29 de novembro de 2010

O DIREITO INALIENÁVEL AO PITACO

Uma das características básicas do comportamento humano, observada sobretudo no cidadão urbano, é a capacidade, quase inesgotável, de dar pitaco em qualquer coisa. Ser palpiteiro nos mais diversos assuntos, principalmente naqueles para os quais não se está habilitado, é um direito inalienável da pessoa física, essa que não é pega na malha fina do imposto de renda. Também, se houver habilitação, aí já passa a ser opinião abalizada, contra a qual se levantarão dezenas de juízos contestantes, aliás quase todos muito bem fundamentados.

O palpiteiro tem praticamente imunidade em seus pitacos e chega ao máximo do seu desempenho quando, diante de uma situação, não diz palavra, apenas manifesta sua avaliação através de uma interjeição: Xiiiiiiiii! Nesse momento, se você estiver fazendo alguma coisa, pode parar, suspenda a ação, porque fatalmente ouvirá a seguir: Sabia que não ia dar certo! E, quanto mais longa for a interjeição, maior a chance do insucesso da sua empreitada.

É que o palpiteiro é especialista em generalidades. Tecnicamente não sabe absolutamente nada de coisa alguma, mas é provido pela natureza de um sentido extracorpóreo, parente próximo da mediunidade, que o torna quase um contador Geiger para as mais diversas situações. Quando o palpiteiro acumula a função de sogra, aí, então, a propabilidade de erro zero para os pitacos que lança no dia a dia é quase cem por cento. Sogra palpiteira é mais fatal que chumbinho com guaraná. Acerta todas!

Se você contrata um mandingueiro, um especialista em botar reparo na vida dos outros, paga por um serviço, com vela, cachaça, arreio em touceira de bambu e outras mumunhas mais, pode ter certeza de que o serviço não funcionará. Coisa muito bem trabalhada não dá certo, não vai adiante. Veja todos os planos de governo. Se for um encosto, não pega. Se for uma praga na ex-mulher, no ex-marido, ele e ela continuarão a vida de folgança ainda mais proveitosa. Se for uma orientação espiritual para resolver grave problema por que está passando, o problema se agravará. Agora, se um mané qualquer der um pitaco na vida, por exemplo, da pobre colega de trabalho da mesa do lado, seguramente ela levará um pé na bunda no fim do mês, vai perder o namorado, a marmita vai cair no cais da estação do metrô ou vai torcer o pé exatamente com a sandália recém-comprada.

(Imagem em periplus.blogspot.com.)
 A melhor ocasião para se flagrar um palpiteiro em ação é quando há um ajuntamento de pessoas na rua em torno de alguém caído, por qualquer motivo: atropelamento, desmaio, queda, piripaque. Com uma voz anônima, vinda de lugar incerto e não sabido, quase sempre do fundo do ajuntamento, alguém dará o pitaco certo para salvar a criatura. Ou para metê-la ainda mais em apuros. Mas o pitaco será dado, sem dúvida nenhuma!

Há também os palpiteiros oficiais, com salários polpudos nas diversas esferas da administração pública. Lembram-se do último apagão e de quantos pitacos ouvimos das mais diversas autoridades acerca do que acontecera? Até hoje não sei qual deles foi o mais eficiente. Porém, quando o pitaco é do governo, bem provavelmente estará errado. E a vocação da nossa política externa para dar pitaco no concerto das nações? Na matéria, somos insuperáveis.

Eu, contrariamente a essa turba cada vez maior de palpiteiros, tenho horror a dar pitaco na vida alheia. Vai que eu acerte num momento negativo? Olha a minha fama de ave de mau agouro, de boca de cumbaca. Mas tenho também os meus palpites. Agora, por exemplo, acho que você está muito tempo em frente ao computador. Isso talvez lhe faça mal aos olhos. Essa xícara de café ao lado do teclado pode virar. Se derramar em cima das teclas, adeus teclado! E essa sua cor de pele, não acha que está um pouco esquisita? Tome um pouco de sol. Ah! não aplique seu rico dinheirinho em dólar. É uma furada!

Depois não vá dizer que não avisei!

28 de novembro de 2010

TODO POEMA DE AMOR

queria fazer um poema que dissesse do amor
sem a baba que dele escorra
– pegajoso que é todo discurso amoroso –
mas que fluísse solto límpido
sobretudo muito moderno
bem ao gosto das pessoas de bom gosto

queria compor um poema lírico
sem pieguices sem babaquices
mas que pudesse muito bem e facilmente
causar arrepios em toda a gente
e no final encantasse por bobinho
qualquer coração desavisado de menina-moça
e esquentasse suas coxas redondas
e incediasse seu clitóris travoso

queria compor um poema erótico
e depois deitado sobre o corpo da amada
descansasse do seu cio do seu gozo

mas todo poema de amor é tão bobo!...

26 de novembro de 2010

COM LICENÇA, NELSON RODRIGUES!

(F. Botero, A cama II.)

