30 de maio de 2012

NÃO MEXA COM QUEM ESTÁ QUIETO

Açulado por um comentário um tanto irônico de um jovem amigo do Facebook (na verdade, ele é amigo mesmo é de meu filho) – “eu quero é rock minino :)*” (sic), em virtude de uma postagem que fiz sobre poesia popular nordestina, andei respondendo com um rock e um blues que, quase com certeza, ele não conheceria. Não sei, mas desconfio.
Da pesquisa que fiz no Youtube, para mandar a ligação, a fim de que ele ouvisse essas outras duas músicas, acabei chegando a San Francisco, de Scott Mackenzie, com toda a aura dos anos setenta, de Woodstock, de Flower Power e por aí afora.
E voltaram aos olhos e à memória as imagens de abertura do filme sobre o festival de música que me deram, à época, a sensação de que o rock poderia ser o elo de ligação entre os povos do mundo, através de sua juventude, que rejeitava a loucura da guerra e da possível destruição do planeta pelas bombas atômicas da Guerra Fria.
Talvez tenha sobre este meu jovem amigo a vantagem de ter visto/ouvido o rock ‘n’ roll nascer. Portanto sou, em princípio, da mesma geração dele, por semelhança de gosto, porém diverso quanto à faixa etária: ele poderia ser meu filho. A meu favor, talvez, ocorra ainda o fato de desgraçadamente – se é possível assim argumentar – ter vivido, na minha juventude e em boa parte da idade adulta, sob uma ditadura odiosa sob todos os aspectos, o que me determinou certo grau de consciência política.
Não que desconfie de que ele não a tenha. Mas com certeza, ele não sofreu para tê-la.
E com essas considerações e mais as imagens da multidão de jovens chegando para o festival de Woodstock, com a bela canção de Scott Mackenzie de abertura, tenho a absoluta certeza de que, se não fosse pelo movimento hippie que ali se manifestou em toda a sua pujança e liberdade, o mundo hoje seria bem pior. Ainda que muitos de nós se tenham perdido pelo caminho, tenham sido cooptados pelo sistema, tenham bandeado de lado, o mundo mudou, porque mudou a consciência da juventude. E, felizmente, eu estava inserido, bem distante, em tudo aquilo.
Imagem em pt.wikipedia.com.
Contudo tal semente não morreu. Germinou de forma lenta e deixou plantada dentro de cada um de nós que viveu aquela época – alguns até com o risco de sua própria vida e segurança – a noção exata da liberdade e a crença de que as coisas se podem mudar, com a postura, o esforço e a atitude de cada um.
Mas, sobretudo - e talvez por ter sido daquela geração e ser oriundo de família simples do interior -, não me foi difícil escapar de preconceitos (e eu os tinha aos montes!) de todos os matizes, sem abrir mão dos princípios da ética, nas relações individuais e profissionais, e daquilo que considero bom gosto, em termos de arte e cultura.
Por isso não tive preconceitos contra estilos musicais. É claro que não gosto de todas as músicas. Devo confessar aqui de público, por exemplo, que pagode romântico, funk, hip-hop, axé music, sertanejo e forró universitários, tecnobrega, música de seresta, são manifestações que me desagradam.
Por outro lado, gosto de rock, blues, samba, choro, baião e as demais manifestações nordestinas de raiz, folia de reis, música caipira autêntica, música clássica (sobretudo, a Barroca), MPB, bossa nova e new age (que muita gente não suporta). Gosto de guitarra, que a mim soa como o mais belo instrumento, e viola caipira, de baixo elétrico e baixo de arco, de triângulo e zabumba. De gaita e violino. E de sanfona!
Assim, tenho discos de Bach, Vivaldi, Paulinho da Viola, Caetano Veloso, Pink Floyd, Adoniran Barbosa, Xangô da Mangueira, Kraftwerk, Badi Assad, Leonard Cohen, Vincent Baguian, Boubacar Traoré, Lenine, Coralie Clément, Clementina de Jesus, Cesária Évora, Luís Gonzaga, Toninho Ferragutti e por aí vai. Até de alguns poucos argentinos, tenho.
Leio Camões, Bocage, Machado de Assis, Dalton Trevisan, Paulo Leminski, Drummond, Bandeira, José Cândido de Carvalho, Cora Coralina, Adélia Prado e Chacal, com o mesmo gosto e a mesma boa vontade com que leio Robert Crumb, Charles Schulz, Millôr Fernandes e Luis Fernando Verissimo.  Ou Patativa do Assaré, ou Leandro Gomes de Barros, para destacar dois grandes da literatura popular nordestina.
Em 1992, acompanhei meu filho, então com quinze anos, ao 3º Hollywood Rock, na Praça da Apoteose, para que ele visse o Living Colour, o grande sucesso da época. Quando chegamos ao local combinado com seus outros amigos, um deles, de modo zombeteiro, disse para mim, em tom de dúvida:
- Aí, tio, gosta de rock?!
Eu lhe perguntei a idade, de que já desconfiava. Ele me disse: quinze. Então, fui cruel com o moleque:
- Ouço rock ‘n’ roll há mais tempo do que você tem de idade.
Quem mandou implicar com quem está quieto!
E, para encerrar, como diz sempre meu amigo Zatonio Lahud: Saco!
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* Depois ele me esclareceu que a frase consta de um disco ao vivo dos Raimundos e foi dita por um espectador. A voz deste e o sotaque são semelhantes à de um dos cantadores do improviso.

