30 de setembro de 2010

DEDOS DE PROSA I - AS ELEIÇÕES ESTÃO AÍ!

i - Brasília fede

Em Brasília, Joaquim Roriz, homem probo e limpo de espírito, praticamente uma Vestal da política brasileira, tirou seu cavalinho da chuva e pediu que seus fiéis idiotas – desculpem! – seus fiéis eleitores votem na dona patroa. Se ela desistir, poderão votar no seu cachorro, no seu cágado ou em qualquer pau-mandado que ele indicar.

Aliás, corre na grande rede vídeo* do debate de que participou dona patroa. Foi lamentável! O que é aquilo? Fiquei com vergonha de ver!

Parece que Brasília nasceu com vocação para latrina. É uma pena!

ii - Só mané

Enquanto a legislação eleitoral aceitar a inscrição de candidatos que se escondem atrás de apelidos, ridículos ou não, a política brasileira será essa degradação que se vê. É óbvio que nem todas as mazelas provêm disso. Mas já é um indício de que as coisas vão mal.

O eleitor é obrigado a levar o desacreditado título, cuja validade será atestada por mais um documento com foto, para votar em Tiririca, Zé do Posto, Antônio da Birosca, Neguinho da Água, Leo do Bode, Boy Malvão, Mc Geleia, Barriga do Açougue, Filé, Zé Bonitinho, Eu Faz, Papinha, Broder, Beko Negão, Bimbim, Burrinho da Oficina, Chica Chiclete, Zezinho Merda, Xota Oi Meu Bem, etc., etc.

iii - O eleitor tem de ser idôneo

Não sei se, com a falta de decisão sobre a ficha limpa (ou suja, como queiram), o STF agiu como Pôncio Pilatos, lavando as mãos e postergando sua posição definitiva. Com isso a canalha vai continuar com o direito de se candidatar? Seria assim uma nova espécie de indulgência plenária? Talvez sim!

No entanto esse povinho que milita nos códigos e nas contravenções penais não pagou nada por essa indulgência, como era comum no passado. Ao contrário, surrupiou, tirou, roubou, fraudou, enganou, iludiu, falsificou, matou, traficou, desviou, contrabandeou, prevaricou, açambarcou, invadiu, depredou, cooptou, subornou, foi subornado, malversou, dilapidou, saqueou, despojou, sonegou, etc., etc. E vai continuar faceiro, rindo da cara do eleitor, que terá de levar título+documento com foto para provar que não está cometendo falsidade ideológica e é idôneo para exercer seu dever.

iv - Amputado estadual

Fui ao Rio de Janeiro ontem e vi na Praça Quinze, à saída da estação das barcas, meio boneco gigante do candidato Wagner Montes. Era apenas o busto, vestido com um paletozão escuro, sua cara esculpida em papel machê.

Tomei um susto pelo tamanho do boneco, mas fiquei encasquetado. O Wagner, afinal, tem apenas uma perna ou não tem nenhuma, como seu boneco de propaganda? Escraaacha!

Ê eleiçãozinha mais rastaquera, sô! Mas domingo estarei lá, apertando botões para tentar criar alguma coisa melhor do que temos aí e não uma hecatombe nuclear.

(*Se quiserem ter o mesmo desgosto meu, o endereço é http://www.youtube.com/watch?v=tPAFK_3nx9k)

28 de setembro de 2010

TIO AURÉLIO

Do alpendre, era possível ver os animais pastando, o milharal subindo pela encosta do morro, os cafezais até as grimpas e o arroz no brejo, à esquerda da casa. Bem diante dos olhos, do outro lado da estrada poeirenta, o pé de jenipapo frondoso fornecia sombra para os burros da tropa. Atrás da casa, fora do alcance da vista de quem estivesse no alpendre, o viveiro de café coberto por um maracujazeiro de frutos generosos. O galinheiro repleto, o chiqueiro e as cevas, onde os capados engordavam. Além do valão, que corria dolentemente sobre um leito de areia limpa, as embaúbas com suas preguiças lerdas de séculos e as bananeiras. Ainda as goiabeiras, os limoeiros, as mamoneiras. Mas, sobretudo, os filhos e os sobrinhos, sempre em corriolas alegres, aumentavam-lhe a satisfação de ter construído alguma coisa de mais sólido, de mais perene. E olhava para tudo, como se olhasse por uma nesga do tempo que lhe antecipasse os dias vindouros. Ele, sempre de bom humor com tudo e com todos.

Com a política do governo para os cafeicultores, também foi obrigado a erradicar seu cafezal, que substituiu por gado leiteiro. E sua propriedade, se continuou rendendo o de sempre, ficou porém pobre de gente, de colonos, de meeiros, de tropeiros, de seleiros, esse povo todo que habitava os campos e as roças.

Agora, em vez da verdura das plantações, ouvia o mugido das vacas e sentia no ar o cheiro de bosta de boi, que, embora ativo, não repugnava.

Os filhos e os sobrinhos cresceram e caíram no mundo, como se diz. A seguir, vieram os netos e tudo continuou na mesma, a vida tocada no compasso da boiada atravessando estradas à procura de pastos.

Um dia, o coração derrubou-o na escada da cozinha, a cabeça batida contra os degraus. Os filhos socorreram, a mulher atendeu-o com cuidado. Recuperou-se. Parecia melhor. Porém o coração em frangalhos, cirurgia impossível. Fosse tateando a vida, redobrasse os cuidados.

Outro dia, o último, o coração fulminou-o quase no mesmo lugar, sem dar tempo a que as lágrimas tivessem esperança. Ele, que soube, principalmente, ser bem-humorado, teve um velório triste, um enterro melancólico, lúgubre. Parece que levou consigo a alegria que andava espalhando da Fazenda do Jacó à vila de Carabuçu.

