31 de maio de 2011

EXORTAÇÃO


Vamos construir sobre o desespero cotidiano
Uma ponte de metal e sonho que vá dar no nada
Ou no nirvana mundano que esperamos encontrar
Na próxima esquina no próximo ano
E deixar o atoleiro fétido em que mergulhamos
Entre emanações de gases tóxicos e iguanas
E assumir a praça com a claridade da alegria.
Vamos destruir até transformar em escombros
Esse arremedo de projetos e de planos
E levar no roldão dos nossos tombos
O medo a incerteza e a insegurança
E preencher o espaço da baía
Com o suor dos nossos corpos exuberantes.
Vamos cantar dançar alucinar como nunca dantes
E conseguir que nossos filhos nossos netos
Vivam num país um pouco mais decente.
Imagem em moodle.ag-sg.net.

30 de maio de 2011

ESSA NOSSA RICA LÍNGUA I - ASSIM FALAVA CARABUÇU

Capela de Santo Antônio,
em Carabuçu (ferias.tur.br).
Toda terra tem seu jeito próprio de falar. Não seria diferente a minha.
Vivi nela até antes do aparecimento da televisão. Embora Carabuçu estivesse perdida lá nos cafundós do Norte do Estado do Rio de Janeiro, agora transformado em Noroeste, estávamos ligados ao mundo pelas ondas curtas, médias e longas do rádio. E digo isso não no sentido figurado. Podíamos ouvir emissoras de quase todos os quadrantes do mundo à noite. De dia, ficávamos limitados às rádios brasileiras.
Meus ouvidos de menino e adolescente são testemunhas disso. Ainda que não entendesse patavina do que ouvia, ficava curioso, girando o botão, para escutar aquela Babel que me encantava: rádios em língua francesa, alemã, inglesa, espanhola, russa. Havia mesmo uma rádio de Moscou que fazia transmissões em português do Brasil, na época da Guerra Fria, perfeitamente inteligíveis. E era contra-atacada pela rádio Voz da América.
Do Brasil, era fácil sintonizar emissoras da cidade do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Pernambuco, da Bahia, do Rio Grande do Sul, do Espírito Santo, de Minas Gerais, de Goiás.
Vejam que nem tão isolados estávamos assim.
Minha querida tia Alda, irmã de minha mãe, moradora da Serra da Cachoeira Alegre, aí sim um cafundó, era assinante de Seleções do Reader’s Digest. Meu saudoso tio Aurélio, morador da Fazenda do Jacó, era assinante assíduo de jornais da antiga Capital da República: O Jornal, Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, Diário de Notícias. Tudo isso passava antes pela minha casa. Eu mesmo era o incumbido de ir até o posto dos Correios, que ficava na casa da Laura, pegar a correspondência da parentela que morava fora da vila. E a vila também recebia semanalmente a visita de seu Osório, jornaleiro ambulante, morador da vizinha Apiacá/ES, que trazia sua carroça-banca abarrotada de revistas. Minha mãe sempre comprava O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand, da qual tinha uma invejável coleção.
Malgrado tudo isso, tínhamos certo jeito de falar parecido com o mineiro, carregando um pouco na pronúncia do /r/; não chiando o /s/ e o /z/ em finais de sílaba como o carioca, porém não o fazendo exatamente como o mineiro. Como o mineiro, aliás, usávamos bastante trem, uai, sô. O pessoal mais simples trocava sistematicamente o /l/ de encontros consonantais por /r/: franela, praneta, grória; assim como vocalizava o /lh/: fio por filho, mio por milho, ou famia por família. Mulher, por exemplo, se dizia muié; colher, cuié; tulha, tuia; barulho, baruio, e por aí afora.
A negação era sempre dupla, redundante: Não sei não, dito normalmente: Num sei não. A transformação de não em num se deve à posição inicial átona na melodia da frase.
Frequentemente também, na fala geral, o /s/ do plural pulava do substantivo para a preposição ou a palavra invariável anterior, em expressões como des costa, em lugar de de costas; ques perna!, por que pernas!
Os vocábulos proparoxítonos, que foram introduzidos na língua portuguesa pela via culta, a partir do século XVI, já que do latim ao português sistematicamente foram transformados em paroxítonos, também eram com frequência assim realizados: abobra por abóbora; de coque, por de cócoras; fósso, por fósforo; corgo, por córrego; estomo/estamo, por estômago; Aristote, por Aristóteles.
Não eram incomuns formas como preguntar, percisar, sastifeito, sastifação (com deslocamento do fonema), ou lindra, bonecra (com o acréscimo do /r/, fazendo encontro consonantal), entre os falantes mais simples. Bem como a supressão do /r/ e do /l/ finais das palavras: falá, lambê, finá, anzó (falar, lamber, final, anzol). Também se suprimia sistematicamente o /d/ da forma de gerúndio dos verbos: falano, lambeno, saíno (falando, lambendo, saindo).
