21 de abril de 2017

CHAPÉUS


Tenho tido chapéus e boinas há algumas décadas. Não sou uma pessoa antiga, nem saudosista, embora já entrado em anos, para usar uma expressão eufemística que me alivie a proximidade dos setenta, mas que gosta deste complemento do traje masculino, caído em desgraça, pelo menos, desde a década de 50 do século XX.
Durante bom tempo fazia uso esporádico ou recreativo desses apetrechos, em determinadas circunstâncias. Contudo há cerca de uns cinco anos, comecei a usar chapéu cotidianamente, a fim de tentar fugir da recomendações da minha dermatologista, que me exigiu filtro solar, até sob céu nublado anunciador de chuva. Na oportunidade em que ela me receitou o creme, manifestei meu desagrado em seu uso dada a oleosidade da minha pele. Ela, então, para me deixar sob sua tutela permanente – não poderia jamais em minha vida de branco azedo prescindir dessa proteção – me ofereceu amostra grátis de um apropriado, que só usei no primeiro dia. Assim optei pelo chapéu. É mais elegante – posso até pretender ficar mais bonito, coisa, aliás, difícil de conseguir – e não emplastra o rosto com aquela película gosmenta.
Entretanto devo dizer que fico parecendo um estranho no ninho. A devastadora maioria da população masculina prefere até mesmo uma calva reluzente – ainda não atingi este nível – a um disfarce de tal arquitetura. É verdade que, ao me olhar no espelho, no quesito beleza, não vejo diferença alguma nessa minha estampa que, à medida que o tempo escoa no calendário, vai ficando mais decadente. Porém o que se há de fazer? É isto ou morrer subitamente. Prefiro envelhecer.
Assim, a cada dia, ao sair, encastoo no alto da cabeça um dos meus vários chapéus de panamá comprados por aí. E ponho na cabeça – então lá dentro – que estou protegido de todas as gamas de raios emitidos pelo Astro Rei, de modo a evitar um possível câncer de pele, vez que nasci branquelo num país tropical, abençoado por Deus, e o resto o prezado leitor sabe.
Caso contrário, se é noite, ponho uma boina, um boné de aba curta, um chapéu de feltro – tenho mesmo um argentino próprio para dançarino de tango, apesar de não dar um passinho que seja nem de bolero – e saio para o encontro com amigos, a tomar um vinho, numa noite amena, o que tem sido cada vez mais difícil na cidade grande.
Algumas vezes, no entanto, tenho de dar explicações sobre a excrecência que levo alguns centímetro acima de minha pessoa e, para não dizer que pretendo ficar mais bonito, ou simplesmente que é um gosto maior que três vinténs, dou a desculpa de que estou seguindo recomendação médica, para me proteger das emissões de raios ultravioletas e quejandos. A explicação é aceita de muito bom grado. Todos morrem de medo de câncer.
Relativamente ao uso desse acessório, minha dermatologista me disse certa vez, quando a informei desta minha opção, que, num país ensolarado como o nosso, ele jamais deveria ter sido deixado de lado.
E isto me remete a certas fotos que tenho na memória sobre acontecimentos públicos nas grandes cidades do mundo, nas quais todos os homens, quase sem exceção, estão de chapéu. Mesmo na minha infância e juventude em Carabuçu, do final dos anos 40 até meados dos 60, era comum que vários homens ainda o usassem: os que trabalhavam na roça, sempre; os da vila, já nem tanto. Há uma fotografia na família em que está registrado o valoroso esquadrão do Liberdade Esporte Clube, da época em que meu pai brilhava na extinta ponta-esquerda. Lá está todo o time em pose da época e, atrás, de pé, os dirigentes do clube, todos indefectivelmente de chapéu, inclusive meu avô Chico Albino, numa elegância inusual atualmente.
Assim, mesmo não me considerando saudosista ou antigo – tenho na minha cabeça de que o gosto pelo rock me salva desta pecha –, uso chapéu como um exemplar saído das fotografias de antigamente, seguindo uma tradição que não mais existe nos dias de hoje.

Chapéus (foto do autor).
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 17/6/2015.

