28 de fevereiro de 2011

DO ALPENDRE

Velho no alpendre, colhido em
soniabeth.blogspot.com.
penumbra: é quase sombra.
sob a copada da velha árvore solitária
abriga-se o gado.
o pasto em torno amplia o quadro.
do alpendre debruçado o homem olha suas posses:
tantas braças de terra
tantas cabeças de gado
tantas arrobas de milho
tantos filhos
tantos colonos plantados
por toda a extensão que se avista
e no além da dobra do morro
quase depois do horizonte.
não há questões que não se possam tocar
quando o mundo vem bater à sua porta
pedindo licença, sinhô
              abença, sinhá.
mais que isso é ter a paga acertada
sem prejuízo de nada
no final da colheita.

27 de fevereiro de 2011

POR QUE ME APAIXONEI POR UM CAFAJESTE


Vasily Tropinin, Guitarrista, séc. XIX.
Esta história começa como letra de bolero, trilha sonora de casas suspeitas e alcovas pecaminosas. Mas isso é só a maneira de dizer. Longe estava da personagem principal qualquer ato que lhe pudesse manchar a reputação. Talvez apenas certa ingenuidade, que não se coadunava com as proporções físicas de que era portadora nossa afetivamente frágil heroína.

Pois muito bem! Rosilene não governou seu coração distraído com os devidos cuidados e foi parar nos braços de um tal Roberto Carlos, sósia do cantor famoso, cujo nome de batismo, na verdade, era Silas, seguido de Gomes da Silva, o que não diz muito de sua origem, de seu passado ou de suas pretensões. Gomes da Silva há aí aos milhões por este Brasil afora. Só este narrador conhece uns tantos e é parente de mais outros, pelos quais não se aventura, nem se aventurou nunca, em tempo algum, a meter a mão no fogo. Vê-se, por aí, que a história ficará malparada.
O falso Roberto Carlos vivia de biscates de voz e violão em bares pelas cidades do interior, amealhando dinheirinho pequeno que servia para suas necessidades mais imediatas. Até que chegou a Apiacá, cidade onde Rosilene distribuía sorrisos ao vento e encantava uns e outros com seu porte bonito, seu corpo bem feito, sua longa cabeleira e seus olhos de mel. Numa noite de seresta, movida a caipirinha e aipim com torresmo, Rosilene foi fulminada pelo olhar quarenta e três do dito cantor de voz anasalada e trejeitos do ídolo. Não soube desviar aqueles olhos desprecavidos dos sortilégios do amor e, naquela mesma noite, foi fisgada como um lambari solitário pelo anzol bem encastoado do seresteiro.
Depois de ouvir uma fieira de coisas bonitas e melodiosas em seu mimoso ouvido, foi dormir com a certeza de que encontrara o tal príncipe encantado dos contos de fada. Voltou no dia seguinte, um sábado amargurado, cheio de nuvens esquisitas pelo céu, para a continuação da seresta que começara na véspera, quando também esperava a sequência do emaranhado de metáforas e firulas literárias que o cantorzinho de meia tigela sabia de cor e salteado e distribuía sem parcimônia por onde passasse. Era só haver ouvidos de ouvir.
O Roberto Carlos de araque viu que sua cantilena fora proveitosa, ao perceber Rosilene na primeira mesa do mal iluminado recinto daquela casa comercial. E não pôde deixar de notar o olhar de mel sobre ele, toda vez que ela sorvia, via canudinho, mais um pequeno gole de caipirinha. Os olhos dela, com insuspeito encanto, passeavam por todo ele, como a estudar seus maneirismos de cantor de botequim.
Estava definitivamente apaixonada, a partir do segundo encontro e da terceira música, que ele cantava com tremidos na voz, a fim de não parecer muito com a gravação do seu ídolo (Que ele se permitia essas veleidades de ser original também!): As flores do jardim da nossa casa.
Rosilene viu na interpretação marota do espertalhão, sem disso se dar conta, uma declaração de amor, com pedido de casamento e o projeto do jardim que sempre sonhara ter em sua casa ideal. Resolveu, a partir daquele instante, que franquearia para ele todos os seus segredos mais recônditos, como se dizia antigamente na poesia romântica, todas as suas reentrâncias e protuberâncias, que não eram poucas, nem desprezíveis, pois uma quentura lúbrica percorria-lhe as pernas e os seios, indo parar não se sabe onde e nem é bom que se imagine. Tal fogo finalmente encontrara o bombeiro para apagá-lo ou, quem sabe, o pirotécnico – com perdão da insinuação maliciosa – para ainda mais acendê-lo. A partir de então, fosse o que Deus quisesse, pensou gozosa.
Esta narrativa – como a de Émile Zola em A taberna (L’assommoir) – pula o que é o interstício de felicidade, para encontrá-los, poucos meses depois, na sala da casa dos pais dela, numa feroz discussão sobre os rumos do casamento, ainda nos alicerces. As coisas começaram a esboroar-se, tão logo a lua de mel se findou.
Rosilene descobriu no príncipe encantado um sapo preguiçoso e coaxante, que passava o dia inteiro dedilhando o violão, à procura do acorde perfeito, para cantar pelos bares das cidades próximas, a troco de um cachezinho mixuruca, que não dava para as compras do mês, e ainda tinha de ouvir, por ligações telefônicas anônimas, referências desabonadoras à conduta do mau marido que arranjara, só porque não prestou atenção aos sinais que a todos eram evidentes, menos a ela.
O seresteiro tinha orgulho de jamais ter tido carteira de trabalho assinada, coisa que para ele depunha contra sua condição de artista da MPB, ainda não reconhecido, é verdade, mas em vias de estourar na mídia de todo o país. Era só um olheiro mais talentoso vê-lo cantar. Repetindo pela enésima vez esse argumento para Rosilene é que recusara emprego de balconista no mercadinho do bairro e, assim, permanecia de calção de pijamas quase o dia inteiro, enquanto a mulher saía para trabalhar no salão de beleza da Vanilda, onde fazia unhas, ralava calcanhares e tirava calos das freguesas.
Ali também aproveitava a oportunidade para enfileirar suas mágoas para cada uma delas. Umas ouviam, outras davam pitaco em sua vida. Algumas diziam “marido é isso mesmo, uma praga que não vale nada, bem que abandonei o meu”. Outras lhe davam notícias das reinações que ele armava por onde passasse, sempre segundo “alguém que disse, eu só ouvi, mas não posso revelar quem, você sabe como é, mas que é verdade, lá isso é, porque quem me disse não tem vício de fazer fofoca da vida alheia”. E, por esse disse-me-disse infernal, foi Rosilene pondo-se a par de todas as armações do tal Silas Gomes da Silva, como na certidão de casamento, cuja fama de mulherengo, prevaricador, mandrião, conquistador barato se alargava a cada conversa que ouvia, a cada pergunta que formulava, a cada sítio que frequentava.
Acabou por descobrir que o tipinho reles ficara noivo de duas moças ingênuas como ela, em duas cidades diferentes, Guaçuí e Alegre, por onde soltava seus trinados de galo-da-campina. Para lá rumou com a cópia de seu atestado de mulher traída, nos conformes da legislação civil em vigor, para mostrar a cada uma delas a cacimba seca onde elas estavam atirando seus baldes, na intenção de colher água fresca. Dali não sairia nada, asseverava ela a uma e outra, embasbacadas com a revelação.
- Mas se quiser ficar com ele – aquele imprestável –, pode ficar. Aliás, é um favor que você me faz. Só vim avisar, para você saber com que tipo se meteu.
Este narrador deve confessar que já viu situação parecida - inclusive com gente de sua própria família -, mas se exime de dar nomes aos bois, porque as barras da justiça estão aí para exigir-lhe comprovação com fotos, flagrantes, testemunhas e outras coisas mais. Mas que acontece, isso lá acontece!
Voltando à Rosilene e às noivas desavisadas, pode-se garantir que não houve maior constrangimento entre elas do que a constatação de que todas eram umas bobas crédulas, de uma ingenuidade quase angelical, incapazes de distinguir entre um cavalheiro e um cafajeste, desde que este último esteja apetrechado de todas as maquinações que um homem mesquinho é capaz de engendrar.
Se ele ficou sozinho? Só por uns tempos. Até acertar seus acordes e trinados em outros lugares e encontrar moças desavisadas, à procura do seu príncipe encantado. E tudo que caísse na rede seria peixe!