O casal era desproporcional. Fez-me lembrar personagens do grande Nelson Rodrigues: a Vizinha Patusca e o Sobrenatural de Almeida. O que abundava em tecido adiposo na mulher sobrava no outro em “pele e osso simplesmente, quase sem recheio” (com todos os direitos autorais reconhecidos e preservados). Perto dela, o marido parecia apenas manifestação espiritual, eflúvio da alma.
Adentraram o restaurante como um cargueiro adentra o porto: o rebocador pequetito a puxar pela mão aquela aberração. Sistema a peso, pensei no prejuízo que o marido teria ao pagar a conta da comida a sustentar toda aquela ostentação de gente. Obviamente ela não era manutenida a água e luz. É que há umas pessoas por aí que se alimentam de luz, coisa que não consigo imaginar o que seja. Será que nasceram com um terminal de tomada em alguma parte do corpo?
Mas voltemos ao casal. Fiquei curioso em observar a quantidade a ser servida por cada um. E vejam como a maledicência humana paga por ser apressada: espartanamente, o prato da gorda era um primor de decência; o do magrelo, um despautério. A imaginação começou a voar. Imaginei, então, que ele talvez fosse cavalheiro e estivesse levando o prato da mulher, para que nenhum comensal partidário de uma dessas seitas que pugnam por se comer assim ou assado, sem medo de leis antidiscriminação, pudesse ofendê-la. Mas não foi nada disso.
O magrelo instalou diante da sua pessoa aquela maquete culinária da Cordilheira do Himalaia e começou a devorar todos os picos, do mais baixo ao culminante. A gorda – fiquei até com pena dela – mastigava, não sei quantas vezes, porções miligrâmicas de verdes e brotos, de legumes cozidos na água e sal e filezinho de truta grelhado. Ela, aí sim, espartanamente, comia sua ração dietética regada a água sem gás. O magrelo mal e porcamente mastigava. Como que apertava a comida com a língua e a engolia à moda dos patos. Empurrava o bolo com goles caprichados de cerveja. Não ouvi, mas presumo que tenha arrotado várias vezes, tal era sua voracidade. O magrelo era abusado para comer! Vai comer assim nos quintos dos infernos!
Como não sou parente ou agregado que os acompanhasse, tive que ficar, ao final da comilança, sozinho no meu canto do restaurante, agora fazendo suposições para o que viria. Ele, naturalmente, beberia doses e doses de bicarbonato de sódio, acompanhadas de antiácidos e tinturas repulsivas para o bom funcionamento do fígado. Ela, tranquilamente, chegaria a casa, leve, apesar de tudo, e dormiria o sono dos previdentes.
Nada disso, meus amigos! O magricela do marido aboletava-se na poltrona da sala, diante do televisor, para palitar os dentes e futucar a unha do dedão do pé, sem a menor pressa, aguardando a pobre esposa fazer chás e infusões, no intuito de aliviar o afrontamento de gases estomacais. O descarnado era possuidor de um rotorooter gastrointestinal, capaz de processar qualquer coisa.

Vejam vocês como a natureza é sábia: aparelhou o magrelo com todos os instrumentos internos em pleno funcionamento, para que ele se nutrisse competentemente, uma vez que os embates de lençóis e travesseiros, a varar a noite, requeriam toda a força do mundo!

25 de novembro de 2010

"PASSARIM"

frustou-se em mim a pretensão de um poema vasto
que abrigasse o engenho e a arte
do músico do meu país.
saiu-me apenas assim:

antonio carlos brasileiro de almeida jobim.

(Imagem colhida em bossa.net.)






23 de novembro de 2010

NA JANELA (após a missa de sétimo dia)

