30 de novembro de 2011

TIPOS INESQUECÍVEIS DE QUE TENHO APENAS VAGA LEMBRANÇA

Quió: Vendia jiló na feira e ajudava Toim Cu de Burro a desonrar muares nos pastos, nas noites de lua cheia. Pior que não guardava segredos.
Querêncio: Vivia querendo coisa com Cremilda, filha de Quelemente e Cacilda. Levou pelas platibandas coice de mula prenha e perdeu os dentes da frente.
Zeferino de Zefa: Zelador da Praça do Sabiá. Também tinha zelo por Zoraide, mulher de Zoroastro, que armou zoeira, quando o encontrou cuidando da área de lazer lá dela.
Quintiliano do Cartório: Só trabalhava cantando. Lavrava certidão de nascimento ao som de Mamãe eu quero; certidão de óbito, a poder do hino Com minha mãe estarei; e certidão de casamento, com A moda da mula preta. Averbação de desquite era especial: Acorda, patativa!, de Vicente Celestino.
Cocote: Era o goleiro do Liberdade Esporte Clube e pegava chutes de todos os calibres. Mas não lia, nem escrevia. Ao Jorge, de batismo, o presidente do clube acrescentou Sá, para facilitar que aprendesse a assinar o nome na súmula dos jogos, e assim o registrou.
João Preca: Pegou caxumba e, para não ficar rendido, ficou um tempão de cama. Aproveitou para aprender a tocar violão e nunca mais cavucou um buraco, carpiu uma roça, arrancou um toco. E tocava sempre: “Peida aqui, caga no canto, que eu daqui não me levanto”.
Bonga: Ponta esquerda do Liberdade Esporte Clube. Nos dias úteis, carreava bois, os quais espicaçava com grande remorso. Nos inúteis, dava botinadas impiedosas nos zagueiros adversários, pelo Campeonato Bonjesuense de Futebol. Tinha a pele exageradamente tinta de melanina, de modo que, de branco, só o branco dos olhos e dos dentes.
Zé Caboclo, Dentista
(artepopulardobrasil.
blogspot.com).
Alcides Dentista: Subia em lombo de mula os caminhos da serra, arrancando dentes, devastando bocas – o paciente sentado nas toras amontoadas no terreirão. Quando voltava, tirava do saco de aniagem as dentaduras que ia experimentando nas bocas murchas, até encaixar firme. Cobrava barato e tinha muito serviço.
Barrosinho: Dono de botequim, misturador de refresco e fazedor de picolé. Deixava as formas lavadas do lado de fora no quintal, de modo que seus picolés sempre tinham uma penugenzinha de pombo, a destacar os sabores: de coco, de creme, de groselha e de uva.
Carlinda do Procópio: Tinha ficado viúva do Procópio, mas não perdeu o nome. Criava galinha e pato e, na altura dos quarenta e tantos anos, começou a dar bola para Chico Padeiro, que enfiou a mão na massa de não deixar partes sem apertar. Carlinda ficou um brinco de pessoa, toda jeitosa.
Chico Padeiro: Já peguei Chico Padeiro na virada dos sessenta anos, por sua vez já viúvo de Carlinda, a qual não aguentou tanto aperto, tanto amasso. Chico Padeiro era bom de um tudo, mas pensava que as carnes de Carlinda fossem massa de rosca baroa.
Tatão Florindo: Homem forte, dobrado, pegador de vaca pelo chifre. Trabalhava na Fazenda do Jacó e, nas festas de São João, passava sobre as brasas da fogueira com os pés descalços. A sola dos pés era grossa de quase um dedo. Queimava a bainha da calça, porém os pés saíam fumegando, mas sãos.
Zé Gago: Zé Gago era mestre em gaguejar. Gaguejava até nas vias-sacras na época da Quaresma, rezadas na Capela de Santo Antônio. Quando ele não aparecia na reza, dava uma diferença tão grande, que o sacrifício ficava bem maior. Meu joelho doía ainda mais.
Dona Cotinha Rezadeira: Tirava tudo que é tipo de malefício do corpo: pescoço duro, lumbago, descadeiramento, dor de olhos, espinhela caída, esporão, caxumba, unha encravada, panarício, bucho virado, tersol, nó nas tripas, lombriga, verrugas e até infestação de piolho em cabelo de menino de escola. Não cobrava nada, mas aceitava doações. Sempre estava com um pano branco sobre os cabelos.
Pedro Puri: Maluquete que se dizia índio puri, nascido e criado em “Capiun”, como ele chamava Itaperuna em seu jeito estropiado de falar (Itaperuna já não via índio há mais de cem anos). Vivia de ganhar dinheirinho miúdo comendo baratas em frente a mulheres, que saíam correndo esbaforidas de nojo. Depois de mastigar a barata, ia cobrar o combinado, com o engraçadinho que encomendara a troça.
Homem da carroça, de Luís Rodrigues
(em naturezamoldável.blogspot.com)
Seu Osório: Revisteiro, que é como chamávamos aquele jornaleiro itinerante da vizinha Boa Vista, que, uma vez por semana, ia à vila. Sua carroça era toda montada para transportar galinhas, patos, galinholas, que ele comprava durante as viagens para revender em outros lugares, como comerciante de aves e ovos. Minha mãe tinha coleção gigante de O Cruzeiro, comprada dele.

