27 de dezembro de 2013

TEREQUINHO


Quando Tereco morreu, numa manhã sombria de Miracema, o vizinho salvou um filhote de sanhaço que caíra do ninho pendurado em uma árvore do seu quintal. Amigo do finado, deu ao pássaro desventurado o nome de Terequinho, como forma de homenagem ao vizinho prestativo e solidário, que empreendia viagem para o desconhecido naquele mesmo dia. Pensou resignado: vai o amigo antigo, vem um novo amigo.
Criou-o com todo o desvelo que se pode atribuir a um bichinho de estimação, seja ele de pena ou de pelo, como é muito comum atualmente.  Terequinho se tornou um belo sanhaço macho, de canto reconhecido nas imediações da rua da Capivara. Era só abrir o bico que os vizinhos já sabiam: Terequinho entrara em ritmo de concerto. Seu canto fazia contraponto, até mesmo, às batidas metálicas da oficina mecânica do Tabaco, nos arredores.
Mas o Brasil é um país esquisito. Enquanto permite que políticos salafrários mantenham seus cargos e possam candidatar-se a novos, com o beneplácito de autoridades judiciárias, manda prender os amantes de pássaros que os mantêm em gaiolas, como se isso fosse um crime hediondo. Assim o IBAMA bateu à sua porta, querendo saber de Terequinho e seu canto.
Não adiantaram explicações. O dedo duro da lei confiscou o pobrezinho e o levou embora, a fim de soltá-lo na natureza vasta e materna, onde ele poderia viver em liberdade total, espalhando seu canto maravilhoso entre árvores e flores, sobre córregos e várzeas. O vizinho ainda se deu por satisfeito por não ter sido preso. É sempre assim: se você prende um passarinho na gaiola, a lei o solta e prende o ser humano. É realmente uma coisa muito esquisita!
Deu-se, então, que o cioso fiscal do IBAMA, no cumprimento estrito de sua função, dirigiu-se ao primeiro bosque que encontrou lá pelos lados de Venda das Flores, já na subida da serra. Chegando à borda do mato, desligou o motor do carro oficial, pegou a gaiola, abriu a portinhola e tirou com a mão o espantado Terequinho. O animalzinho, atônito, não compreendia o que seria da sua vida, a partir daquele momento. Como comeria? Como mataria sua sede? Onde encontraria as frutas e as sementes saborosas que, milagrosamente, apareciam no cochinho de madeira logo abaixo dos seus pés, todo santo dia? Em que poleiro dormiria? Que amigo lhe falaria, todas as manhãs, palavras macias e sonoras e faria carinho em sua cabecinha desmiolada?
Para espanto do fiscal, o sanhaço não levantou voo, por mais que ele o tentasse. Simplesmente o pássaro se recusava a privar-se do convívio com os humanos, especialmente do amigo que o salvara da morte certa.
Ao fiscal não restou opção, senão voltar a Miracema, para a mesma rua da Capivara, e devolver Terequinho ao seu amigo e companheiro, que o socorrera na hora mais difícil de sua penosa vida, quando se viu apartado da mãe e desabado do ninho, sem nenhuma perspectiva em sua pequenina existência de pássaro abandonado.
(Livremente inspirado em fato real ocorrido na primavera de 2010, em Miracema/RJ.)
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NOTA: A bela ilustração deste texto foi removida. Havia pedido autorização a seu autor, mas ele não me respondeu. Como fiz a citação como manda a ética, julguei que não seria incorreto, já que este blog não tem finalidade lucrativa. Infelizmente deparei com a foto suprimida. Resolvi, então, não usar outra. É a primeira vez que isso ocorre. Terei mais cautela nas próximas.

21 de dezembro de 2013

POESIA?

poesia é riso conformado ao ritmo ao galeio
do corpo (definido como espaço e movimento)
de alegria ou de dor
segundo a peça o ato a cena que se vive

poesia é fingimento despistado em fingimento
para iludir segundo seus princípios
os leigos os leitores
e mais alguns escassos parcos amigos

poesia é um grupo de palavras seus sentidos
faca cega de dois gumes a cortar no escuro
do universo o alheamento
que imaginam perdido em cada verso

poesia é consciência enfim desse momento
repleto vazio mais ou nada do humano
vagar sofrido pelo tempo
que nos é imposto e contra o qual lutamos

poesia é isso


Anoitecer em Icaraí (foto do autor).

