9 de dezembro de 2015

MEUS RIOS


Rio Itabapoana, entre Bom Jesus do Itabapoana-RJ e Bom Jesus do Norte-ES (foto do autor).


Meus rios regurgitam águas inusitadas
Para esta época do ano
Paraíba, Pomba, Muriaé, Itabapoana.
Em seus leitos aflitos
Antes raquíticos filetes entre lajedos ao sol expostos
Corre agora água abundante
Que faltou ao longo dos meses
Água esperada pela sede das suas margens
Pelos cascos dos seus barcos
E os anzóis dos pescadores atrás dos peixes ansiados.
Às beira-rios sequiosos ribeirinhos
Olhos incrédulos
De lágrimas ressequidas pelas torrentes que não vinham
Como antes.
Agora
Bem agora
Meus rios regurgitam águas abençoadas
Vindas dos altos das serras
Rolando pelos seus vales
Como carícias molhadas
Da natureza condoída.

Itabapoana, Muriaé, Pomba, Paraíba.

Rio Paraíba do Sul em Itaocara-RJ (foto do autor).

28 de novembro de 2015

NUNCA HOUVE UM FÍGADO DE GALINHA COMO O DO BAR PRACINHA!

(Para Jane, Maria Lúcia e Jorge Neiva.)


Às vezes sou assaltado por certas lembranças gustativas – talvez uma das mais constantes em minha vida de glutão -, assim do nada. Sem mais nem menos, elas aparecem. Até já postei textos aqui sobre isso. Estou fazendo alguma coisa e pum! lá vem a memória de alguma coisa gostosa que experimentei durante minha vida.
É claro que isto deve ser comum a todos os seres humanos, desumanos e extraterrenos. Comer é um dos grandes prazeres que se tem na vida, e necessariamente deixa alguma coisa gravada em nós.
Estava há pouco num botequim aqui próximos de casa, onde fui bebemorar o campeonato do Glorioso (Maitê, ainda estou esperando!), com a alternância entre um chope escuro/um chope claro (Só faltou a Estrela Solitária.), acolitados por moelas, e me veio à memória o fígado galinha que comia no Bar Pracinha de Miracema.
O Bar Pracinha era um grande salão na Rua Direita, cujo vão era sustentado por colunas de ferro, um balcão de atendimento à direita de quem entrava por uma de suas três ou quatro portas (Ele não existe mais.) e várias mesas e cadeiras em toda a extensão à esquerda.
A primeira vez que lá fui, há bons anos, foi a convite do meu sogro, o saudoso seu Beethoven, que me disse da qualidade daquele fígado.
Aqui é preciso fazer uma digressão de caráter gourmand. Fígado de galinha é uma iguaria não muito apreciada pelo cidadão cosmopolita e urbano de cidade grande. O pessoal do interior como eu é muito chegado a certas guloseimas para que o homem da cidade torce o nariz, como se fosse coisa de segunda ou terceira categoria. Fígado, moela, rim, língua – e por aí vai – estão nesta categoria.
Pois muito bem! Convidado por ele, não me furtei a experimentar o tal fígado.
Quando lá chegamos, o bar já estava todo tomado por clientes. Era um sábado à tardinha. Sobrou-nos, então, a posição mais apropriada aos bares: encostar o umbigo ao balcão e degustar o que possa sair lá de dentro da cozinha. Pedimos uma cerveja (Na época, não havia esta sofisticação que hoje há, e meu sogro também foi habituado a só beber uma marca de cerveja.) e uma porção de fígado.
Posso garantir aos amigos leitores que me honram com sua atenção que os galináceos não morreram em vão para o bar e seu cozinheiro. Não faço a mínima ideia de como se preparou aquele fígado. Na verdade, ele não vinha com nenhuma atração visual maior, que não sua integridade esplendorosa, um tanto vítrea ao olhar, a maciez de que é dotado e um paladar inigualável. Só acrescentei algumas gotas de pimenta, como é de meu feitio.
Tirante o fígado de galinha que minha mãe pescava na panela onde fazia o restante da penosa (Até digo isto para não parecer um filho ingrato.), nenhum outro se comparou em toda a minha vida àquele fígado feito pelo cozinheiro do Bar Pracinha.
Alguns anos depois, despareceu o bar, dando lugar a outro empreendimento comercial sem o charme e o apelo do botequim, e nunca jamais, em tempo algum, pude provar outro semelhante.
Por isso é que, ao escolher um tira-gosto hoje no botequim aqui ao lado, para acompanhar a homenagem etílica ao meu Glorioso, resolvi ficar na moela de galinha acebolada.
Não queria magoar a memória daquele fígado, nem do prazer que tinha em ir ao bar com meu saudoso sogro, Beethoven Neiva, flamenguista dos mais enjoados que conheci. Aliás não conheço flamenguista que não seja enjoado!
Salve o Botafogo! Viva Maitê Proença! Saudades do seu Beethoven!

