31 de dezembro de 2014

FELIZ ANO NOVO!
Fim de tarde em Icaraí (foto do autor, 14/12/2014).

27 de dezembro de 2014

PREVISÕES IMPREVISÍVEIS DE PAI PRUDENÇO PARA 2015


NOTA PRÉVIA: Este espaço foi cedido “gentilmente” a Pai Prudenço, como sempre. Caso contrário, eu seria “presenteado” com algum olho gordo “ni minha pessoa”, como ele garantiu. Com Pai Prudenço, não brinco, não fresqueio. É mais voluntarioso que o Analista de Bagé.
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Zifios e zifias.
Suncêis pidiro e aqui tá as previsão para o ano que envém aí. Quero dizê a suncêis que demorei um poco mais, por causa de que tou assuntado cos pobrema da tar da Petrobras. É munta gente me pricurando pra resorvê pendença. Finarmente pude pará uns trinta minuto para mandá essas previsão pra suncêis.
Vô começá ca Petrobras meso. O trem lá vai continuá feio. Aquela tar de Venina vai butá mais veneno. Periga até contaminá as gasolina que suncêis usa nos carro e eis pará de andá. As ação da Petrobras vai pará no Pré-Sar. Cuidado!
Já a tar de Eletrobras vai dá um choque n’ocêis. Bem no borso, que é pr’ocêis largá mão de sê besta e pagá os prejuízo que dão tumando banho quente e uvindo musga sertaneja no rádio.
O dono aqui do espaço tumém me pediu pra oiá seu time de futebor. Ni que quano ele me falou que era o Botafogo, sortei uma gargaiada danada. É que num vi futebor no ano escorrido e num tou veno no ano que envém. Posso até fazê uns trabaio de encomenda, cum reza braba, pra vê se ele num trupica na segunda e desce pra tercera. Mas o trem tá feio. Iguar à Petrobras!
O futebor como um todo tá mais pior do que em 2014, que já num foi bão. Suncêis vão vê cada joguinho ruim da peste, que vai dá mais saudade do Garrincha e do Pelé. Acho mió comprá uma prancha e um pé de pato e caçá onda nesse marzão de Deus.
As economia do Brasi, sem aquele tar de Mantega, vai continuá escorregano no quiabo. Conseio quem quisé sergurá o seu que vorte a butá dentro do corchão, que nem antigamente.
A violença vai continuá violenta. Os ladrão vão continuá robano. Tanto o seu cascaio, quanto o cascaio do Brasi. A Puliça Federá vai tê um trabaio danado, mas no fim os devogado vão enrolá as lei e sortá quaje todos ele.
De bão meso é que as muié vão continuá mais bonita que já são. De modo que é bão apurá os óio, trocá as lente dos oclo que é pra mode oiá bem. Já os homi permanece tudo feio cumé que sempre foro. Cruzcredo!
No campo do amô, vai tá tudo certo. Com arguns chifre espaiado por riba da testa de uns e otro. Que é pra num perdê o custume. O qué que se vai fazê, né meso? Ah! E num mexa caquela vizinha gostosa que vive espicaçano suncê, que o marido dela comprô um trabuco na fêra de Caxia.
No campo do jogo, aqueles que fô infeliz no amô tumém vão se dá munto mar. Vão perdê dinhero no bicho, na loteria e nas megasena. Conseio desviá dinheiro pra pinga, que vai dá mais prazê a suncêis.
As viage que suncêis pranejaro pra 2015 só vai ocorrê em 2016. 2015 vai tá de teto baxo o ano intero e ninguém vai pudê levantá voo, nem arribá a bunda do sofá. Conseio comprá revista de turismo que vai sê mió.
No que se refere às otoridade, tudo vai continuá do jeitinho que envém dês que nós nascemo. Vai tê juiz achano que é Orixá e vai tê gente meteno a mão na nossa grana. Dispois, nas inleição, nós vota tudo neles traveiz.
Nas arte e nas saliença, vai tê munto caipira sertanejo ganhano dinheiro às custa dos bobo, tar como uns pagodeiro mixuruca. Conseio suncêis a fugi dessa gente. Eu posso sê até um homi simpres, mas num sô bobo não. E os baile da tercera idade já vai chegá na quarta. É munto véio saliente, sô!
Na tar pulítica internacionar, os arábio e os judeu vão continuá a metê ferro uns nos otro. Nem Oxalá consegue dá jeito nisso. É pió que briga de marido e muié. Se ocê ficá preocupado, vai acabá doente. Conseio largá mão disso tumém. Num são eis que qué briga? Já os tar de Talibã, nem o diabo pode cum eis. Aquele minino roliço da Coreia vai continuá brincano de War, aquele joguim que suncêis dão pros fio de suncêis. E cortano o cabelo daquele jeito ridico, que só ele. Putin vai continuá putim da silva. Ô homim inquiziado! E o Papa Paco vai cansá de puxá as oreia da Cúria Romana e eis vão continuá a fazê ovido moco.
Pessoarmente acho que suncê vai se ferrá em 2015, mas eu vô baxá umas obrigação aqui no meu roncó, pra vê se tiro essa carga pesada da sua cacunda.
Se Pai Prudenço fala, Pai Prudenço cumpre. Bom Ano Novo procêis tudo! Se é que é possive!