16 de dezembro de 2013

AO FOGÃO

(Para minha mãe, pelo Natal.)

Algumas vezes me vem à memória a faina de minha mãe ao fogão, em certas ocasiões. Não sei por que isso me assalta de vez em quando. Não que me doa. Ao contrário, para mim que não estava na lida dura de mãe de uma casa pobre, tudo eram alegrias.

Certas vezes, chegava a época de torrar o café que seria consumido. Isso demandava a tarde inteira de trabalho, logo após o almoço. E não se fazia mais nada nesse dia.

O fogão era à lenha, encostado num dos cantos da cozinha, revestido de cimento vermelho por algum pigmento – talvez zarcão. Em sua traseira, ficava o forno, de onde subia uma chaminé feita de manilhas redondas de barro.

Por essa época, a única coisa em minha casa movida a energia elétrica era o rádio, além das lâmpadas, é claro. Não tínhamos, por pobre ou por ainda não existirem, nenhum dos aparelhos que, posteriormente, foram aparecendo no mercado para facilitar a vida das pessoas. Na verdade, em Carabuçu, pelos idos de cinquenta do século passado, até os anos sessenta, pouquíssimas famílias possuíam geladeira. Mesmo o liquidificador chegou um pouco depois, eu já entrando na adolescência. Quando a tevê brilhou nas casas das pessoas de maiores recursos, já estava um galalau, morando em Bom Jesus.

Por isso é que minha mãe, em sendo pobre, tinha de se desdobrar em produzir o café que se ia beber durante certo tempo. Meu pai comprava os grãos secos, e minha mãe os torrava toda uma tarde. Eu sempre ficava ali ao seu lado, sentado numa cadeira, olhando a trabalheira toda que ela tinha, no calor do fogão, em meio a alguma fumaça que a lenha fazia, e conversando. No final, estávamos – nós e a casa – um pouco defumados. Mas com o cheiro gostoso do café.

Meu pai fizera um suporte sobre o fogão em que a torradeira – uma lata de banha de vinte litros cortada ao meio e furada a prego, com alças de arame e um cabo de vassoura como mecanismo de movimento – era manipulada por mamãe, num vaivém sem parar, a fim de que não se queimassem os grãos. Vez ou outra, ela aspergia água sobre eles, durante a torra, momento em que a fumaça e o aroma subiam mais fortes na cozinha miúda.

Para que não ficasse com muito cheiro de café torrado, minha mãe cobria a cabeça com um pano. E era única vez em que a via assim.

Sempre fui um menino meio quieto, tranquilo, e gostava de conversar com minha mãe, que sabia de muita coisa do mundo ainda por descobrir para mim. Por vezes, nessas ocasiões, aparecia um de seus irmãos, principalmente Paulinho ou Cate, a lhe contar sobre o último filme que tinham visto no cinema em Bom Jesus ou sobre suas peripécias com as moças locais.

Outro momento de trabalho menos intenso, porém mais frequente, era a feitura de pés de moleque, que meu pai vendia na venda que se situava na parte da frente da casa. Muitas pessoas ficavam esperando a saída daquela delícia que minha mãe faz ainda hoje, com seus oitenta e sete anos, de forma incomparável, embora eu mesmo – maldito fantasma da diabetes – não me delicie mais com eles. Ela até briga comigo, dizendo que sou radical:

- Unzinho só não vai fazer mal!

Porém eu me privo desse prazer de que já desfrutei por décadas. Para que não me sinta muito frustrado, penso sempre: já comi muito! E vou levando a vida sem essa delícia.

Pois os pés de moleque saíam, se não me falha a memória, dia sim, dia não. E é interessante que tanto havia fregueses que deles gostavam ainda um tanto macios e quentinhos, quanto os que os preferiam dormidos de um dia para o outro. Eu comia qualquer um, porém o quentinho tinha a má fama de causar piriri em criança. Talvez esse argumento fosse uma maneira de impedir que eu e meus irmãos começássemos a devorá-los tão logo estivessem prontos.

