29 de novembro de 2012

DIZ-SE NA MINHA TERRA


Na minha terra, ninguém gargalha; mas poca de rir; do verbo pocar, que estoura em todas as bocas. Assim como as coisas não se arrebentam, não se rompem: pocam. Poca a fita, poca o fio, poca a cerca de arame com o arremesso do boi. Até mesmo a paciência pode pocar. Não poque minha paciência, menino, diz a mãe atarefada para o filho desesperado. Mas o perigo maior era quando um açude pocava e fazia jorrar um borbotão de água terra afora.
Também não há coisas ásperas, mas caracaxentas. As paredes são caracaxentas, o asfalto é caracaxento. A madeira antes da lixa também. O cara que tem a pele áspera é caracaxento. E havia o meu colega de infância com o apelido de Caracaxá, um tipo de chocalho infantil, que deve ser de onde vem caracaxento.

Ninguém se fere, arranha a pele; antes, a escalavra. A ferida produzida por fricção é um escalavro. Então o paciente passa a ter a pele escalavrada. Como a terra do campo revirada pode ser escalavrada (lavrada). Fulano escalavrou a terra, para plantar, dizia-se às vezes.
Ninguém sente agonia, ansiedade, aflição; mas gastura. Estou com uma gastura aqui dentro no peito, diz a pessoa angustiada. É a mesma gastura que dá no dente, quando se ouve, por exemplo, o barulho de unha roçando um azulejo ou num quadro-negro.

Também ninguém bate forte, mas lasca o pau, ou senta o pau. Lasca o pau no lombo alheio, quando o trem esquenta e a solução são tapas e pescoções, em vez de acordo e conciliação.
E ninguém sai apressadamente de lugar nenhum, mas deita o cabelo, mesmo que ele esteja arrepiado. A coisa ficou feia, o fulano deita o cabelo, quer dizer foge dali com rapidez. Também pode meter sebo nas canelas, que é outro jeito de andar muito ligeiro.

Não se desconfia de nada, lá na minha terra. As pessoas ficam cismadas, encafifadas. E, quando uma bota cisma em cima de alguém, é difícil de tirar. Porque todo sujeito cismático é encafifado.
Assim também há as pessoas sistemáticas, como meu pai ou o Valdemar sapateiro, cheias de nós pelas costas, que é como se diz das pessoas com manias muito próprias.

As coisas que não estão bem arranjadas, bem arrumadas, nos conformes, normalmente são escalafobéticas. Já a pessoa mal-ajambrada de corpo também pode ser escabufada. Como o Zequinha Escabufado, que teve um problema na perna direita e andava troncho, com seu joelho em forma de acento circunflexo virado para dentro.
E, durante muito tempo, ninguém ficava doente ou passava dificuldade: tinha um perrengue. O cara perrengado procurava o Zé da Farmácia, para tomar um sanativo, ou um amigo, que lhe tirasse da aflição.

Diz-se, preferencialmente a sanduíche, pão com carne, pão com ovo, pão com salame, pão com bife, pão com linguiça, pão com queijo e por aí afora, na linha de pão com manteiga.
Uma confusão com tapas e pescoções, envolvendo algumas ou muitas pessoas, normalmente é um pega pra capar. Se for apenas uma confusão de sentidos, de ideias, pode ser que seja um cu de cachorro. Xiiii, foi um cu de cachorro! Quer dizer, foi uma grande confusão, mas sem pancadaria.

As pessoas moralmente mais liberais, quando estabelecem conluio matrimonial com alguém fora dos parâmetros legais, se orelham. Fulano está orelhado com fulana, era como se dizia quando os dois passavam a coabitar sem os papéis da lei. O que ensejava outra frase em sequência: Orelhado com fé, casado é!. Mas os que se casavam no religioso se casavam no padre. Minha mãe, muito católica, só convenceu meu pai a casar no padre, eu já menino. Antes só havia a certidão do cartório. É que meu pai era um tanto anticlerical, talvez por influência do tempo em que fora maçom. Então num domingo à tarde, logo após a missa mensal na vila, minha mãe e meu pai saíram enfatiotados. Desconfiei da elegância simplória deles e perguntei aonde iam. Mamãe respondeu: Vamos casar no padre. E voltaram com a certidão religiosa, tão preciosa para minha mãe.
As mulheres grávidas não davam à luz. Melhor: ganhavam menino. Menino homem ou menina mulher, conforme o sexo. Lembro-me de Dona Flor, nossa vizinha, dizendo que uma conhecida tinha ganhado menino homem. Minha mãe mesma ganhou dois meninos homens e três meninas mulheres.

