Mostrando postagens com marcador Parentagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Parentagem. Mostrar todas as postagens

19 de abril de 2018

ANOTAÇÕES DE CARABUÇU



Resultado de imagem para studebaker 51
Studbaker 51 (imagem em auto.howstuffworks.com).
No final dos anos 50 do século escorrido, aconteceu em Carabuçu um acidente que foi transformado em anedota.
Ivo Basílio, dono da minúscula empresa de ônibus da vila, ia para Bom Jesus do Itabapoana em seu automóvel. Como iria sozinho, resolveu dar carona para Nico Dutra, fazendeiro com propriedade na entrada da vila e seu vizinho, e também para seu xará, o subdelegado conhecido pelo apelido de Ivo Saratonga.
O choffeur, como se dizia então, dono de uma visão estrambótica, corrigida por grossas lentes, e reconhecidamente inábil na condução de veículos com motor a explosão, perdeu o controle do seu Studebacker e o precipitou num dos remansos do Rio Itabapoana, ao lado da estrada de terra, de onde o bólido derrapou.
Depois de salvos do afogamento por pescadores ali perto, Nico Dutra entrou a reclamar a perda de suas dentaduras duplas, feitas recentemente pelo Dirceu dentista; e o subdelegado, dos seus óculos de grau.
Indagado pelos curiosos de sempre, que se reuniam nos finais de tarde na esquina das ruas Coronel Alfredo Portugal e Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo, o Ivo motorista justificou a barbeiragem por  ter caído na gargalhada com a pergunta estapafúrdia do seu xará:
- Vocês já orçalo o Reportelesso hoje?
O Repórter Esso era o noticiário de maior audiência e credibilidade da época.
-o-o-o-o-o-
Ferreirinha, da grande família Monteiro, tinha propriedade na curva dos eucaliptos, à margem da estrada que ia até a sede do município. Era produtor de leite e negociante nas horas vagas, como boa parte dos homens da vila, os quais não podiam vislumbrar um bom negócio em qualquer ocasião, sem que dele pudessem tirar proveito.
Ferreirinha, que à época devia ter por volta de quarenta anos, era um homem divertido, cheio de causos a contar, apenas com o intuito de ver seus parceiros gargalharem. Também criava passarinhos, um dos entretenimentos mais difundidos naquela época, agora transformado em crime ambiental, a depender das condições.
Na venda do meu pai, a que sempre ia em busca de uma boa conversa, no meio de uma roda de amigos, tentava fazer negócios com cavalos, bois e passarinhos.
Certa feita, voltando com meus primos da casa de seu Isaque Mestre, que tinha um sítio pelos lados do Elias Nunes, passamos dentro da propriedade do Ferreirinha. Era um caminho mais alongado até a vila, mas nos dava a oportunidade de tomar banho no poço do valão que banhava as terras dele.
Embora fôssemos um grupo de crianças, ele nos recebeu com toda simpatia, nos levou até sua cozinha, ofereceu café com broa e aproveitou para contar casos. Pouco depois, ao sairmos, vi na cocheira um de seus cavalos, que achei meio debilitado, tipo pangaré, e perguntei a ele como estava o animal. Marotamente, nos disse:
- Aqui para nós, está perrengue, meio capenga. Mas, se for para negociar, é o melhor cavalo do mundo!
E deu uma boa gargalhada.
-o-o-o-o-o-
Meu pai tinha um grupo de amigos que saíam à pesca com ele no Rio Itabapoana. O trajeto, de cerca de seis quilômetros, era vencido de bicicleta. Todos tinham a sua magrela.
Normalmente seguiam com ele o Domingos Peçanha, o João Coleto, o João Dutra e o Alcino, dentre outros. Às vezes saíam de madrugadinha, o dia ainda escuro. Acendiam os faróis e pedalavam em meio à neblina, que chamávamos cerração, que, de tão densa, não permitia que se avistasse longe.
Numa dessas vezes, vinham em sentido contrário dois fracos faróis de seis volts tentando romper aquela massa turva. Alcino, sempre muito divertido e gaiato, produziu uma de suas imitações mais fidedignas: a sirene de uma ambulância. E era tão alto o som produzido, que o motorista do veículo jogou o carro para os lados da estrada de chão, a fim de permitir a passagem do comboio que vinha logo atrás da “ambulância”.
E o Alcino, depois, contou essa peripécia às gargalhadas, entre um e outro pé de moleque que comia na venda do meu pai.

