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20 de outubro de 2017

COISAS DO INTERIOR

Na minha vila de Carabuçu, lá pelos fins de 50, princípios de 60 do século passado, Narck Pontes tinha um serviço de alto-falantes de quatro bocas, montado sobre o prédio comercial do tio Nalim, na esquina das ruas Coronel Alfredo Portugal e Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo.
O prédio era – e ainda é – o maior da vila. Tem dois andares. E sobre a cobertura instalaram-se aquelas quatro bocas metálicas que, duas vezes por dia, faziam a trilha sonora de nossas vidas simples de gente do interior.
Nos finais de semana, o proprietário, dublê de locutor, apresentava um programa de “oferendas musicais”, assim mesmo nomeado. As pessoas escolhiam uma música para dedicar a alguém. Pagava-se, então, a módica quantia de dois cruzeiros, o preço de um picolé do Barrosinho ou do tio Tônio, por cada oferenda, e transformava seus devaneios românticos em acordes musicais.
Enquanto passeávamos na pracinha, que ficava a duas quadras da esquina do tio Nalim, ouvíamos prazerosos o som espargido das quatro bocas do sistema de som do Narck Pontes, que caprichava na locução. Algumas dedicatórias eram praticamente criptografadas:
- Alguém oferece a alguém, e esse alguém sabe quem, o samba-canção Meu vício é você, de Adelino Moreira, na voz inconfundível de Nelson Gonçalves!
E, sem o chiado comum aos toca-discos de então, o som da música enchia o ar da vila. Meu amigo José Luiz Padilha, no entanto, que morava numa vasta chácara à meia distância, sempre dizia que a continuidade das ondas sonoras dependia da direção do vento. E suas audições eram entrecortadas por instantes de silêncio e instantes de som. Mais ou menos como Lulu Santos pontua na música Certas coisas.
Certo sábado de verão, noite cálida, passeando pela Pracinha do Sabiá, ouço espantado a dedicatória que o Pedro Nunes fez para minha prima Bibinha: Boneca cobiçada.
Devo esclarecer aos mais novos que, por essa época, ainda não havia a famosa MPB – Música Popular Brasileira, como nosso cancioneiro popular viria a ser conhecido a partir do final dos anos 60, com a revolução estética trazida pela Bossa Nova, ainda incipiente, e a Tropicália, ainda em gestação. Nossas canções mais difundidas eram sambas-canções e boleros, este de origem cubana, em que a temática amorosa falava de amores quase impossíveis entre o “poeta” e sua musa, a maior parte das vezes, uma personagem de vida airosa, como no caso de Boneca cobiçada.
Minha prima Bibinha era uma jovem tímida, simples, recatada, estudiosa, que morava em outro lugar e estava passando férias em Carabuçu. Como fosse uma moça muito bonita, certamente que despertou o interesse do Pedro Nunes. E ele não pestanejou: ofereceu a música, no meu julgamento de garoto atento, errada. E Narck Pontes propagou em ondas sonoras:
- Pedro Nunes oferece à senhorita Alba – Esse é o nome da minha prima. –, como prova de muita admiração e carinho, o bolero Boneca cobiçada, de Biá e Bolinha, na interpretação de Carlos Galhardo.
E Carlos Galhardo soltou a voz, amplificada pela aparelhagem sonora, cantando os versos a seguir:

                        Quando eu te conheci
Do amor desiludida
Fiz tudo e consegui
Dar vida à tua vida

Dois meses de aventura
O nosso amor viveu
Dois meses com ternura
Beijei os lábios teus

Porém eu já sabia
Que perto estava o fim
Pois tu não conseguias
Viver só para mim

Eu poderei morrer
Mas os meus versos não
Minha voz hás de ouvir
Ferindo o coração

Boneca cobiçada
Nas noites de sereno
Teu corpo não tem dono
Teus lábios têm veneno

Se queres que eu sofra
É grande o teu engano
Pois olha nos meus olhos
Vê que não estou chorando.              


Naquela noite, percebi que nem sempre se acerta ao tentar conquistar o coração de uma mulher. No meu entender, Pedro escolheu a música imprópria. Nem sei como minha prima reagiu a isso. Lembro-me, contudo, que não ouvi nenhuma dedicatória de volta. Na minha percepção, fez-se o tal silêncio que Lulu Santos viria a cantar décadas depois. E sem sinfonia nenhuma!

Imagem relacionada
Imagem colhida em amlece.blogspot.com.br.