21 de dezembro de 2014

HISTÓRIA DE UMA SEPARAÇÃO ANUNCIADA


Ontem passei uma mensagem, via Whatsapp, para meu filho Pedro, que está morando em Vitória, para lhe pedir que me traga o novo CD do Silva, talentoso jovem músico capixaba. Em novembro, quando lá estive, o disco estava em falta na loja próximo ao prédio onde ele mora. Após o OK, vem o pedido dele: "Ah, faça um kit vinil pra mim tb. Que contenha Allman". Ao ler, comecei a temer pelo desenrolar da história. Tanto que lhe mandei um torpedo de volta: Vinis novos, ou dos meus/seus?
Aqui tenho que explicar ao leitor amigo o porquê do meu temor.
Tudo começou há quase trinta e oito anos. Eram os primeiros dias de fevereiro de 1977. Pedro, nascido em 31 de janeiro, adentrou solene no seu novo lar. Primogênito, o pai, muito emocionado, não se conteve e lhe doou sua até então mediana coleção de discos de vinil:
- Meu filho, tudo isso é seu. - falei solene.
À época deveriam ser cerca de oitocentos elepês de várias tendências musicais.
Eu não sabia, então, da gravidade do meu gesto. O menino foi crescendo, assim como a coleção (Hoje são cerca de três mil.). Até que chegou o tempo de lhe comprar também os seus discos: Família Barbapapa, a trilha sonora de Flash Gordon do Queen, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, o próprio Queen, Nirvana, Pearl Jam e por aí afora. Depois vieram os CDs, e pai e filho continuaram a adquirir música na nova mídia, sempre com o desembolso monetário deste que lhe escreve, leitor.  Deste modo começou a se formar uma outra coleção, só dele, exclusiva. E o menino continuou a crescer, formou-se, arranjou trabalho, saiu de casa, namorou, casou, e não se esqueceu dessa promessa, que nunca me neguei a lhe dizer.
Agora recentemente, sua esposa lhe traz de presente, de uma viagem ao exterior, um belo toca-discos, daqueles capazes de reproduzir vinis.
O leitor está acompanhando minha exposição e poderá ver que meu temor tem fundamento. Pois a resposta dele àquela última indagação acerca de que vinis dizia foi: "Os velhos. Meus e meus. Olha a herança!!!". E cravou três pontos de exclamação, para que não restassem dúvidas. Tentou abrandar: "Brincadeira. Depois devolvo. Faz uma seleção. Uns 10.". Na sequência, disse que eu poderia escolher as bolachas e que poderiam ser mais de dez. Resolvi selecionar quinze, para, então, chegar aos vinte.
Veja, leitor condoído da minha situação, a que extremo chega um pai que, num arroubo de sentimentalismo da juventude, promete mundos e fundos ao filho amado. Não sei se, no Livro Sagrado, há história semelhante. Pois esta mereceria estar lá.
Então separei os vinte elepês e lhe explico - e também a ele - os motivos que me levaram a escolher esses e não outros.