4 de fevereiro de 2017

A GERAÇÃO DO CANIVETE

Meu pai era um homem da geração do canivete. Aliás todos os homens da geração dele e talvez de uma geração posterior certamente o fossem.
Eu fiz o maior esforço para não ser da geração canivete, estando dois degraus após na escala geracional.
Vou-lhe explicar, leitor amigo.
Algumas peças já fizeram parte do vestuário das pessoas, às quais peças o tempo se incumbiu de dar fim. Do homem, por exemplo, na primeira metade do século XX, eram o chapéu e a bengala, ainda que não se claudicasse, ou que não houvesse sol queimando a cabeça. Eram componentes da elegância masculina, sobretudo do habitante das cidades mais cosmopolitas. É comum verem-se em fotografias antigas, em que se juntam muitos, vários – ou todos eles – de chapéu, paletó e bengala.
No interior, até o momento em que lá estive, os homens – quase todos, sem exceção, repito – possuíam um canivete, que carregavam num bolso apropriado das calças, na algibeira. As calças eram projetadas com dois pequenos bolsos na altura da cintura. Um era feito exatamente com tal finalidade: acomodar o canivete. No outro, levava-se o relógio, obviamente de bolso. O relógio de pulso foi um avanço na tecnologia.
E para que servia o canivete? Ora, eram várias as suas utilidades: desde descascar uma fruta, picar o fumo para o cigarro, como cortar as unhas e executar pequenos trabalhos em madeira. Às vezes, em desavenças, ele poderia entrar como arma branca, sobretudo em briga de moleques. Mas isto era muito raro.
Os meninos, depois de certa idade, ganhavam um canivete de presente. Eu também tive o meu, que me servia para descascar as laranjas da chácara do tio Alcides Almeida, para onde eu ia, a seu convite, me sentar sob as árvores carregadas, com meu primo Carlinhos, filho dele, a me fartar daquelas frutas de um paladar inesquecível.
Minha primeira calça comprida, feita por minha mãe para os meus doze anos, tinha lá o bolsinho do canivete.
Depois que cresci mais um pouco, já em plena puberdade – a cara cheia de espinhas – resolvi não carregar mais aquele instrumento perfurocortante, embora o tivesse guardado em alguma gaveta de casa.
Ao terminar o Curso Científico, antigo Segundo Grau, decidi vir para Niterói, na intenção de fazer o meu sonhado Curso de Letras.
Ao arrumar a mala com alguns apetrechos de higiene pessoal e a pouca roupa que tinha, meu pai se lembrou de que eu deveria trazer o canivete. Naquele momento, eu rompi a corrente e lhe disse que não o queria trazer. Ele se admirou pela recusa e insistiu. Mas me mantive firme e rejeitei a oferta de um seu canivete bonito, lâmina inoxidável, ponta fina, cabo de chifre, corte afiado. Objeto de sua alta estima.
E ele me perguntou um tanto espantado, daquele jeito engraçado como costumava falar, quando houvesse possibilidade de algo dar errado, sempre introduzindo sua frase com a expressão que ainda hoje ouço no silêncio da minha memória:
- Deus tal não permita, e se você quiser chupar uma laranja na rua?
- Se não estiver descascada, eu não vou chupar, pai.
Um pouco decepcionado, guardou o canivete, que talvez para ele representasse um elo físico entre nós dois, na longa distância a se abrir entre Bom Jesus e Niterói. Não tive, então, a sensibilidade para perceber isto. Só muitos anos depois é que este fato, até hoje martelando na minha memória, produziu este sentido, este significado escondido: a quebra da ligação masculina entre pai e filho.
Me libertei do canivete, para não parecer um moço da roça a chegar na cidade grande – Niterói era, por essa época, a capital do estado. Bastariam, para que meus colegas de faculdade me identificassem, um certo jeito tímido e o sotaque, cujo erre amineirado não tinha essa aspiração do daqui, que mais parece a respiração ofegante de uma crise de asma, como posteriormente fui saber pelo olhar crítico dos goianos, para quem dei um curso nos idos de 80.
E nunca mais tive um canivete. E ele nunca me fez falta, como a bengala ou o relógio de bolso.
Meu filho, tenho a impressão, nem sabe o que é isto. Mas o meu primo Zé Fábio, apenas três meses mais velho do que eu, ainda carrega o seu, no bolso da bermuda.

Imagem em cutelariabianchi.com.br.

28 de agosto de 2016

MEU AVÔ


Está vendo aquele senhorzinho magro que ali vai, chapéu de feltro na cor pino, já de certo uso, a cobrir seus cabelos brancos? É o meu avô, a quem todos da família - filhos e netos - chamamos Papai Juquinha.
Ele está acordado desde as cinco da manhã e tomou seu banho frio como sempre. Nunca reclamou da temperatura da água. Nem no inverno; muito menos, no verão!
Preste atenção agora aos seus passos lentos, o tronco um pouco arqueado sobre a linha da cintura, as mãos cruzadas atrás, sobre o quadril. Vai em direção à máquina de café, que gerencia para o turco Quirino, libanês que mora em Bom Jesus.
Repare na sua roupa simples: calça cáqui, camisa de algodão de manga curta, com as fraldas sempre para dentro; cinto de couro surrado e botinas velhas. Simples, mas asseada.
Veja seus olhos vivos, as bochechas cavas, na face enrugada pelos anos duros, seu bigode sobre o lábio fino. Parece que tenta assoviar alguma melodia desconhecida, mas não consegue. Já quase não tem dentes. Talvez isso explique o zumbido em vez do assobio.
Observe agora, quando volta para casa, à hora do almoço. Entra quieto, diz alguma coisa para minha avó, tira o chapéu, que pendura num cabide à parede, e vai lavar as mãos.
Come a comida saborosa que a mulher prepara: arroz fresquinho, feijão encorpado, ovo estrelado, couve picadinha, jiló frito, angu de corte e um naco de carne de porco guardada na gordura. Nunca teve inapetência na vida e pela vida. 
Agora está sentado à mesa, lendo A Voz do Povo. Passa os olhos ligeiros sobre o que interessa. Depois pega o lápis e dá de fazer contas nas margens do jornal. Todos os seus jornais terminam cheios de contas pelas margens. São os cálculos das arrobas de café e arroz piladas na máquina sob sua responsabilidade.
Lá vai ele de volta ao trabalho após o almoço. Fala com um e com outro que encontra no trajeto. Na vila, todos o conhecem e ele conhece a todos. Pode não saber o nome, mas lê suas fisionomias. Aquele é filho do Deolindo. O outro é o genro do Aristides Turco. Aquele molequinho ali, de calção caindo da cintura, as costelinhas desenhadas no peito, é neto do Precisval. Fala com um e com outro, indiferentemente: Oi! Boa tarde! Como vai?
No fim da tarde, após o banho para tirar o pó da pilação e antes da janta, vai encontrar os amigos para a conversa de sempre. E, mesmo sem dentes, nunca deixou de gargalhar. Sim, ele gargalha com facilidade. A vida difícil não lhe tirou nenhum traço de alegria. E é fácil vê-lo na esquina da venda do João Mestre, na roda de amigos, a rir das histórias deles e a contar as suas.
Se volta para casa tentando assobiar, minha avó, à varanda, desconfia de que ele esteja com alguma ideia saliente na cabeça. Andou falando em mulher aquele velho safado. É o que ela sempre diz dele.
Ali ao lado dela, observo meu avô chegando e, por dentro, rio desse ciúme tardio que ela nutre, passados não sei quantos anos em que vivem juntos, depois de dez filhos, uma montoeira de netos.
A casa na pracinha da vila recebe meu avô de volta. Minha avó vai para a cozinha quentar a janta, enquanto tenta saber dele o motivo de tanta alegria.
Ele ri, mas se aborrece com a impertinência dela. 
Eu fico quieto no meu canto.
Para mim, meu avô não tem defeitos!