26 de fevereiro de 2011

URDIDURA

A mim não cabe urdir o que não foi urdido
Pela providência divina, pelo caos, pelo acaso.
E, se acaso tente tecer aquilo que não me cabe,
Acabo sempre por parecer simples fracasso.

Imagem em cidadeseuropeias.info.
A teia que não se cose por impossível sorte,
Em improvável tear de intrincada engenharia,
Sem os dedos de Ariadne, sem sua habilidade,
Mais me enredará de forma inapelável.

Mas, ao chegar o dia em que tal teia, rota,
Se rompa, com escarcéu, ou doce calmaria,
Eu possa, como os grandes, ainda que não creia,
Dizer que tal enredo valeu cada momento.

E, como disse o poeta, se acaso desta vida
Memória se consente, possam também de mim dizer
Depois de algum tempo do convívio ausente,
Apenas que fui amigo, filho, irmão, pai, avô, amante.

25 de fevereiro de 2011

SONETO ININTERRUPTO (Ó, LIBERDADE!)


(Dedicado a todos os que vivem sob qualquer tipo de opressão.)


C. Portinari, Dom Quixote, 1956,
Museu Castro Maya, RJ.

o tempo todo estou no teu encalço
não meço esforço se é para alcançar-te
desfaço em arte o que vier de sorte
como se fosse tão somente esporte
se o dia passa num segundo um corte
uma visão um vulto a inebriar-me
possa que seja o sol que me conforta
ou qualquer coisa que me indica o norte
mas seja então esta incessante lida
com a paixão que me amarra forte
aos teus impulsos a teu contraforte
desejo insano e porte inaudito
ó liberdade deusa dos aflitos
que suga o sangue o sonho a seiva a vida




24 de fevereiro de 2011

PEQUENOS ANÚNCIOS

Este blog tem recebido inúmeras solicitações para veicular propaganda paga. Seu proprietário, com olho grande no que possa faturar, resolveu abrir espaço e publica aqui os primeiros pequenos anúncios. Espera-se que haja alguém interessado a responder. Cartas para a redação, pois os anunciantes pediram sigilo absoluto, com medo do imposto de renda.
 

