31 de janeiro de 2013

SER ATENTO AO AMOR


Ao meu amor serei atento
Tanto quanto Vinicius
Tanto quanto J. G.
Assim como Dante
No seu longo amor por Beatriz
Isto tão-somente e porque
A vida anda por um triz.

Dante e Beatriz, Marie Spartali Stillman (1844-1927), pintora inglesa
(em algumapoesia.com.br).

29 de janeiro de 2013

UM HOMEM SÉRIO


Vai na rua um homem sério
Contido em seus amores
Baixado à cova rasa das emoções baratas
Miserável de alguns milhões
Em busca de si mesmo

Vai e não se encontra
Seus duplos egos
Ocupam posições estrábicas

E segue o homem sua jornada
Como se não houvesse nada
Enfim o amanhã
Tem importância de somenos
E a paixão é apenas uma simples cilada

Alberto Giacometti, Homem caminhando (em jornaldoporao.wordpress.com).

27 de janeiro de 2013

ERA MAIS OU MENOS ASSIM (II)

Era mais ou menos assim.

Como diversão, alguns homens jogavam sinuca. Havia, pelo menos, três bares com mesas de sinuca na vila. O do tio Tônio, que depois passou para o Antônio Chambão, o do Roldão, que antes foi do Mansur – um perto do outro –, e o do Almerando, irmão do Roldão, que já tinha sido do seu Mateus, pai dos dois, e localizado na Coreia, uma espécie de bairro da vila minúscula.
Jogava-se a partida tradicional, em que se matam as bolas na sequência de seus números. Jogavam-se outros jogos, um chamado vida e outro, mata-mata, dentre os mais usuais. O jogo de vida era sempre apostado. Os outros podiam ser à brinca, como dizíamos, em oposição àquele, que era à vera.

Sempre durante os jogos, havia a plateia atenta às tacadas, às jogadas, às encaçapadas. Mas era proibido palpite. Isto é, ninguém podia sapear o jogo. Jogador não aguentava sapo dando palpite.
Nico Dutra, fazendeiro que morava numa propriedade próxima à vila, era um jogador especial: quase sempre, ao sair de uma sinuca – posição em que a bola de jogo tem um obstáculo para chegar à bola da vez –, entortava o corpo, num movimento sinestésico, para tentar “ajudar” o trajeto de sua bola. E era um espetáculo à parte ver suas contorções extravagantes, levando o taco consigo.

Havia também a roleta, o carteado, o cisprandi. Todos esses jogados em salas fechadas e “escondidas”, pois sempre foram proibidos. E todos apostados, valendo dinheiro. No bar do tio Tônio mesmo, havia uma dessas salas. Tio Herson sempre ia lá jogar no sábado à noite. Furtivamente eu entrava para ver, e tio Tônio, com um bonachão ar severo, me mandava sair, pois ali não era lugar de criança.
Enquanto isso, as crianças se divertiam brincando de baleba, pião, pique, pique-esconde, pique-bandeira, bandeirinha, peteca, siliprina (ou ciliprina, palavra não dicionarizada), pelada, tira-e-bota (jogo de pedrinhas), cantigas de roda, normalmente à noite, quando meninos e meninas se juntavam e me era possível chegar mais pertinho das garotas bonitas, às vezes tocá-las, durante as danças, e ficar sonhando a noite inteira com aquele prazer inenarrável. Não sei os meus colegas de então, mas eu me apaixonava à toa! No tempo dos bons ventos, soltávamos papagaio ou estrela, segundo o formato da pipa. E jogo de bola era uma constante: na rua, no campo de futebol, em que entrávamos escondidos, em pastos.

Darcizinho, filho do Darci Modesto, era o violeiro da terra. Boêmio, estava sempre com o violão pelas ruas da vila, procurando onde cantar. Ele tinha um bigodinho estreito e aparado, palmeando o lábio superior, os olhos quase sempre vermelhos de pinga gelada – sua predileção. E cantava com voz impostada os sambas-canções e boleros que faziam sucesso à época. Quase sempre era acompanhado por meu tio Louro, que tocava cabaça, às vezes pandeiro, e gostava de fazer segunda voz. Louro era outro amante da camulaia. Normalmente, quando eles cantavam na pracinha, lá estava eu ouvindo.
Do lado da Coreia, havia o Tatão da Hortênsia, exímio tocador de banjo, que também sempre tinha uma roda animada em torno dele.

