30 de setembro de 2011

PREVIDÊNCIA

de todas as dores do mundo
sofro apenas as mais brandas
de todas as alegrias
experimento as mais sóbrias
dos sonhos dos desesperos
elejo os mais exequíveis para este tempo
paixões e ódios não os provo ou evito
o amor que se acrescenta a cada dia
vou usando com parcimônia porém sem usura
é que minha caldeira emocional trabalha
a meia pressão
para não explodir a cada toque a cada anseio
e abandono
o amontoado psicossomático em que circulo

Aldo Bonadei, Casario (séc. XX).

29 de setembro de 2011

DECISÃO

Tomei a decisão agora há pouco:
Vou enterrar-te em cova bem profunda,
Denunciar-te ao Ministério Público,
Fazer tua caveira com a manicura,
Negativar teu nome no SPC,
Brecar teu crédito por toda a praça.
E, se for pouco e se não bastar,
Botar despacho numa esquina escura,
Incendiar tuas coisas, tua casa,
Encher o teu jardim de cinzas,
Encomendar vodu e amarrar teu nome
Na boca de um gordo sapo infame,
Para assim fazer completo descarrego,
Livrar minha vida desse desespero
Que te tornaste sem que me apercebesse.
Sai de mim, terrível exu caveira,
Encosto brabo, fantasma de figueira,
Imagem em centerblog.net.
Espírito baixo, vadia possessão,
Pois este corpo só a mim pertence.
Ou, pelo menos, meu pobre coração.

28 de setembro de 2011

CÉU DE ESTRELAS


Edvard Munch, Noite estrelada, 1922.

O velho carro, adaptado para rodar a gás de cozinha, pachorrentamente varava a noite no asfalto, com a pressa dos moribundos. Seu dono, piloto e mecânico, Geneci, ia socorrer outro carro enguiçado dali a treze quilômetros e vadiava a viagem com algumas histórias engraçadas, quase inverossímeis, sempre arrematadas por frases como “não quero ter pernas pra chegar em casa”, “por essa luz que me ilumina”.
E eu olhava meio incrédulo aqueles dois projetos de fachos de luz lançados dos faróis cansados, mas ria gostoso das histórias do mecânico, que me garantia pôr andando um carro em que outro gastou quatro horas para chegar à conclusão de que ele não andava por qualquer razão inexplicável.
De fato o carro andou depois de vinte minutos do toque mágico de Geneci, mecânico já mais que engraxado em eixos e bielas. Andou sob protesto até o fim da viagem, como se não quisesse chegar.
A noite, entretanto, estava tão estrelada, de quase nunca se ver, que talvez fosse melhor o carro ter empacado até o dia raiar, para que eu não perdesse um espetáculo que já há muito meus olhos simples deixaram de contemplar na cidade grande.

27 de setembro de 2011

NA PRAÇA DOS DESESPEROS

bem no meio da praça dos desesperos
plantada no centro da cidade
quase nada acontece
nos dias úteis.
nos inúteis
os uivos dos casais de namorados
os gritos dos perdidos
dos achados
e a devastação total
nos corações dos solitários.

Paul Garfunkel (*1900+1981), Os namorados da Praça da
República (em cultura.pr.gov.br)

26 de setembro de 2011

POEMAS MÍNIMOS III

I. GRAND MONDE

ave ovos e ovários!
ave vários!
aviários
e tudo é uma galinhagem só!


II. FORAM-SE AS POMBAS

houve pombas nos pombais
hoje há bombas arsenais
mas raia sanguínea e quente a madrugada
desintegrando nossos sonhos tolos


III. EU SOU ASSIM (OU QUASE)

tudo de mim/nada
pouco de mim/basta
tanto de mim/farta
nada de mim/mata
e se for só um tiquinho
aí é que nem cachaça


IV. TALVEZ

talvez saia
talvez fique em casa lendo jornais
a noite porém é tão propícia
que vale um desencanto
uma frustração
um porre
quem sabe um encontro


V. AMANHÃ INÚTIL

a expressão das faces dos que à beira dos copos se olham
fere a noite
e instala nas consciências a certeza de um amanhã inútil

Toulouse-Lautrec, No Moulin Rouge, 1892.

24 de setembro de 2011

SUSPEITA

Às vezes suspeito
De que o que eu suspeito
Desse bando de homem insuspeito
Tipo Zé Genoíno Zé Dirceu
Seja apenas defeito meu
Eu que brasileiro incréu e ateu
Pense de fato de um jeito
Que não dê margem a crer
Que essa gente impoluta possa ser
Gente de muito direito
E assim só veja defeito
Em gente de bem de respeito
E assim suspeitando
Quedo-me bastante aflito
Por achar que em todo político
Se esconda um vírus maldito
Se aloje sinistro vampiro
Que só queira sugar nosso sangue graxo
Nossa pretensão ética
E nossos sonhos ignaros

Imagem em nabalsa.blogspot.com.

