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11 de abril de 2017

ADEGA PÉROLA

(Para Roberto Assis, primo.)
Meu primo Bedu (Roberto Assis) e eu, lá pelo início dos anos 70, resolvemos ver o show que Rita Lee faria no Teatro Tereza Rachel (hoje Net Rio), num sábado de tempo agradável. Por aquela altura, éramos solteiros e abandonados.
O teatro fica na sobreloja de um shopping na Rua Siqueira Campos. Ao chegar lá, para a compra dos ingressos, encontramos uma verdadeira muvuca, que não nos permitia saber onde começava ou terminava a fila. Gal Costa desfilava sua vasta cabeleira, seu largo sorriso e suas saias rodadas no meio do povaréu.
Entramos naquilo que seria uma fila. Depois de certo tempo, combinei com o Bedu que iria dar uma volta pelas imediações, para conhecer, e depois eu ficaria na fila, para que ele também saísse na prospecção da área. Desci as escadas e saí pela entrada principal, na Siqueira Campos. Do lado oposto da rua, me chamou a atenção o movimento de pessoas num bar. Li o letreiro – Adega Pérola – e resolvi fazer uma incursão de reconhecimento. Já na entrada, fiquei maravilhado com o balcão de bons metros de comprimento, todo envidraçado e repleto de um número impensável de variados tira-gostos.
As pessoas sentavam-se em barris de vinho, em que também depositavam seus copos e os pratos com petiscos, à esquerda de quem entrava no estabelecimento. Ao fundo havia umas poucas mesas, todas já ocupadas. Da parede, pendia um aviso proibindo tocar instrumentos e fazer cantoria.
Voltei imediatamente ao furdunço da fila do teatro e disse para o Bedu abandonar a missão, porque outro valor mais alto se alevantava lá fora, a exigir nossa presença.
- Você precisa conhecer a tal Adega Pérola aqui em frente.
Descemos as escadas e, em menos de cinco minuto, já estávamos com o umbigo encostado ao balcão, com uma caneca de vinho nacional de barrica – por essa época bebíamos o que se apresentasse plausível aos nossos parcos poderes econômicos – e atrapalhados na escolha de um dos muitos tira-gostos para acompanhar.
A partir de então voltei à Adega Pérola muitas vezes. Saía de Icaraí, normalmente acompanhado de amigos – o Bedu mesmo foi em várias ocasiões comigo – e, posteriormente, da Jane, para passar uma noite de delícias gastronômicas populares do cardápio lusitano e brasileiro, regados ao tal vinho ou a chope, a depender das condições climáticas.
Assim que nos nasceu o primeiro filho, a vida mudou, como é comum. E fiquei anos sem lá voltar. Até que há cerca de oito anos, ao levar minha filha e a Jane a Copacabana, nas imediações do local, decidi, enquanto as esperava, tornar ao bar. Lá encontrei o último proprietário remanescente daqueles tempos, em que religiosamente a polícia fazia uma vistoria de olhos ditatoriais sobre os presentes.
O ambiente tinha passado por uma reforma que inverteu a posição da prateleira e do balcão. Agora eles ficam à esquerda, e as mesinhas de seis bancos fixos ficam à direita. Falei para ele sobre minha história com a casa, os bons momentos ali passados. Seus olhos brilharam, e ele abandonou a caixa registradora e veio sentar-se comigo. Disse da perda dos irmãos que eram seus sócios no empreendimento. Contou que dois antigos fregueses, na iminência do fechamento da adega, entraram na sociedade, injetando capital e propiciando a reforma que eu estava vendo. E reclamou que o Chico Buarque, que sempre ia lá para tomar sua cachacinha, não mais aparecia.
Jane chegou daí a pouco, e ele ficou tão feliz que a presenteou com uma embalagem de chocolate. Algum tempo depois, tivemos a notícia de sua morte. E temi pelo destino da casa.
Neste último sábado retornamos a ela, agora com meu cunhado Jorge e sua mulher. Ele que várias vezes fora conosco nos áureos tempos em que podíamos sair de Niterói e voltar tarde da noite, de ônibus e barca, sem o mínimo problema de segurança. Chegamos de táxi, vindos do Teatro Casa Grande, onde vimos Ubu Rei, e saímos de uber.
E o balcão gigante continua lá, bonito como só, um convite irresistível a qualquer tipo de paladar, repleto dos mais diversos tira-gostos: azeitonas variadas, quase todos os frutos do mar ao molho vinagrete, diversos peixes à escabeche, favas, ovos de codorna, alho assado, muitos embutidos, boa quantidade de queijos, sardinhas fritas, bolinhos de bacalhau, frango a passarinho e outros tantos que a cozinha providencia para chegarem quentinhos à mesa, bem ao gosto do freguês.
Desta vez, foi tudo bem planejado, para que não perdêssemos nada. Saímos com a alma e a memória revigoradas por doses de boas lembranças e sabores que ultrapassam o tempo.

O show da Rita Lee – aquele dos anos setenta – vimos tempos depois, no campo do Botafogo, em General Severiano.

Adega Pérola (imagem em Acervo O Globo).

28 de novembro de 2015

NUNCA HOUVE UM FÍGADO DE GALINHA COMO O DO BAR PRACINHA!

(Para Jane, Maria Lúcia e Jorge Neiva.)