DENTISTA PRÁTICO: Alferes da Cavalaria, tropeiro, minerador e dentista prático, especialista em bocas malditas, presentemente desempregado, tira dentes com anestesia local, ou melhor, em local incerto e não sabido. Discreto e parceiro. Roga-se não denunciá-lo ao Conselho Regional das Minas Gerais. Dá como referência o Sr. Joaquim Silvério. / Joaquim José Xavier

ESPIÃO PARTICULAR: Serviço garantido. Especialista em revolucionários e subversivos de todo tipo. Mestre em disfarces e infiltrações. Superdiscreto, não levanta suspeita, passando-se facilmente por um dos investigados. Em pouco tempo, entrega às autoridades qualquer tipo que esteja perturbando a ordem, com gesto suave. Pagamento adiantado: 30 dinheiros. Não aceita pagamento em qualquer tipo de corda. / Judas Iscariotes
PROCURAM-SE CARGOS PÚBLICOS: Partido político, sem ideologia definida, procura partido político com que possa estabelecer relações de poder estáveis, porém com alguma turbulência, como um casamento é. Não discrimina credo político – aceita-se qualquer um –, desde que esteja no governo. Todos os seus filiados estão autorizados a negociar cargos e alianças, nos âmbitos municipal, estadual e federal. Experiência atestada desde sua fundação em 1980. / PMDB, Brasília-DF.
TORNEIRO MECÂNICO RECÉM-APOSENTADO: Aposentado recentemente, com larga experiência em máquinas públicas. Aceita função nova que não exija sujar as mãos, como dar palestras, viajar por aí, exibir-se em shows e eventos. Pequeno defeito na mão não atrapalha em nada. A língua presa pode até facilitar as coisas. Cachê a combinar (não se esquecer de incluir a patroa, que o acompanha a todos os lugares). / Luís Silva
VENDO FÍGADO: Vende-se fígado, já testado e aprovado por anos de libações homéricas nos mais diversos botecos e por comida baiana temperada no azeite de dendê e reforçada na pimenta malagueta. Atualmente no estaleiro, só alambicando água, leite, chá preto e aguinha de coco. Ainda pode servir a todo o povo brasileiro que tenha o sorriso do lagarto. / João Ribeiro de Itaparica
MAUSOLÉU: Vendo mausoléu sem uso, bem montado, com estátua de bronze ao lado e alguns parentes agarrados a cargo de confiança, em local de grande valor histórico, em terras devolutas da União de estado do Nordeste, pois não pretendo morrer nunca e largar a carne-seca. A Pátria sempre há de precisar de mim! Preciso do dinheiro para compra da tinta para pintar bigode e cabelo – o preço subiu muito. Só aceito pagamento através de depósito em paraíso fiscal. Tratar com meus filhos, que a comissão fica em casa. / José Ribamar, São Luís/MA.
PIROTÉCNICO: Pirotécnico com vasta experiência em incêndios, músico e poeta incompreendido e ainda não descoberto pela mídia, aceita qualquer tipo de função em que não tenha de levar sua mãe, pois já não aguenta a pressão, ou acabará botando fogo na cidade. Muito hábil para engolidor de fogo de circo cavalinhos. Fala latim com fluência, mesmo que isso para nada mais sirva atualmente. Referências com Peppino di Capri, Nicola di Bari e Bento di Zesseis./ Nero di Roma
Em mondoitaliamagazine.
blogspot.com

PRÍAPO: Homem maduro, rico e poderoso, do ramo de comunicações, com os cabelos sempre penteados, atualmente em cargo político de destaque, que sofre de priapismo incontrolável, necessita de moças jovens e bonitas, descompromissadas, discretas e que não saiam dando com a língua nos dentes, para bunga-bungas e altre cose di piu. Posso, depois, interceder por cada uma, nas mais diversas esferas, quando fizer merda. Ligações para o Palazzo Chigi, pelo telefone privativo. / Silvio B., Primo do Ministro

Imagem best-cine.com.
CRUZEIRO MARÍTIMO: Venha fazer a travessia do Atlântico, no maior e mais moderno navio de cruzeiro do mundo, praticamente insubmergível. Guiado pela nova tecnologia de GPS, adquirida na feira de Acari (Rio de Janeiro/BR). Saída de Southampton. Viajem inaugural, segura e garantida até Nova Iorque. Afogue suas mágoas a bordo com as melhores bebidas: vinhos finos, champanhes, uísques com gelo à vontade e a famosa cachaça brasileira na Água. Darei minha vida para satisfazer a sua: palavra de comandante. / Comandante Smith, RMS Titanic


Em vitrine.blog.br
PÊNALTIS E CHUTES A GOL: Entes do folclore brasileiro e personagens da literatura universal, um tanto ou quanto folgados no momento, em virtude dos brinquedos tecnológicos, vêm oferecer seus serviços para clubes de futebol carioca bicolores ou tricolores, que cheguem à final de torneios e necessitem cobrar tiros livres diretos da marca da cal. Temos pernas firmes, pés retos e confiáveis e não costumamos falhar na hora exata. / Saci Pererê, Curupira, Pinóquio e Pirata da Perna-de-Pau

23 de fevereiro de 2011

UM DIA DE CACHORRO DOIDO!

uma grande e intransponível diferença entre a pequena vila de Carabuçu e Hollywood, mas ali também tivemos um dia de cão, ou melhor, de cachorro doido.