O pronome você ocorria também nas formas ocê e , conforme a melodia da frase.
Na sintaxe, era comum expressar-se o plural uma única vez, sempre na primeira palavra da expressão: as menina bonita. E a expressão deixa eu ver (deixa-me ver, na língua formal) soava sempre chovê. Era comum, por exemplo, a uma pergunta como “Você sabe onde está o livro?”, vir como resposta: “Chovê!”.
Usavam-se as formas interrogativas cadê, quedê e quede, por exemplo, em frases: Cadê João? Quedê João?. Sabe-se que tais formas vieram de que é de (= onde está).
Mas era no vocabulário que estava a maior parte dos fatos interessantes. Vejam alguns casos.
Por acidente de percurso é que descobrir que mandioca era também chamada aipim. Na minha terra, sempre foi mandioca: mandioca mansa, a que comemos normalmente; mandioca brava (às vezes também chamada mandioca braba), a que se presta para fazer farinha. Um tipo de coco miúdo, que dava em pencas e era amarelo quando maduro, era chamado de coco catarro, pela consistência de sua saborosa polpa. Certo tipo de cogumelo que dava nos pastos: mijacão de cavalo. Cachaço era o porco macho não castrado; capado era o porco castrado para engorda. Potro se dizia pordo ou poldro.
Bola de gude para nós era baleba. Pipa era papagaio ou estrela, segundo a forma; e ninguém a empinava, mas sim a soltava (soltar ao vento). E lá tínhamos balango e balangar, por balanço e balançar, que também eram usados. Briguelo era boneco manipulado, fantoche. Carrossel de parque de diversões era maxambomba. Cobertor bom era coberta; já o mais simples, peleja. Peruca era lá cabeleira postiça. Toalha de banho era enxugador; assim como ferro de passar, engomador. Cata-vento sempre foi papa-vento. Comumente se dizia: cambaleão (camaleão), bassoura (vassoura), barrer (varrer), espumadeira (escumadeira). Lambreta era sandália de dedo; quedes, o tênis calçado, porta-seio, sutiã; guarda-sol o guarda-chuva em dias de sol quente; barguilha, braguilha.
Conjuntivite não existia, mas sim dor de olhos. Torcicolo era pescoço duro; e resfriado, constipação. Diarreia se dizia piriri ou caganeira; caso ela fosse severa com perda de sangue, dizíamos escandescência. Quem era acometido pelo mal de Parkinson estava com a doença de São Guido. Destroncado era o membro do corpo que saía do lugar; e escabufado e escalafobético uma pessoa ou coisa mal arranjadas. Gastura identificava certo mal-estar parecido com angústia, porém mais suave, ou também a sensação ruim provocada pelo barulho do atrito, por exemplo, de unhas raspando uma superfície lisa. Sentíamos também gastura nos dentes. As costas, comumente, eram chamadas de cacunda.
Misturado para nós era o mexido, prato que consiste na mistura de vários restos de comida. Fritada era como chamávamos a omelete; canjicão, a canjica doce; papa, o curau; pastelzinho de leite, rissole; biju, a massa do pastel frita sem recheio; solda (Que creio seja variação de açorda.) consiste em nacos de pão embebidos em café com leite adoçado; batida era vitamina, assim batida de abacate era vitamina de abacate. Por essa época ainda não havia chegado à vila a palavra sanduíche. Assim comíamos sempre pão com carne, pão com ovo, pão com mortadela (que quase sempre era pronunciada mortandela, assim como sombrancelha). Havia, nas padarias da vila, uma rosca grande, salgada, a que se dava o nome de rosca baroa, e um tipo de pudim de pão feito no tabuleiro chamávamos mironga.
Rio era o curso d’água maior, mais largo, como nomeado normalmente; menor era valão, ou corgo, ainda menor. Se fosse só um filete d’água, era valeta, que servia também para designar por onde corria dejetos. Cacimba era o poço de onde se colhia água para uso doméstico; e quartinho ou privada designavam banheiro. E o mau cheiro que de lá saía era catinga.
Caracaxento era áspero. Avexado era envergonhado. Criança esperta era ladina. E ninguém ria às escâncaras, mas pocava de rir, como ainda hoje se ouve por lá. Sair depressa era deitar o cabelo. Lá não havia o hábito de se dizer mentira, mas sim de pregar mentira. Havia uma forma engraçada, usada pelas pessoas mais simples, que significava “ainda hoje cedo”: dejaoje (Grafei assim porque nunca vi tal palavra registrada, mas que era assim pronunciada e formada basicamente com hoje.). Numa frase como “Vi João dejaoje” significava exatamente “Vi João ainda hoje cedo”.
Estas são algumas das características da linguagem corrente da vila de Carabuçu na época em que lá vivi e que minha memória me permitiu recuperar. É bem provável que algumas delas se mantenham, outras tenham desaparecido. Fica aqui este registro.