Outra coisa: lá ninguém abandona nada – projeto, atividade, assunto –, mas larga mão. Larguei mão de fazer aquela horta de que lhe falei, diz o vizinho ao outro. Larga mão de besteira, sô! Eis a forma de incitar alguém a abandonar uma opinião que se tem como equivocada.
Acho que também vou largar mão de ficar dando gastura em você, leitor. Qualquer dia, volto ao assunto.


Folha de rosto do Elucidário de Viterbo, de 1978 (imagem em frenesilivros.blogspot.com).


27 de novembro de 2012

FAGNER: COMO SE PERDER PELO CAMINHO

Correu, na década de setenta, notícia de que Roberto Carlos, não satisfeito com os rumos que sua carreira estava, então, tomando, pediu a Fagner, o grande astro fulgurante da MPB da época, auxílio para que desse uma sacudida em seu trabalho.
Não sei se isso foi verdade, embora tenha lido em jornais daquele tempo.
E fiquei maravilhado com a possibilidade de um jovem compositor cearense, que chegou ao sul cheio de ideias e belíssimas canções, acentuado por um jeito todo próprio de “dizer” as letras, entre o choro e o lamento nordestino, auxiliar o já rei RC.
Eu, que tivera grande apreço por Roberto desde o início, nas rádios de sua Cachoeiro do Itapemirim natal, começava a não entender a guinada que ele dera em seu repertório. De início, flertando com a rebeldia da juventude de então, no movimento cultural nascido do rock inglês e norte-americano, que culminou com a criação da Jovem Guarda, Roberto, em final dos sessenta, início dos setenta, passou a cantar para coroas. Isto é, trocou as músicas descontraídas, irônicas e jovens, por canções que falavam de um jeito convencional do amor, bem ao gosto de uma faixa etária mais velha – uma geração posterior à minha, no mínimo. Até mesmo a roupagem de suas melodias ganhou orquestração convencional, sepultando de vez o grupo que o acompanhava, o RC-7.
À época, senti isto como um golpe de mercado: ele passou a fazer música para quem tivesse dinheiro para comprar.
Hoje ele é o que é, embora eu ache seu parceiro de sempre, Erasmo Carlos, muito melhor, por ter mantido a pegada que os consagrara. Por incrível que pareça – ele já não é mais menino –, Erasmo fez dois bons discos recentemente, Rock ‘n Roll (2009) e Sexo (2011), sobretudo o primeiro, talvez o melhor de sua longa carreira.
Pois muito bem.
Alguns anos depois, quem também deu guinada semelhante foi Fagner, que passou a cantar canções alheias, de duvidoso gosto para sua bagagem anterior, o que o levou mesmo a desaparecer quase que por completo da mídia.
Fagner podia muito mais pelo que já nos tinha mostrado, contudo foi pela linha fácil da busca do sucesso popular. Não que isto necessariamente seja ruim em si, mas cobra seu preço. E lá se foi a qualidade de seus discos iniciais.
Só que Fagner não tem, nem de longe, a quase burra unanimidade de Roberto Carlos, como afirmava Nelson Rodrigues a respeito da unanimidade. Roberto vem-se repetindo enfadonhamente, anos a fio, e seus fãs mantêm-se fieis e em grande número.
Há pouco, postei para meu sobrinho-neto Lucas uma velha canção de Fagner, para que ele o conhecesse, uma vez que, para os da sua idade – dezoito anos –, Fagner se tornou um “chato”. Quer dizer, ele passou a falar uma linguagem musical que não mais interessa a esses jovens.
Estou reouvindo, no momento em que escrevo estas bem traçadas, os dois primeiros discos longa duração de Fagner: Manera Fru-Fru manera (1973) e Ave norturna (1975), duas obras-primas da música popular brasileira. Ele continuou ainda fazendo boa música por mais alguns discos, até que resolveu também se transformar musicalmente.
Fagner soube, como nenhum outro de sua geração, musicar poemas de nomes consagrados da literatura de língua portuguesa, inclusive pagando o preço caro de fazer de início, sem autorização de herdeiros, música sobre poemas de Cecília Meireles.
Lucas ouviu com atenção a canção que lhe enviei – Astro vagabundo – e entendeu esta minha velha admiração pelo cearense, de quem ainda costumo comprar CDs, na esperança de que ele, um dia, volte à velha forma, como Erasmo.
E, caso você que me dá o prazer da leitura dessas considerações achar o mesmo que meu sobrinho-neto Lucas, recomendo ouvir, por exemplo, Traduzir-se*, belo poema de Ferreira Gullar que ele musicou e gravou no disco homônimo, de 1980, cujo texto está aí abaixo:
Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém, fundo sem fundo

Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão

Uma parte de mim pesa, pondera
Outra parte delira

Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta

Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente

Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte linguagem

Traduzir uma parte na outra parte
Que é uma questão de vida e morte
Será arte?

Capa do disco Traduzir-se (em www.fagner.com.br).