Van Gogh, Le vieil homme triste, 1890, Museu Kröller-Müller.

2 de julho de 2016

CACHORRO DOIDO


Era uma noite morna de domingo na vila. A missa havia acabado há bem umas duas horas, e a Rua Coronel Alfredo Portugal e a Praça Antônio Guimarães estavam cheias das mesmas pessoas de todos os dias anteriores, de todos os anos anteriores, enquanto a vila teve suas lavouras de milho, arroz, café, cana de açúcar; seu comércio pulsante; seus quebrantos e encantos. Como se fosse uma festa do interior.
Meus avós Juquinha e Maína, pais da minha mãe, tinham sua casa diante da pracinha. Eu estava lá na varanda, com meus dez-onze anos, olhando o movimento de pessoas naquele vaivém que parecia não ter fim. Mesmo que fosse tudo diminuto, tudo bem caipira, bem interiorano, aos meus olhos, contudo, era o mundo inteiro. Por essa época, achava que a vila fora o início do mundo. Tudo partira dali. O resto era o resto.
Lembro-me de algumas meninas da minha idade, com belos vestidos de domingo, a passear pela praça, naquele instante.
Até que se ouviu um grito de alerta, para um dos mais terríveis acontecimentos possíveis entre nós:
- Cachorro doido!
Nós tínhamos aprendido com as histórias que nos contavam que cachorro doido era das piores coisas que poderiam ocorrer em nossa comunidade. Uma mordida de cachorro doido era sinal de uma dolorosa morte anunciada, o padecente amarrado a uma árvore, espumando pela boca, sem poder ver água, agonizando até a morte, gritando desatinadamente. Não havia remédio possível. Eu mesmo tinha – e ainda tenho – a imagem de um homem qualquer, que nem existiu, amarrado, o corpo todo suado, a vociferar imprecações, espumando, com os olhos injetados, nos estertores da morte. Cachorro doido foi o meu maior medo.
A rua e a praça se esvaziaram rapidamente. Eu corri para minha casa, dois quarteirões além, levando a notícia de que um cachorro doido aparecera do lado do Elias Nunes e vinha em direção ao centro da vila.
Meu pai fechou toda a casa, recomendou que não saíssemos, pegou sua garrucha cano duplo, carga reforçada, e foi para o terreiro, pois havia a notícia de que o amaldiçoado viera pela rua de trás.
O quintal da casa do tio Nalim, que dava para tal rua, ficava aberto até que ele colocasse sua caminhonete na garagem. O cachorro por ali entrou.
Havia uma lua cheia a iluminar a pouca iluminação da vila, cujas lâmpadas, por essa época, pareciam tomates maduros.
Meu pai vislumbrou o vulto do cão próximo à garagem, construída em madeira. Mirou no bicho e disparou aquele tirambaço que uma garrucha cano duplo, carga dobrada, faria numa noite morna de domingo numa vila pacata do interior.
O cachorro ganiu de dor e saiu correndo.
Meu pai entrou em casa e nos disse que acertara o bicho no vazio, uma região que fica entre o final das costelas e a anca. E pediu que ninguém jamais dissesse que havia sido ele o autor do tiro. Não queria que soubessem que tinha uma arma em casa, num tempo que era comum ter arma em casa.
Ficamos todos quietos, diante das especulações de quem teria desferido tal potente – ou barulhento – tiro naquela noite morna.
No dia seguinte, encontraram o cão morto no além do valão Liberdade, depois da ponte perto da fábrica de manteiga do Libelton Boechat, já dentro das terras do Zé Doença.

Meu pai matou o cachorro doido e o medo terrível que eu tinha de ser mordido por um bicho excomungado desses, que nos metia em um sofrimento bem próximo do que padeceriam as almas condenadas ao fogo eterno do inferno, segundo a crença comum.


Teia de aranha em  poste de iluminação (foto do autor).






28 de novembro de 2015

NUNCA HOUVE UM FÍGADO DE GALINHA COMO O DO BAR PRACINHA!

(Para Jane, Maria Lúcia e Jorge Neiva.)


