29 de março de 2014

SONETOS PARA OS NETOS (II)

(Para Gabriela, Bruno e Francisco, mais uma vez.)

Vivo pensando em fazer sonetos para os netos
Mas tenho medo das curvas do primeiro quarteto
Pois se não caio por próprios deméritos
Não escaparia do fecho do último terceto
Todo verso quebrado é um estranhamento
Que não cabe bem em um soneto
Que se pretenda um poema certo
Por isso acho que não vale a pena
Cometer sonetos de somenos
Enquanto há tantos outros versos
Espalhados por inúmeros poemas (ainda que toscos)
Que podem dar sentido
Ao sentimento de incerto avô discreto
Entretido apenas em amar seus netos

Bruno, Gabi e Francisco, em visita ao Museu Janete Costa de Arte Popular de Niterói (foto do avô-coruja).

26 de março de 2014

CARRO DE BOIS


Um dia ainda vou tocar bois na estrada. Certamente atrelados a um carro, eu com o garruchão nas mãos, candiando os bichos. Mas terei cuidado em não espicaçá-los com o aguilhão, para não feri-los, apenas batendo com a vara na canga a que vão atrelados, chamando-os com intimidade pelo nome de batismo:
- Vem, Corisco! Vem, Jeitoso!
E o barulhinho das argolas presas à ponteira da vara a tilintarem, hipnotizando os animais que seguirão dóceis, puxando o carro carregado de milho recém-colhido, levado à máquina do seu Lulu, para virar o fubá nosso de cada dia. Ou – o carro sem a mesa – arrastando toras presas ao cocão, as quais deixam um sulco no chão de terra como um rastro. Ou, quem sabe ainda, transportando a mudança pobre do colono que troca de patrão e precisa rebocar seus trecos para a nova casa de sopapo à beira do valão Liberdade, aí o carro com a mesa, os fueiros e a esteira que protege as coisas miúdas de caírem pelo caminho. Ou, ainda mais, o carro abarrotado de cana de açúcar a ser descarregada no engenho do seu Pequetito, na Fazenda do Jacó, onde se transformará em melado, rapadura e açúcar batido.
Tenho essas imagens ainda perdidas no escaninho da memória a voltarem, vez em quando, à soleira do meu dia a dia em molde de saudade caipira. Eu fui um menino feliz do interior.
Claro que nunca candiarei bois. Nem nesta, nem em outra possível encarnação, quando eles ainda não estarão libertos desse duro trabalho e continuarão a se prestar a comida dos seres humanos e de mais alguns outros colegas carnívoros, hospedados em zoológicos confortáveis através do planeta.
Mas a imagem do carro de bois sempre retorna. Sou até capaz de ouvir o som dolente do eixo azeitado, a preencher os espaços vazios nos céus da minha terra natal. Lá longe vem o carreiro chamando os bois, em meio a este canto mecânico, quase narcótico, num movimento andante ininterrupto, tal moto perpétuo. Quanto mais pesado o carro, mais o canto se fazia lamentoso, dando, por vezes, às pessoas a sensação de um sofrimento profundo, sem origem ou motivação, apenas talvez lembrando a todos nós a dor de estar no mundo. E os bois seguiam plácidos, ruminantemente conformados, puxando o peso das nossas e das suas vidas estrada afora.
E cada carreiro procurava tirar o som mais bonito do seu carro. Isto era motivo de orgulho profissional. É provável até que, entre eles, houvesse uma disputa tácita, não declarada, uma espécie de guerra fria, para se produzir o canto mais melódico. Por vezes, como em dueto, carros passavam cantando, cada um, seu canto de modulação particular, pelas estradas perdidas da minha vila.
Por isso é que, ao me assaltar esta saudade, me vem certa tristeza em saber que meus netos nunca terão impressas tais memórias. Como, aliás, provavelmente seus próprios pais não as tenham, embora frequentassem o interior em suas férias escolares da infância.
Infelizmente esta é uma experiência que não se passa aos seus, não se transfere por herança ou doação em vida. Fica ela restrita àquilo que temos de mais escondido dentro da gente, sem que possa ser compartilhada, como está tão em moda nestes tempos virtuais.
Ainda agora estou ouvindo o grito do carreiro se destacar do canto triste do carro de bois, a chamar seus ajudantes na lida da vida:
- Vem, Jeitoso! Vem, Corisco!