14 de fevereiro de 2017

TPO ASSIM (VII) - DOUTOR LAMARTINE


Foi só pegar num velho cartão de visita, guardado de muitos amarelos, para voltar de imediato no tempo. É o cartão do doutor Lamartine Costa, cirurgião dentista de Corumbá. É tão antigo, que o número do telefone tem apenas quatro dígitos 2674. Os mais novos vão achar que é da época do tacape e da flecha, mas faz tão-somente uns poucos instantes. É só a memória funcionar!
Jane tinha-se disposto a casar comigo, por uma deferência toda especial da sua beleza mulata, em 20 de dezembro de 1975. Sacramentado o acordo em cartório e vencida a primeira tentativa frustrada de lua de mel em Teresópolis e na posse de um mês de férias no janeiro seguinte, resolvemos mudar os planos iniciais e armamos uma longa viagem pelo chamado Cone Sul da nossa América: Bolívia, Peru, Chile e Argentina. Acompanhavam-nos nesta nova lua de mel, de mochila às costas, os amigos e padrinhos Rogério Barbosa, Eduardo Campos e sua então namorada, cujo nome não citarei, mas que era uma loura tão bela, quanto complicada.
Os planos foram traçados no mapa, apenas com o dia da partida e o da chegada.
Saímos do Rio, a bordo do vagão de bagagem do antigo Trem de Prata, até a Estação da Luz em São Paulo, porque não havia mais passagens nas demais classes. De lá, tomamos o comboio a nos levar a Corumbá. O projeto era, de lá, pegar o famoso Trem da Morte, que ligava Corumbá a Santa Cruz de la Sierra, já nos contrafortes dos Andes. Chegamos ao fim da tarde do dia seguinte. Na outra manhã, Jane começou a sentir dor em um dos dentes. Naquela situação, resolvemos procurar auxílio de um profissional, e nos foi indicado o doutor Lamartine.
Em chegando ao consultório, explicamos a ele o que estava ocorrendo e nossa situação passageira pela cidade. Doutor Lamartine dispensou duas mocinhas que aguardavam seus serviços, dizendo a elas que aquilo era uma emergência, caso de dor, remarcou suas consultas e foi atender a Jane.
Era problema de canal! E canal quando apresenta problema não dá para esperar. Prontamente ele perfurou o dente, extraiu a raiz doente, fez o curativo e as recomendações necessárias. Poderíamos continuar a viagem, sem, contudo, pegar o Trem da Morte, e, ao chegar a Niterói, Jane deveria procurar seu dentista, explicar o que houve e providenciar o tratamento definitivo, já que o curativo que fizera não tinha tal caráter. Aconselhou-nos também a, no alto dos Andes, usar pastilhas de Coramina, para prevenir palpitação, comer e beber moderadamente e evitar fazer sexo nos primeiros dias, a fim de que Jane não voltasse viúva das grimpas da América do Sul. Se você, leitor, está lendo isto, é sinal de que estou vivo até hoje.
Ao final da consulta, perguntamos o valor do tratamento, e o doutor Lamartine se recusou a receber. Disse que iríamos precisar do dinheiro para a viagem, que não aceitaria pagamento naquela hora. Quando chegássemos de volta a casa, poderíamos fazer a transferência para sua conta bancária. Ainda insistimos em pagar, mas ele, definitivamente, não aceitou.
Ficamos emocionados com seu gesto. Então pedi o número de sua conta. Foi o momento em que ele me passou o seu cartão de visita, onde anotei com caneta esferográfica: Banco do Brasil, conta número tal.
Agradecemos grandemente ao doutor Lamartine, que talvez fosse menos de dez anos mais velho que nós, e nos dirigimos até os Correios, onde adquirimos um telegrama pré-pago, no qual pedi ao primo Zé Fábio, funcionário do Banco do Brasil com quem deixara alguns cheques assinados para emergências, que transferisse a quantia para o dentista.
Anos depois, tive uma colega no curso de mestrado na UFF, também de Corumbá, a quem contei toda a história. Para minha surpresa, ela me disse que o doutor Lamartine era velho amigo de sua família. Aproveitei uma de suas idas à terra natal para enviar minhas saudações a ele.
Agora o velho cartão de visita amarelado reaviva todas essas lembranças, calcadas numa emoção que só as grandes pessoas podem proporcionar.
Nunca mais tivemos notícias do doutor Lamartine Costa, cirurgião dentista de Corumbá.
Espero que ele continue do mesmo jeito que era, talvez apenas com alguns cabelos brancos.

Dentista, mestre Vitalino (em conradoleiloeiro.com.br).

18 de agosto de 2016

MEDALHA PINÓQUIO


Estava correndo os olhos sobre o caderno especial das Olimpíadas de um jornal carioca e me deparei com a foto da namorada do nadador norte-americano, ganhador de medalha, que registrou boletim de ocorrência por um suposto assalto que ele e mais três companheiros teriam sofrido, numa manhã olímpica dessas aí.
E senti pena do cara. Ele ganhou a medalha e perdeu a namorada, que não engoliu a desculpa esfarrapada, mal e porcamente alicerçada na famosa insegurança carioca, que o mancebo criou, a fim de justificar a volta tardia para a concentração. Aliás as imagens das câmaras de segurança do momento da reentrada do Quarteto Pinóquio na Vila Olímpica, veiculadas por jornal britânico, são peça a desmontar a versão dada.
Segundo me parece pelo que o zunzunzum murmureja, os quatros foram para a esbórnia, perderam a hora – o abestado deixou sua belíssima namorada esquentando travesseiros no hotel – e não lhe sobrou alternativa a não ser, para aliviar a barra, colocar mais uma caca no já combalido prestígio da nossa segurança pública. Para maquinar sua história, ele usou o princípio do “que é um peido, quando já se está cagado?”.
A ele o que importaria um assalto a mais, mesmo que a notícia tivesse eco internacional, sobretudo se não é seu país, se não se trata de sua cidade? Às favas qualquer prurido ético com os esculhambados brasileiros, mas não posso perder a coelhinha da Playboy!
E se lascou o mané! A notícia que li é que a bonitinha já deu linha na pipa e não quer mais saber do nadador-armador, que, inclusive, se escafedeu para o recesso do lar nos Esteites, antes mesmo que voltasse à delegacia para prestar mais esclarecimentos. O que aliás ocorreu com dois outros comparsas, me desculpem, companheiros de esbórnia, retirados do voo da volta, para abrir o bico diante da autoridade policial. Aos conformes, cambada!
É claro que este incidente não gerará nenhuma guerra como a que está gerando a defesa incondicional do Biscoito Globo. Não invadiremos a redação do jornal nova-iorquino, nem sua página na Grande Rede. Mas também há de repercutir quando a verdadeira versão dos fatos emergir do fundo dessa piscina turva.


PS: Este texto foi atropelado pelo contexto. Mais tarde soube pelo noticiário das rádios que a versão não foi a apresentada pelos rapazes. E ficou tudo muito pior ainda. (Agora são 21h59, momento em que acrescento este post-scriptum.)

9 de setembro de 2015

UM CONHAQUE AMARGO NO CHALÉ


Por um descuido, fui tomar conhaque no Botequim Chalé, localizado de frente para a Praia de Icaraí, na noite de ontem, quarta-feira.

Como estivesse sozinho, aos poucos fui-me insinuando na conversa de dois fregueses, aparentemente da minha faixa etária, que tratavam de um assunto interessante.

Botequim tem esta característica altamente simpática e democrática: é possível, com tato, se meter em todas as rodas de conversa.

Rapidamente soube que meus dois interlocutores eram engenheiros. Um deles, inclusive, o mais loquaz, falava das usinas hidrelétricas que tinha projetado pelo país afora, as duas últimas em construção no Rio Paraíba do Sul, na altura de Queluz/SP, já próximas à fronteira com o Estado do Rio.