Às vezes sou assaltado por certas lembranças gustativas – talvez uma das mais constantes em minha vida de glutão -, assim do nada. Sem mais nem menos, elas aparecem. Até já postei textos aqui sobre isso. Estou fazendo alguma coisa e pum! lá vem a memória de alguma coisa gostosa que experimentei durante minha vida.
É claro que isto deve ser comum a todos os seres humanos, desumanos e extraterrenos. Comer é um dos grandes prazeres que se tem na vida, e necessariamente deixa alguma coisa gravada em nós.
Estava há pouco num botequim aqui próximos de casa, onde fui bebemorar o campeonato do Glorioso (Maitê, ainda estou esperando!), com a alternância entre um chope escuro/um chope claro (Só faltou a Estrela Solitária.), acolitados por moelas, e me veio à memória o fígado galinha que comia no Bar Pracinha de Miracema.
O Bar Pracinha era um grande salão na Rua Direita, cujo vão era sustentado por colunas de ferro, um balcão de atendimento à direita de quem entrava por uma de suas três ou quatro portas (Ele não existe mais.) e várias mesas e cadeiras em toda a extensão à esquerda.
A primeira vez que lá fui, há bons anos, foi a convite do meu sogro, o saudoso seu Beethoven, que me disse da qualidade daquele fígado.
Aqui é preciso fazer uma digressão de caráter gourmand. Fígado de galinha é uma iguaria não muito apreciada pelo cidadão cosmopolita e urbano de cidade grande. O pessoal do interior como eu é muito chegado a certas guloseimas para as quais o homem da cidade torce o nariz, como se fosse coisa de segunda ou terceira categoria. Fígado, moela, rim, língua – e por aí vai – estão nesta categoria.
Pois muito bem! Convidado por ele, não me furtei a experimentar o tal fígado.
Quando lá chegamos, o bar já estava todo tomado por clientes. Era um sábado à tardinha. Sobrou-nos, então, a posição mais apropriada aos bares: encostar o umbigo ao balcão e degustar o que possa sair lá de dentro da cozinha. Pedimos uma cerveja (Na época, não havia esta sofisticação que hoje há, e meu sogro também foi habituado a só beber uma marca de cerveja.) e uma porção de fígado.
Posso garantir aos amigos leitores que me honram com sua atenção que os galináceos não morreram em vão para o bar e seu cozinheiro. Não faço a mínima ideia de como se preparou aquele fígado. Na verdade, ele não vinha com nenhuma atração visual maior, que não sua integridade esplendorosa, um tanto vítrea ao olhar, a maciez de que é dotado e um paladar inigualável. Só acrescentei algumas gotas de pimenta, como é de meu feitio.
Tirante o fígado de galinha que minha mãe pescava na panela onde fazia o restante da penosa (Até digo isto para não parecer um filho ingrato.), nenhum outro se comparou em toda a minha vida àquele fígado feito pelo cozinheiro do Bar Pracinha.
Alguns anos depois, despareceu o bar, dando lugar a outro empreendimento comercial sem o charme e o apelo do botequim, e nunca jamais, em tempo algum, pude provar outro semelhante.
Por isso é que, ao escolher um tira-gosto hoje no botequim aqui ao lado, para acompanhar a homenagem etílica ao meu Glorioso, resolvi ficar na moela de galinha acebolada.
Não queria magoar a memória daquele fígado, nem do prazer que tinha em ir ao bar com meu saudoso sogro, Beethoven Neiva, flamenguista dos mais enjoados que conheci. Aliás não conheço flamenguista que não seja enjoado!
Salve o Botafogo! Viva Maitê Proença! Saudades do seu Beethoven!

Imagem em youtube.com.

17 de novembro de 2015

NAQUELE TEMPO


Lembro-me de que brincávamos de carro-de-boi de sabugo de milho. Os sabugos eram os bois. O carro, alguma pedra que amarrávamos aos sabugos, que eram candiados como qualquer boi de carro de verdade. Vem, Soberbo! Força, Fumaça!
As trilhas eram traçadas no chão batido e encontravam alguma dificuldade no monte de areia em que os bois deviam subir, puxando a carga imensa que colocávamos sobre o carro: um caroço de manga seco, um cavaco qualquer de pau, pedaços de telha antiga defumada pelo uso, algumas folhas que fingiam ser a última colheita de uma lavoura imaginária, olhos-de-boi que depois serviam a curar terçóis, a que sempre estávamos sujeitos.
Não foram poucas as vezes em que assim brincamos. Sobretudo na fazenda do tio Aurélio, no Jacó, com meus primos Délbio e Zé Luís, filhos dele, e Zé Fábio, que sempre estava na corriola conosco. Com tanto menino junto, algumas vezes havia encrenca, sobretudo porque os dois Zés sempre foram briguentos. Mas tudo não passava de minguados minutos, e a brincadeira voltava a reinar entre a turma.
Tio Aurélio era um tio bonachão, extremamente bem-humorado, e não esquentava a cabeça com nossas peraltices ou desavenças passageiras. E sempre tinha uma boa saída, para não tomar decisão alguma diante de bobagens infantis. Por vezes, Délbio ia reclamar de certa atitude do irmão:
- Pai, o Zé Luís tá implicando com a gente!
Ele, com o vozeirão de que era possuidor, indagava sério:
- Com a gente ou com os outros?
- Com a gente!
- Ah, pensei que fosse com os outros!
E não fazia absolutamente nada. Se a resposta fosse “com os outros”, ele mudava sua frase:
- Ah, pensei que fosse com a gente!
E tudo continuava na mesma. Ele é que não iria envolver-se em briga de meninos, que, instantes depois, estariam brincando, como se nada houvesse acontecido.
Já tia Toninha, irmã de minha mãe, tinha alvará expresso para aplicar o corretivo necessário, durante a estada em sua casa. Eu mesmo nunca levei catiripapos dela. Não sei o peso que tinha seu braço. Apenas uma vez peguei castigo coletivo, por conta de armações normais de criança.
E jogávamos muita bola! Havia na fazenda um grande terreirão para a secagem do café, que meu tio plantava, com o piso em barro vermelho batido e ressecado. Se chovesse não podíamos andar pelo terreirão, a fim de não deformar seu chão plano. Em tempo seco e sem o café espalhado, sempre havia uma pelada entre meninos ou entre adultos. Ali se formou o time do Soca Terreiro, que uma vez por ano disputava o torneio rural, de curtíssima duração.
Também brincávamos com as chuvas torrenciais de verão, fazendo barragens nas sarjetas e soltando barcos de papel na enxurrada. Ou tomando banho nas bicas que se formavam da água que descia forte dos telhados das casas baixinhas da vila.
Nas noites manchadas de estrelas e vaga-lumes, corríamos para esconder na brincadeira de pique ou de siliprina (palavra que nunca encontrei em nenhum dicionário), de mocinho e bandido.
Pulávamos o muro do campo de futebol para também fazer nossas peladas, ou outra brincadeira que envolvesse muita criança. E alguns aproveitavam para roubar laranja no quintal do tio Chiquito, fronteiro ao campo, ao final das peladas.
Sobre as calçadas, ou nas varandas das casas, ocorriam ferrenhas partidas de futebol de botão, com campeonato organizado, botões famosos a lembrar jogadores dos principais times do Rio de Janeiro. Às vezes ocorriam negociações, e determinado botão passava de um a outro menino, por troca ou por compra. Andei pagando alguns com os pés de moleque que minha mãe fazia.
Nas noites de sábado e domingo, banho tomado, cabelo penteado, saíamos a passear pela Rua Coronel Alfredo Portugal, da esquina com a Rua Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo, nome do meu bisavô, em direção à Praça Antônio Guimarães, a antiga Praça do Sabiá. E aproveitávamos para paquerar as meninas, no circuito desta balada inocente e interiorana.
Não tínhamos consciência de que cresceríamos, andaríamos por caminhos distantes e estranhos, enfrentaríamos os desafios que a vida nos imporia, com toda a certeza. Brincávamos e nos divertíamos como meninos, sem atentar para o mundo estranho que estaríamos construindo.
Mas, pelo que me é dado relembrar, era assim, naquele tempo!