É bem verdade que sem o roteiro de um filme de grande orçamento, sem mocinhos e bandidos, e com cachorro de verdade.

Era uma noite animada de verão, nos idos de sessenta. A "rua" - como chamávamos a vila - estava cheia, com as pessoas a passear pela praça e pela rua principal, quando surgiu a notícia de que um cachorro doido tinha chegado do lado da estrada que vem de Bom Jesus. Para os que não sabem, cachorro doido, para nós, é o cão acometido por raiva (hidrofobia), doença provocada por vírus.

Foi um Deus nos acuda!

Tenho para mim que o maior medo da população do interior não era propriamente de saci-pererê ou mula-sem-cabeça, entes que, vez e outra, andavam assombrando as gentes. O maior medo era de boi bravo, cobra venenosa, fiscal do governo e cachorro doido. Mais ou menos assim, do menos perigoso, para o mais peçonhento.

Algumas vezes, as ruas da vila ficavam à mercê de bois bravíssimos, que vinham tocados por boiadeiros valentes, em seus cavalos ariscos, as ruas vazias, as casas fechadas: todos com medo. Era com pavor que eu me aventurava numa janelinha colocada bem no alto da parede da venda de meu pai, para ver a passagem do boi.

As cobras, por sua vez, só eram encontradas nos matos nos arredores da vila, nas touceiras de bambu ou nas moitas de capim. Mas, enfim, estavam elas no seu habitat. E só atacavam, quando incomodadas. O mais que sabia era pelas narrativas dos homens que frequentavam nossa venda, para as compras da semana, para comerem o pé de moleque afamado que minha mãe fazia e para jogarem conversa fora. Uma conversa que enchia os meus ouvidos infantis de magia e medo: casos de jararaca, de surucucu, de surucucu corredor, de cobra-coral, de jararacuçu e até de caninana.

os fiscais do governo, quando lá iam - e não era com muita frequência - também causavam desconforto, que eu observava pelo fechamento quase completo do comércio local. De repente, parecia feriado na vila. Descobri, muito tempo depois, que um funcionário da coletoria de Bom Jesus mandava avisar a seus amigos da vila de que para lá estava indo a fiscalização. E era um valha-me, Deus!

No entanto, como aquela noite de domingo alvissareira, que terminou mais cedo pelo pânico no povo, nunca mais houve!

Quando se ouviu o grito de "Cachorro doido!", estabeleceu-se um corre-corre nas gentes para dentro das casas próximas. Lembro-me de meninas que eu já olhava com certo interesse correrem com seus vestidos rodados de faixa na cintura. Eu me socorri da casa de meu avô, que ficava bem diante da pracinha.

Imagem em lilicarabinabr.
blogspot.com
 Os homens da vila que moravam próximo ao local do evento correram às suas casas, a fim de se armarem com garruchas, espingardas, paus, facões e o mais que fosse para enfrentar o bicho.

O povo da cidade grande não sabe avaliar o que seja um cachorro doido solto numa vila. É como se fosse um enviado do Belzebu a prenunciar desgraceira. Quem fosse mordido de cachorro doido podia contar que estaria condenado a uma morte pavorosa, como as narrativas tradicionais davam conta: ter de ser amarrado a um tronco de árvore, onde se estrebuchava até morrer, urrando e babando como o próprio cão. Era uma imagem tenebrosa!

Ao recobrar um pouco da calma e da coragem, após a iniciativa de vários homens dispostos a sacrificar o bicho, corri para casa, a fim de avisar a meu pai, porque soube que o cachorro havia entrado no quintal da casa do tio Nalim, que fazia divisa com o nosso. Como eram separados apenas por uma cerca de fios de arame, facilmente o animal passaria de um para o outro.

Meu pai, de imediato, tirou do guarda-roupa sua garrucha quarenta-e-quatro, cano duplo, pintado de branco para evitar ferrugem, e abriu a janela de seu quarto. Foi no exato momento em que o cachorro estava no limite entre os dois quintais.

O tiro que a garrucha disparou no meio daquela noite de domingo ribombou como uma carga de canhão das guerras dos antigamentes. O bicho emitiu um ganido lancinante, anunciando que o tiro pegara nele, e saiu por onde entrara.

Meu pai disse que acertara o "vazio" do cachorro, parte de sua anatomia desprovida de osso, abaixo da costela e um pouco à frente das patas traseiras. E me recomendou que não dissesse a ninguém que fora ele o autor do tiro, o que fiz até o presente momento.