27 de setembro de 2010

TOCANDO A VIDA

(Em memória de Crival Braz de Assis, e para seus filhos Roberto, Ana Maria, Adriano, Anselmo e Leandro.)

Há gente que só faz besteira na vida! Há gente que tenta acertar. Mas, se tirar pelo que já fez, ele se pode dar por satisfeito. É só observar os descendentes. Mas é possível ainda mais, examinando tudo detalhadamente. Olha só as muitas roças que botou. Espia só os muitos peixes que pescou por açudes, poços, valões e rios. Presta bem atenção na casa feliz que erigiu do nada, dureza e felicidade escapando por portas e janelas. Põe bastante sentido nos amigos que plantou como chuchu. Atina bem para os casais que juntou em nome da lei, ele juiz de paz da roça. E vai ver que um homem assim conseguiu extrapolar seus limites e invadir o de seus conterrâneos da vilazinha perdida no norte do Estado.

Agora está ele arrancado à força da sua vidinha maneira, tranquila, pra mode tratar dos rins, com um sanativo de nome esquisito, num aparelho danado de complicado, que fica filtrando seu sangue, até que os dias se consumam e a luz dos seus olhos se apague como chama de toco de vela soprada pela viração que vem do pasto.

A vila ficou pra lá. Impossível sobreviver nela, sem a parafernália médica.

A vida, talvez, tenha ficado também por lá. Impossível viver nesta barafunda toda do Rio de Janeiro.

Os dias, assim, se sucedem na intransigência de uma doença que, se não soube levá-lo de roldão feito as enxurradas descidas das serras, quer, por todos os meios, dizer para ele que a vida anda cheia de tristezas.

Mentira, tudo mentira! É só espiar a mulher amorosa, os filhos, os netos, os amigos de pescaria, os parceiros de sinuca, o campo amarelando, a colheita enchendo os balaios e atulhas, a...

(Escrito um pouco antes do falecimento do Crevalzinho, em 1987.)

25 de setembro de 2010

TIO HERSON

Ao morrer meu tio Herson Schuab, no mês de junho passado, senti que desaparecia o terceiro pilar de uma construção muito importante de minha vida, iniciada naquilo que se convencionou chamar tenra idade (Mesmo eu, já sexagenário com todo respeito, tive tenra idade!): a do bom humor. Antes já haviam partido os outros dois: tio Aureliano Azevedo, o Aurélio, e Crival Assis, o Crevalzinho.

Quando menino, apreciava muito o jeito bem-humorado dos três, e com eles aprendi que podemos viver a vida com uma visão positiva, sem que os problemas possam se agigantar além da conta. Nunca os vi de cara amarrada, tratando as outras pessoas com indelicadeza ou maldizendo a existência. É claro que, mesmo numa vilazinha de interior, décadas atrás, havia problemas de toda grandeza a serem suplantados. Como criança, porém, só percebia o que eles tinham de alegria e bom humor.

Meu tio Herson, a despeito da vida dura que levou como pequeno agricultor, era dono de uma das gargalhadas mais contagiantes que vi e, dos três, foi o que sobreviveu por mais tempo: morreu pouco antes de completar noventa e um anos, sem jamais ter deixado de apreciar uma boa cachaça de alambique.

Certa época, morou com a família enorme – tia Alda, mais os filhos Zé Fábio, Tereza, Maurício, Carmem, Tubiba, Betinho, Rita, Paulinho e Elcinho – na metade da subida da Serra da Cachoeira Alegre, em uma casa grande sobre-erquida no meio de um terreirão, cercado por muitas árvores frutíferas.

Alguns fins de semana, subíamos a pé a estrada, numa caminhada longa, para desfrutar das brincadeiras que armávamos lá, aquela montoeira de primos barulhentos. Ao chegarmos, ele estava sempre na roça, trabalhando, e, quando dava a hora do almoço, havia sempre alguém querendo tocar o berrante, para chamá-lo para comer. O som do berrante ecoava por entre as grotas e as grimpas dos morros em volta, quebrando o silêncio da natureza, quase sempre feito de barulho de bandos de maritacas.

Às vezes, ficávamos tentando adivinhar por que trilha viria o tio Herson, que sumia e aparecia entre o verde da paisagem.

Tempos depois, mudou-se para a Vala, já mais próximo à vila, o que facilitava nossa ida até sua casa. Mas aí já éramos maiores, mais crescidos, alguns já rapazes, e sempre que possível íamos para o valão tomar banho, levando sabonete e tudo. Após nos ensaboarmos, com o corpo branco de tanta espuma, pulávamos n’água para enxaguar. Alguns meninos se banhavam nus; os mais crescidos, de calção. Mas era tudo uma festa só. Sempre o tio Herson nos acompanhava, para cuidar daquela molecada despreocupada com o futuro.

Anos mais tarde, já aposentado, mudou-se para a vila. Aí já éramos todos homens feitos, os filhos a lhe darem netos; os netos, bisnetos; os sobrinhos, mais sobrinhos, o que só fez aumentar ainda mais o bulício na casa que sempre nos acolheu com alegria e com carinho.

Insidiosamente, porém, a saúde, que até então era moldada a ferro, começou a titubear, a vacilar, e foi aprontado para o tio Herson esses achaques que nos deixam periclitantes, vendo aproximar a indesejada. Até que no dia dezenove do dito mês de junho, ele nos deixou, tão placidamente quanto um pequeno pássaro, quando some no azul do céu. Dormindo, dormindo ficou, para sempre.

