24 de fevereiro de 2014

DESALINHO


Sinto-me em desalinho
Mesmo estando sozinho refratário
Desalinhado das coisas que correm em paralelo a mim
Aqui uma recordação frouxa da infância
Ali um amor perdido no vento
Acolá uma desesperança feita realidade no presente
Outras vezes o desalento a saudade empedernida
E a impertinência comum a tudo o que ocorre na vida

É um desalinho tosco
Ou mesmo um certo empeno
Desses que até a madeira nobre apresenta
A qualquer tempo
Eu
Que sou tão simples tão pequeno
Embora pretenda a grandeza dos heróis eternos
Também mantenho meu desalinho com frequência
Que é para não perder a esperança
De algo bem promissor que me aconteça
Uma coisa bem simples que pareça
Uma deslumbrante forma de viver

Árvore ao anoitecer na Bicuda (foto do autor).

20 de fevereiro de 2014

POR QUE NÃO SOU MAIS VOLUNTÁRIO A NADA

Decidi não me oferecer nunca mais, em tempo algum, para voluntário de qualquer coisa, por mais simples que seja, desde o final do ano de 1965. Posso explicar por que e todos me darão razão.
Era o encerramento do serviço militar no Tiro de Guerra nº 1. O subtenente Silva, diretor do TG1 e instrutor da tropa, formada por cerca de cinquenta jovens das mais variadas origens, solicitou voluntários para ajudarem na seleção dos novos recrutas, tarefa a ser executada por um grupo do comando da Capital, ao qual aquela unidade era hierarquicamente subordinada.
No entusiasmo pelo fim do serviço militar, já com meus dezenove anos completados em novembro, ofereci-me com mais uns cinco ou seis colegas de corporação. Fiquei na expectativa de repetir um serviço que fazia com frequência: datilografar as fichas dos conscritos. Modéstia à parte, eu era exímio datilógrafo, função essa praticamente extinta na vida moderna, mas cujas habilidades foram muito bem exportadas para a tal da digitação que presentemente se faz nos computadores.
No dia marcado, chega o grupo da Capital para proceder à seleção dos novos soldados. Apresentamo-nos os voluntários para as tarefas.
Era dezembro, fazia um calor terrível, e o grupo de candidatos se apresentou nas dependências do antigo departamento de transportes da prefeitura municipal, que tinha um grande pátio e um pequeno espaço coberto composto por dois cômodos, um deles, com cerca de nove metros quadrados, telhado baixo, sem janela, portanto sem ventilação.
Os conscritos eram chamados em grupos de dez e recebiam ordem para tirar toda a roupa no cômodo fechado, aguardando assim chamada para o exame de saúde na sala contígua. Tal exame, feito apenas de olho pelo oficial médico, consistia também em se colher o peso, a altura, as medidas do tórax e das coxas dos rapazes. As fichas eram feitas por um cabo, que viera com o grupo. O oficial médico ainda mandava que cada um deles colocasse o dorso da mão sobre a boca e soprasse com força, sem deixar o ar escapar. Descobri depois que era um meio de se verificar se o candidato  portava  alguma hérnia nas partes inferiores, ou como se dizia lá: se era rendido.
Eram mais de cem candidatos que, em grupo, entravam no cubículo, já transformado em uma estufa, tiravam a roupa e aguardavam a chamada para o exame.
Imaginem para quem sobrou a função de pesar e medir os candidatos? Adivinharam: eu, a besta aqui que se meteu a bonzinho e quis colaborar, no entusiasmo do serviço à pátria e coisa e tal!
O bodum que exalava do cubículo, combinado com a tarefa de pesar e medir aqueles homens pelados, cada um com um cheiro diferente, me produziu tal repugnância – nunca mais experimentada na minha vida –, que, no intervalo para o almoço, não tive estômago para comer. Minha mãe achou aquela inapetência muito grave, pois, nessa época, eu era um garfo firme, de fazer frente a trabalhador braçal diante de um prato de comida. Carne, então, só consegui comer depois de mais de uma semana, após sair de minha memória olfativa aquele odor insuportável de corpos suados e com a higiene vencida. Afora, o espetáculo dantesco de bundas, sacos, pintos e pentelhos, no varejo e no atacado. Vade retro! Cruz-credo!
Bem feito, quem me mandou ficar todo oferecido, que nem mulher dama? A partir de então, tomei a decisão, definitiva e irrevogável, de não me oferecer jamais, em tempo algum, sob nenhuma hipótese, como voluntário para absolutamente nada. Quem quiser que vá, menos eu! Tenho ou não tenho razão?