(Imagem em pt.dreamstime.com)
Das Dores pensava na vida, com os cotovelos fincados no parapeito da janela, do apartamento simples, no bairro de Moneró, na mesma Ilha do Governador onde Carlão descansava eternamente, já no início da consumição pelos vermes da terra. Olhava descuidada para o pouco movimento do dia e não percebeu que um ciclista a chamava da rua. Era o Hipólito da mercearia, onde tinha uma conta pendurada, sem solução há mais de mês. Carlão havia prometido pagar na semana em que apareceu com sua história de defunto sem aviso prévio. Hipólito precisou aumentar o tom da voz, para que ela saísse daquela espécie de transe.
- Das Dores, preciso falar com a senhora.
Então ela disse que desceria num segundo, era só esperar que desse um jeito no cabelo e calçasse uma sandália.
Hipólito esbanjava certa viuvez há alguns anos: a mulher lhe faltara antes mesmo de dar filhos e ele se concentrou no trabalho de tal forma, que não se interessou por mais ninguém até então, pelo menos que alguém percebesse.
Em pouco tempo ela estava diante do merceeiro, que notou também o leve batom recém-passado sobre os lábios. Das Dores tinha o rosto bonito, embora estivesse acima do peso ideal das mulheres, como as mulheres sempre acham. Mas o corpo se delineava em formas arredondadas definidas. Não era simplesmente um monte de gente desarrumada. Bem lá no fundo, ela sabia que tinha também seu encanto, mas isso agora não lhe passava pela cabeça. O trauma da morte não anunciada de Carlão ainda pulsava em seu corpo.
- Pois não, Hipólito. Acho que já sei o motivo de sua vinda até aqui. É a minha dívida, não é?
Hipólito achou por bem não desviar a conversa dessa rota, porque via nela um pé firme para a verdadeira finalidade de sua visita.
Desde que Das Dores ficara viúva, ou coisa que o valha, porque o desabono de ser a outra logo se espalhou pela vizinhança do condomínio, Hipólito começou a imaginar coisas, a tramar “no seu cérebro nervoso”, como no velho samba-canção, “uma maneira de magoar seu coração”. Porém magoar no sentido positivo, de dar uma encostada jeitosa, nos moldes de serenata do muito antigamente, como um dia se fez na Ilha. E cuidou que o coração da viúva estivesse desamparado, a necessitar de alguém que lhe minimizasse as possíveis carências a se anunciarem. Pode-se dizer que essas ideias já pipocavam em sua cabeça, bem antes de o finado embarcar desta para melhor. Sempre que Das Dores passava por sua mercearia, ficava imaginando possibilidades com ela, tendo por base as ausências alongadas do – vá lá que seja! – marido.
- Pois é, Das Dores, vim para ver se podemos conversar sobre sua dívida, porque não quero deixar de fornecer para você e os meninos, logo agora nesse momento de aflição. Imagino o que você esteja passando, depois de tudo o que aconteceu. Os irmãos de seus filhos já procuraram você para acertar as coisas?
- O pior é que não, Hipólito! Disseram que acertariam as pendências, como um deles mesmo me falou, na hora em que eu estava desatinada, lá no cemitério da Cacuia, mas não apareceu ninguém. O Carlão, que Deus tenha compaixão daquele miserável, não deixou nada assegurado. Morreu no desaviso e os meninos ficaram ao desamparo. Agora estou começando a fazer salgadinhos para fora, pegando encomenda. Aliás, se você puder me ajudar e colocar um cartazinho na mercearia oferecendo meus serviços, vou ficar agradecida.
Hipólito não só concordou em colocar o cartaz, como também estabeleceu um contrato de fornecimento de salgadinhos, que passaria a vender na mercearia, para acompanhar as cervejas e os traçados. Seria bom para os dois essa parceria, disse-lhe com entusiasmo contido, a fim de que não espantasse a viúva.
Assim, à medida que os dias decorriam entre frituras e assados, a relação entre os dois ia-se firmando, enraizando, e, quando a desavisada Das Dores deu por si, estava de caso com o merceeiro, com sua despensa sempre fornida de mantimentos, os meninos agora muito bem amparados – melhor até que nos tempos de Carlão. Comadre Carlinda, amiga de todas as horas e sua confidente, aprovou o caso, garantindo que o merceeiro era pessoa bem intencionada, cheio de amor para dar.
Não se passaram três meses da encomendação da alma do infeliz e já em sua cama aboletara-se o vendedor de comestíveis, com uma sem-cerimônia que deve ter deixado o espírito de Carlão rodopiando no éter, sem achar o rumo do paraíso ou da danação eterna, perdido entre as partículas magnéticas do Cinturão de Van Allen, parede-meia com o purgatório, mas bem perto também da porta das profundas, onde o coisa-ruim o estaria esperando.

Com a felicidade instalada em sua vida, Das Dores providenciou um jarrozinho de flores mimosas para o batente da janela, onde, um dia, olhando distraída a vida escorrer no asfalto da rua, viu seu futuro chegar pedalando uma bicicleta. E providenciou uma moita de espada-de-são-jorge na porta de entrada, em sinal de defesa do ambiente do lar, desde então. O espírito abusado de Carlão teria um contratempo à altura, caso se imiscuísse em seu novo caso amoroso.

21 de novembro de 2010

EM CÍRCULOS


José Pancetti, séc. XX, colhida em pr.gov.br.
cruzei meu barco por mares nunca de antes
por oceanos de borrascas tempestades
por brejos alagados mangues

cruzei fronteiras com meus exércitos de medos
varei países rompi muralhas fortalezas
com as incertezas que me compõem o ser

finquei raízes plantei sementes
arroteei o campo para o cultivo de outros sonhos
colhi as coisas de que preciso

voltei ao mesmo ponto de partida
e tonto desnorteado e lírico
continuo andando em círculos

19 de novembro de 2010

SENTIMENTO HÍDRICO

na minha terra não há lago não há lagoa
apenas valões e corgos
como o valão do coleto o valão do zé doença
o valão liberdade
o valão do lírio no alto da serra da capetinga
(que nunca vi) e outros mais
tudo água tímida e apressada

talvez por isso essa minha ânsia de água grande
esse meu sonho líquido de lagoa feia
de cima dos patos mirim mangueira araruama
que sempre me atraíram no mapa do brasil

por isso talvez essa admiração respeitosa
pela imensidão do mar do oceano
reflexo humano dessa ampla costa brasileira
águas tranquilas reiterativas sempre ali
comunicando-me o eterno o infinito
das coisas capazes de perpassarem o tempo
sem a angústia que nos deixa este momento