Durante o velório, como a marcar sua queda final, um meteorito passou riscando o céu límpido daquele finzinho de outono, em sinal de despedida, indo cair a alguns quilômetros dali.

No momento de levar seu caixão à terra no cemiteriozinho de Carabuçu, já noite iniciada, falaram seu sobrinho Alcione, seus filhos Paulinho e Zé Fábio.

Zé Fábio começou assustando a todos que ainda ali permaneciam:

- Acorda, Herson! – gritou ele, para continuar – Era assim que, ultimamente, eu brincava com ele, ao chegar a casa. Ele estava sempre cochilando na cadeira. Mas ficava chateado e dizia que não dormia, que estava acordado, o que sabíamos que não era verdade. Notávamos que estava debilitado, com as forças a lhe escaparem, mas nunca reclamou de dor. Ele não sentia dor. Sentia alguns incômodos. Dor, não! Reclamava bastante era do frio. Às vezes, brigava com a Tereza, que teimava em abrir a janela, quando ele a queria fechada, por causa do frio que entrava. Agora, ele está aí.

E terminou de uma forma dramática, emocionada, que nos fez chorar a todos:
- Agora pode dormir, Herson!

E se, naquele momento, o que eu pretendia falar em homenagem ao meu tio querido foi suplantado pelas palavras doídas do primo Zé Fábio, aqui o faço, em letra de forma, para que fique gravado e não se apague.

Ao voltar para sua casa, após o sepultamento, cada um de nós tomou um trago de cachaça em sua honra.

Obrigado, tio Herson! Valeu!

23 de setembro de 2010

PRÉ-POSIÇÕES

sobre teus sonhos
construir castelos

por teu corpo
apascentar rebanhos
de ovelhas negras

de tua língua
sorver os versos
com que encapelo
o mar dos meus desejos

em teu medo
futucar meus dedos
com que me dissolvo
entre teus cabelos
e me perco todo
de soluço e gelo
misturando alhos
galhos e carvalhos
atormentado e ledo

com teus segredos
codificar meu cofre
em que guardarei
tudo em que me meto
tua graça ágil
teu sorriso negro
tua dor profunda
e teu desmantelo

21 de setembro de 2010

PEQUENAS VIATURAS, GRANDES NEGAÇAS

Tomamos um táxi, noite dessas, em direção ao centro do Rio de Janeiro, minha mulher, uma amiga de minha filha e eu. Era um Doblò 2007, como me informou o motorista, que gosta tanto de dirigir como de contar casos.

E fomos indo, via ponte, com os casos dessa máquina quase infernal que dá tanto prazer ao ser humano. Dizia ele, então, provocado pela minha confissão de jamais ter viajado de Doblò, a parecer zero quilômetro, tal o capricho com que o mantém, que o indigitado carro deixou-o na mão certa vez no Aeroporto Santos Dumont. Sem conseguir fazê-lo funcionar, depois de várias tentativas, inclusive com auxílio de outros colegas, acabou ligando para a seguradora, que mandou rebocar o veículo.

Ao chegar à oficina mecânica, o profissional apareceu com um pequeno computador que foi ligado a uma tomada localizada na parte interna do carro, próxima aos pedais. Digitou o modelo e o ano do paciente: Doblò, modelo tal, ano 2007. Imediatamente, na tela, abriu-se a listagem de todos os pontos previstos no programa. Zerou todos os dados, e mandou passar novamente. Cada item foi sendo testado e confirmado com ok. Ao final da extensa listagem, apareceu mensagem dando conta de problemas na bateria, que deveria ser trocada. Contrariado, porque, segundo ele, a bateria não era tão antiga, dirigiu-se a uma loja perto da oficina, na Rua São Lourenço, comprou bateria nova e a instalou no possante. O mecânico repassou o tal check-list eletrônico que acusou tudo em ordem. Mandou-o ligar o carro. O bitelo pegou que foi uma maravilha. Então perguntou pelo preço. Duzentos e oitenta reais, disse o homem. O motorista reclamou, dizendo que ele não tinha usado uma chave de fenda sequer, não havia sujado as mãos, muito menos o macacão, e que o trabalho não exigiu nem uma hora sem graxas e fuligens. É, mas essa máquina me custou mais de oito mil reais, disse o mecânico. O motorista pagou e se amarga até hoje o valor do serviço, saudoso dos carros de outrora, muitos deles consertados até com um palito de fósforo.

Pois foi o que aconteceu com um velho Passat que eu tinha. Já o comprei usado, um tanto gasto pelo tempo. Quando voltava de uma viagem a Miracema, já tendo passado por Santo Antônio de Pádua, diante de Marangatu, pela RJ116, resolvi elogiar o carro. Foi terminar a frase e o motor se apagar lentamente, com o último suspiro dos agonizantes. Como vinha embalado, tive tempo de embicar o morto em direção à vila, ao lado da estrada. Com o que restou de empuxo, consegui estacionar na pracinha, diante de uma venda, desses estabelecimentos comerciais do interior que vendem de um tudo.

