos grãozinhos que penetram sem convite.
DAR COM OS COSTADOS NA CERCA: Acerca, sem trocadilho, desta expressão, já me expressei aqui em outra postagem (Clique aqui para ver.). Nem chego perto de cerca, a fim de evitar, se falsear a passada, que eu possa esbarrar em qualquer tipo de cerca, de madeira, bambu, cerca-pinto, arame farpado, ou mesmo e sobretudo elétrica. Minhas costas estão incólumes até hoje.
DAR O ÚLTIMO SUSPIRO: Esta expressão é dúbia. Suspiro é também o nome de um doce muito apreciado, feito de clara de ovo, açúcar e tenras farpelas de casca de limão, que se desmancha na boca milagrosamente, mas que também eleva a taxa de glicose aos píncaros. Quem compra um pacote de suspiros dá qualquer um deles, menos o último, que é justamente o que encerra, enfeixa, potencializa seu derradeiro paladar. Ninguém dá o último suspiro. Eu, por questões já ditas acima, nem compro o pacote. Ainda mais dar o último suspiro! Quanto ao suspiro propriamente dito, esse que movimenta o ar que entra e sai dos pulmões, quero informar que vai bem obrigado. Meu fole anatômico tem funcionado muito bem. Os pulmões continuam livres e desimpedidos. Espero, assim, dar o último suspiro só depois de morto.
Por hoje é isso! Até a próxima encarnação!

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Gustave Doré (1832-1883), Caronte (ilustração para a Divina Comédia; em worldofdante.org).

18 de junho de 2017

CORDEL DAS AGÊNCIAS NACIONAIS


Tenho trauma da ANEEL
E sua trama elétrica:
Verde, amarela, vermelha,
A conta vem bem estética,
Mas come no nosso bolso
Sem pudores e sem ética.

A ANATEL não me engana
Com seu zelo internético.
Faz o jogo das empresas
Deixa o cliente patético.
Viver sem acesso à rede
Vai me deixar apoplético.

A ANAC, pelos céus!,
É uma agência estranha.
Faltou água, vem a conta
Por conta da agência ANA,
E mesmo o gás natural,
O petróleo e os combustíveis
Pelos ritos da ANP,
Andam a preços incríveis.

De mesmo jeito a saúde
Que todo povo merece
Morde parte do salário
Nos preços que a ANS
Autoriza aos prestadores
Dos planos de quem carece
De atendimento privado,
Porquanto o do INSS
Deixa o doente sofrendo
Tanto tempo que enlouquece.

Como avisa a ANVISA
Remédio vai ter aumento.
Faltou a vacina a tempo
Isto é outro contratempo.
Toda agência que se preze
Faz do prazer sofrimento.

Quem se transporta por terra
De onde pra não sei quê
Por sobre a buracaria
Das estradas que se vê
É da conta da autarquia
Da sigla ANTT.

Por sua vez a ANTAQ
Me causa ataques diários
Quando atravesso de barcas
Com seus serviços precários
De Niterói para o Rio
Nos meios aquaviários.

Restou por fim a ANCINE
Na solução do problema
Que se arrasta dolente
Na indústria do cinema:
A produção nacional
É ainda bem pequena.

Só me faltou referir
A uma nova autarquia:
A tal Agência Nacional
De Mineração, que um dia
Venha a sair do papel,
Para a nossa alegria.

E vou parar por aqui,
Por motivo de premência
Do tempo, que é exíguo,
E também da paciência
Em entender o que faz
Esse monte de agência.

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