Cândido Portinari, Futebol em Brodósqui, 1935 (em estudosavancadosinterdisciplinares.blogspot.com).

29 de julho de 2015

MEU PAI EM MIM

"Retrato de Pai e Filho" - Antony van Dyck
Pintor retratista flamengo (1599-1641) - (em deniseludwig.blogspot.com.br).


Às vezes me pego repetindo pequenos gestos do meu pai e o reconheço mais em mim do que eu mesmo. Como, por exemplo, hoje ao almoço, ao mexer a comida com o garfo e dizer uma frase banal qualquer. Eram seus trejeitos e sua entonação.
Dezembro passado, me bateu uma saudade desgraçada dele, e fui para a área de serviço chorar como um bezerro desmamado, como dizíamos lá em Carabuçu. Foi do nada, vindo assim sem mais nem menos. De repente, senti um buraco inexplicável no peito e desandei no choro. Me escondi porque fiquei com receio de que Jane me visse naquele lamentável estado de criança abandonada, sem pai, chorando pelas sarjetas da vida. Seria muito difícil explicar um coroa chorando tal criancinha.
Mas isto não se dá sempre. Aliás foi a única vez em que chorei copiosamente sua ausência. Até mais do que quando o vi prostrado no caixão em que foi sepultado. Naquele instante lá, o que nos ocorria sobretudo era que ele tinha deixado de sofrer, como vinha ocorrendo. E, a par da dor da perda, havia também o conforto de que, se é que morremos todos, pelo menos que não se sofresse mais para chegar a termo.
Mas em dezembro foi dolorido.
Contudo sinto que ele está presente no que deixou em mim. Como nesses pequenos instantes em que eu, tão diferente dele fisicamente e até psicologicamente – sinto-me muito mais parecido com minha mãe –, reconheço com nitidez um gesto seu, uma frase sua, uma postura corporal que ele tinha.
Claro que herdei dele muito mais do que racionalmente imagino. Há de haver muitos outros dados que, ao longo da vida, agora ultrapassado o tal Cabo da Boa Esperança, eu vá identificando como seus.
E, de certa forma, isto me espanta, pois fica a sensação de que, bem aos pouquinhos, eu seja menos eu e mais ele. No entanto essa talvez seja a certeza básica de que não morremos de todo, não desaparecemos para sempre e por completo. Sempre haverá um desses minúsculos componentes de personalidade que se repetirão gerações afora. Quem sabe eu também tenha, na minha postura, algum traço de meu avô, meu bisavô! Quem sabe, mesmo de minhas avós ou bisavós!
Somos um pouco replicantes daqueles que nos precederam. Do meu pai, tenho clara essa sensação. A cada dia, me descubro um pouco mais ele.
E nisto tenho um prazer danado, que ele era um homem de bem, um homem honrado.

18 de julho de 2015

CHEIRO DE MOLEQUE


Tirante o cheiro normal do moleque que não gosta de banho e vive jogando bola só de calção, lá no meu interiorzão todos os moleques tinham três cheiros característicos, se não me falha a memória olfativa: mexerica, jenipapo e jaca. Todas elas são frutas de odor pronunciado e aderente.

Se não tivesse um cheiro, tinha o outro, quando não os três juntos, o que, então, era praticamente insuportável para os mais velhos.

Para mim, porém, não fazia a mínima diferença: quando fiquei mais velho já não morava lá. Lá eu só fui menino. E, quando adolesci, cacei rumo na vida e tentei usar Vitesse e Lancaster, perfumes que todo jovem quebrado usava. Assim, lá, eu também era um dos portadores de um daqueles cheiros.

Aqui na cidade grande as crianças recendem outras fragrâncias.

Quando a van escolar que trazia meus filhos de volta à casa, no final da tarde, abria a porta, liberava um cheiro de frango molhado. O odor era terrível! Tanto que milha filha, ainda pequena, pediu encarecidamente que não viesse mais naquela horrível câmara de tortura. Ela mesma não suportava.

Pois não é que hoje comprei numa quitanda de luxo perto de casa, dentre outras frutas, um pedaço de jaca!

Jaca, que naturalmente Proust não devia conhecer (imagem em baixaki.com.br).

Na hora em que escolhia a porção adequada a consumo único – minha mulher disse que não iria querer –, ainda troquei ideias com um casal do outro lado da bancada. A esposa do freguês, inclusive, era especialista em jaca, pois ponderou, com dois pedaços não mão, que um era de jaca pau e o outro, de jaca manteiga.

Nunca tive preconceito contra jaca. Pau ou manteiga, eu iria comê-la de qualquer jeito, pois, se há um método infalível de se voltar no tempo – e Marcel Proust está aí para não me deixar mentir –, este passa pelos sentidos do corpo. E o cheiro daquela jaca esquartejada da quitanda me incentivou a isso.

Escolhi o meu pacotinho de jaca cortada, que comportava cerca de oito favos, trouxe-o para casa e comi com a mão, isto é, sem uso de talher, que é a única forma civilizada de se comer jaca. E fiquei com o cheiro impregnado em minhas mãos até agora, momento em que dedilho estas bem traçadas.

Então voltei à infância em que ia para os quintais e os pomares de Carabuçu comer frutas no pé.