Josinaldo, Carro de bois (imagem em artmajeur.com).


(Em homenagem aos antigos carreiros de Carabuçu, sobretudo a seu Bastião Carreiro, pai do meu amigo Didi, ele também carreiro na infância.)

22 de março de 2014

DISCURSO DO PREGUIÇOSO

Eu vivo numa leseira
Ando bem depauperado
Carrego um peso nas costas
Por isso ando curvado
Nos pés parece haver chumbo
De tamanho exagerado

Quando eu vejo uma cama
Rede balanço ou esteira
É o único momento
Em que ando de carreira
Me atiro pra riba deles
Caio de qualquer maneira

E caio bem satisfeito
Seja de banda de lado
Seja de pança pra cima
Seja de modo emborcado
Caindo de qualquer jeito
Já caio bem confortado

A cama é meu destino
Na rede fico tranquilo
Então se for num balanço
Tiro sonecas de quilo
Em esteiras de embira
De sono preencho um silo

E assim vou produzindo
Como qualquer brasileiro
Planto com lua minguante
Colho o ano inteiro
A preguiça me aduba
Sou um grande prazenteiro

Vendo bocejos fresquinhos
Preguiça de hora em hora
Cochilos bem temperados
Para senhor e senhora
E também moça bonita
Não posso deixar de fora

Tenho visto muita gente
Trabalhando até demais
Procurando o que fazer
Para faturar o gás
O pão o leite e o arroz
Querosene e água rás

O Chico trabalha muito
O Zé então nem se fala
O Tonho vive ferrado
De tanto carregar mala
Façam o que eles quiserem
Que isso não me abala

Porque tenho por princípio
Nunca me apoquentar
Se a comida está bem quente
Calmo espero esfriar
Se o peixe não sai da água
Lá é que não vou buscar

Se o angu tá fumegando
Aguardo desfumegar
Se há muito rebuliço
Espero tudo amainar
Quanto mais a gente mexe
É mais fácil a gente errar

Por isso é que erro pouco
Porque quase nada faço
Pior é quem atrapalha
E causa sempre embaraço
Fazendo tudo o que quer
Esse vexame não passo

E no dia em que eu morrer
Prometo me atrasar
No tempo mais dilatado
Que eu puder dilatar
Talvez faça até gazeta
Na hora de me enterrar.

Bicho-preguiça (imagem em entretenimento.r7.com).

18 de março de 2014

FUI AMIGO DE UM DZI CROQUETTE



Estivemos no último sábado em Miracema, para o sepultamento do nosso amigo Rogério de Poly. Rogério foi, dito assim simplesmente, um dos mais destacados Dzi Croquettes, a trupe de bailarinos-atores que nos idos de 70 subverteu a cena carioca de teatro, com um espetáculo inusitado, inventivo, irreverente, provocativo, transgressor e, por que não dizer, tendo em vista a época, subversivo. E Rogério se destacava do grupo visualmente por seu porte de corpo e seu rosto bonitos, seus longos cabelos.

Depois que os Dzi Croquettes ganharam o público brasileiro, eles foram aventurar-se na Europa, sobretudo na França, onde Rogério acabou ficando como vários deles, inclusive seu irmão Reginaldo, também membro do elenco.

Conheci Rogério por ocasião de uma das apresentações do grupo no Rio de Janeiro, no início dos 70. Minha mulher já era amiga dos irmãos em Miracema, onde nasceram. Depois do espetáculo, saímos para comemorar o reencontro e o sucesso estrondoso que faziam, a despeito de todo o cuidado e da obliteração da censura da ditadura militar.