Às vezes sou assaltado por certas lembranças gustativas – talvez uma das mais constantes em minha vida de glutão -, assim do nada. Sem mais nem menos, elas aparecem. Até já postei textos aqui sobre isso. Estou fazendo alguma coisa e pum! lá vem a memória de alguma coisa gostosa que experimentei durante minha vida.
É claro que isto deve ser comum a todos os seres humanos, desumanos e extraterrenos. Comer é um dos grandes prazeres que se tem na vida, e necessariamente deixa alguma coisa gravada em nós.
Estava há pouco num botequim aqui próximos de casa, onde fui bebemorar o campeonato do Glorioso (Maitê, ainda estou esperando!), com a alternância entre um chope escuro/um chope claro (Só faltou a Estrela Solitária.), acolitados por moelas, e me veio à memória o fígado galinha que comia no Bar Pracinha de Miracema.
O Bar Pracinha era um grande salão na Rua Direita, cujo vão era sustentado por colunas de ferro, um balcão de atendimento à direita de quem entrava por uma de suas três ou quatro portas (Ele não existe mais.) e várias mesas e cadeiras em toda a extensão à esquerda.
A primeira vez que lá fui, há bons anos, foi a convite do meu sogro, o saudoso seu Beethoven, que me disse da qualidade daquele fígado.
Aqui é preciso fazer uma digressão de caráter gourmand. Fígado de galinha é uma iguaria não muito apreciada pelo cidadão cosmopolita e urbano de cidade grande. O pessoal do interior como eu é muito chegado a certas guloseimas para as quais o homem da cidade torce o nariz, como se fosse coisa de segunda ou terceira categoria. Fígado, moela, rim, língua – e por aí vai – estão nesta categoria.
Pois muito bem! Convidado por ele, não me furtei a experimentar o tal fígado.
Quando lá chegamos, o bar já estava todo tomado por clientes. Era um sábado à tardinha. Sobrou-nos, então, a posição mais apropriada aos bares: encostar o umbigo ao balcão e degustar o que possa sair lá de dentro da cozinha. Pedimos uma cerveja (Na época, não havia esta sofisticação que hoje há, e meu sogro também foi habituado a só beber uma marca de cerveja.) e uma porção de fígado.
Posso garantir aos amigos leitores que me honram com sua atenção que os galináceos não morreram em vão para o bar e seu cozinheiro. Não faço a mínima ideia de como se preparou aquele fígado. Na verdade, ele não vinha com nenhuma atração visual maior, que não sua integridade esplendorosa, um tanto vítrea ao olhar, a maciez de que é dotado e um paladar inigualável. Só acrescentei algumas gotas de pimenta, como é de meu feitio.
Tirante o fígado de galinha que minha mãe pescava na panela onde fazia o restante da penosa (Até digo isto para não parecer um filho ingrato.), nenhum outro se comparou em toda a minha vida àquele fígado feito pelo cozinheiro do Bar Pracinha.
Alguns anos depois, despareceu o bar, dando lugar a outro empreendimento comercial sem o charme e o apelo do botequim, e nunca jamais, em tempo algum, pude provar outro semelhante.
Por isso é que, ao escolher um tira-gosto hoje no botequim aqui ao lado, para acompanhar a homenagem etílica ao meu Glorioso, resolvi ficar na moela de galinha acebolada.
Não queria magoar a memória daquele fígado, nem do prazer que tinha em ir ao bar com meu saudoso sogro, Beethoven Neiva, flamenguista dos mais enjoados que conheci. Aliás não conheço flamenguista que não seja enjoado!
Salve o Botafogo! Viva Maitê Proença! Saudades do seu Beethoven!

Imagem em youtube.com.

18 de julho de 2015

CHEIRO DE MOLEQUE


Tirante o cheiro normal do moleque que não gosta de banho e vive jogando bola só de calção, lá no meu interiorzão todos os moleques tinham três cheiros característicos, se não me falha a memória olfativa: mexerica, jenipapo e jaca. Todas elas são frutas de odor pronunciado e aderente.

Se não tivesse um cheiro, tinha o outro, quando não os três juntos, o que, então, era praticamente insuportável para os mais velhos.

Para mim, porém, não fazia a mínima diferença: quando fiquei mais velho já não morava lá. Lá eu só fui menino. E, quando adolesci, cacei rumo na vida e tentei usar Vitesse e Lancaster, perfumes que todo jovem quebrado usava. Assim, lá, eu também era um dos portadores de um daqueles cheiros.

Aqui na cidade grande as crianças recendem outras fragrâncias.

Quando a van escolar que trazia meus filhos de volta à casa, no final da tarde, abria a porta, liberava um cheiro de frango molhado. O odor era terrível! Tanto que milha filha, ainda pequena, pediu encarecidamente que não viesse mais naquela horrível câmara de tortura. Ela mesma não suportava.

Pois não é que hoje comprei numa quitanda de luxo perto de casa, dentre outras frutas, um pedaço de jaca!

Jaca, que naturalmente Proust não devia conhecer (imagem em baixaki.com.br).

Na hora em que escolhia a porção adequada a consumo único – minha mulher disse que não iria querer –, ainda troquei ideias com um casal do outro lado da bancada. A esposa do freguês, inclusive, era especialista em jaca, pois ponderou, com dois pedaços não mão, que um era de jaca pau e o outro, de jaca manteiga.

Nunca tive preconceito contra jaca. Pau ou manteiga, eu iria comê-la de qualquer jeito, pois, se há um método infalível de se voltar no tempo – e Marcel Proust está aí para não me deixar mentir –, este passa pelos sentidos do corpo. E o cheiro daquela jaca esquartejada da quitanda me incentivou a isso.