Na vila, então, todos queriam saber quem atirara no cão. Indagavam-se os que tinham armas, uns aos outros, e não fora nenhum deles. Quem foi? Quem não foi? E a dúvida permaneceu.

O bicho ferido se retirou para os pastos do lado do Zé Doença e foi encontrado morto no dia seguinte.

O autor do disparo nunca foi identificado. E nunca mais houve um dia de cachorro doido como aquele em Carabuçu, sem roteiro de Hollywood, sem mocinhos e sem bandidos. Mas com um herói, para mim: meu pai!

22 de fevereiro de 2011

SE FOSSE O AMOR ASSIM TÃO GRANDE

Se fosse o amor assim tão grande quanto se diz
De tal forma desmesurada, exorbitante,
Não caberia no coração humano, distraído,
Que por uma seta fatal do deus Cupido
Fosse alvejado enquanto, num instante,
Se desprecavesse de cuidados e, infeliz,
Sofresse as agruras que o deixam tonto.

Imagem em bridashim.blogspot.com.
O amor, porém, cabe, sem que exorbite
Um tantinho sequer em seus limites,
Do mais jovem ao mais velho dos mortais,
No coração que bombeia, incessante,
Pelas veias e artérias de calibres desiguais,
Todo o sangue que carrega, em seu trajeto,
Alegrias, frustrações, dores e festas.

E, assim tanto cresça em seus aspectos,
Seus contornos, sutilezas ou razias,
Figurando desmedida incalculável,
O amor, por mais que seja improvável,
Caberá de um todo e num só plano
No mais tímido, no mais incerto, no mais banal,
No mais inseguro dos corações humanos.

21 de fevereiro de 2011

O CASAMENTO DEGENEROU EM CONFLITO

Em Miracema, às vezes ocorrem umas coisas esquisitas.
Teteca fora convidado para padrinho do casamento de Valdir e Bernardinho. Foi o próprio Bernardinho, com sua voz extremamente fina, que o convidou, num dos momentos em que Teteca tomava umas e outras num pé-sujo do antigo mercado municipal. Aceitou de pronto, não se sabe se porque já estava para lá de Bagdá, ou porque era muito moderno e não dava bola para o que dele pudessem falar as línguas ferinas da cidade.
As bodas foram marcadas para um dos cômodos da parte superior do mercado onde Bernardinho morava. Sábado, à noite, com juiz de paz de mentirinha e tudo o mais.
Imagem em redeparede.com.br.
Bernardinho se vestiu no quarto de uma colega da noite, acima do seu. Chegou toda maquiada, num vestido branco, véu e grinalda, flores brancas na mão. O noivo botou bermuda nova e camisa polo também branca. Havia vários convidados do grupo GLS, que hoje está muito mais ampliado por outras letras. Periga, daqui mais uns anos, faltarem letras no alfabeto, tal a força encantatória do movimento.
A cerimônia ocorreu sem tropeços, sem complicações. Ambos deram o sim, com convicção. E a festa se iniciou. Salgadinhos e bebidas começaram a ser servidos aos convivas. O clima estava animado e descontraído. Teteca, como sempre, tomava sua cachacinha e observava tudo atentamente. Era a primeira vez que ia a um casamento gay.
pela metade da festa, ou daquilo que poderia ter sido a metade da festa, a noiva resolve subir para tirar o vestido e colocar uma roupa mais leve. O que ela viu no topo da escada apertada provocou-lhe uma reação de tsunami. O noivo estava aos beijos e abraços com uma boneca convidada. Os dois sem-vergonha desceram as escadas a poder de bofetadas de Bernardinho.
Dali em diante o que era festa se transformou numa batalha campal, com tapas, pescoções, puxões de cabelo, unhadas e gritinhos. Teteca que, naquela hora, mal se sustentava em pé devido ao efeito de não sei quantas doses, levou um pescoção tão bem aplicado, que perdeu o rumo da vida. Quando conseguiu – os ânimos já serenados – recuperar um pouco do juízo que ainda tinha, indagava para um e outro :
- O que foi que eu fiz, meu Deus, pra levar porrada? Eu acaso me engracei com quem não devia? Nem gay eu sou! Só aceitei o convite para ser padrinho.
No dia seguinte, curada a manguaça, com um olho ainda meio avariado, contava a história às gargalhadas. Mas prometeu: padrinho de casamento gay em Miracema só com segurança policial fardada. Que não estava aí para apanhar desarrazoadamente!