De sua coleção – dele mesmo, entenda bem! –, vão os seguintes, que peguei aleatoriamente: Titãs (Go back 1988), Os Paralamas do Sucesso (D, 1987), Legião Urbana (Dois, 1986), Faith No More (The real thing, 1990) e Nirvana (Nevermind, 1991).
Da sua coleção – minha, que lhe passei naquele arroubo –, vão os seguintes, com minha justificativa:
Dentre os nacionais: Alceu Valença (Molhado de suor, 1974), Geraldo Azevedo (Geraldo Azevedo, 1977) Belchior (Todo sujo de batom,1974), por serem os primeiros discos individuais desses artistas, Gilberto Gil (Refavela, 1977) e Novos Baianos (Novos Baianos F. C., 1973). De todos eles, Pedro, em criança, cantava várias músicas, com sua linguagem ainda incompleta, e deles certamente se lembra perfeitamente, já que eles estavam sempre rodando em casa.
Dos internacionais: Atendendo seu pedido, The Allman Brothers Band (Eat a peach, 1972), disco duplo que traz talvez a mais longa música popular que já ouvi: os lados 2 e 4 contêm a execução ao vivo de Mountain jam. Além disso, tem clássicos como Blue sky, com um dos mais belos solos de guitarra de todo o rock, Little Martha, Trouble no more e Melissa. The Beatles (Oldies - A collection of Beatles. 1987), disco que mal ouvi e deve estar novinho ainda. Deep Purple (Machine head, 1972), um clássico do grupo, cheio de grandes rocks, como Smoke on the water e Pictures of home. Focus (3, 1973), o primeiro disco do interessante grupo progressivo holandês lançado no Brasil, que teve um sucesso marcante, Sylvia. Foghat (Foghat, 1972), grupo de hard rock inglês, com acentuada pegada bluseira, tinha duas guitarras que tocavam em uníssono. Genesis (Foxtrot, 1973), disco superlativo, que tem em Supper’s ready uma das mais belas peças que o rock progressivo já produziu. Neil Young (Harvest, 1972) produziu, segundo minha opinião, sua melhor obra com este álbum. O solo de guitarra que ele faz em Words (Between the lines of age) é lancinante. Rush (Power windows, 1985), grupo canadense que é mais cultuado pelos da geração de meu filho do que por mim mesmo. Este disco ainda está novinho. The Who (Quadrophenia, 1973) produziu a sua obra mais brilhante com este álbum duplo. Na verdade, é tudo de Pete Townshend. Por fim, Ken Hensley (Proud words on a dusty shelf, 1973), líder do grupo inglês Uriah Heep, produziu uma pérola. Multi-instrumentista, tocou quase todos os instrumentos das faixas. Destaque para a música título, para Rain, também gravada por seu grupo, e a fabulosa When evening comes
Espero que meu filho goste muito e possa resgatar sons que devem estar em sua memória musical. Quanto a mim, neste exato instante, penso naquele famoso soneto As pombas, de Raimundo Correa, ao ver esses meus/deles primeiros vinis voando da minha discoteca:

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

Imagem em ultradownloads.com.br.

17 de dezembro de 2014

FUI!

