18 de maio de 2012

EU ERA FELIZ E DESCONFIAVA

Ataulfo Alves, no seu samba famoso, diz que “era feliz e não sabia”, ao se reportar ao tempo de infância, já morando na cidade grande, no Rio de Janeiro, para onde viera e encontrara a consagração.

Ataulfo foi um dos nossos maiores sambistas, em sendo mineiro do interior. Construiu uma obra invejável, enfileirando sucessos, um atrás do outro, muitos deles cantados ainda por algumas gerações que lhe são posteriores.
Sou do tempo em que era possível ouvi-lo cantar no rádio e, posteriormente, vê-lo na televisão, com seu porte soberbo, sua elegância no trajar. E essa sua canção, Meus tempos de criança, ficou em nossa memória, por cristalizar no verso acima a constatação de que, na infância, a felicidade é, via de regra, o mote da vida, ainda que naquele momento não tenhamos a consciência disso.
Miraí, terra natal do compositor, a qual conheci há alguns anos e onde há um singelo museu em sua homenagem, é um tanto maior que minha vilazinha de Carabuçu, em que nasci, me criei e vivi até, pelo menos, meus dezessete/dezoito anos.
Minha infância, portanto, passei-a toda lá. E o mais distante que corri mundo, então, foi, aos oito anos, ir ver o mar pela primeira vez em Guaxindiba; aos treze anos, indo estudar em Campos dos Goytacazes (não concordo com esta grafia estapafúrdia) durante um ano; e, depois, aos quinze, vindo conhecer o Rio de Janeiro.
Todo esse tempo da vida foi de uma simplicidade interiorana, quase beirando à franciscana, se me permitem, por injunções caboclas, econômicas e sociais. Mas, em nenhum momento, tive a mínima sombra da tragédia ou do drama familiar ou pessoal a rondar minha existência. As agruras sempre foram suportáveis.

Talvez por isso, em primeiro lugar, nada houve que deixasse em minha memória manchas que empanassem o brilho da felicidade que os meninos do interior experimentavam, quando se vivia praticamente apartado da tecnologia, que hoje quase nos escraviza, e das disputas sociais, que nos transformam em concorrentes em tempo integral, em face de nosso semelhante.
Era um tempo mais brando, menos preocupado, quando as famílias até podiam ter mais filhos, sem que isso fosse um desequilíbrio das contas domésticas. Por essa época o ditado “Onde come um, comem dois; onde comem dois, comem três” era uma verdade indolor.
Toda a vila era praticamente o quintal de cada moleque. E, embora houvesse certas interdições – não ir ao valão, não roubar fruta no quintal alheio –, o restante me era franqueado por meus pais e por toda a comunidade. Todos se conheciam, e boa parte dos moradores eram parentes uns dos outros, de modo que formávamos uma espécie de grande família, já que, por exemplo, meus primos somavam seus outros primos e por aí afora.
No entanto, eu tinha lá a minha turma certa, aqueles com quem me relacionava com diária frequência e, às vezes, por várias horas.
Das brincadeiras em grupo, o pique – pique simples, pique esconde, pique bandeira, ou bandeirinha – e a siliprina (ou ciliprina, palavra que não encontrei no dicionário) brincávamos, sobretudo, nas noites de verão. Futebol, que dizíamos “brincar de bola/jogar bola”, também se dava com frequência no campo do Liberdade Esporte Clube – às escondidas –, nas ruas, na pracinha do Sabiá – quando ainda era de chão batido –, em algum pasto ou terreirão de café, em que me revelei um completo perna de pau.  Outro jogo muito apreciado era a peteca, jogada quase sempre em dois grupos antagônicos de dois a quatro meninos, que eu fazia com muita perícia. Às vezes, brincávamos de bandido e mocinho, com duas equipes fazendo os papéis de meliantes e homens da lei, copiando os faroestes vistos no cinema do clube.
Em dupla, os “jogos de botão pela calçada”, da mesma canção de Ataulfo, com campeonato organizado, tabela, mando de campo, disputas ferrenhas, compra e venda de craques de osso, de chifre, de baquelite, casca de coco, madrepérola, cerâmica, e até roubo de jogador pelo rival; o futebol de prego, num campinho de madeira em que os pregos eram os jogadores e uma moeda, a bola; o jogo de baleba (bola de gude), em que eu era um fracasso total; o jogo da baiana, feito com piões, também outro ponto fraco da minha infância, embora fosse exímio na execução de manobras individuais; o tira-e-bota, jogado com pedrinha, jogo unissex.
Havia também outra brincadeira em que se misturavam meninos e meninas: a brincadeira de roda, realizada normalmente nas noites frescas, oportunidade em que podíamos tocar em nossas colegas, o que, de imediato, desenvolvia uma paixão fulminante por algumas delas. Já fui apaixonado por várias, sem que elas nunca o soubessem.  Ó, Deus de misericórdia dos tímidos e atrapalhados!
Individualmente, nos dias ventosos, havia as pipas, que chamávamos estrela ou papagaio, conforme o desenho, as quais não conseguia, em hipótese nenhuma, manter no céu, porque era adepto ferrenho da tal lei da gravidade. E, em certas ocasiões, ir atrás do enxame de formigas tanajuras em revoada - a anunciar tempo seco -, que eram aprisionadas em vidros e em cujas bundas enfiávamos palitos, para transformá-las em miniventiladores vivos.
E brincávamos com as chuvas torrenciais de verão, nas ruas alagadas, quando fazíamos represas e soltávamos barquinhos de papel (A respeito, é interessante o poema de Guilherme de Almeida, Barcos de papel.), ou tomando banho nas torrenciais goteiras a se precipitarem dos telhados das casas.
Divertíamo-nos a valer nos períodos em que apareciam na vila circos, parques de diversão e touradas, normalmente mambembes, mas sempre com novidades e atrações “sensacionais”, como anunciava pelas ruas o palhaço. Os moleques que o acompanhavam durante a propaganda ambulante, para responder a suas frases, ganhavam um carimbo no braço, garantia de entrada gratuita “no grande espetáculo da noite”, desde que, no banho, se preservasse a marca aplicada com tinta.
- Hoje tem espetáculo?
- Tem, sim, senhor!
- Lá na rua do buraco?
- Tem, sim, senhor!
- Hoje tem marmelada?
- Tem, sim, senhor!
- Hoje tem goiabada?
- Tem, sim, senhor!
- E o palhaço o que é?
- É ladrão de mulher!
- Oi, raia o sol, suspende a lua!
- Olha o palhaço no meio da rua!