23 de setembro de 2011

CORRIGINDO O POLITICAMENTE INCORRETO

Não quero ficar à margem da modernidade. Quero ser, como se dizia outrora, up-to-date. Detesto estar por fora, ainda mais que não sou umbigo de vedete (Na minha época de menino só as vedetes punham os umbigos de fora, o que gerou a frase: Mais por fora que umbigo de vedete. Depois as coisas começaram a melhorar.)
Por isso, estou antecipando-me às cabeças mais antenadas e venho propor a alteração do título de algumas obras, ou de algumas expressões consagradas na língua, porém eivadas (gostaram do adjetivo?) de preconceitos.
Aí vão elas.
O negrinho do pastoreio – Lenda do sul do Brasil também presente no Uruguai, contada pelo gaúcho Simões Lopes Neto no livro Contos Gauchescos & Lendas do Sul (1912), que agora, está totalmente fora dos padrões da correção política. Seu título será alterado para O afrodescendentezinho do pastoreio.
Criado mudo – Peça do tradicional mobiliário doméstico brasileiro, cujo nome foi dado, porque, à época de sua criação, os criados não tinham direito à voz. Hoje tudo mudou (sem trocadilho): quase ninguém tem mais criado em casa. Na verdade, boa parte das pessoas se cria nas ruas. Em todos os casos, se o tiver, deve adotar o nome criado deficiente falante (forma popular) ou criado afásico (forma culta), a fim de se enquadrar aos novos tempos.
Cachaça Nega Fulô – Cachaça de excelente qualidade – e digo isso de ciência própria – fabricada no município de Nova Friburgo/RJ. Por um descuido de seu fabricante, saiu o nome politicamente incorreto. Vamos corrigi-lo para Cachaça Afrodescendente Fulô. O porre pode ser até o mesmo, mas o nome não.
O navio negreiro – Talvez a obra (1869) mais representativa entre todas as que escreveu, no curto espaço de sua vida no século XIX, o bardo baiano Castro Alves, “poeta colosso, sujeito moço, mas soube o que fez”. Como sempre foi um batalhador das causas sociais, certamente estaria entre os combativos politicamente corretos de hoje e mudaria o título de seu belo poema para O navio fretado para o transbordo de afrodescendentes.
A moura torta – Célebre conto popular da Península Ibérica, surgido à época da sua ocupação por forças da Al-Qaeda medieval vindas do Oriente Médio, via Magreb, comandadas por Tárique, que atravessou o Estreito de Gribraltar, no início do século VIII. Por isso, portugueses e espanhóis criaram a história de uma moura extremamente feia que aterrorizava as criancinhas, só para sacanear os sarracenos. Como hoje fazer isso é um perigo medonho, sugiro a mudança para A conterrânea de Maomé portadora de deficiência física deformante. (A história pode muito bem nem ser essa, mas fica politicamente incorreta, não é?)
O velho e o mar – Romance famoso (1952, The old man and the sea, no original) do não menos famoso Ernest Hemingway, inveterado escritor, casador e bebedor norte-americano que acabou por suicidar-se aos 61 anos de idade. Hoje não se pode mais chamar velho de velho, como todos estão cansados de saber. Inventaram tantas expressões hipocorísticas para atenuar os problemas advindos da vida longa, que quase não se veem mais velhos por aí. Sua obra hoje certamente se intitularia O portador de hipertrofia etária e o mar.
O escudo negro – Filme hollywoodiano de 1954, estrelado por Tony Curtis e Janet Leigh, os bonitões da época, e dirigido... por quem mesmo? Naquela altura não se dava muita atenção a diretores, mas vá lá: Rudolph Mate. Norte-americano às vezes é meio sem-noção mesmo. Já quando do seu lançamento ocorriam historinhas desairosas sobre o título do filme, que foi levado às telas do Cine Monte Líbano, em Bom Jesus do Itabapoana, em sessão nobre de domingo.  Parodiando a paródia da época que fazia trocadilho infame, o título deve ser: Os ânus dos afrodescendentes.
Terça-feira gorda – Embora hoje ninguém mais use esta expressão em língua portuguesa para referir-se à terça-feira de Carnaval, é bom que se lhe troque, no mínimo, o adjetivo incorreto. Nos Estados Unidos ainda se usa a expressão francesa Mardi Gras, que é exatamente terça-feira gorda. Os problemas com a balança devem ser restritos a quem os tem. Os outros, sob pena de serem acusados de incorretos, devem abster-se desse tipo de juízo de valor. Isto também vale para a farra do Carnaval, que deverá ser, assim, terça-feira com sobrepeso, mas já está fazendo regime para emagrecer.