De pronto, escreveu que não gostava mais dela, na sacola do pão, sobre a mesa do café da manhã. A mensagem só não ficou estranha, porque a letra grande ultrapassou o círculo de manteiga embaixo da letra M, de modo que se lia quase com perfeição NÃO TE AMO MAIS, assim mesmo com letras maiúsculas. E não terminou de modo elegante, porque não era do tempo do bolero e do samba-canção. Grafou apenas FUI, sem assinar, porque também era desnecessário. Só ela iria ler; só a ela interessaria a mensagem.
Deixou a xícara suja e o bilhete esculhambado entre as migalhas de pão. Saiu sem bater a porta, para que ela não acordasse, e ganhou a rua e o mundo. Se sentiu mais livre que pipa avoada.
Quando ela acordou e foi fazer o desjejum, percebeu o recado somente ao pegar o pão. Achou estranho. Eram apenas duas frases em letras grandes: NÃO TE AMO MAIS. FUI. Como não houvesse destinatário nem assinatura, imaginou que a inscrição já tivesse vindo da padaria, onde comprara o pão na noite anterior, ao sair do trabalho. Só foi atinar para que o TE era para si e o autor era o companheiro, ao ver que ele levara a mala preta e várias peças de roupa do armário. Canalha, não teve nem a elegância de lhe dizer, pensou furiosa! Não iria chorar por um traste daquele. Bem que tinha certa paixão pelo tipo, mas não era de sair debulhando lágrimas por alguém que a tratara deste modo. Que vá para o inferno, o diabo que o carregue. Ou uma vagabunda qualquer, naturalmente! Deve ter ido atrás de outra idiota, que lhe prometera mundos e fundos.
Ela se arrumou, como sempre, para ir ao trabalho no centro da cidade. Somente Elizete, sua amiga e confidente, saberia desta armadilha em que caíra. Também pudera. Encontrou o outro num samba na Gamboa, achou que fosse o príncipe encantado, só porque sabia cantar as canções de Paulinho da Viola de cabo a rabo. Quando o ouviu se esgoelar dizendo que havia sido um rio que lhe passara pela vida, achou que a Portela estivesse entrando na avenida e abriu seu coração para ele. Tal uma passista desavisada das imperfeições da passarela.
O que certo tipo de homem mais gosta é achar uma mulher que saiba lavar e cozinhar, ainda bem à moda antiga. Ela não era bem deste tipo, porém tinha seu apartamento montado em Del Castilho, a vida financeira equilibrada, bom emprego numa repartição pública do estado e o gosto das rodas de samba, dos carnavais e dos passeios frequentes. É dela que ele precisava, para encostar sua malandragem nem tão carioca assim, pois que viera do interior de Minas Gerais, para tentar a vida no Rio de Janeiro.
Assim que começaram a relação, ela gostava de apresentá-lo como noivo – ele com aquela cara lavada na sem-vergonhice, de não se deixar intimidar pelos olhares de desaprovação das amigas mais chegadas. Como noivar com um tipinho deste, pensavam as amigas. Ela fingia não entender tais olhares e tocava o barco adiante, pensando que, um dia, elas se renderiam à sinceridade dele.
No entanto, ele se aboletou com todas as honras na vida dela e servia-lhe de companhia por vários lugares onde o pandeiro batesse, onde houvesse cerveja gelada, onde pudesse beliscar tira-gosto, sem nunca se preocupar em meter a mão no bolso para pagar a conta. Ela o havia transformado quase num potentado árabe. Só lhe faltava o harém!
E chegou o tipo à coragem – se é que tal gesto seja qualquer tipo de coragem – de lhe dizer, via sacola de pão, que não gostava mais dela. É que, já há algum tempo, sua vida não era o alvoroço dos primeiros tempos. Já lhe era cobrado ver o jogo em casa, com cervejinha gelada e petiscos da padaria comprados cedo e requentados no micro-ondas. Isto já lhe andava a dar comichões por dentro. Começou a se sentir cão de guarda de madame. E coleira ele não admitia em nenhuma hipótese.
E, por isso, e por mais outras tantas coisas que se dispensam enumerar, pois que nenhuma alma feminina seria capaz de entender, é que tomou seu rumo, a mala preta arrastada calçada afora, sem deixar rastros. Caiu no mundo, caiu na vida.
Como, nem sempre, as histórias modernas terminam em happy end, esta também teve final quase trágico.
Certa madrugada, saindo ela de mais um roda de samba, acompanhada de novo parceiro, dá de cara com o tipo, bêbado, a roupa em desalinho, barba por fazer, consumindo, num último trago da garrafa, a desesperança de um vida sem solução. Mal ela o reconheceu, ajeitou o cabelo farto, deu o braço ao parceiro e lhe disse:
- Querido, cuidado com esse bêbado aí, que ele pode esbarrar em nós.