Dizia de seu trabalho, de suas responsabilidades, de suas competências e experiências, e não deixou de tecer críticas a outros profissionais, como os arquitetos. Como se estes fossem artistas sonhadores, sem os conhecimentos teóricos e práticos de cálculos que os possibilitem aos voos de seus projetos.

Isto me fez refletir sobre a pequenez da alma humana: não basta ao homem vangloriar-se do que faz; é preciso desmerecer o outro.

Que merda de gente somos nós! Quão ridículos em nossas presunções!

A minha magnificência só se completa diante da incompetência alheia. É isto?

Eu sou sempre o fodão, aquele que sabe, que conhece, que resolve. E todos os outros são um bando de incapazes, de incompetentes, que não se criariam senão através de nossa capacidade desmesurada.

Sorvi logo o último gole do conhaque, despedi-me e fui embora para casa.

Tenho mais o que não fazer, do que ficar ouvindo presunções soporíferas de quem sabe fazer hidrelétricas!

Como sempre arremata seus comentários semelhantes o meu amigo blogueiro Zatonio Lahud: Saco!

Imagem em konsulfree.com.br.

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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.

25 de agosto de 2015

BORA ASSALTAR MAMÃE!


Não sei se deveria contar esta história, mas ela, de vez em quando, fica cutucando minha indiscrição. É uma história verídica, porém não sei se verdadeira. Penso que sim, pois quem a contou para mim não teria a intenção de inventar coisas não ocorridas. Então vamos lá.
Conheci Zé Sérgio, o primeiro anistiado a partir de l964, lá pelo fim dos anos setenta. Isto porque ele se tornou namorado de uma minha amiga, que o conheceu num ônibus urbano do Rio de Janeiro. Ia ele com cara de cachorro caído da mudança, no último banco do coletivo, e tal expressão sensibilizou minha amiga. Daí para o namoro, foi um pulo.
Por aquela época ainda éramos todos jovens, embora eu já estivesse casado. E, enquanto durou o curto namoro, Zé Sérgio frequentava o apartamento onde Jane e eu morávamos, na Rua Pereira da Silva, esquina com a Moreira César, em Niterói.
Zé Sérgio havia lutado contra a ditadura militar, com o MR8 – Movimento Revolucionário 8 de Outubro –, até que acabou preso pelas forças de segurança. Ficou trancafiado no xadrez um bom tempo, mas foi o primeiro beneficiado pela Lei 6683, de 26 de agosto de 1979, que ficou conhecida como Lei da Anistia. Sua saída da prisão teve pequena matéria, com foto inclusive, na revista Veja, de que me lembro ainda hoje.
Num desses encontros para um almoço lá em casa, Zé Sérgio contou algumas interessantes passagens do seu tempo de militante do movimento contra o regime E era difícil imaginar que um homem pacífico e cordial como ele, pudesse ter pegado em armas, ter-se envolvido em ações violentas, na tentativa de derrubar a ditadura.
Segundo ele, nenhum dos membros de uma célula de ação era conhecido por seu próprio nome. Ao contrário, todos tinham codinomes, no intuito de preservar suas verdadeiras identidades. E também não participavam efetivamente de todas as decisões visando às ações que seriam empreendidas contra os militares. Este caso ocorreu justamente numa delas.
Chegou à sua célula a determinação de que os militantes tais e quais deveriam unir-se em certo ponto da cidade do Rio de Janeiro, de onde partiriam para a ação ainda desconhecida. No horário marcado, lá estava ele. Ao se encontrarem, os ativistas anunciavam a senha e diziam seu codinome uns aos outros. O líder do grupo revelou, então, o que seria realizado naquela noite: o assalto a um restaurante, com a finalidade de angariar dinheiro para financiar a luta armada.
Entraram todos na viatura e rumaram para o endereço em Vila Isabel: era o do restaurante O Bigode do Meu Tio, de propriedade de Jofre, um dos filhos do escritor Nelson Rodrigues.
Quando a viatura parou nas imediações, um dos jovens do grupo pediu para não participar, oferecendo-se para dirigir o carro. O chefe da operação relutou, mas acabou aceitando a troca de funções entre ele e o motorista. O restante do grupo adentrou o restaurante, enquadrou todos os presentes, sobretudo a mulher do caixa, passou a mão no dinheiro, num tempo mínimo, quase nada, e saiu.
Terminado o assalto, o carro partiu cantando pneus na noite da Vila de Noel e Martinho, antes que a polícia fungasse nos calcanhares do grupo.
Depois de desbaratado o grupo pelas forças de segurança e alojados seus membros em prisões militares, Zé Sérgio foi saber que o companheiro que pediu a troca de função na missão era Nelson Rodrigues Filho, irmão do Jofre, que lhe disse durante uma das muitas conversas que tiveram na cela:
- Fiquei sem jeito de chegar lá e meter o cano da arma no peito da minha mãe, que ficava no caixa, para exigir que me passasse o dinheiro. Por isso, preferi dirigir.
Nunca vi esta história publicada. Pode ser que o Nelsinho, como é conhecido o filho do grande escritor, já a tenha relatado em alguma oportunidade. Fica aqui, no entanto, esta versão, que me foi contada por quem a viveu. Espero não estar cometendo nenhuma indiscrição séria, mas é um registro até engraçado de um tempo duríssimo por que passou o país.

Imagem em noticias.r7.com.

9 de maio de 2015

UMA CARTA

(Ao amigo José Luiz Padilha, destinatário da carta, e aos primos Adriano e Bedu.)


Organizando as coisas que foram retiradas de seus cantos, por conta de uma obra em casa, recuperei a cópia de uma carta enviada, nos anos 80, ao meu velho e querido amigo José Luiz Padilha, então morador de Carabuçu, nossa terrinha natal.

À época, escreviam-se cartas. As comunicações ainda não estavam essa maravilha de hoje, com as mídias eletrônicas a facilitarem o contato entre os amigos. Assim, vez em quando, cometia cartas: à família, aos amigos, a uma ou outra menina que havia engatilhado na mira dos olhos e do coração, coisa esta última que não gerou nenhuma consequência – benéfica ou maléfica – na minha vida.