29 de maio de 2012

SUIPA: ADOTE UM ANIMAL

Gato, nem Thiago Lacerda;
Gata, só Camila Morgado;
Cachorro, nem mesmo o quente;
Cachorra, só preparada;
Passarinho, só sem gaiola;
Peixinho, bem empanado;
Bichos, só meus parentes,
Que já dão um trabalho danado
Pra gente!
Entende?

Imagem em nucleopet.com.br.

28 de maio de 2012

MULHERES!

Letícia das minhas tristezas
Dolores dos meus alívios
Celeste dos meus infernos
Felícia dos meus martírios
Augusta dos meus pecados
Simplícia dos meus delírios
Aurora das minhas noites
Altiva das minhas baixezas
Perpétua das minhas mortes
Leona das minhas fraquezas
Glória dos meus fracassos
Vitória das minhas derrotas
Socorro dos meus amparos.

Di Cavalcanti, Cinco moças de Guaratinguetá, 1930,
 acervo MASP (em dicavalcanti.com.br).

26 de maio de 2012

DEZ CONTOS FRÁSICOS DRAMÁTICOS E LOCALIZADOS

1. Entrou pelo condomínio Asa Branca trazendo a mulher embaixo de pescoções, na frente dos porteiros - o maior rebu -, e saiu enrolado numa mortalha preta, rebocado pelo camburão do Instituto Médico Legal, o peito aberto a potente faca de cozinha.
2. O último cartucho da espingarda foi deflagrado contra a pouca vergonha do casal de gatos, que gemia, gemia, gemia, sobre seu telhado, em noites de lua cheia e solidão, sob o céu do Badu.
3. Três vezes chamou pelo pai, que se metera no banheiro da casa simples na Engenhoca, havia quase uma hora, sem que obtivesse resposta: o chuveiro aberto sobre o cadáver do velho fazia correr pelo ralo seu último suspiro.
4. Mal apeara da besta no Sítio Boa Esperança, levou pelas costas tirambaço de romper régua de curral - os pulmões vazados -, pois teve seu rastro libidinoso seguido desde a casa do compadre, que sentiu cheiro de sexo, ao chegar mais cedo à tapera.
5. O pai, atônito, contemplava, sobre as tábuas de sua oficina de marceneiro, fronteira ao cemitério da Coreia, o corpo do filho adolescente suicida, que resolvera pôr fim a anos de surras diárias injustificáveis, com uma dose de formicida.
6. Chamado pela décima vez ao Colégio Rio Branco, para resolver problemas do filho, o pai põe sobre a mesa da diretora, apavorada, seu revólver trinta e oito, com a recomendação de que, na próxima alteração, ela desse um tiro naquele miserável e acabasse com ele.

Imagem em acepilots.com.

7. Por volta do outono de 1973, pôs no toca-discos o último elepê dos Stones, Exile on Main St., aumentou o som a não poder, colocou o cano da pistola na boca e puxou o gatilho, enquanto Mick Jagger cantava coisas ininteligíveis nas imediações do Barreto.
8. A sacola de compras espalhada pela Rua Real Grandeza registrou o instante em que o carro em fuga atropelou o auxiliar de serviços gerais que a levava, no primeiro dia de uma aposentadoria então transformada em pensão para a viúva.
9. Adolescente, imprudente, foi-se despedir do mar revolto de Itaipuaçu, que não veria tão cedo - ou nunca mais -, sobre a pedra próxima à arrebentação, e lá deixou sua vida jovem, a cabeça estourada contra o rochedo beijado com fúria pela onda implacável.
10. Mudara-se para Miracema, onde fez crescer suas posses e suas reinações, que culminaram na capotagem da picape, que dera à amante inexperiente para dirigir, enquanto lhe fazia saliências comprometedoras, que duraram até o esmagamento de seus corpos na pirambeira da estrada.

24 de maio de 2012

SOBRE A TORRENTE DO RIO

Quando se criou o mundo
Não foi para ser quadrado
Parado em qualquer canto
Mas no formato redondo
Para que fosse inquieto
Mexer-se pelo infinito
Qual bola chutada a esmo
Seguindo com seu traçado
E mexendo-se desse jeito
Mexe com quem está dentro
Ou antes em cima dele
Por isso é que o ser humano
Não sossega o coração
Mistura as estações
Se modifica na vida
Ontem assim hoje assado
E amanhã ninguém sabe
Como laranja caída
Do galho pendido torto
Num amplo espaço vazio
Sobre a torrente do rio


Imagem em pulsmail.com.



22 de maio de 2012

DE UM MIL PASSARÁ, A DOIS MIL NÃO CHEGARÁ!

Marc Chagall, 1911, I and the Village, 00001442-Z
Marc Chagall, Eu e a vila, 1911 (em pt.wikipedia.com).
Quando era criança pequena lá em Carabuçu, viviam dizendo que o mundo não passaria de 2000.
Eu, que havia nascido em 1946, fazia as contas e lamentava o fato de que não viveria os então noventa e poucos anos de meu bisavô Papai Antonico, nem de minha bisavó Mariquinha, também palmeando os noventa.

Aliás, quanto à minha bisavó, ocorreram uns fatos engraçados. Foi ela fazer oitenta anos e resolveu juntar a descendência, porque julgava que não passaria dali. Eu era, por essa altura, um menino chegando à adolescência. Juntou foi gente.

Vovó Mariquinha era mãe de meu avô Juquinha e de mais uma montoeira de tios-avós. Casara-se três vezes, e três maridos enterrara com sua saúde de ferro, praticamente irritante. Herdeira de alguns bens dos três defuntos anteriores, teve um pretendente a quarto consorte que, avisado de que aquela velha era chave de cemitério,  bateu em retirada, para que seu endereço não passasse a ser a um singelo número, numa campa simples do campo-santo do morro da Coreia.