Imagem em youtube.com.

25 de novembro de 2015

SINA


Ab initio
Ad æternum
No meio só sacrifício
Batendo às portas do inferno
A esperança por vício
“Pobre demais, se não erro”
À beira do precipício
A vida tocada a ferro
E pra acabar tudo isso
São sete palmos de terra.

Cândido Portinari, Retirantes, 1944 (em portinari.org.br).
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Com citação (entre aspas) de verso de B. Lopes, em Cromos - XXV.

17 de novembro de 2015

NAQUELE TEMPO


Lembro-me de que brincávamos de carro-de-boi de sabugo de milho. Os sabugos eram os bois. O carro, alguma pedra que amarrávamos aos sabugos, que eram candiados como qualquer boi de carro de verdade. Vem, Soberbo! Força, Fumaça!
As trilhas eram traçadas no chão batido e encontravam alguma dificuldade no monte de areia em que os bois deviam subir, puxando a carga imensa que colocávamos sobre o carro: um caroço de manga seco, um cavaco qualquer de pau, pedaços de telha antiga defumada pelo uso, algumas folhas que fingiam ser a última colheita de uma lavoura imaginária, olhos-de-boi que depois serviam a curar terçóis, a que sempre estávamos sujeitos.
Não foram poucas as vezes em que assim brincamos. Sobretudo na fazenda do tio Aurélio, no Jacó, com meus primos Délbio e Zé Luís, filhos dele, e Zé Fábio, que sempre estava na corriola conosco. Com tanto menino junto, algumas vezes havia encrenca, sobretudo porque os dois Zés sempre foram briguentos. Mas tudo não passava de minguados minutos, e a brincadeira voltava a reinar entre a turma.
Tio Aurélio era um tio bonachão, extremamente bem humorado, e não esquentava a cabeça com nossas peraltices ou desavenças passageiras. E sempre tinha uma boa saída, para não tomar decisão alguma diante de bobagens infantis. Por vezes, Délbio ia reclamar de certa atitude do irmão:
- Pai, o Zé Luís tá implicando com a gente!
Ele, com o vozeirão de que era possuidor, indagava sério:
- Com a gente ou com os outros?
- Com a gente!
- Ah, pensei que fosse com os outros!
E não fazia absolutamente nada. Se a resposta fosse “com os outros”, ele mudava sua frase:
- Ah, pensei que fosse com a gente!
E tudo continuava na mesma. Ele é que não iria envolver-se em briga de meninos, que, instantes depois, estariam brincando, como se nada houvesse acontecido.
Já tia Toninha, irmã de minha mãe, tinha alvará expresso para aplicar o corretivo necessário, durante a estada em sua casa. Eu mesmo nunca levei catiripapos dela. Não sei o peso que tinha seu braço. Apenas uma vez peguei castigo coletivo, por conta de armações normais de criança.
E jogávamos muita bola! Havia na fazenda um grande terreirão para a secagem do café, que meu tio plantava, com o piso em barro vermelho batido e ressecado. Se chovesse não podíamos andar pelo terreirão, a fim de não deformar seu chão plano. Em tempo seco e sem o café espalhado, sempre havia uma pelada entre meninos ou entre adultos. Ali se formou o time do Soca Terreiro, que uma vez por ano disputava o torneio rural, de curtíssima duração.
Também brincávamos com as chuvas torrenciais de verão, fazendo barragens nas sarjetas e soltando barcos de papel na enxurrada. Ou tomando banho nas bicas que se formavam da água que descia forte dos telhados das casas baixinhas da vila.
Nas noites manchadas de estrelas e vaga-lumes, corríamos para esconder na brincadeira de pique ou de siliprina (palavra que nunca encontrei em nenhum dicionário), de mocinho e bandido.
Pulávamos o muro do campo de futebol para também fazer nossas peladas, ou outra brincadeira que envolvesse muita criança. E alguns aproveitavam para roubar laranja no quintal do tio Chiquito, fronteiro ao campo, ao final das peladas.
Sobre as calçadas, ou nas varandas das casas, ocorriam ferrenhas partidas de futebol de botão, com campeonato organizado, botões famosos a lembrar jogadores dos principais times do Rio de Janeiro. Às vezes ocorriam negociações, e determinado botão passava de um a outro menino, por troca ou por compra. Andei pagando alguns com os pés de moleque que minha mãe fazia.
Nas noites de sábado e domingo, banho tomado, cabelo penteado, saíamos a passear pela Rua Coronel Alfredo Portugal, da esquina com a Rua Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo, nome do meu bisavô, em direção à Praça Antônio Guimarães, a antiga Praça do Sabiá. E aproveitávamos para paquerar as meninas, no circuito desta balada inocente e interiorana.
Não tínhamos consciência de que cresceríamos, andaríamos por caminhos distantes e estranhos, enfrentaríamos os desafios que a vida nos imporia, com toda a certeza. Brincávamos e nos divertíamos como meninos, sem atentar para o mundo estranho que estaríamos construindo.
Mas, pelo que me é dado relembrar, era assim, naquele tempo!