Dirigi-me ao caixeiro, um homem um pouco mais velho que eu, e perguntei-lhe sobre mecânico que me pudesse socorrer. Ele se lamentou por não haver nenhum na vila, só em Pádua, que ficara já há uns bons quilômetros atrás, mas me indagou sobre o que estava acontecendo. Ciente da situação, prontificou-se a ver o carro. Sabe como é, não sou mecânico, mas de Volkswagen todo mundo entende um pouco, disse-me ele. Pediu que virasse a ignição. O bicho pegou. Mandou que eu engatasse a marcha e saísse. O bicho desfaleceu, sem forças, moribundamente. Pediu que abrisse o capô. Olhou nas entranhas do desfalecido e foi até a sua venda, de onde trouxe um palito de fósforo. Tirou a cabeça e colocou o pedaço do palito no platinado que estava colado, restabelecendo a distância regulamentar do troço. Explicou o que fizera e perguntou-me para onde estava indo. Disse que era para Niterói, ao que ele garantiu que poderia viajar tranquilo. Quando chegasse, deveria dizer ao meu mecânico o que tinha sido feito. Vim sem problema nenhum, por mais de duzentos quilômetros. Meu mecânico avalizou o jeitinho do vendeiro.

Antes desse carro, porém, tive uma Brasília, comprada após dois anos de uso pelo antigo proprietário. O carro estava muito bom, mas fiquei com ele por muito tempo. Num verão qualquer do início dos oitenta, íamos para Miracema, desta vez via Teresópolis. Saímos no final da tarde e paramos no Alto do Soberbo, para o primeiro pit-stop de uma viagem com filhos pequenos. Após o lanche, já noite, retomamos a viagem, agora sob intensa chuva. A amaldiçoada máquina não andou quinhentos metros e parou. Deixei mulher e filhos dentro do carro e voltei à lanchonete, para pedir ajuda. O proprietário informou que o mecânico ficava bem mais abaixo, mas também quis saber o que acontecera. Então lhe expliquei que o carro, após ter passado por uma revisão, vinha bem, cheio de soberbas, até aquele ponto. Quando retomei a viagem, lentamente foi morrendo. Quis saber a marca do carro. Perguntou se era de dois carburadores. Disse-me ter uma igual e deu-me um saco plástico com água, recomendando que fizesse um pequeno furo numa das pontas e jogasse a água sobre a bomba de gasolina lentamente. Segundo ele, aquele modelo era danado para esquentar a bomba de gasolina e colar uma borracha, fazendo a vedação da passagem do combustível. Subi de volta ao carro, tirei a tralha da tampa do motor, que ficava na parte interna da carroceria, e apliquei a água fria sobre a bomba de gasolina. Entrei no carro, liguei o motor e chegamos a Miracema, a mais de duzentos quilômetros de distância, sem mais problemas.

Meu velho Passat de parágrafos acima já dava mostras de precisava de uma boa lanternagem e de pintura geral. Depois de voltar de uma viagem ao Sana, na serra de Macaé, a que cheguei por uma estrada sinuosa e com o piso terrível, cheio de pedras e buracos, levei o doente à oficina do meu amigo Dino, no Largo de São Jorge. Ele examinou bem o carro, coçou a cabeça e me disse o preço, que não era nada exagerado. O Dino sabe trabalhar, mas não mete a mão no bolso do cliente, segundo ele, que é para o cliente voltar. Ao final do prazo, voltei para pegar o carro e ele me disse que, ao desmontar a porta dianteira direita, constatou que a ferrugem já havia comido a barra de sustentação. Estranhou como o carro não tivesse partido a lataria naquela estrada péssima. E, ainda, falou zombeteiramente que, se isso tivesse acontecido, o valor do carro não pagaria o preço do reboque. Fechou sua prosa dizendo:

- É a última reforma que faço nesse carro. Vê se toma vergonha e compra um carro novo.

Na época, porém, eu era funcionário de um governador cujo nome é melhor não dizer, que foi a maior praga que o funcionalismo, sobretudo o da Justiça do Estado do Rio, teve de suportar. Vivíamos à míngua. Por isso mesmo, o carro voltou ainda algumas vezes para um remendo, a despeito do aviso do amigo.

20 de setembro de 2010

TODAS AS SOLIDÕES

todas as solidões se somam na cidade grande
se dão as mãos e saem cantando pelos parques
pelas avenidas e praças
param para ver o futebol
a novela das seis das sete das oito e o repeteco
sentam-se na grama para ouvir carlos gomes
brahms
beethoven
incendeiam o trem atrasado
invadem os supermercados nos fins de semana

todas as solidões se dividem
e urram nos quartos contra a opressão
e choram na morte dos amigos

todas as solidões se evaporam
nos sonhos do amanhã
nos anseios da paz e do amor

19 de setembro de 2010

MÃE E FILHO

Sempre pensando: sem a mãe, não queria viver. O mundo triste, vago, imenso. Completamente inabitável. Morresse ela, e ele morreria também. Mas a mãe, firme como um rochedo, baluarte de toda a família, depois que o pai fugira com a diarista. Aí ele com aquele complexozinho de Édipo mal resolvido, mal estruturado, muito mal compreendido. Sentia apenas que a mãe era tudo para ele. A mãe, o seu orgulho, a sua devoção e, Deus o livre e guarde, bem lá no fundo, o seu tesão. Nem era ela modelo de beleza, mas que mãe!

Um dia, ela adoeceu. Ficou mal, os olhos fundos, a cor baça, uma ronqueira cava no peito, a voz um filetezinho de som de nada. Ele se desdobrou em cuidados, convocou as irmãs casadas para ajudarem. Os maiores desvelos. A mãe, nem demorou muito, se recuperou, botou corpo e cor novamente, o brilho dos olhos. Ficara até mais bonita. Dava para se perceber. Ele, então, recuperado em seu amor-paixão, as noites de frio no seu colo, aconchegado. Ela fazendo-lhe cafuné nos cabelos, vendo televisão, o seu gato. Ele, o mais feliz dos homens, porque a mais perfeita das mulheres. Ela, a mãe mais gratificada. Nenhum filho como o dela. Os dois sozinhos na casa vazia. Viesse o mundo abaixo, o seu reino estaria salvo!