Dez anos depois, tendo visto que não morrera, resolveu dar outra festa de arromba, para comemorar os noventa, com o intuito de fechar o ciclo da vida, que, segundo ela, não passaria dali.

Aí eu já estava em Niterói e não fui à festa de vovó Mariquinha.

Ela estava completamente enganada. Passou acelerada pelos noventa e, uma vez visitando meus pais em Bom Jesus do Itabapoana, resolvi, instado por minha mãe, a ir vê-la em nossa vilazinha natal.

Cheguei a sua casa, na rua que adentra Carabuçu, para quem vai de Bom Jesus, e fui entrando pelo quintal, chamando por ela, que não estava no interior da casa.

Encontrei-a nos fundos do quintal, mexendo numas laranjeiras, examinando a floração. Ela tinha, então, noventa e nove anos e vivia sozinha, cuidando da vida que acumulara tempo afora.

Ela não me via há muito. E minha mãe me alertara sobre sua memória prodigiosa, que chegava mesmo a se lembrar de datas de aniversários de bisnetos.

- Bença, vó!

- Deus te abençoe, meu filho!

- Se lembra de mim, vó?

- Claro, você é o Saint-Clair da Zezé! Como é que vai, meu filho?

Um pouco depois disto, soube que vovó Mariquinha se mudara para Duque de Caxias, para onde tinha ido boa parte dos filhos que pusera no mundo, deixando em Carabuçu uma anedota, lembrada até hoje pelos mais velhos: “Dona Mariquinha foi embora para Caxias, porque disse que não tinha mais futuro em Carabuçu!”

Lá viveu até os cento e dois anos. E eu sempre implicava com uma colega de trabalho, moradora daquela cidade, dizendo que minha bisavó havia morrido lá, porque Duque de Caxias era uma cidade muito mortífera.

Agora, vejo meu pai, com seus recentes noventa e cinco anos, em pior situação que minha bisavó. A memória já lhe está sumindo, certa confusão mental desorienta sua compreensão do mundo, as pernas já não lhe ajudam como antes, homem vigoroso que era, com muita força física e, quando jovem, muito bonito. Temos uma foto dele, em preto e branco, com vinte e poucos anos, em pose de galã, que não devia nada a Marlon Brando em seus melhores dias - análise sem nenhum ranço de filhite aguda.

Hoje, por vezes, não nos reconhece, não reconhece a própria casa, está muito limitado fisicamente. Porém minhas irmãs e minha mãe se alternam em seus cuidados, com carinho, com sacrifícios, para que todos nós, através dele, passemos dos nossos dois mil. Uma meta que me assombrava em criança, mas que, em adulto, pude muito bem perceber que é apenas o limite de cada um.

20 de maio de 2012

DIAS DE CHUVA FINA, TEMPOS DE SEQUIDÃO

Há dias em que a chuva fina
Entra em minha alma
E instala um clima de fique quieto
De não se mexa

Não tenho alma
Não fico quieto
E olho pela janela respingada
A vida correndo intensa na rua lá embaixo

Há tempos em que o clima seco
Resseca tudo em que creio
E desertifica as coisas por inteiro

Então me umedeço da chuva fina
E recrio na paisagem árida de deserto
As singelas flores rústicas do meu jeito roceiro

Sheila Machado, Chuva na janela, 2010 (em flickr.com/photos/smassis)

18 de maio de 2012

EU ERA FELIZ E DESCONFIAVA

Ataulfo Alves, no seu samba famoso, diz que “era feliz e não sabia”, ao se reportar ao tempo de infância, já morando na cidade grande, no Rio de Janeiro, para onde viera e encontrara a consagração.

Ataulfo foi um dos nossos maiores sambistas, em sendo mineiro do interior. Construiu uma obra invejável, enfileirando sucessos, um atrás do outro, muitos deles cantados ainda por algumas gerações que lhe são posteriores.
Sou do tempo em que era possível ouvi-lo cantar no rádio e, posteriormente, vê-lo na televisão, com seu porte soberbo, sua elegância no trajar. E essa sua canção, Meus tempos de criança, ficou em nossa memória, por cristalizar no verso acima a constatação de que, na infância, a felicidade é, via de regra, o mote da vida, ainda que naquele momento não tenhamos a consciência disso.
Miraí, terra natal do compositor, a qual conheci há alguns anos e onde há um singelo museu em sua homenagem, é um tanto maior que minha vilazinha de Carabuçu, em que nasci, me criei e vivi até, pelo menos, meus dezessete/dezoito anos.
Minha infância, portanto, passei-a toda lá. E o mais distante que corri mundo, então, foi, aos oito anos, ir ver o mar pela primeira vez em Guaxindiba; aos treze anos, indo estudar em Campos dos Goytacazes (não concordo com esta grafia estapafúrdia) durante um ano; e, depois, aos quinze, vindo conhecer o Rio de Janeiro.
Todo esse tempo da vida foi de uma simplicidade interiorana, quase beirando à franciscana, se me permitem, por injunções caboclas, econômicas e sociais. Mas, em nenhum momento, tive a mínima sombra da tragédia ou do drama familiar ou pessoal a rondar minha existência. As agruras sempre foram suportáveis.