Leonardo Da Vinci, O homem vitruviano (em em pt.wikipedia.org).


15 de fevereiro de 2014

VIDA LADEIRA ABAIXO

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos em 8/4/2010).

Vem vindo a vida
Ladeira abaixo
Rolando solta
Por entre os seixos
Depositados
Por enxurradas
Que derrubaram
Muitos barrancos
Que soterraram
Vários barracos
Vem vindo a vida
Ladeira abaixo

Vai indo a vida
Na enxurrada
Por entre a lama
Desenfreada
Paredes tortas
Sonhos zerados
Filhos perdidos
Pais desgraçados
Sem que se possa
Salvar mais nada
Vai indo a vida
Na enxurrada

Sobraram choros
Lágrimas fartas
Que não se bastam
Por tantas faltas
Restamos nós
Todos marcados
Pra todo o sempre
Com a dor que mata
Intermitente
Porque dos olhos
Sobraram choros
Lágrimas fartas
 
Kandinsky, Unbroken line, 1923 (em invisiblebooks.com).

11 de fevereiro de 2014

POESIA NUMA HORA DESSAS?!

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos em 3/11/2011.)
O título desta postagem remete ao Pasquim, jornal de humor que pontificou na imprensa alternativa brasileira, sobretudo durante o período da ditadura militar.
De quando em vez, apareciam poemas em suas páginas: às vezes de tom humorístico, às vezes de tom lírico ou político. Sempre, no entanto, eles eram apresentados sob o título que encima este texto, como que a indagar como seria possível pensar em poesia sob o estado de coisas em que vivíamos.
Dizem alguns que a poesia é necessária; outros, contudo, torcem o nariz para este tipo de manifestação artística, sob a ótica de que "poesia é coisa de romântico sonhador", visão que nem sempre corresponde à realidade.
É bem verdade que, tão logo nos apaixonamos pela primeira vez, somos levados a cometer alguns versos para o objeto de nossa paixão, na tentativa, frequentemente canhestra, de conquistá-lo. E daí vem a visão equivocada que dela se tem. Ou, também, pela prevalência na divulgação de poemas com esta característica a que comumente assistimos.
Outros dizem que, mesmo não sendo necessária, a poesia torna o mundo mais bonito, mais interessante, porque, via de regra, traduz de forma artística - como várias outras artes - um olhar sobre a realidade ou sobre os sonhos, os anseios e os sofrimentos humanos.
Todos nós que passamos pelos bancos escolares tivemos - ou temos - contato com a poesia e, de uma ou outra forma, ela nos toca, nos sensibiliza, nos emociona, nos entretém.
É preciso, porém, que se diga, de modo racional, que a poesia é uma forma de expressão humana semelhante a outras que não trabalham na linha técnica ou científica. Assim são também, por exemplo, a música, o cinema, a escultura, a pintura, a dança, a arquitetura, a literatura em geral.
Enquanto uns têm habilidade em trabalhar a forma, fazendo imagens tridimensionais, esculpindo, moldando, outros têm a palavra como matéria prima de sua expressão. E nenhuma dessas manifestações se sobrepõe às outras em valor ou em importância.
Conheço pessoas, até amigas, que já me disseram claramente que não gostam de poesia. E isto não me escandaliza. Sei de pessoas ainda que não gostam de música, o que realmente me parece bastante estranho. Todavia cada um gosta do que gosta.
Mesmo eu, que gosto de poesia e cometo as minhas próprias, tenho certas preferências. Por exemplo: não gosto de poesias com excesso de metáforas; não gosto de poesias que primem pelo inusitado da forma, de um jeito artificial, ainda que ache o Concretismo muito interessante.
O poeta não precisa ficar inventando figuras, tentando mostrar criatividade inusitada. Já vi poeta que até em entrevista fala como poeta, cheio de nó pelas costas. Não vou dizer seu nome aqui, para não ser crucificado na próxima esquina, pois sei que ele é cheio de fãs. Porém acho isto pedante, presunçoso, pernóstico, pretensioso, sei lá. Parece que ele quer mostrar aos outros que é o maior: olha como eu sou criativo. A simplicidade também constrói coisas belas.
E também não precisamos ser só líricos, ou políticos, ou satíricos, ou dramáticos, ou trágicos. E a poesia que se faz não precisa necessariamente refletir a pessoa física que a produz. Quando se assiste a um espetáculo de dança, em nada se pensa na pessoalidade de seu autor. Não se trata obrigatoriamente da vida dele, do que sente, do que sofre, do que sonha. O espetáculo precisa valer por si, como, aliás, qualquer obra de arte: ela deve ter seu valor intrínseco, não importa a extensão que tenha.
Podem-se até observar características pessoais na expressão da forma de arte, mas isto não significa que a pessoa, em toda sua complexidade psíquica, esteja ali representada.
Da poesia somos sempre levados a pensar isto, talvez porque seja a arte mais próxima do criador. É aquela que, se oral, é produto direto do corpo, através da voz; se escrita, está muito próxima do autor, porque sua matéria é a palavra, produto da mente, nascida diretamente do seu interior.
E a Poesia, agora com letra maiúscula, construiu, ao longo dos séculos, belos exemplares, que resistem tanto ou mais que monumentos e edificações que o gênio humano colocou sobre a face do planeta. E seus autores estão para sempre entre os seres mais ilustres que conhecemos. Cito apenas alguns: Homero, Dante, Camões, Baudelaire, Chaucer, Lorca, Pessoa, Borges e o nosso Carlos Drummond de Andrade, cuja data de nascimento se comemorou há pouco.
E, para não me alongar demais em defesa da poesia, transcrevo deste último um poema singelo:
MEMÓRIA*
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
(*in Reunião - 10 livros de poesia, p. 168. Rio de Janeiro, José Olympio, 1971.)
Pablo Picasso, A leitura, 1934 (nathaliearmindo.blogspot.com).