À feitura do doce propriamente, antecedia o descasque das vagens, normalmente realizado na noite anterior com todos nós – pais e filhos – em torno de uma grande peneira, aos pés do rádio, ouvindo os programas que faziam a delícia daquelas noites singelas do interior: A Lira de Xopotó, PRK-30, Balança Mas Não Cai, Grande Teatro Tupi, alguma partida de futebol de que meu pai, eu e meu irmão Gute sempre gostamos.

No dia seguinte, mamãe torrava os grãos num tabuleiro ao forno ou mesmo na torradeira de café e, depois que eles esfriassem, tinham sua casca removida manualmente aos punhados, na concha das mãos em movimentos opostos. A seguir, sofriam maceração com uma garrafa, de modo a que uma parte ficasse quebrada. Nesse momento, aproveitávamos para comer alguns. Era a paga pela ajuda à tarefa.

Num tacho de cobre, que ela trazia sempre brilhando, a poder de sabão preto, areia e caldo de limão, derretia o açúcar mascavo, conhecido por nós como açúcar batido (Alguns até diziam no feminino: açúcar batida.), até que atingisse o ponto ideal, testado sempre numa cuia com água, sobre a qual derramava um pouco do caldo formado pelo fogo intenso, sempre alimentado por lascas de lenha. Chamávamos a esse produto puxa-puxa, parente chegado do pirulito, que devorávamos de imediato.

Obtido o ponto, minha mãe retirava o tacho do fogo e continuava a mexer, até o momento em que acrescentava os caroços de amendoim torrado e começava a tirar, com duas colheres, as porções que moldariam os doces sobre o tampo de madeira da mesa. Para que a mistura não enrijecesse, estava sempre mexendo. Assim que esfriassem um pouco mais, os doces podiam ser removidos da mesa com um simples toque dos dedos. E iam para o vidro redondo da venda de meu pai, já alguns fregueses prontos a comer os primeiros exemplares do dia.

Minha mãe nunca teve empregada. Sempre fez todo o trabalho da casa. Quando crescemos um pouco mais, ajudávamos em algumas outras tarefas. Ainda hoje, quase chegando aos noventa, consegue produzir maravilhas da cozinha trivial brasileira – nossa tão cultuada comida caseira –, embora dizendo que jamais tenha gostado de cozinhar, fazendo-o tão somente para alimentar a casa.

E, a despeito disso, teve tempo de criar, junto com meu pai, cinco filhos, que mandou à escola já alfabetizados, ler seus livros, escrever seus poemas, costurar camisas com maestria, cultivar suas amizades, conversar com as vizinhas nas noites frescas da vila e falar com Deus o tempo todo, pedindo por todos nós, como se garantisse a salvação de cada um com a mesma devoção com que se dedicou e se dedica à família em parceria com o fogão por tanto tempo, sem nenhum demérito. Aliás, muito ao contrário. E disso todos tiramos proveito!

Almeida Junior, Cozinha caipira, 1895 (Pinacoteca do Estado de São Paulo).


12 de dezembro de 2013

A CASA DORMIDA

A casa acorda com cheiro de dormido
E os sonhos de mofo irrealizáveis
Abro as janelas para o ar fresco entrar
Com seu hálito de eucalipto
Os sonhos como sempre
Escapam com o sopro suave da brisa da manhã
Pelas frestas dos basculantes laterais
E restam apenas meus olhos doloridos
Pela claridade do dia com os mesmos problemas normais
Que se repetem há décadas

Imagem em papeldeparede.etc.br.