Talvez por isso, em primeiro lugar, nada houve que deixasse em minha memória manchas que empanassem o brilho da felicidade que os meninos do interior experimentavam, quando se vivia praticamente apartado da tecnologia, que hoje quase nos escraviza, e das disputas sociais, que nos transformam em concorrentes em tempo integral, em face de nosso semelhante.
Era um tempo mais brando, menos preocupado, quando as famílias até podiam ter mais filhos, sem que isso fosse um desequilíbrio das contas domésticas. Por essa época o ditado “Onde come um, comem dois; onde comem dois, comem três” era uma verdade indolor.
Toda a vila era praticamente o quintal de cada moleque. E, embora houvesse certas interdições – não ir ao valão, não roubar fruta no quintal alheio –, o restante me era franqueado por meus pais e por toda a comunidade. Todos se conheciam, e boa parte dos moradores eram parentes uns dos outros, de modo que formávamos uma espécie de grande família, já que, por exemplo, meus primos somavam seus outros primos e por aí afora.
No entanto, eu tinha lá a minha turma certa, aqueles com quem me relacionava com diária frequência e, às vezes, por várias horas.
Das brincadeiras em grupo, o pique – pique simples, pique esconde, pique bandeira, ou bandeirinha – e a siliprina (ou ciliprina, palavra que não encontrei no dicionário) brincávamos, sobretudo, nas noites de verão. Futebol, que dizíamos “brincar de bola/jogar bola”, também se dava com frequência no campo do Liberdade Esporte Clube – às escondidas –, nas ruas, na pracinha do Sabiá – quando ainda era de chão batido –, em algum pasto ou terreirão de café, em que me revelei um completo perna de pau.  Outro jogo muito apreciado era a peteca, jogada quase sempre em dois grupos antagônicos de dois a quatro meninos, que eu fazia com muita perícia. Às vezes, brincávamos de bandido e mocinho, com duas equipes fazendo os papéis de meliantes e homens da lei, copiando os faroestes vistos no cinema do clube.
Em dupla, os “jogos de botão pela calçada”, da mesma canção de Ataulfo, com campeonato organizado, tabela, mando de campo, disputas ferrenhas, compra e venda de craques de osso, de chifre, de baquelite, casca de coco, madrepérola, cerâmica, e até roubo de jogador pelo rival; o futebol de prego, num campinho de madeira em que os pregos eram os jogadores e uma moeda, a bola; o jogo de baleba (bola de gude), em que eu era um fracasso total; o jogo da baiana, feito com piões, também outro ponto fraco da minha infância, embora fosse exímio na execução de manobras individuais; o tira-e-bota, jogado com pedrinha, jogo unissex.
Havia também outra brincadeira em que se misturavam meninos e meninas: a brincadeira de roda, realizada normalmente nas noites frescas, oportunidade em que podíamos tocar em nossas colegas, o que, de imediato, desenvolvia uma paixão fulminante por algumas delas. Já fui apaixonado por várias, sem que elas nunca o soubessem.  Ó, Deus de misericórdia dos tímidos e atrapalhados!
Individualmente, nos dias ventosos, havia as pipas, que chamávamos estrela ou papagaio, conforme o desenho, as quais não conseguia, em hipótese nenhuma, manter no céu, porque era adepto ferrenho da tal lei da gravidade. E, em certas ocasiões, ir atrás do enxame de formigas tanajuras em revoada - a anunciar tempo seco -, que eram aprisionadas em vidros e em cujas bundas enfiávamos palitos, para transformá-las em miniventiladores vivos.
E brincávamos com as chuvas torrenciais de verão, nas ruas alagadas, quando fazíamos represas e soltávamos barquinhos de papel (A respeito, é interessante o poema de Guilherme de Almeida, Barcos de papel.), ou tomando banho nas torrenciais goteiras a se precipitarem dos telhados das casas.
Divertíamo-nos a valer nos períodos em que apareciam na vila circos, parques de diversão e touradas, normalmente mambembes, mas sempre com novidades e atrações “sensacionais”, como anunciava pelas ruas o palhaço. Os moleques que o acompanhavam durante a propaganda ambulante, para responder a suas frases, ganhavam um carimbo no braço, garantia de entrada gratuita “no grande espetáculo da noite”, desde que, no banho, se preservasse a marca aplicada com tinta.
- Hoje tem espetáculo?
- Tem, sim, senhor!
- Lá na rua do buraco?
- Tem, sim, senhor!
- Hoje tem marmelada?
- Tem, sim, senhor!
- Hoje tem goiabada?
- Tem, sim, senhor!
- E o palhaço o que é?
- É ladrão de mulher!
- Oi, raia o sol, suspende a lua!
- Olha o palhaço no meio da rua!

E ia aquele bando de moleques saltitantes, quase sempre das famílias mais pobres, atrás do artista mais importante da companhia, com o canto responsório como garantia da entrada franca.
O Gran Circo Pan-americano, por exemplo, era uma das coisas mais bonitas que eu até então vira. Cheio de cores, de artistas, de atrações supostamente “internacionais”, como uma “vinda diretamente da Rússia” e um eletrizante, barulhento e enfumaçado globo da morte. Era coisa de muito prestígio para a vila receber circo tão importante assim!
Mas, dentre tudo isso, lembro-me, principalmente, de uma época em que a chuva caiu ininterrupta durante dias, e não tivemos oportunidade para sair de casa. Em minha memória isto deve ter durado mais de uma semana, ao cabo da qual cessa a chuva. E sai, tímido, meio envergonhado, por entre as últimas nuvens daquela temporada, o sol fraco de fim de tarde. Primeiro, iluminou a parede branca da capela de Santo Antônio. Aquilo foi como um sinal, um chamariz. E um bando de meninos saímos atrás do sol. E ficamos pulando junto à parede, na tentativa de pegar sua luz com a mão. Tão logo ele baixou ainda mais, restou apenas no morro da escola a sua luz já amarelada. E, como andorinhas em revoada, corremos morro acima atrás do sol, numa algazarra que lembrava em muito esses pássaros singelos que alegram com seu voo coreografado as tardes despreocupadas das vilazinhas perdidas no interior do Brasil.
E, por tudo isso, eu era feliz na minha pequenina Carabuçu, para copiar pela última vez Ataulfo. E já naquela época desconfiava bastante!