8 de fevereiro de 2014

SOBRE A PONTE, AO PÔR DO SOL

Dia desses, saí para fotografar o pôr do sol e me dirigi para o promontório onde está o Museu de Arte Contemporânea de Niterói – MAC. Como o sol ainda estivesse um pouco alto, senti que seria possível caminhar um pouco mais, até chegar à avenida litorânea em frente ao novo campus da UFF, no Gragoatá. Resolvi, então, conferir o visual de sobre a ponte que liga o continente à Ilha da Boa Viagem, a qual já percorri exatas três vezes de cabo a rabo. Nesse dia, não cheguei ao fim.

Lá já estavam alguns tipos humanos. Um homem da minha idade, mais ou menos, que parecia procurar um bom sinal de celular, que ele dedilhava. Logo a seguir, estava outro homem um tanto mais jovem, de roupa social – calça, camisa de manga comprida, sapatos pretos –, debruçado sobre o guarda-corpo, olhando em direção ao MAC, com uma expressão grave. Imaginei que estivesse pensando em se matar, mas verifiquei que a altura da ponte não seria suficiente para tal, e também porque, lá embaixo, havia a areia fofa, que na maré vazante fica à mostra e permite chegar à ilha por terra. Do lado oposto, estava uma bela jovem morena, com seus fones de ouvido, a captar imagens do pôr do sol. Porém um pouco antes dela, um homem mais jovem, gordo, alto, enrolava uma linha num carretel. Distraidamente lhe perguntei se seria possível pescar dali, ao que me respondeu que estava soltando pipa. Ele me chamou a atenção para um grupo que fazia fotos à beirinha da água: uma bela jovem de biquíni fazia poses para três fotógrafos. Parecia coisa de profissionais. Sugeriu-me, então, que desse um foco sorrateiro na moça, que, daquela posição, parecia ter um bumbum muito bem feito. Segui adiante, sem o atender, para fazer minhas fotos. No final da ponte, havia um grupo de amigos que conversavam.

Ao voltar, percebi que o homem que me parecia um possível suicida já estava de conversa com uma moça pouco mais nova do que ele, também vestida socialmente. A cabeça dá suas voltas para imaginar que os dois, provavelmente amantes, marcaram encontro sobre a pontezinha da ilha, lugar inusitado, onde ninguém que os conhecesse pudesse vê-los. Não sei o que falavam, pois não tenho ouvidos para isso. Mas o contraste entre a visão inicial – homem sério, olhando o nada – e a cena de agora – homem conversando com mulher que acabara de chegar – me levou a fantasiar o encontro de amantes, não para o sexo, mas para ajustarem os ponteiros, como se dizia outrora. Deveria haver algum ruído na relação, que precisava ser contornado. Ou, quem sabe, ele, descoberta a pulada de cerca pela esposa, teve de, a contragosto, dar um fim nesse seu caso e pensou que naquele panorama a dor da moça seria um pouco menor. E também que ela não teria as condições ideais para se atirar, desesperada, ponte abaixo, porque isso não a levaria a nenhum lugar além daqui. No máximo, ao hospital.