20 de fevereiro de 2011

ZÉ INCORPORADO


resolveu entrar para a macumba, a fim de dar sossego a sua alma irrequieta e ao seu procedimento um tanto espaventoso. Ele mesmo não se entendia muito bem e precisava de explicações mais consistentes para o que sentia. Nunca dera muita importância às coisas espirituais, mas andou assuntando pessoas e se encaminhou para a convivência com caboclos e orixás, com despachos e incorporações.
Estava no começo da idade adulta e, assim que fez a iniciação, sob a orientação firme do pai de santo, passou a receber o caboclo Zé Pelintra das Ruas, tido e havido como um malandro de marca maior, capaz das piores armações. Porém não se sentiu confortável.
Tal espírito não se encaixava com o seu. Não havia química, como ele dizia. Zé não estava muito bem sintonizado com o tal caboclo, porque o sentia um pouco distante do seu modo de estar no mundo. Não via afinidade entre cavalo e espírito. E aquilo o incomodava. Em conversas com o chefe do terreiro, foi aconselhado a emprestar seu corpo para outra entidade. “Vamos tentar outra coisa”, disse-lhe o pai de santo. Num trabalho especial, pegando um desvio, desceu-lhe com todas as honras a Maria Padilha, afamada como espírito de comportamento libertino, uma vez que, em vida, tinha sido prostituta ou coisa que o valha.
Na primeira incorporação, Zé saiu pelas ruas do bairro de saia curta e blusa vermelha decotada, todo empoado, abastecido de batom carmim, jeito rebolativo e ar dadivoso. Não bateu no bico! Alguns rapazes, que conversavam amistosamente perto da igreja, ao verem a figura surgir oferecida e sensual, arrastaram-no para trás de uma moita próxima e se serviram dele, conforme os estatutos das libidinagens entre iguais.
chegou a casa nervoso, agitado, estropiado, xingando e reclamando com a mãe:
- Mãe, comeram o meu cavalo. Abusaram do meu cavalo, mãe!
A mãe, crente e preocupada, tentou acalmá-lo, mostrando-lhe os perigos da incorporação dessa mal falada Maria Padilha de tantos desabonos. Tomasse cuidado o filho! Tivesse juízo!
E não é que, na sexta-feira seguinte, a dita entidade se apoderou do pobre Zé, que, travestido como uma quenga, sofreu novo abusamento daqueles mesmos infiéis?
Outra vez em casa, novamente reclamou com a mãe:
- Mãe, comeram o meu cavalo. Abusaram do meu cavalo, mãe!
E assim se deu por várias sextas-feiras seguintes, dos meses seguintes.
Imagem em meninasara.blogs.sapo.pt.
Hoje, Zé tem banca montada de pederastia, no varejo e no atacado, atividade que exerce com todo gosto e desenvoltura, agradecido por ter sido auxiliado por Maria Padilha a sair do armário e assumir. E, até hoje, atribui ao Além seu comportamento libertino e dadivoso.
tanta gente dissimulada no mundo!


(Quaisquer semelhanças com pessoas mortas ou vivas, assim ou assado, será mera coincidência, ou denuncio quem me contou a história.)

19 de fevereiro de 2011

SONETO SEM SOLUÇÃO

Gravei teu nome na pedra sabão
A água forte que desceu da serra
Foto de José Sartore, em viajeaqui.com.br.
Lavou teu nome fez espuma à beça
Deixou partido o meu coração

Botei teu nome na boca do sapo
Num desagravo para a ingratidão
Que me fizeste sem nenhum senão
Mas foi inútil esse desagravo

Toquei questão no fórum da cidade
Pedi polpuda indenização
Queria ter de volta o meu tesouro

Mas tu vieste com todo desdouro
Oferecendo como expiação
Só as migalhas que com os cães repartes.




18 de fevereiro de 2011

FOSSE O AMOR UM LAGO BEM PROFUNDO

Fosse o amor um lago bem profundo,
Alta montanha, abismo inexplorado,
Vasta floresta, subida escarpada,
Caverna escura, labirinto intrincado,
Ainda assim seria bem possível
Explorá-lo mansamente e conhecê-lo.

Porém o amor é uma coisa inextricável,
Um troço doido, um trem sem jeito,
Um barato estranho, a que a ciência,
A tecnologia ou mesmo a arte
Não dão suporte para que o amante,
Em qualquer tempo, consiga entendê-lo.

Colhido em genizahvirtual.com.
Está muito mais para atoleiro,
Caminhão sem freio numa ladeira,
Desgovernado,
Ou poço feio de areia movediça,
Ou manada de elefantes enfurecidos
Em correria desembestada,
Ou serpentário.
Assim o amor mete o amante
Numa gostosa enrascada,
Donde sair deixa o sujeito mais desconjuntado
Do que frango atropelado.