(*Copie o endereço a seguir, para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=IF0UFCuypQc).

25 de novembro de 2012

NÃO ME PROCUREM

Não me procurem onde não esteja
Vão me achar nos lugares mais comuns
Tenho o hábito das coisas normais
Sem os ritos repetitivos do viver

Não me procurem onde deva estar
Sempre estarei aonde me levar a vida
Sem resistências e sem revoltas
Por onde andará a maioria dos meus iguais

Não me procurem fora do meu reino
Este pequeno espaço que ocupo na cidade
E se traduz pelo tamanho exíguo do meu corpo

De onde saio às vezes se bem que pouco
Ao me igualar na multidão das ruas apinhadas
Aos transeuntes com quem deva caminhar


Foto da Rua da Assembléia, no Centro do Rio, feita por Augusto Malta (Coleção Ermakoff)
Foto da Rua da Assembléia, no Centro do Rio, feita por Augusto Malta (Coleção Ermakoff) (colunistas.ig.com.br).


23 de novembro de 2012

BARCO DE PAPEL

Eu sou aquele barquinho louco
Desgarrado
Sem porto
Sem bandeira
Navegando nas águas da enxurrada
Das ruas cheias
Da minha Liberdade menina
Eu sou aquele garoto bobo
Absorto pelas coisas do mundo
Tentando ver em todas as esquinas da vida
Caminhos retos floridos
Rios sem corredeiras
E apesar dos atropelos
Das incertezas
Fiz das possíveis migalhas no meu prato de ágate
O banquete impossível em baixelas de prata
Mas sei que a vida mata
Que a morte é certa
Por isso do tempo que me resta
Se não for festa
Que seja pelo menos tão ditoso
Como aqueles de barquinho louco

Imagem em lelaludens.blogspot.com.

21 de novembro de 2012

NÃO MEXAM COM DUDA!

Duda é meu amigo; portanto, não tem defeitos. A não ser que você considere certa irascibilidade para com a estupidez humana como defeito. Ou certo pavio curto, quando lhe pisam nos calos. Ou um pendor eticamente exagerado pela retidão de caráter de todo e qualquer ser humano. Ou um senso estético refinado que costuma classificar, de modo veemente, como porcarias muitas porcarias que se pretendem arte. Fora isso, que, sinceramente, não considero defeitos, ele é um cidadão que prima por exercer seus direitos e cumprir seus deveres. E é o que tenta passar para seus alunos do Colégio Pedro II, a reboque das competentes aulas de inglês que ministra no Segundo Grau, onde é conhecido por seu nome civil: Eduardo Campos.
Pois meu amigo, há alguns anos, possui uma bela casa de veraneio em São Pedro da Serra, aonde já fui algumas vezes.
A casa se debruça de uma das muitas colinas da vila sobre um espaço abaixo onde há um bar e restaurante, misto de clube de lazer com piscina natural e toboágua, feitos num ribeirão que desce serpenteante montanha abaixo. O espaço é aberto a todas as pessoas que paguem uma taxa de uso.
Logo que fomos – eu, minha mulher e mais um casal de amigos, Rosa e Rogério – conhecer a casa, então recém-terminada, Duda nos levou até o bar, onde tomamos algumas cervejas, devidamente assessoradas por tira-gostos, numa agradável tarde de sábado. O proprietário do estabelecimento, Didi, nos recebeu com atenção e nos franqueou circular por ali. Duda e Didi eram camaradas, afinal o terreno onde estava fincada a bela casa do meu amigo fora vendido a seu irmão Ricardo, já falecido, tempos antes.
Dentre as múltiplas funções do vizinho empresário, estava o fornecimento de água às casas do entorno, todas construídas em terrenos anteriormente seus. E foi aí que as relações começaram a estremecer, quando o comerciante decidiu aumentar o preço abusivamente. Duda, então, providenciou um poço artesiano que o abastecesse da água necessária, para não depender mais do outro.
Algum tempo depois, o birosqueiro resolveu que o funcionamento de seu complexo de entretenimento serrano fosse movido a som difundido pela circunvizinhança na potência do incômodo, isto é, bem acima do tolerável. E a comunidade passou a conviver com o som estridente do bar do Didi.
Duda, lá num domingo que poderia ser aprazível, desceu por seu barranco cuidadosamente ajardinado, passou pelo portão, adentrou os domínios do comerciante e reclamou em bom tom – educado que é – do volume do som. Didi não se fez de rogado e lhe disse:
- Aqui é minha propriedade e ponho o som na altura que quiser.
- Ah, é assim?! Então também estou no direito de ouvir meu som na altura em que quiser.
- Esteja à vontade! – retrucou insolente o Didi.
Ele não sabia com quem estava mexendo!
Antes de voltar no fim de semana seguinte, Duda foi até Nova Friburgo e comprou um sistema de som com mil watts de potência e instalou as caixas acústicas na varanda que contorna a casa, embicadas para o furdunço do Didi. Estava armado para a guerra!
Naquela manhã de sábado, aos primeiros e estridentes acordes da Eguinha pocotó, vindos do bar do homem, meu amigo soltou na potência do seu equipamento a Quinta Sinfonia de Ludwig van Beethoven, aquela do tcham-tcham-tcham-tcham. Pego desprevenido, o cara atacou em seguida de Bello e sua música horrível. Duda emendou de Tchaikovsky, com a Abertura 1812. O outro, desesperado, lançou mão de Eu quero tchu, eu quero tcha, e levou pelas platibandas a contundência de Richard Wagner, em A Cavalgada das Valquírias. Quando, numa última e alucinada tentativa, apelou para Entre tapas e beijos, Duda sacramentou a vitória com a Abertura da Cavalaria Ligeira, de Franz Suppé.