17 de setembro de 2010

MATERIAL VITAL

hoje beijo meu filho e o abraço
deitado sobre meu peito
sinto-me tão forte pai
quanto tão frágil
tão inseguro
quanto decidido a fazer deste amor
que me sustenta em luta
a última razão
para imaginar
que encontraremos saída

ele não sabe
ou finge não saber
que o pai é o mais fraco dos seres:
animais perdidos/achados que somos
na imensidão daqueles sonhos todos
que nos fazem viver como insanos
e pelos quais vivemos
morremos
e até matamos

16 de setembro de 2010

TEMPO TEMPO

qual é o tempo do amor?
qual é o tempo em que os homens
– objetos bélicos –
deixarão à terra
o ar o livre espaço por onde transitam bichos
– animais humanos –
(mercê de todas as dores do mundo)
deixarão à terra
– campo de experiências –
o livre acesso às antigas fontes de águas
cristalinas?

qual é o tempo do ódio?
qual é o tempo em que as feras
– qualquer coisa épica –
essas mesmas feras que se atiram ágeis
sobre seus pares
essas feras
recolherão as garras com que dilaceram a carne
dos que ainda estão?

eis um tempo quando
um tempo longe
um tempo nunca mais

15 de setembro de 2010

QUEM É O AUTOR "DAQUILO"?

Campos dos Goytacazes, 1960, internado do Colégio Bittencourt, na Rua Gil de Góis, próximo ao jardim do Liceu de Humanidades de Campos.

Era um calorento sábado à tarde, quando os poucos que ali estavam, já que era dia de folga dos alunos do regime de internato, começaram a ouvir Lúcio de Lauro a vociferar impropérios, a urrar pelos corredores dos dormitórios, à procura de quem fizera “aquilo”.

Lúcio era rapaz formado, quando eu tinha lá meus treze anos, e estudava no antigo curso Técnico de Comércio, equivalente hoje ao Segundo Grau. Pistonista dos bons, tendo inclusive aparecido numa chanchada brasileira da década de 50, que víramos na sessão de cinema na noite anterior, que o Prof. Clóvis Bittencourt sempre promovia para os alunos, Lúcio também exercia a função de monitor de disciplina dos alunos mais novos do antigo curso ginasial.

Ele tinha acabado de sair do banho e, ao voltar para o quarto, viu “aquilo”, o que motivou toda a sua explosão de ódio. Saiu como um possesso pelos corredores a querer saber de outros monitores que ainda estavam por ali o autor “daquilo”. Quem viu? Quem sabe? Quem fez?

Como é normal, nesses casos, “aquilo” não teve testemunhas: ninguém sabia de nada, ninguém tinha visto nada. E ele, como se possuído, gritava, xingava, vociferava, querendo matar o desgraçado autor “daquilo”.

Naquela tarde, eu estava de bobeira na escola e fiquei assustado com a reação do Lúcio, rapaz um pouco gorducho, educado, detentor de um bigodezinho fino a lhe desenhar o lábio superior, que nunca levantara a voz para nós. Aos gritos, dizia ele, então, para que não mexessem em nada, deixassem tudo do jeito que encontrara ao voltar para o quarto, pois iria mostrar o “malfeito” ao Dr. José Bittencourt, o outro vice-diretor, conhecido pelo rigor com que tratava as travessuras dos alunos.

Só por essa ameaça, fiquei com pena do travesso autor da façanha, pois sabia o que lhe esperava. Mas só fui avaliar mesmo a gravidade do ocorrido e as consequências daí decorrentes, quando, ao entrar no corredor onde ficava o quarto do Lúcio, vi, sobre a mesa de cabeceira, o porta-retratos com a foto de sua bela noiva adornada por um jato de esperma, que o cruzava na direção de sudoeste a nordeste, com respingos em outros pontos cardeais da rosa dos ventos.

Apesar de todas as sindicâncias, nunca soubemos ao certo quem fizera “aquilo”, mas, por via das dúvidas, deram um gancho no Zeca, aluno do segundo ano ginasial, cara de sonso, useiro e vezeiro em aprontar as mais diversas reinações no internato. Pela reação dele ao castigo, até hoje sou muito propenso a reconhecê-lo como o criminoso vertedor de esperma em porta-retratos alheio. E sempre me passou pela cabeça que a atitude foi mera retaliação do Zeca, motivada pela inveja por ter visto Lúcio de Lauro, pistom em punho, todo garboso, tocando num baile de carnaval no filme da noite anterior.

13 de setembro de 2010

DEVOLVIDO: MUDOU-SE!

Não te quero mais. Não me procure. Minha vida, melhor sem você. Antes só que mal acompanhada. Não mereço o tratamento que você me dá. Sei que tenho os meus defeitos, mas nunca te neguei o meu amor. Depois, também, você não está com essa bola toda. Pode ficar lá com aquelas piranhas, que eu não quero nem mais saber. Seja feliz, se é que uma pessoa como você merece. Tenho muito que fazer nessa vida, pra ficar chorando noites e noites de solidão. Passe muito bem. Carmem.

Sem o seu amor eu não sei viver. Não posso perder você por causa de umas vagabundas sem classe. Me perdoe, meu bem. Estou completamente arrependido de tudo. Seja mais uma vez essa pessoa maravilhosa que você sempre foi: me perdoa, vai! Prometo que não te desprezarei mais, não te trocarei por ninguém no mundo. Nem por minha mãe. Do teu Rafa.