Passaram-se os anos até que Jane e eu fomos pela primeira vez a Paris. Lá fomos recebidos por Rogério que, morador da cidade há duas décadas, nos serviu como um anfitrião luxuoso, nos levando a conhecer a cidade como os seus habitantes a conhecem, além de alguns pontos de interesse que tínhamos solicitado a ele. Lembro-me, por exemplo, que nos disse que não voltaria pela enésima vez ao Louvre, porque, se encontrasse a Mona Lisa novamente, daria uns tapas na cara dela, de tão cheio da Gioconda. Rimos muito.

Embora já adaptado à cidade, onde chegou sem dizer uma só palavra da língua de Robespierre, confessou-nos que tinha horror à comida francesa cheia de manteiga e creme de leite. E nos levou para almoçar num restaurante japonês próximo à igreja de São Pedro e São Paulo, no Marais, bairro em que havia morado. Fomos também conhecer seu antigo endereço, na Rue des Rosiers, em cuja caixinha de correios ainda estava anotado seu nome. No périplo por esse tradicional bairro de Paris, conhecemos a loja de chás Mariage Frères de propriedade de um amigo dele, onde compramos alguns chás, a bela catedral Batista e uma loja de roupas para gays de outro amigo. Aliás, o Marais era tido como o bairro gay de Paris.

Noutro dia, indo em direção à igreja da Medalha Milagrosa – pedido de Jane a ele – atravessou a rua na faixa de pedestre tão logo chegamos à calçada. Jane e eu ficamos aguardando um carro que vinha a uns cinquenta metros, ao que ele disse:

- Podem atravessar: motorista francês não é louco de atropelar vocês sobre a faixa.

Jane, esperta e desconfiada, moradora de Niterói, lhe disse:

- E se for um brasileiro que alugou o carro a dirigir?

E foi outra sessão de risos. Era melhor prevenir.

Noutro dia, fomos até o cemitério de Montparnasse, onde está sepultado seu irmão Reginaldo, assassinado brutalmente na capital francesa. Jane queria ver o túmulo do seu amigo de infância. Rogério, já conhecido do porteiro do cemitério, repetiu o ritual em honra de seu irmão: limpou o túmulo; varreu no entorno; levou flores, joias, fotos; levou o gravador com músicas de que ele gostava e, ao final dos cuidados, fez uma prece para o irmão. O túmulo do Reginaldo fica próximo ao de Baudelaire, talvez não sem alguma motivação: ambos em suas épocas chocaram a sociedade com uma postura transgressora.

Um pouco antes de voltarmos ao Brasil, ele nos ofereceu um jantar frio – não havia fogão no pequeno espaço onde morava – cheio de paladares, acompanhado por vinho branco nacional. Armou a mesa na pequena sacada e nos sentamos para comer. O ar da noite estava suave, o papo corria descontraído e alegre. Daí a pouco, percebi, de fundo, o barulho de água corrente e trilos de pássaros. Perguntei de onde vinha tal barulho, e ele me mostrou no portal, atrás de mim, um pequeno gravador dependurado, que reproduzia os sons dos ribeirões e dos pássaros de Miracema, que ele gravara em uma de suas idas à cidade natal, a fim de que matasse um pouco da saudade e reforçasse suas raízes.

- Ainda volto para lá, compro um sítio e vou viver tranquilo.


Rogério e Jane, durante o jantar na casa dele.

Jane e eu durante o jantar (foto feita pelo Rogério).

Uma das confissões que me fez, supondo que não o conhecesse tão bem quanto a Jane, foi característica de sua personalidade:

- Saint-Clair, sou como um velho elepê: às vezes sou lado A, às vezes sou lado B. Dependendo da fase, gosto de meninos e de meninas.

