30 de abril de 2012

TIPO ASSIM, NUMA BOA!

Tipo assim: ela não entrou no salão de beleza, ela invadiu comunidade. E chegou pagando geral:
- Aí, quem é a periguete que tá dando mole pro meu homem?
O salão fica na parte baixa da favela, na rua de acesso, próximo ao posto policial. É razoavelmente grande, com cinco cadeiras que trabalham quase sem parar, sobretudo quando há baile funk na quadra da AMAVO - Associação dos Moradores e Amigos da Vila Operária. Numa dessas cadeiras, quem dá as cartas, ou melhor, as tesouras e pentes, é Katiene.
Para descrever a pessoa de Katiene seria necessária uma câmara digital, com grande angular, cheia de pixels, gravação de vídeo, porque ela é uma mulata quase criminosa de tão bonita. Basta dizer que o último lambe-lambe que tentou fazer uma foto do seu corpo inteiro teve a placa de sua máquina definitivamente queimada, motivo que o fez abandonar a profissão em caráter irrevogável. Ela é do tipo de mulher que se garante. De pé, é quase um monumento. E, quando põe o biquíni para tomar banho de sol na laje, é um tal de neguinho soltar pipa, que é uma festa.
Por isso é que não se fez de rogada e, tilintando a tesoura entre os dedos, disse com todas as letras:
- Sou eu mesma, Katiene Conceição da Silva! Por quê? Tá pegando alguma coisa, meu bem?
Marcilene - esse é o nome da invasora - também não é de se jogar fora. Subida no seu salto plataforma, palmeava com a outra em tamanho e não perdia no quesito harmonia e adereços. A seu favor, naquele momento, o fato de ser considerada a oficial de Cleisson, mulato dobrado, cabeça raspada a máquina com desenhos refeitos a cada semana, alguns piercings espalhados pelo rosto, de atividade suspeita, já que oficialmente nada faz, mas está sempre montado na grana, a beca impecável, correntão de ouro a aparecer na abertura da camisa, pisante maneiro.
A rede de informantes do morro o avisara há tempo, de modo que ele chegou logo atrás de Marcilene, encontrando as duas de frente uma para outra, em atitude francamente hostil, já com os primeiros paus do barraco a ser montado ali mesmo.
A dona do salão, no entanto, adiantou-se ao conflito e ordenou que eles fossem resolver suas diferenças na rua, porque ali era local de trabalho e ela não iria admitir furdunço em seu estabelecimento.
Cleisson puxou Marcilene pelo braço, com a força necessária para mostrar quem comandava a situação, levou-a para fora e convocou Katiene para a reunião de aparar diferenças.
E quem começou falando foi justamente ele, assumindo a culpa, admitindo que ciscava fora do terreiro, que gostava das duas, que tinha condições de dar boa vida para ambas, que elas deveriam considerar essa hipótese, que seus planos no trampo eram ambiciosos, que em pouco tempo estaria por cima da carne-seca, que ele não era mané, que não ia tolerar ver nenhuma das duas com outros, que o melhor caminho era elas se entenderem e que, se tivessem juízo, aceitariam a proposta, “tipo assim” – nas palavras dele: é pegar ou largar.
E enlaçou as duas pela cintura, puxou-as contra si, deu-lhes um cheiro no cangote perfumado, que as deixou arrepiadas e boquiabertas - duas mulatas monumentais diante de um dilema crucial.
Katiene sorriu suavemente, superiora. Marcilene fechou a cara, contrariada.
- Vou deixar as duas conversando, se entendendo, acertando os ponteiros. Não quero saber de barraco. Vou subir para a birosca do Ceará, tomar uma cerva, Espero só duas garrafas pela resposta. Ou é a minha proposta, ou será melhor mudar de comunidade, falou? Aê, mulher não falta na cidade!
As cervejas estavam geladas e se fizeram acompanhar de uns belisquetes. Ceará notou o jeito de preocupação de Cleisson, mas não disse nada. Não havia por que se meter com um cara tipo ele, nem para saber como passara a noite anterior. E deixou para lá.
O próximo baile funk na AMAVO foi patrocinado por ele, com entrada franca para a comunidade. E aproveitou para comunicar a todos que ninguém se metesse a engraçadinho com Katiene e Marcilene, suas protegidas desde a última quinta-feira.
E todos entenderam, tipo assim, numa boa!

Lourival Viegas, Favela (em br.artmajeur.com).

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