23 de março de 2017

VIAGEM AO PASSADO

(Para os amigos Marina e Adilson Dutra.)
Fiz uma viagem ao passado no mês de dezembro. Aproveitei o convite dos amigos Marina e Adilson Dutra e voltei a Campos dos Goytacazes com a Jane, para rever velhos espaços de outrora, quando lá estudei no meu primeiro ano ginasial. Era 1960, por aquela época.
Adilson me fez a gentileza de agendar visita à minha antiga escola, o Colégio Bittencourt, situado na Rua Gil de Góis, próximo ao Jardim do Liceu.
Eu chegara ao colégio em março daquele ano, para iniciar o Curso Ginasial. Chovia fino e fazia um certo frio, mesmo para aquele mês. Por aquela altura, o calor não era tão intenso quanto hoje, ou, criança ainda, não me dava conta disso. Foram comigo os amigos e conterrâneos Augusto Pereira e Adilson Soares, este já falecido. Eles iriam para o terceiro ano e eram, portanto, velhos alunos do internato, que me guiariam e cuidariam de mim como irmãos mais velhos. Eu, apenas um calouro espantado com a novidade, sem, contudo, temer a experiência. Não havia trote. Os mais velhos recebiam os mais novos com a indiferença comum por então.
Lembro-me bem de que, após ter ido com minha mãe e nosso tio Nalim até as papelarias da cidade – À Normalista e Ao Livro Verde – comprar o material didático, entrei na posse do meu espaço no colégio. Fui conhecer o dormitório dos menores, a minha cama, as regras de conduta, os monitores de disciplina que velariam pela boa ordem no espaço interno, e as dependências do educandário.
E, no momento da despedida, quando vi minha mãe sair pelo portão principal, reunido com outros alunos sobre a laje de uma construção em frente à quadra, disse-me o Adilson:
- Pode chorar, Saint-Clair. Aqui todos choram nesta hora.
Aproveitei a chuva fina de março, para também derramar algumas lágrimas, que cessaram daí a pouco.
Pois agora, em dezembro do último ano, estava de volta e pude constatar que alguns desses espaços permaneciam os mesmos, como a antiga quadra de esportes, ainda descoberta, logo à direita de quem entra. Naqueles poucos degraus de uma arquibancada acanhada, nas tardes de sábado, lia para os colegas de internato. Manuel Joaquim, também mais velho do que eu, resolveu que eu era bom leitor, e um grupo ficava a ouvir a narrativa de textos condensados de Seleções do Reader’s Digest, cujo volume tomávamos emprestado à biblioteca do diretório acadêmico, localizado no prédio de dois andares, no fundo do terreno, ainda lá e próximo à casa em que morava o doutor José, um dos diretores da escola. Apesar da carranca de durão com as indisciplinas de uns e outros, ele permitia que os amantes de futebol vissem os jogos do campeonato carioca em seu novo televisor preto e branco. Por diversas vezes, estive sentado no chão da sala a acompanhar as partidas. 
Ainda está lá a velha sala de aula, com as carteiras na posição invertida. Parei um instante diante dela e troquei dois dedos de prosa com a professora que atendia um grupo de miúdos. Por todas as salas em que passei, algumas inexistentes à época, vi crianças ainda bem pequenas, na fase da pré-escola, a enfeitá-las com suas carinhas interessadas, seus brinquedos corporais, seus sorrisos receptivos. Numa delas, em que falei para os pequenos que eu também já havia sido aluno ali como eles, dois aluninhos arregalaram os olhos incrédulos. Devem ter pensado em como um velho como eu teria sido aluno dali. Inacreditável!