Cândido Portinari, Futebol em Brodósqui, 1935 (em estudosavancadosinterdisciplinares.blogspot.com).

12 de novembro de 2015

BATEREI À TUA PORTA


Baterei à tua porta
Às horas mortas
Despertar-te do teu sono de fada distraída
Prometer-te a vida
E mais nada
Amar-te como se fosse a última jogada
Da derradeira partida
Sorver-te ávido como um trago de bebida
Que queima
Ao passar pela garganta
Conter-te o pranto
Toda vez que convulsiva
Chores por aquilo com que te encantas
Por fim
Aliviar-te a dor das coisas findas
E amar-te tanto quanto se possa amar
O que é humano e lindo
Até que se consuma
O resto do que nos sobre
Ainda!

Imagem em pinterest.com.

5 de novembro de 2015

PROPINAS DIVINAS


Um dia, Senhor, caiu em uma conta num banco suíço, milagrosamente aberta em meu nome por um anjo de Vossa corte celestial, alguns caraminguás. Uns tempos depois, pingaram outros mais e mais outros, enfim dezenas de caraminguás voaram para lá, raiava sanguínea e fresca a madrugada¹ aqui em terras tropicalientes. Até minha santa mulher e minha filha imaculada foram beneficiadas por esse anjo, com contas de que eu nem sabia, como a comprovar que “as aves do céu não semeiam, nem colhem, nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta. Não têm vocês muito mais valor do que elas?”². E Vós mesmo já dissestes, em priscas eras, que era para confiar para caramba! E eu humildemente confio!
Pois, Senhor, alguns maus funcionários da justiça daquele país de queijos esburacados (Como confiar em um país que não consegue nem fazer um queijo sem buracos?) resolveram assacar contra a minha pessoa - e a de minha mulher e a de minha filha adorada - aleivosias e insinuações, repletas de comprovantes diabolicamente conseguidos por vários meios, para afirmarem que tudo aquilo que a providência divina resolveu cumular em meu favor fosse fruto de desfrute de dinheiro público.
Ora, Senhor, ainda que fosse verdade, bem sabeis que, em meu país varonil, tudo que é público não tem dono, e, se não tem dono, pode ser meu, ainda que eu não tenha tido a má intenção de pegar para mim, tão somente por um cúpido desejo de locupletação, mas sobretudo para Vossa honra e Vossa glória. Estava mesmo, Senhor, pensando em adquirir uma linda mansão no Irmão do Norte em Vossa homenagem e de Vosso filho, tanto que até criei uma empresa religioso-benemérita, sem fins lucrativos, de nome Jesus.com (O .com foi um descuido de minha parte, no momento de registrar a empresa.), com o fito de que tudo que por ali passasse fosse abençoado e limpo de qualquer possível mácula, pecado ou desconto no imposto de renda.
Assim, Senhor, vos imploro para que nada do que dizem contra mim seja confirmado, pois, estando em Vossa companhia, nada temo. Como já dizia a velha canção brasileira pagã, quem anda com Deus não tem medo de assombração; eu ando com Jesus Cristo no meu coração³ e nas minhas contas milagrosamente aparecidas em bancos suíços.
Por fim, Senhor, quero lembrar-vos do que Vós mesmo nos dissestes: “Busquem, pois, o Reino de Deus, e essas coisas serão acrescentadas a vocês.”⁴.
Simples assim, Senhor: eu busquei e as coisas me foram acrescentadas por Vossa divina providência.
Saravá! Perdão, Senhor: Aleluia!

