30 de maio de 2011

ESSA NOSSA RICA LÍNGUA I - ASSIM FALAVA CARABUÇU

Capela de Santo Antônio,
em Carabuçu (ferias.tur.br).
Toda terra tem seu jeito próprio de falar. Não seria diferente a minha.
Vivi nela até antes do aparecimento da televisão. Embora Carabuçu estivesse perdida lá nos cafundós do Norte do Estado do Rio de Janeiro, agora transformado em Noroeste, estávamos ligados ao mundo pelas ondas curtas, médias e longas do rádio. E digo isso não no sentido figurado. Podíamos ouvir emissoras de quase todos os quadrantes do mundo à noite. De dia, ficávamos limitados às rádios brasileiras.
Meus ouvidos de menino e adolescente são testemunhas disso. Ainda que não entendesse patavina do que ouvia, ficava curioso, girando o botão, para escutar aquela Babel que me encantava: rádios em língua francesa, alemã, inglesa, espanhola, russa. Havia mesmo uma rádio de Moscou que fazia transmissões em português do Brasil, na época da Guerra Fria, perfeitamente inteligíveis. E era contra-atacada pela rádio Voz da América.
Do Brasil, era fácil sintonizar emissoras da cidade do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Pernambuco, da Bahia, do Rio Grande do Sul, do Espírito Santo, de Minas Gerais, de Goiás.
Vejam que nem tão isolados estávamos assim.
Minha querida tia Alda, irmã de minha mãe, moradora da Serra da Cachoeira Alegre, aí sim um cafundó, era assinante de Seleções do Reader’s Digest. Meu saudoso tio Aurélio, morador da Fazenda do Jacó, era assinante assíduo de jornais da antiga Capital da República: O Jornal, Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, Diário de Notícias. Tudo isso passava antes pela minha casa. Eu mesmo era o incumbido de ir até o posto dos Correios, que ficava na casa da Laura, pegar a correspondência da parentela que morava fora da vila. E a vila também recebia semanalmente a visita de seu Osório, jornaleiro ambulante, morador da vizinha Apiacá/ES, que trazia sua carroça-banca abarrotada de revistas. Minha mãe sempre comprava O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand, da qual tinha uma invejável coleção.
Malgrado tudo isso, tínhamos certo jeito de falar parecido com o mineiro, carregando um pouco na pronúncia do /r/; não chiando o /s/ e o /z/ em finais de sílaba como o carioca, porém não o fazendo exatamente como o mineiro. Como o mineiro, aliás, usávamos bastante trem, uai, sô. O pessoal mais simples trocava sistematicamente o /l/ de encontros consonantais por /r/: franela, praneta, grória; assim como vocalizava o /lh/: fio por filho, mio por milho, ou famia por família. Mulher, por exemplo, se dizia muié; colher, cuié; tulha, tuia; barulho, baruio, e por aí afora.
A negação era sempre dupla, redundante: Não sei não, dito normalmente: Num sei não. A transformação de não em num se deve à posição inicial átona na melodia da frase.
Frequentemente também, na fala geral, o /s/ do plural pulava do substantivo para a preposição ou a palavra invariável anterior, em expressões como des costa, em lugar de de costas; ques perna!, por que pernas!
Os vocábulos proparoxítonos, que foram introduzidos na língua portuguesa pela via culta, a partir do século XVI, já que do latim ao português sistematicamente foram transformados em paroxítonos, também eram com frequência assim realizados: abobra por abóbora; de coque, por de cócoras; fósso, por fósforo; corgo, por córrego; estomo/estamo, por estômago; Aristote, por Aristóteles.
Não eram incomuns formas como preguntar, percisar, sastifeito, sastifação (com deslocamento do fonema), ou lindra, bonecra (com o acréscimo do /r/, fazendo encontro consonantal), entre os falantes mais simples. Bem como a supressão do /r/ e do /l/ finais das palavras: falá, lambê, finá, anzó (falar, lamber, final, anzol). Também se suprimia sistematicamente o /d/ da forma de gerúndio dos verbos: falano, lambeno, saíno (falando, lambendo, saindo).
O pronome você ocorria também nas formas ocê e , conforme a melodia da frase.
Na sintaxe, era comum expressar-se o plural uma única vez, sempre na primeira palavra da expressão: as menina bonita. E a expressão deixa eu ver (deixa-me ver, na língua formal) soava sempre chovê. Era comum, por exemplo, a uma pergunta como “Você sabe onde está o livro?”, vir como resposta: “Chovê!”.
Usavam-se as formas interrogativas cadê, quedê e quede, por exemplo, em frases: Cadê João? Quedê João?. Sabe-se que tais formas vieram de que é de (= onde está).
Mas era no vocabulário que estava a maior parte dos fatos interessantes. Vejam alguns casos.
Por acidente de percurso é que descobrir que mandioca era também chamada aipim. Na minha terra, sempre foi mandioca: mandioca mansa, a que comemos normalmente; mandioca brava (às vezes também chamada mandioca braba), a que se presta para fazer farinha. Um tipo de coco miúdo, que dava em pencas e era amarelo quando maduro, era chamado de coco catarro, pela consistência de sua saborosa polpa. Certo tipo de cogumelo que dava nos pastos: mijacão de cavalo. Cachaço era o porco macho não castrado; capado era o porco castrado para engorda. Potro se dizia pordo ou poldro.
Bola de gude para nós era baleba. Pipa era papagaio ou estrela, segundo a forma; e ninguém a empinava, mas sim a soltava (soltar ao vento). E lá tínhamos balango e balangar, por balanço e balançar, que também eram usados. Briguelo era boneco manipulado, fantoche. Carrossel de parque de diversões era maxambomba. Cobertor bom era coberta; já o mais simples, peleja. Peruca era lá cabeleira postiça. Toalha de banho era enxugador; assim como ferro de passar, engomador. Cata-vento sempre foi papa-vento. Comumente se dizia: cambaleão (camaleão), bassoura (vassoura), barrer (varrer), espumadeira (escumadeira). Lambreta era sandália de dedo; quedes, o tênis calçado, porta-seio, sutiã; guarda-sol o guarda-chuva em dias de sol quente; barguilha, braguilha.
Conjuntivite não existia, mas sim dor de olhos. Torcicolo era pescoço duro; e resfriado, constipação. Diarreia se dizia piriri ou caganeira; caso ela fosse severa com perda de sangue, dizíamos escandescência. Quem era acometido pelo mal de Parkinson estava com a doença de São Guido. Destroncado era o membro do corpo que saía do lugar; e escabufado e escalafobético uma pessoa ou coisa mal arranjadas. Gastura identificava certo mal-estar parecido com angústia, porém mais suave, ou também a sensação ruim provocada pelo barulho do atrito, por exemplo, de unhas raspando uma superfície lisa. Sentíamos também gastura nos dentes. As costas, comumente, eram chamadas de cacunda.
Misturado para nós era o mexido, prato que consiste na mistura de vários restos de comida. Fritada era como chamávamos a omelete; canjicão, a canjica doce; papa, o curau; pastelzinho de leite, rissole; biju, a massa do pastel frita sem recheio; solda (Que creio seja variação de açorda.) consiste em nacos de pão embebidos em café com leite adoçado; batida era vitamina, assim batida de abacate era vitamina de abacate. Por essa época ainda não havia chegado à vila a palavra sanduíche. Assim comíamos sempre pão com carne, pão com ovo, pão com mortadela (que quase sempre era pronunciada mortandela, assim como sombrancelha). Havia, nas padarias da vila, uma rosca grande, salgada, a que se dava o nome de rosca baroa, e um tipo de pudim de pão feito no tabuleiro chamávamos mironga.
Rio era o curso d’água maior, mais largo, como nomeado normalmente; menor era valão, ou corgo, ainda menor. Se fosse só um filete d’água, era valeta, que servia também para designar por onde corria dejetos. Cacimba era o poço de onde se colhia água para uso doméstico; e quartinho ou privada designavam banheiro. E o mau cheiro que de lá saía era catinga.
Caracaxento era áspero. Avexado era envergonhado. Criança esperta era ladina. E ninguém ria às escâncaras, mas pocava de rir, como ainda hoje se ouve por lá. Sair depressa era deitar o cabelo. Lá não havia o hábito de se dizer mentira, mas sim de pregar mentira. Havia uma forma engraçada, usada pelas pessoas mais simples, que significava “ainda hoje cedo”: dejaoje (Grafei assim porque nunca vi tal palavra registrada, mas que era assim pronunciada e formada basicamente com hoje.). Numa frase como “Vi João dejaoje” significava exatamente “Vi João ainda hoje cedo”.
Estas são algumas das características da linguagem corrente da vila de Carabuçu na época em que lá vivi e que minha memória me permitiu recuperar. É bem provável que algumas delas se mantenham, outras tenham desaparecido. Fica aqui este registro.