Olha o mardi gras aí, gente! (imagem em anaviaja.blogspot.com).

Chocolate Diamante Negro – A Lacta, apesar de branca em sua marca – Lacta é praticamente leite –, deu nome politicamente incorreto ao seu chocolate mais famoso. Hoje deve renomeá-lo para Chocolate Diamante Afro.
Anão de jardim – Peça decorativa, normalmente de cerâmica, de duvidoso gosto estético, que se vende em barracas à beira da estrada para Itaboraí/RJ. Embora tenha esse pedigree de baixa extração, não merece o nome que lhe deram. Sugiro: prejudicado verticalmente de jardim. Quem sabe o preço de venda não possa ser até maior?
O vermelho e o negro – Obra-prima da literatura francesa (1830), escrita por Stendhal, que teve muitos problemas por suas posições políticas. No entanto – como diz o ditado: casa de ferreiro, espeto de pau –, não atentou para o título incorreto, mesmo em francês, de seu romance, Le rouge e le noir. Proponho a retificação para O vermelho e o afro.
Cabra cega – Inocente brincadeira infantil, da fase pré-cibernética, que fazia alusão à impossibilidade de o animal ter a visão das coisas que o cercavam. A palavra usada, então, hoje está marcada por um odioso preconceito, embora cego continue não enxergando do mesmo jeito. Em todo caso, proponho a alteração para cabra deficiente visual, ainda que não veja (Veja só: será que eu sou um cabra cego?) criança nenhuma brincado mais disso.
Loura burra – Atualmente não é mais possível identificar as pessoas pela cor de sua pele – a não ser a própria, a fim de ganhar sua cota em diversos estamentos sociais –, ou pelo emaranhado e colorido de seus cabelos, nem pela circunferência de sua cintura, assim como suas inclinações eróticas. Estes são tempos realmente difíceis, que nos exigem um grande conhecimento de sinônimos, antônimos, parônimos, homônimos e, por que não dizer, homófilos. Tem-se a impressão de que o burra, na expressão, não ofende tanto quanto o loura, por isso proponho sua alteração para mulher portadora de cabelos desprovidos de melanina e deficiente do ponto de vista do quociente de inteligência e das informações culturais adquiridas (Vejam só o trabalho que dá a loura burra.)
Negro é lindo – Música que deu título a elepê (O troço é antigo, como podem perceber: é de 1971.) do compositor, cantor, músico e guitarreiro Jorge Ben, meu ídolo e hoje nomeado Jorge Ben Jor, fazendo a propaganda da beleza dos de pele tisnada. Mais correto seria, numa releitura carregada de boas intenções modernas e que, com toda certeza, aumentaria a arrecadação de direitos autorais: O afrodescendente não é feio, não!
Roda de fogo – Novela da Rede Globo, exibida entre l986 e l987, que faz grosseira referência a problemas que ocorrem no fiofó da pessoa que sofre de prurido anal. Na época, as coisas eram muito liberadas mesmo, e os autores lançaram mão desta expressão chula para se referir àquela parte da anatomia do herói que passava por problemas. Nela, é bom dizer, não havia o sentido subjacente de “queimar a rosca”, como querem os maledicentes. Como evoluímos bastante no quesito mestre-sala e porta-bandeira, bem como em evolução e harmonia, sugiro mudança do título, agora com viés médico: Hemorroidas ardem.
O caso dos dez negrinhos – Agatha Christie, a autora do livro publicado em 1939, não tinha nada que se meter no caso deles. Deixasse para lá. Era coisa que não dizia respeito a ela. Mas sabem como são os escritores, não é mesmo? Bastava não usar a palavra politicamente incorreta negrinhos, que pegou muito mal, tanto que nos Estados Unidos, o livro ganhou outro título, a fim de que não fosse acusado de racismo. A edição brasileira traduziu ao pé da letra a expressão little niggers presente no título inglês. É preciso mudar, sem esconder o caso deles, pois hoje está tudo muito liberado: O bofe dos dez afrodescendentezinhos.
Por aqui ficamos, por hoje.

22 de setembro de 2011

O QUE É UM POEMA?