Foto por Vassalerie*, em fond-ecran-image.com.
(Agradeço à fotógrafa Christine Vassalerie a autorização para o uso da imagem acima. Merci, Christine!)

16 de maio de 2012

SOU COMO MEU PAI

Sou como meu pai
Não consigo ver defeitos em meus filhos
E se vejo
Eu os justifico
Eu os explico como uma coisa assim muito humana
Capaz de ser corrigida com um carinho
Com um cuidado
Com um desvelo

Não há nada que o coração de um pai não consiga

Se não transformar o filho
Entendê-lo
Amá-lo até o fim
Do mesmo jeito como o amou ao chegar ao mundo

É que os filhos não se perdem
Quando o amor constrói o seu sustento
E lhes orienta os passos
E lhes traça as metas
E mostra os rumos pelo tempo
A refletir o espelho no espelho
Como diz aquele antigo samba



 Василий Перов. 
 Спящие дети. 
 Vasily Perov. 
 Children Sleeping.
Vasily Perov, Crianças dormindo, 1870 (em tanais.info).










14 de maio de 2012

CONTOS CURTOS ENTRETECIDOS, MAS NEM TANTO II

1. O último bolero que cantou, no Clube Recreativo dos Operários Anarquistas, teve sabor amargo. Chico Sete Cordas notou que ele desafinou, a voz trêmula, nos instantes finais: "Espérame en el cielo, corazón, si es que te vas primero". A mulher – a ex, melhor dizendo –, a essa hora, acendia uma vela para Nossa Senhora Desatadora de Nós.

2. A pouca coisa que levou, ao sair de casa, quase escorraçado pela mulher, coube no carro velho, uma Variant 1970, de uma indefinível cor que ele mesmo pintara, a poder de rolos e pincéis, e com buracos pela lataria, a placa dianteira amarrada com arame ao para-lama carcomido pela ferrugem. Seguiu em direção a Campelo, onde dizia ter arrendado um sítio, com o dinheiro que recebera pelo divórcio. Iria criar cabritos.

Imagem em carasdepartirarir.fotoblogue.com.

3. Aliviada, porém tremendo um pouco mais do que o normal pelo mal de Parkinson, ela acendeu a vela diante da imagem de Nossa Senhora Desatadora de Nós, que pediu à filha para trocar na loja. Ela não usava o verbo comprar para o caso de coisas que considerava sagradas, como a imagem. Pediu ao padre que a benzesse e a instalou sobre a cômoda do quarto, em cima de um tapetinho de veludo vermelho. O nó de seu casamento estava, por fim, desatado! Doravante era a sua santa de devoção.

4. Morou no porão da casa, misturado aos trecos sem serventia, tal como ele, durante o andamento do processo de divórcio. E agora estava arrumando as coisas que lhe sobraram do distrato de casamento: a roupa do corpo, a caixa de ferramentas, incluído um serrote velho, e setenta mil reais, com uma parte tomada emprestada ao banco pela mulher, para pagar por sua própria liberdade. Ele nunca tinha visto tanto dinheiro na vida, pois sempre vivera na aba dela, herdeira das coisas todas que o casal possuía de bens, como a casa em que moraram por tantos anos. O carro velho era seu, e a mais ninguém interessava.

5. A filha solteira, que morava com os pais, ainda olhou da janela do segundo andar da casa assobradada, tombada pelo patrimônio municipal, a velha Variant relutando em sair do lugar, soltando uma fumaça escura, a lhe denunciar graves problemas no motor. Observou quando virou à direita, o pai estendendo o braço para fora, a fim de indicar a direção, em substituição às setas, cujas lâmpadas estavam queimadas há tempo. E não teve nenhuma reação de tristeza. Apenas estava um pouco amarelada, reflexo da cor da parede esbatida pelo sol sobre sua pele branquíssima.

6. No pé sujo do Melado, um botequim espremido em espaço exíguo do Mercado Municipal, há um mês a história da separação andava em bocas de Matilde. Heraldo, aquele mesmo que foi abandonado pela mulher sessentona que se apaixonara por um bico-doce da Internet, trazia as notícias colhidas nos bailes do Operários. Passou a frequentar o clube da cidade com o intuito de estabelecer um paralelo entre sua vida de traído e a do cantor escorraçado, tendo por fundo musical boleros e sambas-canções. E, entre uma e outra dose do quinado de fabricação artesanal do birosqueiro, ainda tinha a coragem de dizer que o cantor saíra no lucro: embolsara uma quantia que ele também jamais vira.

7. Um mês depois da separação, ele foi visto na maior loja da cidade, comprando roupas novas com o auxílio daquela outra, da tal sirigaita da quitanda. Quem levou a notícia para a ex foi uma vizinha dada à incontinência verbal, que é um jeito brando de dizer que a tal é fofoqueira. O que, convenha-se, não fica bem para uma vizinha tão estimada. A ex deu de ombros, fez um muxoxo e disse não ligar para mais nada dele. E foi passar um café fresquinho, a fim de agradar a leva e traz, pois, no fundo, no fundo, gostava de saber quantos degraus ele ainda desceria.