29 de novembro de 2011

O L H O S

por que andam teus olhos tristes
assim jogados pelos cantos da vida?
com quem vão teus olhos claros
percorrer os espantos do amor?
o que indagam teus olhos mornos
entre as frestas em que vislumbram
a luz e a escuridão?
por que são teus olhos grandes
esses faróis de milha bi-iodo
a ofuscar outros olhos que transitam
tua mesma estrada em contramão?

Imagem em perfectissimo.over-blog.fr.

28 de novembro de 2011

E TUDO TORNA-SE...

meus tormentos só os sinto
quando tento ser mais lúcido
e tudo torna-se insensível

estes fogos de artifício
em que se queima meu desejo
destroem-me também o siso
e tudo torna-se impossível

a caldeira de meu peito
compressão de meus defeitos
com defeitos ela mesma
não explode só comprime
e tudo torna-se impassível

Georges Mathieu, Regards de flamme (séc. XX),
em ien.lorient.centre.free.fr.
o cinema de meus sonhos
pelos olhos mais que abertos
mais despertos mais desertos
tem imagens desconexas
sem legendas sem roteiro
e tudo torna-se invisível

o discurso destes versos
ilusão ânsia protesto
discurso não é por certo:
alguma coisa inaudível
desprovida de sentido
com que me sinto perdido
e tudo torna-se indizível

27 de novembro de 2011

PANEGÍRICO DA BANANA

Ney Matogrosso está cantando lá na Praia de Icaraí. Ouço daqui do meu apartamento seus trinados em falsete. Voltou a chover. Gosto do Ney, mas já gostei mais. Porém o que me preocupa, verdadeiramente, neste instante, é a contribuição que posso dar ao meu estimado leitor, com algumas breves considerações acerca da banana.
Sempre esteve entre as minhas preocupações intelectuais que deveria falar desta fruta especial. Aproveito, então, para fazê-lo agora.
Banana é essa fruta cantada em prosa, verso e marchinha de carnaval, com a sem cerimônia de quem é muito íntimo. Talvez a fruta que deu mais intimidade ao brasileiro seja a banana. Não se pode entender a nossa civilização (?) tropical e tupiniquim sem a banana. Mais do que o café, o futebol e o carnaval, a banana foi a grande propulsora da nossa interiorização. Chegamos, inclusive, na ânsia de conquistar mais e mais território, no período das entradas e bandeiras, a disputar com bandos de macacos, no meio de florestas, um cacho de bananas madurinhas, pintadinhas. Não é preciso dizer quem venceu a disputa, não é mesmo?
Muitos outros povos têm na banana seu alimento básico. Até porque ela era o alimento mais barato, vendido a preço de banana.
E por que a banana tem essa importância crucial para nós? Ora, simplesmente porque é a fruta mais bem projetada que a natureza conseguiu fazer. Nenhuma outra oferece a facilidade e a segurança da banana para o consumo.
Em primeiro lugar, a banana, como, aliás, a maioria das frutas, já vem com invólucro. Só que este é facilmente removível, sem auxílio de nenhum tipo de ferramenta. Bastam dois dedos, para que a descasquemos e, a seguir, a devoremos.
Podem vocês argumentar que também se pode comer a pera, a maçã, ou o morango, até mesmo sem a remoção da casca. No entanto, será necessário higienizá-los antes. E aí está o segundo ponto importante. Quanto à banana, basta descascá-la! Dirão, talvez, vocês, na ânsia de me contestar, que também a casca da manga é facilmente removível, com o auxílio dos dentes. Mas e a sujeira que ela faz nas mãos, na boca, nas bochechas? E os respingos que caem na camisa e no sapato? Ah, você está nu, ao lado do valão onde toma banho? Então cairá na sua barriga, se você estiver um pouco fora da silhueta ideal, ou naquele lugar, se for homem bem dotado; ou, se de dotação tímida, o pingo irá diretamente atingir seu dedão do pé. Não há comparação com a banana, que é uma fruta de consumo limpo, higiênico! Nem vem!
Outras vantagens: a banana não tem fiapos, não exige uso de fio dental; não tem caroços para quebrar nosso dente ou provocar engasgos; não tem espinhos que agarrem ao céu da boca; não deixa outro resíduo além da casca, que tem também sua utilidade. Com ela, podemos armar um baita tombo para aquele vizinho nojento ou aquele chefe pentelho, durante o horário de expediente. Ou mesmo fazer uma pegadinha descompromissada na rua com qualquer incauto que vá passando. A banana sempre dá jogo.
Imagem em gourmetvirtual.com.br.
Até mesmo o design da banana é moderno e anatômico. Imaginem um cavalheiro que coloque uma banana no bolso. Pode passar por alguém que não é. Caso uma mulher a coloque na bolsa, pode fingir que está armada. Esse aspecto anatômico gerou até piada, já velha do tempo do rei. Sua majestade ficava indignado pela sujeira que os camponeses deixavam, a cada final de feira, na praça do castelo. Resolveu, assim, baixar uma determinação proibindo a feira, sob pena de enfiar pelo traseiro do recalcitrante o produto que teimasse em trazer para venda. Devia ser um rei francês cheio de frescuras. Por isso é que, no fim de semana seguinte, sem saber da nova determinação, François vem trazendo uma carga de bananas. Os guardas, postados no portão de entrada, confiscam a carga, repetem em alto som a ordem real e começam a introduzir as bananas em François, que, inopinadamente, começa a rir. Os guardas, estupefatos, perguntam o motivo do riso, já que a pena era dolorosa. “É que meu vizinho Charles vem aí trazendo uma carga de abacaxi!”, disse-lhes ele aliviado, por serem apenas bananas.
E a quantidade de tipos de banana? Aí nem se fala! E os valores nutricionais? Xiiii! É muito alto!
E, sobre isso tudo, ela sustenta, alimenta, mata a fome. E disso tenho experiência própria. Quando menino, ia com meus primos para a casa do tio Aldani, que morava no alto da Serra da Boa Esperança, lá em Carabuçu. Ele já tinha seus quatro filhos. Chegavam mais quatro ou cinco sobrinhos. A situação financeira não era tranquila. O que ele fazia antes do almoço? Simplesmente perguntava quem queria banana. Como não havia um que disse não, levava-nos para o sótão da casa, onde cachos e cachos de banana estavam armazenados, e comíamos algumas. Depois, então, subíamos para almoçar, já com parte de nossos vorazes estômagos de meninos preenchida com a deliciosa fruta. Esta esperteza, meu próprio tio, infelizmente já falecido, confessou em sua festa de bodas de ouro.
Quando a União Europeia se constituía, as autoridades de lá resolveram estabelecer regras sanitárias rígidas para a importação de alimentos, sobretudo os oriundos da nossa combalida América Central e do Sul, da Ásia e da África, isto é, da periferia. Pois muito bem! As regras, se postas em vigor, tirariam boa parte do suprimento de bananas que chega lá, sobretudo, da América Central. Então os alemães, talvez os maiores comedores de banana do planeta, se insurgiram – não o povo, que a questão não chegou até ele, mas as próprias autoridades que discutiam tais medidas – e, quanto à banana, ficou tudo como dantes. Os alemães não podem passar sem sua bananinha diária.
Tenho ou não tenho razão de fazer estas considerações elogiosas a fruta tão especial?
Já me alonguei demais – além do tamanho de uma banana – e paro por aqui. Vou até a cozinha comer uma deliciosa banana maçã madurinha, que, ainda há pouco, ficou olhando para mim de forma muito oferecida.