10 de dezembro de 2013

CANÇÃO DO EX(F)ÍLIO

minha terra não tem palmeiras...
tinha cafezais
hoje tem bois
tinha cana-de-açúcar milho feijão arroz
hoje não tem mais
e se tem não aplaca o apetite dos que plantam
 
minha terra tem sabiá
além de anu caga-sebo rolinha tiziu quero-quero
peixe-frito coleiro bico-de-lacre vira-bosta
suas aves porém não gorjeiam
trinam piam chiam quando muito cantam
são simplórias as aves da minha terra
 
suas matas não têm matas
têm pastos têm capim têm grama
(levaram toda a madeira das matas da minha terra)
 
nosso céu – o céu lá dela
não tem mais estrelas que o céu do rio de janeiro
tem menos poluição
aliás não tem poluição
e muito menos iluminação
a não ser milhares de vagalumes
 
minha terra não tem várzea
tem vargem tem grota tem murundu tem barranco e morro
 
minha terra tem flores algumas poucas
capitão-do-mato girassol rosa lírio e
uma florinha roxa mimosa de quatro pétalas abertas
de nome esquecido e que dá como mato nos canteiros
das casas das pessoas distraídas
 
minha terra não tem bosques
tem capoeira tem macega tem touceira tem mato (ou tinha)
tem – isso sim – alguns quintais hortas e pomares
 
minha terra não tem seio nem ventre
tem peito e barriga como todo ser vivente
que na minha terra ama sofre e vive como toda gente
Foto do autor.

5 de dezembro de 2013

MELCHIOR

Melchior foi afrontado por um insulto cerebral que lhe deixou a banda esquerda do corpo estropiada. Ele nunca tivera cuidados com a saúde. Achava que, por ser filho do velho Epaminondas Nepomuceno, pegador de boi brabo pelo chifre, tivesse a saúde inoxidável. Inclusive se vangloriava de, aos oito anos de idade, ter-se despencado de um pau-d'alho de mais de cinco metros de altura, e ter apenas furado o fundo do calção numa ponta de galho. E se sentia imorrível.

O pai varou os noventa e tais e só deu com os costados na cerca por ter submergido no açude do Zé Ferraz, quando o cavalo escorregou no barro mole feito por uma chuva daquelas. O cavalo se salvou, porque nadou até a margem. O velho, para sua desgraça, afundou com os embornais de compra que trazia nos ombros. E apenas não virou comida de peixe, em virtude de o baio ter chegado à sede da fazenda sem o cavaleiro, o que deu tempo a que ele fosse pescado por rede de arrasto, apenas as pálpebras roídas de lambari.

Agora Melchior estava ali, aboletado numa cadeira de balanço, chinelão de couro no pé cascudo, a linguagem completamente atrapalhada, de parecer grego arcaico ou algum dialeto perdido do interior do Cazaquistão. Se pedia rapadura, traziam-lhe farinha. Se dizia calibrina, vinham com angu. E, quando urrava que queria mulher, serviam-lhe uma canjazinha de galinha magra, danada de insossa.

Imagem em imoveis.culturamix.com.

Ruminava o dia no alpendre da casa de altos e baixos - um jenipapeiro frondoso de sentinela logo adiante -, a olhar o pouco movimento da estradinha de terra, que serpenteava suavemente morro acima, em direção à Forquilha e à serra da Boa Esperança.

Quem passasse pela estrada, de regra montado no lombo de algum animal, lhe fazia um gesto e o chamava pelo nome, conhecido que era de toda gente:

- Melchior!

Na vastidão silenciosa daqueles ermos, era impossível deixar de ouvir. Ele levantava o braço que lhe sobrara bom e grunhia alguma coisa incompreensível. Talvez estivesse imprecando, lançando uma maldição sobre a saúde alheia. Talvez estivesse agradecendo à gentileza do cumprimento. Vai lá saber!

Tudo o que fizera na vida, assim nem tão longa, estava agora sob o comando de Carmosina, sua esposa legítima, mãe de seus cinco filhos, todos emigrados de Liberdade para correr mundo, pois consideravam que ali não era lugar para suas ambições.
 Carmosina teve de se vestir de homem para mandar em colonos e meeiros, resolver semeaduras e colheitas, vender e cobrar a produção da terra, discutir nas reuniões da cooperativa de laticínios. E, por fim mas não menos importante, escorraçar a família do Faustino da propriedade, a fim de se vingar da filha do empregado, amante do seu marido. E só não botou bigode, por ainda ter um lado feminino bastante forte. De resto, parecia um homem, na força e na determinação.