Pode ir tirando seu cavalinho da chuva. Nem meu Rafa pode se considerar. Você, página virada, binga de cigarro em cinzeiro molhado, bananeira que já deu cacho, cuia que levou azeite, Coca-Cola sem gás, nem sei mais o quê! Estou numa boa. Tchau! Carmem.

Impossível tanta insensibilidade para alguém que sei tão sensível. Isso tudo, fingimento, mágoa. E as juras de amor? Já esqueceu? Depois, eu, o último dos homens sem você. Prefiro a morte a viver sem você. Do Rafa.

Pois pode se matar, que nem te ligo. Já ouvi essa cantilena. Papo furado. Já tenho até outro, muito mais interessante que você. Tem até casa na praia. Vê se me esquece, tá? Carmem.

Pois ouça só o barulho do tiro no meu ouvido: bum! Do Rafa.

Nem ouvi. Ando surda ultimamente. Só tenho ouvidos para meu novo amor. Ah, e não erre o tiro! Carmem.

x - Devolvido: mudou-se.
x - Novo endereço: Jardim da Saudade, campa 378.

12 de setembro de 2010

NÃO HÁ MAIS BONDES NA CIDADE

não há mais bondes na cidade
(exceção feita para o de santa teresa
enquanto existe)
(exceção feita para os das lembranças
dos antigos
enquanto existem)
(exceção feita para um tempo em que a calma
- enquanto existia –
era amiga suave da imperfeição)
(exceção feita para esse bonde
que atravessa meu coração descompassado
de estudante de colégio interno
em campos dos goytacazes)

não há mais bondes na cidade
e a velocidade é a voz de nossas angústias...

10 de setembro de 2010

ALGUMAS OBSERVAÇÕES DESCOMPROMISSADAS

I
Semana passada, estive na Livraria Gutenberg olhando uns livros. Procurava aleatoriamente algum que me despertasse o interesse. Sobre uma das estantes no meio da loja, vi um cujo título é Por que os homens se casam com as manipuladoras, de Sherry Argov. Eis aí um livro dispensável de se ler. Em primeiro lugar, porque o título já diz tudo e não preciso de explicações para o inexorável, o implacável. Em segundo lugar, porque, se não fosse com as manipuladoras, com quem nos casaríamos? Restariam apenas os homens para o consórcio, e aí estou fora! Estou certo ou não? Hahahahaha! No caso, o substantivo e o adjetivo já vêm – perdoem-me o trocadilho infame – casados de fábrica: mulher manipuladora. E isso já não é nem mais um defeito, mas sim uma característica intrínseca, inata. Por isso, não há como escapar! Acho que ainda continuo certo, né não? Hehehehehe! É como a celulite! Se você for procurar alguém sem celulite, não encontrará neste planeta. Vão me dizer, então: E as saradas de academia, cheias de bíceps, tríceps, quádriceps e por aí afora? E eu pergunto de volta: essas querem casar com algum homem, que vai ficar barrigudo no segundo ano de casamento, porque odeia academia, bebe cerveja e gosta de ficar sentado diante da tevê vendo jogo de futebol? Hihihihihi!

II
Desde que o Brasil é Brasil, aí incluídos Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz etc. e tal, vivemos a poder de simpatias para tudo. Ora, bolas! A única simpatia que dá certo é aquela da morena bonita que sorri para você e, aí, as coisas acontecem. As outras, cujo receituário rádios e jornais publicam quotidianamente, essas jamais funcionam. E olhem que uma penca de gente vive de simpatias. Talvez milhões, por esse Brasil afora. Agora lhes digo com a sinceridade de Nelson Rodrigues: se simpatia funcionasse, minimamente que fosse, o povo não teria nenhum tipo de problema. Acho que simpatia é, mais ou menos, guardadas as devidas proporções, como remédio de homeopatia: se você acredita, pode ser que o troço funcione. Mas, na dura, na batata, tudo isso é um tipo de placebo para as nossas agruras cotidianas. Nós que vivemos tão desamparados na vida.

III
A Ciência anda mudando tanto de opinião ultimamente, sobretudo a Médica, que corremos o risco de morrer sem saber a causa. Já viram quantas coisas foram recuperadas, depois de mal faladas durante anos: o ovo, a carne de porco, agora a gordura de coco? E uns e outros dizem tanta baboseira sobre o valor curativo desse ou daquele vegetal, desse ou daquele grão, que já fico cabreiro, meio de orelha em pé. Há algum tempo, na TVE, no programa Sem Censura, uma “especialista” dava conselhos de saúde sobre algo que tinha descoberto. Minha mulher, Jane, ficou impressionada e comentou comigo. A tal entrevistada da Leda Nagle dizia, na oportunidade, ter constatado que, caso você tivesse um problema de estômago, comer dobradinha (estômago de boi aqui no Rio de Janeiro) melhoraria seu mal. Assim, se fossem problemas cardíacos, comer o coração do boi ajudaria no tratamento. Segundo ela, tais órgãos teriam uma sintonia anatômica com os nossos, mesmo sendo de bois e vacas. Como tenho carteirinha de cético carimbada no Cartório de Títulos e Documentos, não pude perder a oportunidade e perguntei para minha crédula cara-metade: E se eu tiver problemas de hemorroidas, vou comer o cu do boi? Para você ver até onde chega a doideira do ser humano! Mas o meu argumento foi acachapante para a teoria da mulher. Com uma frase, detonei a argumentação dela. Afirmar em público tal coisa é temerário demais. É como você dizer que já viu disco voador.

