29 de junho de 2014

IRONIA


Nomes que são avessos
Tropeçam em seus sentidos
Reparem como se desdizem
Certos nomes conhecidos:
Vivaldo morreu de vez
Felícia é desinfeliz
Patrício é estrangeiro
E Letícia anda sempre triste
Armando desmonta tudo
O que Fabrício nem fez
Fernando malha ferro frio
Com o martelo do Marcelo
Antígona é bem moderna,
Não tem nada de antiga
Prometeu não promete nada
E Simplício é só soberba
Altivo anda jururu
Pacífico, de maus bofes,
Anda querendo briga
E Celeste encontrou afinal
O tal do inferno astral
Delícia é bem azeda
E Divino, por seu turno,
Parece filho do capeta
Alberto fechou-se em copas
Germano nasceu no Acre
Ítalo veio de Teresina
Sílvia odeia selva
Marina mora na serra
Bem distante do mar
Silvestre vem da cidade
E odeia coisas do mato
Aparício sumiu no mundo
Clarice escureceu
Bruna tem pele alva
E Albino é mestiço fula
Prudêncio é insensato
Crescêncio encolheu o porte
Amâncio é muito brabo
Ascêncio só vai pra baixo
Cristiana renegou a crença
Acrísio é muito impuro
Plácido anda nervoso
Eugênio tem berço ruim
Florinda está murchando
Aguiar perdeu seu rumo
Salvador não se salvou
Agostinho é de janeiro
Setembrino é de março
E Júlio, de fevereiro
Dolores só têm prazer
Glauco enxerga muito
Aparecida está sumida
E Bonfim danou-se todo
Quando soou o seu sino.
Repararam como, na vida,
Uma coisa está escrita,
Mas é coisa bem diversa
O que as letras contêm?
Será birra do destino?



Imagem em hsacaduracabral.blogspot.com.

24 de junho de 2014

DISCURSO DE FORMATURA


Pediu a palavra durante a festa de formatura do Grupo Escola Marcílio Dias, na progressista vila de Carabuçu, e falou:

- Caros concidadãos! Sob os augúrios desta efusiva efeméride, não me seria possível furtar ao inefável prazer, senão à elevada honra, de dirigir-me a esta ínclita e seleta assembleia para enunciar alguns efêmeros vocábulos laudatórios aos diletos formandos. Ei-los aqui, nobres pares, com o meridiano discernimento dos iluminados de que a labuta não foi vã, não foi inócua e improfícua sua determinação. Assim, prestem-se estes nossos incipientes patrícios como irretorquível exemplo para as novas gerações, a fim de que, reafirme-se sempre, o estar no mundo se configure, amiúde, como uma inequívoca prova de que o Criador nos regalou com a probabilidade do aprimoramento social, relativamente proporcional ao melhoramento individual. Sejam eles, então, ratifique-se, o lúmen e o apanágio para os neófitos, que ora estão, tão somente, abeberando-se nos inescrutáveis mananciais do saber. Em virtude de tão relevante papel que se lhes atribui, peroro meus nobres concidadãos, reunidos nesta inenarrável solenidade, a bradarem em uníssono, como forma superlativa de incentivo: Eia! Sus! Avante, camaradas! Tenho dito. Muito obrigado!

O auditório explodiu em aplausos. Lá no fundo do salão, Manuel Bento, um dos que mais aplaudia, murmurou eufórico para a esposa:

- Ô, Dorinha, não entendi patavina do que o doutor falou, mas, taí!, vai falar bonito assim lá no raio que o parta!




Imagem em vampyrusbr.blogspot.com.


16 de junho de 2014

REGISTROS FORENSES FESCENINOS


Amantes 45, por Nicoleta Tomas Caravia (afilosofiadolobo.blogspot.com).


1. O jovem casal presta concurso público para a secretaria do Tribunal de Justiça. É aprovado. Toma posse e cada um dos cônjuges vai trabalhar em locais distintos, andares diversos, no mesmo prédio. Ambos ainda não completaram trinta anos, são inteligentes, dedicados, bonitos, interessantes. Uma tarde, certo juiz de direito, assessor da presidência, precisa descer de um andar a outro imediatamente abaixo e resolve ir por umas escadas de serviço pouco movimentadas. Encontra os dois jovens – marido e mulher – em pleno ato sexual, na penumbra daquelas escadas quase nunca frequentadas. Por ainda estarem em estágio probatório, foi relativamente simples sua demissão sumária, após comunicação do fato aos canais competentes pelo zeloso magistrado.

Eles conseguiram realizar o grande fetiche de suas vidas: formarem-se em direito, serem aprovados em difícil concurso público para a Justiça e copularem como cão e cadela nos desvãos de uma escada pouco frequentada do Poder Judiciário.