Os filhos, de vez em quando, apareciam, quase sempre com o pleito de um ajutório, motivo para desfolhar o talão de cheques ou vender alguma rês de urgência, o que rendia sempre menos do real valor de mercado.

Nessas oportunidades, Melchior ficava agitado, falava aquele monte de palavras incompreensíveis e ainda se aborrecia quando o ingrato lhe vinha fazer um gesto de carinho. A cada visita de filho, sentia que um pedaço do patrimônio virava fumaça, sumia no céu como a poeira fina da estrada ou as nuvens que passavam céleres, em ocasiões de vento virado.

Melchior passou um bom tempo nesse ramerrão de vida, sem se dar conta de como iam as coisas em torno de si, pois a mulher lhe evitava aborrecimentos e preocupações. Até que certo dia quente de verão, o sol tinindo sobre o cocuruto de gentes e bichos, ao tentar responder ao cumprimento do compadre Antônio Quinto, que passava garboso em sua mula na direção da vila, foi novamente afrontado por um segundo derrame, mais peçonhento e daninho que o primeiro, que lhe fez a cabeça tombar para trás e a alma voar de passarinho, alpendre afora, como nunca acontecido em terras do Jacó.

Quando Carmosina chegou com um copo de água fresquinha, para apaziguar um pouco o calor, encontrou o marido defunto, já mais do que imprestável para qualquer coisa. Gritou por Juventino, ajudante da família que morava numa das tulhas ao lado do terreirão de café, para vir correndo, pois o patrão partira desta para melhor.


O enterro de Melchior no cemitério da vila teve acompanhamento até dos alunos do grupo escolar, do qual sempre fora benfeitor. Do fundo do préstito, com um véu negro sobre a cabeça, a filha do Faustino trazia pela mão o filho que Melchior não conheceu, mas que, segundo as fofoqueiras contumazes, parecia mais com o falecido do que seus filhos reconhecidos em cartório, atestados por certidão: mais um bem deixado pelo marido a fazer parte da disputa pela herança.

2 de dezembro de 2013

ESTRELAS

Estrelas
Nuvens nelas
Pra não vê-las
Para vê-las
Como velas
Como meros vaga-lumes
Se desvela ao meu olhar
Um chão/céu de estrelas

Vincent Van Gogh, Noite estrelada, 1889 (em pt.wikipedia.org).

28 de novembro de 2013

POEMA DE NOVA FRIBURGO

(Para Eduardo Campos e Rogério Barbosa)


Um dia ainda subo a serra
E ponho meu boi na sombra
Das árvores frondosas da Praça Getúlio Vargas.
Almoçarei todos os dias na Dona Mariquinha
- Exceto às segundas-feiras –
Embalado a tragos de Nega Fulô.
E quando a natureza se enfurecer
Precipitando casas e barrancos morro abaixo
Em meio a um borbotão de água barrenta
Irei cantar com um alaúde
No Cemitério Luterano
As incelenças por nossos mortos
E baterei à porta das autoridades
Para saber das verbas desviadas.
Irei com frequência a São Pedro e Lumiar
Olhar o luar parado sobre as montanhas
E com os amigos de sempre
Tomar vinho se o frio apertar.
Comprarei lingerie para a mulher que me ama
E pijama que me aqueça.
Direi versos de Osmar Barbosa
Em frente à Academia de Letras.
Comerei brioches fresquinhos da padaria
Da Praça Marcílio Dias
Sem preocupação (Sans Souci?) com a diabetes.
E para sempre enfeitarei a vida
Com as flores bonitas de Conselheiro Paulino.

Não me contenta ser a cidade apenas passagem
E não o destino dos sonhos que me assaltam
Ou dos caminhos vadios que mal percorro.

Flores de Nova Friburgo (foto do autor).

20 de novembro de 2013

HISTÓRIAS REAIS, MAS QUASE MENTIROSAS*



“1 O 2 SACO DE CAL”

Zezé Borges, figura das mais importantes na história de Bom Jesus do Itabapoana, tanto na política, quanto na econômica, tinha uma sortida venda, naquele tempo em que não havia crediário formal e as compras eram feitas por caderneta, que o devedor sempre levava a cada ida ao estabelecimento.