Imagem em terapiasparatodos.com.br
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¹ Citação de As pombas, de Raimundo Correia.
² Mateus, 6:26.
³ Luiz Vieira e Arnaldo Passos, Menino de Braçanã (Caso queira ouvir a música, na bela gravação de Rita Lee, clique aqui.)
⁴ Lucas, 12:31

24 de outubro de 2015

NAU SEM RUMO


Não faço planos
Não vou cumprir nenhum deles

Vivo os anos
Os meses
As semanas
Ao sabor dos desenganos

Porém há dias em que me iludo
E traço metas
Estabeleço objetivos
Que não se completam
Não se cumprem
E me engano

Vivo aos trancos e barrancos
Como um barco frágil ao sabor do vento
Por entre as vagas traiçoeiras do oceano

E se acaso o cais se vislumbrar ao fim da lida
Recolho a vela
Lanço âncora
E como um velho marujo enrijecido pelos danos
Vou sorver um vinho alegre numa velha taberna conhecida

Théodore Géricault, A balsa da medusa, 1818-1819, Museu do Louvre (em pt.wikipedia.org). 

19 de outubro de 2015

NA CASA MATERNA

Sobre a mesa posta para o café da tarde
O sol entra num átimo
Por uma fresta de outono na claraboia de vidro
E banha com sua luz oblíqua
O pão o queijo a chávena
Compondo um quadro delicado
À Johannes Vermeer.
Como não pinto
Registro apenas
Com a câmara digital
Aquela cena
Mas a minha memória grava a fogo
Este momento sutil na simples casa materna.


Foto do autor.

15 de outubro de 2015

AS JABUTICABAS VÃO ABUNDAR NOS PÉS


Tenha juízo
Tome tento
Afrouxe este desalento
Com chave de fenda
Aos poucos
Sua vida não precisa ser aberta às escâncaras
Como um ataúde em que repousa um morto

Pegue leve
Evite o sufoco
E a correria que nos deixa tontos
Há muita coisa ainda a se viver
E é possível que o fôlego
Acabe numa curva qualquer

Sinta o vento que sopra manso
Cuidado com os vendavais de outono
Esteja certo
De que neste ano
As jabuticabas vão abundar nos pés


Imagem em youtube.com.

9 de outubro de 2015

DEIXE QUE O AMOR O AME


Deixe que o amor o ame
E não reclame
Não diga imprecações pela janela do sótão
Simplesmente deixe que o amor
Reclame a parte que lhe toca em sua vida
E saia da toca em que se esconde
Faça por onde
Redija um ofício à moça dos seus sonhos
Faça um requerimento àquela que o tresnoita
Siga o que o improvável lhe sugere
E não bata em retirada
O amor é assim mesmo
Um nada ao acaso num oceano de lágrimas
Que pode um dia achá-lo no buraco
E convertê-lo em casquinhas de prazer
Um coisa tão à toa
Mas que pode fazê-lo se perder

Deixe que o amor o ame
E depois não haverá mais do que reclamar

Rolinhas (foto do autor).

5 de outubro de 2015

SONHAR NÃO CUSTA NADA

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.)

Houve um tempo em nossas vidas – para aqueles que têm, por exemplo, a minha idade – em que era quase impossível pensar egoisticamente.

Em minha concepção, não haveria lugar para a felicidade pessoal. Antes, ela deveria passar pela felicidade geral de todos. De todos os que estávamos do lado de cá. Já que os que estavam do lado de lá – a minoria com as armas na mão – ditavam as regras que deveríamos seguir.

Não peguei em armas contra eles. Não cheguei a este extremo, como alguns companheiros de então. Talvez não tivesse este espírito. Esta disposição. Ou esta coragem.

Sempre achei que se pudesse combater com outro tipo de arma, que não fosse mortal ao corpo, mas sim ao pensamento.

No entanto, vivi o mesmo desespero de milhões de brasileiros que se submetiam a um regime injusto. E fiz do meu papel de professor, durante vinte e três anos, não só um mero passador de informações e conhecimentos, mas, principalmente, de um despertador de consciências.

Pessoalmente nunca fui infeliz. Não fui dotado pela natureza de pessimismo. E jamais tive ódios pessoais, bem como inimigos. Minha natureza não foi feita para isto.

Posso ter sido preguiçoso, mas nunca vacilei entre o que me parecia ético e o antiético. E, sobretudo, o respeito pelo outro. Postura que tenho até hoje e passei para meus filhos.

Se, em determinado tempo de minha vida, perdi a fé – esta coisa que nada tem a ver com erudição ou cultura, mas está em outro patamar –, assim mesmo, nunca abdiquei de princípios. O ser humano é a medida de todas as coisas, para mim. Apesar de todas as suas fraquezas e erros. Mas fora do homem não há solução. Nada se salvará.