Para a curiosidade dos meus amigos leitores, reproduzo a dita carta aqui, o mais próximo possível de sua conformação gráfica. Ela foi datilografada.

Aí vai.

Olivetti Lettera 22, a máquina em que cometia minhas cartas (imagem em mercadolivre.com.br)

Prezado Padilha,

adriano, bedu e eu comíamos uma rabada com agrião
e batata,
ao som de duas antárticas estupidamente,
quando falamos de você e dessa sua cabeça grandi-
 loquente.
dizíamos, então, que os seus grilos e sonhos
são demais para minha cabeça pequena,
mais preocupada com o se safar dos problemas
                                    do mundo
que com as indagações de ordem metafísico-sentimental do estar-no-mundo e suas consequentes projeções na velhice, essa fatalidade a que estaremos sujeitos caso a bosta do coração que vocifera no peito
não fizer papel miserável antes do final do
                                 primeiro tempo.
nossos duplos filhos, de nós quatro, estão ainda
na preliminar dos dentes-de-leite
e nós, com o preparo físico comprometido,
por incursões erótico-etílico-profissionais
no jogo principal a que assistem impávidos
o leão do imposto de renda
a caderneta de poupança
os juros e a correção monetária
e aquela indefectível certeza de que ainda despertamos sentimentos escusos na mulher do vizinho
e a bunda da rita cadillac rodando na televisão.
não há como pensar.
foi aí que o bedu disse que você tem esse tal medo
de envelhecer.
foi aí que eu disse que o vovô chico albino morreu pobre, esquelético, esclerótico, um espectro de gente, em um bairro qualquer de caxias, que por obrigação
se chama 25 de agosto, já roçando a beira dos noventa anos de idade.
como se, quem vivesse tanto,
essa merda de vida deixasse viver em paz.
foi aí que eu disse que também o zé fábio tem
os grilos altíssimos do receio de ficar velho
e brocha, naturalmente. mas já há muitos anos.
talvez ele tenha mesmo como missão na vida
estar chamando nossa atenção descuidada
para o tobogã irreversível da queda de produção,
de cabelo, de tesão e de vitalidade. aí o inps
para nos reconfortar. que merda é o jair soares!*
o pior, no entanto, é morrer novo, devendo vida,
como quem sai de fininho, sem querer, querendo,
de uma festa em casa de gente pobre, para cujo
banquete se convidassem as iguarias ao invés dos comensais.
o vovô não saiu de fininho. saiu pela porta da
frente, todo quebrado, como que saísse de uma
luta a que sucumbira de modo incontestável.
e na aparência dormente dos mortos antigos que
levam um pouco da ciência de uma vida que ele
mesmo esqueceu de viver nesses últimos anos,
qual o mago da poção miraculosa cuja fórmula põe ao fogo para não cair em mãos de estranhos e criminosos. não direi que lá foi o meu avô, porque simplesmente não há o lá, o onde chegar. muito menos desencantou-se, como afirmou o flávio rangel pela morte do vinícius de morais. que essa vida não é encanto.
simplesmente acabou-se, como se acabam o doce, a bala azedinha, o gosto de pano de guarda-chuva encardido
na boca.
a diferença é que o bicho-homem tem memória, o que dele há de ficar.
a verdade é que temos de glorificar a vida. temos de valorizar a capacidade de resistir
e não a grandeza da batalha final.
os mortos são os desaparecidos.
os outros é que ficam, mesmo perdidos nesse planeta
de ódio e violência.
adriano, bedu e eu estraçalhávamos com a voracidade dos nossos trinta e tais anos aquela rabada de boi, assessorada por goles dourados de antártica, mas comíamos e bebíamos aos que nascem e nasceram ontem. nós vamos descansar para o segundo tempo,
caso não sejamos barrados pelo técnico
em virtude de nosso baixo rendimento.
os dentes-de-leite, fazendo a partida preliminar,
ainda tocam a bola de primeira,
batem corner sem a malícia dos anos
e, principalmente, ficam na barreira
sem a preocupação de proteger os culhões contra o chute do time contendor.
e nós, de barriga cheia, os olhos meio repuxados
pela claridade estonteante da luz no fim do túnel, rimos superiores à incapacidade, inconsequência
e imaturidade
dessas pobres crianças que pusemos no mundo
não por um desígnio dos céus
nem por um prazer egoístico de procriar
mas sobretudo pela certeza de que eles
serão melhores
              maiores
                     mais bonitas
                                 mais amantes
que nós.
pela estranha e compreensível esperança humana
de que o espetáculo dantesco que vivemos
não pode – não deve – não será passado a todas
essas crianças que por aí choram
                           sofrem
                           buscam
                           riem
e têm necessariamente de encontrar A PAZ.
ou não poderei morrer velho, esquelético e esclerótico, todo quebrado, pela porta da frente, sem a vergonha da derrota, ainda que derrotado, estampada no rosto.
que vivam os vivos!
                            um abração do
                               SClair
                                                                  3/6/82


*desculpe-me o palavrão!

5 de abril de 2015

AMARCORD


Ψ
Tenho cravada em minha memória a cena sedutora de um filme mexicano em que a belíssima atriz cubana Maria Antonieta Pons, dentro de um vagão de trem, deixava que o mocinho (ou seria o bandido?) lhe beijasse o lindo tornozelo torneado, apenas insinuado com o suave levantar de sua saia comprida. Não sei quem era o canalha que lhe beijava o tornozelo, nem o título do filme, nem o nome do diretor, assim como não me recordo de nenhum fotograma anterior ou posterior a esse. Mas esse ainda está incrustado num escaninho qualquer lá dentro de mim. Imaginem, então, o que a cena causou em minha cabeça! Devia ter lá meus doze/treze anos, quando vi o filme. E tive o cuidado de, após a sessão, saber o nome daquela bela atriz e seu tornozelo maravilhoso: Maria Antonieta Pons! Aliás, o cinema mexicano da época, através da Pelmex, era pródigo em belas mulheres. Só para citar algumas: Libertad Lamarque, Dolores Del Rio, Ninón Sevilla, Maria Felix. E desconfio de que continue assim até hoje...