Jean Béraud (1849-1935), O café Absinto, 1909 - Museu Carnavalet (comjeitodearte.blogspot.com).

12 de dezembro de 2014

DEUS, NO CÉU; DOUTOR ULISSES, NA TERRA!


Lá pelos fins dos anos cinquenta, em Visconde de Rio Branco, Minas Gerais, o carro de transporte funerário era, na verdade, a carroça de burro do Ventura.

Ventura era um mulato alto, magro, cara de poucos amigos e beberrão. Seu café da manhã começava com uma lapada de cana caprichada. E o dia seguia entre doses e carretos. Quando não havia defunto, ele transportava qualquer tipo de carga, desde esterco de bosta de boi, até pequenas mudanças. Fazia o frete mais barato da cidade.

Minha amiga Cleia Miranda, que me contou esse causo, disse que, naquele tempo, o caixão das almas menos afortunadas consistia numa tábua, sobre a qual se colocava o corpo do morto, com uma armação de ripas cobertas por um tecido roxo tão fino, mas tão fino, que era possível identificar o defunto em seu interior.

- Ah, coitado! Lá vai seu Claudionor!

E lá ia o finado, mãos postas sobre o peito imóvel, a se balançar ao ritmo das irregularidades dos paralelepípedos.

Por essa época, doutor Ulisses era o diretor do hospital. Médico conceituado, era tido por todos como a palavra definitiva sobre a vida dos rio-branquenses. Era como se ninguém lá morresse sem a sua permissão. E, para Ventura, era Deus no céu e o Doutor Ulisses na terra.

Certo dia, Ventura passa pelo médico num dos corredores do hospital e recebe a incumbência de mais um frete.

- Ventura, mais um óbito! O paciente do quarto 106 faleceu. Vá lá pegar o corpo.

A cabeça já movida a algumas doses da mardita, Ventura se engana e entra no quarto errado. Periclitando na corda bamba da vida, já há dias sem comer seu franguinho com quiabo, seu Juquinha, morador do Barreiro, se espanta com a entrada do papa-defunto em seu quarto e tem uma súbita melhora no quadro, só pelo apavoramento com aquela aparição indesejada.

- Que é que ocê tá fazeno aqui, Ventura?

- Vim pegar ocê. Doutor Ulisses disse que é causo de morte.

- Que morte, Ventura? Não tá veno eu aqui vivinho da silva, falano com ocê?

- Ocê tá morto, Juquinha! Quer saber mais que o doutor Ulisses?!

E, não fosse a intervenção da enfermeira-chefe Clotilde, alertada pela discussão entre o papa-defunto e o quase defunto, Juquinha seria rebocado por Ventura, para mais um carreto funéreo. Porque palavra de doutor Ulisses não se discutia. Era Deus no céu; e doutor Ulisses, na terra!


Imagem em notícias.uol.com.br.