26 de novembro de 2011

SONETO DA CONSTAÇÃO DECEPCIONANTE

Olho-me com cuidado ao espelho
Imagem em verbosefezcarne.blogspot.com.
E observo às margens de minha fronte,
Onde um dia já houve cabelos,
Uma leve penugem aparente.
E dá-me a esperança, de repente,
De que esta penugem incipiente
Tenha voltado a habitar a fonte
Onde moravam aqueles seus parentes,
Finos cabelos negros contrastantes
Com a pele branca da minha tez de agora.
Mas, num segundo assim tão de repente,
Vem-me uma dúvida que me devora:
Esta penugem está voltando à fronte
Ou dando adeus e indo-se embora?

25 de novembro de 2011

POESIA FAST FOOD

Aliviado da pressão
como uma garrafa de champagne aberta,
o poeta dispara rimas de montão,
qual perlage que escapa,
com a certeza de certa forma incerta
de que acertará alguma
em algum verso de pé quebrado
da sua grande produção de esteta.
Ainda há pouco acabou de assinar
o seu soneto de número quatro mil
quatrocentos e quarenta e quatro
de sua irrefreável lavra,
(Se a memória não me falha!).
E rima bode com cabra,
e rima lata com pote,
macarrão com minestrone,
alcaçuz com alfaiate.
E vive matando a fome
Imagem em openlibrary.org.
em alheias tardes de autógrafos
em meio a seus confrades,
os tais encontros de vates.
E segue assim com seu estro
dificultoso,
canhestro,
mas espargindo suas rimas
com a sem cerimônia de praxe,
como se a poesia assim fosse
coisa de parca virtude,
tal qual comida barata
achada em qualquer fast food.

(Poema motivado pelo comentário inicial da postagem A rapsódia de dez poetas em Niterói - Geir, Placer, Pimentel et al, no blog Literatura e Vivência, de Roberto Kahlmeyer-Mertens.)

