26 de fevereiro de 2012

PARODIANDO DRUMMOND

Talvez Carlos Drummond de Andrade seja o meu poeta favorito. Certamente foi o que eu mais estudei no Curso de Letras.  É dos maiores, mais competentes na arte. Há muitos outros aí. Até mesmo desconhecidos. Mas ele é o cara!



Autocaricatura de Drummond (ufscar.br)

Inclusive, certa ocasião – final dos 70, princípio dos 80 –, passei por ele na Rua São José, em frente ao Edifício Menezes Cortes, e não quis perder a oportunidade:
- Boa tarde, poeta! – disse-lhe eu, todo me querendo.

Com um amarelo sorriso de mineiro desconfiado, respondeu:
- Boa tarde!

E passamos um pelo outro. (Este é um dos troféus que tenho na vida: falei com Drummond!)
O meio acadêmico, às vezes, escolhe um para seu panteão de culto e dedica esforços para deslindar o fazer poético daquele autor, desvendar-lhe os mistérios, perseguir seu caminho literário.

Se hoje, por exemplo, temos Cruz e Souza entre nossos poetas mais fulgurantes, isto foi obra de outro poeta, Manuel Bandeira, que o “redescobriu” quase um século após a morte do nosso maior simbolista.
Literato é assim mesmo. Lança sua obra, com pretensão ou não, não sabe o que vai dar e, então, pode tornar-se um clássico. E cai no gosto.

E sua obra? Ora, tendo sido publicada, cai em terra de ninguém.
Com frequência, aparecem uns engraçadinhos que dela se apropriam, por vezes descaradamente, com certo compositor brasileiro muito amado, que se apropriou de um poema de um poeta irlandês, publicado no número um da HQ Hulk, cujos editores também já se haviam apropriado do dito poema.

Outros, com bem mais frequência, fazem gracinhas, paródias, aproveitando-se do prestígio do poeta consagrado ou da visibilidade de determinado texto, para dele tirar proveito.
Quando eu era criança, minha mãe, que sempre gostou de poesia e tem até um livro publicado, declamava para mim a versão original de um soneto muito conhecido e sua paródia. O original, de Alceu Wamosy (1895-1923), era o famoso soneto Duas almas: “Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada, / Entra, e sob este teto encontrarás carinho:...”

Foi exatamente isto que fiz com Drummond, talvez o meu poeta favorito. Tomei um de seus textos mais conhecidos, com uma estrutura métrica e melódica tradicional, de uma singeleza ímpar, e fiz uma paródia terrível, sem a mínima arte.
Mas o que fazer? Publicou, virou terra de quase ninguém, como disse.

Aí vão os dois: o poema-arte de Carlos Drummond de Andrade e a minha arte do poema dele.
Permitam-me um riso sacana: hehehehe!

MEMÓRIA

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

DESMEMÓRIA (Parodiando Drummond)
 
Amar o obeso
Traz mais sobrepeso
Para teu colchão.
 
Nada pode o ouvido
Contra o estampido
De imenso canhão.
 
As balas perdidas
Muito distraídas
Te acertarão.
 
Mas as flores lindas
Restarão ainda
Sobre teu caixão.


Desculpe, leitor! Perdão, Drummond!

2 comentários:

  1. Drummond teria gostado. Pareceu-me sempre um sujeito bem humorado.

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  2. É verdade, Paulo Laurindo. Um homem que faz caricatura de si mesmo só pode ser bem humorado.

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