Certo dia, recebe ele um bilhete em mal traçadas linhas de um fazendeiro das terras de São José do Calçado, vizinha cidade do meu amigo Zé Antonio Lahud, em que solicitava o envio de certa mercadoria. O bilhete garatujado dizia, objetivamente, o seguinte:  “Amigo Zezé, mande 1 o 2 saco de cal. Do amigo Fulano”.

Zezé achou exagerado o pedido de cento e dois sacos de cal, mas imaginou que o amigo resolvera caiar toda a cerca da fazenda, não só para protegê-la, bem como para deixá-la bonita e vistosa. Como não tivesse tanto saco de cal, apenas cinquenta, providenciou a remessa do seu estoque, acompanhado de outro bilhete: “Amigo Fulano, seguem 50 sacos. Depois mando o resto. Do amigo Zezé”.

Quando lá chegou a encomenda, o fazendeiro estranhou muito e não aceitou a entrega, pois não fora nada daquilo que pedira. Resolveu aproveitar a carona do caminhão de entrega que voltava, para esclarecer com o próprio Zezé o mal-entendido.

Chegando a Bom Jesus, foi logo falando ao comerciante:

- Que isso, Zezé?! Ficou maluco?! Mandar aquela montoeira de cal, que eu nem pedi?!

Zezé pegou o bilhete e lhe mostrou, dizendo:

- Ora, você me pediu para mandar cento e dois sacos de cal.

- Não é nada disso, Zezé. Tá escrito aí: Zezé, mande um “o” dois saco de sal.

- Mas aqui você escreveu cal.


- É que eu esqueci a cedilha!
Imagem em pt.dreamstime.com.

O PORCO DO QUINIM

Quinim Freire, também proprietário rural, só que em Bom Jesus do Itabapoana, era um homem alegre, divertido, cheio de histórias um  tanto absurdas. Os ouvintes atentos de seus casos diziam que ele era um grande mentiroso, desse tipo folclórico do interior, que passa bom tempo da vida matutando patranhas para dizer aos outros.

Lá um dia, Quinim Freire contava que estava criando uns porcos de raça, coisa muito avantajada, que chegavam a um tamanho nunca visto por aquelas bandas. Era raça vinda das estranjas, como dizia. Gavou tanto a qualidade dos porcos que disse que um deles já tinha chegado a dezenove palmos de comprimento. Os ouvintes da história não acreditaram, sabendo quem ele era. Porém, muito convicto, garantiu que era verdade, que o porco tinha crescido muito, e começou a mostrar no balcão do bar do Salim, onde eles se reuniam para a prosa e o cafezinho, contando compassadamente os palmos de sua mão imensa, homem alto que era.

- Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito...

Aí parou para olhar o ponto de partida da contagem, já um pouco desconfiado ele mesmo, sabendo que não estava nem na metade do tamanho que garantira. Então, saiu-se com uma exclamação, para não deixar dúvidas:

- Eh, porco grande, sô! Nove, dez, onze...


O TELEGRAMA

O glorioso time do Liberdade Esporte Clube, na década de 50 do século passado, foi excursionar lá para os lados da Zona da Mata de Minas Gerais, lugar longe, só demandado em viagem de caminhão de várias horas por estradas ruins. Era viagem de três dias: num vai; noutro joga; no terceiro volta. Por isso o presidente do clube alvianil, orgulho da vila, solicitou ao chefe da delegação que, imediatamente após a contenda, passasse telegrama dando conta do score do match entre os dois teams, como se escrevia na época, as palavras ainda não aportuguesadas.

No final daquela noite de um domingo chuvoso, o presidente recebe o telegrama, vazado nos seguintes termos: “CHEGUEMO, JOGUEMO, NUM GANHEMO, NEM PERDEMO. EMPATEMO. ASSINEMO, NICODEMO.”

Tudo dentro da mais perfeita comunicação que se poderia esperar do chefe da ínclita delegação.


“PANARÁ OU PURITIBA”

Certo dia, adentrou a venda de meu pai um velho freguês, homem simples das roças que rodeavam a vila, querendo comprar uma caixa de fósforo. Minha mãe, no momento, era quem estava atendendo ao balcão.