No ano seguinte, meu filho Pedro e eu fomos ver a Copa do Mundo da França e, mais uma vez, encontramos Rogério, para quem levávamos encomendas. Ele estava no afã de decorar um barco no Rio Sena, que serviria de bar e restaurante durante o evento, com espetáculos musicais e de dança de que participaria.

Numa das vezes em que veio a Miracema pelas festas de fim de ano, contou-me que tinha trazido uma garrafa de armagnac e nos convidou para um trago. Disse-lhe que gostava muito da bebida, e ele, com seu costumeiro sorriso debochado, me disse:

- Você sabe apreciar as coisas boas!

Anos depois, após ter sofrido um atropelamento por um ônibus urbano enquanto pedalava pelas ruas parisienses, Rogério foi trazido por seu irmão mais novo, Ronaldo, para Miracema, a fim de que tivesse os cuidados necessários de sua família. Sua fase de glamour e transgressões havia passado, e aquele belo homem andrógino, que agradava tanto a homens quanto a mulheres, tinha perdido seu brilho, em função da saúde abalada por alguns maus físicos e psíquicos. Sempre que íamos a Miracema, continuamos a encontrá-lo, a levar para ele lembranças em forma de guloseimas diet, de que tanto gostava. Não tanto pelo paladar, mas, sobretudo, gostava da atenção que a Jane lhe dedicava.

Sábado último, às seis horas da manhã, depois de uma semana internado, nosso amigo Rogério de Poly, bailarino, ator, professor de dança, miracemense e transgressor assumido, faleceu como acontece a qualquer ser humano. Mas deixa gravada na história das artes cênicas do Brasil um papel que dificilmente será apagado, não importa o tempo que o calendário debulhar, nem o sussurro dolorido das águas dos ribeirões de sua terra natal.

Descanse em paz, Rogério!

Jane e Rogério na Igreja da Medalha Milagrosa, em Paris, em 1997.

11 de março de 2014

A SENHORA É QUE É A VIÚVA DO TRAJANO?


Trajano tinha o reprovável hábito de, todos os dias, religiosamente, após o trabalho, ir para o botequim tomar umas e outras com os amigos, antes de se dirigir para o sacrossanto recesso do lar. Não havia dia em que Trajano não aparecesse para umas cervejas, entrecortadas por um destilado qualquer, apoiadas por uma sequência gordurosa de tira-gostos que se mostravam na estufa já gasta pelos anos.

A conversa corria solta, entre gargalhadas e algumas ideias graves sobre a situação do país e a escalação do time para a próxima partida do campeonato brasileiro de futebol.

Depois de algum tempo chegava a casa, tomava um banho, comia a janta requentada pela “dona encrenca”, como se referia à esposa, quando estava na roda de amigos de libações alcoólicas, e ia para a cama dormir o sono dos justos.

Naquele dia, no entanto, esse segundo ato de sua tragicomédia não ocorreu. No meio de uma gargalhada portentosa, motivada por piada indecente que o amigo Donato contava, foi fulminado por um mal súbito, coisa talvez de coração descuidado. Tombou para trás na cadeira e espalhou o horror ente as mesas do botequim. O táxi do ponto em frente, chamado ao serviço, apenas levou o cadáver encharcado de cerveja e steinhaeger à emergência do hospital municipal.

Os amigos que bebiam com Trajano nomearam Donato como o anjo anunciador do desenlace à viúva. Donato ainda tentou desvencilhar-se da incumbência, mas não teve escolha: fora sua piada a causadora da morte do amigo.

Sem conhecer a mulher do colega de botequim, dirigiu-se ao endereço com a nefasta missão.

Chegou, tocou a campainha e foi atendido por uma mulher sacudida, cheia de curvas, ainda jeitosa nos seus pertences, bonita mesmo, como constatou.

- A senhora é que é a viúva do Trajano? – perguntou com a sutileza do elefante da piada infame.

- Infelizmente, não! – disse-lhe a mulher.