2. Na sexta-feira de manhã, como sempre, faz-se a limpeza do salão nobre do prédio da Justiça, onde se reúne o Tribunal Pleno às quintas-feiras. Naquele dia, de perigosos prenúncios, a jovem faxineira, de olhos claros, touca protegendo os cabelos, iria repetir um gesto que vinha fazendo com frequência em outros ambientes: a felação do seu chefe imediato. Senhor de seus sessenta e poucos anos, o chefe tinha como meta na vida ser sugado atrás da cadeira do presidente da casa. Ele nunca pudera estudar, porém não iria deixar passar a oportunidade para exercer qualquer tipo de poder. E ali, o lugar ideal. Era cerca de nove horas da manhã, quando seu coração parou no justo instante em que a jovem faxineira aplicava sua especialidade bucal. Ele ficou lá, duro atrás da cadeira, a moça desesperada com a cena, todos correndo para socorrer. Era tarde, muito tarde! Por isso, a faxina desandou naquela sexta-feira de perigosos prenúncios.


3. Nilo transitava pelos corredores do fórum há quase trinta anos, extrapolando competências no cartório da Vara de Falências. Agora levava processos para o juiz titular despachar. Quando entra no gabinete do magistrado, encontra a jovem e elegante advogada ajoelhada sob a mesa de despacho, aplicando em sua excelência felação jurídica inicial. Pego de surpresa, o magistrado reage com certa indignação, alegando que não se entra em sua sala sem se anunciar. Com a autoridade que lhe davam tantos anos de trabalho, o serventuário devolve a reprimenda com a informação ao juiz de que seu gabinete não era o melhor lugar para isto. E saiu como entrou, levando a pilha de processos sob o braço. Naquele dia, a vara do juiz foi que faliu!

11 de junho de 2014

O CASO DO GOLEIRO CEGO

Vão jogar, pelo campeonato rural de Carabuçu, quarto distrito de Bom Jesus do Itabapoana, as gloriosas equipes do Serrinha Futebol Clube e do Mutum Esporte Clube. É jogo decisivo, final de campeonato.

No gol do Serrinha, o técnico escalou seu próprio irmão, Zezito, cego de pai e mãe desde os tempos de menino. O centroavante do time do Mutum, artilheiro do campeonato, Jair Bodinho, imaginou-se fazendo gol até de bunda. Ledo engano! Durante o primeiro tempo, no gol de Zezito não entrou nem pensamento.

No intervalo, o técnico do Mutum chamou os atletas às falas: Como é que não enchiam o adversário de gols? Onde já se viu cego pegar no gol? Cadê o artilheiro do campeonato, o matador? Viraram um bando de pernas-de-pau, de mariquinhas? É assim que vocês querem ser campeões, sem fazer gol em cego? Vão ser é campeões de merda, cambada de frouxos! E só não apanhou dos atletas, depois de quinze minutos de descomposturas e ofensas, porque, além de fazendeiro rico e dono do time, ocupava o honroso cargo de subdelegado de polícia da vila.

O time do Mutum voltou a campo comendo grama pela raiz. Partiu todo para cima do goleiro Zezito que, misteriosamente, milagrosamente, mediunicamente, defendia todas as bolas.

A pressão do Mutum foi aumentando, aumentando, até que, nos minutos finais, aconteceu um pênalti em cima do artilheiro. Este tá no papo! É bola no filó! Pensou ele. Santa inocência!

Pois, lá onde a coruja dorme, o endiabrado Zezito foi catar o tirambaço, segurando a bola com mais firmeza do que toda a Serra da Capetinga.

Encerrado o jogo, o artilheiro Jair Bodinho, injuriado por todos os deuses do futebol, foi até o técnico do Serrinha, para saber o segredo de seu irmão goleiro.

- Muito simples! Você notou, quando pegou a bola para bater o pênalti, que ela estava untada de sebo de boi?

- Notei.

- E então?! É que Zezito agarra pelo faro, vai atrás do fedor do barriguim.

Zezito pegando o pênalti cavernoso de Jair Bodinho (imagem gartic.uol.com.br).

4 de junho de 2014

VELHO RITMO


pela trilha afora a trôpega tropa
em lenta cavalgada
desenha no ar nuvens de poeira
no serpenteio monótono
do transporte do café em coco.
do alpendre da casa
avistam-se os morros desordenados
que correm junto ao valão
e sustentam a estrada
que vai do nada ao quase nada.
e a tropa na trilha se aproxima da casa
da fazenda e o grito do homem
orienta a chegada:
“vem, canário! arre, godero!”
– burros com nomes de pássaros –
“volta, soberbo!, tchu, tchu, melindroso!”
 – parecem eles homens presunçosos.

e o pobre tropeiro de pele lustrosa
escancara a porteira para a entrada da tropa
e descansa seu corpo sob a sombra da tulha
e termina alquebrado a viagem penosa.


Jean-Baptiste Debret desenhou também os tropeiros conduzindo longas filas de muares, ou tocando boiadas / Aquarela sobre papel 'Carvão' - Rio de Janeiro, 1822
Desenho de Jean-Baptiste Debret, 1822 (em revistadehistoria.com.br).