María Antonieta Pons (em cinemexicano.mty.itesm.mx).


Ψ
De quando em vez, meu saudoso avô Chico Albino, que à época morava em Duque de Caxias, ia visitar os parentes – dentre eles meu pai, seu filho – que deixara na pequena vila de Carabuçu. Eu o admirava profundamente. Achava-o um homem elegante, porte nobre, sempre vestido com correção e dono de uma dicção limpa, clara. Não tenho lembranças de que me levasse presentes. Nesse tempo, não era comum, pelo menos na minha terra, que se dessem presentes. Mas sua presença por lá era motivo de grande satisfação minha. Numa dessas visitas, estava conversando com os amigos na venda de meu pai, contando lá as histórias de Duque de Caxias, quando se referiu a certo cidadão, personagem do que dizia, com a palavra cafajeste:
- Fulano era um verdadeiro cafajeste!
Na hora, achei a palavra muito bonita, muito sonora, e gostei de ouvi-la da boca de meu avô. Como já era um menino esperto, perguntei-lhe o que significava cafajeste. Tive, então, a maior decepção com o sentido. Como podia uma palavra tão sonora, tão bonita, significar aquilo que me dizia? Comecei, assim, a perceber que nem sempre os sons correspondiam aos sentidos.
Quando fui para a faculdade, tive confirmada essa percepção, ao saber do lamento do grande poeta francês Guillaume Apollinaire, autor de Calligrammes, com a língua francesa, que tem a palavra jour (pronunciada /jur/), de sonoridade fechada, escura, para o que em português é dia, de pronúncia aberta, clara. Dizia ele da necessidade poética, em francês, de adjetivar a palavra para carrear, para seu sentido de claridade, também a claridade da pronúncia, que há na palavra portuguesa. Assim propunha, por exemplo, clair jour (pronúncia /klér jur/) – dia claro – em que o adjetivo de som aberto como que clareia o sentido de jour.

Ψ
Lá nos idos de 1950, meu pai soube, por um dos fregueses de sua venda, que certo conhecido, durante uma partida de futebol de várzea das roças no entorno da vila, tinha sido esfaqueado, por motivo de discussão boba, desmotivada. Virou-se, então, para o que trazia a notícia e exclamou:
- Xi! Coitado! Deu com os costados na cerca!
Ao ouvir isso, quis saber do meu pai se o homem se ferira na cerca, normalmente feita de arame farpado. Meu pai deu um sorriso amarelo e me disse:
- Não, morreu mesmo! Dar com os costados na cerca quer dizer morrer.
Dessa vez, percebi também que as palavras nem sempre querem dizer o que dizem e podem nos meter em enrascada. Ê vida difícil! É o que talvez justifique aquele camarada que se explicou à autoridade, dizendo que chamara o outro de filho da puta no bom sentido.

Ψ
Bom sentido que não existia há algumas décadas. E foi o que motivou um tio-avô a atirar num desafeto, justamente por chamá-lo de filho da puta. Na época, era a maior ofensa que se fazia a um homem, porque atingia diretamente sua mãe. Era um agravo na raiz da nascença, como se dizia, que manchava toda a descendência, ainda que por tabela. Tão logo foi xingado, meu tio agrediu o ofensor. A turma do deixa-disso fez a separação dos briguentos. Após a rixa, correu a notícia de que o outro estava andando armado, para dar fim a meu tio, que também pôs revólver na cinta. Não era, então, estranho as pessoas andarem armadas. Os de menor posse muniam-se de facas e peixeiras; os de maior, de garruchas e revólveres. Mesmo que não se portassem as armas, elas estavam dentro das casas. Por isso ocorreu que, estando meu tio num bar, em conversa com amigos, de costas para a porta, ao ouvir o chamamento do desafeto – não se matava um homem pelas costas –, ele já se virou atirando. O homem, alvejado, foi levado para o hospital de Bom Jesus, vindo a falecer, tempos depois, em consequência de complicações pelo tiro que levou.

Ψ
Os mais velhos contam uma história interessante, ocorrida em Carabuçu. Durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, foi instituída uma força policial volante, que vasculhava o interior para desarmar as pessoas. Nessa época, havia por todo lado muitos jagunços, muitos grupos armados, e os confrontos eram corriqueiros*. Para o norte do antigo estado do Rio de Janeiro – a Velha Província que teimava em sobreviver –, foi mandada a volante comandada pelo tenente Coaracy, homem de estatura baixa, mas tido como enquizilado, carne de pescoço, temido por todos.
Vem a volante entrando na vila, tenente Coaracy à frente, montado em sua garbosa mula alta. Ele, de pequetito, virava um homenzarrão sobre a besta. Na porta do botequim, estava um homem que, ao ver o grupamento, julgou por bem não se afastar, para não levantar qualquer tipo de suspeita, o que, certamente, o levaria a passar maus momentos. Tenente Coaracy estaca a montaria diante do homem, que já imagina o pior. Com sua voz firme e autoritária, pergunta ao homem:
- Caboclo, você fuma?
Tremendo de medo, o pobre coitado não teve como mentir e disse, com a voz já por um fiapo:
- Fumo, sim, senhor! Mas, se o senhor quiser, eu largo o vício.
- Não é nada disso, caboclo! Me arranja um cigarro, que o meu acabou!
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(* Se quiserem conhecer mais detalhes desse período da história brasileira, indico o excepcional romance de Mário Palmério Chapadão do bugre, que também serviu de base para minissérie homônima, levada ao ar pela Rede Bandeirantes, no ano de 1988, com direção de Valter Avancini e Jardel Mello.)


9 de dezembro de 2014

CONVERSA DE HOMEM


Jane e eu temos vários amigos gays, de ambos os sexos, se é que me entendem. Pois há algum tempo estávamos na casa de um desses amigos(as), em Miracema, para uma visita e lá estava também um outro amigo comum. Eu e ele – vou-me permitir omitir o nome de todos – ficamos conversando na copa, tomando cerveja, enquanto as que nasceram femininas estavam no quarto vendo o derradeiro capítulo da novela das nove.