E, se nós somos os culpados por todas as desgraças, todas as misérias e injustiças que há, sem nós não haverá salvação possível. Embora sejamos os lobos de nós mesmos, teremos de aprender a ser solidários e fraternos, antes que a natureza varra da face da terra a nossa existência.

E, então, a felicidade será uma verdade social e não apenas um valor individual que se possa esfregar na cara de nosso semelhante.

E a miséria, a fome, o desamparo e a injustiça serão alguma coisa vaga na memória dos mais velhos, dos mais antigos. As futuras gerações só saberão disto, ao lerem nos manuais escolares, como coisa do passado.

É com isto que eu sonho!

Valquíria Barros, Trabalhadores do café (em anuncios.adclass.com.br).

25 de setembro de 2015

LUMIAR


Agora
Quando quiser ir ao bar
Irei para Luminar
Quando bater a ânsia das águas calmas do mar
Irei para os rios de Lumiar
Quando a luz faltar
Irei vaguear à cata dos vaga-lumes de Lumiar
Quando quiser enfim me encantar
Irei ver a lívida lua serena alumiar Lumiar


Lua crescente, com interferência de galho de árvore,
em Lumiar (foto do autor).

22 de setembro de 2015

LUMIAR X SÃO PEDRO DA SERRA



Voltei de Lumiar ontem à tardinha. Já há alguns anos não ia por aquelas montanhas tão aprazíveis de Nova Friburgo. Até me lembro da agradável impressão de quando estive na vila de São Pedro pela primeira vez. Jane e eu chegamos no finzinho de uma sexta-feira comum, e me encantei vendo as crianças saindo da escola. Comentei, então, que nunca havia visto uma tão grande concentração de crianças bonitas, bem nutridas e felizes daquele jeito. Foi aquela primeira impressão que conquista o forasteiro.
Tempos depois, nosso amigo Eduardo Campos lá construiu uma bela casa a que, com certa frequência, íamos.
Por aquela época, São Pedro era o coração pulsante daquelas grimpas de serra. Lumiar, embora famosa pela canção magistral de Beto Guedes, mostrava-se extremamente pacata, recatada, como uma donzela pudica. Sua noite não tinha nada de excitante ou convidativa. São Pedro era o que se podia esperar de um lugarzinho pequeno e agitado, embora mantendo seu ar interiorano tão encantador.
Desta vez foi diferente.
Lumiar está um outro lugar. Transformou-se. Aquilo que nos parecia abandonado pelo poder público, como o laguinho no centro da cidade, que se resumia a uma grande poça d’água feiosa, agora está cuidado, com as margens perfeitamente urbanizadas, iluminação destacada e um entorno de bares e restaurantes, com mesas externas, música ao vivo e sedução para uma parada, uma cerveja artesanal, um vinho correto, uma comidinha honesta.

Lumiar à noite (foto do autor).
A antiga pracinha acabou de ser reinaugurada, com o tradicional coreto em seu centro, e está rodeada de lugares acolhedores para o encontro dos amigos. Por seu lado, as crianças divertem-se pelo espaço renovado com cuidado arquitetônico. O agito veio para cá.
São Pedro, ao contrário, perdeu seu elã, sua badalação. Os antigos hippies que faziam o sucesso de lá já não são notados. O agito tornou-se calma e modorra.
Durante um show na pracinha de Lumiar, no último sábado, uma mulher aparentemente doidona invadiu a apresentação do cantor que se se fazia acompanhar ao violão, para cantar sua versão de Hotel California, sob o riso generalizado dos que ali estavam. Ela terminou sua performance com o grito eufórico de que “São Pedro tinha virado um cemitério”.
Fiquei triste.
Nem São Pedro, nem Lumiar merecem este antagonismo antigo e estúpido que tanto rivaliza estados, cidades, vilas, bairros, ruas e gente vizinha. Podemos crescer juntos, sem que o outro regrida. Contudo é o que pude observar nesta última passagem por essas duas vilas simpaticíssimas da serra fluminense.
Seria tão bom que tanto São Pedro da Serra, quanto Lumiar, pudessem ter seu charme, seu encanto e sua badalação própria, sem que uma vila se sobrepujasse à outra.

Gostei muito de ver Lumiar como está agora. Mas fiquei triste em constatar que São Pedro, aonde já fomos passar o réveillon de 2003, logo depois de tê-lo feito em Paris em 2002, perdeu seu jeito todo especial de conquistar o visitante. Os escolares devem continuar tão bonitos quanto antes, mas sua noite já não tem mais o encanto de outrora.

Encontro dos rios, Lumiar (foto do autor).


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PS: Excluído e republicado por ter saído com incorreções que não puderam ser corrigidas no texto anterior.