6 comentários:

  1. Excelente, somos do mesmo "país linguístico" e me lembrei aqui da tábua, talba para nossa língua regional. Muito bom, uma excelente aula.

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  2. Uma correção, não era coco catarro, mas coquim catarro.Hehehe...

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  3. Vejo que que também na minha Vitória da Conquista não era diferente, lá falávamos da bola de gude simplesmente gude e pipa de arraia. De passagem por Maceió, ouvi chamarem gude de ximbra. Não mudou muito, creio eu, afinal o clima, os modos de trabalho e as relações sociais determinam nossos falares: é isto que muitos puristas, com o intuito de diminuir nossa gente não percebem quando torcem o nariz ao ouvirem nossas várias maneiras de lidar com o idioma.

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  4. Saint-Claire,
    Sou de Niteroi, de mae campista-fidelense. Mas no Largo do Marron, onde vivi até os 10 anos, se falava, com poucas variaçoes, como em Carabuçu. Também passei minha infância comendo pao com carne e ouvindo as ondas curtas à noite.
    Um abraço,
    Eliana

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  5. Obrigado pela visita, Eliana BR. Obrigado também ao Paulo Laurindo e ao Zatonio. Na verdade seus depoimentos provam que somos mais unidos do que pensamos. E esta unidade linguística é invejável, dada a extensão do nosso território. Somos mais iguais que nossas questiúnculas particulares querem contrariamente provar.

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  6. Que bacana, eu sempre vou a carabuçu, inclusive amanhã estarei lá.

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