17 de fevereiro de 2011

FLASHES DO VERÃO CARIOCA 2011

1. Praça Quinze de Novembro, 12h
Atravesso de catamarã a baía e, quando chego à Praça Quinze, tenho a atenção chamada por música vinda da direita. Pela flautinha enjoada, percebi que se tratava de um dos muitos grupos de música andina que infestam nossas grandes cidades. Devo confessar que, após o surgimento desses grupos tocando por muitos dos nossos espaços públicos, fiquei com uma má vontade danada para comprar cds de música hispano-americana.
Pois muito bem! Lá estavam três filhos do deus Sol, acompanhados de uma parafernália eletrônica a multiplicá-los por três. Um tocava flauta, outra mexia percussão e o terceiro dançava.
Imagem em esmiperu.
blogspot.com.
Vou fixar-me neste último, pois era o que mais atraía atenção. Baixinho, talvez um pouco acima de metro e meio, longos cabelos escorridos, vestia-se com calça de índio navajo de bangue-bangue americano, aquelas de babados laterais. O magro torso desnudo sustentava um exagerado par de asas, de grandes penas, que lhe davam a aparência do anjo do filme Barbarela (os mais velhos e os cinéfilos hão de se lembrar). Tive pena, sem querer fazer trocadilho com a desgraça da fauna, da ave sacrificada para aquilo.
Até aí, nada demais, dirão vocês. O que chamava a atenção, no entanto, era a dança, realizada de forma canhestra, com passinhos laterais saltados, numa coreografia mambembe, que me remetia a outra película, desta vez dos Estúdios Disney: Bambi.
O que era aquilo, meus amigos?! Tenho certeza de que Manco Capac e Tupac Amaru, heróis da resistência nativa aos invasores espanhóis, estão tendo convulsões no túmulo. Aquela dancinha afrescalhada desmerece toda a tradição inca. E estou praticamente seguro de que jamais os aimaras e os quíchuas, descendentes diretos da cultura inca, vão respaldar o papel miserável que esse trio perpetra nas praças desta mui leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
2. “Rio 40 graus, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos...” *
O calor estava de lascar, os termômetros batendo os quarenta Celsius (Se fizermos o câmbio para Fahrenheit, aí fica parecendo orçamento de cidade do interior: lá pelos 104⁰F!). Ia pela esplanada da Praça Quinze, procurando pelas sombras das árvores, quando encontrei pela enésima vez um cidadão que, há anos, pede dinheiro aos passantes, com a mesma boa aparência de sempre. Jamais dei um centavo que seja, pois ele não tem na expressão a menor sinceridade da sua qualidade de coitado social. Também nunca vi ninguém a ajudá-lo. Porém, se há tempo ele faz ponto ali, é porque deve conseguir pescar algo. Ou ele trocaria de pesqueiro. Lugar onde não se pega nem lambari é logo abandonado por pescador esperto.
3. Sinceridade demais ofende
Final da tarde, estava um ambulante vendendo biscoitos de polvilho – os populares biscoitos de vento –  na Rua São José, ao lado do Museu Naval. Anunciava seu produto, salgado e doce, acondicionado em dois sacos brancos, por cinquenta centavos de real.
Diante dele, mais baixinho, cabelos brancos a desbotar a cabeça, um senhor já na faixa dos seus setenta e tais está confirmando o valor do pacote, que julga muito barato (Em dias de jogos no Maracanã, o preço chega a dois reais). Por ter sido a resposta positiva (Sim, foi feito hoje!), desconfiou da qualidade. No entanto, o vendedor garantiu-lhe que o produto era fresco, daquele mesmo dia. Como, na cidade grande, a confiança no outro diminui bastante quando o bico do maçarico está ligado sobre a cabeça das pessoas, vira-se o idoso para o camelô:
- Então, é produto de roubo.
E continuei andando, sem parar, porque previ que o tempo fecharia.
4. Quem não tem competência não se estabelece

Desenho de Lan, em
cartunistasolda.
blogspot.com
O sol quente a queimar meu pobre couro cabeludo, já um tanto desprovido de teto, arrisquei-me a atravessar a Avenida Graça Aranha, próximo ao sinal de trânsito. Estava indo almoçar com os amigos Rogério Barbosa e Eduardo Campos, companheiros desde os tempos acadêmicos. Lá vinha um táxi em velocidade moderada que, aos poucos, parou, para que eu passasse. Pelo menos, foi o que presumi. Agradeci a educação do motorista com um aceno de mão, mas, em seguida, percebi que toda aquela deferência passou do meu lado esquerdo na pele, no corpo, na cor e no veneno de uma mulata. Ela, sim, de fazer parar o trânsito. Eh, Rio Inzoneiro, de janeiro a janeiro!

*Trecho inicial de música de Fernanda Abreu.

16 de fevereiro de 2011

É TARDE


Moonlight, foto de Sheila Machado, em flickr.com.

É tarde
A noite anda à deriva dos meus sonhos
A cidade dorme e eu insone
Vou ponteando com os olhos baços
Figuras hirtas de concreto e bruma

Nada a fazer
A não ser aguardar a consumação dos séculos
A validação dos mitos
A cavalgada horrenda das bestas do apocalipse
... Ou que a manhã desponte
E inicie um novo dia radiante
Como se nada houvesse acontecido antes

(Agradeço a Sheila Machado a autorização para uso de sua foto acima.)

15 de fevereiro de 2011

A VIDA

a vida é um traço torto
um desacerto
um risco roto
que se apaga com um piparote

a vida parece curva e barro
numa via incerta de mão sem volta
Foto de Pedro Wanderley, em flickr.com.

a vida é isso
uma pequena parada
numa estação deserta
no fim da estrada
depois do nada

14 de fevereiro de 2011

NAS NOITES MORNAS DO INTERIOR

 (Dedicado à minha mãe, Zezé Machado de Assis.)
Thomas Sully, Mãe e filho. séc. XIX.


na calçada durante as noites mornas
minha mãe conversava com as vizinhas
sobre o ontem e o então
enquanto o futuro de calção
corria no pique-bandeira
pelas ruas mal iluminadas da vila.
hoje ela sorri esquecida
de que o filho não cresceu
apenas pensa que é homem feito
e tem de suportar todas as batalhas
sem descansar sobre seu colo tépido.