Nos quintais da minha avó Maína e do tio Alcides Almeida, eram as laranjas e mexericas que faziam a festa: lima, baía, seleta, coroa de rei, serra d’água, lima-da-pérsia. Na serra, onde moravam meus tios Herson e Alda e meus nove primos, eram abundantes a manga, a jaca, a graviola, o biribá e diversos tipos de laranja. Mais acima, já no topo, casa dos tios Aldany e Neusa e mais quatro primos, eram as bananas: prata, nanica, ouro, maçã. O jenipapo, a gabiroba, o maracujá e a goiaba, comia-os na fazenda dos tios Aurélio e Toninha, acompanhado dos primos. E vinham, do quintal do tio Tatão, cajás e jabuticabas. A cana era apanhada dos caminhões que a transportavam para a usina de açúcar próxima ou tirada dos canaviais à beira dos caminhos. No pequeno quintal da minha casa, meu pai plantou um pé de jamelão, que logo, logo, começou a produzir, contra todo o meu medo de que aquela árvore fosse demorar a crescer. O jamelão deixava a boca, os dentes, as mãos e as roupas com uma nódoa roxa difícil de sair.

E, agora, estou eu aqui a reavivar minha memória proustianamente, dezenas de anos depois, por um simples cheiro de jaca manteiga. Ou jaca pau, sei lá! O que vier eu traço!

Aliás, já tracei, e estava muito boa!


17 de junho de 2015

O TROPEIRO

(Para os irmãos Délbio, José Luís e Julinda, meus primos.)


Brincando no terreirão de café, ainda vazio dos grãos, ouço o grito ao longe do Acácio a guiar a tropa de burros da fazenda do meu tio Aurélio. É possível ainda hoje, nos momentos em que certa nostalgia indolor me bate, poder ouvir seus comandos a orientar cada animal na entrada da porteira da Fazenda do Jacó:
- Tchu, tchu, Canário! Volta, Soberbo!
Cada animal sabia seu posto no espaço em frente à tulha, onde Seu Sebastião Seleiro trabalhava o couro, com mãos peritas, na manutenção dos arreios da tropa.
Aliviados do peso das quiçambas abarrotadas de espigas de milho, os animais daí a pouco poderiam comer em sossego sua comida e beber a água cristalina do valão, para aliviar a faina do dia.
Acácio, também um pouco depois, iria descansar, mas antes precisava refrescar o lombo da tropa com baldes d’água, antes de soltá-la no pasto.
Não havia tempo ruim para o tropeiro, apesar da dureza do trabalho. Parecia que o fazia com o prazer inocente daqueles que sabem que vieram à vida a serviço e não a lazer. E, com isto, o fardo parecia mais leve.
Ele morava numa casa simples, porém bem construída pelo meu tio, do outro lado da estrada, com sua mulher Eva e seus três filhos, o primeiro deles, o Cosme, que era um pouco mais novo do que eu por aquele tempo e que também participava, algumas vezes, da brincadeira conosco - Délbio, Zé Luís, Dinda e eu.
Nos sábados à tardinha, já de banho tomado, era comum que ele fosse para a venda do Valter Matinada, irmão do meu tio, a qual ficava cerca de uns trezentos-quatrocentos metros além, após uma curva do caminho, para o lazer miúdo da gente da roça: beber pinga; fumar cigarro de fumo de rolo; comer lascas de carne-seca crua, rodelas de salame, pedaços de chouriço frito, cubinhos de torresmos crocantes, com punhados de farinha de mandioca; contar causos; caçoar uns dos outros e cair em gargalhadas estrepitosas, de parecer que a vida era um constante parque de diversões,
- Varte, põe mais uma dósia aí pra mim!
Era como eles comumente falavam com o vendeiro que, atento a tudo, no movimento intenso do sábado, derramava no copo canelado a cachaça solicitada e continuava a pesar os mantimentos que cada homem deveria levar, num saco branco de aniagem, para a subsistência da família durante a próxima semana.
Antes de sorver o gole da calibrina, davam uma para o santo, engoliam num sorvo rápido e certeiro goela abaixo, a cusparada em seguida para limpar o travo da bebida, no além da porta da venda, e o tira-gosto para acarinhar o paladar rústico desses homens simples. Eh, mundão bão de Deus, sô!
Por vezes, nas noites de inverno, que por aqueles tempos esfriavam muito em Liberdade, sempre havia uma pequena fogueira no espaço de chão batido em frente à venda, à roda da qual continuavam a conversa e as troças uns com os outros, que nunca produziam malquerenças, relembravam seus tempos de moleques soltos por aqueles ermos, grimpando morros, rompendo vargens, varando caminhos, caçando passarinhos, tomando banho de valão. Se a data fosse próxima ao São João, batiam caxambu, cantavam versos paralelísticos de memória antiga a ressoar ainda em meus ouvidos, agora um tanto saturados dos barulhos urbanos:

Na cama de Jesus Cristo
Quantos travesseiros tem?
Oi! na cama de Jesus Cristo
Quantos travesseiros tem?

Menina bonita chegou agora
De Santa Luzia de Carangola.
Oi! menina bonita chegou agora
De Santa Luzia de Carangola.

O meu boi tava chorando
Só porque botei na canga.
Oi! o meu boi tava chorando
Só porque botei na canga.

Quem nunca viu vem ver
Caldeirão sem fundo ferver.
Oi, quem nunca viu vem ver
Caldeirão sem fundo ferver.

E depois, quando as brasas da fogueira principiavam a se tornar carvões, cada qual seguia para o seu lado, alguns em lombo de animais, outros a pé, como Acácio, que voltava sob o céu frio e estrelado da noite, os passos cambaleantes pela quantidade de camulaia acumulada no sangue, a fim dormir o sono dos justos.
Na segunda-feira seguinte, já voltava à lida com os burros, varando estradas e trilhas, indo atrás da colheita da época, para transformar tudo em alimento para a gente da Rua, que é como todos nós chamávamos nossa pequena vila de Carabuçu.
A porteira da fazenda batia atrás do último burro e eu ouvia o grito do Acácio a conduzir a tropa, naquele tempo e ainda hoje, na minha memória auditiva que teima em voltar sempre àquelas paragens da infância:
- Tchu, tchu! Canário! Vamos, Godero! Volta, Soberbo!

Escravo negro conduzindo tropas no Rio Grande do Sul. Aquarela de Jean-Baptiste DeBret, de 1823
(
Imagem em curitiba-parana.net).