IV
Um pai de santo acaba de dizer que o time da Gávea não faz gols há não sei quantos jogos, por conta do espírito da moça assassinada pelo ex-goleiro que, no momento, defende o time de uma prisão em Minas Gerais. Ele estaria amarrando o ataque do time. Ora, deixem o espírito da moça em paz! Além de matá-la, estão atribuindo a falta de futebol do time à pobre coitada. Não basta já ter sido vítima de uma barbárie? Agora terá de carregar mais esse carma pesado para a outra vida (se é que existe!)? Desconjuro, credo!

V
Para encerrar, quero dizer que dei por encerrada qualquer pendência, qualquer desavença, qualquer pinimba, por mínima que seja, que tinha até o presente momento com a família Riquelme (daquele jogador de uma seleção de um país ao sul do nosso), após ver a Larissa Riquelme na Playboy. Nunca pude imaginar que tal família pudesse produzir espécime de tão alta admiração! Salve simpatia (essa, sim!)!

9 de setembro de 2010

DESPEDIDA

o rosto está atrás do vidro do ônibus
uma incógnita desenha seu sorriso
e já não me lembra mais que isto.
o que resta são apenas gotas de chuva na estrada
marcas de pneus que vão embora
um certo ar condoído que não chora
e o burburinho da rodoviária
e mais nada...

8 de setembro de 2010

ZÉ DO OVO

Na brincadeira de crianças, os dois irmãos resolveram matar porco, como a mãe costumava fazer. Só que o porco era o Zé do Ovo, menino meio aluado das ideias, praticamente criado com o casal de irmãos. A mãe, quando chegou ao terreiro, ainda teve tempo de salvar o pobre coitado da morte certa, o filho já com a faca na mão, preparando-se para enterrá-la no sovaco do porco. A mãe acabou com a brincadeira de mau gosto, explicou tudinho para os meninos, parassem com aquilo que o Zé morreria de verdade.

Cresceram juntos. Teteca e Zé do Ovo aprenderam a fazer coisas de meninos, de rapazes, de homens, inclusive a beber cachaça. Zé, meio filho de criação, meio garoto de mandados, as ideias cada vez mais embaralhadas, vez em quando sumia no mundo. Voltava contando histórias de patrões que lhe pagavam apenas com um miserável prato de comida o trabalho duro da roça. Vinha seco, mais magro que a necessidade, e ficava novamente por uns tempos, se retemperando, se abastecendo. Então tornava a sumir.

Reaparecia crente, batista, presbiteriano, testemunha de Jeová – sabe-se lá! –, abstêmio, com horror ao álcool, ao pecado, andando de paletó puído nos dias de culto, quando, então, tirava o surrado chapéu de palha da cabeça, penteava o cabelo de lado e se empapava com uma água de colônia que a irmã postiça lhe presenteara. E, assim, saía cheiroso porta afora na direção da igreja.

Voltava a beber, parava, recomeçava. Sumia por outros tempos.

Uma tarde brumosa, cheia de pressentimentos, chegou a notícia de que, ao passar por uma pinguela sobre um corgozinho à toa, teve vertigem de fome, de fraqueza, e caiu com a cara no filete dágua. E lá ficou até que seus pulmões se encheram, se abarrotaram, explodiram, e ele morreu sem a mínima glória, sem a menor atenção do Criador, no desamparo trágico da existência. Uma vida tocada a ingenuidade do princípio ao fim!

7 de setembro de 2010

VOU ABRIR AS JANELAS

vou abrir a janela do meu quarto sobre a cidade
e ver a chuva fina cair
como o derradeiro choro dos impossíveis
dos insondáveis mistérios humanos.

vou abrir a porta que dá para a rua
e deixar penetrar a umidade fria
dessas noites solitárias de agosto.

os tempos não estão para peixe
assim como o mar em frente.
os dias não estão tão claros
como o horizonte dos pessimistas.

vou abrir meus olhos duros
sobre o concreto aparente dos edifícios
sobre os viadutos os muros
e sonhar com as tardes luminosas do mês de outubro.

6 de setembro de 2010

TERCEIRO MUNDO (II)

há míseros mártires moribundos
pelos caminhos da morte
que serpenteiam o planeta
abaixo do equador
num rasto de desesperança que se arrasta
se alastra como erva daninha

acima bem acima
o setentrião nutre os corpos
rubesce as faces
elide o pudor
e desobscurece o horizonte dos afortunados
apontando-lhes as trilhas da pirataria
do butim da pilhagem
para as quais seguem pressurosos desde sempre

os despojados se dispersam e choram
e se comprazem diante da miséria
como se fora uma dádiva de deus

5 de setembro de 2010

O CASO DO RAPAZ DE NEGRO DO ATERRO DO FLAMENGO

Varou a noite uivando feito um cão ferido, um lobo solitário. De Copacabana à Praça XV. Da Praça XV ao Instituto Médico Legal. Sua única e exclusiva namorada, a mulher mais carinhosa de toda a cidade do Rio de Janeiro, quiçá do Brasil, morrera atropelada por um ônibus Lins-Copacabana, na altura do Hotel Glória.

Na delegacia, em depoimento, o motorista do ônibus, Inocêncio Assumpção dos Anjos, declarou não ter percebido a pedestre toda vestida de negro, porque a noite estava muito escura. Os passageiros, sonolentos, só se lembravam do baque seco do corpo no ônibus. O trocador, no momento, limpava a unha comprida do dedo mindinho. Mais testemunhas não houve.

Como é comum acontecer às vítimas, essa também passou a ser a culpada de sua própria morte.

O namorado, arrancado à loucura do dia a dia carioca, mergulhou no caos noturno, a mente em frangalhos, os olhos pingando dor, a figura também de negro a aterrorizar os casais perdidos entre as sombras do Aterro.