14 de setembro de 2015

QUANDO VOCÊ OUVE SENHOR PELA PRIMEIRA VEZ


Eu ainda era um homem razoavelmente jovem, porém nem tanto, quando ouvi de uma atendente de antigo videoclube perto de casa a palavra senhor dirigida a mim. Tomei um baita susto, na oportunidade. Como morássemos no mesmo condomínio, certo dia lhe disse daquela minha estranheza em ser chamado assim tão solenemente. Ela sorriu amarelo, em seus dentes brancos, em sua bela carinha ainda adolescente.
Essa primeira vez é a primeira vez de todos os acontecimentos na vida: você jamais esquece.
E eu já era professor de cursos de graduação há alguns anos – havia começado aos vinte e seis na atividade –, e recomendava, logo na primeira aula, que os alunos não me chamassem de professor, nem de senhor: eu era simplesmente o Saint-Clair.
Mas o tempo é inexorável. Se você não morre, ele continua passando sem apelo, sem barreiras ou barricadas, rompendo tudo, atropelando quem estiver pela frente. E vai levando de roldão nossa juventude, junto com nossos cabelos e as habilidades físicas de um modo geral e específico, que nem é bom lembrar.
Há poucos anos, adquiri legalmente o direito à fila preferencial, ao transporte gratuito, à vaga reservada, que tento não usar, enquanto tiver alguma força física e financeira para parecer um pouco menos dependente das benesses do sistema.
Entretanto, neste fim de semana, tive a certeza de que não é assim que os outros já me veem. Eu, acostumado todos os dias a me olhar ao espelho, não percebo – como todos os meus semelhantes – os estragos que o tempo deve estar a fazer nesta minha pessoa despretensiosa.
Vejam só em que me baseio, para tal constatação.
Na quinta-feira, fui a um supermercado de esteira rolante. Ao sair com o carrinho de compras, uma mocinha, no pleno gozo da sua adolescência mas já no trabalho, no princípio da descida, se pôs a me ajudar a conduzir o veículo até embaixo. Antes uma mulher mais nova passou por ela, sem ter esse tipo de deferência.
Voltei no dia seguinte e, ao procurar vaga onde parar o carro, um homem jovem se apressou a tirar o carrinho de compras que atrapalhava o completo estacionamento do veículo. Eu lhe agradeci a gentileza, e ele sorriu com bonomia para mim.
O pior, contudo, a prova cabal e irrefutável de que virei realmente um senhor maduro – já chegando, quiçá, à velhice irremediável – me foi dada por um homem um pouco mais novo do que eu, dono do bar onde encomendara torresmos para abrilhantar a feijoada de domingo. Conforme combinado, liguei para saber se a encomenda estava pronta. Ele disse que iria verificar, deixou o telefone apoiado em algum lugar – o barulho indicava isto – e gritou para a cozinha no fundo do estabelecimento:
- Zé, o torresmo do coroa ficou pronto?
Confesso que só fui buscar o torresmo, que, aliás, é deliciosamente crocante, porque já havia pagado por antecipação. Caso contrário, deixaria que o boquirroto ficasse com o coroa preso na garganta, a vender suas cachacinhas miúdas e suas cervejas cheias de milho e arroz, para a clientela condescendente que frequenta aquele pé-sujo. E prometo não voltar lá. A não ser que a vontade de comer torresmo seja irrefreável!

Imagem em catracalivre.com.br.

9 de setembro de 2015

UM CONHAQUE AMARGO NO CHALÉ


Por um descuido, fui tomar conhaque no Botequim Chalé, localizado de frente para a Praia de Icaraí, na noite de ontem, quarta-feira.

Como estivesse sozinho, aos poucos fui-me insinuando na conversa de dois fregueses, aparentemente da minha faixa etária, que tratavam de um assunto interessante.

Botequim tem esta característica altamente simpática e democrática: é possível, com tato, se meter em todas as rodas de conversa.

Rapidamente soube que meus dois interlocutores eram engenheiros. Um deles, inclusive, o mais loquaz, falava das usinas hidrelétricas que tinha projetado pelo país afora, as duas últimas em construção no Rio Paraíba do Sul, na altura de Queluz/SP, já próximas à fronteira com o Estado do Rio.

Dizia de seu trabalho, de suas responsabilidades, de suas competências e experiências, e não deixou de tecer críticas a outros profissionais, como os arquitetos. Como se estes fossem artistas sonhadores, sem os conhecimentos teóricos e práticos de cálculos que os possibilitem aos voos de seus projetos.

Isto me fez refletir sobre a pequenez da alma humana: não basta ao homem vangloriar-se do que faz; é preciso desmerecer o outro.