29 de maio de 2011

VELHA ESCOLA

(Para João Carlos Duarte de Souza, amigo de infância, in memoriam, e Dona Thalita, professora.)

A velha escola está plantada ali no morro
No alto do morro
A sugerir que seus alunos devam subir
Devam galgar
A vida e o morro
O conhecimento e o morro

Lá vão os alunos de azul e branco
De pés no chão
(Sapato era coisa de festa)
Subindo o morro
Galgando a vida

A escola está plantada entre árvores
Sob o azul e branco do céu
Fervilhando de criança

Nas salas o burburinho
Pela festa de aniversário da professora
(O meu presente se espatifou
Com meu coração na entrada)

Lá está a escola no alto do morro
Toda enfeitada de bandeirinhas
A fogueira acesa
A quadrilha girando no pátio
A voz do seu Alcino
A sanfona do tio Tatão
E o toque gostoso do corpo das meninas
Colhida em eb1.figueiredo-alva.rcts.pt
(O máximo permitido por minha timidez
Era este gosto suave da infância)

A escola está lá plantada no alto do morro
Convidando-nos a subir sempre
Essa escola que plantou em cada um
O desejo de subir sempre
Até chegar ao azul e branco do céu



28 de maio de 2011

ALGUMAS FRASES QUE PODERIAM SER CÉLEBRES

Retrato falado do vendedor
que bateu à minha porta
(gartic.com.br)
Comprei, há pouco, uma parafernália eletrônica oferecida na minha porta por vendedor bem apessoado, bem vestido, bem escanhoado, que me garantia que ela era capaz de recuperar os sons primários do Universo.
Como sempre fui muito interessado por essas coisas, paguei o que me foi pedido e tratei de ligar a tralha. Porém, em vez de captar os barulhos produzidos pelo Big Bang primordial, como esperado, ela começou a captar frases ditas em diversas épocas e oportunidades, por personagens famosos e nem tanto, as quais, parece-me, podem explicar muitos fatos e acontecimentos da história da humanidade.
É preciso informar que, cada vez que ligo a traquitana, ela capta em modo aleatório os sons que tiveram sua frequência atenuada, mas que não se perderam e continuam a vagar no espaço. Por isso é que as frases não estão na ordem cronológica de sua produção.
Eis algumas.
- Amaury, glamour aqui em casa não! Por que você não lavou a panela em que fez o mexido ontem à noite?! (Mulher do Amaury Júnior, em casa, no domingo de manhã, depois de uma carraspana no high-society paulistano em que a comida só fez figuração, fazendo com que a fome noturna fosse aplacada com o mexido das sobras da geladeira e guaraná natural.)
- Sexta-feira, no mais tardar, eu pago minha dívida com você, Gamaliel. Hoje mesmo, vou fazer um servicinho extra que me vai render as trinta moedas que lhe devo. (Judas Iscariotes, para Gamaliel, proprietário de empório em Jerusalém da Galileia, em que o primeiro comprava com caderneta de fiado.)
- Quincas, veja bem esse grupo com quem você anda se encontrando às escondidas. Veja bem, Quincas, pois até Cristo, que era filho de Deus, encontrou um traidor. (Amigo carioca de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, em casa de quem este estava escondido nos primeiros dias de maio de 1789, um pouco antes de se encontrar com Joaquim Silvério e ser preso.)
- Luisinho, se com os dez dedos você só chegou a metalúrgico, com menos um e sem estudo você não conseguirá mais nenhum emprego na vida, visse! Você vai ter de ser sindicalista, visse! (Dona Eurídice, ao seu filho Luís Inácio da Silva, logo após o acidente em que ele perdeu o dedo mínimo da mão esquerda.)
- Isaac, não me venha com essa desculpa de que teve uma grande ideia, quando a maçã caiu na sua cabeça. Peguei você novamente dormindo no pomar, seu preguiçoso! (Hannah Ayscough Newton, mãe de Isaac Newton, ao procurá-lo por toda a casa, em Woolsthorpe, e ouvir dele a teoria da lei da gravitação universal.)
- Mamãe, aposto com a senhora que aquele miserável do Pedro não foi nada para as Índias. Aposto que se desviou e foi para alguma praia de nudistas e depois vai chegar aqui com histórias mirabolantes, cheio de novidades. (Dona Isabel de Castro, noiva e futura esposa de Pedro Álvares Cabral, já preocupada com as viagens constantes do gajo.)
- Karl, você sempre com essa mania de redigir manifestos. Pare com isto!  Vai fazer alguma coisa para ganhar dinheiro! Aposto que este também não vai ter a mínima repercussão! (Jenny von Westphalen, esposa de Karl Marx, preocupada com as péssimas condições materiais para a criação dos cinco filhos do casal.)
- Giordano, sem querer fazer piada de mau gosto, você ainda vai-se queimar com estas ideias revolucionárias que anda proclamando aos quatro ventos. Cuidado com essas ideias estapafúrdias! (Giovanni Mocenigo, comerciante veneziano que, não atendido por Giordano Bruno em suas pretensões, alertou vagamente o filósofo, para a traição que ele próprio lhe armaria.)