- Dona Zezé, quero uma ca’ de fósso - que era como, mais ou menos, as pessoas simples falavam.

Quando minha mãe foi pegar a caixa de fósforo, o freguês manifestou uma curiosidade antiga:

- Dona Zezé, ondé que é a fábrica desse fósso? Ouvi dizê que é no Panará.

Minha mãe, então, foi olhar no rótulo e lhe disse:

- É isso mesmo. Aqui está: fábrica em Curitiba.

Então ele replicou imediatamente:

- Ah! bão, então é em Puritiba e não no Panará.


(* Ou seria o contrário?)



17 de novembro de 2013

FIQUE ATENTO

Fique atento ao mar
Aos seus sinais
À mudança da cor das águas
Às nuvens negras que se vão formando no horizonte. 
Fique atento ao vento
Que sopra daquele sinistro lado
E vem trazendo notícias de pesadelos.
Fique atento ao temporal
Que brota de repente nos contrafortes dos montes
E traz consigo dor e pranto.
Fique atento ao tempo
Que escorre sem barreiras no calendário
E passa sobre nós como um torpedo
Como um vagalhão
Como um trem de carga desgovernado
E aí
Não haverá mais jeito.

The Black Flight - Asger Jorn
Asger Jorn, The black flight, 1955 (em wikipaintings.org).
 

13 de novembro de 2013

CACHAÇAS E SEUS SABORES

(Para o amigo lusitano Alfredo Moreirinhas, que anda tomando aguardente industrializada lá na Terrinha e achando bom.)
Vim do interior, onde aprendi a apreciar cachaça, apesar de toda a carga social negativa sobre ela. Mas conhecia pessoas que a tomavam e não se degradavam socialmente. Meu tio Aurélio, por exemplo.
Ele foi um dos meus mais queridos tios. Casado com a tia Toninha, irmã da minha mãe, era proprietário rural em Carabuçu e não passava sem sua cachacinha às refeições. Fora disso, nunca o vi beber. Nem cerveja.
Quando éramos pequenos - eu e seus dois filhos: Délbio e Zé Luiz -, ele nos permitia tomar pequeninos goles, em canequinhas de ágate, também ao almoço, para abrir o apetite. Hoje talvez isso fosse politicamente incorreto, imprudente, inapropriado. Ao entrarmos na adolescência, ele não o fez mais, com receio de que pudéssemos virar pinguços.
Passei, então, alguns bons anos sem colocar um só tiquinho de cachaça na boca, até que atingi a maioridade.
Sempre gostei da bichinha, que tomo com prazer e temperança, saboreando o gosto forte que ela deixa na boca. Meu paladar é afeito a sabores marcantes.
Aprendi, por exemplo, que cachaça boa não precisa queimar a garganta. Não desce escalavrando a traqueia. Não adormece as papilas gustativas; antes, as atiça, de modo a que se desfrute do tira-gosto apropriado logo a seguir. Acho imprudente tomar qualquer bebida alcoólica, sem algo a acompanhá-la, ainda que seja água mineral.
E já bebi cachaças maravilhosas por essa vida afora.
Uma delas atendia justamente pelo nome de Maravilhosa e me foi oferecida por meu ex-aluno Pascotto, de Miracema. Seu pai, proprietário da Fazenda Maravilha, era produtor de cachaça, e ele me presenteou com uma que fora embarrilada no ano de seu nascimento, havia vinte e poucos anos. Era propriamente um néctar de cana. Infelizmente, não é mais produzida.
Outra, descoberta ao acaso durante almoço comemorativo do aniversário da professora da minha filha, era tão boa, que não estranhei o preço de cada dose medida em dedal de costureira que tomei: à época, isso faz uns oito/dez anos, foi  R$13,90. É a cachaça Montanhesa Premium, produzida em Araguari, no Triângulo Mineiro.
Meu amigo gringo Kenneth trouxe do Rio Grande do Sul a 30 Luas, envelhecida por trinta meses em barril de carvalho. Cachaça soberba, desce macio, arredondada, sem esporear a garganta, como se esperaria de uma pinga gauchesca.
Nessa trilha do sul, encontrei outra gaúcha, de Santo Antônio da Patrulha, na Cachaçaria Tonel e Pinga, em Niterói: Moenda Nobre. Apresentada em bela garrafa de 500ml, essa cachaça também passa por barris e tem sabor marcante.
Ainda desta cachaçaria, adquiri a Menina do Rio Ouro, produzida em Sapucaia-RJ. Na cor âmbar, translúcida como só, ao primeiro gole, tive um insight: é bonita e cheirosa como a Camila Pitanga, uma verdadeira menina do Rio. Embora nunca tenha cheirado essa belíssima atriz, com a imaginação, é possível deduzir isso.
Outra, paulista de Bananal, é – ou foi – a Santa Inês. Soube que, por questões mercadológicas, teve de trocar seu nome, conquanto ainda possa ser encontrada em pesquisa na Internet. Da mesma região, em Cunha, trouxe em belíssima garrafa de cerâmica a Empório Renzi, acompanhada de certificado de procedência. Mas sem garantia do conteúdo, que foi detonado durante uma feijoada oferecida aos amigos.
Há coisa de trinta dias, apareceu o amigo bissexto Cássio, num domingo de manhã. Conversa vai, conversa vem, antes que eu lhe oferecesse um cafezinho – eram dez horas –, ele perguntou se eu tinha uma boa cachaça. Aqui em casa é o que não falta. Abri as garrafas da Volúpia e da Bocaina, que havia trazido de Minas, e ficamos na segunda, originária de Lavras-MG, por várias doses homeopáticas, com o papo rolando solto. A Volúpia, também uma excelente bebida, produzida em Alagoa Grande-PB, fica para outro dia.
Em Tiradentes, há alguns anos, durante o Festival de Cultura e Gastronomia, conheci a Vale Verde, de Betim-MG, também extraordinária, que foi eleita pela revista Playboy como a melhor cachaça do Brasil. Comprei lá duas garrafas, uma das quais presenteei à minha irmã Cristina.
Agora foi a vez de ela me retribuir o mimo e, por ocasião de nossa volta àquela cidade mineira, associou-se à nossa sobrinha Fernanda para me dar a Vitorina, que ainda não experimentei, mas já vem com a melhor das recomendações: a dona da Cachaçaria Confidências Mineiras confessou-lhe que é a de que mais gosta. Como a Volúpia, está com os dias contados. Vem aí a festa de Thanksgiving do meu amigo gringo e acabo levando uma delas para lá. Thanksgiving climatizado nos trópicos!