Então ele, que de discreto nunca teve nada, pois sempre foi um gay do tipo assumidíssimo, me disse que já havia uns quinze anos que não fazia mais nenhuma das loucuras que se permitira quando mais jovem, dentre elas, inclusive, o consumo de drogas. Com sua voz de contralto, bem de acordo com seu porte físico franzino, cujas pernas se enroscavam uma na outra, me explicou que agora estava todo devotado à religião, permitindo-se apenas beber cerveja moderadamente. Hoje já nem mais álcool consome.

Mostrou-me, então, como se dirigia ao Cristo crucificado na igreja matriz da cidade:

- Jesus, eu te amo muito, e não tenho culpa de o Senhor ter me feito assim uma borboletinha.

Soltei uma sonora gargalhada com a sua sinceridade ao dizer isso, rodando os olhos para o teto, como se tivesse falando naquele instante com o Crucificado.

Minha gargalhada chamou a atenção da Jane, que saiu do quarto e veio saber que tipo de conversa estávamos entabulando. Ele, do alto de sua segurança, respondeu a ela:

- Não se meta, Jane! Isso aqui é conversa de homem!



Imagem em mundodacerveja.com.br.



26 de março de 2014

CARRO DE BOIS


Um dia ainda vou tocar bois na estrada. Certamente atrelados a um carro, eu com o garruchão nas mãos, candiando os bichos. Mas terei cuidado em não espicaçá-los com o aguilhão, para não feri-los, apenas batendo com a vara na canga a que vão atrelados, chamando-os com intimidade pelo nome de batismo:
- Vem, Corisco! Vem, Jeitoso!
E o barulhinho das argolas presas à ponteira da vara a tilintarem, hipnotizando os animais que seguirão dóceis, puxando o carro carregado de milho recém-colhido, levado à máquina do seu Lulu, para virar o fubá nosso de cada dia. Ou – o carro sem a mesa – arrastando toras presas ao cocão, as quais deixam um sulco no chão de terra como um rastro. Ou, quem sabe ainda, transportando a mudança pobre do colono que troca de patrão e precisa rebocar seus trecos para a nova casa de sopapo à beira do valão Liberdade, aí o carro com a mesa, os fueiros e a esteira que protege as coisas miúdas de caírem pelo caminho. Ou, ainda mais, o carro abarrotado de cana de açúcar a ser descarregada no engenho do seu Pequetito, na Fazenda do Jacó, onde se transformará em melado, rapadura e açúcar batido.
Tenho essas imagens ainda perdidas no escaninho da memória a voltarem, vez em quando, à soleira do meu dia a dia em molde de saudade caipira. Eu fui um menino feliz do interior.
Claro que nunca candiarei bois. Nem nesta, nem em outra possível encarnação, quando eles ainda não estarão libertos desse duro trabalho e continuarão a se prestar a comida dos seres humanos e de mais alguns outros colegas carnívoros, hospedados em zoológicos confortáveis através do planeta.
Mas a imagem do carro de bois sempre retorna. Sou até capaz de ouvir o som dolente do eixo azeitado, a preencher os espaços vazios nos céus da minha terra natal. Lá longe vem o carreiro chamando os bois, em meio a este canto mecânico, quase narcótico, num movimento andante ininterrupto, tal moto perpétuo. Quanto mais pesado o carro, mais o canto se fazia lamentoso, dando, por vezes, às pessoas a sensação de um sofrimento profundo, sem origem ou motivação, apenas talvez lembrando a todos nós a dor de estar no mundo. E os bois seguiam plácidos, ruminantemente conformados, puxando o peso das nossas e das suas vidas estrada afora.
E cada carreiro procurava tirar o som mais bonito do seu carro. Isto era motivo de orgulho profissional. É provável até que, entre eles, houvesse uma disputa tácita, não declarada, uma espécie de guerra fria, para se produzir o canto mais melódico. Por vezes, como em dueto, carros passavam cantando, cada um, seu canto de modulação particular, pelas estradas perdidas da minha vila.
Por isso é que, ao me assaltar esta saudade, me vem certa tristeza em saber que meus netos nunca terão impressas tais memórias. Como, aliás, provavelmente seus próprios pais não as tenham, embora frequentassem o interior em suas férias escolares da infância.
Infelizmente esta é uma experiência que não se passa aos seus, não se transfere por herança ou doação em vida. Fica ela restrita àquilo que temos de mais escondido dentro da gente, sem que possa ser compartilhada, como está tão em moda nestes tempos virtuais.
Ainda agora estou ouvindo o grito do carreiro se destacar do canto triste do carro de bois, a chamar seus ajudantes na lida da vida:
- Vem, Jeitoso! Vem, Corisco!

Josinaldo, Carro de bois (imagem em artmajeur.com).


(Em homenagem aos antigos carreiros de Carabuçu, sobretudo a seu Bastião Carreiro, pai do meu amigo Didi, ele também carreiro na infância.)

18 de março de 2014

FUI AMIGO DE UM DZI CROQUETTE



Estivemos no último sábado em Miracema, para o sepultamento do nosso amigo Rogério de Poly. Rogério foi, dito assim simplesmente, um dos mais destacados Dzi Croquettes, a trupe de bailarinos-atores que nos idos de 70 subverteu a cena carioca de teatro, com um espetáculo inusitado, inventivo, irreverente, provocativo, transgressor e, por que não dizer, tendo em vista a época, subversivo. E Rogério se destacava do grupo visualmente por seu porte de corpo e seu rosto bonitos, seus longos cabelos.

Depois que os Dzi Croquettes ganharam o público brasileiro, eles foram aventurar-se na Europa, sobretudo na França, onde Rogério acabou ficando como vários deles, inclusive seu irmão Reginaldo, também membro do elenco.

Conheci Rogério por ocasião de uma das apresentações do grupo no Rio de Janeiro, no início dos 70. Minha mulher já era amiga dos irmãos em Miracema, onde nasceram. Depois do espetáculo, saímos para comemorar o reencontro e o sucesso estrondoso que faziam, a despeito de todo o cuidado e da obliteração da censura da ditadura militar.