8. Recentemente ele foi até a Farmácia Santo Antônio comprar preservativos, cremes, pomadas e aquela pílula azul, com a cara mais deslavada do mundo. E ainda charlou para o atendente sobre os planos para o futuro: “Isso é só o começo, Dorival! Agora, lá em casa, o pau vai quebrar, a jiripoca vai cantar. Tem carne nova no pedaço, Dorival. Vai subir cheiro de borracha queimada do meio dos lençóis, Dorival!”. O caixeiro, constrangido, teve de fingir um sorriso de aprovação com tanta pavonice, para não perder o cliente.

9. Ao saber que ele iria criar cabritos, a ex até se mostrou, de início, esperançosa de que o traste aprendesse a dar seus pulos com os bichos. Sempre vivera na sua aba, confortavelmente apoiado pela herança dos sogros e o salário de professora dela. Mas, mesmo a maior herança, não resiste a um gastão vaidoso como ele, amante de brilhantina cara e perfume esparramado pelo corpo. Tanto que ela teve de se valer de um empréstimo, para completar os setenta mil com que comprou sua alforria. Se vivos ainda, seus pais lhe teriam aplaudido a iniciativa, mesmo sabendo da enrascada da dívida. Até o cachorro da família não gostava dele. Sempre fora uma pessoa desamorável.

10. O bom cabrito não berra e, se bem cuidado, dá uma carne saborosa de bom valor no mercado. Cabrito está na moda, segundo ele. Nos planos estava também fazer queijo de leite de cabra, criar um laticínio de qualidade, que pudesse exportar para outras cidades, para outros estados. Sonhar não custa nada. E, agora, de posse daquela grana – já tinha diminuído um pouco, diante de umas emergências a enfrentar –, iria dar uma reviravolta em sua vida. Ao saber disso a ex caiu num riso convulso, incontrolável, de ter dor de barriga. Como, depois dos cinquenta, alguém que nunca fizera nada se transformaria de uma hora para outra? Ela até pagaria mais para ver.

12 de maio de 2012

VÃOS AMORES PERDIDOS

Paixões e amores não existem para se perderem, embora isto ocorra com uma frequência assustadora nos dias de hoje. Pode-se até dizer que as paixões são mais voláteis e que os amores resistem mais ao tempo. Pode ser que assim seja!

Pois os seres humanos fomos talhados para eles. E também para o ódio e o desprezo, que são, na matemática afetiva, mais ou menos, os valores negativos daquelas quantidades positivas.
E nos apaixonamos e caímos de amores por outro semelhante nosso – hétero ou homo, conforme a orientação –, pelos bichos e plantas que nos estão próximos, pelas coisas que acumulamos ao longo da vida, por ideias alheias, filosofias novas e antigas, ideologias de todos os matizes, comidas, bebidas, lugares, edificações, obras de arte em geral, e por aí afora. O nosso negócio é pegar gosto, paixão, amor, por aquilo em que acreditamos, que desejamos, com que sonhamos.

E tais amores e paixões se manifestam em vários calibres: uns mais, outros menos, uns mais equilibrados, outros mais avassaladores. Todos, no entanto, nos marcam de forma inapagável.
Isto tudo me veio à consideração – às vezes, sou dado a considerações –, ao passar de ônibus diante do lugar onde, há muitos anos, funcionou o bar mais gostoso que já frequentei: o Quatro Gatos, em Niterói, na Rua Presidente Domiciano.

No lugar, agora, está um tapume contornando o terreno em que se erguia a velha casa de moradia que, no fim dos anos 60, foi transformada em bar. Primeiro, com o nome de Patati Patatá; logo depois, com a denominação que deixou saudades.
Quando passei a frequentar, o Quatro Gatos já havia trocado de mãos. Os quatro sócios – os possíveis gatos – venderam-no para uns amigos meus – Wagner, noivo de Cristina, irmã de Arnolfo e Chico, todos sócios no empreendimento. Não me ocorre agora se Paulinho, um irmão mais novo, também fosse sócio. Sei apenas que Antônio, ainda adolescente, não fazia parte do staff da casa.

E o mais interessante disso tudo é que esses quatro irmãos – os três primeiros foram meus alunos na faculdade (Chico chegou a dar aulas lá, posteriormente, a meu convite) – eram hábeis artistas, embora ainda jovens: músicos, compositores, poetas, pintores, desenhistas. Cada um com seu estilo.
Talvez por causa de toda essa habilidade, buscaram fazer do Quatro Gatos, numa época em que Niterói era tão carente de entretenimento, um ponto de encontro musical.

Como eles fossem oriundos de Itaperuna, no noroeste do Rio de Janeiro, o local era frequentado por vários jovens da região, muitos dos quais músicos, cantores, a procurar espaço para mostrar sua arte. Lembro-me perfeitamente de Cadinho, cantor e violonista; Piredda, acordeonista; e até mesmo Paulinho, Arnolfo e Chico, violonistas, cantores, compositores. E uma jovem itaperunense já falecida que, por sofrer de obesidade mórbida, era muito gorda, mas cantava com uma das vozes mais singelas que se podia ouvir.  E, com frequência, lhe pedíamos para cantar Cajuína, de Caetano Veloso, fechando a noite de shows de outros artistas, pois ela estava sempre lá.
No Quatro Gatos, estiveram, dentre outros, Xangai, que tinha lançado seus primeiros trabalhos; Fátima Guedes, já consagrada como compositora e cantora; Taiguara, muito boicotado pelo regime militar de então; e o grande João do Vale.

João do Vale (em sombaratinho.com).