Imagem em artecontacto.blogspot.com.

Antes, porém que desse início a essa verdadeira justa musical, ao melhor estilo medieval, obviamente substituídos cavaleiros e lanças pela parafernália eletrônica, foi avisar à vizinha próxima sobre seus planos acusticamente diabólicos. A mulher lhe agradeceu a providência e liberou o som: ela também era amante de música clássica e odiava aquele som alto de péssimo gosto vindo do bar e misturado à algazarra que os clientes do espaço de lazer faziam.
Escaramuça estabelecida, o filho do Didi liga dizendo que era rico, engenheiro da Petrobrás, que faria e aconteceria:
- Vou pôr um carro de som na porta de sua casa!
- Pois tente! – disse-lhe meu amigo.
- Eu sou rico e compro um equipamento mais potente!
- Pois tente! – repetiu Duda.
- Você não sabe com quem está mexendo!
- Nem você! – arrematou o meu amigo.
Nunca mais houve a balbúrdia de antes, a partir daí. O sossego voltou a reinar nos altos aprazíveis de São Pedro da Serra.
Duas semanas depois, liga o mesmo sujeito prepotente, calçado com as sandálias da humildade, para lhe pedir desculpas. Reconhecia que estava errado, que agira sob o calor dos fatos.
Meu amigo aceitou as desculpas.
Na semana seguinte, foi Didi quem chegou até sua casa, para também lhe pedir desculpas e convidá-lo a voltar a frequentar o local. Meu amigo aceitou as desculpas, como cavalheiro que é, mas ponderou que não havia mais clima para lá voltar. Ele tem exagerado verniz de hombridade e compostura.
Ah!  só estava esquecendo de dizer que, apesar de meu amigo, Duda tem um defeito danado: é teimoso como burro empacado. Se você se meter numa briga contra ele, saiba que a briga só acabará quando ele vencer. Porque ele não se mete em enrascada!

19 de novembro de 2012

O ÚLTIMO NEGRUME

Não entendo muito bem
Os tormentos de um coração descontente
Aqui agosto anunciando setembro
E sua previsível primavera
Lá dentro dele no entanto
O desalento da morte anunciada
Enquanto há flores pela estrada
Crisântemos dálias acácias
Lírios delírios de rosas perfumadas
E ele remoendo dores de outrora
Passados insolúveis
Dias de sombras perdidos em brumas tenebrosas
Cá fora
O sol queima
Mas não há quem lhe possa dizer
Que a vida aflora
Que o tempo urge
E pode ser que a felicidade enfim
Esteja morta
Quando se dissipar o último negrume


Imagem em ultradownloads.com.br.


17 de novembro de 2012

SE NÃO TE VEJO

Se não te vejo me aflijo
Se te cortejo
Me morro
Se eu mato o tempo contigo
Acabo pedindo socorro
E o tempo que não te tenho
É longo
Mesmo que seja um segundo
E pergunto a todo mundo
Como é que te encontro
Se tu me foges
Pelas veredas do onde
Pelos lapsos do quando


Imagem em umblogqualquer.com.br.

15 de novembro de 2012

TIPO ASSIM (VI) - ZÉ CAROLA


Seu Zé Carola era amigo de meu pai.
Morava na rua transversal à nossa, onde tinha, na parte da frente do terreno, sua oficina de carpintaria. Rigorosamente ele era carapina, carpinteiro e marceneiro, nessa gradação do trabalho mais rústico e pesado com madeiras, até a arte mais fina de fazer móveis. Por vezes, eu aparecia em sua oficina, para vê-lo trabalhar, sem que ele se importasse com isso, desde que eu não mexesse em nada:

- Aqui tudo é perigoso pra criança!
Durante algum tempo, fez parte, com Nego Souza, da guarda noturna* da vila, que andava recebendo umas aparições esquisitas, a meter medo em muita gente.