18 de novembro de 2010

POEMA SIMPLES

Não trava o gosto na boca

(A. Rodin, O beijo, séc. XIX.)
A fruta que não se prova
A boca que não se beija
O beijo que não se rouba

Não trisca o tato na pele
O corpo que não se toca
A língua que não se roça
Por sob os negros cabelos

Não ferve de fato o sangue
A dor que passa ao largo
A traição consentida
E um arremedo de vida

17 de novembro de 2010

NA COPA (após o velório)

Das Dores estava agora derreada sobre a cadeira barata, encostada à mesa barata, compradas a prestação, na copa-cozinha apertada, azulejada de um azul triste e desbotado, tomando café requentado e pensando na vida.
(Em khepra.blogs.sapo.pt)
Depois de todo o furdunço que aprontara no velório de Carlão, diante da viúva oficial, dos filhos oficiais, dos amigos oficiais, não tinha mais coragem de se olhar no espelho, de encarar seus próprios filhos. Os olhos, inchados de tanto chorar, não tinham mais lágrimas: eram de uma secura só. Os meninos já tinham ido deitar-se, tristonhos, e ela estava ali pensando em como resolver a vida, a partir de então, sem a presença inconstante de Carlão. Era um traste, mas tinha sua serventia. E pensava no que lhe dissera a comadre Carlinda, depois do enterro daquele arremedo de marido: “Pior só, do que mal acompanhada, comadre Das Dô”. Nunca passara necessidade, é verdade, embora tudo lhe fosse contado, pesado e medido. Os meninos vestiam-se singelamente, como ela, estudavam em escola pública e ganhavam presentes apenas no aniversário e no Natal, mas tudo coisa sem brilho, sem encanto.
Ela não queria sentir-se desamparada, não podia sentir-se desamparada, mas estava chegando à conclusão de que a sua vida e a dos filhos, dali por diante, seriam de privações. Como fazer para lhes dar alimento, roupas, um mínimo de lazer, como tudo de minguado que vinha de Carlão?
Às vezes, quando ele voltava das viagens constantes, ora na função de representante comercial, ora na visita a uma doente tia moradora de Varre-Sai, Guiricema, sabe-se lá onde – tudo uma mentirada só –, ainda lhe trazia um queijo curado, um quilo de linguiça apimentada do açougue do Salvador e um pacotinho de doce de leite Xamego Bom, escrito assim mesmo com erro de grafia, mas que as crianças comiam lambendo os beiços, como se diz. Quem, agora, teria essas simplórias atenções para com ela e Dudu, Dondinho e Didigo, jeito carinhoso como chamava os filhos, assim que abria a porta da sala, antes mesmo de tirar a roupa com que viajava, apresentando-lhes o pacotinho daquela delícia que se desmanchava na boca?
Sua vida com Carlão tinha sido tocada em marcha lenta e aos solavancos, como uma velha jardineira desorientada a percorrer estradas de chão do interior, por onde ele dizia que andava. Agora, jardineira quebrada à beira do mato, o mundo apresentava-lhe novos meandros escuros e lamacentos por onde caminhar, por onde conduzir a vida, rebocando a família destroçada, à procura de um tal futuro, propagado pelos meios de comunicação e nunca vislumbrado com nitidez por ela.
(Em angelofabluesky.blogspot.com)
Teria de tirar forças de um buraco no fundo do seu ser, que não sabia onde estava, nem tinha conhecimento de que existisse. Mas, deixa estar, nasceria dali uma nova Das Dores, completamente diferente, disposta a tudo, capaz pegar touro a unha, dar tapa em cara de vagabundo e não temer mais nada. Era a sua disposição. Pensando assim, começou a chorar, dobrou-se sobre a mesa pobre, que molhou com suas lágrimas, e adormeceu mansamente.
O dia seguinte estaria rugindo à sua porta, a pouco mais de seis horas, a exigir o cumprimento de todas as decisões. Ou a vida seria uma equação irresolúvel!

16 de novembro de 2010

ANTISSONETO

(G. Braque, Le portugais, 1911/12.)
este soneto natimorto
por não ter métrica
nem ter temática
não é soneto nem nada

porque soneto
que se pretenda a tanto
além da forma e do tema
tem que ter engenho e arte

mesmo que torto este soneto
é bem possível ver-lhe um metro
de medida incerta

que nada medirá por certo
porque fazer soneto após camões bocage
é chover no molhado é até sacanagem

15 de novembro de 2010

CORAÇÃO MODERNO

na confusão atônita em que me encontro
sem saber a direção do vento
ou a possível cotação da bolsa de valores
o pulsar rítmico do meu distraído coração espanta
em sua regularidade simplória das coisas passadas
ou da certeza de que no presente
nada há que possa ser que possa estar
e o que não é será e o que não foi já é
e o futuro mera repetição do ontem
e mais ou menos assim por diante

ainda bem que meu coração tem amortecedores independentes!