A respeito da presença de João do Vale, ocorreu um fato interessante.
Naquela noite de sábado de verão, Niterói e Rio de Janeiro sofreram uma tempestade de alagar ruas e praças.

Quando passou a chuvarada, eu e minha irmã Cristina nos dirigimos para lá – tínhamos uma reserva. Niterói ainda estava se recompondo, naquele momento.
Chegamos, acomodamo-nos em nossos lugares e pedimos uma bebida para aguardar o início do show. Wagner veio dizer que João do Vale estava atrasado por causa da chuva.

Daí a pouco, chega, um tanto esbaforido, nosso conterrâneo Beto Travassos, acordeonista, compositor e cantor impetuoso , um pouco mais novo que eu.
- Aquele neguinho já chegou? – perguntou ele com seu jeito característico.

Então eu o informei sobre o atraso justificado do astro da noite.
- Então vou correndo em casa, pegar minha sanfona. Porque, pra mim, é Deus no céu e João do Vale na terra.

Chegou João do Valle daí a alguns minutos. Beto veio em seguida, com a sanfona a tiracolo.
O show da noite seria voz e sanfona. Contudo o acordeonista do João, que não viera com ele, estava ainda mais enrolado no trânsito, por causa das ruas cheias. E providenciou uma ligação telefônica para informar que se atrasaria um pouco mais.

Passado um bom tempo, sem que o instrumentista chegasse, e devido à espera já longa dos clientes do bar, Beto resolveu oferecer seus serviços musicais ao cantor-compositor, só pelo prazer de tocar com o ídolo.
- João, sei todas as suas músicas. Se quiser, eu posso acompanhar.

Beto fez pequena demonstração de sua habilidade e conhecimento, e João aceitou de pronto, porque não tinha certeza de quando seu acordeonista chegaria.
Humildemente, Beto não dividiu o pequeno palco com João. Ficou sentado numa das primeiras cadeiras do salão.

Quando João soltou a voz para cantar seu grande sucesso, em parceria com Luiz Vieira, Na asa do vento, Beto correu o dedo nas teclas e achou o tom meio esquisito do nordestino. Apanhou de primeira, ao que João olhou para ele com um sorriso de aprovação.
Eduardo Travassos, seu irmão mais velho já falecido, numa mesa ao lado da minha, disse sorrindo, também em sinal de aprovação:

- Esse é o Beto! Não perde uma! Tem um ouvido incrível!
E demos uma boa risada.

Lá pela quinta música, chega o sanfoneiro retardatário. Senta-se no palco, atrás da atração da noite, e tira do estojo um instrumento que mais parecia um piano de peito, tal era a quantidade de teclas da mão direita.
Pensam que Beto se recolheu à condição de plateia? É ruim! Dividiu a cena instrumental com o profissional e, posso garantir – Eduardo, que também era músico, e minha irmã confirmaram: ele conseguia pegar o tom de João do Vale antes do sanfoneiro oficial.

Hoje o Quatro Gatos – um dos amores perdidos – é apenas uma boa lembrança de um tempo duro (ditadura militar), que funcionou muito como válvula de escape para nossa frustração política, e onde a música estava a serviço da estreita liberdade daqueles dias.

11 de maio de 2012

SE O MUNDO ACABAR

se o mundo acabar
e quando o mundo acabar
no momento exato da catástrofe anunciada
pode ser que eu esteja com um buquê de flores tristes na mão
a levar para minha amada

pode ser que eu porte uma arma
um porrete
uma espada
e me vingue de todos os inimigos que nunca tive
com uma fúria alucinada

ou com os olhos cheios d’água
chore a perda dos meus amigos
dos parentes dos netos dos filhos
e dos dias futuros que serão nada

ou com a boca seca de palavras
atônito
atordoado
sem entender a extensão do absurdo
quedar-me mudo
estremunhado

ou ainda que
na cama
assolado por uma dor interminável
veja por entre a janela entreaberta na tarde fria
o vazio que se abrirá
para a noite escancarada
quando meu mundo se acabar

Mondrian, Árvore vermelha, 1909 (em eartham.edu).

9 de maio de 2012

COITADO DO ADJETIVO! VIVA O ADJETIVO!

Quando fazia o curso de Letras, entre os anos de 1968/1971, fui como que doutrinado a ter pavor a adjetivos.
Os estudos literários de então – não sei os de agora, pois não frequento bancos escolares há muito, nem ministrei aulas de Literatura ou Teoria Literária – pintavam o adjetivo como o patinho feio da linguagem literária. Era um pobre coitado!

Propugnava-se por uma linguagem ascética, asséptica, anoréxica, praticamente um ambiente de UTI na frase, que deveria conter o menos possível de adjetivos, sobretudo aqueles chamados de valorativos (como os três usados no início deste parágrafo), por serem de caráter subjetivo, a servirem ao autor para a emissão de juízo de valor acerca do que é dito. Como se ao autor, o dono do texto, não se permitisse manifestar ponto de vista.

É bem verdade que não se pode escrever sem adjetivação, ainda que seja possível minimizar sua presença no texto. É possível, por exemplo, substituir um adjetivo por uma locução adjetiva, feita com substantivo. Lembro, por exemplo, uma expressão de O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho, em que tal recurso é recorrente: “a rinha era de conforto”, em vez de “a rinha era confortável”.

De qualquer forma – “de conforto” ou “confortável” –, a expressão adjetiva está lá.