Com frequência também ia com meu pai e outros amigos, montados em suas bicicletas, pescar nos valões das redondezas e no Rio Itabapoana, que dista da vila cerca de seis quilômetros.
Ele tinha uma penca de filhos com dona Nenê: Dina, Nézio, Mariinha, Julinha, Rabilonga, Rita, Zezinho, Tana e o caçula, também Nenê, nascido Francisco Carlos. Uns mais velhos, alguns mais novos do que eu. Morava também com toda a família sua mãe, dona Carola, que sabia da arte de rezar quebrantos e ventos-virados, espinhela caída e mau-olhado, pescoço-duro e dor-de-olhos.

Seu Zé Carola era um homem de bem com a vida, embora vivesse com muito aperto, na criação dos filhos. Contudo estava constantemente de bom humor.
Quase todos os dias, ia até a venda de meu pai, sobretudo à noite, para uma conversa animada, e estava sempre com uma ideia nova, alguma coisa que havia matutado lá no meio dos seus miolos, para pôr em prática na vida.

Um dia, chegou para meu pai, com toda a segurança do mundo e disse:
- Argemiro, descobri uma coisa: a gente come é de mau costume. Pegamos esse mau costume há muito tempo, mas com controle é possível a gente parar de comer. Isso é uma coisa inútil: a gente come e daí a pouco põe tudo pra fora! Gasta dinheiro à toa!

Meu pai só não deu uma sonora gargalhada, porque não era homem de gargalhadas, mas sorriu apertando os olhos e mostrando seus dentes bonitos, o máximo que ele conseguia exprimir quando achava algo realmente engraçado. Tanto que, depois, comentou com minha mãe:
- Zé Carola tem cada uma! Agora disse que descobriu que comer é só um mau costume. – e repetiu a argumentação que o amigo lhe apresentara.

Mamãe deu uma boa risada. Eu fiquei um pouco desconfiado daquela descoberta, porque tinha no seu Zé Carola um homem sério e pai de muitos filhos. Será que havia algum fundamento naquilo?
Sendo ou não mau costume, nunca parei de comer, até porque de tempos em tempos a barriga roncava a pedir alguma coisa que a sossegasse.

Tempo depois que saí da vila, soube da sua morte, de causas naturais. Sua figura alegre e de riso fácil ainda permanece em minha memória até hoje.
Imagem em gartic.uol.com.br.

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*Veja o texto A guarda noturna, publicado em 7/10/2012.
Agradeço ao amigo José Luiz Padilha pelas informações complementares sobre a família de seu José Carola, de que já não guardava os nomes de todos os seus membros.

13 de novembro de 2012

ÂNGELA E ANGELINA


Ângela e Angelina eram primas
Eram lindas meninas
O que uma tinha a outra também queria
Se uma perdia algo a outra chorava tanto
Se uma ria era da graça da outra
O que mais servia a uma
À outra também servia
Quase sempre estavam juntas
As duas com seus encantos
E pelos cantos sorriam
Das coisas com seus segredos
E pensam que havia medo
Em olhos tão cristalinos?
Pois a coragem de uma
À outra fortalecia
Por mais que houvesse espanto.
Até que um belo dia
Já moças dos seus talentos
Se apaixonaram por Cleto
De um modo dilacerante
Que não houve mais instante
Do mínimo entendimento.                               
E ficaram pra titia
Porque o que Cleto queria
Era um dote portentoso
Tipo fazenda de gado
Com cafezal suntuoso
Aguada de muitas fontes
Retiro e invernada.
E aquelas pobres meninas
Primas tão extremosas
Tinham apenas os sonhos
De toda menina moça.
E a história teve um fim
Numa Procissão das Cinzas
Cada qual e sua amargura
Sob o véu da noite escura.



P. A. Renoir, Les demoiselles Cahen d'Anvers, 1881 (em clientes.insite.com.br).

11 de novembro de 2012

A BRIGA DA GABI E DO BRUNO


Um dia, a Gabi brigou
E chamou o Bruno de chato.
O Bruno se chateou
E ficou triste de fato
E foi reclamar com ela
No quarto da sua tia,
Onde, chorando, a Gabi
No quarto se escondia,
E no quarto ele entrou,
Falando que não queria
Que a irmã lhe dissesse
As coisas que ele ouvia.
E falou pra sua irmã
Chegando bem de pertinho:
- Olha, Gabi, não sou chato;
Eu só sou pequenininho.
Quando o vô e a vó ouviram,
Deram boa gargalhada,
De quase cair no chão,
Com aquela trapalhada.
E a Gabi, por ser boa,
Abraçou o seu irmão,
Terminando aquela briga
E acabou-se a confusão.
Todos ficaram felizes:
A irmã e o irmão.
 