Aos domingos, quase sempre, o poderoso esquadrão alvianil do Liberdade Esporte Clube entrava em campo, no Estádio Doutor César Ferolla, para a disputa de uma partida do glorioso campeonato organizado pela LBD – Liga Bonjesuense de Desportos. Também quase sempre eu estava lá, com exceção do último domingo do mês, quando havia missa na vila e meu coração ficava dividido entre o jogo e a devoção religiosa. Quando dava tempo, saía correndo da igreja, a fim de pegar os últimos lances.
Meu tio Paulo, o do bigode de Jacob do Bandolim, foi – excetuando-se Mané Garrincha e Pelé – o maior jogador que já vi atuar. Era um rapaz franzino, puxava suavemente da perna direita, por um problema congênito no quadril, e beque central. Os mais velhos sabem a força do nome beque central. Não era qualquer um apto a desempenhar as funções de beque central. Fracos não exerciam tal função em campo. Em times do interior, em primeiro lugar, o camarada tinha de ser dobrado em seu porte físico, já que reinava o princípio esportivo de que ou passa a bola, ou passa o jogador; os dois juntos, jamais! Em segundo lugar, devia ter certo desapreço pela integridade física do adversário. Mas meu tio Paulo era o beque central. Ainda que franzino e um tanto baixinho para a função. Mas foi o mais técnico, o mais competente, o mais habilidoso, que já vi atuar. Tinha perfeito domínio da bola, tanto no chão, quanto no ar. E poucos conseguiam ganhar dele na cabeça. E saía da área com a bola dominada com tal segurança, que aquilo parecia ser a coisa mais natural do mundo.

Nesses jogos de domingo, sempre atrás do gol, ficava um morador do Jacó que, às quatro da tarde, quando o prélio se iniciava, já estava calibrado na cachaça. E se punha a gritar para o nosso time, quando atacava:
- Vêm, vêm, meus canarinhos! Traz que vem, meus canários!

E desconjurava o ataque adversário, ao atirar a bola contra a nossa meta:
- Vai passando, capeta!

Não sei se aquilo dava certo, mas eu tinha a maior confiança nos gritos dele, que me pareciam conter algo de enfeitiçado, capaz de alterar o curso da pelota, conforme seu interesse, que, afinal, era também o nosso.
Nesse mesmo campo de futebol, pelo mês de junho, armava-se um imenso arraial de São João, com fogueira, barraquinhas, bandeirolas estendidas de ponta a ponta, brincadeiras e a quadrilha, marcada por seu Alcino, e puxada na sanfona por meu tio Tatão, que, aqui para nós, tocava mal à beça, mas estava sempre disposto a colaborar. Certa vez, minha prima Maria Ilka o substituiu com méritos. Além de ser uma bonita morena, tocava bem melhor que nosso tio.


Imagem em agrosoft.org.br.


Durante uma dessas festas, foi que ganhei pela primeira vez numa aposta. Meu avô, o Papai Juquinha, irmão do tio Tatão e pai da minha mãe, comprou alguns números da barraquinha do porquinho-da-índia. Pegou um deles e me deu. Fiquei ali, ao lado da barraca, torcendo para que o bichinho entrasse na casinha com o meu número. E ganhei! E qual foi o prêmio? Um cacho de bananas! Então percebi, naquele momento, que a vida para mim não seria fácil. Quem gasta a sorte ganhando apenas um simples cacho de bananas teria de dar duro o resto da vida. E foi o que aconteceu. Começando naquela mesma noite, quando levei nas costas um cacho de bananas quase do meu tamanho.

Mas era tudo mais ou menos assim. Divertido! Lá pelas décadas de 50 e 60 do século passado, na minha pequena vila de Carabuçu.

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Agradeço a meu irmão Gutenberg a lembrança da frase "Traz que vem, meus canários!", proferida pelo torcedor, cujo nome, no entanto, não foi lembrado nem após várias consultas.


25 de janeiro de 2013

SONO

Dorme a sono solto o meu garoto
O meu minúsculo neto
No tépido colo materno
Dorme como se não houvesse amanhã
Despreocupado dos problemas do mundo
Pois tem a certeza inata
De que a próxima mamada
Está garantida por direito constitucional
De todos os mamíferos
Porém previamente inscrito a fogo
No coração apaixonado da sua mãe

 

Sono (foto do autor, editada).