A bela garrafa da 30 Luas (em costibebidas.com.br).

11 de novembro de 2013

ETZINHOS

Há um pequeno óvni prateado sobre a soleira da porta dos fundos.
O sol esturrica tudo. Até os meus miolos. O sangue corre em minhas veias com estrépito de corredeiras. Meu olhar dardeja.
Ainda há pouco, por entre as flores baças do jardim, vi diabinhos encarnados a fofar a terra com seus tridentes coruscantes. Eles me pareceram óbvios demais para infernizar qualquer coisa.
Um pouco depois, os etzinhos iridescentes, descidos da minúscula espaçonave tremeluzente, caçavam os diabinhos verdolengos, com suas armas de raios gama.
Fico sentado à varanda, tomando litros d'água e assistindo à cena, protegido por óculos escuros, até que a ressaca passe.
Aí os etzinhos esplendecentes entram no pequenino disco voador dourado, levando reféns cerca de treze diabinhos púrpuras, que servirão de escravos em seu planeta minguante.
O restinho dos eflúvios do álcool no meu sangue ainda traça a língua flamejante expelida pelo motor iônico da pequenina nave espacial alvinitente, que desaparece por entre as nuvens escuras do meu cérebro conturbado.
Por essa hora, já pelas cinco da tarde, o sol laranja quase morto, durmo profundamente sobre a espreguiçadeira de cana-da-índia, aliviado da combinação estapafúrdia de cachaça com vinho tinto da madrugada anterior.

Quando acordar, espero ver apenas as cores fundamentais do espectro solar.

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