24 de novembro de 2011

COMPRA E VENDA DE APARTAMENTO COM SUÍTE E HIDROMASSAGEM

Imagem em barradatijuca.com.br.
Depois de procurar criteriosamente, fez um círculo vermelho em torno do pequeno anúncio de venda de um apto., excelente local., andar alto, recém-reform., salão em L, 2qtos./1ste. c/hidro, banheiro soc., coz., var., dpc, garag., docs. em ordem. Viu que o preço lhe servia, telefonou, para marcar visita. Atendeu voz de mulher que, por seus cálculos, andava pela casa dos trinta e tantos.
Na hora marcada, chegou com precisão, anunciou-se ao porteiro e subiu, após o consentimento da moradora.
Por cavalheirismo, embora mais velho cerca de dez anos – ou pouco mais – que a vendedora, chamou-a dona Priscila. Ela, simpática, estendeu-lhe a mão, enquanto, atrás de si, apareciam suas duas filhas. A pequena, toda espevitada, olhou-o com olhos sapecas de seus cinco anos. A mais velha, mais séria, entrando na adolescência, poderia ter aí onze/doze anos.
Depois do cumprimento geral às crianças, entrou na ampla sala, onde a menorzinha, Isabel, como se apresentara à porta, começava seus exercícios de dar estrelas na diagonal da sala com poucos móveis.
À medida que acompanhava Priscila pelos cômodos da casa, que examinava com certo cuidado, seguia como perdigueiro o suave perfume de sabonete vindo da dona do imóvel, a denunciar banho recém-tomado, e tendia a certa distração.
Entrou na cozinha, também ampla, e reparou os azulejos até o teto, a meia parede que a dividia da área de serviço, o quarto da empregada no fim, o banheiro ao lado. Não prestou muito atenção, já um pouco mais disperso, inebriado, quando ela lhe disse que, recentemente, o condomínio trocara os tubos de esgoto e água do condomínio, porque os antigos haviam enferrujado – de ferro eles eram.
Deixou que a mulher o guiasse à suíte, até para continuar a sorver no ar o perfume que vinha dela, e não notou muito no que ela dizia sobre a pintura recente de todo o apartamento, em função das obras que o condomínio fizera nas instalações hidráulicas.
Ela acendeu a luz do banheiro da suíte, que ele examinou mais detalhadamente, como a querer imaginar Priscila ali tomando banho, deixando a água escorrer por seu corpo, sua pele branca, seus cabelos escuros. Demorou mais neste pequeno cômodo, com a desculpa de abrir torneiras e dar a descarga, para avaliar a pressão da água. E imaginou-a enxugando-se sobre o tapete em que percebeu a umidade de fim de banho. E continuou a pensar bobagens com a mãe das meninas.
Vistoriou o quarto das pequenas, que agora estavam na sala brincando de bater as mãos ao compasso de uma música infantil. Olhou a decoração singela e perguntou se aquele armário do quarto permaneceria ali ou seria removido. Porém não prestou atenção à resposta, porque sentiu a respiração dela atrás de si, o frescor do banho, o aroma de seu hálito de dentes escovados há pouco.
Resolveu fazer a pergunta crucial, em vista das caraminholas que rolavam em sua cabeça, ao ver aquela jovem mulher, suas duas filhas crianças e a ausência do marido, que, quem sabe, ainda não chegara do trabalho, o trânsito tão tumultuado atualmente:
- Dona Priscila, a senhora e seu marido, por acaso, aceitam uma contraproposta ao preço anunciado?
Ela sorriu um tanto sem graça e disse que ela – e frisou bem o pronome de primeira pessoa – aceitaria, porque seu marido já tinha abandonado a casa e as meninas, atrás de uma doidivanas qualquer que trabalhava com ele.
- Pois então, dona Priscila, peço que aguarde telefonema meu amanhã, pela manhã. Vou fazer umas contas e ligo cedo para a senhora. Gostei muito do imóvel, da conservação, da localização. E, se me permite, simpatizei com a senhora e as meninas.
Confirmou o fixo e o celular, apertou-lhe a mão, agora com mais firmeza, e sentiu nela leve tremor, como quem tem pequeno calafrio. Fez um carinho na cabeça das meninas, perguntou o nome e a idade da mais velha – Sabrina, onze anos – e saiu com a cabeça nas nuvens, quase pisando flocos de algodão doce.
Ela se demorou um pouco, antes de fechar a porta, e olhou-o apertar o botão do elevador, como que a confirmar que ele iria embora.
Naquela noite, Carlos Eduardo – este é seu nome – não conseguiu dormir direito. Seus cinquenta anos de biscates foram sensivelmente abalados pela presença de Priscila, sua pele clara, seus cabelos negros, o sorriso um tanto sem graça, as duas meninas de olhar esperto e cabelos encaracolados, ligeiramente claros.
Dia seguinte. Telefonou pelas nove horas para fazer a contraproposta. Abateu apenas seis por cento no valor pedido pela proprietária que, com a voz demonstrando discreta felicidade, disse-lhe que pensaria e à tardinha, no mais tardar, daria a resposta. Ele lhe pediu preferência, caso não houvesse prioridade anterior, e pôs-se ao aguardo de sua resposta. Desligou o celular, cerrou o punho, como quem comemora alguma coisa e olhou para o teto do escritório, prenunciando algo.
À tarde ela ligou para ele, aceitou a oferta e seu convite para que almoçassem no dia seguinte, para estabelecer os acertos finais e fazer mais algumas perguntas.
Ao final do almoço, acertou o preço da venda, a forma de pagamento e o pedido formal para que ela não saísse de casa com as meninas. Apaixonara-se por ela e não queria perder a oportunidade de um bom negócio para mobiliar seu coração vazio.
Ela pediu um prazo para se desocupar do ex-marido, enquanto corressem os documentos de compra e venda e pudesse livrar de seu coração das tralhas que acumulara durante uma relação dolorida. Tão logo estivesse tudo em ordem, o novo proprietário poderia se apossar dos novos bens que lhe pertenceriam.

