22 de maio de 2011

APELIDOS (DES)INTERESSANTES

Os apelidos que se aplicam às pessoas normalmente têm caráter depreciativo. Senão iríamos chamá-las por seus nomes próprios, ou onde ficaria nosso desejo irrefreável para menosprezar o próximo? Outros, no entanto, provêm da profissão, que também foi uma fonte para a criação de sobrenomes em diversas línguas, durante a Idade Média. Neste caso, por exemplo, Ferreira ilustra bem em português. Todos eles, no entanto, detêm sua carga de curiosidade e humor, ainda que de gosto duvidoso. Por esse motivo, resolvi relacionar alguns que conheci durante a vida, os quais, acho, podem divertir um pouco, apesar de muitos terem machucado seus donos. Mas o que se há de fazer contra essa força incontrolável que é a opinião pública, ou antes, a maledicência humana?

(Imagem em obrasileirinho.com.br)
Fincagulha – Aplicador de injeções de uma farmácia de Miracema. Mão leve e precisa, era procurado pelas pessoas por sua habilidade.
Galo Cego – Portador de um problema de derramamento no olho direito, de Carabuçu. Quando garoto, sentia que o apelido era muito dolorido, muito cruel para ele.

Zequinha Escabufado – Tinha as pernas mal ajambradas, como que tivessem levado uma forte pancada de um dos lados, na altura dos joelhos. Não obstante isso, era o melhor ponta direita do time do Soca-Terreiro, da fazenda do Jacó. Na vila, escabufado tinha o sentido de coisa mal arrumada, mal ajambrada.
Antônio Canela de Ferro – Num jogo de futebol, no terreirão de café da fazenda do Jacó, com uma furada, quebrou com a canela uma das traves do gol, feitas de bambu. O apelido foi aplicado logo após o lance.
Toniquinho Lava Bunda – Quando ainda menino, descobriram que Toniquinho, depois de fazer suas necessidades atrás de um moita no sítio em que morava, ia lavar a bunda com a água da cacimba que a família usava para beber. Levou um corretivo, mas o apelido o acompanhou até a morte, já em idade provecta.
Ciloca Pé de Rodo – Meio de campo do glorioso Liberdade Esporte Clube que jogava sem chuteiras, porque nenhuma delas entrava em seus pés meio arredondados. Ciloca já era o apelido de seu nome, Hercílio.  
(Em olharcomcalma.bogspot.com.)
Anoredino Pé de Chumbo – Este, com um chute forte, mandou a bola tão longe e sem direção, num jogo de várzea, que foi preciso atravessar o ribeirão a nado, para que a partida continuasse. Atribuíram o peso do chumbo ao seu pé poderoso.
Aqui Tá Alto, Aqui Tá Fundo – Colega de escola secundária em Bom Jesus do Norte (ES), que, num acidente, ficou com a perna esquerda atrofiada. Andava manquitolando. Um colega gozador lhe deu o apelido.

