30 de julho de 2011

A CIGARRA E A FORMIGA

A cigarra e a formiga é um dos contos infantis que encheram minha meninice de exemplos.
Lembro-me de que ficava com muita pena da cigarra, porém tinha a atenção sempre chamada para o exemplo de trabalho e previdência da formiga.
Aprendi, talvez por isso e pelas necessidades normais de menino pobre do interior, a trabalhar desde cedo. Mas não aprendi a ser previdente. Está, por acaso aí, a parte cigarra da minha superficial psicologia, que felizmente tem sobrevivido todos esses anos sem ajuda externa de especialistas e drogas milagrosas. É que a profundidade das minhas águas não atinge marcas irrespiráveis.
Penso mesmo que este componente se tenha fixado em mim um pouco depois, ao conhecer o poema de Mário Pederneiras, poeta brasileiro dos séculos XIX/XX, no meu livro de leituras do antigo curso ginasial. Embora tenha o mesmo título da fábula famosa e conte, em versos, a mesmíssima história, porém com boa dose de ironia e visão crítica, ao final, para coroar o desfecho, o poeta diz em seu belo poema: "Por isso, é que eu não gosto da Formiga".
 Tão logo terminei a leitura, bateu-me a certeza de que tinha acabado de encontrar alguém que, em sendo poeta de certo nome, pensava exatamente como eu, jovem simplório do interior: à formiga faltou o mais comezinho e importante dos sentimentos, que é a solidariedade.
A cigarra é inconsequente, imprevidente, porra-louca, como se dizia na minha juventude? Sem dúvida que era!
Contudo, à formiga, trabalhadeira, previdente, ciosa de suas obrigações, faltou o mínimo, faltou o básico: a solidariedade. E isto é grave. Aliás, é gravíssimo!
A solidariedade é a qualidade básica que nos faz humanos. O que, mesmo não sendo exclusividade nossa, visto poder ser observada em outros animais, é, por isto mesmo, o parâmetro da espécie humana. Os animais a exercem por instinto; nós, por uma escolha consciente. Aí está a diferença!
O conto e o poema, ao humanizar cigarra e formiga, nelas incorporam esses comportamentos, fazendo com que os bichos nos sirvam, então, de modelos, ou, antes, nos representem de forma alegórica.
Aliás, esta é, basicamente, a função das fábulas e histórias infantis: por meio de metáforas alegóricas, com a utilização de animais humanizados como personagens, tentar repassar exemplos de comportamentos éticos para o convívio entre os nós.
Não sei bem se isso tem funcionado ao longo do tempo, mas elas estão aí até hoje. E talvez até seja melhor acreditar nisso.
Aí abaixo vocês têm a integra do poema de Mário Pederneiras.
Imagem em oficinadaalegria.org.
A CIGARRA E A FORMIGA
Dona Formiga
Pertence à classe das senhoras sérias,
Tem cuidado da casa e do alimento;
Não fala muito, muito pouco briga,
Tudo o que faz é com discernimento
E, enfim, não gosta de passar misérias.

Além de tudo, é de ambições modestas,
Todo o seu bem, no seu labor converte
E faz da vida ideias esquisitas…
Não faz visitas
E não se diverte…
Nunca se viu Dona Formiga, em festas.

De tanto se ocupar da vida e do futuro
E tornar o labor mais sério e duro,
Chega a ficar grotesca e cômica;
Pois, mesmo assim, nos amplos e massudos
Livros morais, de exemplos e de estudos,
Com que, da infância, o estímulo se apura,
Ela figura
Como um sólido exemplo de econômica.

Trabalha muito no pesado Estio,
Porque receia
Que o Inverno venha achá-la desprovida.
Por isso, quando chega o Frio
E cessa a lida,
Já ela está com a dispensa cheia.

Dona Cigarra - esta, coitada!
Não vale nada
Entre as pessoas sérias!
É a pobre infeliz que dá lições de canto
E que o Verão inunda
Da sua Alma de estroina e vagabunda…
Entretanto,
Dona Cigarra, eu sei, passa misérias.

É da boêmia a mais perfeita imagem,
Adora a luz e mora na folhagem…
E tal a vida é e tal a aceita,
Sempre de sonhos e ilusões repleta…
Dona Cigarra até parece feita
Da própria massa de que é feito o Poeta!

Passa o Verão… E o véu do Estio,
O tempo, sobre o Céu e a Terra corre;
Torna-se a Vida mais penosa e séria…
Dona Cigarra não resiste ao frio
E, coitadinha, morre
E morre, quase sempre, na miséria.

Contam, que um dia,
Morta, do Sol, a límpida alegria,
Sem luz para cantar,
Como fizera no Verão inteiro,
Fora à Formiga, em prantos, implorar
Um pedaço de pão do seu celeiro…

Como a Formiga, então lhe perguntasse
Onde se achava
E o que fizera na estação passada,
Honestamente, disse que cantava…
Pois a malvada,
Sem dó da mísera mendiga,
Quase morta de fome e já sem voz,
Numa ironia desumana e atroz,
Mandou que ela dançasse…

Por isso, é que eu não gosto da Formiga.

(Mário Pederneiras, in
Ao léu do sonho e à mercê da vida, 1912)

Um comentário:

  1. Você tem razão, Saint-Clair: não existe beleza nos extremos.

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