5 de abril de 2015

AMARCORD


Ψ
Tenho cravada em minha memória a cena sedutora de um filme mexicano em que a belíssima atriz cubana Maria Antonieta Pons, dentro de um vagão de trem, deixava que o mocinho (ou seria o bandido?) lhe beijasse o lindo tornozelo torneado, apenas insinuado com o suave levantar de sua saia comprida. Não sei quem era o canalha que lhe beijava o tornozelo, nem o título do filme, nem o nome do diretor, assim como não me recordo de nenhum fotograma anterior ou posterior a esse. Mas esse ainda está incrustado num escaninho qualquer lá dentro de mim. Imaginem, então, o que a cena causou em minha cabeça! Devia ter lá meus doze/treze anos, quando vi o filme. E tive o cuidado de, após a sessão, saber o nome daquela bela atriz e seu tornozelo maravilhoso: Maria Antonieta Pons! Aliás, o cinema mexicano da época, através da Pelmex, era pródigo em belas mulheres. Só para citar algumas: Libertad Lamarque, Dolores Del Rio, Ninón Sevilla, Maria Felix. E desconfio de que continue assim até hoje...

María Antonieta Pons (em cinemexicano.mty.itesm.mx).


Ψ
De quando em vez, meu saudoso avô Chico Albino, que à época morava em Duque de Caxias, ia visitar os parentes – dentre eles meu pai, seu filho – que deixara na pequena vila de Carabuçu. Eu o admirava profundamente. Achava-o um homem elegante, porte nobre, sempre vestido com correção e dono de uma dicção limpa, clara. Não tenho lembranças de que me levasse presentes. Nesse tempo, não era comum, pelo menos na minha terra, que se dessem presentes. Mas sua presença por lá era motivo de grande satisfação minha. Numa dessas visitas, estava conversando com os amigos na venda de meu pai, contando lá as histórias de Duque de Caxias, quando se referiu a certo cidadão, personagem do que dizia, com a palavra cafajeste:
- Fulano era um verdadeiro cafajeste!
Na hora, achei a palavra muito bonita, muito sonora, e gostei de ouvi-la da boca de meu avô. Como já era um menino esperto, perguntei-lhe o que significava cafajeste. Tive, então, a maior decepção com o sentido. Como podia uma palavra tão sonora, tão bonita, significar aquilo que me dizia? Comecei, assim, a perceber que nem sempre os sons correspondiam aos sentidos.
Quando fui para a faculdade, tive confirmada essa percepção, ao saber do lamento do grande poeta francês Guillaume Apollinaire, autor de Calligrammes, com a língua francesa, que tem a palavra jour (pronunciada /jur/), de sonoridade fechada, escura, para o que em português é dia, de pronúncia aberta, clara. Dizia ele da necessidade poética, em francês, de adjetivar a palavra para carrear, para seu sentido de claridade, também a claridade da pronúncia, que há na palavra portuguesa. Assim propunha, por exemplo, clair jour (pronúncia /klér jur/) – dia claro – em que o adjetivo de som aberto como que clareia o sentido de jour.

Ψ
Lá nos idos de 1950, meu pai soube, por um dos fregueses de sua venda, que certo conhecido, durante uma partida de futebol de várzea das roças no entorno da vila, tinha sido esfaqueado, por motivo de discussão boba, desmotivada. Virou-se, então, para o que trazia a notícia e exclamou:
- Xi! Coitado! Deu com os costados na cerca!
Ao ouvir isso, quis saber do meu pai se o homem se ferira na cerca, normalmente feita de arame farpado. Meu pai deu um sorriso amarelo e me disse:
- Não, morreu mesmo! Dar com os costados na cerca quer dizer morrer.
Dessa vez, percebi também que as palavras nem sempre querem dizer o que dizem e podem nos meter em enrascada. Ê vida difícil! É o que talvez justifique aquele camarada que se explicou à autoridade, dizendo que chamara o outro de filho da puta no bom sentido.

Ψ
Bom sentido que não existia há algumas décadas. E foi o que motivou um tio-avô a atirar num desafeto, justamente por chamá-lo de filho da puta. Na época, era a maior ofensa que se fazia a um homem, porque atingia diretamente sua mãe. Era um agravo na raiz da nascença, como se dizia, que manchava toda a descendência, ainda que por tabela. Tão logo foi xingado, meu tio agrediu o ofensor. A turma do deixa-disso fez a separação dos briguentos. Após a rixa, correu a notícia de que o outro estava andando armado, para dar fim a meu tio, que também pôs revólver na cinta. Não era, então, estranho as pessoas andarem armadas. Os de menor posse muniam-se de facas e peixeiras; os de maior, de garruchas e revólveres. Mesmo que não se portassem as armas, elas estavam dentro das casas. Por isso ocorreu que, estando meu tio num bar, em conversa com amigos, de costas para a porta, ao ouvir o chamamento do desafeto – não se matava um homem pelas costas –, ele já se virou atirando. O homem, alvejado, foi levado para o hospital de Bom Jesus, vindo a falecer, tempos depois, em consequência de complicações pelo tiro que levou.

Ψ
Os mais velhos contam uma história interessante, ocorrida em Carabuçu. Durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, foi instituída uma força policial volante, que vasculhava o interior para desarmar as pessoas. Nessa época, havia por todo lado muitos jagunços, muitos grupos armados, e os confrontos eram corriqueiros*. Para o norte do antigo estado do Rio de Janeiro – a Velha Província que teimava em sobreviver –, foi mandada a volante comandada pelo tenente Coaracy, homem de estatura baixa, mas tido como enquizilado, carne de pescoço, temido por todos.
Vem a volante entrando na vila, tenente Coaracy à frente, montado em sua garbosa mula alta. Ele, de pequetito, virava um homenzarrão sobre a besta. Na porta do botequim, estava um homem que, ao ver o grupamento, julgou por bem não se afastar, para não levantar qualquer tipo de suspeita, o que, certamente, o levaria a passar maus momentos. Tenente Coaracy estaca a montaria diante do homem, que já imagina o pior. Com sua voz firme e autoritária, pergunta ao homem:
- Caboclo, você fuma?
Tremendo de medo, o pobre coitado não teve como mentir e disse, com a voz já por um fiapo:
- Fumo, sim, senhor! Mas, se o senhor quiser, eu largo o vício.
- Não é nada disso, caboclo! Me arranja um cigarro, que o meu acabou!
 ----------
(* Se quiserem conhecer mais detalhes desse período da história brasileira, indico o excepcional romance de Mário Palmério Chapadão do bugre, que também serviu de base para minissérie homônima, levada ao ar pela Rede Bandeirantes, no ano de 1988, com direção de Valter Avancini e Jardel Mello.)


