3 de maio de 2011

TRILHA SONORA PARA UM OCASO

A última frase que ela disse ao telefone, e de que me lembro bem, foi:
- Aí, Mané, vou te dar um perdido!
Depois, foi só procurá-la por todos os lugares, como no samba do Adoniran Barbosa: "Procurei no hospital, procurei da Central e no xadrez".
É claro que não achei. Ela queria sumir - não queria ser achada - e não simplesmente morrer na sarjeta, o corpo rebocado por um rabecão de numeração apagada, a não sugerir nem um palpite para o jogo do bicho, e identificada como ninguém no morgue, à espera do meu reconhecimento.
Se fosse só isso, podia ficar lá, até ser enterrada como indigente, em cova rasa no cemitério de Vila Rosali. Não estou nem aí!
Acontece que não foi bem esse o espírito da coisa. Ao dizer que ia dar o perdido, era porque estava disposta a entrar numas, o que eu não aceito de modo nenhum. Ninguém entra numas sem que eu entre junto. Entrar numas, como ela sempre diz, é fazer coisas em que eu não esteja. E, aí, malandro comigo não se cria. Nem mesmo quando é mulher. E gostosa como ela, a miserável!
Quer morrer, tudo bem! Morra! Agora, querer curtir com a minha cara e sair por aí me botando chifre, como quem planta avencas em canteiro de jardim, já é um pouco demais. Não nasci para isso. Isso não é a minha missão na vida. Qual? Não sei! Só sei que não é essa.
Homem costuma engolir alguns sapos, suportar compras de bolsas e sapatos, esperar fazer cabelo e unha no salão, achar graça naquele seu (dela) amigo gay metido a Priscila, a rainha do deserto. Mas as coisas também não são assim! Chega uma hora em que o bagulho desanda!
Para fingir que não estava nem aí, não liguei para suas amigas, não fui até o seu trabalho e continuei a frequentar o mesmo salão de sinuca de sempre na Lapa, a tomar meus tragos como sempre, fingindo que estava tudo nos conformes. Eu não podia era ficar pela bola sete. A caçapa não era pra mim. Tou fora!
Niterói, antigo garçom do bar, nem desconfiou que alguma coisa estivesse fora da ordem comigo, quando trouxe meu primeiro trago. Fora da ordem mundial, como canta Caetano. Sobretudo naquela noite! Mas me segurava. Fingia naturalidade. A mão tremia um pouco na hora da tacada, mas nada que umas doses a mais não justificassem.
Imagem em sorocaba.olx.com.br
Foi aí que ela apareceu na porta do bar com o cara, toda sorridente. Ele com aquela mãozona no ombro dela. Foi uma visão insuportável!
Já movido por alguns tragos do vermelho doce-amargo, passei a mão no fancho que estava encostado à parede e dei-lhe uma de prancha, no braço esquerdo. Certeiro e com força!
O alvoroço se fez logo, e Niterói, ajudado por outros garçons, me segurou e me levou para o fundo do salão, indagando se eu perdera o juízo. Não estava me reconhecendo e coisas assim.
Ela começou a gritar, tão logo seu acompanhante gemeu com o impacto do fancho. Disse palavrões que eu desconhecia. Ficou uma fera e partiu para cima de mim, chamando-me de canalha, de animal e de outras palavras de que não me lembro agora. E disse em alto e bom som, para que todo o bar ouvisse, que eu, seu antigo namorado, que nunca demonstrei maior interesse por sua vida, tinha acabado de quebrar o braço de seu irmão, que chegara naquele mesmo dia de São João Nepomuceno, para passar o aniversário com ela. Que eu era um cretino, filho de uma puta, e não a procurasse mais. Que eu podia ficar com a minha sinuca, a minha vidinha de merda, sem perspectivas.
Mulher é foda! Mete a gente no buraco e ainda joga terra por cima, no meio da multidão, como se fosse a coisa mais normal do mundo!
Pedi a Niterói para sair pela porta dos fundos, para que ninguém me visse. A conta ficaria no pendura para quando voltasse. Se é que eu voltaria!
A música de fundo, que rolava no som do bar, gemia Noel Rosa: “Nosso amor que eu não esqueço e que teve o seu começo numa festa de São João morre hoje sem foguete...”.
Puta que pariu!

2 comentários:

  1. Pois é, sob o poder da "marvada" fazemos qualquer besteira. Eu que o diga!

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  2. Se não me engano, este é o primeiro conto onde o mestre se coloca na pele de outra pessoa. E vestiu direitinho. Bela pegada, Saint-Clair.

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