Passaram-se os anos até que Jane e eu fomos pela primeira vez a Paris. Lá fomos recebidos por Rogério que, morador da cidade há duas décadas, nos serviu como um anfitrião luxuoso, nos levando a conhecer a cidade como os seus habitantes a conhecem, além de alguns pontos de interesse que tínhamos solicitado a ele. Lembro-me, por exemplo, que nos disse que não voltaria pela enésima vez ao Louvre, porque, se encontrasse a Mona Lisa novamente, daria uns tapas na cara dela, de tão cheio da Gioconda. Rimos muito.

Embora já adaptado à cidade, onde chegou sem dizer uma só palavra da língua de Robespierre, confessou-nos que tinha horror à comida francesa cheia de manteiga e creme de leite. E nos levou para almoçar num restaurante japonês próximo à igreja de São Pedro e São Paulo, no Marais, bairro em que havia morado. Fomos também conhecer seu antigo endereço, na Rue des Rosiers, em cuja caixinha de correios ainda estava anotado seu nome. No périplo por esse tradicional bairro de Paris, conhecemos a loja de chás Mariage Frères de propriedade de um amigo dele, onde compramos alguns chás, a bela catedral Batista e uma loja de roupas para gays de outro amigo. Aliás, o Marais era tido como o bairro gay de Paris.

Noutro dia, indo em direção à igreja da Medalha Milagrosa – pedido de Jane a ele – atravessou a rua na faixa de pedestre tão logo chegamos à calçada. Jane e eu ficamos aguardando um carro que vinha a uns cinquenta metros, ao que ele disse:

- Podem atravessar: motorista francês não é louco de atropelar vocês sobre a faixa.

Jane, esperta e desconfiada, moradora de Niterói, lhe disse:

- E se for um brasileiro que alugou o carro a dirigir?

E foi outra sessão de risos. Era melhor prevenir.

Noutro dia, fomos até o cemitério de Montparnasse, onde está sepultado seu irmão Reginaldo, assassinado brutalmente na capital francesa. Jane queria ver o túmulo do seu amigo de infância. Rogério, já conhecido do porteiro do cemitério, repetiu o ritual em honra de seu irmão: limpou o túmulo; varreu no entorno; levou flores, joias, fotos; levou o gravador com músicas de que ele gostava e, ao final dos cuidados, fez uma prece para o irmão. O túmulo do Reginaldo fica próximo ao de Baudelaire, talvez não sem alguma motivação: ambos em suas épocas chocaram a sociedade com uma postura transgressora.

Um pouco antes de voltarmos ao Brasil, ele nos ofereceu um jantar frio – não havia fogão no pequeno espaço onde morava – cheio de paladares, acompanhado por vinho branco nacional. Armou a mesa na pequena sacada e nos sentamos para comer. O ar da noite estava suave, o papo corria descontraído e alegre. Daí a pouco, percebi, de fundo, o barulho de água corrente e trilos de pássaros. Perguntei de onde vinha tal barulho, e ele me mostrou no portal, atrás de mim, um pequeno gravador dependurado, que reproduzia os sons dos ribeirões e dos pássaros de Miracema, que ele gravara em uma de suas idas à cidade natal, a fim de que matasse um pouco da saudade e reforçasse suas raízes.

- Ainda volto para lá, compro um sítio e vou viver tranquilo.


Rogério e Jane, durante o jantar na casa dele.

Jane e eu durante o jantar (foto feita pelo Rogério).

Uma das confissões que me fez, supondo que não o conhecesse tão bem quanto a Jane, foi característica de sua personalidade:

- Saint-Clair, sou como um velho elepê: às vezes sou lado A, às vezes sou lado B. Dependendo da fase, gosto de meninos e de meninas.

No ano seguinte, meu filho Pedro e eu fomos ver a Copa do Mundo da França e, mais uma vez, encontramos Rogério, para quem levávamos encomendas. Ele estava no afã de decorar um barco no Rio Sena, que serviria de bar e restaurante durante o evento, com espetáculos musicais e de dança de que participaria.

Numa das vezes em que veio a Miracema pelas festas de fim de ano, contou-me que tinha trazido uma garrafa de armagnac e nos convidou para um trago. Disse-lhe que gostava muito da bebida, e ele, com seu costumeiro sorriso debochado, me disse:

- Você sabe apreciar as coisas boas!

Anos depois, após ter sofrido um atropelamento por um ônibus urbano enquanto pedalava pelas ruas parisienses, Rogério foi trazido por seu irmão mais novo, Ronaldo, para Miracema, a fim de que tivesse os cuidados necessários de sua família. Sua fase de glamour e transgressões havia passado, e aquele belo homem andrógino, que agradava tanto a homens quanto a mulheres, tinha perdido seu brilho, em função da saúde abalada por alguns maus físicos e psíquicos. Sempre que íamos a Miracema, continuamos a encontrá-lo, a levar para ele lembranças em forma de guloseimas diet, de que tanto gostava. Não tanto pelo paladar, mas, sobretudo, gostava da atenção que a Jane lhe dedicava.

Sábado último, às seis horas da manhã, depois de uma semana internado, nosso amigo Rogério de Poly, bailarino, ator, professor de dança, miracemense e transgressor assumido, faleceu como acontece a qualquer ser humano. Mas deixa gravada na história das artes cênicas do Brasil um papel que dificilmente será apagado, não importa o tempo que o calendário debulhar, nem o sussurro dolorido das águas dos ribeirões de sua terra natal.

Descanse em paz, Rogério!

Jane e Rogério na Igreja da Medalha Milagrosa, em Paris, em 1997.