Desenho por Tinoni
(casadotinoni.blogspot.com)

- Nero, menino peralta, pare de brincar com fogo! Você ainda vai acabar incendiando a casa! (Agripina, mãe do futuro imperador romano, já dado à pirotecnia desde menino.)
- César, não sei por que você foi trazer da Gália esse punhal de presente para o Brutus. Esse menino anda metido com uma turma barra pesada e pode acabar fazendo mau uso dele. (Calpurnia Pisonis, esposa de Caio Júlio César, imperador romano.)
- Pai, tendes certeza de que esta missão que me dais naquele minúsculo planeta azul sem importância, perdido na Via Láctea, vai dar certo? Aquele povo é muito atrasado e hostil, Pai. Mas, se é assim que quereis, seja feita a vossa vontade. (Vocês sabem quem são os interlocutores.)
- Não venha com essa desculpa de que vai sair com os amigos só para lascar umas pedras, Neandertal. Sei muito bem que você vai se meter a caçar mamutes e tigres-de-dente-de-sabre. Olhe que você tem filhos pra criar. Pense no futuro, homem! (Mulher das cavernas, já cansada de ouvir desculpas do homem das cavernas, que não tinha nenhuma perspectiva de futuro para a raça e só gostava de ir à caça. [Ainda não havia futebol na época e os botequins não tinham sido inventados.])
- Estou vendo aqui na sua ficha cadastral, Sr. Santos Dumont, que o senhor solicita empréstimo para custear projeto que tem como objetivo fazer uma máquina mais pesada que o ar voar, não é mesmo? Infelizmente, Sr. Dumont, o nosso banco não vai investir num projeto inviável desses. Isto está fadado ao fracasso! (Gerente de agência de um banco de Minas Gerais, sem acreditar nos projetos visionários de Alberto Santos Dumont.)
- Zifio, num aconseio ocê chamá o povo pra botá as cô da bandera nesse domingo. Esse domingo num tá bão, zifio! Pode dá tudo errado. Os caboco tão me dizeno que isso pode dá confusão, zifio. Pensa notra coisa. Essa ideia tem tudo pra dá xabu, zifio. Oia o que ô todo dizeno, zifio. (Pai de santo, com terreiro perto da Casa da Dinda, durante sessão, para um ex-presidente teimoso que tivera a grande ideia de chamar o povo para apoiá-lo, vestindo as cores da bandeira do Brasil, num domingo feliz em 1992.)
- Majestade, o Sindicato dos Padeiros pediu para informar que não há mais farinha para os pães e os brioches. Sem pão, o povo fica revoltado, e isso é um perigo, Majestade! (Visconde de Calonne, ministro, ao rei Luís XVI, no dia 13 de julho de l789, em Versalhes, nos arredores de Paris, França, antes de o caldo entornar, a jiripoca piar e a chapa esquentar em bleu, blanc, rouge.)

27 de maio de 2011

DILETO AMIGO DO PEITO

Dileto amigo do peito,
Defeito que eu carrego
Que pode nem ser defeito
É esta falta de jeito,
Meio chegado a matuto,
Desconfiado de tudo,
Cheio de manha, que um dia,
Sem que me dê por achado,
Veja não haver outro meio
De enfrentar com coragem
Os fantasmas, as visagens,
Que a vida nos prepara
E acabe metendo a cara
Para afrontar os perigos,
Porque sei que, com amigos,
Tudo fica bem mais fácil.
E assim, nesta batida,
Levarei a vida inteira,
Pois, quando chegar o fim,
Na viagem derradeira,
Aquela que não tem jeito,
Terei a velar por mim
Os meus amigos do peito.

Foto de Nathan Myhrvold(edge.org).

26 de maio de 2011

VEJAM SÓ QUE SONHO ESTRANHO

Vejam se é possível haver um sonho assim.
Um dia um trabalhador, de ócio,
Encontra-se na praça em que passeia
Com o ínclito senhor Palocci
E lhe propõe certo negócio:
- Serei seu sócio, Senhor Ministro!
Palocci do alto de sua sapiência
E sabedor da pretensa esperteza de seu “sócio”,
Que na verdade não passa de um néscio,
Diz-lhe: - Só se for como palhaço.
- Palhaço não posso, Excelência,
Porque o que há de palhaço nessa joça
É troço que as minhas contas ultrapassa!
E Palocci, que de palhaço entende à beça,
Pois faz de todos nós o que lhe apeteça,
Julga que o pobre homem é um beócio
Com a fuça de quem sofre de bócio,
E se exime de dizer o mais que possa,
Pois para ele o que mais importa
É o que possa acrescer às suas posses
E o quanto possa!
Imagem em africaempoesia.blogspot.com.
E o resto é troça!
É muito milho para pouca roça!
É muita novidade para tão exígua bossa!
E para fechar assim essa conversa
Disse o tal ministro assaz com pressa:
- Quem quiser que faça o que faço,
Eu sei cuidar dos meus negócios.
Por isso estamos aqui com cara de palhaço.