No meio do pátio, soberba de muitos anos, está a mesma mangueira, cujos frutos não chegavam a amadurecer à época, pois os devorávamos antes, ainda verdes, com sal, à espera do almoço de sábado, chamado ajantarado, que, por sair um pouco mais tarde, agravava o apetite daquele bando de adolescentes vorazes.
E não pude deixar de lembrar de alguns dos meus contemporâneos de internato, dentre aqueles que a memória guardou com maior precisão, além de Augusto e Adilson: Rubens e Roberto Neiva, Floriano, Fernando, Zé Pimentão, Nilson, Carlinhos Gordo, Gil, Laerte, Rubens Galaxe, Ari Tijolo, Chiquinho, Newton, Manuel Joaquim, Osni; os monitores Nei, Paulinho, Lúcio de Lauro, seu Alair, e o chefe de todos, o Badô, que era capaz de reunir em si qualidades aparentemente conflitantes: era, ao mesmo tempo, severo, justo e camarada conosco.
Após o percurso por vários desses espaços, alguns novos, outros do mesmo tempo em que lá estive, fomos recebidos pelo atual diretor, Guilherme, filho de dona Maria José, minha primeira professora de latim, esposa do professor Delamar e irmã dos também professores Mário, José e Clóvis, da mesma família de educadores responsáveis por aquela escola centenária, fundada em 1914 pelo velho professor Mário Bittencourt.
Ao final do encontro, ganhei de recordação o opúsculo “O centenário do Colégio Bittencourt”, em que se registra a história da família, desde o mais remoto Bittencourt, na França, até os dias atuais.
Confesso que fiquei tão feliz, que nem deu tempo de minar água nos olhos, fato, aliás, muito comum nesta minha sentimental pessoa.



11 de março de 2017

BEBERAGENS E COMILANÇAS


A publicidade do produto que aparece na minha página de abertura da Internet informa que, "além da cafeína”, ele tem “Pods com camomila, eletrólitos e zinco".
Detesto beber ingredientes. Bebo o troço pronto, finalizado, sem saber o que leva na composição; restrição apenas para o açúcar, já que as taxas de glicose andam salientes. Mas não sou contra quem consome açúcar. Dia desses, por exemplo, na fila do caixa na padaria, uma jovem mulher estava esquecendo suas duas embalagens de doces. Ainda brinquei dizendo que não as levaria escondidas, porque não os comeria em casa. Ela, então, retrucou que não se perdoaria em deixá-los para trás. Os doces eram bonitos como a Gisele Bündchen! E ela, a dona das guloseimas, um tanto envergonhada, ainda comentou que o açúcar não serve para nada em nossa vida. Disse-lhe, ao contrário, que serve para nos dar felicidade, prazer. E isto já é muita coisa.
Mas, voltando, à história dos ingredientes, alguém, por acaso, sabe o que há na Coca-Cola? Ou no Campari? No Fogo Paulista? Ou no vinho quinado que o tio Aldany fazia para vender aos seus fregueses em Carabuçu lá pelos anos 60, e de cuja alquimia minha mãe, irmã dele, participava? Eu mesmo, depois de pronta a beberagem e antes que ela fosse engarrafada para ser deixada enterrada por alguns dias a fim de apurar o paladar, dava uma bicolada inocente e achava aquilo muito bom. Sinceramente!
Como chouriço de botequim. Sei o que ele contém, mas não penso nos ingredientes quando o saboreio. Seria um breque no paladar. Tripa de porco, sangue, redanha, como dizíamos na terrinha, e temperos muitos e variados, aí incluída a pimenta.
Bebo vinho porque gosto. Não estou preocupado com os efeitos benéficos para a saúde do resveratrol. Nem para os nocivos do álcool, se excessivo. Bebo para ser um pouco mais feliz do que já consigo ser.
Mas, em tudo, procuro sempre a temperança, resquício de minha formação religiosa, em todas as coisas do mundo. E também o prazer, agora em oposição à essa mesma formação religiosa. Creio que apenas o amor deve ser desmedido.
O resto a gente acomoda, quando se pode extrair um tanto de prazer da vida. Contudo prometo não experimentar aquele produto, só de implicância porque ele contém cafeína, Pods com camomila, eletrólitos e zinco. Vai que isso dê um revertério em minha pessoa, e eu desencarne antes do previsto na tabela de classificação periódica dos elementos!

Imagem em fisioterapiapersonalizada.wordpress.com.