23 de janeiro de 2013

TRAVO

Trago na boca o travo de um paladar antigo
Um tanto amargo
Um tanto ambíguo
Um gosto sobreposto a um outro gosto
De coisas que se vão perdidas
Como a infância de que se lembra tanto

Tento no entanto que tudo que trago comigo
Seja isso seja aquilo
Me traga sempre as lembranças mais profícuas
Dos momentos vividos
Dos amigos queridos
E das coisas que não se vão perdidas

Cândido Portinari, Brincadeira de roda, 1935 (erm sp-arte.aonde.org).

21 de janeiro de 2013

ERA MAIS OU MENOS ASSIM

Era mais ou menos assim.

Os homens normalmente tinham bigode amplo, daqueles que enchiam todo o lábio superior, parecendo um dormente de estrada de ferro, como já disse. Os mais jovens já não davam tanta importância a este acessório capilar labial, embora meu tio Paulo, o mais novo dos irmãos de minha mãe e que odiava ser chamado de tio, o tivesse. O jeito do bigode dele era o do Jacob do Bandolim, e preto. Já viram uma foto do Jacob do Bandolim? Pois é, daquele jeito!
As pessoas mais simples bebiam pinga, que tinha vários nomes, um deles muito engraçado: camulaia. E bebiam de um sorvo único, após deitar ao chão, no canto do balcão ou na rua, o gole do santo. Comumente o tira-gosto era uma cara feia, uma espécie de urro contido, uma imprecação contra o forte paladar da mardita, uma cusparada longe, que quase atravessava a rua. Ou se jogava um punhado de farinha na boca; ou se comia uma lasca de carne-seca crua, com uma rebarba de gordura, para amainar o ardor.

Já os que gostavam de beber cerveja quase só bebiam Brahma. Era como uma bebida única. Por esse tempo Brahma e cerveja eram sinônimos. Como gilete, que, da marca Gillette, passou a substantivo simples designativo da lâmina de barbear.
E havia uma venda em que a cerveja era resfriada em sal grosso num buraco no chão. Era a venda do Elói Andrade, no morro do colégio. Mas em bares mesmo, já havia geladeiras horizontais. Tio Tônio, Barrosinho, Roldão, Almerando, seu Mateus, por exemplo, até faziam picolés. Tio Tônio também fazia sorvetes: punha a mistura para ser batida numa cilindro giratório, mergulhado em salmoura gelada, até que ela atingisse a consistência desejada.

E quase todos fumavam cigarro Continental sem filtro. Filtro, então, era coisa de gente fraca, coisa de mulher. Alguns mais sofisticados preferiam Hollywood, também sem filtro. Meu pai só fumava Missbela, mais barato. E, quando este encareceu, passou para o Postal. Diziam que era muito forte. Mas meu pai só fumava uns quatro por dia, em determinados momentos. João Coleto, primo de meu pai, gostava de Liberty Ovais, em caixa de papelão retangular.
Outros fumavam fumo de rolo, que picavam com canivete e trituravam na concha da mão com o polegar e depois enrolavam em palha de milho seca ou em papel especial para cigarro. Havia ainda fumos já preparados para isso, que eram vendidos em embalagens parecidas com as do cigarro. E poucos outros, sobretudo das roças, fumavam cachimbo, que baforavam rapidinho para que mantivessem vivo o fogo, ao tempo em que soltavam uma fumaceira danada nos circunstantes.

Um dia, o subdelegado da época apareceu fumando com piteira. Ela devia ter quase dez centímetros de comprimento. Talvez mais. As más línguas diziam que foi por ele ter interpretado erroneamente a recomendação do médico de que deveria afastar-se do cigarro.
Quando se tratava de time de futebol, a maioria era Vasco da Gama, o time mais popular no interior por aqueles tempos. Poucos eram Flamengo; menos ainda, Fluminense. Meu pai, meu avô e todos lá em casa, excetuando-se minha mãe, éramos Botafogo. Meu tio Paulo era Bangu. Seus irmãos tinham, cada um, um time: tio Aylton, Fluminense; Cate, Botafogo; e Louro, Vasco. Meu outro tio, Aurélio, este emprestado, pois casado com uma irmã de minha mãe, era América. Outro tio do mesmo tipo, o Herson, era igualmente Fluminense.