9 de janeiro de 2014

AMARCORD


Ψ
Tenho cravada em minha memória a cena sedutora de um filme mexicano em que a belíssima atriz cubana María Antonieta Pons, dentro de um vagão de trem, deixava que o mocinho (ou seria o bandido?) lhe beijasse o lindo tornozelo torneado, apenas insinuado com o suave levantar de sua saia comprida. Não sei quem era o canalha que lhe beijava o tornozelo, nem o título do filme, nem o nome do diretor, assim como não me recordo de nenhum fotograma anterior ou posterior a esse. Mas esse ainda está incrustado num escaninho qualquer lá dentro de mim. Imaginem, então, o que a cena causou em minha cabeça! Devia ter lá meus doze/treze anos, quando vi o filme. E tive o cuidado de, após a sessão, saber o nome daquela bela atriz e seu tornozelo maravilhoso: María Antonieta Pons! Aliás, o cinema mexicano da época, através da Pelmex, era pródigo em belas mulheres. Só para citar algumas: Libertad Lamarque, Dolores Del Río, Ninón Sevilla, María Felix. E desconfio de que continue assim até hoje…

María Antonieta Pons (em cinemexicano.mty.itesm.mx). 

Ψ
De quando em vez, meu saudoso avô Chico Albino, que à época morava em Duque de Caxias, ia visitar os parentes – dentre eles meu pai, seu filho – que deixara na pequena vila de Carabuçu. Eu o admirava profundamente. Achava-o um homem elegante, porte nobre, sempre vestido com correção e dono de uma dicção limpa, clara. Não tenho lembranças de que levasse presentes. Nesse tempo, não era comum, pelo menos na minha terra, que se dessem presentes. Mas sua presença por lá era motivo de grande satisfação minha. Numa dessas visitas, estava conversando com os amigos na venda de meu pai, contando lá as histórias de Duque de Caxias, quando se referiu a certo cidadão, personagem do que dizia, com a palavra cafajeste:

- Fulano era um verdadeiro cafajeste!

Na hora, achei a palavra muito bonita, muito sonora, e gostei de ouvi-la da boca de meu avô. Como já era um menino esperto, perguntei-lhe o que significava cafajeste. Tive, então, a maior decepção com o sentido. Como podia uma palavra tão sonora, tão bonita, significar aquilo que me dizia? Comecei, assim, a perceber que nem sempre os sons correspondiam aos sentidos.

Quando fui para a faculdade, tive confirmada essa percepção, ao saber do lamento do grande poeta francês Guillaume Apollinaire, autor de Calligrammes, com a língua francesa, que tem a palavra jour (pronunciada /jur/), de sonoridade fechada, escura, para o que em português é dia, de pronúncia aberta, clara. Dizia ele da necessidade poética, em francês, de adjetivar a palavra para carrear, para seu sentido de claridade, também a claridade da pronúncia, que há na palavra portuguesa. Assim propunha, por exemplo, clair jour (pronúncia /klér jur/) – dia claro – em que o adjetivo de som aberto como que clareia o sentido de jour.

Ψ
Lá nos idos de 1950, meu pai soube, por um dos fregueses de sua venda, que certo conhecido, durante uma partida de futebol de várzea das roças no entorno da vila, tinha sido esfaqueado, por motivo de discussão boba, desmotivada. Virou-se, então, para o que trazia a notícia e exclamou:

- Xi! Coitado! Deu com os costados na cerca!

Ao ouvir isso, quis saber do meu pai se o homem se ferira na cerca, normalmente feita de arame farpado. Meu pai deu um sorriso amarelo e me disse:

- Não, morreu mesmo! Dar com os costados na cerca quer dizer morrer.

Dessa vez, percebi também que as palavras nem sempre querem dizer o que dizem e podem nos meter em enrascada. Ê vida difícil! É o que talvez justifique aquele camarada que se explicou à autoridade, dizendo que chamara o outro de filho da puta no bom sentido.

Ψ
Bom sentido que não existia há algumas décadas. E foi o que motivou um tio-avô a atirar num desafeto, justamente por chamá-lo de filho da puta. Na época, era a maior ofensa que se fazia a um homem, porque atingia diretamente sua mãe. Era um agravo na raiz da nascença, como se dizia, que manchava toda a descendência, ainda que por tabela. Tão logo foi xingado, meu tio agrediu o ofensor. A turma do deixa-disso fez a separação dos briguentos. Após a rixa, correu a notícia de que o outro estava andando armado, para dar fim a meu tio, que também pôs o revólver na cinta. Não era, então, estranho as pessoas andarem armadas. Os de menor posse muniam-se de facas e peixeiras; os de maior, de garruchas e revólveres. Mesmo que não se portassem as armas, elas estavam dentro das casas. Por isso ocorreu que, estando meu tio num bar, em conversa com amigos, de costas para a porta, ao ouvir o chamamento do desafeto – não se matava um homem pelas costas –, ele já se virou atirando. O homem, alvejado, foi levado para o hospital de Bom Jesus, vindo a falecer, tempos depois, em consequência de complicações pelo tiro que levou.

Ψ
Os mais velhos contam uma história interessante, ocorrida em Carabuçu. Durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, foi instituída uma força policial volante, que vasculhava o interior para desarmar as pessoas. Nessa época, havia por todo lado muitos jagunços, muitos grupos armados, e os confrontos eram corriqueiros*. Para o norte do antigo estado do Rio de Janeiro – a Velha Província que teimava em sobreviver –, foi mandada a volante comandada pelo tenente Coaracy, homem de estatura baixa, mas tido como enquizilado, carne de pescoço, temido por todos.

Vem a volante entrando na vila, tenente Coaracy à frente, montado em sua garbosa mula alta. Ele, de pequetito, virava um homenzarrão sobre a besta. Na porta do botequim, estava um homem que, ao ver o grupamento, julgou por bem não se afastar, para não levantar qualquer tipo de suspeita, o que, certamente, o levaria a passar maus momentos. Tenente Coaracy estaca a montaria diante do homem, que já imagina o pior. Com sua voz firme e autoritária, pergunta ao homem:

- Caboclo, você fuma?

Tremendo de medo, o pobre coitado não teve como mentir e disse, com a voz já por um fiapo:

- Fumo, sim, senhor! Mas, se o senhor quiser, eu largo o vício.

- Não é nada disso, caboclo! Me arranja um cigarro, que o meu acabou!
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(* Se quiserem conhecer mais detalhes desse período da história brasileira, indico o excepcional romance de Mário Palmério Chapadão do bugre, que também serviu de base para minissérie homônima, levada ao ar pela Rede Bandeirantes, no ano de 1988, com direção de Valter Avancini e Jardel Mello.)