4 de setembro de 2010

BOLETIM DO TEMPO

são escuras as manhãs de medo
que se anunciam sobre o país
e a vida continua indecente como antes

há cães pelas esquinas mijando nos postes
e pobres velhos esfarrapados crianças
inundando as praças e as avenidas
num carnaval sem música e sem fantasia

os cidadãos de bem assistem ao desfile
do alto dos camarotes e do aconchego dos automóveis

são opacas as tardes de incerteza
que assaltam todo o país
e a vida continua indecente como antes

ninguém chora
há apenas a digestão bem feita
ou o ronco inaudível dos estômagos iludidos
aguardando o sono da noite imprevisível
que se abaterá sobre o país

(Equivoquei-me no título do poema, agora republicado corretamente. O título anterior refere-se a texto diferente, a ser postado em breve.)

3 de setembro de 2010

- HOJE EU VOU DORMIR COM UM HOMEM DE OBRA

Quando cheguei a Niterói, em março de 1967, fui morar na pensão de Dona Dinorah, no 29 da Rua Pereira da Silva, primeira quadra da praia. Hoje, no local, há um edifício.

O endereço era de uma casa geminada de dois andares. A pensão, assim, estava colada à casa de funcionário de um banco que hoje não mais existe e do qual contarei, em breve, fato verídico, para vocês verem até onde chega a maluquice do ser humano. Na parte de cima, ficavam os rapazes. Na de baixo, as moças e a dona da pensão, mais alguns membros de sua família. Atrás havia um puxadinho, onde moravam dois paraguaios que faziam faculdade na UFF e algumas empregadas.

Embora fosse um casarão antigo, estava sempre varrido, pano molhado passado nas tábuas do assoalho da parte de cima, onde também era o quarto do filho de Dona Dinorah.

Mas nada disso importa para o que quero lhes contar. Isso foi só para fazer a introdução.

Pois bem. Por um tempo, havia duas copeiras-arrumadeiras, para dar conta do serviço. Uma delas era minha conterrânea, moça negra de seus vinte e tantos anos, tímida, a que vou chamar de Isabel, pois não já me lembra o nome. A outra, também negra, porém bem mais escura, viera de outro lugar, que não sei qual. Vou chamá-la de Antônia, só para organizar a narrativa. Não estarei inventado tudo, só os nomes delas, para facilitar.

Antônia era um pouco mais nova que Isabel. Talvez não tivesse chegado ainda aos vinte anos. Mas era uma negra bonita, esperta, e regulava altura com a colega. Muito sestrosa, muito saída, certo sábado chamou Isabel para darem umas voltas após o trabalho, que, nesse dia, se resumia apenas a servirem o almoço.

À tardinha de um sábado morno, saem as duas para o passeio combinado: Isabel, em suas roupas simples de moça do interior, e Antônia, com sua indumentária a indicar “hoje vou pegar alguém”: saia curta, blusa decotada, batom saliente nos lábios. Saíram da pensão para o Campo de São Bento, deixando um rastro de perfume simples, como eram suas vidas.

Na época, em torno do Campo de São Bento, construíam-se vários prédios, que lá estão até hoje, em substituição a belas casas baixas do princípio do século vinte. O local, para os que não o conhecem, é uma grande praça, muito bem arborizada, com caminhos, espaços, parque, fonte luminosa, coreto, a que os niteroienses vão a lazer, sobretudo nos fins de semana.

Por volta das nove horas da noite, chega Isabel desesperada à pensão, com um olho roxo e um corte no lábio, onde secava amiúde um filetezinho de sangue. Chorava como criança.

Foi um alvoroço total! Os que estavam na pensão no momento corremos para saber o que tinha havido. Dona Dinorah ficou apavorada com a cena.

Isabel, tentando controlar o choro, contou que tinha levado uma surra de Antônia, porque se recusara a ir para a cama com um dos peões de obra que trabalhava nos canteiros ao redor da praça. Disse que não sabia que a intenção de Antônia era essa. E, chorando, confessou ser ainda virgem.

Foi um desacerto! Todos quiseram socorrer Isabel, dar-lhe água com açúcar, colocar compressas no olho e no lábio. Consolá-la, enfim! Um jovem morador mais gaiato até falou que talvez ela sofresse menos se fosse transar com o peão, afirmando que doía, mas era bom. Dona Dinorah acabou dando um pito no engraçadinho.

Seguíamos na atenção a Isabel, quando aparece no portão da casa a dita Antônia, já mais para lá do que para cá, movida a aguardente de cana de marca incerta e não sabida, gritando por Isabel, “sua isso, sua aquilo, sua frouxa, sua santinha do pau oco”. E chamava Isabel, aos gritos, para ir com ela, de par, porque a transa já estava acertada com dois peões: ela com um e Isabel com outro. Ia ser uma festa!

Dona Dinorah, viúva de respeito e de rígidos princípios, disse poucas e boas à empregada pinguça e despediu Antônia ali mesmo da varanda da pensão, mandando que ela voltasse só na segunda-feira, já recuperada da trabuzana, para acertar as contas.

A copeira-arrumadeira desatinada, já bem torta pelo efeito da calibrina, saiu gritando pela Rua Pereira da Silva, que foi um general de muito respeito e muita prosopopeia:

- Hoje eu vou dormir com um homem de obra! Hoje eu vou dormir com um homem de obra!

E lá se foi ela, sacudindo a saia curta e dobrando a esquina da Rua Moreira César (coronel que enfrentou Antônio Conselheiro e deixou seu couro em Canudos, depois de aprontar muito em sua vida militar), em direção ao Campo de São Bento, onde deve ter-se refestelado entre os tapumes e os sacos de cimento do edifício em construção.