23 de novembro de 2011

O MATO TEM SEUS MEDOS

Floresta de Arietis (em arietis.superforum.fr).

O mato tem seus cachorros soltos
Tem seus mortos tem seus caminhos tortos
E há muito que estou no mato sem cachorro
Absorto
Procurando a trilha para o asfalto negro
Que me reconduza a casa sem desespero

O mato tem seus mistérios opacos
Armadilhas que se armam entre o arvoredo
A tragar os passos dos incautos
Dos medrosos
Num arremedo de labirintos falsos
Sem a teia de Ariadne por perto

O mato tem seus mitos tem seus medos
Tem os fantasmas que rondam em segredo
A fazer de nossas vidas fugazes
Um panorama de total incerteza
Nos meandros
E nos becos de que sair nem sempre é liberdade

22 de novembro de 2011

SE HOUVER AMANHÃ

se houver amanhã
apesar da ameaça nuclear
            das catástrofes naturais
            das doenças e do baixo salário
ainda assim
se houver amanhã
acorde-me somente
um pouco antes do almoço
é que fui dormir muito tarde
não confiando em que pudesse haver amanhã

mas se não houver amanhã
como é mais provável
por favor
espante meu sono mortal
e deixe que eu aproveite
os últimos minutos dessa festa orgiástica
desse festim medonho
onde o pasto falta para muitos
e abunda para poucos
mas todos indistintamente
continuam dando graças
às suas próprias ganâncias e ingenuidades
e construindo o caos 
que nos anuncia como será o amanhã

Imagem em arquivoufo.com.br.

21 de novembro de 2011

SOLANGE E LEONARDO

Não sei se deveria contar-lhes, mas é que há certas histórias que não podem passar em branco. E certos narradores têm o mau hábito de não guardar segredos confessionais.

Solange trabalhava comigo na escola. Tinha lá seus trinta e tantos anos, um sorriso ingênuo, um olhar ingênuo, uma fala também ingênua e andava com um passo ingênuo, de tal modo que despertava nos canalhas certo desejo de com ela fazer coisas, na pretensão de ensinar-lhe algo que ela supostamente não soubesse. Era a própria ingenuidade em pessoa, embora tivesse dois filhos adolescentes, o corpo redondo, cheio de belas formas curvas, prenunciando Botero em seus quadros adiposos.

Leonardo, seu ex-marido, tinha ido procurar novas esbórnias nos braços de outra. Feio, baixo, atarracado, peludo como Toni Ramos, os dentes aleatoriamente espalhados na boca como milhos mal debulhados, não havia jeito de parecer de cara limpa com aquela barba preta e densa, por mais que se escanhoasse. Trabalhava comigo no outro emprego, nos corredores do fórum da cidade, embora tivéssemos fortuitos encontros em horário de expediente, quando, então, trocávamos algumas frases inconsequentes.
Eu sabia dos acontecidos de suas vidas, porque Solange via em mim uma espécie de pessoa confiável, quase um confessor, que se manteria mudo, não importasse quais fossem as circunstâncias. E também porque era pai do colega de classe de um de seus filhos, o mais velho.

Um dia, no entanto, a outra, a dita sirigaita aproveitadora, cansou-se daquela vida minguada de funcionário subalterno sem cargo em comissão e mandou Leonardo andar.
Alguns homens têm a cara de pau, nessas ocasiões, de se socorrerem da ex, com argumentos que só se sustentam na ingenuidade delas. E foi o que ele fez.

E voltou para casa extravasando boas intenções e sinceros arrependimentos. Logo procurou psicólogo misto de macumbeiro, indicado por colega de cartório, a fim de tentar colocar a cabeça em ordem. O dito profissional polivalente o aconselhou a exercer alguma atividade artística, para dar vazão a desconhecido espírito que se encostara nele e que, na outra vida, mexia com pincéis, tintas e paletas, a par da lubricidade que acometia suas partes baixas.
Leonardo misturou suas aulas de pintura com orientações espirituais e foi-se desenvolvendo. Se melhorou espiritualmente, não percebi, como também nunca indaguei. Porém sua expressão estética passou dos garranchos iniciais de alfabetizado, para caligrafia de múltiplas expressões. Era, realmente, um progresso artístico admirável. Por isso passou a ser requisitado, a vender seus quadros, a participar de coletivas, até chegar a exposições individuais.