O que é um poema?
É uma ilha de palavras
Ou quase nada que se diz?
É um dilema de palavras
Ou uma tentativa infeliz
De querer fazer arte
Em qualquer sentido?
Um poema é um poema
E quando muito um poema
Mais ou menos assim
Como um pastel de carne
É um pastel de carne
De um botequim qualquer.
Ou é comível ou não
E nada mais importa.
Nem quem o fez
Nem de que se constitui.
Se o continente e o conteúdo
Se amoldam se adéquam se completam
É comê-lo sem culpa.
Mas há os pastéis de vento
Como este
Que com as mãos sujas
Tento fazer sem a mínima compostura.


G. Braque, Violino e flauta, 1913, em artchive.com.

21 de setembro de 2011

O RIO DE JANEIRO VISTO DE BAIXO

o rio visto de cima é uma beleza
até a baía não parece a mesma
com seus detritos.
é paisagem pra turista.
aqui debaixo no entanto
o pau quebra
a barra pesa
a situação tá preta.
o rio é igual
a qualquer cidade do planeta
ou pior...
e chamá-la hoje maravilhosa
é apenas figura de retórica.

Imagem em blogeuodeio.wordpress.com.

19 de setembro de 2011

QUASE NÃO SAIO

Quase não saio
Quase não vou à luta
A vida que me espera
Numa esquina escura
É a mesma que ainda ontem
Armava um bote seguro
Sobre os mesmos vermes impuros
Como se fôssemos todos
Matéria do mesmo caldo
Farinha do mesmo saco
Rebotalhos amarrotados
Que não se bastam se sabem
Que têm o destino traçado
Em linhas que não se leem
Em páginas não assinadas
Por deuses inexistentes
Por fados não consumados
E ficam esperando que um dia
Os céus lhes abram as portas
Na presunção do futuro
Em paraíso distante
Tão distante e paraíso
Que futuro não existe
Como se imagina existir
E paraíso é só isso
Théodule Ribot, São Sebastião, séc. XIX (imagem
em steveartgallery.se).
Um chiste para fazer
Crermos que somos vivos

18 de setembro de 2011

BOTINA NOVA

Só não fora escravo porque a abolição já se havia espalhado pelo país, quando ele nasceu. No mais, no entanto, bem que parecia um velho escravo: os cabelos brancos, a paga miserável pelo trabalho, o desconforto eterno para sua vida miúda. Mais que um empregado, um fiel cão de companhia para a patroa, viúva fazendeira de muitas posses. Para ele, o progresso não significava quase nada, além da roupa do corpo e de uma ou outra viagem no auto – como chamava o ônibus – para a cidade. Vez em quando, ouvia um radiozinho caipira na sede da fazenda, que disparava no ar Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho e a sanfona bonita de Pedro Raimundo.
Já quase no fim da vida, e nunca tinha posto um sapato no pé. Uma precata que fosse! A patroa, muito reconhecida por todos os bons serviços que lhe prestara, resolveu presenteá-lo com uma botina ringideira, para que ele pudesse ir ao parque de cavalinhos armado bem defronte da capela do Córrego Seco.
Botou a botina lustrosa nos pés e saiu pisando duro, meio desajeitado, como se estivesse numa gangorra. Os amigos, ao vê-lo, mexiam com ele:
- Aí, seu João! Nem passou pelas precatas, hem! Foi logo de botina ringideira!


Imagem em vejapatos.com.br.

E ele, todo bobo, todo folgazão, com aquela coisa rebrilhando embaixo de seu corpo já um tanto alquebrado.
Andou que andou e já sentiu certo desconforto, certo aperto nos pés. Encostou-se à barraca de jogo de argolas, para descansar um pouco, e aproveitou também para tentar a sorte num maço de cigarros, numa garrafa de pinga. Daí a instantes, um suor frio, os pés doendo muito, os olhos se anuviando. Acabou estatelado no chão, completamente fora de si.
O socorro foi rápido. Trouxeram água fresca, abano, desataram-lhe a fivela do cinto, desabotoaram a camisa riscada de manga comprida fechada até o pescoço e, por fim, tiraram a ringideira dos pés. Só isso e melhorou, voltou a si, cobrou fôlego.
- O que houve, o que não houve, seu João?
- Os pé, os pé! Doeno munto!
Examinando o par de botinas, descobriram um punhado de pregos pontiagudos, sem rebatimento, nas palmilhas.
- Mas, seu João, seu João! Suas botinas tão que é prego puro! Por que o senhor calçou desse jeito, sem rebater os pregos?!
E o velho, inocente dessas maldades de precatas, sapatos, botinas, pregos e calos:
- Uai, gente! Eu pensei que era pra dá mais firmeza nos pé!