Que merda de gente somos nós! Quão ridículos em nossas presunções!

A minha magnificência só se completa diante da incompetência alheia. É isto?

Eu sou sempre o fodão, aquele que sabe, que conhece, que resolve. E todos os outros são um bando de incapazes, de incompetentes, que não se criariam senão através de nossa capacidade desmesurada.

Sorvi logo o último gole do conhaque, despedi-me e fui embora para casa.

Tenho mais o que não fazer, do que ficar ouvindo presunções soporíferas de quem sabe fazer hidrelétricas!

Como sempre arremata seus comentários semelhantes o meu amigo blogueiro Zatonio Lahud: Saco!

Imagem em konsulfree.com.br.

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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.

2 de setembro de 2015

SOU CHEIO DE OPINIÕES


Não sou pessoa de uma única palavra. Tenho várias. Menos que o dicionário, é óbvio, mas cheio delas. Desde pequeno, desde criança. E também não tenho a última palavra. Seria ela zwingliano? Vejam que não sei ao certo. Quando aluno do Colégio Bittencourt, em Campos dos Goytacazes (Morrerei sem concordar com esta grafia!), na falta do que estudar - todas as lições já feitas -, resolvi contar as palavras do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, que se vangloriava de elencar mais de 90.000 vocábulos. Não contei nem a décima parte, mas vi lá, na década de 60, que a última dicionarizada era essa aí: zwingliano, "adepto ou seguidor do zwinglianismo". Hoje já não sei mais. Já não tenho a curiosidade da juventude e deixo com o Aurélio a derradeira palavra.

Assim fico com as palavras do meio, vez que a primeira pertenceu ao Criador, que fez tudo a partir dela: Fiat lux! E a luz e o fósforo de segurança foram feitos. Acho que até a minhoca e a lombriga foram feitas assim. O ornitorrinco, no entanto, tenho quase certeza, foi feito por Adão, com as sobras de alguns bichos que o Criador desistiu de criar e deixou jogadas num canto do almoxarifado celeste. Por isso deu no animal esquisito que é. Até na oficina mecânica do Mané Gibaita, lá em Carabuçu, se fazia coisa mais bem acabada do que o ornitorrinco.

E no meio dessas palavras e ajuntamento de palavras há coisas engraçadas, que merecem uma análise perfunctória e irresponsável, como sói ser de meu vezo e para o que sempre tenho a palavra incerta.

Por exemplo: autoajuda. Se isso não se refere a oficina mecânica, certamente tratará de carro guincho. Ou da ajuda daquelas pessoas que empurram seu carro, quando ele dá uma pane elétrica. Eu mesmo nunca vi alguém autoajudar outra pessoa: o leitor, no caso. Jamais vi alguém, cheio de problemas, chegar para um amigo e dizer: Preciso de uma autoajuda. Por isso, todos esses livros de autoajuda, na verdade, ajudam o seu autor. Aí, sim, a definição se ajusta.

Como jamais tive a pretensão de ficar dando conselhos aos outros, tenho a maior implicância com a palavra e a finalidade para a qual é usada.

Aliás, isto tem sido uma das preocupações da minha vida. Tanto que até cunhei um pensamento bem pensado: Muito se autoajuda quem não se atrapalha.

Não sei se isso ajudará alguém, mas fica aí para a reflexão dos meus parcos leitores.

Outra expressão que sempre futucou meu cérebro nervoso, como diz aquele samba-canção da época em que se usava cueca samba-canção, é "a merencória luz da lua". Em tempo algum, em nenhum dos textos que li, desde os gongóricos aos românticos, vi merencória ser usada. Ary Barroso, autor dos versos e da música em que a expressão se encontra, era verdadeiramente um homem muito esquisito. E olhem que não lhe tenho má vontade. Quando, há tempos, lhe faziam crítica por outro verso - "esse coqueiro que dá coco" -, em que o acusavam de tautologia, de obviedade, sempre estive com ele:  ora, todo coqueiro dá coco; Ary está coberto de razões e cocos e não poderia dizer esse coqueiro que dá goiaba, por exemplo. Mas essa "merencória luz da lua" é velha de dar com o pau. Chega a doer no ouvido. Talvez melhor ficar com a modernidade e o gosto estranho da música dos Titãs em que se arrolam vários nomes de doenças: O pulso. 

Mas vejam como é o povo: na Copa do Mundo da França, em 1998, no Parque dos Príncipes, em Paris, a torcida brasileira cantou a plenos pulmões, durante o jogo contra o Chile, a Aquarela do Brasil, com merencória, coqueiro que dá coco e tudo mais. E eu e meu filho Pedro estávamos naquele coral ensandecido.