9 de dezembro de 2014

CONVERSA DE HOMEM


Jane e eu temos vários amigos gays, de ambos os sexos, se é que me entendem. Pois há algum tempo estávamos na casa de um desses amigos(as), em Miracema, para uma visita e lá estava também um outro amigo comum. Eu e ele – vou-me permitir omitir o nome de todos – ficamos conversando na copa, tomando cerveja, enquanto as que nasceram femininas estavam no quarto vendo o derradeiro capítulo da novela das nove.

Então ele, que de discreto nunca teve nada, pois sempre foi um gay do tipo assumidíssimo, me disse que já havia uns quinze anos que não fazia mais nenhuma das loucuras que se permitira quando mais jovem, dentre elas, inclusive, o consumo de drogas. Com sua voz de contralto, bem de acordo com seu porte físico franzino, cujas pernas se enroscavam uma na outra, me explicou que agora estava todo devotado à religião, permitindo-se apenas beber cerveja moderadamente. Hoje já nem mais álcool consome.

Mostrou-me, então, como se dirigia ao Cristo crucificado na igreja matriz da cidade:

- Jesus, eu te amo muito, e não tenho culpa de o Senhor ter me feito assim uma borboletinha.

Soltei uma sonora gargalhada com a sua sinceridade ao dizer isso, rodando os olhos para o teto, como se tivesse falando naquele instante com o Crucificado.

Minha gargalhada chamou a atenção da Jane, que saiu do quarto e veio saber que tipo de conversa estávamos entabulando. Ele, do alto de sua segurança, respondeu a ela:

- Não se meta, Jane! Isso aqui é conversa de homem!


Imagem em mundodacerveja.com.br.



5 de dezembro de 2014

VIAGENS NA MINHA TERRA (CORDEL DE TURISMO LOW COST)


      Fui andando por aí
      De tudo que é transporte,
      Pra conhecer nossa terra,
      Sem que com o tempo me importe,
      Apenas pra descobrir
      Lugares de sul a norte.
Entretanto tal viagem,
Que não pude planejar,
Revelou algumas coisas
Difíceis de acreditar:
Quase tudo era o contrário
Em relação ao lugar.
Em Bom Jesus dos Perdões,
A vingança é deletéria;
Já lá em Três Corações
Troquei amor por pilhéria;
Em Dourados, Mato Grosso,
Vivi em triste miséria.
E, no outro Mato Grosso,
A terra está devastada;
Em Santo Antônio da Platina,
De prata não havia nada,
E, em Águas de São Pedro,
Sentia sede danada.
Não sei o que fui fazer
Em São João Nepomuceno.
Na Serra do Rola Moça,
Só via velha descendo.
No Paraná, Porto Rico,
Todo mundo está devendo.
No Raso da Catarina,
A solidão é profunda,
E quem sobe Vargem Alta
No lamaceiro se afunda,
E quem vai a Vai-volta
Chega de ré, sai de bunda.
Em Volta Fria, esquenta;
Em Caldas Novas, esfria;
Em Brumadinho, porém,
É sol por todo o dia.
Já em Dores do Indaiá,
O povo esbanja alegria.
Uma neblina escura
Encobria Montes Claros.
Em Curralinho, os bois
São animais muito raros.
Em São José do Hortêncio
Os hortifrútis são caros.
Em Lajeado há lama;
Há malquerença em Querência;
E desatinos sem fim
Nas ruas de Paciência.
Em Perdões, Minas Gerais,
Não encontrei indulgência.
Retornei a Mangue Seco
E deu enchente por lá.
Afogados da Ingazeira
Em tal secura está.
Que o povo vai beber água
No lago Paranoá.
Santana do Livramento
Prendeu um monte de gente;
Já de Espera Feliz,
Fui saindo descontente,
Enquanto em Frei Inocêncio
Prenderam um padre imprudente.
      Até em Baixo Guandu
      As coisas estão por cima.
      Em Catas Altas, por baixo.
      Contrariando a rima,
      Direi: apague esses versos,
      Embora queira que imprima.


Santuário do Caraça, em Catas Altas-MG (foto do autor)