25 de maio de 2011

QUARENTA ANOS DE UMA COMEMORAÇÃO MUITO PESSOAL

Estão-se completando, neste escorregadio 2011, quarenta anos em que me formei no curso de Letras do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense, em Niterói.
É interessante observar, ao fazer um ligeiro retrospecto deste tempo, o quanto a formação acadêmica teve de decisivo na minha visão de mundo.
Vinha de uma cidade do interior, mais precisamente de um distrito de um município interiorano, com todas as características dos nativos: o jeito de falar (um pouco chegado ao mineiro), o modo de me vestir, os hábitos e costumes e a visão de mundo.
Mesmo lá morando, sempre fui interessado em coisas mais amplas. Vivia na vila, mas queria o mundo. Era um menino e um jovem simples, porém ansiava por conhecimento.
Como disse num poema que fiz sobre a minha escola primária, a letra impressa me seduziu, e, desde cedo, fui encantado pela linguagem, pelos mistérios da palavra. Lembro-me, por exemplo, de quando ouvi a palavra cafajeste pela primeira vez da boca de meu avô Chico Albino. Tenho ainda na memória o jeito calmo, a fala mansa e a dicção perfeita de meu tio-avô João Pinto. Espantei-me certa vez, ao ouvir de meu pai que um conhecido seu “tinha dado com os costados na cerca”, eufemismo para “morreu”, expressão que ele, com um sorriso, me explicou.
Assim não titubeei em vir para Niterói, abrindo mão de uma nomeação para o Banco do Brasil em 1966, com o objetivo de fazer Letras.
Como estava dizendo acima, algumas matérias acadêmicas me fizeram mudar radicalmente minha concepção de mundo e da sociedade humana. Uma delas foi a Linguística, que tinha à frente o professor Carlos Eduardo Falcão Uchôa, de quem os alunos se tornaram admiradores pela capacidade e competência. Como seu assistente, na época principiante, o dedicado Luís Martins. Outra, ou antes, outras foram as diversas Literaturas, com suas abordagens do fenômeno literário sempre visto como manifestação de um momento histórico e de uma cultura em particular. Sobretudo a Literatura Francesa, com as professoras Lilian Pestre de Almeida e Therezinha Areas, em que tal abordagem era a pedra de toque para o entendimento de obras dos mais diversos períodos. Não se estudava nenhum autor, nenhuma obra ou corrente literária, sem antes conhecer o momento histórico que lhes tinha servido de pano de fundo.
Àquela altura, o Estruturalismo estava no início de sua aceitação nos estudos acadêmicos e, na Literatura, começava, de certa forma, a se desprezar este tipo de abordagem, ao dar prioridade ao texto literário em si, como objeto acabado, abstraído de seu contexto histórico.
Em Linguística, seu papel foi determinante para o entendimento do fenômeno da linguagem, com uma visão científica mais consistente. Porém na área da Literatura talvez tenha abdicado em demasia da importância das influências culturais geradoras do texto literário, embora tenha fornecido instrumentos seguros para o entendimento do fazer literário. Há pouco, Tzvetan Todorov, um dos mais importantes teóricos de então, pediu desculpas pela influência que certos textos seus tenham provocado quanto a este aspecto, justificando-os como produtos da produção acadêmica devida pelos pesquisadores patrocinados pelo dinheiro público francês.
Não sei se todos os que se formaram seguindo sua visão viram a retratação tardia de Todorov.
À época, como me dediquei especificamente à Língua e não à Literatura, julguei sua abordagem um metatexto de sofisticação estéril: a Teoria Literária começava a ver seu próprio umbigo. Depois não sei como ficou, porque me destinei apenas ao ensino de nossa língua materna, a partir dos ensinamentos e das orientações seguras de professores como Maximiano de Carvalho e Silva, Walter de Castro, Rosalvo do Valle, Aloísio Manna, Marlene Mendes, que seguiam a linhagem acadêmica de Souza da Silveira, Serafim da Silva Neto, Mattoso Câmara Júnior e Sílvio Elia, dentre os mais eminentes.
Ao lado de todos eles, incluídos os professores de Língua Latina, Língua Francesa, os da área pedagógica, usufruía da convivência inovadora e profícua com os colegas de turma e de curso. Fiz Português-Francês, cuja turma era pequena. Este curso tinha a fama de ser muito exigente, e a maioria dos alunos, a partir do segundo ano, optava por Português-Inglês e Português-Literatura.
Logomarca criada por
Miguel Coelho.
Por este motivo, lembro-me dos nomes de todos os meus colegas de bateau ivre*: Aldany, Elisalva, Imara Reis, Luiza, Zezé, Lúcia Magarinos, Claudia Chicralla e Alcina (à época já uma senhora de cabelos grisalhos, cheia de disposição). E outros de turmas diversas: Maria Eunice, Ângela e Dayse Bueno, Ângela Caldas, Corina Carap, Marília, Conchita, Glória, Celso, Tânia, Isabel, Mary e Osvaldo, Suely e Fernando Gualda, Gondim, Deila, Paulo Popp, Sussuca, Jorru, Cláudio, José Fernando, Eliana Bueno, Percy, Marisa, Naide, Manitinha, Vera Lúcia, Riva, Cyana, Jayro, Rogério, Eduardo, Maria Luiza, Carlos, Edson, Padre Osvaldo e os funcionários José Torres e Miguel Coelho, este último multiartista consagrado na cidade, e muitos outros dos quais guardo a imagem, mas cujos nomes estão escondidos em algum bit descansado de minha memória. De alguns deles ainda mantenho a amizade até hoje.
A todos eles, que tiveram sua parcela de contribuição na minha vivência, dedico este texto em que, particularmente e de forma bastante íntima, comemoro os quarenta anos de um tempo que foi decisivo na minha vida.
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(*Le bateau ivre, célebre poema de Arthur Rimbaud, poeta francês do século XIX, responsável por uma revolução na poesia ocidental.)