Tenho muito mais opiniões a dar, mas, por hoje, fico por aqui. Não que seja esta a última palavra, mas a penúltima ou antepenúltima.

Cartum de Kemp, sobre Zé do Apocalipse, de Glauco (em lactobacilom.blogspot.com).


Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.

25 de agosto de 2015

BORA ASSALTAR MAMÃE!


Não sei se deveria contar esta história, mas ela, de vez em quando, fica cutucando minha indiscrição. É uma história verídica, porém não sei se verdadeira. Penso que sim, pois quem a contou para mim não teria a intenção de inventar coisas não ocorridas. Então vamos lá.
Conheci Zé Sérgio, o primeiro anistiado a partir de l964, lá pelo fim dos anos setenta. Isto porque ele se tornou namorado de uma minha amiga, que o conheceu num ônibus urbano do Rio de Janeiro. Ia ele com cara de cachorro caído da mudança, no último banco do coletivo, e tal expressão sensibilizou minha amiga. Daí para o namoro, foi um pulo.
Por aquela época ainda éramos todos jovens, embora eu já estivesse casado. E, enquanto durou o curto namoro, Zé Sérgio frequentava o apartamento onde Jane e eu morávamos, na Rua Pereira da Silva, esquina com a Moreira César, em Niterói.
Zé Sérgio havia lutado contra a ditadura militar, com o MR8 – Movimento Revolucionário 8 de Outubro –, até que acabou preso pelas forças de segurança. Ficou trancafiado no xadrez um bom tempo, mas foi o primeiro beneficiado pela Lei 6683, de 26 de agosto de 1979, que ficou conhecida como Lei da Anistia. Sua saída da prisão teve pequena matéria, com foto inclusive, na revista Veja, de que me lembro ainda hoje.
Num desses encontros para um almoço lá em casa, Zé Sérgio contou algumas interessantes passagens do seu tempo de militante do movimento contra o regime E era difícil imaginar que um homem pacífico e cordial como ele, pudesse ter pegado em armas, ter-se envolvido em ações violentas, na tentativa de derrubar a ditadura.
Segundo ele, nenhum dos membros de uma célula de ação era conhecido por seu próprio nome. Ao contrário, todos tinham codinomes, no intuito de preservar suas verdadeiras identidades. E também não participavam efetivamente de todas as decisões visando às ações que seriam empreendidas contra os militares. Este caso ocorreu justamente numa delas.
Chegou à sua célula a determinação de que os militantes tais e quais deveriam unir-se em certo ponto da cidade do Rio de Janeiro, de onde partiriam para a ação ainda desconhecida. No horário marcado, lá estava ele. Ao se encontrarem, os ativistas anunciavam a senha e diziam seu codinome uns aos outros. O líder do grupo revelou, então, o que seria realizado naquela noite: o assalto a um restaurante, com a finalidade de angariar dinheiro para financiar a luta armada.
Entraram todos na viatura e rumaram para o endereço em Vila Isabel: era o do restaurante O Bigode do Meu Tio, de propriedade de Jofre, um dos filhos do escritor Nelson Rodrigues.
Quando a viatura parou nas imediações, um dos jovens do grupo pediu para não participar, oferecendo-se para dirigir o carro. O chefe da operação relutou, mas acabou aceitando a troca de funções entre ele e o motorista. O restante do grupo adentrou o restaurante, enquadrou todos os presentes, sobretudo a mulher do caixa, passou a mão no dinheiro, num tempo mínimo, quase nada, e saiu.
Terminado o assalto, o carro partiu cantando pneus na noite da Vila de Noel e Martinho, antes que a polícia fungasse nos calcanhares do grupo.
Depois de desbaratado o grupo pelas forças de segurança e alojados seus membros em prisões militares, Zé Sérgio foi saber que o companheiro que pediu a troca de função na missão era Nelson Rodrigues Filho, irmão do Jofre, que lhe disse durante uma das muitas conversas que tiveram na cela:
- Fiquei sem jeito de chegar lá e meter o cano da arma no peito da minha mãe, que ficava no caixa, para exigir que me passasse o dinheiro. Por isso, preferi dirigir.
Nunca vi esta história publicada. Pode ser que o Nelsinho, como é conhecido o filho do grande escritor, já a tenha relatado em alguma oportunidade. Fica aqui, no entanto, esta versão, que me foi contada por quem a viveu. Espero não estar cometendo nenhuma indiscrição séria, mas é um registro até engraçado de um tempo duríssimo por que passou o país.

Imagem em noticias.r7.com.