E, antes que ele se desse conta de ter batido em endereço errado, ela completou:

- Aquele traste não morre nem com reza forte. Aquilo tem uma saúde de ferro. Deve estar lá no botequim enchendo a cara e jogando conversa fora.

Donato sentiu naquele momento que aquela era a mulher da sua vida desregrada. Queria ter um freio e aquela viúva se apresentava à sua frente, falando horrores do Trajano, com a segurança das mulheres decidas. Justificou-se, então, com ela, dizendo-lhe que tinha notícia funesta, que seria melhor entrarem porque era da parte do Trajano, seu amigo de muitos anos. A mulher sentiu nas palavras de Donato gravidade de enterro e cravo-de-defunto. Convidou-o a entrar em casa, onde ele lhe explicou todo o ocorrido, desde a piada indecente até a apoplexia final do Trajano, virando-se de costas na cadeira e estatelando-se no chão sujo do boteco.

Descaradamente, Donato reprovou todas as atitudes de Trajano para com a mulher, manifestou o desejo de apoiá-la naquela hora difícil e arranjou um jeito definitivo de se instalar em sua vida e sua cama para o resto dos dias. E não quis mais saber de botequim, com suas cervejas e steinhaeger, de conversas fiadas sobre times de futebol e iniciativas governamentais, que poderiam varar a noite, sem que isso lhe trouxesse qualquer coisa melhor que o cheiro gostoso de um corpo feminino.

Ninguém mandou o Trajano abotoar o paletó!

Imagem em viajeaqui.abril.com.br.


7 de março de 2014

NÃO SE ACEITA DEVOLUÇÃO DE MERCADORIA COM DEFEITO

Perci começou a ciscar fora do casamento, sem que ninguém em casa se desse conta.

A história havia começado há alguns meses com uma antiga aluna das aulas de educação física, uma morena de porte esbelto, longos cabelos encaracolados, olhos de ressaca que lembravam Capitu.

Foi uma coisa assim mais ou menos irresistível. Ele já entrado em anos, como se dizia; ela, na flor da idade.

Procurou, de todas as formas, dissimular as escapadelas para se encontrar com a morena. Mulher e filhas nem poderiam suspeitar que Perci andasse pulando a cerca matrimonial.

Mas, como dizia o estadista norte-americano, não se consegue enganar todos por muito tempo e a traição acabou na boca do povinho miúdo das fofocas e dos disse-me-disse. Daí para o ouvido de Anja, a esposa, foi um lance de escada.

Em casa, o tempo virou, com raios e trovões, Perci não conseguindo mais esconder nada, porque os detalhes falavam por si. Encostado à parede pela mulher e as filhas, chorou, arrependeu-se e prometeu emendar-se, tomar tenência, dedicar-se mais à família. A mulher até lembrou-lhe a falta de religião, que naturalmente contribuíra para aquele passo em falso. Ameaçou, inclusive, ir ter dois dedos de prosa com a zinha, para botar tudo em pratos limpos, coisa que Perci descartou de pronto, tomasse juízo a Anja e não fosse se rebaixar, arriscando-se a um confronto, que ele não queria ver nem no final dos tempos. As filhas aconselharam a mãe a não tomar tal atitude, para não armar barraco, que talvez fosse mais vantajoso para a zinha do que para ela, uma mulher de respeito, mãe de família, etc. e tal. Anja acatou a ponderação das filhas, mas exigiu nova postura do marido daí em diante.

Perci, envergonhado por ser pego com a boca na botija, passou a chegar mais cedo a casa, a jantar com a família, agora mais que unida. Ponderou com a mulher que a falta de religião pudesse, realmente, ser a falta de freio de sua vida e disse que estava procurando um caminho, lendo umas coisas, assuntando informações.