Escolhi o meu pacotinho de jaca cortada, que comportava cerca de oito favos, trouxe-o para casa e comi com a mão, isto é, sem uso de talher, que é a única forma civilizada de se comer jaca. E fiquei com o cheiro impregnado em minhas mãos até agora, momento em que dedilho estas bem traçadas.

Então voltei à infância em que ia para os quintais e os pomares de Carabuçu comer frutas no pé.

Nos quintais da minha avó Maína e do tio Alcides Almeida, eram as laranjas e mexericas que faziam a festa: lima, baía, seleta, coroa de rei, serra d’água, lima-da-pérsia. Na serra, onde moravam meus tios Herson e Alda e meus nove primos, eram abundantes a manga, a jaca, a graviola, o biribá e diversos tipos de laranja. Mais acima, já no topo, casa dos tios Aldany e Neusa e mais quatro primos, eram as bananas: prata, nanica, ouro, maçã. O jenipapo, a gabiroba, o maracujá e a goiaba, comia-os na fazenda dos tios Aurélio e Toninha, acompanhado dos primos. E vinham, do quintal do tio Tatão, cajás e jabuticabas. A cana era apanhada dos caminhões que a transportavam para a usina de açúcar próxima ou tirada dos canaviais à beira dos caminhos. No pequeno quintal da minha casa, meu pai plantou um pé de jamelão, que logo, logo, começou a produzir, contra todo o meu medo de que aquela árvore fosse demorar a crescer. O jamelão deixava a boca, os dentes, as mãos e as roupas com uma nódoa roxa difícil de sair.

E, agora, estou eu aqui a reavivar minha memória proustianamente, dezenas de anos depois, por um simples cheiro de jaca manteiga. Ou jaca pau, sei lá! O que vier eu traço!

Aliás, já tracei, e estava muito boa!


4 de março de 2015

ÀS VEZES, DÁ GOSTO VIVER!

Dia desses, andando pela praça de Miracema, vi uma carrocinha de pipoca adormecendo pela manhã, abandonada.

Naturalmente deve ter tido muito trabalho na noite anterior e teria outro tanto mais tarde. Porém, naquele instante, ela estava melancolicamente encostada a uma árvore, com corrente de proteção fechada a cadeado. Até mesmo em Miracema, não se pode deixar um bem assim dando sopa.

E, ainda que ela não exalasse aquele típico cheiro de pipoca quentinha, minha memória tratou logo de reproduzi-lo e, num passe de mágica, voltei à infância e às coisas que me davam prazer.

De repente, descobri, como num filme projetado aceleradamente, que, durante toda a nossa vida, temos esses dados gustativos a nos marcar de uma forma indelével.

Por vezes é mais fácil lembrar-se de um prazer do paladar do que de outro sentido. A visão, tenho a impressão, é um pouco mais efêmera que o paladar. O olfato, ainda mais que esses dois; e deve estar ao par com a audição. E o tato, coitado, praticamente não tem memória.

E consegui construir um catálogo rápido, na memória, durante a travessia da praça, das coisas que me marcaram pela boca, desde a infância na vilazinha natal.

Então comecei pela mironga da dona Mocinha, da padaria do seu Chico Furtado, já referida por mim na crônica Vou comprar uma mironga na padaria do Chico Furtado. E emendei com o pé de moleque de açúcar batido que minha mãe fazia, para reforçar o faturamento da pequena venda de meu pai. Em seguida, veio-me certo bife acebolado com molho ferrugem, que minha tia Alda fez numa tarde, para lancharmos na Vala, antes de voltar a Carabuçu. Eu e Zé Fábio, filho dela. É só me concentrar um pouquinho, para sentir novamente aquele sabor.

E um prato das artes de minha outra tia, a Toninha, hoje conhecido como bolo de batata com carne moída, mas que, na época, ela chamou de cuscuz – não sei por quê. Era outra delícia, que sempre pedíamos repetir.

Um tempo depois, da dureza do primeiro ano ginasial em regime de internato, no Colégio Bittencourt, em Campos, ficou o ajantarado de domingo, refeição com certo gosto de pompa, oferecida pela escola como a única do dia. Havia um arroz de forno inesquecível. E nem devia ser tão bom assim. Afinal, era comida de escola! Mas vai explicar isso para o apetite de um menino de treze anos, com a voracidade dos nascidos logo após a Segunda Guerra.

Por essa época, também, houve o robalo recheado preparado na casa do primo Edalmo, que morava em Campos, em comemoração ao batizado de seu filho Carlos Augusto. Jamais comi um peixe assado, recheado, como aquele.

Já um pouco mais galalau, de volta a Bom Jesus, vez em quando filava a sopa pedaçuda que tia Colola fazia para o jantar, na época de frio. Era tão saborosa quanto quente, e tínhamos tanta pressa de ir para o curso noturno, que eu e Zé Fábio colocávamos duas pedras de gelo no meio do prato. Tal técnica garantia não chegarmos atrasados ao Colégio Coronel Antônio Honório.

Já morando em Niterói, numa viagem a Minas, paramos em Sete Lagoas para almoçar em restaurante localizado à beira de um lago – era 1974. Após feijão tropeiro, lombo e carré de porco, torresmo, linguiça assada, couve à mineira, tutu, arroz molhadinho, fomos até à cozinha dar um abraço na cozinheira, que ficou toda vaidosa por ter agradado aqueles “cariocas” com sua comida tradicional.