(Imagem colhida em aterraemarte.com)



13 de novembro de 2010

UMA LACUNA BÍBLICA

Não me sinto muito à vontade para falar sobre assuntos bíblicos, porque posso ser mal interpretado. Tudo isso porque, há alguns anos, bandeei para o agnosticismo não praticante e sem pretensões de fazer proselitismo de nenhuma espécie. Nem mesmo quero que gostem dos mesmos legumes que eu, quanto mais que comunguem (viram aí o verbo insidioso?) de minhas ideias, que, aliás, têm muito pouca cotação no mercado geral das ideologias, filosofias e quejandos.
Mas a Bíblia (estou escrevendo com letra maiúscula para não ser acusado de desrespeitoso) é cheia de histórias exemplares. Ou não seria ela o livro sagrado de bilhões de cristãos!
O chamado Velho Testamento contém livros comuns à Torá dos judeus. Vários sãos os seus autores humanos (não vou discutir aqui a questão da inspiração divina em sua criação): há poetas, como Salomão e Davi; há contadores, certamente, como o autor do livro dos Números, canonicamente atribuído a Moisés, como os demais que compõem o Pentateuco.
Mas queria tratar aqui de uma história emblemática contida no Velho Testamento: a de Esaú e Jacó, e o golpe que Jacó aplicou em Esaú, com a participação de sua mãe, Rebeca. Particularmente acho que este episódio parece ter sido urdido por advogado mal intencionado ou detetive particular, com curso tirado por correspondência. Vou tentar resumi-lo, para chegar à conclusão a que me proponho.
Esaú e Jacó eram gêmeos. Porém Esaú nasceu primeiro, o que lhe dava o direito de primogenitura, condição determinante para os direitos sucessórios na ocasião: o primogênito herdava tudo. Os demais filhos que se lascassem. No entanto, Jacó era o queridinho da mamãe Rebeca. Vivia mais chegado a ela, nas lides domésticas, ao passo que Esaú era caçador, cuidava dos rebanhos e das propriedades da família, isto é, pegava no batente. Esaú era peludo, tipo Toni Ramos. Jacó, por sua vez, era mais lisinho, mais parecido com o Reinado Joãoneguim. Esaú era o cara, mas Jacó tinha o apoio da mãe. Quando o pai dos dois, Isaac, estava chegando ao fim da vida e já cego, mandou chamar Esaú, para dar-lhe a bênção da primogenitura e com isso passar para ele todos os direitos de sua casa e, consequentemente, de seu povo, vez que ele era o patriarca dos hebreus. Mas Rebeca quis proteger seu queridinho e fez uma proposta: faria um belo prato de lentilhas, o predileto de Esaú, que em troca deixaria o irmão receber a bênção. Esaú caiu na tentação da gula. A fim de que o plano desse certo, Rebeca confeccionou um casaco de pele de ovelha para que, ao tocar no filho, Isaac pensasse que o peludo era de fato Esaú e não Jacó. Assim foi feito. E a história do povo hebreu foi mudada em função disso. Jacó tornou-se o seu quarto patriarca. Esaú, embora tenha feito as pazes com seu irmão posteriormente, passou à história como um bobo, um tonto. Quero, então, que prestem atenção ao fato: Esaú trocou seu direito de primogenitura e, por consequência, a liderança do seu povo por um prato de lentilhas!

Pois muito bem! Esta história está contida no livro do Gênesis, onde ocupa vinte e cinco capítulos (do 25:19 ao 50:13). Evidentemente que com muito mais detalhes e pormenores, pois vai do nascimento à morte de Jacó. Porém o que me deixa triste até hoje, decorridos mais de dois mil e quinhentos anos de sua provável redação, é que seu autor, desgraçadamente, miseravelmente, não teve o cuidado de registrar a receita de prato tão poderoso, capaz de alterar a história de um povo. Não há a mínima referência a temperos, pertences e demais ingredientes, tempo de cocção, acompanhamentos, harmonização com vinho ou cerveja – bebidas que já existiam à época. Quero apostar com todos que, fosse o autor um francês de boa cepa, ou mesmo um português de Trás-os-Montes, nada disso iria escapar. E hoje teríamos um prato da gastronomia com valor canônico e pouco ou quase nenhum valor calórico.
Enfim nem sempre se pode ter tudo que se quer. Ficaremos, assim, com essa lacuna gastronômica do Gênesis ao Apocalipse, isto é, per omnia saecula saeculorum.