Solange viu naquilo a redenção do marido, que voltara aos primeiros tempos de casamento. Ela, muito católica, toda entusiasmada, certa ocasião convidou-me a participar de encontro de casais. Sem que pudesse perder a oportunidade de fazer troça, disse-lhe:
- Marque o motel e o horário, que chego lá!

Ela tomou um susto ingênuo, como pude perceber por seu sorriso maroto. Mas depois caiu em boas gargalhadas, chamando-me de brincalhão, mas reafirmou que o convite era sério. E indicou a igreja e o horário a que deveria comparecer, levando minha mulher.
É claro que nunca lá estive.

As coisas caminhavam bem para Leonardo e Solange, sempre pelas informações que ela me passava, até que certa manhã duvidosa de agosto, recheada de atropelos espirituais e confusões de ordem econômica e política, vem ela, com seu passo ingênuo, os olhos inchados, a boca carnuda de musa do artista colombiano, me dizer que Leonardo, mais uma vez, tinha dado o pinote, atrás de outra sirigaita aproveitadora de homens casados, a qual conhecera num de seus vernissages, entre um gole de vinho branco e outro, um canapé requentado e um copo d’água sem gás.
Olhei para ela, entre penalizado e excitado, e quase lhe propus um encontro de casais: ela e eu, só nós dois, para fazer as coisas pouco recomendáveis que me passavam pela cabeça. Talvez ela não aceitasse. Talvez sim. Nunca se sabe o que se passa pela mente de uma mulher ferida.

Essa dúvida ficou comigo.
Anos depois, encontrei-a, por acaso, na Rua Moreira César, e ela estava ainda mais redonda, os cabelos pintados de um preto forte, com o mesmo sorriso ingênuo nos lábios:

- Oi, amigo! Sabia que Leonardo voltou novamente. E agora não tem retorno: ele está com aquela doença ruim na próstata. A outra não quis saber dele e eu fiquei com pena de que morresse sozinho, desamparado. Meu coração me dizia isso: fosse a última caridade que lhe faço.
Deu mais notícias dos filhos, do netinho que já estava andando e fazendo gracinhas, e dobrou a esquina da Lopes Trovão, com seu passo ingênuo e seu coração do tamanho do mundo!

Fernando Botero, Casal, 1995
(artchive.com).

20 de novembro de 2011

ANTAGONISMOS

física e geograficamente
quanto mais me deito
mais me levanto
quanto mais sucumbo
mais crio forças
quanto mais padeço
mais me alegro
quanto mais afundo
mais tenho o corpo redimido

tudo isso por causa de você

Imagem escolabiblicadiaria.blogspot.com.

19 de novembro de 2011

E AS MULHERES FINGEM...

cada caminho lembra pedra
cada moinho o tempo rolado como seixo
cada desejo esta merda de vida sem paixões
            (as mulheres fingem não notar
            que lhes esmolo o corpo
            e seguem indiferentes)
cada aperto no coração muito mais para enfarte
cada suspiro perigo de poluição
cada delírio caso de internação psiquiátrica
            (as mulheres fingem não notar
            que me apaixono à toa
            e seguem indiferentes)
cada cantada arquivo morto
cada sorriso um pedido de desculpa
cada aceno um gesto inútil de espantar moscas
            (as mulheres fingem não notar
            que me descomponho todo
            e seguem indiferentes)
cada sonho um antigo filme em preto&branco
cada beijo babugem entre beiços
cada orgasmo um desajeitado sacolejo da carne
            (e as mulheres fingem não notar
            que me destruo aos poucos
            e seguem indiferentes)
Catherina Spaak (vivagringo.blogspot.com)

18 de novembro de 2011

MITOLOGIA GRECO-ROMANA ADAPTADA A TEMPOS DE CRISE

Com a derrocada da nova civilização (?) greco-romana, na pessoa de seus países, suas contas públicas e seus políticos incompetentes, acrescentada a bunga-bunga berluscônica, sinto comichar nos meandros das minhas circunvoluções cerebrais a necessidade de adaptação da antiga mitologia, velha de milhares de anos, a esses novos tempos.