Já casado, na volta da viagem de lua de mel meio alternativa, pelos países do Cone Sul – denominação que ainda não existia –, em 1976, depois de trinta dias sem a culinária brasileira, adiamos a viagem de volta em Foz do Iguaçu só para comer arroz com feijão. E foi uma experiência restauradora das nossas raízes. Como o feijão nos fizera falta!


Em 2003, numa viagem com o casal de amigos Rogério Fernandes e Laura Dutra, restou inesquecível o prazer do polvo grelhado com batatas ao murro, durante o jantar no Restaurante Adega do Morgadito, em Torres Vedras, Portugal. Convocamos o cozinheiro ao salão, para agradecer-lhe pelo prato.

Restaurante Adega do Morgadito (em onossoutroprazer.blogspot.com).

Há poucos anos, a quitanda metida a besta Hortifruti andou promovendo degustações harmonizadas de comidas típicas e vinhos de países produtores. E não me esqueço jamais do gosto maravilhoso do toucinho do céu – doce português de nome esquisito – com vinho do Porto. Até hoje, foi o doce mais saboroso que já comi.

Mais recentemente – e com certa frequência –, reúno-me com os amigos Rogério Barbosa e Eduardo Campos para degustar o maravilhoso bacalhau à lagareiro do Restaurante Alentejano, na Rua São José, no Centro do Rio de Janeiro.

E ainda há a cabritada à napolitana de minha irmã Elizabeth; a inusitada salada quente com batatas cozidas, tomate, ovo cozido, alface e molho refogado de cebola de minha mãe; o refogado de jiló com quiabo de minha sogra; o arroz com frutos do mar de minha mulher e a poderosa feijoada que eu mesmo faço, sem a mínima falsa modéstia.

O mal não é o que entra na boca do homem. É aquele maldito dente que dói só à noite e nos fins de semana.

Até a próxima.
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Publicada originalmente em Gritos&Bochichos.

10 de setembro de 2014

QUINTA-FEIRA EM ROMA

(Para Jane, Rosa e Rogério.)

Ando pelas ruas de Roma à procura de personagens e cenários de Roma de Felini, de 1972, magistral filme do não menos magistral diretor Federico Fellini.
Aqui cabe uma digressão sexagenária. Tenho como grandes do cinema os diretores italianos: além de Felinni, Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti e Vittorio de Sica. Todos os demais hão de me perdoar.
Mas, como dizia, procurava sobretudo certo largo da cidade, em frente a uma igreja de estilo romano, em que se comemorou com uma lauta macarronada o dia de San Genaro.
Claro que não achei. Nem a igreja de San Genaro, nem o Largo de San Genaro, nem aquele italiano gordo que levou a gigante panela de pasta para o deleite da pequena multidão aglomerada no enquadramento da câmara comandada por Giuseppe Rotunno. Seria impossível achá-los. Mas a cena se estabeleceu em minha memória de forma definitiva. Lembro-me, mesmo, de que saí da sessão no extinto Cinema Icaraí e fui direto para a Gruta di Capri, ainda hoje no mesmo endereço da Rua Miguel de Frias, saciar o desejo por um suculento espaguete.
Mas nem toda a procura se revelou vã.
Na quinta-feira (4/9) à noite, fomos até a margem do Rio Tibre, para comes e bebes. O local, que os romanos chamam de Lungotevere e tem por acréscimo a região onde está, lembra um pouco as margens do Sena, em Paris, onde, durante o verão as pessoas vão para comer, beber; divertir-se, enfim. Tínhamos a indicação de um amigo da Rosa, nossa parceira de viagem, com o Rogério.
O taxista que nos conduziu nos deixou além do rio, no Trastevere, pela ponte Garibaldi, no trecho conhecido como Lungotevere della Anguillara onde estavam armadas várias tendas de comidas, bebidas e badulaques em geral. Durante três meses por ano, naqueles menos frios, isto é uma espécie de diversão dos moradores da cidade.
Descemos pela escadaria ao lado da ponte, até a margem do rio, cujas águas não me pareceram totalmente limpas. Ali, porém, não encontramos nada de interessante, e sobrelevava no ar um cheiro enjoado de fritura de camarão vinda de uma das barracas. Para não passar de todo em branco nossa ida ao local, Jane comprou algumas lembrancinhas. Embora o local fosse agradável, e a temperatura da noite convidativa, retornamos pela ponte e seguimos pela Via Arenula, à procura de um bom lugar para comer. Até que vimos uma ruazinha estreita e simpática – Via de Santa Maria del Pianto –, em que avistamos pessoas sentadas a mesas de bares.
Passamos por uma espécie de tronqueira moderna, que impede a passagem de autos e motos, e, num pequeno largo encontramos alguns restaurantes, um deles, inclusive, com cerca de duas dezenas de crianças que pareciam comemorar o aniversário de uma delas. Curiosamente, ao passarmos, ouvimos um dos pequenos dizer “É tudo brasileiro!”, assim mesmo, na língua de Camões e Tom Zé.
Percebemos que esta é uma área de restaurantes judaicos, pois todos ofereciam comida kosher. Um, contudo, nos chamou a atenção pelo ambiente: o Beppe e i suoi formaggi, cujo nome faz uma evidente alusão ao filme Rocco e i suoi fratelli, famoso drama de 1960 de Luchino Visconti.
Depois de alguma troca de ideias, optamos pelo Beppe e qual não foi nossa agradável surpresa. Estávamos numa casa – como o nome indica – especializada em queijos. Ao abrir a porta, fomos atacados pelo sensacional cheiro dos queijos dispostos dentro de um comprido balcão de vidro. Se o odor sugeria, a visão convidava.
Tivemos sorte de, não tendo feito reservas, encontrar mesa vaga.
O serviço é gentil, atencioso, porém vagaroso, como aliás está assinalado em cada página do cardápio. A pressa ali não tem vez. E foi preciso que recalibrássemos nossas expectativas para aquilo que agora chamam slow food.
Jane e Rosa optaram pela mesma salada verde, com pequenos pedaços de tomates, queijos, nozes e croûtons. Rogério e eu nos deliciamos com uma tábua com oito queijos diversos, produzidos com leite de vaca, de cabra e de ovelha, cada um deles explicado, e colocados na ordem da degustação. Acompanhavam os queijos um pouco de geleia, uma espécie de gelatina de mel e condimentos secos espalhados no centro da tábua, que na verdade era uma folha de metal escuro, com caroços de romã, que deram um toque todo especial aos queijos. Para o toque de harmonia, um vinho branco Elena Walch Pinot Grigio, Alto Adige DOC, pois a noite não estava muito fresca. Ao deixarmos o local, sentado ao lado do balcão dos queijos, um italiano nos saudou com um Viva!, erguendo sua taça.
Saímos dali praticamente purificados. E, para completar o fascínio da experiência, após alguns instantes esperando um táxi que nos reconduzisse ao hotel, fomos surpreendidos por uma bela e jovem taxista italiana, a fazer sua última corrida da noite.
Não se gastou nenhum euro em vão!