12 de novembro de 2010

APONTAMENTOS DE VIAGEM (VIII)


(Em picasaweb.google.com)
 DESERTO DE ATACAMA

Pelo deserto plano de Atacama
Passeiam olhos e vagares lentos
Durante a cálida viagem
O sol e o céu se fazem cúmplices
Em sua imperturbável composição meteorológica
Cuja única finalidade
Além de enganar incautos com visões d’águas
É manter esturricados
Mil quilômetros de chão
Afora alguns oásis
A terra quente assegura sua inexistência aflita
Até à noite
Quando então esfria
E se nutre para um novo dia de aridez e de miragens
Dos sentimentos da gente que a habita


Obs.: Com este texto, encerro a série Apontamentos de viagem, em que traduzi minhas breves impressões da viagem empreendida pelo Cone Sul, em janeiro de 1975. Os textos, como disse no início, foram produzidos àquela altura e só agora tornados públicos.

11 de novembro de 2010

APONTAMENTOS DE VIAGEM (VII)


(Trem Cuzco-Arequipa, imagem colhida em skyscrapercity.com.)


TREM DE AREQUIPA

Não há paisagem à janela deste trem noturno
solitário passageiro do deserto.
No entanto um frio intenso me ilude
em ver no silvo vento
na areia neve.
E o que me resta de conforto e explicação perdida
para tamanha friagem que me invade
é o desamparo concreto desta vida.

10 de novembro de 2010

APONTAMENTOS DE VIAGEM (VI)



(Imagem colhida em wikipedia.org.)
  MACHU PICCHU

machu picchu
ver o pico
ver os cimos circundantes
natureza farta e bela nos caminhos dos andes
tal cidade cidadela meramente
sem histórias
com turistas
dói na vista dói no peito
nos ouvidos
o grito de cada pedra
contra o espanhol inimigo.

9 de novembro de 2010

NO VELÓRIO


(Imagem colhida em flikriver.com.)

Das Dores entrou esbaforida na capela mortuária do Cemitério da Cacuia, acompanhada da escadinha de filhos ainda não entrados na adolescência. Chegou ao lado do caixão, onde se destacava a cara estanhada do Carlão e aplicou-lhe alguns tabefes de mão aberta, de fazer barulho até na cantina ao lado.

- Então é isso, né, Carlão, que você me apronta? Diz que vai visitar uma tia muito doente em Varre-Sai, some e aparece morto, com essa cara gorda aí cercada de flores? Essa é mais uma das suas, Carlão? Agora, pelo menos, é a última, não é, Carlão?! Não vai mais me aprontar umas e outras, seu cafajeste, seu traste imprestável!

Ao ouvir os gritos de Das Dores, os outros três filhos rapazes do defunto, que tomavam cafezinho na cantina, correram para a capela, a fim de apurar o que estava acontecendo.

A viúva oficial, de papel passado e tudo, mãe dos três, sentada do outro lado do ataúde, debulhava um compungido terço, no intuito de recomendar a alma do marido defunto à corregedoria celeste. Porém desmaiou ao ver a cena.

Os parentes mais próximos se atiraram sobre Das Dores e a imobilizaram, com certa dificuldade, diga-se de passagem, dado o volume com que ela resfolegava sua pessoa no mundo dos vivos. Seus filhos, também três meninos, ficaram em estado de choque, ao ver a mãe aplicar tais bolachas nas bochechas do pai, canela espichada, esperando a hora de virar comida de minhocas.

Com a chegada dos filhos rapazes, a parentada tratou de rebocar aquela estranha criatura desvairada para fora, sem, contudo, conseguir calar de sua boca um enxame de frases gritadas.

- Carlão, seu canalha! E, agora, como é que eu fico com as crianças, seu cretino? Sempre me dizendo que ia ver uma coisa e outra, uma tia doente, um cliente nervoso! Tava sempre viajando e era isso, Carlão? Com outra família, cheia de filhos, a mulher viva, seu desgraçado! Me soltem que eu quero meter a mão naquela cara de tacho, naquele salafrário! Me enganou a vida toda! Me tirou de casa, eu ainda virgem, boba, cheia de sonhos! Falou que era um viúvo tresnoitado, sem filhos, cheio de amor pra dar! Até meu pai caiu na sua conversa, Carlão! A mulher tinha morrido atropelada por uma ambulância, igual à Iracema do samba! Cachorro! Tinha idade para ser meu pai e eu acreditei em você, seu sacripanta! Se não fosse comadre Carlinda, possa ser que eu nem chegasse aqui a tempo, seu monte de banha!

Quanto para mais distante levavam Das Dores, mais o tom de sua voz aumentava, para que todos ali a ouvissem. Os três meninos, desamparados e confusos, acompanhavam o reboque da mãe para longe de onde seu pai dormia provisoriamente. Até que um dos filhos da viúva tida e reconhecida por todos percebesse o estado de choque de seus irmãos, desconhecidos para ele até aquele instante. Chamou-os de lado e tentou acalmá-los. Coitados, eles os mais vulneráveis.