11 de abril de 2017

ADEGA PÉROLA

(Para Roberto Assis, primo.)
Meu primo Bedu (Roberto Assis) e eu, lá pelo início dos anos 70, resolvemos ver o show que Rita Lee faria no Teatro Tereza Rachel (hoje Net Rio), num sábado de tempo agradável. Por aquela altura, éramos solteiros e abandonados.
O teatro fica na sobreloja de um shopping na Rua Siqueira Campos. Ao chegar lá, para a compra dos ingressos, encontramos uma verdadeira muvuca, que não nos permitia saber onde começava ou terminava a fila. Gal Costa desfilava sua vasta cabeleira, seu largo sorriso e suas saias rodadas no meio do povaréu.
Entramos naquilo que seria uma fila. Depois de certo tempo, combinei com o Bedu que iria dar uma volta pelas imediações, para conhecer, e depois eu ficaria na fila, para que ele também saísse na prospecção da área. Desci as escadas e saí pela entrada principal, na Siqueira Campos. Do lado oposto da rua, me chamou a atenção o movimento de pessoas num bar. Li o letreiro – Adega Pérola – e resolvi fazer uma incursão de reconhecimento. Já na entrada, fiquei maravilhado com o balcão de bons metros de comprimento, todo envidraçado e repleto de um número impensável de variados tira-gostos.
As pessoas sentavam-se em barris de vinho, em que também depositavam seus copos e os pratos com petiscos, à esquerda de quem entrava no estabelecimento. Ao fundo havia umas poucas mesas, todas já ocupadas. Da parede, pedia um aviso proibindo tocar instrumentos e fazer cantoria.
Voltei imediatamente ao furdunço da fila do teatro e disse para o Bedu abandonar a missão, porque outro valor mais alto se alevantava lá fora, a exigir nossa presença.
- Você precisa conhecer a tal Adega Pérola aqui em frente.
Descemos as escadas e, em menos de cinco minuto, já estávamos com o umbigo encostado ao balcão, com uma caneca de vinho nacional de barrica – por essa época bebíamos o que se apresentasse plausível aos nossos parcos poderes econômicos – e atrapalhados na escolha de um dos muitos tira-gostos para acompanhar.
A partir de então voltei à Adega Pérola muitas vezes. Saía de Icaraí, normalmente acompanhado de amigos – o Bedu mesmo foi em várias ocasiões comigo – e, posteriormente, da Jane, para passar uma noite de delícias gastronômicas populares do cardápio lusitano e brasileiro, regados ao tal vinho ou a chope, a depender das condições climáticas.
Assim que nos nasceu o primeiro filho, a vida mudou, como é comum. E fiquei anos sem lá voltar. Até que há cerca de oito anos, ao levar minha filha e a Jane a Copacabana, nas imediações do local, decidi, enquanto as esperava, tornar ao bar. Lá encontrei o último proprietário remanescente daqueles tempos, em que religiosamente a polícia fazia uma vistoria de olhos ditatoriais sobre os presentes.
O ambiente tinha passado por uma reforma que inverteu a posição da prateleira e do balcão. Agora eles ficam à esquerda, e as mesinhas de seis bancos fixos ficam à direita. Falei para ele sobre minha história com a casa, os bons momentos ali passados. Seus olhos brilharam, e ele abandonou a caixa registradora e veio sentar-se comigo. Disse da perda dos irmãos que eram seus sócios no empreendimento. Contou que dois antigos fregueses, na iminência do fechamento da adega, entraram na sociedade, injetando capital e propiciando a reforma que eu estava vendo. E reclamou que o Chico Buarque, que sempre ia lá para tomar sua cachacinha, não mais aparecia.
Jane chegou daí a pouco, e ele ficou tão feliz que a presenteou com uma embalagem de chocolate. Algum tempo depois, tivemos a notícia de sua morte. E temi pelo destino da casa.
Neste último sábado retornamos a ela, agora com meu cunhado Jorge e sua mulher. Ele que várias vezes fora conosco nos áureos tempos em que podíamos sair de Niterói e voltar tarde da noite, de ônibus e barca, sem o mínimo problema de segurança. Chegamos de táxi, vindos do Teatro Casa Grande, onde vimos Ubu Rei, e saímos de uber.
E o balcão gigante continua lá, bonito como só, um convite irresistível a qualquer tipo de paladar, repleto dos mais diversos tira-gostos: azeitonas variadas, quase todos os frutos do mar ao molho vinagrete, diversos peixes à escabeche, favas, ovos de codorna, alho assado, muitos embutidos, boa quantidade de queijos, sardinhas fritas, bolinhos de bacalhau, frango a passarinho e outros tantos que a cozinha providencia para chegarem quentinhos à mesa, bem ao gosto do freguês.
Desta vez, foi tudo bem planejado, para que não perdêssemos nada. Saímos com a alma e a memória revigoradas por doses de boas lembranças e sabores que ultrapassam o tempo.

O show da Rita Lee – aquele dos anos setenta – vimos tempos depois, no campo do Botafogo, em General Severiano.

Adega Pérola (imagem em Acervo O Globo).

6 de abril de 2017

NÃO HÁ


Não há sandália sem tira
Nem esteira sem embira
Comichão sem cafubira
Mentiroso sem mentira
Garrucha nova sem mira
Ou mesmo ódio sem ira
Velame sem macambira
Fogo sagrado sem pira
Cateretê sem catira
Amalucado sem gira
Viola sem caipira
Ou lusitano sem vira
Conjuração sem traíra
Azul real sem safira
Caxemir sem casimira
Mata virgem sem saíra
Caverna sem corruíra
Ou jugular sem vampira
Umbanda sem Pombagira
Retirante sem retira
Ubirajara sem Bira
Gado pastando sem xira
Floresta sem curupira
Ou curtume sem estira
Espiral sem a espira
Cachaçada sem ximbira
Inquietação sem cuíra
Má ordenha sem tibira
Terreiro sem pepuíra
Ou um poeta sem lira.

Imagem em efecade.com,.br.