24 de maio de 2011

LABORATÓRIO POÉTICO

toma-se a palavra
massa sonora combinada com a palavra massa sonora
num ritmo inusitado.
puxa-se a ideia que subjaz
ao som ao balanço da frase.
de posse do ritmo
as palavra surgem como carneirinhos enfileirados
ou como manada de bois em louca correria
ou voam como gaivotas
ao som do vento que corta o ar
ou caem pesadas como elefantes
amedrontados pelo rato
ou penetram percucientes
tal raio laser filete de sol
Imagem em olharmais.blogspot.com.
ou chapam como cara batida no poste.
por fim doma-se o acasalamento
do som ao significado
no embalo do verso que se faz.
só então toma-se o papel para escrever.
depois ler reler mexer reler remexer
até aparecer sua face verdadeira
aquela que não esconde a ideia
antes a revela por meios translúcidos:
iluminação que toda palavra deve ser.

23 de maio de 2011

MEUS VERSOS

meus versos são reversos de mim
se neles padeço – na vida enlouqueço de alegria
se neles rio – corre em meu peito um caudal de dor
se neles devaneio – não há nuvens no meu ser
se neles concretizo – em mim mesmo só poesia
e assim vou sendo sempre o contrário o oposto
sempre do fim pro começo quando não quero
ou quando posso de lá para cá cheio de avessos
por isso é que a eles recorro quando não preciso
porque se deles necessito nem se prestam a isso


Van Gogh, Paisagem sob um céu tormentoso, 1888.
Fundação Gianadda em Martigny, Suíça.


22 de maio de 2011

APELIDOS (DES)INTERESSANTES

Os apelidos que se aplicam às pessoas normalmente têm caráter depreciativo. Senão iríamos chamá-las por seus nomes próprios, ou onde ficaria nosso desejo irrefreável para menosprezar o próximo? Outros, no entanto, provêm da profissão, que também foi uma fonte para a criação de sobrenomes em diversas línguas, durante a Idade Média. Neste caso, por exemplo, Ferreira ilustra bem em português. Todos eles, no entanto, detêm sua carga de curiosidade e humor, ainda que de gosto duvidoso. Por esse motivo, resolvi relacionar alguns que conheci durante a vida, os quais, acho, podem divertir um pouco, apesar de muitos terem machucado seus donos. Mas o que se há de fazer contra essa força incontrolável que é a opinião pública, ou antes, a maledicência humana?

(Imagem em obrasileirinho.com.br)
Fincagulha – Aplicador de injeções de uma farmácia de Miracema. Mão leve e precisa, era procurado pelas pessoas por sua habilidade.
Galo Cego – Portador de um problema de derramamento no olho direito, de Carabuçu. Quando garoto, sentia que o apelido era muito dolorido, muito cruel para ele.

