20 de fevereiro de 2011

ZÉ INCORPORADO


resolveu entrar para a macumba, a fim de dar sossego a sua alma irrequieta e ao seu procedimento um tanto espaventoso. Ele mesmo não se entendia muito bem e precisava de explicações mais consistentes para o que sentia. Nunca dera muita importância às coisas espirituais, mas andou assuntando pessoas e se encaminhou para a convivência com caboclos e orixás, com despachos e incorporações.
Estava no começo da idade adulta e, assim que fez a iniciação, sob a orientação firme do pai de santo, passou a receber o caboclo Zé Pelintra das Ruas, tido e havido como um malandro de marca maior, capaz das piores armações. Porém não se sentiu confortável.
Tal espírito não se encaixava com o seu. Não havia química, como ele dizia. Zé não estava muito bem sintonizado com o tal caboclo, porque o sentia um pouco distante do seu modo de estar no mundo. Não via afinidade entre cavalo e espírito. E aquilo o incomodava. Em conversas com o chefe do terreiro, foi aconselhado a emprestar seu corpo para outra entidade. “Vamos tentar outra coisa”, disse-lhe o pai de santo. Num trabalho especial, pegando um desvio, desceu-lhe com todas as honras a Maria Padilha, afamada como espírito de comportamento libertino, uma vez que, em vida, tinha sido prostituta ou coisa que o valha.
Na primeira incorporação, Zé saiu pelas ruas do bairro de saia curta e blusa vermelha decotada, todo empoado, abastecido de batom carmim, jeito rebolativo e ar dadivoso. Não bateu no bico! Alguns rapazes, que conversavam amistosamente perto da igreja, ao verem a figura surgir oferecida e sensual, arrastaram-no para trás de uma moita próxima e se serviram dele, conforme os estatutos das libidinagens entre iguais.
chegou a casa nervoso, agitado, estropiado, xingando e reclamando com a mãe:
- Mãe, comeram o meu cavalo. Abusaram do meu cavalo, mãe!
A mãe, crente e preocupada, tentou acalmá-lo, mostrando-lhe os perigos da incorporação dessa mal falada Maria Padilha de tantos desabonos. Tomasse cuidado o filho! Tivesse juízo!
E não é que, na sexta-feira seguinte, a dita entidade se apoderou do pobre Zé, que, travestido como uma quenga, sofreu novo abusamento daqueles mesmos infiéis?
Outra vez em casa, novamente reclamou com a mãe:
- Mãe, comeram o meu cavalo. Abusaram do meu cavalo, mãe!
E assim se deu por várias sextas-feiras seguintes, dos meses seguintes.
Imagem em meninasara.blogs.sapo.pt.
Hoje, Zé tem banca montada de pederastia, no varejo e no atacado, atividade que exerce com todo gosto e desenvoltura, agradecido por ter sido auxiliado por Maria Padilha a sair do armário e assumir. E, até hoje, atribui ao Além seu comportamento libertino e dadivoso.
tanta gente dissimulada no mundo!


(Quaisquer semelhanças com pessoas mortas ou vivas, assim ou assado, será mera coincidência, ou denuncio quem me contou a história.)

3 comentários:

  1. Tive que rir.
    Muito bom texto
    Um bj querido amigo

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  2. Ai...ai...ri mais que com o vexame do Flor ontem. Muito bom!

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