E ia aquele bando de moleques saltitantes, quase sempre das famílias mais pobres, atrás do artista mais importante da companhia, com o canto responsório como garantia da entrada franca.
O Gran Circo Pan-americano, por exemplo, era uma das coisas mais bonitas que eu até então vira. Cheio de cores, de artistas, de atrações supostamente “internacionais”, como uma “vinda diretamente da Rússia” e um eletrizante, barulhento e enfumaçado globo da morte. Era coisa de muito prestígio para a vila receber circo tão importante assim!
Mas, dentre tudo isso, lembro-me, principalmente, de uma época em que a chuva caiu ininterrupta durante dias, e não tivemos oportunidade para sair de casa. Em minha memória isto deve ter durado mais de uma semana, ao cabo da qual cessa a chuva. E sai, tímido, meio envergonhado, por entre as últimas nuvens daquela temporada, o sol fraco de fim de tarde. Primeiro, iluminou a parede branca da capela de Santo Antônio. Aquilo foi como um sinal, um chamariz. E um bando de meninos saímos atrás do sol. E ficamos pulando junto à parede, na tentativa de pegar sua luz com a mão. Tão logo ele baixou ainda mais, restou apenas no morro da escola a sua luz já amarelada. E, como andorinhas em revoada, corremos morro acima atrás do sol, numa algazarra que lembrava em muito esses pássaros singelos que alegram com seu voo coreografado as tardes despreocupadas das vilazinhas perdidas no interior do Brasil.
E, por tudo isso, eu era feliz na minha pequenina Carabuçu, para copiar pela última vez Ataulfo. E já naquela época desconfiava bastante!


Foto por Vassalerie*, em fond-ecran-image.com.
(Agradeço à fotógrafa Christine Vassalerie a autorização para o uso da imagem acima. Merci, Christine!)

4 comentários:

  1. Vivi de verdade até os 16 anos. Daí pra cá tem sido tentativas de não ser infeliz.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Lindo o texto, Saint-Clair! Clap!Clap!Clap!Clap!

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