É que, basicamente, a língua é a codificação em palavras da realidade a ser comunicada. E a percepção que se tem do mundo passível de ser traduzida em linguagem resume-se – penso eu – a: coisas e seres (substantivos), a qualidade das coisas e dos seres (adjetivos), ações e fenômenos (verbos) e a qualidade das ações e dos fenômenos (advérbios). Ou melhor, para sermos rigorosos, aquilo que o falante entende como coisas, seres, ações, fenômenos e qualidades.

Fica claro, por isso, que os adjetivos são classe de palavra extremamente necessária, como se fossem – mal comparando – uma das cores básicas do espectro visual. Constituem, com as outras três classes, o quadrilátero que estrutura a frase – unidade básica da comunicação linguística:

substantivo + adjetivo + verbo + advérbio > frase.

Todas as outras demais classes são apenas vocábulos gramaticais que se prestam a estabelecer as relações sintáticas entre essas, as verdadeiras palavras, com conceito do mundo externo à língua.

João Cabral de Melo Neto, um dos nossos maiores poetas, sempre foi badalado nos meios acadêmicos pelo fato de que sua linguagem é praticamente isenta de adjetivação. Ele se tornou o exemplo da expressão seca, enxuta.

Gosto muito de João Cabral. É um grande poeta, sem dúvida. Mas não é pelo fato de abrir mão da adjetivação como um traço de seu estilo. Há outros componentes muito mais interessantes, como o domínio do ritmo e da melodia, a precisão da palavra empregada, o universo intelectivo de seus textos, o equilíbrio entre conteúdo e forma, qualidade primordial no texto poético.

Custei algum tempo para fazer as pazes com os adjetivos, por conta do trauma da doutrinação a que fui submetido. Apenas após alguns anos na atividade de professor, é que tive a visão convicta que expressei acima sobre as classes de palavras.

É claro que um texto não pode estar calcado na adjetivação, sobretudo se ela é repetitiva, obsoleta, enfadonha (mais três adjetivos que usei aqui, viram?).

O adjetivo bem achado, bem colocado, é como uma incrustação bem feita de um detalhe numa peça maior do artesanato da palavra.

É por esta razão que nos meus textos – contos e crônicas, sobretudo – uso bastantes adjetivos e sinto que eles mais colorem, que desbotam minhas frases.

Pode ser que, um dia, eu pense diferentemente, mas por enquanto não posso prescindir desse meio vocabular que a língua me oferece aos milhares.

Todos os que escrevem com certa consciência crítica naturalmente fazem isto, e cada um segue o que lhe pareça mais adequado.

Com mais ou menos adjetivos, o texto precisa ser criativo e ter alguma coisa de ineditismo, para que possa agradar. Porque ninguém escreve para ser taxado de chato. Ainda que assim possamos ser julgados.


Marc Chagall, Le poète Mazin (séc. XX), em canais.sol.pt.



8 de maio de 2012

MI VIDA, MI TORMENTO

Tenho ascendência nobre
Só não esnobo, porque sou pobre.
Parece letra de samba,
Mas é a mais pura verdade.
Vejam só meus argumentos.
Dentre meus contraparentes
Que se empilham em meus ombros,
Herói com seus desassombros,
Está até Tiradentes,
Primo do padre Germano Xavier,
Que vem a ser avô do meu bisavô.
Não me perguntem entre dentes
Como é que isso se deu.
Só sei que esse meu tetravô
Na pele de homem de Deus
Tanto fez e aconteceu
Que seduziu bela donzela
De mui ilustre família
Da antiga Bom Jesus.
E aí deu no que deu
E foi um deus nos acuda.
Nove meses decorridos,
Nasceu-lhe lindo rebento
De femininas virtudes
Que recebeu no batismo
O nome simples de Rita.
Um dia, já bem crescida,
Rita casou-se com tal Figueiredo,
De primo nome Manuel,
Que era sobrinho neto
Do Visconde de Ouro Preto,
Afonso Celso de Assis Figueiredo.
Reparem que este enredo
Vai mostrando minha estirpe.
E, no entanto, continuo
Tão simples quanto no início.
É que não tenho por vício
Querer parecer gabola.
Da. Rita e seu Manuel
Obraram dentro dos planos
E, dentro de poucos anos,
Nasceu-lhes aquele que iria
Daí não sei quantos janeiros
Tornar-se meu bisavô:
Antônio Olímpio de Figueiredo,
Que, de seus filhos para baixo,
Netos e bisnetos incluídos,
Era por todos chamado
De modo muito afetivo
Apenas por Papai Antonico.
E dessa fonte brotou
Filharada quase infinda
Cheia de muitos varões,
Da sua primeira união:
Cícero, Tônio, Raul e Chiquito,
João, Tieca e Carlito,
E apenas uma filha: Julinda,
Que certo dia se encontrou
Com José de Souza Machado
E sem mais essa ou aquela
Formaram nova família
de muitos novos rebentos:                                          
Colola, Bily, Aldany,
Alda, Toninha, Aílton,
Cate, Paulinho e Louro,
E, no meio desse bolo,
Bem lá no meio: Zezé.
Por isso que, desde então,
Não sendo rei nem rainha,
Passaram a ser chamados
De jeito muito brejeiro:
Maína e Papai Juquinha.
Roncava 45 no meio da Grande Guerra,
Quando Zezé e Argemiro,
Sem esperar armistício,
Resolveram se casar
Antes de a guerra acabar.
Como a história não para,
Menos de dois anos depois,
Olha só quem dá às caras
Em comemoração à paz: eu!
E paro por aqui esta história
Que por certo não tem fim,
Porque também fiz das minhas.
Continue-a quem quiser
Que vier depois de mim.

Imagem em jacksonangelo.blogspot.com.