13 de fevereiro de 2011

GRANDES IDEIAS, PEQUENOS FRACASSOS (OU VICE-VERSA, NUNCA SE SABE!)

A presença do ser humano sobre a face da Terra, desde que o mundo é mundo... 
(Por falar em mundo, vou aproveitar aqui para abrir um parêntese sobre a palavra mundo, ou não faria jus a tantos anos como professor. Então, aguentem-me! Não sei se todos sabem, mas mundo é antônimo de imundo, ou vice-versa, esta com o prefixo i- a indicar negação, como em imoral. É claro que o falante perdeu tal noção, pois usamos as palavras em contextos completamente diferentes e sem relação entre si, como ocorre no caso de moral e imoral, decente e indecente. E mundo tem como significado básico, primário, “organizado”, ”ordenado”, ”limpo”. Quando, na Bíblia, se diz que Deus criou o Mundo a partir do Caos, significa que Ele deu ordem ao que estava desorganizado. Na mitologia grega, este papel é de Zeus (o Júpiter dos romanos). Ele é o deus ordenador do caos anterior, herdado de seu pai Cronos e de seu avô Urano. Esta, porém, é uma história muito comprida que não cabe aqui. Voltemos ao motivo deste texto.)
Como ia dizendo, a presença do ser humano sobre a face da Terra, desde que o mundo é mundo, trouxe o surgimento de profissões e atividade laborais compatíveis com cada época, conforme o desenvolvimento que as sociedades humanas, então espalhadas pelo planeta, experimentavam.
Assim surgiram e desapareceram diversas atividades profissionais; outras perderam a importância que tinham; algumas se restringiram a determinadas sociedades ou áreas geográficas, sempre de acordo com a necessidade e o grau de desenvolvimento econômico-social do ser humano.
Por exemplo: durante muito tempo, as cidades tinham o acendedor de lampiões. Essa atividade não mais existe, extinta que foi pelo surgimento da luz elétrica. Na minha vila natal, houve uma época em que havia três cocheiras, locais destinados à guarda e ao tratamento de animais de montaria, geridas pelo cocheiro. Tais estabelecimentos não mais existem lá. A atividade ainda existe, mas muito restrita, atualmente.
Então, por todas essas considerações, fiquei imaginando atividades que, conforme a sociedade a que se destinem, estão fadadas ao fracasso. Uma delas, de que tive notícia recentemente, trata da intervenção cirúrgica que reconstitui, ou cria, o hímen, como se faz na Tailândia, sobretudo em mudança de sexos (masculino > feminino).
Ora, no Brasil, o profissional que fosse especialista em reconstituir ou criar hímens plásticos, no segundo mês do negócio aberto (no sentido econômico e não propriamente nas pernas), estaria pedindo esmolas na esquina, porque atualmente aqui ninguém tem interesse mais nessa película. Lembro-me, inclusive, de uma amiga de faculdade de Letras, já revolucionária nos idos de 68/71, que dizia que a honra da mulher não poderia estar numa película que faz ploc. Devo confessar que, na época, moço tímido do interior, fiquei um tanto chocado. Mas ela, como constatei pouco depois, estava coberta de razão.
Outra atividade econômica que não deve prosperar, por exemplo, em Brasília, é Escola de Ética. Primeiro, que não deve haver demanda de alunos. Mas, se aparecer aluno, este não completará o curso. Se chegar ao fim, não será aprovado. E, caso seja aprovado, a prática o desviará do caminho no primeiro ou no segundo mês de trabalho. Ou não estará em Brasília.
Agora como forma de conselho. Nunca abra loja para vender aparelho de pressão em Salvador. Você vai falir em pouco tempo. Descansado como é o baiano, duvido muito que a hipertensão campeie por lá. E, se quiser vender anti-hipertensivos, aí é que o fracasso será um sucesso estrondoso. Há uma incompatibilidade quase total entre a terra baiana e a atividade ligada a esse ramo de empreendimento.
Para não dizer que só falo em desgraças, dou uma boa dica de atividade que pode dar um troco legal.
Colhida em camilapreta.blogspot.com.
Se quiser ganhar dinheiro, agora é a hora de abrir loja para comercialização de canoa, galocha, capa de chuva, boia e que tais na cidade de São Paulo, durante o verão. O que você vai lucrar nessa época compensará por todo o restante do ano. Pode ser também uma estamparia de faixas de protestos contra o prefeito pelas inundações a cada chuva: “O PREFEITO DE SP NUNKASSAB O QUE FAZER!” (mais ou menos por aí). Estas são duas atividades com retorno econômico garantido na ex-Terra da Garoa, agora Terra das Inundações. “Eh, São Paulo / São Paulo da garoa” (Alvarenga e Ranchinho, mil novecentos e garoa!).
Por hoje é só, e passe muito bem!