Também se fazia um uso extensivo do chapéu. A quase totalidade dos homens que morava nos arredores da vila o usava. Na vila, que chamávamos de Rua, muitos homens cobriam a cabeça com ele, sobretudo os mais velhos. Podia ser chapéu de feltro ou chapéu de palha. Raramente se via um chapéu Panamá, que tinha fama de muito elegante e caro. Alguns homens usavam guarda-sol, que se transformava em guarda-chuva, conforme o tempo. As mulheres tinham sombrinhas. Nos verões, era comum ver pessoas caminhando sob a sombra do guarda-sol ou da sombrinha.
Os que vinham das roças em torno da vila sempre vinham a cavalo, mesmo que a montaria fosse um burro, uma mula, mais comuns no transporte individual. E deixavam seus animais em cocheiras, que eram três, ou amarrados diante das vendas onde faziam as compras da semana. Muitos dos habitantes da Rua tinham bicicletas, que serviam muito bem para os minguados percursos da vila. Automóvel mesmo, só o do seu Amim, libanês que o usava para carro de praça (Não empregávamos a palavra táxi.); o do seu César Portugal, que foi prefeito do município e tinha um preto do tipo cristaleira, bem antigo, mas que ainda rodava; o jipe do seu Torquato Andrade, o do seu Nelson Mota, da Fazenda da Liberdade, e a caminhonete do tio Nalim. Posteriormente, tio Aurélio comprou um fusca, para ir do Jacó à Rua, e era engraçado vê-lo preenchendo aquele carro apertado com seu tamanho e sua gordura. Alguns tinham caminhões que serviam, sobretudo, ao transporte da produção da lavoura.

Um acessório mecânico que quase todos os adultos usavam era o relógio: de bolso, os mais velhos, e de pulso, os mais jovens. As marcas preferidas eram Omega, que se dizia oméga, e Lanco. O Patek Philippe era tido como muito caro. Um pouco depois começaram a aparecer relógios japoneses, para os quais os mais entendidos torciam o nariz.
Eu mesmo achava muito elegante o relógio de bolso. Gostava de ver o gestual da pessoa a consultar as horas, a dar corda no relógio, que se prendia por uma corrente à presilha da calça. Até tive um, quando vim para Niterói. E dei alguns de presente para meu pai. Mas, depois, as próprias calças deixaram de ter o bolso apropriado para a sua guarda e eles praticamente entraram em extinção, como os gaturamos e avinhados da minha terra.

Era mais ou menos assim. Lá pelas décadas de 50 e 60 do século passado, na minha pequena vila de Carabuçu.
 
Relógio Omega, dito Ferradura, porque se desconhecia que o símbolo da marca é a letra grega ômega,
confundida com a peça de calçar cavalos (imagem em mg.quebarato.com.br).
 

19 de janeiro de 2013

CHORO

(Em memória de meu pai, Argemiro.)

Tenho o péssimo hábito de chorar
- que me incomoda -
Choro nas mortes nos nascimentos na vida
De alegrias e tristezas
Às vezes copiosamente
 - um rio caudaloso que irrompe do fundo da minha terra -
Às vezes parcimoniosamente
- um filete d'água sobre o chão seco da face -
Choro de soluçar
E em silêncio
Sem querer incomodar os que estão próximos
Choro nos ócios e nos negócios
Que o tempo nos impõe a cada dia

Mas estou sempre rindo
Alegre contente feliz
Como se toda essa chuva de lágrimas
Regasse a aridez da vida que me cabe

Imagem em romanos12.blogspot.com.

17 de janeiro de 2013

MEU VÔ INVENTOR

Meu querido pai, Argemiro, faleceu na última segunda-feira, 14/1.

Queria escrever um texto em sua homenagem. Porém meu filho Pedro se antecipou a essa minha vontade e produziu um texto comovente, que reproduzo aqui, para que os amigos leitores que não o viram no Facebook, onde apareceu inicialmente, possam ler.

Eu não conseguiria fazer melhor.

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MEU VÔ INVENTOR

      Meu avô foi um grande inventor de coisas. Não foi um cara criativo ou pensador. Foi um homem comum. Era prático e introspectivo, mas mesmo assim inventou muitas coisas. Não teve fama nem grana. Nem seu nome escrito na patente destas coisas, mas foi ele quem as inventou, garanto.

Ontem, enquanto me despedia dele, fiz uma lista destas invenções fantásticas. Vejam que vocês conhecem todas elas. Foi o meu avô quem as inventou.