Destarte, pude captar as novas atribuições de algumas entidades do panteão do Olimpo, como vou passar a fazer.
O próprio Olimpo perdeu muito de sua mística, em virtude da quebradeira geral imposta à Grécia, onde miticamente se situa, e agora baixou de categoria, operando presentemente no varejo da gastronomia, com franquias abertas em Niterói, no Olimpo, localizado no bairro de Charitas, e no Rio de Janeiro, em sua versão franco-brasileira, no Olympe, do chef Claude Troisgros, que funciona no Jardim Botânico. Em Bom Jesus do Itabapoana, é meramente um adjetivo clubístico, sem maiores pretensões, já que nem a LBD – Liga Bonjesuense de Desportos –, de tão gloriosa memória, funciona: Olímpico Futebol Clube. Ou, se quiserem, ainda no ramo da gastronomia, porém agora de extração popular: a carroça de churrasquinho do José Olímpio, que vem a ser meu parente afastado. E bem afastado, depois que fiquei sabendo do desaparecimento misterioso de vários exemplares da raça dos felinos, tão logo ele abriu seu comércio ambulante de espetinhos grelhados.
Hefesto (ou Hefaistos) fechou sua siderúrgica em Lemnos, onde chegou a trabalhar para Zeus na confecção do escudo deste, e abriu serralheria modesta, de duas portas estreitas, na Rua Noronha Torrezão, no Cubango, atendendo a pedidos de basculantes e grades peito de pombo para apartamentos e residências. Vulcano, seu equivalente romano, terceiriza para o grego as encomendas que recebe, pois sua franquia faliu. Antes tinha passado pela Metalúrgica Castor, em Bangu, mas foi despedido da função de forjador-mor, após a morte de seu proprietário, também corretor zoológico, presidente de clube e benemérito de escola de samba. Contudo tem dado expediente nuns vulcões chilenos que estão dando um trabalho hercúleo à aviação internacional.

Por falar em hercúleo, vamos ao herói. Hércules, coitado, virou marca de garfos, facas e colheres. E seu trabalho mais difícil é encher a barriga de seu proprietário e continuar brilhando, após cada lavada. Nada mais daqueles portentos, como matar a hidra de Lerna, o leão de Nemeia, o gigante Gerião e as aves do lago Estínfalo, dentre otras cositas más, se pode esperar dele. Seu nome grego, Héracles, atualmente não serve nem mesmo para nomear menino homem, nascido nos cafundós do país. Hoje é tudo Maicon, Uóxito, Maicosuel, Macojequis, por aí afora.
Mercúrio teve seu comércio abalado por negócios mal realizados e também pela falta de encomendas do setor público, onde conseguia superfaturar nos contratos advindos de licitações manipuladas. Abriu uma farmácia de manipulação – sua especialidade, como se vê – onde é especialista numa tintura muito eficaz em escoriações generalizadas, à qual deu seu nome adaptado: mercurocromo. Seu equivalente grego Hermes, no entanto, está em melhor situação, porque franqueou o uso do nome para marca de produtos muito cobiçados por gente endinheirada e seus cavalos: Hermès, assim mesmo com acento afrescalhado de revés e tudo.
Minerva, a deusa romana da sabedoria, virou marca de sabão em pó  - agora é da sabãodoria, com perdão do trocadilho infame -, que também anda desaparecida do mercado, numa clara tendência de extinção total. Sua coirmã grega, Atena, vive às voltas como capital do país, cheia de mazelas, sofrendo com manifestações frequentes de milhares de pessoas que vão para as ruas falando uma língua muito esquisita que ninguém entende: parece grego, pô!
Plutão perdeu tanto prestígio, com esses problemas todos, que teve sua condição de planeta caçada, que dirá a de deus. Contra isso não pôde fazer nada, porque a Ciência pode tudo, inclusive dizer besteiras agora, para, daqui a pouco, alterar tudo, como tem feito nos últimos cinco mil anos. Assim, Plutão fica na geladeira, aguardando melhor sorte. Seu equivalente grego Hades, entrou na letra de canções brasileiras chorosas: “hades chorar, hades sofrer” (Veja lá em Amor perdido, por Silvinho). Mais ou menos por aí. 

Para não me delongar demasiadamente e não misturar sua cabeça com tanta informação pertinente e suspicaz, suspendo por agora esta minha teogonia adaptada a tempos de crise, prometendo voltar, assim que me der na telha, ou que alguma Musa desocupada me atender.

"Antigo busto de bronze, o chamado Pseudo-Sêneca,
que atualmente especula-se como sendo um retrato
imaginativo de Hesíodo", autor de Teogonia
(imagem em pt.wikipedia.org).

17 de novembro de 2011

FRASES BANAIS

o dia amanhece em teus olhos tristes
e o vento morno sopra em tua boca.
nada como um dia depois do outro
numa sucessão de coisas tangíveis
em que não se pode prescindir
da dor do pranto e da miséria.

cada amanhecer em tuas pupilas
borra de nuvens o horizonte atrapalhado
por montanhas e folhas de jornais.
nada permanecerá impassível
se tu não o quiseres.

mas de nada adiantará teu hálito morno
sem o som plausível e o cheiro forte
de tua carne silenciosa e doce.

o dia assim se construirá
com as peças com que recompões o tédio
dos dias claros
ou o delírio brumoso das nuvens negras
que cobrem o céu como que por acaso.

e tu estarás eterna neste interstício de tempo
a que chamam amor.

Gustav Klimt, O beijo, 1907-1908 (imagem em
mocasaki.rmc.fr).

16 de novembro de 2011

PERDIDA CHANCE

quando tudo sucumbir ao tempo
e nada mais restar sobre a face da vida
no silêncio então imposto
sobrará uma última manifestação
das coisas que não vivemos por inteiro
como uma perdida chance

Chapada Diamantina, BA (www2.uol.com.br).