Zequinha Escabufado – Tinha as pernas mal ajambradas, como que tivessem levado uma forte pancada de um dos lados, na altura dos joelhos. Não obstante isso, era o melhor ponta direita do time do Soca-Terreiro, da fazenda do Jacó. Na vila, escabufado tinha o sentido de coisa mal arrumada, mal ajambrada.
Antônio Canela de Ferro – Num jogo de futebol, no terreirão de café da fazenda do Jacó, com uma furada, quebrou com a canela uma das traves do gol, feitas de bambu. O apelido foi aplicado logo após o lance.
Toniquinho Lava Bunda – Quando ainda menino, descobriram que Toniquinho, depois de fazer suas necessidades atrás de um moita no sítio em que morava, ia lavar a bunda com a água da cacimba que a família usava para beber. Levou um corretivo, mas o apelido o acompanhou até a morte, já em idade provecta.
Ciloca Pé de Rodo – Meio de campo do glorioso Liberdade Esporte Clube que jogava sem chuteiras, porque nenhuma delas entrava em seus pés meio arredondados. Ciloca já era o apelido de seu nome, Hercílio.  
(Em olharcomcalma.bogspot.com.)
Anoredino Pé de Chumbo – Este, com um chute forte, mandou a bola tão longe e sem direção, num jogo de várzea, que foi preciso atravessar o ribeirão a nado, para que a partida continuasse. Atribuíram o peso do chumbo ao seu pé poderoso.
Aqui Tá Alto, Aqui Tá Fundo – Colega de escola secundária em Bom Jesus do Norte (ES), que, num acidente, ficou com a perna esquerda atrofiada. Andava manquitolando. Um colega gozador lhe deu o apelido.

Mau Hálito Pimentel – Era baixinho. Por isso o colega espirituoso deu-lhe esse apelido, alegando que a bunda ficava muito próxima da boca, o que confundia as pessoas, achando que ele tivesse mau hálito. Embora baixinho, mas muito forte, o apelido não passou de duas semanas.
Antônio Cu de Burro – O apelido foi proveniente da frase, dita em tom lancinante, após um equívoco: ao tentar manter relações sexuais em noite escura, nos pastos de Carabuçu, com uma mulinha viciada, deflorou um burro, que fechou as pregas lá dele na estrovenga do Antônio. Então, gritou para o colega de folganças: "-É cu de burro, Quió!" Daí em diante, passou a ser assim chamado. O colega de aventuras, Quió (apelido de Belchior), que ficou segurando o pobre equídeo, incumbiu-se de espalhar o fato na vila. O apelido encurtava para De Burro, quando ele estava próximo a senhoras e senhoritas, em sinal de respeito.
Zé Pirinconto – Colega de escola primária que sempre dizia pirinconto. “Zé, já fez o dever?” E ele: “Pirinconto, não!” “Seu pai já colheu o milho?” “Pirinconto, não”. Então virou o Zé Pirinconto, mas ele odiava que assim o chamassem.
Mané Pindoba – Apelido extraído da função exercida: tirava pindoba para cobertura de casebres e barracas de festas de São João na vila. Depois apareceu o gerente do posto do antigo BANERJ da vila que tinha o mesmo apelido.
(Imagem em gartic.com.br.)
Jacy Vorta Égua – Jacy foi resolver suas necessidades sexuais com égua bem apessoada. Levou-a para o barranco, como de praxe, e se preparou todo. Quando já estava em ponto de bala, a tímida equina se retirou calmamente da beira do barranco. Ele, desesperado, começou a gritar, no sotaque do povo do interior: "Vorta, égua! Vorta, égua!" Na época, prometeu dar tiro em quem assim o chamasse. Depois sumiu da vila, para nunca mais.
Filhinho Carijó – Membro de uma grande família de descendência alemã, de sobrenome Schuab, adaptado de Schwab, recebeu o apelido em virtude das sardas que tinha, que lembravam a galinha carijó, toda cheia de pintas. Foi um dos beques mais ignorantes que já vi jogar. Com ele, ou passava a bola, ou o jogador. Os dois juntos, jamais! Ele mesmo dizia isso, às gargalhadas.
Valter Matinada – Fazendeiro em Carabuçu, tricolor doente, tinha a voz alguns decibéis acima da dos demais mortais. Falava e ria vários tons acima dos outros. E o mais interessante: não tinha problemas de audição. Por isso o apelido de Matinada, como o galo que acorda as pessoas de manhãzinha. Extremamente bem humorado, era comum ouvi-lo à distância dando suas gargalhadas contagiantes.
Zé Biquinho – Outro colega de escola primária de uma série mais atrasada que a minha. Era sempre mal humorado, embora ainda bem pequeno, e vivia de bico. Meu primo José Luís foi quem assim o chamou, mas deu um baita azar: ele é que ficou conhecido até hoje como Zé Biquinho.
Pinta Roxa – Apelido que fazia alusão a uma pinta escura na bochecha, logo abaixo do olho esquerdo do dono. Ele não se importava em ser chamado assim.
Malhado – Este apelido foi-lhe dado quando um vitiligo galopante tomou conta de sua pele acobreada. Rapidamente o Zé ficou todo manchado. Era motorista de caminhão e, anteriormente, atendia pelo apelido de Zé Galo, por causa do topete que tinha, quando mais novo.
Zé da Lata – Apelido derivado da profissão: era lanterneiro (funileiro, latoeiro, conforme a região), cuidava dos amassados dos carros em Bom Jesus do Itabapoana/RJ. Tanto ele, quanto seu irmão, o Luís Geladeira, quando falavam ao telefone, assim se identificavam: É o Zé da Lata! É o Luís Geladeira!
Luís Geladeira – Apelido derivado, também, da profissão: técnico em refrigeração de prestígio em Bom Jesus e irmão do Zé da Lata.
Zé do Rádio – Outro apelido derivado da profissão: eletrotécnico, consertador de rádio e televisão. Este, infelizmente, teve uma história trágica: sequestrou e matou um garoto, em Bom Jesus, foi condenado e, posteriormente, assassinado, em Rio Bonito, quando estava em regime semiaberto.
Paulo Couve – Colega de segundo grau em Bom Jesus que, certa noite, apareceu na escola com um fiapo de couve agarrado aos dentes. O mesmo que chamou o Pimentel de Mau Hálito criou o apelido para o Paulo.
Mariquinha Põe Tudo – Mulher pobre dos pastos de Areias que, para aumentar um pouco os caraminguás, facilitava a vida de uns e outros. Como também gostasse da função, no momento exato, sempre dizia para o cliente: "Põe tudo!"
Espera Que Eu Tou Chegando – Proprietário de um nariz avantajado, que riscava um triângulo acutângulo a partir da linha da cara. Alguns segundos antes de a sua pessoa adentrar os recintos, o nariz chegava.
Antõi nas Coxas – Este, coitado, era tão feio, que diziam ter sido feito nas coxas, às pressas, sem cuidados.