Os outros dois, mais os parentes, tentaram, então, acalmar a mulher. Pediram-lhe para parar com o escândalo, falasse baixo, eles a ouviriam. Sua mãe não tinha necessidade de passar por mais um dissabor na vida, e logo na hora do velório do marido. Eles, por sua vez, lhe disseram que também tinham passado por poucas e boas. Seu pai se ausentava com frequência: era uma velha tia doente em Guiricema, um cliente mal satisfeito numa cidade longe a requerer sua presença. Problemas e problemas que se iniciaram quando ainda eram pequenos e que continuaram até que ele fez a passagem. Fossem conversar, depois, civilizadamente, para resolver todas as pendências que, reconheciam, deveriam ser muitas. Das Dores, no entanto, parecia possuída. Estava endemoninhada. E foi só se descuidarem, para que voltasse correndo em direção à capela, onde entrou atropelando pessoas e coroas de flores, acabando por derrubar o caixão, o morto e os castiçais.

Com a queda do finado do alto da essa, escaparam-lhe da boca as dentaduras duplas que iria levar para o além. E lá ficaram elas rindo da situação, Das Dores estirada no chão, a baderna instalada naquilo que deveria ser compunção e recolhimento. Até que a estupefação da cena fosse quebrada pelos gritos desesperados dos filhos mais novos:

- Mamãe, mamãe! Deixa papai morrer em paz!

Nesse momento, o espírito malquisto do Carlão rodopiou no ambiente cheirando a vela apagada, vazou pelo basculante entreaberto e tratou de cair fora, antes que sua carcaça oca baixasse à terra fria e as encomendas protocolares soassem estéreis aos ouvidos do Criador. E deixou para trás o pandemônio que construiu em vida.

Carlão sempre aprontando das suas!

8 de novembro de 2010

APONTAMENTOS DE VIAGEM (V)


(Imagem colhida em alfredo-moreirinhas.blogspot.com)

TELHADOS DE CUZCO

os vetustos telhados de Cuzco vistos do alto
do tanque do velho hotel
sonolentos do tempo em que foram feudais
agora parecem tristes tortos e envergonhados
quando sob suas sombras
no quadrilátero da Plaza de Armas
marcham vergados sob o peso estúpido
de trecos troços bagulhos bugigangas cacarecos quinquilharias
os filhos do deus Sol
cuja única e simples culpa
foi e é a de terem sido vencidos.

7 de novembro de 2010

APONTAMENTOS DE VIAGEM (IV)


(Imagem colhida em arumabolivia.net.)
 i. DA JANELA DO HOTEL EM LA PAZ

O escancaro argênteo da lua
escandaloso
nos Andes é mais distante
e tenebroso
quando ilumina as três cumeeiras
do Illimani.


ii. P U N O

Puno finge-se à noite inacabada
tais os paus formando armações.
De dia sabe-se ao certo
que é uma feira espalhada a céu aberto.

APONTAMENTOS DE VIAGEM (III)


(Imagem por Willy Kenning, colhida em amnh.org.)
 ALTIPLANO ANDINO

Move-se a terra.
Deste outeiro percebo calmamente seu gingado
desenhado na sombra de casebres retorcidos.
Mais hoje mais amanhã
tomarei o bridão que a domina
e chicote em riste empunhado soberboso
mudarei o curso de seu destino:
haverá ela que ter parada para os frágeis
para os débeis e os deserdados
esquecidos neste altiplano andino.

6 de novembro de 2010

APONTAMENTOS DE VIAGEM (II)

CAMINHOS DOS ANDES

Cada caminho dos Andes conta uma história diferente
Aqui Tupac Amaru
Ali Manco Capac
Por toda parte sussurros de liberdade
Hoje tristeza miséria saudade
Resplandecem no rosto redondo de cada oriental traído.



(Imagem colhida em hermehunter.blogspot.com.)
 

5 de novembro de 2010

APONTAMENTOS DE VIAGEM

Inicio hoje a postagem de alguns poemas breves que fiz há alguns anos, a partir de uma viagem empreendida pelo hoje chamado Cone Sul. Embora tenha durado cerca de um mês, ela gerou, no entanto, impressões ligeiras que triscaram o emocional, mas que permanecem até hoje, sobretudo quando revejo os textos que aqui irão. 

Abaixo, os dois primeiros.

Espero que gostem!

APONTAMENTOS DE VIAGEM (I)

i. TREM PANTANEIRO

tanto trem de ferro pelo pântano
pelo pântano que se cruza pantanal
tanto trem
tanto vai tanto vem
tanta gente pouca gente
tanto gado pela terra amealhado
tanto sol tanto bem
fazendeiro tanto vai tanto vem
pelo pântano tanto mal tanto bem
pantanal.

ii. CORUMBÁ

Corumbá resfolega seu casco senhorial
à beira do Paraguai
que há muito aportou suas águas
na Cidade Branca
e de lá não sai
com medo de que o futuro
lhe pregue uma peça en guarani.