Mau Hálito Pimentel – Era baixinho. Por isso o colega espirituoso deu-lhe esse apelido, alegando que a bunda ficava muito próxima da boca, o que confundia as pessoas, achando que ele tivesse mau hálito. Embora baixinho, mas muito forte, o apelido não passou de duas semanas.
Antônio Cu de Burro – O apelido foi proveniente da frase, dita em tom lancinante, após um equívoco: ao tentar manter relações sexuais em noite escura, nos pastos de Carabuçu, com uma mulinha viciada, deflorou um burro, que fechou as pregas lá dele na estrovenga do Antônio. Então, gritou para o colega de folganças: "-É cu de burro, Quió!" Daí em diante, passou a ser assim chamado. O colega de aventuras, Quió (apelido de Belchior), que ficou segurando o pobre equídeo, incumbiu-se de espalhar o fato na vila. O apelido encurtava para De Burro, quando ele estava próximo a senhoras e senhoritas, em sinal de respeito.
Zé Pirinconto – Colega de escola primária que sempre dizia pirinconto. “Zé, já fez o dever?” E ele: “Pirinconto, não!” “Seu pai já colheu o milho?” “Pirinconto, não”. Então virou o Zé Pirinconto, mas ele odiava que assim o chamassem.
Mané Pindoba – Apelido extraído da função exercida: tirava pindoba para cobertura de casebres e barracas de festas de São João na vila. Depois apareceu o gerente do posto do antigo BANERJ da vila que tinha o mesmo apelido.
(Imagem em gartic.com.br.)
Jacy Vorta Égua – Jacy foi resolver suas necessidades sexuais com égua bem apessoada. Levou-a para o barranco, como de praxe, e se preparou todo. Quando já estava em ponto de bala, a tímida equina se retirou calmamente da beira do barranco. Ele, desesperado, começou a gritar, no sotaque do povo do interior: "Vorta, égua! Vorta, égua!" Na época, prometeu dar tiro em quem assim o chamasse. Depois sumiu da vila, para nunca mais.
Filhinho Carijó – Membro de uma grande família de descendência alemã, de sobrenome Schuab, adaptado de Schwab, recebeu o apelido em virtude das sardas que tinha, que lembravam a galinha carijó, toda cheia de pintas. Foi um dos beques mais ignorantes que já vi jogar. Com ele, ou passava a bola, ou o jogador. Os dois juntos, jamais! Ele mesmo dizia isso, às gargalhadas.
Valter Matinada – Fazendeiro em Carabuçu, tricolor doente, tinha a voz alguns decibéis acima da dos demais mortais. Falava e ria vários tons acima dos outros. E o mais interessante: não tinha problemas de audição. Por isso o apelido de Matinada, como o galo que acorda as pessoas de manhãzinha. Extremamente bem humorado, era comum ouvi-lo à distância dando suas gargalhadas contagiantes.
Zé Biquinho – Outro colega de escola primária de uma série mais atrasada que a minha. Era sempre mal humorado, embora ainda bem pequeno, e vivia de bico. Meu primo José Luís foi quem assim o chamou, mas deu um baita azar: ele é que ficou conhecido até hoje como Zé Biquinho.
Pinta Roxa – Apelido que fazia alusão a uma pinta escura na bochecha, logo abaixo do olho esquerdo do dono. Ele não se importava em ser chamado assim.
Malhado – Este apelido foi-lhe dado quando um vitiligo galopante tomou conta de sua pele acobreada. Rapidamente o Zé ficou todo manchado. Era motorista de caminhão e, anteriormente, atendia pelo apelido de Zé Galo, por causa do topete que tinha, quando mais novo.
Zé da Lata – Apelido derivado da profissão: era lanterneiro (funileiro, latoeiro, conforme a região), cuidava dos amassados dos carros em Bom Jesus do Itabapoana/RJ. Tanto ele, quanto seu irmão, o Luís Geladeira, quando falavam ao telefone, assim se identificavam: É o Zé da Lata! É o Luís Geladeira!
Luís Geladeira – Apelido derivado, também, da profissão: técnico em refrigeração de prestígio em Bom Jesus e irmão do Zé da Lata.
Zé do Rádio – Outro apelido derivado da profissão: eletrotécnico, consertador de rádio e televisão. Este, infelizmente, teve uma história trágica: sequestrou e matou um garoto, em Bom Jesus, foi condenado e, posteriormente, assassinado, em Rio Bonito, quando estava em regime semiaberto.
Paulo Couve – Colega de segundo grau em Bom Jesus que, certa noite, apareceu na escola com um fiapo de couve agarrado aos dentes. O mesmo que chamou o Pimentel de Mau Hálito criou o apelido para o Paulo.
Mariquinha Põe Tudo – Mulher pobre dos pastos de Areias que, para aumentar um pouco os caraminguás, facilitava a vida de uns e outros. Como também gostasse da função, no momento exato, sempre dizia para o cliente: "Põe tudo!"
Espera Que Eu Tou Chegando – Proprietário de um nariz avantajado, que riscava um triângulo acutângulo a partir da linha da cara. Alguns segundos antes de a sua pessoa adentrar os recintos, o nariz chegava.
Antõi nas Coxas – Este, coitado, era tão feio, que diziam ter sido feito nas coxas, às pressas, sem cuidados.

Um comentário:

  1. Menino, com uma memória destas, uma galeria de seres vivíssimos, a sabedoria esperta e o bom humor que o caracteriza, tens material para um épico e tanto. A história de Bom Jesus do Itabapoana, adjacências e quejandos tem em ti um narrador incomparável.

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