Foi meu avô quem inventou a bicicleta! Uma marrom da Monark. Ela tinha um selim com escudo do Botafogo e franjinhas pretas e brancas. Saía de casa com ele para o trabalho toda manhã. Também com ele, vinha apontando na equina da rua às 17h. Era hora de parar o futebol no quintal e tocar os vizinhos para suas casas pra ele entrar com a bicicleta sem sustos. Nunca tinha visto uma bicicleta tão bonita. Nunca mais vi uma bicicleta assim. Foi meu avô que fez.

Foi meu avô quem inventou o leste europeu! Nunca esteve lá ou em qualquer país europeu, mas no seu atlas, com as pontas dos dedos, descortinou o ferro e inventou países que ainda não existiam. Foi assim que nasceu a Romênia do Drácula, a Hungria de Puskas e a Tchecoslováquia que tinha uma capital com nome do assistente de palco da Xuxa. Ninguém, nem eu nem meus primos, nunca ouvimos falar destes países até o meu avô tê-los inventado.

Foi meu avô que inventou o futebol arte! Nunca o vi jogar bola. Já era um senhor quando nos conhecemos. Mas o futebol arte também não nasceu de seus pés, mas de sua boca. Coisa de inventor. Foi ele que entortou as pernas do Mané, mitificou Pelé, emoldurou Nilton Santos, temeu Fontaine, idolatrou Paulinho Valentim, fez os gols do Quarentinha. Foi o Vô quem criou a folha-seca e a bicicleta. Criou todos eles sentado em sua cadeira de balanço no quintal em Bom Jesus.

Meu avô foi um homem comum, exceto pelas coisas que inventou. Vi todas elas serem concebidas ali na minha frente. Vi todas elas nascerem. Nada disso existia antes do meu avô. Foi ele quem as fez pra mim.

Bjs, Vô!
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Minha irmã Verônica e meu pai (foto da família). 

13 de janeiro de 2013

A MULHER E O MARIDO

A mulher é a rainha do mau humor.
O marido, não. O marido é praticamente um imprestável de pijamas.
A mulher vive de melodramas.
O marido, não. Vai sempre à praça jogar baralho com os amigos.
A mulher reclama da vida que leva.
O marido, não. Ele apenas finge que erra a tacada quando joga bilhar.
A mulher tem achaques a cada dia.
O marido, não. Bebe cachaça à noite e tem ressaca no dia seguinte.
A mulher insiste em comprar aquele novo aparelho de ar condicionado.
O marido, não. Sai à rua sem camisa, mostrando a barriga que já não tem nada de lisa.
A mulher toma soníferos para pegar no sono.
O marido, não. Fica na sala limpando as unhas com palito de dentes, enquanto vê filme pornô.
A mulher se levanta à noite para urinar, beber água e verificar se as portas foram fechadas.
O marido, não. O marido ronca a noite inteira sem o mínimo recato.
A mulher aposta na loteria, no bicho, no bingo.
O marido, não. Vive apenas dos proventos da aposentadoria da repartição e se diverte na birosca da esquina.
A mulher vai à praia de maiô de duas peças, velho do tempo da Rádio Mayrink Veiga.
O marido, não. Fica em casa ouvindo o elepê de Orlando Silva, tomando conhaque de ovo e aparando o bigode entintado, em modelo de dormente de linha férrea.
A mulher reclama com a vizinha do traste que arranjou.
O marido, não. Vai à pracinha, fuma, joga porrinha e acha que tem a vida que pediu a Deus.
A mulher não se lembra mais do tempo em que era sonhadora.
O marido, não. Vive na ilusão de que tudo vai dar certo.
A mulher operou varizes e tem problemas de fígado.
O marido, não. Apenas repete um velho pigarro engastalhado na garganta, desde que era noivo.
A mulher vai à missa lá uma vez ou outra, quando a situação aperta.
O marido, não. Vê Inezita Barroso na tevê e acompanha o cantor em O menino da porteira, Vaca Estrela e Boi Fubá e Marvada pinga.
 A mulher vai ao baile da terceira idade naquele clube do Andaraí.
O homem também vai, porque é o maior pé de valsa que a mulher conheceu em toda a sua vida.
E os dois rodopiam no salão ao som da Orquestra de Waldir Calmon, reproduzido no sistema de som.
A mulher, na volta para casa, diz meu velho a gente ainda aguenta bem um baile desses sem se cansar.
E o homem se lembra das histórias do Dancing Avenida que seu pai contava e solta uma longa baforada de fumaça.
A mulher e o marido entram em casa e a vida continuará a mesma no dia seguinte e assim por diante até o próximo baile da terceira idade naquele velho clube do Andaraí.