Tábua de queijos do Beppe e i suoi formaggi (foto do autor).

13 de novembro de 2013

CACHAÇAS E SEUS SABORES

(Para o amigo lusitano Alfredo Moreirinhas, que anda tomando aguardente industrializada lá na Terrinha e achando bom.)
Vim do interior, onde aprendi a apreciar cachaça, apesar de toda a carga social negativa sobre ela. Mas conhecia pessoas que a tomavam e não se degradavam socialmente. Meu tio Aurélio, por exemplo.
Ele foi um dos meus mais queridos tios. Casado com a tia Toninha, irmã da minha mãe, era proprietário rural em Carabuçu e não passava sem sua cachacinha às refeições. Fora disso, nunca o vi beber. Nem cerveja.
Quando éramos pequenos - eu e seus dois filhos: Délbio e Zé Luiz -, ele nos permitia tomar pequeninos goles, em canequinhas de ágate, também ao almoço, para abrir o apetite. Hoje talvez isso fosse politicamente incorreto, imprudente, inapropriado. Ao entrarmos na adolescência, ele não o fez mais, com receio de que pudéssemos virar pinguços.
Passei, então, alguns bons anos sem colocar um só tiquinho de cachaça na boca, até que atingi a maioridade.
Sempre gostei da bichinha, que tomo com prazer e temperança, saboreando o gosto forte que ela deixa na boca. Meu paladar é afeito a sabores marcantes.
Aprendi, por exemplo, que cachaça boa não precisa queimar a garganta. Não desce escalavrando a traqueia. Não adormece as papilas gustativas; antes, as atiça, de modo a que se desfrute do tira-gosto apropriado logo a seguir. Acho imprudente tomar qualquer bebida alcoólica, sem algo a acompanhá-la, ainda que seja água mineral.
E já bebi cachaças maravilhosas por essa vida afora.
Uma delas atendia justamente pelo nome de Maravilhosa e me foi oferecida por meu ex-aluno Pascotto, de Miracema. Seu pai, proprietário da Fazenda Maravilha, era produtor de cachaça, e ele me presenteou com uma que fora embarrilada no ano de seu nascimento, havia vinte e poucos anos. Era propriamente um néctar de cana. Infelizmente, não é mais produzida.
Outra, descoberta ao acaso durante almoço comemorativo do aniversário da professora da minha filha, era tão boa, que não estranhei o preço de cada dose medida em dedal de costureira que tomei: à época, isso faz uns oito/dez anos, foi  R$13,90. É a cachaça Montanhesa Premium, produzida em Araguari, no Triângulo Mineiro.
Meu amigo gringo Kenneth trouxe do Rio Grande do Sul a 30 Luas, envelhecida por trinta meses em barril de carvalho. Cachaça soberba, desce macio, arredondada, sem esporear a garganta, como se esperaria de uma pinga gauchesca.
Nessa trilha do sul, encontrei outra gaúcha, de Santo Antônio da Patrulha, na Cachaçaria Tonel e Pinga, em Niterói: Moenda Nobre. Apresentada em bela garrafa de 500ml, essa cachaça também passa por barris e tem sabor marcante.
Ainda desta cachaçaria, adquiri a Menina do Rio Ouro, produzida em Sapucaia-RJ. Na cor âmbar, translúcida como só, ao primeiro gole, tive um insight: é bonita e cheirosa como a Camila Pitanga, uma verdadeira menina do Rio. Embora nunca tenha cheirado essa belíssima atriz, com a imaginação, é possível deduzir isso.
Outra, paulista de Bananal, é – ou foi – a Santa Inês. Soube que, por questões mercadológicas, teve de trocar seu nome, conquanto ainda possa ser encontrada em pesquisa na Internet. Da mesma região, em Cunha, trouxe em belíssima garrafa de cerâmica a Empório Renzi, acompanhada de certificado de procedência. Mas sem garantia do conteúdo, que foi detonado durante uma feijoada oferecida aos amigos.
Há coisa de trinta dias, apareceu o amigo bissexto Cássio, num domingo de manhã. Conversa vai, conversa vem, antes que eu lhe oferecesse um cafezinho – eram dez horas –, ele perguntou se eu tinha uma boa cachaça. Aqui em casa é o que não falta. Abri as garrafas da Volúpia e da Bocaina, que havia trazido de Minas, e ficamos na segunda, originária de Lavras-MG, por várias doses homeopáticas, com o papo rolando solto. A Volúpia, também uma excelente bebida, produzida em Alagoa Grande-PB, fica para outro dia.
Em Tiradentes, há alguns anos, durante o Festival de Cultura e Gastronomia, conheci a Vale Verde, de Betim-MG, também extraordinária, que foi eleita pela revista Playboy como a melhor cachaça do Brasil. Comprei lá duas garrafas, uma das quais presenteei à minha irmã Cristina.
Agora foi a vez de ela me retribuir o mimo e, por ocasião de nossa volta àquela cidade mineira, associou-se à nossa sobrinha Fernanda para me dar a Vitorina, que ainda não experimentei, mas já vem com a melhor das recomendações: a dona da Cachaçaria Confidências Mineiras confessou-lhe que é a de que mais gosta. Como a Volúpia, está com os dias contados. Vem aí a festa de Thanksgiving do meu amigo gringo e acabo levando uma delas para lá. Thanksgiving climatizado nos trópicos!