 
Os protagonistas da história, Bruno e Gabi.
 
 (Historinha escrita pelo vovô Saint-Clair, em outubro de 2011, baseada em fatos reais.)

9 de novembro de 2012

CRÔNICA DE CARABUÇU

(Para Said Felício, meu padrinho.)

Eu tinha lá os meus dez anos e ficava olhando o pouco movimento da tarde. Sabia que, quando a noite caísse, a rua ficaria com um borbotão de gente vinda de todos os lados: do Jacó, da Fazenda da Liberdade, dos lados do doutor César Ferola, das bandas do Juca Simplício. E vinha gente de mais longe: da Forquilha, da Serra da Boa Esperança, da Serra do Fogão, da Serrinha, do Mutum.
Minha casa ficava bem na esquina das ruas com os nomes dos vultos mais importantes da vila: o Coronel Alfredo Portugal, avô de meus amigos Élber e Paulo, e Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo, o Papai Antonico, meu bisavô. Nessa época, os dois ainda estavam vivos e sem maiores problemas de saúde, para orgulho de suas famílias.
A venda do meu pai era na parte da frente da casa. A moradia, nos fundos. Simples. Composta de uma sala de cruas tábuas corridas, a cozinha e três quartos, onde a família dormia: meus pais, eu, meu irmão e minhas duas irmãs (A irmã mais nova só viria muito tempo depois, com toda a família já morando em Bom Jesus do Norte.). O banheiro, que chamávamos quartinho, era apartado do corpo da casa e ficava no quintal. Mas isto foi um conforto que veio um pouco depois, assim que se instalou o sistema de água e esgoto na vila, que revirou as ruas para a passagem de manilhas e canos. Tão logo terminado o serviço, várias ruas receberam o calçamento que ainda está lá até hoje.
Aí eu ficava olhando a rua, a passagem de um e outro, aguardando a noite, para que pudesse passear com meu padrinho, Said Felício.
Há pouco eu o havia escolhido, entre as opções que meus pais me deram para padrinho de crisma, e nunca me arrependi disto. Ele era da idade de meus tios maternos – imaginava que tivesse, àquela altura, por volta de vinte e poucos anos.
No sábado, ele ia me pegar em casa e passeávamos pela Rua Coronel Alfredo Portugal até a pracinha, que contornávamos da esquerda para a direita, para retonar à rua, até a altura da Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo. Quando ali chegávamos, ele dizia brincando:
- Para lá está chovendo, vamos voltar.
Estar chovendo significava não haver movimento, não haver interesse. E voltávamos.
Ele sempre me dava balas ou picolé e tinha uma conversa interessante comigo. Não caminhávamos mudos. Havia frequentemente um assunto. Hoje entendo bem meu padrinho, com seu coração generoso para comigo. Eu tinha o maior orgulho em passear com ele naquelas noites singelas do interior: eu, um menino, ao lado de um rapaz.
No ar, compondo a trilha sonora das noites da vila, ouvia-se o sistema de som do alto-falante do Narck Pontes, com o programa “Músicas em gravações variadas”.
Durante alguns anos de minha vida, o programa do Narck era uma das boas diversões que tínhamos. Podíamos acompanhar os últimos lançamentos musicais, através dos discos de setenta e oito rotações que ele fazia girar no seu toca-discos, para o deleite de todos.
Às vezes, havia uma atração forânea: um parque de diversões, um circo, uma tourada, que vinham até a vila mudar um pouco a rotina que se arrastava meses a fio.
Então a ebulição era evidente.
Lembro-me, por exemplo, do Gran Circo Pan-Americano, cheio de atrações incríveis, como o globo da morte, que quase não tinha coragem de olhar, sempre com medo de que os motociclistas se espedaçassem durante a apresentação.
Também me recordo da tourada do Reco, um homem gordo, que desempenhava a função de palhaço durante as pegas de boi. Acho que sua participação galhofeira servia para amenizar um pouco o nervosismo da plateia ao assistir o espetáculo. Ele também não tinha mais o físico adequado à função, evidentemente.
Na festa anual da vila, um correr de barraquinhas era armado dos dois lados da rua lateral à pracinha. Elas eram sempre iluminadas com lampiões de carbureto, que exalavam um cheiro característico, que ficou marcado em minha memória. Traziam sempre uma profusão de coisas coloridas, de brinquedos, de jogos, que eu desejava muito. No entanto, filho de família pobre, quase sempre tinha de me contentar com aquilo que era possível ao meu pai comprar.
O último dia da festa começava com a alvorada da Lira Operária Bonjesuense, às seis horas da manhã. A banda percorria as ruas da vila, executando dobrados e marchas militares, e era maravilhoso ser acordado por aquele som.
No fim da noite, os fogos de artifício encerravam a festa e deixavam nos olhos e nos corações de meninos como eu a certeza de que a vida tinha lá seus encantos, ainda que estivéssemos quase perdidos no interior do país.
Muitos anos depois, ao voltar para a festa anual da vila, ouvi de meu primo postiço Amândio Salomão, casado com minha prima Tereza, sob a emoção da mesma e simples queima de fogos, que tinha inveja de nós, nascidos naquele pequeno pedaço de terra fluminense, como se isso nos fizesse pessoas compulsoriamente felizes.
Talvez! Pode ser! Quem sabe?