Henri de Toulouse-Lautrec, No Moulin Rouge, 1892 (em pt.wikipedia.org).

10 de janeiro de 2013

CERVEJA COM VINHO, DONA LINDONA E O CABO JARARACA

Toninho tinha treze anos e um medo enorme do cabo Jararaca, de quem já levara uma prensa. Por isso, não se aventurava a atravessar, com frequência, a ponte que liga as duas Bom Jesus, para caçar passarinho ou bisbilhotar a chegada do trem na estação da pracinha, como fazia antes.

Mas isto era coisa do passado.
Hoje, na área de lazer que equipara com uma tevê com tocador de dvd, uma cadeira de praia e um ventilador de teto, no térreo do seu saudoso clube Tupi, não entendeu bem por que voltou tanto no tempo. Certamente não era por causa da combinação de cerveja com vinho tinto, que misturava aos poucos e já o havia deixado um tanto mareado no meio daquela tarde calorenta. Talvez fosse pelo show de Zeca Pagodinho, que via agora e que o levou subliminarmente à imagem do sambista em seu quadriciclo percorrendo as ruas de Xerém, a prestar socorro às vítimas da enchente há pouco ocorrida.

E lhe voltou de assalto a imagem do cabo Jararaca.
Cabo Jararaca era o feroz subdelegado de Bom Jesus do Norte, num tempo em que a polícia capixaba tinha fama de durona. E ele fazia questão de demonstrar isto todos os dias, até mesmo com solicitações estapafúrdias:

- Moleque, vai pegar uma dose de pinga no bar do Osmar e diz que é a mando do subdelegado.
Mas, por outro lado, também tinha o coração amanteigado por Dona Lindona, filha de seu Lalau, moça bem apessoada, cheia de boas prendas e outras tantas reentrâncias e murundus salientes, que enfeitava com sua beleza o guichê de passagens da estação do trem. Contudo, Dona Lindona estava com compromissos acorrentados com um certo Deraldo da padaria, e repeliu com firmeza todas as pretensões caboclas que cabo Jararaca lhe despejava nos mimosos ouvidos.

Toninho calibrou novo copo de cerveja com vinho tinto - Zeca Pagodinho pedia para que a vida o levasse a algum lugar - e escorregou ainda mais nas lembranças daquele tempo. Cristina, sua amiga e ouvinte atenta, estava curiosa para saber o desfecho da paixão do meganha.
Pois o cabo Jararaca não aceitou a rejeição pacificamente. Mulher não rejeita a corte de um polícia graduado como ele! Ruim como era, mandou seus dois soldados trazerem o noivo de Dona Lindona, Deraldo Santana, com padaria e tudo, algemado e preso até a delegacia, localizada exatamente no local onde hoje se ergue a casa dos pais de Cristina.

E providenciou para que a estada dele, padeiro, fosse a pior possível. O próprio cabo deu uma sova de gurumbumba em Deraldo, de mover osso do lugar, de magoar a carne com pisões arroxeados. O noivo apanhou mais que pão sovado.
Dona Lindona perdeu o viço, até pareceu ter murchado seus murundus, ao saber dos maus tratos sofridos pelo amado.

Cabo Jararaca estava com o alvará dos capetas e, quanto mais sabia do sofrimento da noiva, mais descia o peso da lei no lombo do padeiro.
Mas eis que São Pedro se apiedou daquela vítima inocente e mandou a grande enchente de 1943 do Rio Itabapoana, que acabou inundando a rua da delegacia, a pracinha e os trilhos da maria-fumaça.

O prisioneiro foi retirado da cela, para que não se afogasse, e, no tumulto da enchente que pôs abaixo a velha construção, fugiu para casa, aonde chegou todo estropiado.
Dona Lindona e a sogra começaram a tratar do pobre coitado, enquanto seu Lalau chamava seus outros dois filhos, com as recomendações de praxe, exigidas pela ocasião.

Munido cada um com seu porrete de pau-roxo, saíram os irmãos à caça do cabo de polícia, por entre barro e lama, chuva e inundação. Até que o pegaram quase entrando em casa.
Sem tempo de reagir, o cabo Jararaca começou a virar minhoca, a poder de porretadas. Foi tanta cacetada por todos os quadrantes da sua pessoa, que ele acabou em ponto de pão de ló, chegando quase a brevidade, de tão esmigalhado. O que sobrou do valente cabo da gloriosa polícia espírito-santense foi atirado às águas barrentas do Itabapoana e boiou, em forma de cadáver inchado com os olhos comidos de peixe, num emaranhado de gigogas, num remanso do rio na altura de Ponte do José Carlos, que futuramente passaria a  se chamar Iuru, a fim de fazer jus ao tamanho do seu aglomerado de casas.