A bela garrafa da 30 Luas (em costibebidas.com.br).

6 de setembro de 2013

RETOCANDO O COLESTEROL


Estive em Tiradentes, neste último fim de semana, retocando meu colesterol.

Vou sempre lá com a Jane e amigos. Desta vez, em petit comité, com Rogério e Laura. Mas já fomos em bando de mais de vinte amigos. Nunca há erro. Nunca há deslizes ou equívocos, e cada vez é sempre inusitada.

Tiradentes deve ser o meu destino preferido de viagem.  Até mais que Paris, porque mais acessível.

Já disse alhures que devo ter uma alma colonial, inconfidente; mineira, enfim. Ou não há outra explicação para esta identidade tão grande. Mesmo para mim que não acredito em almas. Deste ou do outro mundo. Mas é que há uma sintonia fina, em HD, sei lá, com a cidade. E, reparem, não tenho o mínimo interesse em morar lá: aquelas pedras do calçamento destruiriam o que ainda sobra de sadio em meus joelhos, já tão propensos à artrose.

Mas vou lá para retocar meu colesterol. Que meu endocrinologista não me leia! Contudo continuo tomando a droga que ele prescreve e entro de sola - ou melhor, caio de boca - em torresmos, costelinhas, lombinhos, linguiças, tutus, feijões tropeiros, movidos a cerveja e pinga. Que ninguém é de ferro! E, à noite, há libações enológicas de muito bom gosto, dentro dos limites que a economia nos impõe. Porque, se pobres ou minguados de pecúnia, somos soberbos em bom gosto.

A vida sem colesterol deve ser muito sem graça. Desde que nasci, no interior do Rio de Janeiro – em Carabuçu, para ser mais preciso –, ando de braços com o colesterol. Lá somos – ou éramos, pelo menos – criados à base de carne de porco e seus embutidos magníficos, o chouriço e a linguiça no topo da lista. Ainda hoje, em Bom Jesus do Norte, onde mora, minha mãe mantém nacos de porco mergulhados em gordura. Nunca falta carne numa emergência.

Aí vem a ciência médica e nos exige exames disso e daquilo, vampirismo em sangue alheio, e olha lá a taxa de colesterol gritando contra os abusos de dezenas de anos e um sedentarismo confortável. A gente se assusta. Eu, sem querer afrontar demais o progresso da ciência, me resigno a cuidar das (mal)ditas taxas, a fim de não sofrer um entupimento nas vias sanguíneas e fechar o paletó antes do tempo.

Entretanto não abro mão dos prazeres que aprendi a cultivar desde a mais tenra idade, quando era testemunha da matança de porco empreendida por minha saudosa avó Maína ou por minha tia Alda, que ainda está entre nós e não me deixa mentir.

Devo confessar que não tinha pena do bichinho, pelo muito de delícia que ele nos proporcionava. Ainda hoje também não tenho. Sobretudo quando se vai a Minas Gerais, onde o porco é o rei da culinária.

E em Tiradentes, no Bar do Celso, por exemplo, local a que nunca deixamos de ir, todas as vezes que chegamos à cidade, entramos na orgia gastronômica tão mineira, tão brasileira e tão carregada no colesterol. Mas quem há de resistir, tendo essa minha história gourmand, esse pedigree caipira que come carne sem constrangimentos. Não porque não tenha pena do bichinho, mas porque o ser humano só come outro ser vivo, como a couve, por exemplo, tão esquecida nesses argumentos politicamente corretos.

Voltei com o colesterol lubrificado. E a alma mineira – se é que ela exista – retemperada. No alho, na cebola, na pimenta-do-reino e no alecrim.
 
Imagem em gastronomirian.blogspot.com.br.

(PS: Em Miracema, utilizando o modem da Vivo, é impossível conexão decente com a Internet. Por isso, esta postagem vai sem ilustração. Tão logo seja possível, ela aqui estará.
PS2: Incluí a imagem, como podem ver aí.) 