Imagem em cienciasaqui.blogspot.com.

7 de novembro de 2012

ÀS VEZES CHOVE NO MEU PASSADO

Às vezes chove no meu passado de menino
E as ruas da vila se transformam em rios rasos.

Durante o verão tomo banho nas bicas que se formam
Nos telhados das nossas casas simples
Acompanhado de meus irmãos e algum amigo.
Quando o caudal diminui
E tudo parece ir voltando ao normal
Saímos a brincar de engenheiros civis
Construindo minúsculas barragens
Nas sarjetas das ruas descalçadas,
Ou de grandes piratas de mares bravios
Com nossos frágeis barcos de papel
Singrando as águas barrentas da enxurrada.

Com os pés descalços amassávamos o barro fresco
E construíamos a vida cheia de ilusões simplórias.


Imagem colhida em gelsonbessa.blogspot.com (sem indicação do autor).

5 de novembro de 2012

À MODA DE CARLOS DRUMMOND (MAS NEM TANTO) (2)

(No centenário de Carlos Drummond de Andrade, com todo o respeito.)


No meio do meu caminho tinha um ninho
De passarinho
Caído
Tinha espinho que entrou no meu calcanhar
No meu caminho
Tinha um ônibus atolado
Que me levava à escola em Bom Jesus
Tinha no meu caminho livros de poesia
De ficção científica de histórias da carochinha
E também tinha muitos gibis
Tinha no meu caminho um bocado de meninas lindas
Para eu me apaixonar
E tinha bem no meio do meu caminho
Uma timidez indecente de tão grande
Como uma pedra descomunal
Que atravancava o caminho
Que eu deveria trilhar
E foi-se o meu caminho se desviando da trilha
Empoeirada de outrora
Me levando para uma idade
Que é essa que eu tenho agora.


Imagem em paginas-escritas.blogspot.com.

3 de novembro de 2012

CONTO DE FINADOS: A MORIBUNDA

Imagem em flickriver.com.