- E Dona Lindona, Toninho? - quis saber Cristina.
- Curou as pancadas do noivo e se casou com ele meses depois. Embora fosse uma moça muito bonita e cortejada, gostava sinceramente do padeiro.

- E a minha casa quando foi construída?
E a memória do Toninho, que viajava no vaivém do tempo, foi precisa:

- 1945. Eu já tinha meus quinze anos e podia circular à vontade, sem o cabo Jararaca a me amedrontar.
Pôs mais um traçado de cerveja com vinho tinto no copo, reclamou do calorão daquela hora do dia e afogou com um gole generoso as lembranças de um tempo e de duas personagens que ainda teimavam em vir à tona.

Naquele instante, as letrinhas indicavam os créditos finais do dvd de Zeca Pagodinho. E a vida veio trazida na enxurrada do tempo até aquela área de lazer do Toninho do Tupi.
Imagem em pt.wikipedia.com.
 
 

8 de janeiro de 2013

ROMÂNTICO

Eu sou romântico
Eu romantizo o universo quântico
E sua imensidão galáctica
Eu somatizo as dores agônicas do infinito
E acredito no amor endêmico
Dos corações aflitos
A percorrer o espaço atômico
Que os distancia
Na vida mínima e deletéria
Que se vive no quotidiano
De nossas ilusões quiméricas
A transformar em antimatéria
Todas as emoções sintéticas

Eu sou romântico
Desabridamente romântico
E creio no queijo suíço esburacado
No fósforo de segurança
Na caderneta de poupança com juros pré-fixados
Nos movimentos pélvicos
E na solução anárquica
Para nossas emoções patéticas

Eu sou romântico
Talvez apenas um pouco errático
E esteticamente refratário

Wassily Kandinsky, 00000293-Z
Obra de Wassily Kandisnky, 1866-1944 (em wassilykandinsky.narod.ru).


6 de janeiro de 2013

MEU DIA AMANHECEU DE CARA TORCIDA

meu dia amanheceu de cara torcida para mim
resmungou-me com fastio
e coçou os pelos pubianos com desleixo.
antes de tomar o café da manhã
banhou-se preguiçosamente
e com certa má vontade dirigiu-se ao trabalho
chovendo miúdo e ventando frio.
meu dia foi acabar lá pelas tantas
com o mesmo mau humor de sempre
apesar das doses de conhaque
e da atmosfera aconchegante do bar.
toda a cidade todo o país
e suas loucuras institucionais
têm-no deixado de fígado zangado.
ainda bem que ele termina hoje
amanhã pode ser que acorde iludido
com os raios de sol entre nuvens
que prometem todas as benesses
e espantam os fantasmas para os confins da noite.


Chuva na baía (foto do autor em flickr.com/photos/saint-clairmello)

4 de janeiro de 2013

DIZ-SE NA MINHA TERRA (II)