27 de maio de 2013

OS EFLÚVIOS DO VINHO


Às vezes me move o vinho. Não que me embriague, mas que me inebrie com seus eflúvios alcoólicos e me faça ver a vida com mais complacência. O vinho benfazejo, o vinho repartido – com a mulher, com os amigos – torna a vida mais branda, mais palatável.

Sempre fico esperando que a temperatura baixe, ou pelo menos amenize, ocasião própria a que se tome vinho.

Todos têm seus nós pelas costas, como dizia meu querido pai. Também tenho os meus, bem que pequenos e nem tantos assim. Um deles é a predileção quase religiosa pelo vinho tinto, tânico, potente. Mas bebo todos sem preconceito, porque, inclusive, não está na moda ter preconceitos de nenhuma espécie. Assim, segundo a ocasião, aceito os brancos, os rosados, os espumantes, os fortificados, os licorosos, os destilados de vinho.

Porém, dos tintos, começo por beber os portugueses, de minha preferência. E sigo com os italianos, os espanhóis, os franceses, os nacionais, os sul-americanos de modo geral. Mas prefiro aqueles que têm uma longa história por trás e, sobretudo, os que não sejam varietais. Prefiro os misturados, vinhos de corte, os produzidos por diversas uvas.

Até já estive pensando por que, diabos, gosto mais dos vinhos portugueses. É que sempre tive uma queda por nosso país irmão. Em princípio, pelo amor desesperado pela língua que nos legaram. Depois por toda a cultura de que somos continuadores.

Muitos hão de dizer que também os portugueses nos legaram alguns problemas. E que colonizador não deixou problemas? Entretanto, lembro-me de José Saramago, em entrevista a Jô Soares, dizendo não ser compreensível que, depois de tanto tempo, ainda não pudéssemos viver pelas próprias pernas e assumir a parcela que nos cabe em nossas próprias vicissitudes, ficando a repetir, a repisar a mesma e velha história da herança portuguesa.

Mas isto não vem ao caso agora. Estou falando de vinhos.

O romano já dizia que a verdade está no vinho – In vino veritas – e, de fato, não conheço bebida melhor para soltar a língua, para liberar qualquer tipo de timidez com as palavras como o vinho. É certo, todavia, que os romanos o usavam para arrancar dos prisioneiros o que queriam saber. E os empanturravam de vinho, a fim de que dessem com a língua nos dentes e revelassem bem guardados segredos militares de seus inimigos.

Os gregos antigos cultuavam o vinho através de Dioniso (o Baco, dos romanos) e se imaginavam em ligação com o deus, quando o calibre do álcool atingia o equilíbrio do corpo e a sensatez da razão. A palavra simpósio, por exemplo, que nos veio do grego, significa literalmente “beber junto, em companhia”. Era a festa para beber vinho, promovida pelo grego para seus amigos. Seu sentido primordial era mais gostoso do que o de hoje. Às vezes, há simpósios maçantes e insuportáveis!

Ambos, romanos e gregos, faziam assim das libações com vinho um momento de confraternização e, às vezes, de orgia (as bacanais e as dionisíacas), bem verdade. Hoje não chegamos a tanto. Contentamo-nos com juntar os amigos, as pessoas queridas, para esses momentos de descontração e fruição que só um bom vinho é capaz de proporcionar.

E tocamos a falar com pelos cotovelos, com alegria e prazer.

Evoé, Baco!
 
Ficheiro:William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) - The Youth of Bacchus (1884).jpg
William-Adolphe Bouguereau, O jovem Baco, 1884 (em pt.wikipedia.org).
 

28 de março de 2013

UMA CERVEJA PARA LEMBRAR

(Para meu tio João de Assis Mello.)
Quando vim ao Rio de Janeiro pela primeira vez, em janeiro de 1962, fiquei hospedado na casa de meu tio João, irmão de meu pai, que era sócio de uma farmácia na Rua da Passagem, em Botafogo. Sua moradia ocupava a parte de trás do imóvel, à qual se tinha acesso por um portão lateral.
Cheguei bem cedo. Pedro Nunes, amigo da família com quem viera, levou-me até lá e me deixou diante do portão, com a recomendação de que esperasse um pouco, antes de tocar a campainha.

O Rio de Janeiro era uma cidade amigável e pacata, capaz de aceitar um adolescente interiorano, com uma pequena mala, parado numa calçada àquela hora, sem que ninguém o molestasse.
Depois de uns dois dias de convivência, observei que meu tio não costumava beber água. Aliás, nos dias que passei em sua casa e se não me falha a memória, não o vi tomando um copo d’água sequer. E você, leitor incrédulo, há de me perguntar como então ele se hidratava. E eu lhes respondo: com cerveja. Sobretudo com cerveja preta, a de sua predileção.

Com frequência, durante minha estada, ele me pedia para ir até o bar mais próximo comprar “uma preta barriguda”. E eu voltava de lá com uma garrafa de Black Princess ou de Triumpho, que ele tomava com grande prazer. E não havia refeição que não fosse regada a cerveja.
E você, leitor mais que incrédulo, irá perguntar o que foi feito desse meu tio, já que deve saber que meu querido pai, seu irmão, faleceu em janeiro passado. Pois eu lhe digo que ainda está entre nós, já dobrados os noventa anos, lá com as mazelas próprias da idade, mas sem ter pagado preço exagerado por esse seu hábito que, até onde eu saiba, durou até pouco tempo atrás.