Eu tinha por volta dos meus doze anos, e tia Vicentina já era moribunda há dezessete, como era da ciência da família. Assim, quando nasci, ela estava para fazer a passagem há cinco invernos. Talvez tenha sido a mais longeva agonia pré-morte de que se tem notícia lá para as bandas de Liberdade. Uma coisa é a pessoa ter uma doença crônica degenerativa e ir definhando até o fim; outra é estar com um pé praticamente na cova diuturnamente, sem descanso, por um período tão longo da existência e parecer gozar da mais plena saúde. Que eu me lembre, nunca vi tia Vicentina mal, embora ela estivesse morrendo sempre.
Pois tia Vicentina quase morria uma vez por semana. E era ela mesma quem anunciava isto, com alarde. E esbanjava vitalidade entre uma e outra ocasião.
Depois que ela se decidiu em estado de morte - na verdade isto foi uma decisão sua, já que não havia indicação médica que a justificasse -, por volta de 1946, suspendeu toda atividade laborativa e passou a aguardar a infalível, "aquela uma", como costumava dizer. Nem mesmo seus bordados e tricôs, duas atividades apropriadas para esperar a morte, ela fazia mais.
E concentrou todos os seus esforços nessa espera angustiada do último suspiro, da derrocada final, quando passaria ao pó das lembranças. Nesta função, fazia questão de anunciar a todos que estava no fim. E fazia recomendações detalhadas de seu enterro e da divisão de suas coleções de bonecas de biscuit, de garrafinhas de Coca-Cola e da Revista do Rádio. Também dizia com minúcias as sensações que lhe indicavam a condição de moribunda.
- Não passo desta sexta-feira, Arismar. Sinto que chego ao fim. - dizia sempre ao seu marido, que era irmão de minha mãe.
No início, tio Arismar se assustou com aquilo, mas, depois de seis meses sem ver confirmada a morte anunciada, voltou ao seu joguinho de sinuca no bar do Mateus, lá na rua da Coreia. Às vezes, estava estudando minudentemente a tacada para encaçapar a bola sete no fundo da mesa, quando surgia um menino esbaforido a dizer:
- Corre, seu Arismar! Dona Vicentina mandou dizer que morre agora mesmo, sem falta!
Tio Arismar, tranquilamente, ainda passava giz no taco, esfregava pó por entre o fura-bolo e o mata-piolho, mirava bem e dava uma tacada seca, puxando a bola de jogo, para que não suicidasse. Se houvesse um gole de cerveja no copo, virava-o goela abaixo e dizia resignado:
- Aguenta aí, parceiro, que vou em casa ver de que a mulher não vai morrer hoje.
E, invariavelmente, retornava, trinta/quarenta minutos depois para retomar o curso natural do jogo, como se nada de anormal houvesse acontecido.
E, se tio Arismar já não se apoquentava com isto, muito menos o restante da família. A não ser eu, que ficava aguardando com certa ansiedade o passamento da minha tia, para herdar sua linda coleção de garrafinhas, como me garantira. E me preocupava com esse adiamento infindável do desenlace, por temer que ele ocorresse depois dos meus quinze anos, quando então só teria interesse por garotas, conforme via com meu irmão e meus primos mais velhos. Achava um desperdício que eles não gostassem da coleção de garrafinhas e ficassem trocando informações sobre as meninas de sua idade.
Mas o tempo ia passando e tia Vicentina, a cada semana, parecia ganhar forças não se sabe de onde e recalcitrantemente não morria, apesar de suas convicções.
Tenho para mim que tia Vicentina não fosse realmente doida a ponto de inventar uma coisa dessas. Mas era muito esquisito que passasse todo esse tempo tentando angariar um pouco da piedade alheia com seu pretenso grave estado de vida. Porém ninguém mais ligava para ela. E, a cada conversa com as amigas e vizinhas, em que pormenorizava sua malquerença com a vida, ninguém, na verdade, lhe dava ouvidos. Ela dizia e o interlocutor estava em outras paragens. E muitas vezes notei que um e outro eram pegos de surpresa por sua pergunta-teste:
- Mas não é mesmo, Guiomar?
E a amiga tinha de dizer que era isso mesmo, sem tirar nem pôr, mas sem saber absolutamente do que se tratava, pois pensava na morte da bezerra, enquanto ela escandia suas lamúrias.
Contudo era só a pessoa convidá-la a experimentar um pedacinho do bolo de laranja, ou convidá-la para comer um naco de papa de milho verde, para que ela aceitasse, embora dissesse sempre que não andava comendo nada, porque tudo lhe fazia muito mal.
Um dia, um menino mais afoito entrou pelo bar do Mateus adentro a gritar a plenos pulmões:
- Corre, seu Arismar, que dona Vicentina não passa da hora do almoço!
Tio Arismar se preparava, mais uma vez, para meter a bola sete na caçapa do meio da mesa de sinuca e se assustou de tal forma com o estardalhaço do moleque, que teve um piripaque qualquer no coração de cair morto no chão de cimento do bar. Antes disso, porém, com o espasmo da morte tomando seus músculos, rasgou o pano verde da mesa com a ponta do taco e atirou a bola de jogo na vitrine de bons-bocados e marons.
Foi um deus nos acuda! Minha mãe e meu pai, que moravam pertinho do bar, correram imediatamente para lá e já o encontraram de passagem comprada para o outro mundo.
Durante o velório, meu primo Itamar, já um rapaz taludo, filho de outra irmã de minha mãe, dizia que a doença de tia Vicentina matara tio Arismar. Segundo ele, era a primeira vez que a doença de um matava o outro. Tio Arismar, coitado, morreu por tabela, como nos jogos de sinuca de que gostava tanto. A mulher é que era moribunda e ele foi quem espichou as canelas.
Pois tia Vicentina ouviu meu primo comentar isso no funda da capela, onde era velado o corpo do meu tio, e saiu com desabonações sobre o morto.
- Esse Arismar sempre foi um imprestável! Só não morri antes dele, porque sabia que ele não ir providenciar nada. Sempre foi um homem sem iniciativa. Aí tive de adiar a minha morte, para tentar não deixar as coisas desandarem. E vejam só o que ele me apronta: uma desfeita deste tamanho. Agora, pelo menos, posso morrer em paz!
E continuou falando do meu finado tio, ali mesmo, de corpo presente, com a sem-cerimônia que os que vão morrer se dão: o direito de falar tudo o que pensam, como nos velhos filmes em preto e branco.
Algum tempo depois, quando me tornei rapaz, vim para a cidade grande estudar e procurar tocar a vida.
Há pouco, passados muitos anos, recebi telefonema do primo Itamar sobre a morte de tia Vicentina, aos noventa e dois anos de idade.
Então decidi-me ir ao velório da mais longeva moribunda que Carabuçu – a vila até havia trocado de nome –  conhecera, não porque tivesse grandes estimas por ela, mas porque queria a coleção de garrafinhas de Coca-Cola, que ela ainda guardava na cristaleira da sala e que, por direito sucessório, a mim pertencia.