O pôr do sol talvez seja momento menos ingrato para esse tipo de conversa. De manhã cedo, seria muito imprudente, já que a pessoa acorda com o espírito totalmente desarmado e pode ter uma reação inesperada, de consequências imprevisíveis. Ao meio dia, atrapalha-se o almoço, ou a digestão dele. À noite, certamente, ele já deveria estar em casa, comendo com o prato na mão, diante da tevê, acompanhando os derradeiros capítulos da novela, ao lado da esposa com cara de não-me-toques. Assim, avisada por ele do encontro irrevogável àquela hora da tarde, seu espírito teve o expediente interior para se preparara para o pior.

Não testemunhei o desfecho do caso, mesmo que sem palavras – me habituei a ver alguns filmes mudos e aprendi a entender cenas sem palavras –, porque o pôr do sol estava cada vez mais interessante um pouco mais à frente, já diante dos novos prédios da UFF. Mas imagino que a moça não deve ter sentido muito. Afinal a natureza – continuo a imaginar – lhe deu um presente maior do que aquele homem, que não parecia ter nenhum charme especial (Também isso é imaginação minha!).

Pôr do sol na Baía da Guanabara, a partir da ponte da Ilha da Boa Viagem (foto do autor).


5 de fevereiro de 2014

ACORDEI CEDO!

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 13/11/2012.)

Sempre que um aposentado folgado e preguiçoso como eu acorda cedo é porque a providência divina tem um plano especial para o recalcitrante. Nunca há de ser à toa!
Não é para caminhar e colocar as taxas salientes em dia, nem para sair a pescar peixe que não caiba numa foto de celular.
Porém algo deve acontecer para justificar o sacrifício.
Explico-lhes, pacientes leitores.
Tendo, portanto, acordado antes do combinado, para não sei que providências que não poderiam ser adiadas, vi na tevê da casa de minha sogra, que está ligada à tal antena paranoica, um canal da Globo que jamais vi (Em Niterói não tenho acesso a ele.), que transmitia o programa Estúdio I, apresentado por uma bela mulher morena, Maria não sei das quantas, que apresentava um jovem músico capixaba, de nome Silva.
Segundo a reportagem, Silva está lançando seu cd Claridão, gravado em casa. E mostrou três ou quatro músicas de sua lavra que estão no disco.
Vou-lhes dizer algo desassombrado: o garoto – deve ter vinte e poucos anos – é um fenômeno, é magistral, é talentosíssimo. Ele e outro menino, ainda com cara de bebê e tocador de cavaquinho, ukelele, bateria eletrônica e outras percussões, mostraram que nem tudo está perdido na música popular brasileira. Nem tudo se resume a esta porcariada que a tevê aberta e as rádios tentam impingir à população, a poder de muito jabá. Nem tudo é Thiaguinho e esse sambanejo de baixa extração. Nem tudo é tecnobrega, sertanejo universitário com diploma de analfabeto e forró da mesma laia.
Salve Silva, o capixaba que vem mostrar que há inteligência na MPB.
Só vi isto e já estou achando que o mundo não mais acaba no dia 12/12/2012 ou 21/12/2012, sei lá! Os maias vão ter de esperar um pouco mais!
Se não tivesse acordado cedo, não teria conhecido o garoto Silva e sua música maravilhosa.
A providência divina tem cada uma: me incomodar na manhã de segunda-feira!
Veja aqui o clipe de uma das músicas que ele apresentou ao vivo no programa: A visita.

3 de fevereiro de 2014

NÃO ME QUEIRA MAL

Não me queira mal
Não se atormente
Eu sou assim mesmo sem pressa sem resistência
Às longas caminhadas
Eu posso ser seu companheiro
Pelas estradas cheias de obstáculos
Mas sem muita vontade de vencê-los

Não me entenda mal
Não me condene
Eu sou apenas um ser humano não perene
Disposto a viver muito
Sem sobressaltos
Sem construir castelos que degelem
Ou de areia fofa sobre o asfalto

Por isso vou vivendo assim
Desta maneira
Parecendo um bicho adormecido
Acuado por ser obrigado
A enfrentar o que vê pelo caminho

Apenas quero um ninho confortável
Um colo tépido a adormecer minha cabeça
Sem dores sem choros sem pesares
Eu não nasci para desbravador de mares
Nem tenho lança de herói
Nem arma de cowboy dos filmes
Apenas um coração tão distraído e tímido


Théodore Géricault, A balsa Medusa, 1819 (em pt.wikipedia.org).