Por isso é que sempre tive em minha memória mais profunda a imagem de meu tio, sentado ao lado de seu copo e da garrafa do líquido que sempre amou.
Tenho comigo que tais cervejas deixaram de ser fabricadas durante algum tempo. A Black Princess, no entanto, voltou ao mercado através do Grupo Petrópolis, com nova embalagem e, tenho a impressão, com nova proposta, já que a concorrência hoje é bem maior que à época.

Comprei, então, no mercado duas garrafas: a escura Premium (tipo Lagger), a 4,8% de álcool, e a clara, puro malte, Gold (tipo Pilsen), a 4,7%. Não me lembro do preço que por elas paguei, porque vieram num pacote mais amplo.
Resolvi abrir a escura, tanto em homenagem a ele, como também por certa predileção por esse tipo de cerveja, sempre mais encorpada. Quem sabe este meu gosto não venha daí: ter visto meu tio João sempre a bebê-la?

Não sei se movido pelas lembranças ou por esse meu gosto, mas a cerveja escura Black Princess desceu gostosa, suave, sem maiores sustos ao paladar, acompanhando um nhoque que eu mesmo preparei. Depois, no sítio eletrônico da marca, pude observar que este tipo de harmonização está lá recomendado. Acertei, sem querer.
Estou para visitar meu tio. Com certeza, vou puxar por sua memória para esses guardados que tenho comigo.

Saúde, tio!
Imagem em pontobeer.com.br.


18 de fevereiro de 2013

SABORES DE ONTEM E DE HOJE

Estou aqui tentando pensar num assunto para um papo reto com você, leitor amigo, quando Jane, esta companheira de todas as horas, me traz um pote de jabuticabas geladinhas, colhidas ontem no quintal da casa de sua mãe em Miracema.

Não vou descrever o paladar, para que você não fique aguado, como dizemos lá, sempre que não se pode provar de algo delicioso. Não cometerei esta descortesia com você. Mas saiba que seja ela, talvez, a mais saborosa das jabuticabas que chupei na vida. E olhe que minha vida já desce desgovernada pelas corredeiras do rio, indo de encontro à cachoeira logo ali.
Quanto ao paladar, confesso, não sou pessoa saudosista. Aprendi há algum tempo que este sentido humano só está maduro aos vinte e cinco anos. Portanto tudo que provei até essa idade, pode ter sido sentido com os defeitos próprios da imaturidade gustativa.

Inclusive até comentei aqui sobre os sabores da infância, quando, num papo com meu saudoso pai, lhe dizia, por exemplo, que as mangas de hoje não têm mais o mesmo paladar das de outrora, quando eu era menino. Com a sabedoria que os pais acumulam pela vida, ele me disse que o paladar da manga não havia mudado, o que mudara era o paladar do menino.
E isto foi uma excelente dica para que eu me livrasse desse tipo de preconceito com as coisas da cidade grande, as novidades, sobretudo aquelas relativas a este ato tão comezinho e agradável, que é o comer.

Por isso é que, anteontem, estava eu na casa de minha mãe, em Bom Jesus do Norte, e rebatia o argumento do paladar do passado, relativamente à manga, dizendo que a mais saborosa que experimentei até hoje foi a manga Palmer, novidade que conheci há pouco mais de cinco anos.
Meu irmão e minha cunhada não acreditaram muito em mim e tentaram recuperar, por uma argumentação saudosista, o sabor da manga espada de nossas vidas. Mas lhes garanti que a da Palmer é superior. E descasquei uma, ainda não muito madura, das que levara para minha mãe, a fim de comprovar meu argumento. E, ainda que ela não estivesse no ponto ideal de consumo, eles puderam provar o gosto inigualável desta manga.

Outra novidade maravilhosa, descoberta também recente, é a atemoia, fruta da família da pinha (fruta-do-conde), produto do cruzamento da cherimoia, originária do Peru, com a pinha.
A atemoia tem paladar bem mais marcante que a pinha, muito mais polpa e sementes maiores, porém em número mais reduzido. Seu teor de doçura ultrapassa em muito a própria pinha. A cherimoia me é totalmente desconhecida.

Contudo outra novidade – e esta não entendo –, que me deixa politicamente grilado, é a laranja-baía importada dos Estados Unidos, que está tomando o lugar da nossa, nas gôndolas de supermercados e quitandas.
É uma laranja com a casca mais alaranjada, extremamente suculenta, sem caroço, como a nossa, e com o umbigo mais desenvolvido, em forma mesmo de uma pequenina laranja. O paladar é um pouco menos ácido que a nossa.

Confesso que tenho comprado desta, na falta da nacional, e não desgosto. No entanto o equilíbrio do sabor doce-azedo do produto brasileiro, que tende mais ao azedo, é mais instigante ao meu paladar, sempre disposto a viver perigosamente. 
Tenho adquirido esta laranja eminentemente nossa, porém importada dos EUA, mas o faço com certo pudor nacionalista (eu e esse meu antigo vezo universitário 68). Mas, para mim, é muito difícil passar por uma gôndola cheia delas e me fazer de indiferente. É a minha laranja favorita.

Agora, vou parar de chupar as jabuticabas – e encerrar este papo –. Elas têm uma péssima fama: dão prisão de ventre. Na verdade, isto nunca me aconteceu. Mas é bom prevenir. E, depois, guardo mais algumas para logo mais. Vou chupá-las pensando em você leitor, que desafortunadamente não está aqui para provar.

Jabuticaba no pé (foto do autor).