16 de setembro de 2011

VAI-SE O PRIMEIRO "FRIEND"

Na década de sessenta do século passado, fundamos um clube em nossa pequena vila de Carabuçu: o Friend’s Club, assim mesmo em inglês, já com os acordes do recém-aparecido rock’n’roll sobre nossas cabeças.
Éramos um grupo de sete amigos, mais ou menos da mesma idade: Celinho, Augusto, Adilson, Zé Luiz, Ari, Rubens e eu. Depois, com o beneplácito de todos – houvesse um senão e a coisa não ocorria –, admitiram-se outros sócios: Délbio, Dalson, Fernando, dentre os que me lembro, porém acho que não mais que outros.
Reuníamos-nos semanalmente, quase sempre aos domingos após o almoço, para trocar ideias, falar da vida, de livros, de cinema, de música, combinar passeios e visitas. Menos de política, que, àquela altura, andava muito exacerbada com as correntes de direita de Carlos Lacerda e de esquerda de Leonel Brizola. Este assunto ficou proibido estatutariamente, a fim de que não nos engalfinhássemos por questões ideológicas. Éramos amigos acima de tudo e devíamos prevenir. De futebol, podíamos falar, ainda que Zé Luiz, por exemplo, nem estivesse aí para a bola rolando.
O mundo fez com que crescêssemos e procurássemos nossas trilhas no emaranhado da vida, que, a cada ano, se tornava mais cheia de responsabilidades.
Celinho e Fernando, irmãos, foram atrás de suas carreiras no Banco do Brasil; Augusto e Rubens ficaram por lá e hoje são atuantes advogados; Ari mudou-se para Brasília com seus pais e lá também exerce a advocacia; Zé Luiz, durante anos, exerceu o magistério, com um trabalho admirado por todos, e mais recentemente veio para Niterói; Adilson, exímio jogador de futebol, mudou-se para Itaperuna, para atuar por um time hoje inexistente, e estabeleceu-se como contabilista; Dalson sumiu pelo Rio de Janeiro e muito pouco nos encontramos; Délbio continuou por lá e também tem escritório de contabilidade; eu vim mais cedo para Niterói tocar a vida, procurar meu rumo. Todos nos casamos, tivemos filhos, alguns são avós como eu e, vez em quando, sabemos notícias uns dos outros, embora aqui tenha convivência mais frequente com Zé Luiz.
Pois agora, deste grupo de friends, o Adilson nos faz a desfeita de partir, sem mais nem menos, fulminado por um coração que talvez não lhe coubesse no peito. Hoje, em Itaperuna, onde morava com sua esposa, Austerlite, tendo os filhos por perto, nosso grande amigo, carinhosamente chamado por todos de Adilson Zé Mané, ou simplesmente Zé Mané, abriu mão – e posso dizer que contrafeito – do que a vida nos proporcionou durante seis décadas.
Vai ser difícil encontrar uma gargalhada mais sonora que a dele! Imagino para Austerlite e os filhos a falta que irá fazer.
Soube apenas agora desta tragédia que a vida nos reserva, e não pude ir ao seu sepultamento. Porém, daqui desta singela página, deixo a despedida dolorida ao meu amigo e primo Adilson Soares de Oliveira, o Zé Mané, a quem dediquei a postagem Campos dos Goytacazes (anos sessenta), em 16/01/2011.
Você fará falta, cara!

POESIA QUALQUER

posso rimar qualquer coisa
com coisa alguma
ou com coisa e loisa
como se dizia outrora.
só que não vou rimar porra nenhuma.
a poesia não é só isso
nem bem isso e aquilo
nem nada do que você quer que ela seja.
muito menos compromisso
com o lírico o verídico ou o político.
poesia às vezes é o tempo a cabeça
o papel a caneta a mão a mesa.
ou talvez nem isso!

Em myworldjustforyou.centerblog.net.

15 de setembro de 2011

AVISO À PRAÇA

quem não ler os meus poemas
será por mim amado
quem detestar os meus poemas
será por mim amado
quem se mostrar indiferente aos meus poemas
será por mim amado
entretanto quem gostar dos meu poemas
sem sofreguidão
sem dilaceramentos
sem convulsões
assim numa calma tranquila e pachorrenta cumplicidade
sofrerá os empuxos de minha paixão
e por amá-los amar-me-á
(e disso não abro mão)
uma vez que escrevo para ser múltiplo
eu que perdido nessa vaga pessoa em que me exponho


Souza-Cardoso, Pintura, 1914, Museu Municipal
Souza-Cardoso, Amarante, PT.