Da memória que guardo das coisas da minha terrinha natal, do tempo em que era seu morador em tempo integral, um dos sabores mais gostosos que provei foi o da linguagem do povo.
Algumas das formas características de lá, na verdade, pertencem a um fundo linguístico geral, trazido para cá pelos portugueses – mais a contribuição africana e indígena – e podem ser encontradas em outros locais, como já tive oportunidade de observar.
Em todo caso, trago para sua curiosidade mais algumas delas, em continuação à crônica anterior.
O povo lá de Carabuçu, antiga vila de Santo Antônio da Liberdade, sempre foi trabalhador, batalhador da vida: a maioria vivia das lides da roça; alguns outros, do pequeno comércio e do serviço da vila. Apesar da luta de todos eles, ninguém lá lutava, senão em disputas físicas assemelhadas a brigas. Todos eles pelejavam. E pelejar era dito de uma forma que revelava um fardo pesado a se suportar.
- E aí, seu Antônio, como vai?
- Pelejando, pelejando!
E aquilo parecia um trabalho de Sísifo.
Já o substantivo peleja identificava um tipo de cobertor rústico, usado pelas famílias pobres para os dias de frio. Se a peleja era mais curta que o usuário, virava bicicleta, por semelhança ao movimento de pedalar: puxar para cobrir a cabeça, espichar para tapar os pés. O que era um desespero nas noites mais frias. E o próprio cobertor era chamado de coberta.
Havia um homem com uma risada engraçada, que lembrava o barulho de um cobertor velho sendo rasgado. Seu apelido: Coberta Velha.
Toalha de banho é enxugador; ferro de passar, engomador; alfinete de fralda, vagabundo; grampo de cabelo, misse, que, inclusive aparece registrado na bela canção de Elomar, O pidido*, gravada no álbum Das barrancas do Rio Gavião, de 1972.
Quando alguém, por algum motivo, não cumpria o que lhe cabia e deixava algo sem solução, dizia-se – não sei se ainda existe tal expressão – “fulano cagou na retranca”. Cagar na retranca equivale hoje a deixar furo. Também se dizia, quando não se quisesse lançar mão de expressão tão chula, “fulano roeu a corda”.
E houve um termo com uso extremamente frequente na década de 60, quando apareceu: puaia. Puaia é o elogio falso, com o intuito de zombar do outro, sem que ele perceba. Deste modo, quando alguém fazia isso com o outro, dizia-se que ele estava dando puaia. Se acaso o outro acreditasse naquilo, dizia-se, então, que ele estava comendo puaia. Os dicionários Aurélio e Caldas Aulete grafam a forma poaia (palavra que veio do tupi pu’aya), um tipo de raiz medicinal também conhecida por ipecacuanha.
A prática de dar puaia se difundiu tanto, sobretudo entre os jovens, que as pessoas ficaram atentas a qualquer tipo de elogio, que era sempre tomado por falso e, portanto, inaceitável, para que evitassem o constrangimento de comer puaia. Apesar disto, havia sempre os incautos que caíam neste tipo de pegadinha.
Ao pequeno canal rústico, rasgado na terra, para conduzir água, dava-se o nome de banqueta. E havia nas fazendas do tio Aurélio e de seu irmão Pequetito, limítrofes uma da outra, um sistema de banquetas que levava água para mover o dínamo a carvão, que produzia energia elétrica à noite, o engenho de cana de dia, para a produção de melado, rapadura e açúcar mascavo, que lá chamávamos de açúcar batido. Com frequência, aliás, algumas pessoas trocavam o gênero do substantivo açúcar e diziam açúcar batida. Nesta mesma linha, havia a expressão açúcar macaca, que era o açúcar que os trabalhadores das usinas de Santa Isabel e Santa Maria, próximas à vila, recebiam como parte de seus salários e que tinham de vender a comerciantes, a fim de apurar algum valor em espécie.
Vejam que, no caso da açúcar macaca como pagamento, o salário foi totalmente desvirtuado de sua origem. Deveria ser, então, chamado de açucarário.
Havia, entre as crianças e entre os membros de uma família, uma brincadeira singela. Quando se chupava uma laranja (ou qualquer outra fruta com sementes) e vinham caroços à boca, aquele que os tinha desafiava a que o outro adivinhasse quantos eles eram:
- Gorgulho! – dizia o da boca cheia.
- Eu entro! – respondia o desafiado.
- Com quantos? – indagava o detentor dos caroços.
- Com cinco! – e estava feita a aposta, que poderia ser de qualquer coisa sem nenhum valor monetário.
Então o que desafiava começava a cuspir um a um os caroços, seguidos da contagem:
- Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito! Perdeu!
As laranjas-limas de nossa terra, por vezes, tinham mais caroços do que caldo.
Adivinhe o leitor amigo quantos mais Diz-se na minha terra tenho na minha cabeça para postar aqui.
Está feita a aposta!
Imagem em pandag.com.br.


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* Se quiser ouvir a canção, clique no link: http://www.youtube.com/watch?v=1m_233GsseM .

2 de janeiro de 2013

VIRA-LATAS

Há cães sem dono pelas ruas da vila
Uns velhos outros novos
Uns bernentos outros sãos
Todos pulguentos

Há pobres sem teto pelas estradas da vila
Uns novos outros velhos
Uns doentes outros bons
Todos dolentes

Há filhos desgarrados de sua terra natal
Uns por bem outros por mal
Uns para longe outros para perto
Todos pobres cães sem teto
A choramingar pelas avenidas das cidades grandes
Saudades dos taboais nos brejos
Das barrancas nos açudes
Dos boitatás dos sacis
Dos vilarejos esquecidos do país

Foto de Geraldo Luís, em noticias.r7.com.