15 de novembro de 2011

A MAGIA DA ARTE DE ANTÔNIO ROCHA

Antônio Rocha foi convidado, pela coordenadora Benita Prieto, a participar do Simpósio Internacional de Contadores de História 2011, apresentado no SESC Copacabana, entre os dias 9 e 13 de novembro, em que ministrou cursos e se apresentou na abertura da maratona de vinte e quatro horas, das 18 horas do sábado às 18 deste domingo, de contação de histórias, como está na moda dizer, como grand finale do encontro, que se vem repetindo há alguns anos.

Você não sabe quem é Antônio Rocha? Que pena!
Capa do dvd de Antônio Rocha
(imagem em http://www.storyinmotion.com/).
Por uma série de fatores históricos e acasos, fui até lá com minha mulher Jane, e saímos encantados com a magia com que Antônio Rocha conta histórias, com e sem palavras. Aliás, não só nós, mas todos os que ali estávamos. Ele foi ovacionado ao final de sua apresentação.
Antônio Rocha é um artista brasileiro, natural de Miracema, terra de minha mulher, que é amiga de toda a sua família e o conhece desde criança. Por intermédio dela, também conheço toda ela. Porém Antônio Rocha, ou simplesmente Júnior para os mais próximos, já que ele é o filho caçula de uma prole eminentemente feminina – são quatro irmãs mais velhas – e recebeu o nome do pai, não víamos desde que era um adolescente magrelo, comprido e tímido.
Todavia, como timidez não impede vontade e talento, Antônio foi para os Estados Unidos em 1988, a fim de aprimorar sua arte. Hoje ele é ator, mímico e contador de histórias já consagrado no exterior, com agenda lotada para espetáculos em vários países. Mas, infelizmente, fixou residência lá, onde está já há vinte e oito anos, produziu dvds e recentemente reescreveu o conto folclórico Uma história no céu em inglês e em português. E consta, em sua história profissional, apresentação feita para a turma da filha do presidente Barak Obama, na escola que ela frequenta.
Antônio tem o domínio completo de sua arte. De início, começou contando, por palavras e gestual, O filho de Mussa, história do folclore africano que narra a iniciação do filho de um chefe tribal, levado por seu pai ao deserto para a prova definitiva, a fim de testar sua capacidade de, um dia, tornar-se também chefe. As variações de voz, as nuances de entonação e timbre, a incorporação do velho chefe, um tanto alquebrado, que porta seu cajado, a máscara facial do jovem durante a difícil prova a que se submete, nada disto fica sem o toque magistral do ator.
Em seguida, mostra sua habilidade como mímico, discípulo que foi de Tony Montanaro, responsável maior por toda sua formação na área, embora tenha também feito um curso rápido com Marcel Marceau, numa das vezes em que o mestre francês esteve nos EUA. A história da transformação da lagarta em borboleta não leva cinco minutos, mas encanta pela sofisticação e a poesia dos gestos.

Na sequência, conta com palavras e expressão corporal extremamente criativa a antiga história do folclore brasileiro O veado e onça, aquela em que os dois resolvem fazer uma casa, na margem de um rio, e, cada um a seu turno, sem saber do trabalho do outro, vai fazendo a casa e achando um milagre de Tupã o progresso da obra. A alternância na representação da onça e do veado foi, ao mesmo tempo, precisa e cheia de bom humor, com sugestões muito sutis do que, em nossa cultura, atribuímos a um e outro bicho.
Após, interpreta, também por mímica, uma história de terror clássica: o cidadão que se vê na contingência de entrar numa casa mal-assombrada, porque seu carro sofreu uma pane na estrada deserta. Esta história, que ele “escreveu” há cerca de quinze anos, se não me falha a memória, tem todas as peripécias por que passa o personagem, ao entrar num ambiente escuro, desconhecido, fantasmagórico, com portas que rangem; escuridão que se tenta vencer a poder de vela, archote, lanterna; calabouço que se abre; paredes movediças, ratos e cadáveres. Tudo isto traduzido em gestos, em expressão corporal e na expressão facial necessários a que a plateia acompanhe, entenda, sinta medo e, ao final, aplauda estrepitosamente o desempenho do artista. De todo o rico repertório de recursos de Antônio, chamaram, sobretudo, a atenção de todos a representação do eco e a lanterna problemática que teimava em não funcionar bem.
Ao final, para coroar sua saída, compõe pequena peça cheia de lirismo: enche com a boca uma hipotética grande bola de soprar, que o “eleva” do chão e o conduz suavemente para fora do palco, sob o aplauso de pé de toda a plateia.
Terminada a apresentação consagradora em seu país natal, saímos, em companhia de sua irmã, seu cunhado e diversos amigos, para jantar, conversar e saber das novidades da vida daquele menino magro, comprido e tímido, o Júnior, que saiu de Miracema para ganhar o mundo com sua arte mágica, como Antônio Rocha.
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Para mais informações, veja seu sítio na Internet: http://www.storyinmotion.com/ .