7 de novembro de 2011

AS COCHEIRAS DA MINHA VILA

Havia na minha vila natal, até princípios da década de sessenta do século passado, três cocheiras. E, na minha ingênua visão de menino, isto me parecia sinal muito forte de pujança econômica.

A vila tinha lá seu movimento aumentado aos sábados, quando vários moradores das roças nos arredores para ela se dirigiam, no intuito de reforçar as provisões da semana entrante, quando também aproveitavam para encontrar os amigos, tomar umas calibrinas, jogar carteado, cisprandi e sinuca e desfrutar, enfim, um pouquinho daquilo que a vida simples do interior podia proporcionar àquela altura.
E vinham quase todos em seus animais de sela – cavalos, éguas, burros e mulas – que eram deixados aos cuidados dos cocheiros. É bem verdade que alguns cavaleiros de menores posses deixavam seus animais amarrados em algum lugar das ruas.
Quem vinha do lado da Vala e do Jacó encontrava a cocheira do Juca Teixeira, na Coréia, uma espécie de bairro da vila que ficava após o morro do cemitério. Juca Teixeira, na ocasião o mais velho deles, era um homem alegre, brincalhão, mas que me passava uma seriedade danada em seu trabalho.
Os cavaleiros que demandavam a vila vindo dos lados da Fazenda da Liberdade tinham, logo no sopé do morro do grupo escolar, em frente a uma singela serraria localizada sob frondoso pau-d’alho, a cocheira do Jair Passarelo. Jair era um tipo divertido, que vivia às gargalhadas, falava alto e gostava de contar causos.

Já os que chegavam dos lados da propriedade do João Monteiro ou da fazenda do doutor César Ferola, no além do valão Liberdade, encontravam mais à mão a cocheira do Memeco, vizinha da oficina de ferreiro de Jeremias. Memeco era pai de colegas meus de sala de aula, Ademir e Alcenir, e dele tinha as informações de ser um homem rude, mal-humorado, de poucas falas, e violento com os filhos, que constantemente reclamavam comigo das surras que levavam.
Todas as cocheiras se equivaliam em tamanho. Talvez a do Juca Teixeira fosse um pouco menor, coisa mínima. Mas todos os cocheiros tinham seus bigodões fartos a fazer comichão no nariz. Na época, no entanto, este era um apetrecho bem comum em riba da boca dos homens.

Ferrando cavalo, foto de Geraldo Adami (olhares.uol.com.br).

Em qualquer delas, que funcionava como hoje funcionam as garagens para os automóveis, os animais eram deixados para comer e descansar da viagem; e, aliviados de seus arreios, passavam por um tratamento carinhoso daqueles profissionais. Fosse verão, eram lavados e, depois de secos, escovados. Mais de uma vez, admirando o trabalho de um e outro, tinha quase a certeza de que os animais gostavam muito de quando os cocheiros passavam em seus pelos uma escova feita de lata e cheia de dentes miúdos, que a mim, porém, parecia instrumento de tortura. No entanto, lembro-me ainda, meu tio Aurélio Azevedo, que sempre deixava sua mula aos cuidados de um ou de outro, certa vez me garantiu que aquilo só fazia cosquinhas no lombo do animal.

Além disso, eles revisavam as ferraduras e, caso o animal apresentasse algum problema, providenciavam sua solução, como aparar e curar o casco, repor ferraduras, ou tratar de alguma ferida produzida pelo arreio, ou ainda simplesmente tosar a crina, como se fosse num salão de barbeiro.

Pelo menos Juca Teixeira tinha habilidades na confecção de selas e arreios, produzidos artesanalmente, e passou a seu filho Nilo a aptidão que este transformou em arte. Os arreios do Nilo são peças de fino lavor e muito bom gosto, que devem ser encomendados com antecedência, tal a quantidade de pedidos. À época, Nilo era um menino um pouco mais velho do que eu.
Uma coisa que sempre chamou minha atenção foi a limpeza do chão das cocheiras. Era difícil ver excrementos amontoados. Tão logo o bicho acabasse de defecar, o cocheiro providenciava a limpeza do chão, de modo que o ambiente sempre estava asseado, apenas com o cheiro característico que esses animais têm e que, de modo algum, repugna.
Embora eu mesmo nunca tenha tido habilidades de cavaleiro, pois jamais aprendi a dominar o animal como fazem alguns – meu tio Alcebíades Souza, por exemplo, hoje com seus noventa e sete anos, é detentor de vários troféus de montaria –, sempre admirei esses animais* que estão entre os mais importantes no desenvolvimento da civilização humana. Foi com a sua doma que o homem, na mais remota história, passou da condição de sedentário à de conquistador de novos espaços. Estão aí o macedônio Alexandre, o Grande, o romano Júlio César, o visigodo Alarico, o huno Átila, o curdo muçulmano Saladino e o mongol Gengis Khan, que não me deixam mentir.
Ainda menino, senti que as coisas estavam começando a mudar, quando tio Aurélio, homem alto e corpulento, comprou um fusquinha para deslocar-se do Jacó à Rua, como chamávamos a vila, e as ondas do rádio começaram a encher o pacato ar de Liberdade com os acordes furiosos do rock‘n’roll. Ambos sobravam naqueles espaços acanhados: meu tio e o rock.
Os cavalos e os cavaleiros estavam com seus dias de glória ameaçados. Hoje quase só se anda a cavalo por ostentação. Os velhos pangarés de lida perderam o prestígio.
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(*Se quiserem, leiam o poema Velhos cavalos, que postei em Gritos & Bochichos, em http://wp.me/p1oCVU-2K )

3 comentários:

  1. Olá, sua nova seguidora a te visitar*)
    adoro esses causos e cavalos também são uma paixão...já montei, mas tive medo, admiro quem sabe domá-los.São bonitos!
    Abraços alvinegros, já o vi lá no Zantônio.
    Moro no Rio de Janeiro, pertinho.
    Mery*

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  2. Olá, Mery! Somos vizinhos e sofredores!

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  3. Meu irmão Guth Mello mandou via e-mail:
    Saint-Clair,

    aida não aprendi postar comentários no blog (é o próximo passo) mas, sem comentar, me posto maravilhado ante "as cocheiras...".

    Bjs, Guth.

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