4 de novembro de 2010

HÁ AMORES PELAS RUAS


(Imagem colhida em ponteirosaoavesso.wordpress.com.)

há amores pelas ruas de chuva
indiferentes ao tráfego
à pressa dos motoristas
e à insistente troca do sinal.
os corações são caminhos esburacados
sempre em contramão
e alheios à luz verde
e ao apito do guarda
e estão sempre acima
de todos os postulados do código nacional de trânsito.

3 de novembro de 2010

O OMBRO SUSTÉM O MUNDO

o ombro sobre si tem o mundo
e mais o que dele exceda depois de tudo
depois de todos os prazeres
com o peso mais pesado
de todo imponderável

o ombro sustém o mundo
e não se cansa jamais
por proibido
apenas aderna de lado à marcha compassada
pois o fardo deve ser levado
este fardo que se repete
enfadonhamente
desde que o mundo é mundo

1 de novembro de 2010

PÕE VINTE NO GALO!

Põe vinte aí no galo. Cerca pelos sete lados, que esse bicho é arisco. Quero ver se ganho alguma coisa. Estou a neném e com algumas contas atrasadas. Pelo menos, a conta de luz eu pago. Se ficar sem luz lá em casa, Dona Encrenca encrenca de vez! Se ficar sem ver a novela, posso me considerar um homem morto. Defunto encomendado e garantido. Põe mais dez na cobra. É que eu tenho uma dentro de casa. A sogra mora comigo há uns dez anos, desde que seu Gervásio morreu. Homem bom tava ali! Era como um pai. Que Deus o tenha! Agora, ela... é uma canina! Só não me inferniza mais com a filha, porque já estou mais sujo que pau de galinheiro, que chão de curral. Sabe chão de curral? Pois é, cheio de bosta de vaca! Eu sou do interior e via isso lá. Na milhar, põe cincão. Cercada e invertida. Vem aí o dia das crianças, e o menino pediu um presente. Se não der, é outra confusão na minha vida. Aí serão a mulher, a sogra, que já é de praxe, e o filho. Já pensou? Meu menino até trocou de time, porque pegou birra comigo. Torcia pelo meu time. Só porque falhei com ele no aniversário, num ano desses aí, ele embirrou e disse que agora torce pelo Botafogo. É mole? Você, cruz-maltino, ter um filho botafoguense! Fiz tudo por aquele moleque, e ele me fez essa desfeita! Também vivo lembrando a ele o gol que o Dinamite fez em cima do Osmar. Lembra? Mas ele diz que não liga. Ele não era nascido. Aí fica me jogando na cara o campeonato de 97 em cima da gente, quando já era nascido – tinha só dois anos –, mas fez questão de se informar na internet só para me fazer raiva. Fica lembrando o gol do Dimba e a rebolada no final do jogo. Só vale a partir do seu nascimento, diz ele. Vou te contar: é só problema na vida! Trabalho no almoxarifado da empresa como uma besta, e é só pepino. O salário, às vezes, atrasa e as contas vão pras cucuias. Veja só: estou com o pendura do botequim também atrasado. Seu Manuel ainda vai ter de aguentar mais uns dias. Pior que eu fico sem poder passar até na calçada do bar. Não quero ser envergonhado com ele me cobrando na frente dos outros. Aí, quando receber, vou lá e pago, e invento uma desculpa: estava doente, coisa assim. Nem de beber, a gente tem direito. Vida de pobre é foda, cara! Por isso é que eu, às vezes, faço a minha fezinha no bicho. Quem sabe? Um dia eu ganho, acerto na milhar e ponho tudo nos eixos. Do jeito que está, é que não posso ficar. Põe mais dois, no grupo. Não é nada, mas pelo menos salvo o que apostei e aí as coisas vão ser adiadas por mais uns dias. Também quem me mandou nascer pobre. Pobre é foda, cara! Tem mais é que levar ferro! Não tem aquele ditado que diz que pobre e cachimbo nasceram pra levar fumo? Pois é! É isso mesmo! Minha mulher fica me mandando entrar pra igreja dela, pra eu dar um rumo na vida, que eu tou muito perdido... essas coisas. Como é que vou? Eu tou é durango, mesmo, cara! E o pastor ainda vai me cobrar dez por cento. Com esse dinheiro, eu jogo no bicho. Deus, se tiver compaixão de mim, há de ver a minha luta e me socorrer. O pastor, quando abriu a igreja, nem carro tinha. Andava de ônibus. Hoje, desfila com um carrão bonito, cheio de pneu e antena. Ainda teve a coragem de botar um plástico no vidro de trás: Propriedade do Senhor Jesus. Tem cada cara de pau! É o Senhor Jesus que paga o IPVA, que vai passar fim de semana no hotel fazenda, que bate o carro? Isso ela não vê. Mas, se eu falo assim em casa, arranjo mais confusão pro meu lado. Desculpe, companheiro, ninguém precisa ficar ouvindo minhas lamentações, mas é que chega uma hora em que, se a gente não desabafa, a cabeça explode. O bom é que sobrou ainda um dinheirinho, que vou ali no botequim tomar uma, senão ninguém aguenta.