14 de setembro de 2011

A MÃE DO DOUTOR AFONSINHO

A mãe do Dr. Afonsinho era um libelo contra a atividade profissional do filho. Endocrinologista rigoroso com seus pacientes, tinha seu trabalho solapado pelas taxas de dona Cinira: todas escandalosamente acima do que recomendam os manuais médicos menos rigorosos.  Colesteróis, triglicérides, glicose: tudo pela tampa, como se diz popularmente.

Aí Dr. Afonsinho ficava sem moral para exigir de seus pacientes a parcimônia no consumo de costeletas de porco, linguiças, chouriços, massas e guloseimas em geral, sobretudo a excelente goiabada cascão com queijo gordo e a ambrosia de pôr a perder deuses do Olimpo que se faziam na região.
No entanto, dona Cinira havia decidido, tão logo enterrara o marido no campo santo do Morro do Cruzeiro, debaixo de luto fechado, que doravante teria outros prazeres que não apenas as saliências de lençóis, como era do agrado do finado e das quais, verdadeiramente, não achava muita graça. Então se dedicou a comer tudo aquilo que a saúde melindrosa do extinto marido, quando em vida, lhe limitava e cuja dieta se resumia a caldinhos, sopinhas, papinhas, coisas assim de uma sensaboria desgraçada.
Em vista deste seu novo comportamento, vez e outra, Dr. Afonsinho exigia de sua mãe que fizesse os controles habituais. E a encaminhava ao laboratório do amigo Hélio, especialista na aferição das taxas dos seus pacientes suspeitos. E lá ia dona Cinira, contrafeita, exibir seu braço para que o vampiro recolhesse dela a quantidade de sangue capaz de denunciá-la ao Conselho Regional de Medicina.
No entanto, por orientação de sua vizinha de muitos janeiros, descobriu uma fórmula eficaz para iludir as medições empreendidas pelo patologista: passava uma semana a poder de suco de couve, em jejum, e dieta de jiló, no almoço e no jantar, ao fim da qual se dispunha a fazer o tal controle exigido pelo filho.
Assim que recebia o resultado com os números dentro de limites civilizados, corria para a lanchonete Pastéis & Sucos, bem ali na rua que vai dar na ponte, e se agarrava a coxinhas, rissoles, pastéis, acompanhados por caldo de cana e refresco de groselha carregado no açúcar, de fazer o pâncreas se assustar.
Nesses momentos, indefectivelmente, passava algum colega do Dr. Afonsinho que, apavorado com os exageros da velha senhora, ligava para seu celular, a fim de que ele tomasse providência imediata, sob pena de dona Cinira sair dali em coma diabética grave, ou com entupimento definitivo das coronárias.
Quase sempre Dr. Afonsinho não podia, porque, naquele mesmo instante, estava em atendimento no hospital. Então providenciava uma ambulância de folga e determinava a dois enfermeiros que fossem lá na lanchonete resgatar sua mãe, antes que uma catástrofe se abatesse sobre ela e a Medicina não dispusesse de recursos para mantê-la no rol dos vivos.
Dona Cinira saía de lá, sob veementes protestos, implorando pela ajuda do proprietário daquela casa de perdição, Antônio Manuel, que infelizmente não podia fazer nada, já que ele mesmo estava sob a vigilância rigorosa do médico, visto também andar abusando de frituras, gorduras e açúcares.
E, olhando triste dona Cinira ser introduzida na traseira do reboque médico, como se fosse uma louca perigosa, dizia-lhe:
- Dona Cinira, se não é a senhora, sou eu! A senhora conhece seu filho, dona Cinira, mas abusa demais da conta! O que é que eu posso fazer, dona Cinira? O que é que eu posso?
Como grand finale, lá ia a ambulância, sirene ligada, pedindo passagem aos outros veículos e aos pedestres para, mais uma vez, salvar dona Cinira, como determinavam as recomendações rigorosas de seu filho endocrinologista e depositá-la em sua casa retirada da cidade, na chácara da Volta da Areia.

Rembrandt, A aula de anatomia do dr. Tulp, 1632 (imagem
em pt.wikipedia.org).

13 de setembro de 2011

INSTANTÂNEO MATINAL

expira o dia seu hálito perfumado de agosto
pela janela aberta sobre a manhã de frio.
um náufrago da madrugada dorme enregelado
no aconchego de jornais e trapos
sob a marquise do edifício:
eis aí também o rio.

(Imagem colhida em beagleclub.blogspot.com.)