4 de março de 2015

ÀS VEZES, DÁ GOSTO VIVER!

Dia desses, andando pela praça de Miracema, vi uma carrocinha de pipoca adormecendo pela manhã, abandonada.

Naturalmente deve ter tido muito trabalho na noite anterior e teria outro tanto mais tarde. Porém, naquele instante, ela estava melancolicamente encostada a uma árvore, com corrente de proteção fechada a cadeado. Até mesmo em Miracema, não se pode deixar um bem assim dando sopa.

E, ainda que ela não exalasse aquele típico cheiro de pipoca quentinha, minha memória tratou logo de reproduzi-lo e, num passe de mágica, voltei à infância e às coisas que me davam prazer.

De repente, descobri, como num filme projetado aceleradamente, que, durante toda a nossa vida, temos esses dados gustativos a nos marcar de uma forma indelével.

Por vezes é mais fácil lembrar-se de um prazer do paladar do que de outro sentido. A visão, tenho a impressão, é um pouco mais efêmera que o paladar. O olfato, ainda mais que esses dois; e deve estar ao par com a audição. E o tato, coitado, praticamente não tem memória.

E consegui construir um catálogo rápido, na memória, durante a travessia da praça, das coisas que me marcaram pela boca, desde a infância na vilazinha natal.

Então comecei pela mironga da dona Mocinha, da padaria do seu Chico Furtado, já referida por mim na crônica Vou comprar uma mironga na padaria do Chico Furtado. E emendei com o pé de moleque de açúcar batido que minha mãe fazia, para reforçar o faturamento da pequena venda de meu pai. Em seguida, veio-me certo bife acebolado com molho ferrugem, que minha tia Alda fez numa tarde, para lancharmos na Vala, antes de voltar a Carabuçu. Eu e Zé Fábio, filho dela. É só me concentrar um pouquinho, para sentir novamente aquele sabor.

E um prato das artes de minha outra tia, a Toninha, hoje conhecido como bolo de batata com carne moída, mas que, na época, ela chamou de cuscuz – não sei por quê. Era outra delícia, que sempre pedíamos repetir.

Um tempo depois, da dureza do primeiro ano ginasial em regime de internato, no Colégio Bittencourt, em Campos, ficou o ajantarado de domingo, refeição com certo gosto de pompa, oferecida pela escola como a única do dia. Havia um arroz de forno inesquecível. E nem devia ser tão bom assim. Afinal, era comida de escola! Mas vai explicar isso para o apetite de um menino de treze anos, com a voracidade dos nascidos logo após a Segunda Guerra.

Por essa época, também, houve o robalo recheado preparado na casa do primo Edalmo, que morava em Campos, em comemoração ao batizado de seu filho Carlos Augusto. Jamais comi um peixe assado, recheado, como aquele.

Já um pouco mais galalau, de volta a Bom Jesus, vez em quando filava a sopa pedaçuda que tia Colola fazia para o jantar, na época de frio. Era tão saborosa quanto quente, e tínhamos tanta pressa de ir para o curso noturno, que eu e Zé Fábio colocávamos duas pedras de gelo no meio do prato. Tal técnica garantia não chegarmos atrasados ao Colégio Coronel Antônio Honório.

Já morando em Niterói, numa viagem a Minas, paramos em Sete Lagoas para almoçar em restaurante localizado à beira de um lago – era 1974. Após feijão tropeiro, lombo e carré de porco, torresmo, linguiça assada, couve à mineira, tutu, arroz molhadinho, fomos até à cozinha dar um abraço na cozinheira, que ficou toda vaidosa por ter agradado aqueles “cariocas” com sua comida tradicional.

Já casado, na volta da viagem de lua de mel meio alternativa, pelos países do Cone Sul – denominação que ainda não existia –, em 1976, depois de trinta dias sem a culinária brasileira, adiamos a viagem de volta em Foz do Iguaçu só para comer arroz com feijão. E foi uma experiência restauradora das nossas raízes. Como o feijão nos fizera falta!


Em 2003, numa viagem com o casal de amigos Rogério Fernandes e Laura Dutra, restou inesquecível o prazer do polvo grelhado com batatas ao murro, durante o jantar no Restaurante Adega do Morgadito, em Torres Vedras, Portugal. Convocamos o cozinheiro ao salão, para agradecer-lhe pelo prato.

Restaurante Adega do Morgadito (em onossoutroprazer.blogspot.com).

Há poucos anos, a quitanda metida a besta Hortifruti andou promovendo degustações harmonizadas de comidas típicas e vinhos de países produtores. E não me esqueço jamais do gosto maravilhoso do toucinho do céu – doce português de nome esquisito – com vinho do Porto. Até hoje, foi o doce mais saboroso que já comi.

Mais recentemente – e com certa frequência –, reúno-me com os amigos Rogério Barbosa e Eduardo Campos para degustar o maravilhoso bacalhau à lagareiro do Restaurante Alentejano, na Rua São José, no Centro do Rio de Janeiro.

E ainda há a cabritada à napolitana de minha irmã Elizabeth; a inusitada salada quente com batatas cozidas, tomate, ovo cozido, alface e molho refogado de cebola de minha mãe; o refogado de jiló com quiabo de minha sogra; o arroz com frutos do mar de minha mulher e a poderosa feijoada que eu mesmo faço, sem a mínima falsa modéstia.

O mal não é o que entra na boca do homem. É aquele maldito dente que dói só à noite e nos fins de semana.

Até a próxima.
---------
Publicada originalmente em Gritos&Bochichos.