21 de maio de 2011

MANIPULADORA

Chamava-se Deusa, mas levava os homens à perdição.
Conheci-a quando tinha meus vinte e poucos anos, ela já quarentona, farmacêutica de uma farmácia de manipulação, localizada num canto de rua no centro da cidade.
Inocentemente entrei para comprar pastilhas de própolis, a fim de aliviar uma tosse renitente que me arranhava a garganta, e tive como brinde suas garras dilacerantes por todo o corpo.
Não sei como escapei de suas especiais manipulações de minha incipiente alma masculina. Mas é que chegou um dia de manhã, fazia uma claridade avassaladora, e achei que era o momento de experimentar outras dependências.
Imagem em analiticaweb.com.br.
Estive durante uma fieira de meses sujeito às suas receitas, que usava sem parcimônia, na medida da desmedida, se é que me entendem.
Depois de um tempo, ela sabia mais de mim do que dos sais e das tinturas que usava nos remédios e fazia de mim o que bem quisesse.
De início, encantei-me com suas artimanhas, suas seduções, suas negaças. As mulheres sabem muito bem fazer isso. Principalmente quando têm o dobro da sua idade, o dobro da sua experiência e uma total falta de escrúpulos para com o sentimento alheio.
Deusa era assim: uma diaba pronta a perder sua alma.
Naquele dia de sol resplandecente, quando as coisas parecem caminhar para a solução de todos os problemas, consegui tomar pé no poço fundo em que mergulhara e cuja corda de salvação estava em poder de Deusa.
Eu era o decaído. Ela, a superiora.
Podem não estar avaliando bem o poder que ela tinha sobre mim, talvez porque não estivessem em meu lugar. Mas, ao entrar na farmácia para comprar as tais pastilhas, ela me fulminou com seus olhos de um negro profundo e despejou sua baba incandescente sobre minha pequenez. Era irresistível!
Um dia ainda vou ter a tranquilidade para analisar toda a situação que vivi. Por enquanto este relato inicial é para que saibam que, desaparecido da face da terra, enfurnado em sua alcova, dependente dela como de uma droga poderosa, estou de volta à vida normal, respirando por mim mesmo, sem auxílio de seus aparelhos lúbricos.
Pensam que ela ficou minimamente abatida quando fui embora? Nem uma mísera lágrima rolou por aquela cara linda. Conformou-se, com a autoridade das que sabem o que fazem e o que querem.
Ela tinha certeza de que outro desavisado entraria na farmácia, numa tarde esquisita de outono, para comprar pastilhas de própolis. E aí estaria enredado em suas muitas alquimias. Em seu cadinho de magias.
Seus olhos negros e sua baba incandescente não falham nunca.

20 de maio de 2011

COMO SE PARECEM OS POETAS

Como se parecem os poetas
Mesmo diferentemente uns dos outros!
Cantam os mesmos amores fracassados
Gritam contra a solidão das galáxias no fundo de um quarto
Comemoram suas derrotas pessoais
E os anseios da multidão que
Reunida na praça clama por direitos
E aspira à derrubada de governos
Assim como lamentam a derradeira gota de sangue
Perdida sobre a brancura imaculada do lençol de linho.

Mesmo eu que não sou poeta
Vivo às turras com certos versos
Que pululam na minha cabeça sem cerimônia
Na fila do banco
Dentro dos veículos
Na balada das ruas
Durante o banho
E se deles me lembro depois
Anoto - como estes agora - para que não se percam
Por entre os mais desatentos neurônios
Do meu cérebro vertiginoso.
Pode ser que um dia se tornem poemas.
Nunca se sabe!

C. Portinari, Flora e fauna brasileiras,  1934 (portinari.org.br).