12 de setembro de 2011

ÉDIPO E A ESFINGE

(Édipo e a esfinge, Museu do Vaticano.)
que país é este? interroga a esfinge
apenas finjo que não ouço
e continuo marchando no cordão desesperado
dos desterrados sem direção

que país foi este? pergunto à esfinge
que finge não me ouvir
e continua hirta sobre o abismo
em que nos iremos atirar logo a seguir

que país será este? indagamos os dois
mas fingimos que não estamos nem aí
antes de nos precipitar do alto do penhasco
no mar de lama que nos tragará a todos.

10 de setembro de 2011

PENSAMENTOS BEM PENSADOS VI

Imagem tragarte.blogspot.com.



Nestes novos pensamentos bem pensados, há uma forte tensão entre o politicamente correto e o político incorreto, de modo que alguns deles podem chocar, galar ou simplesmente gorar, como ocorre aos ovos.
Todos eles, é claro, cheios de pretensões humorísticas, que não estou aqui para dar lição de vida a ninguém. Isto fica lá para a extensa literatura (?) encontrada nas prateleiras das livrarias, com seus habituais autores, grandes arrecadadores de direitos autorais.
Apraz-me (Eta verbinho mais antigo!) apenas e tão-somente fazer algum chiste (Eta substantivozinho mais demodé!), porque sei que, com eles ou sem eles, minha conta bancária - que anda mais periclitante que a de alguns países europeus - não vai sofrer modificações significativas.
Vamos a eles, sem mais delongas!
1. Os gays, ultimamente, andam tão ativos, que já estou até achando os heterossexuais muito passivos.
2. Tenho um parente gay, e fico com muita vergonha, quando ele vem me dar esporro por eu ter feito alguma merda machista.
3. Quando um gordo sobe numa balança e ela indica seu sobrepeso, não sou eu o politicamente incorreto.
4. Neguinho safado é um cidadão afrodescendente politicamente incorreto por suas práticas antiéticas e prejudiciais a seus semelhantes.
5. Na Bahia, os movimentos sociais recrudescem até o meio-dia, quando, então, amainam, até encontrar uma rede, um ensaio do Olodum, ou a lavagem da escadaria da Igreja do Bonfim.
6. Os camarões pitus criados em Itu, sem exagero, são do tamanho de pirarucus.
7. Será que o movimento gay só dá para trás, ou experimenta algum progresso?
8. Machista, quando broxa, se sente mais acabado que bicha aposentada.
9. A prática recente da adoção de crianças por casais gays implicará necessariamente na adaptação de toda teoria freudiana. Serão dois pais ou duas mães, o que, convenhamos, é demais para qualquer equilíbrio emocional.
10. Não há nada mais improdutivo que mesas-redondas sobre a última rodada do campeonato brasileiro de futebol. Nem mesmo um singelo lateral será revertido, malgrado todas as críticas fundamentadas dos comentaristas abalizados.
11. Numa derrota por goleada, não há nada mais desonroso que o famigerado gol de honra.
12. Pior que ser goleiro de time de várzea, é só servir para bandeirinha e ainda correr do lado que tem urtiga e pó-de-mico.
13. Na linguagem jurídica, uma transa vira conjunção carnal. O mesmo não se dá com a gramática.
14. Pressupor que, um dia, o ser humano dará certo comprova a ideia de que o ser humano é mesmo incorrigível.
15. Nada do que o Júlio César, goleiro da Seleção Brasileira, já pegou nos campos de futebol se compara ao que ele pega à noite entre os lençóis no recesso do lar. Ai, ai!
16. Pior cego é aquele que, além de não querer ver, pragueja contra a escuridão, xinga o seu autor e mete a bengala no cão-guia.
17. Quando você lança o anzol num rio, para pegar um peixe, e fisga um pneu velho, é sinal de que, além do meio ambiente, seu almoço está perdido.
18. Um coxo e um mentiroso são pegos facilmente. Só que, com relação ao mentiroso, se você não conseguir provas cabais, será certamente processado por calúnia, injúria e difamação.
19. Um mero placar de 1x0, mesmo conseguido de forma irregular, derruba todas as estatísticas de jogo que eram francamente favoráveis ao derrotado.
20. Haverá dia em que os pessimistas terão total razão, o que obrigará os otimistas, consequentemente, a se tornarem também pessimistas. E, assim, felizmente, não haverá mais a axé music.
21. Em toda ditadura, os que têm a dita mole se sentem de oposição?
22. Quando o Brasil se vir livre das duplas de sertanejos universitários, será sinal de que elas ou passaram à pós-graduação lato e stricto sensu, ou, melhor ainda, foram jubiladas da universidade


23. Politicamente correto é uma virtude cívica raramente encontrada em ambientes politicamente frequentados, tais como câmaras, assembleias, congressos, ministérios, secretarias e governos em geral.