Duas semanas depois, a família reunida em volta da mesa, Perci comunicou que, pesadas e medidas todas as pesquisas, se decidira por entrar para o espiritismo de caxambu e terreiro, porque se sentia atraído pela força dos ancestrais africanos que presidiam a vida dos seus devotos. A mulher, por ser cristã, estranhou muito a escolha, tentou argumentar, mas acabou concordando, pois vislumbrava nessa nova postura uma regra de conduta. Toda religião, pensava ela, tem por base primeira uma ética de conduta da vida do crente.

Perci começou a frequentar o terreiro às sextas-feiras, passou a usar guias e roupas brancas em determinadas situações. Falou mesmo com a mulher que estava pensando em fazer cabeça na Bahia, num terreiro afamado, que exigia cerca de quinze dias de reclusão.

Ana, a princípio, se opôs a isso, julgando ser precipitada a decisão do marido. Ele, no entanto, explicou-lhe que era exigência do santo de cabeça. Foi, então, para a Bahia de todos os santos, onde ficou por cerca de vinte dias. Notícias só ao chegar e ao sair. No interregno, estava em obrigação no roncó, incomunicável com gente externa.

A dedicação de Perci, assim que voltou da cerimônia, passou a ser quase monástica, com perdão da má palavra no caso. Até que um dia comunicou à família que deveria permanecer no terreiro da tarde de sexta-feira até o meio-dia do sábado, pois se tornara ajudante da mãe de santo, a velha ialorixá Incisse, sua guia espiritual desde a chegada ao centro.

Foi levando a vida assim, a mulher e as filhas conformadas com a orientação religiosa do pai, a cada dia mais devotado às obrigações.

Numa dessas sextas-feiras, aconteceu de Perci ter um desconforto físico e ser levado às pressas para o hospital São Vicente de Paulo. Era um infarto do miocárdio de grau mediano, que o fez permanecer na UTI por uns dias.

A família, imediatamente avisada do problema, correu ao hospital. Lá foi informada da gravidade da situação, dos procedimentos adotados e das providências a se tomarem. Foi dito à esposa que ele fora levado ao hospital por um taxista, e lá deixado para atendimento. Anja procurou, então, nos pertences do marido que o hospital lhe entregara o telefone da mãe de santo, para saber detalhes do que ocorrera, se a incorporação o fizera beber muita pinga e coisas que tal. Para sua surpresa, a mãe de santo outra não era senão a tal morena de olhos de Capitu, a mesma zinha com quem ele tivera o caso, nunca jamais encerrado em tempo algum, e com a qual fora, inclusive, passar uma temporada na Costa do Sauípe. E o terreiro a exigir sua presença era o corpo morno dela.

Sem alarde, sem escândalos, chamou as filhas e comunicou tudo o que descobrira. Decidida, procurou advogado, que providenciou a petição de divórcio, com todas as formalidades legais atendidas.

No hospital, informou-se com os médicos a data da alta e, à saída do farsante, ainda no saguão de entrada, estendeu-lhe a petição para que também a assinasse, a zinha ao lado dele, já que estavam todas as cartas postas na mesa. Ainda atordoado pela pancada recebida, assinou a papelada, sem tempo de pedir perdão, sem tempo de se explicar novamente.

Uma das filhas, com a mágoa que só as filhas podem ter de um pai traidor, virou-se para a zinha e lhe disse com todos os efes e erres:

- Cuide bem do meu pai, mas não aceitamos devolução.

Carolus Duran, O convalescente, Museu D'Orsay (em ilgiornaledellarte.com)


1 de março de 2014

CARNAVAL NO ESCURO


Senti que minha bengala havia tocado numa pessoa e pedi desculpas. Mas não adiantou. Uma voz de moça na flor da idade, como dizíamos nos meus bons tempos, soou ríspida:

- Você não se enxerga, não, seu velho?

Pelo toque da bengala, senti que era uma moça bem fornida em carnes. Devo ter tocado seu bumbum malhado – deu para sentir. Pela voz, também pude formar, no meu cérebro, uma figura bonita, como há muito deixei de ver. Era uma voz resoluta, firme, mas com timbre de menina ainda mal saída da puberdade.

