17 de abril de 2012

VOU COMPRAR UMA MIRONGA NA PADARIA DO CHICO FURTADO

(Para Ivo, Chiquinho e Roque, filhos de seu Chico e dona Mocinha, mestres padeiros até hoje em Bom Jesus do Itabapoana.)

Lá pelos anos cinquenta do século passado, Chico Furtado tinha uma padaria que recendia a pão duas vezes por dia, na vila. A primeira, logo cedinho, para o café da manhã. E a segunda, por volta das duas horas da tarde, para aquilo que chamávamos de café do meio-dia, que era tomado, na verdade, por volta das quatro horas. Mas valia a expressão e todos a empregávamos.
- Venham tomar o café do meio-dia, crianças! – dizia mamãe, por exemplo.
A casa em que morávamos eu e minha família ficava na esquina das ruas Coronel Alfredo Portugal, avô dos meus amigos Paulo e Élber, e Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo, o Papai Antonico, meu bisavô. Eles viraram nomes de rua ainda em vida.
A padaria ficava logo do outro lado, na diagonal, na Rua Coronel Alfredo Portugal, colada ao único prédio de dois andares – e com marquise! –, que pertencia ao meu tio-avô Nalim. Na época, ele mandou colocar na parede externa um acabamento de malacacheta esverdeada, que era a última moda (pelo menos lá para nós).
Por essa proximidade, não era difícil sentir o aroma do pão quentinho que se espalhava nas imediações. Confesso que só me lembro do cheirinho vespertino, pois no primeiro eu ainda estava dormindo.
Além dos pães de sal – na vila eles não eram chamados de pães franceses, nome sofisticado que só fui descobrir em Niterói – dessas duas fornadas, brotavam lá de dentro roscas de vários tipos e alguns pães doces de nomes engraçados: pão tatu, pão cangalha, pão sovado e pão doce, simplesmente, com aquele açúcar cristal granulado sobre uma crosta morena untada de manteiga e outro com estrias de creme desenhadas e saborosamente úmido.
E também nasciam bom-bocados, mirongas, rabanadas, marons, cocadas, beijinhos de coco e sonhos, todos eles feitos por dona Mocinha, esposa de seu Chico.
Eu gostava de tudo, e só não me empanturrava com esses doces, porque o dinheiro era regrado, difícil de ganhar.
Meu pai tinha uma pequena venda de secos e molhados, na parte da frente da casa, que sustentava a família de então quatro filhos – além de mim, Guth, Elisa e Cristina –, com os apertos naturais para a ocasião. Às vezes, para reforçar o almoço ou o jantar, ele ia pescar nos valões e rios próximos à vila, de onde sempre trazia algum peixe. Meu pai era um exímio pescador.
Contudo, sempre que possível, ele me dava uma moeda de cruzeiro, o velho dinheiro criado durante do governo Getúlio Vargas, para que eu fosse até a padaria de seu Chico Furtado comprar alguma guloseima. E, embora gostasse de tudo, como disse, no bit de minha memória de menino ficou guardado, com um jeitinho mais forte de interior, o sabor da mironga de dona Mocinha.
A mironga, para os que não sabem, é uma espécie de pudim de pão, um pouco menos doce, sem calda, e era feita com o aproveitamento dos pães dormidos da padaria. Uma forma de não se desperdiçar alimento.
Embebiam-se os pães em leite e, assim que ficavam molinhos, eles eram desfeitos à mão. Grosseiramente desfeitos. A seguir misturavam-se ovos, açúcar e manteiga, e punham-se cravo da índia e uns pauzinhos de canela para apurar o sabor, receita que até hoje minha mãe também faz. A massa era deitada em uma forma untada e levada ao forno.
Tão logo estivesse assado, o conteúdo do tabuleiro era cortado em fatias quadradas, com a altura de dois dedos de menino, as quais se exibiam na vitrine do balcão.
Não duravam muito ali aquelas fatias de infância. Como, aliás, a própria infância não dura muito no tempo, senão na nossa memória empedernida de bicho do mato.
Imagem em padarialeticia.com.br.

Um comentário:

  1. Tal qual na padaria de d. Dulce, lá em Calçado. Mas uma correção, nós não dizíamos pão sovado, mas salvado!

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