9 de setembro de 2011

DESCONSTRUÇÃO

detrás do tapume do prédio em construção
nos momentos de ócio
exala um cheiro forte de aguardente e sexo.
durante o trabalho no entanto
a resignação do operário
compõe o desenho lógico do projeto arquitetônico.
e tudo permanece nos eixos como sempre.

Imagem em olinguarudo.spaceblog.com.br.


8 de setembro de 2011

NEM JOÃO CABRAL ENTENDEU

a poesia resolveu atravessar a avenida rio branco
às cinco horas da tarde
e foi atropelada pelos sons da rua
ficou com fratura exposta
fígado rompido
traumatismo craniano
e um permanente estado de coma popular
coisa que nem joão cabral entendeu

Foto por Marcelo Carnaval, em oglobo.globo.com.

7 de setembro de 2011

GALOS DE BRIGA

Gute ganhou um pintinho. Queria criar um galo de briga, ser o rei da rinha. Sonho de menino.

Tarcísio ganhou um pintinho. Queria criar um galo de briga, ser o rei da rinha. Sonho de menino.

Os dois combinaram criar, treinar, preparar os pintos frangos galos, juntos, até a galória final, isto é, até a glória final.

Foram exercícios para as pernas, aparas em penas, preparativos para o peito e o pescoço. Banho nos bichos, sacolejo nos bichos, susto nos bichos. Lá vão eles crescendo, encorpando. Serão excelentes galos da terra, plumagem escura, os reis do terreiro.

Conversas trocadas, impressões, informações de parte a parte. Expectativa de meninos, os futuros reis da rinha.


Briga de galo, imagem colhida em sergioaperon.com.br.

Até que um belo dia de um verão qualquer, os dois futuros esporões mortíferos, cristas rubras intumescidas, terror de todas as rinhas, acabaram por pôr um prosaico ovo cada um. Frangas incompreendidas que eram.

Viraram ensopado com mandioca no domingo seguinte.

6 de setembro de 2011

ENTRE TAPAS E BOFETÕES

Entre tapas e bofetões, o casal viveu nove meses, até que se desse a separação irreversível, de reconciliação impossível, nem mesmo diante de juiz togado. Neste tempo, suficiente para gerar um filho, marido e mulher geraram tão-somente um ódio recíproco, de raro registro nas páginas matrimoniais daqui e dacolá, d’hoje e d’antanho.
O último beijo que trocaram foi o selinho singelo, após o sim, diante do altar, o padre a incentivá-los, e com o testemunho insincero de um grupo de convidados muito mais interessados nos comes e bebes que viriam a seguir, do que na felicidade dos dois.
Por isso, não havia como aquele consórcio ter obtido qualquer êxito, por mínimo que fosse.
Já na viagem de lua de mel, de que não desistiram para não perder o dinheiro investido, começaram a se desentender, que nem a paisagem idílica do hotel localizado de frente para o lago de Como, em terras de Itália, refreou os embates que se seguiriam cada vez mais constantes.
O único momento que, pode-se dizer, foi de relativa paz se deu quando da tentativa de consumação do casamento, aquela história de botar o pingo no i, porque, hoje em dia, não há mais o que romper, pois já vem tudo rompido antecipadamente. Mesmo esse velho prazer machista de ser o primeiro não ocorreria com ele. Bem que não desse importância a isso. Mas, enfim, seria alguma coisa a marcá-los definitivamente: quem foi o primeiro, de quem eu fui o primeiro.
A viagem de volta se deu num silêncio que os antigos diriam sepulcral, constrangedor. Nem na hora de escolher o jantar, tiveram a educação de olhar um para ou outro. Mastigaram a gororoba aeroviária sem efeito sonoro que pudesse ser registrado por aparelhos de gravação.
Ao chegarem a casa é que se reiniciou o conflito cuja duração só terminou diante do magistrado, para o ponto final na pendenga instaurada.
Os advogados das partes entraram em acordo prévio, sacramentado pelo homem da lei, com a divisão equânime dos bens amealhados durante o período, para que ninguém se julgasse prejudicado na partilha: cinquenta por cento de ódio, pavor, indiferença para ele e para ela.
Três dias depois, ambos já estavam com sua intolerância disponível na praça, procurando por parceiros que quisessem compartilhá-la, até que tudo novamente recomeçasse.
Imagem em mandinhaevih.blogspot.com.