- De fato, não me enxergo, senhorita: sou cego. Queira me perdoar. -  disse-lhe com o jeito mais macio possível, a fim de que ela não se exasperasse ainda mais.

Era carnaval e, por consequência, aqui na cidade, muitas coisas são permitidas, sem que provoquem reações violentas. Eu apenas queria atravessar a Avenida por onde – ouvia – desfilavam blocos de sujo, coisas assim um tanto desorganizadas, caóticas, pelo que se percebia do canto e da batida dos tambores. Talvez ela estivesse passando justo no momento em que levantei a bengala para encontrar o caminho entre os que se aglomeravam à beira da calçada.

- Mil perdões, senhor, não percebi que não enxergava. É que há muitos engraçadinhos no carnaval, e o senhor deve saber como são: querem se aproveitar de tudo.

E pegou na minha mão para me ajudar a atravessar para o outro lado. Sua mão estava úmida de suor e quente, naturalmente produto da folia que desfrutava, e tinha um toque sedoso. Ela se aproximou um pouco mais de mim e pude sentir também a quentura que exalava do seu corpo. Misturado ao suor, um cheiro doce de perfume. Eu sou cego, mas não sou insensível. Perguntei-lhe se ela estava desfilando, ao que me respondeu afirmativamente. Então não precisa me ajudar, disse-lhe. Pode ir brincar seu carnaval, que sigo em frente. Já sou cego há muitos anos e me habituei a andar pelas ruas cheias de gente. Estou indo para a Cinelândia, para o show de marchinhas. São músicas do meu tempo. Ela, então, quis saber se eu gostava de carnaval. Sempre gostei, respondi, e entabulamos uma conversa agradável, durante o trajeto – ela me segurando pela mão, porquanto eu havia aposentado a bengala sob meu braço direito. Quis saber se a avenida estava bonita, bem ornamentada, e ela reclamou do descaso da prefeitura nos últimos anos, de que não enfeitava a rua com uma decoração de bom gosto. Tudo parecia feito de refugo e às pressas, mas a alegria continuava a mesma, segundo ela. O carnaval acontecerá a despeito de tudo, afirmou sorrindo.

Quando nos aproximamos do Teatro Municipal, ela me perguntou em que lugar eu pretendia ficar. Pedi-lhe que me deixasse sobre o calçadão da Praça Floriano, em algum espaço menos cheio de pessoas. Alguns passos mais adiante, ela me disse que ali estava bom, que era possível ouvir muito bem, sem que o som incomodasse. E quis saber mesmo se eu estava bem, se ela poderia ir embora, continuar a brincadeira. Respondi-lhe que sim, que estava tudo muito bem, que meu carnaval havia sido maravilhoso pelo encontro acidental com ela, pois me havia feito recuar no tempo em que também por ali saía, fantasiado de Arlequim, cantando Mamãe eu quero. Percebi que ela sorriu, pelo hálito de cerveja que lhe saía da boca. Então ela perguntou se me podia beijar no rosto. Eu disse que sim, que ficaria muito feliz com seu gesto. Ela me beijou calorosa e terna. Um comichão percorreu meu corpo de alto a baixo, e ela se despediu jovial e alegre, como são as meninas-moças do Rio de Janeiro.

- Tchau!

Nem bem saíra, senti que ela se voltou, para perguntar:

- Desculpe, qual é o seu nome?

- Felicidade! – respondi com um sorriso – E o seu? – indaguei em seguida.

Ela disse não acreditar, já a alguns passos adiante. E falou seu nome. Não mais a ouvi. O som da marchinha cantada por uma das antigas cantoras do rádio encobriu sua fala e sua risada gostosa.


Eu fiquei só por ali, com minha bengala e, como disse Drummond, com o sentimento do mundo. O meu carnaval estava iluminado!

Pablo Picasso, Paul vestido de Arlequim (em triplov.com).